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O Gigante Adamastor
37 Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamente os ventosassoprando,
Quando huã noite,estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Huã nuvemque os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.
“cincoSóis” (elipse,omissãode determinados
acontecimentosnum certo tempo).
“cortando” (adjetivação expressiva)
“Prosperamente osventosassoprando,” (anástrofe,
inversãoda ordemnatural dos elementosdafrase))
38 Tão temerosavinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
- «Ó Potestade (disse) sublimada:
Que ameaço divinoou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?»
“temerosavinha e carregada” (adjetivação expressiva
“negromar” (adjetivaçãoanteposta)
“Bramindo,o negromar de longe brada," (sensação
auditiva, onomatopeia)
“Bramindo,o negromar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.” (comparação
e aliteração em“r” e dos sons fechadose nasais, que
sugeremo ruído do mar)
“Ó Potestade” (apóstrofe)
39 Não acabava, quando huã figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados,e a postura
Medonhae má e a cor terrena e pálida;
Cheiosde terra e crespos os cabelos,
A boca negra,os dentesamarelos.
“robusta e válida”,“disforme e grandíssima”,
“Medonhae má” e “terrenae pálida” (dupla
adjetivação)
“rosto carregado” (adjetivaçãoanteposta)
40 «Tão grande era de membros que bem
posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimoColosso,
Que um dos sete milagresfoi do mundo.
Cum tom de voz nos fala,horrendo e grosso,
Que pareceusair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-loe vê-lo!
“Tão grande era de membrosque bemposso
... Colosso” (hipérbole)
“este era o segundo
De Rodes estranhíssimoColosso” (hipérbato,
alteração da ordemhabitual das palavras na frase)
“Que um dos sete milagresfoi do mundo.”
(anástrofe)
“horrendoe grosso” (duplaadjetivação)
“Cumtom de voz nos fala, horrendoe grosso
Que pareceusair do mar profundo.” (comparação)
“Arrepiam-se ascarnes e o cabelo,” (hipérbole)
41 E disse:- «Ó gente ousada, mais que
quantas
No mundo cometeramgrandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Poisos vedadostérminosquebrantas
E navegar meuslongosmares ousas,
Que eutanto tempohá já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho:
“E navegar meuslongos mares ousas,
Que eutanto tempohá já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho:”
(metáfora)
“Ó gente ousada” (apóstrofe)
42 Pois vensver os segredosescondidos
Da natureza e do húmidoelemento,
A nenhumgrande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejoatrevimento,
Por todo o largo mar e pola terra
Que inda hás-de sojugar com dura guerra.
“Ouve os danos de mi que apercebidos”
(eufemismo)
“Da natureza e do húmidoelemento,” (metonímia,
toma parte de uma realidade por outra realidade)
“Ouve” (funçãoapelativa)
“pola”,“inda” e “sojugar” (arcaísmos)
43 Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes,fizerem,de atrevidas,
Inimigaterão estaparagem,
Com ventose tormentas desmedidas;
E da primeiraarmada que passagem
Fizerpor estas ondas insofridas,
Eu farei de improvisotal castigo
Que sejamor o dano que o perigo!
“mor” (arcaísmo)
44 Aqui esperotomar, se não me engano,
De quemme descobriusuma vingança;
E não se acabará só nisto o dano
De vossa pertinace confiança:
Antes,em vossas naus vereis,cada ano,
Se é verdade o que meu juízoalcança,
Naufrágios,perdiçõesde toda sorte ,
Que o menormal de todos seja a morte!
“pertinace” (arcaísmo)
45 E do primeiroIlustre,que a ventura
Com fama alta fizertocar os Céus,
Serei eternae nova sepultura,
Por juízosincógnitosde Deus.
Aqui porá da Turca armada dura
Os soberbose prósperostroféus;
Comigode seusdanos o ameaça
A destruída Quíloacom Mombaça.
“Comfama alta fizertocar os Céus,” (hipérbole)
“Ossoberbos e prósperos troféus;” (dupla
adjetivação)
“Serei eternae nova sepultura” (metáfora)
46 Outro também virá, de honrada fama,
Liberal,cavaleiro, enamorado,
E consigo trará a fermosadama
Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
Triste ventura e negro fado os chama
Neste terrenomeu,que, duro e irado,
Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Pera veremtrabalhos excessivos.
“honrada fama” e “fermosadama” (adjetivação
anteposta)
“honrada fama,
Liberal,cavaleiro, enamorado” (enumeração)
“fermosa” (arcaísmo)
“duro e irado” (duplaadjetivação)
47 Verão morrer com fome os filhoscaros,
Em tanto amor gèradose nacidos;
Verão os Cafres,ásperos e avaros,
Tirar à linda dama seusvestidos;
Os cristalinosmembros e perclaros
À calma , ao frio, ao ar, verão despidos,
Depoisde ter pisada, longamente,
Cos delicadospésa areia ardente.
“ásperose avaros” (duplaadjetivação)
“gèradose nacidos”,“perclaros” e “Cos”
(arcaísmos)
48 E verão mais os olhosque escaparem
De tanto mal, de tanta desventura,
Os dous amantes míserosficarem
Na férvida,implacabil espessura.
Ali,depoisque as pedras abrandarem
Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
Abraçados, as almas soltarão
Da fermosae misérrimaprisão.»
“Implacabil” e “fermosa” (arcaísmo)
“férvida,implacabil” (duplaadjetivação)
“férvida,implacabil espessura” (significafloresta)
“pedrasabrandarem” (personificação)
“Abraçados, as almas soltarão
Da fermosae misérrimaprisão.” (eufemismopara
“morte”)
“E verão mais os olhosque escaparem
De tanto mal, de tanta desventura,” (sinédoque e
perífrase,sobreviventesdonaufrágio)
49 Mais ia por diante o monstro horrendo,
Dizendonossos Fados,quando, alçado,
Lhe disse eu:- «Quem éstu? Que esse
estupendo
Corpo, certo me tem maravilhado!»
A boca e os olhos negrosretorcendo
E dando um espantosoe grande brado,
Me respondeu,comvoz pesada e amara,
Como quemda perguntalhe pesara:
“espantosoe grande brado”(adjetivação
anteposta)
“pesadae amara” e “espantosoe grande” (dupla
adjetivação)
“com voz pesadae amara,
Como quemda perguntalhe pesara” (comparação)
50 «Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu,Pompónio,Estrabo,
Plínioe quantos passaram fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meununca vistoPromontório,
Que pera o PóloAntártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.
“pera” (arcaísmo)
“Ptolomeu,Pompónio,Estrabo,
Plínio” (enumeração)
51Fui dos filhosaspérrimos da Terra,
Qual Encélado,Egeu e o Centimano;
Chamei-me Adamastor,e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano;
Não que pusesse serrasobre serra,
Mas, conquistandoas ondas do Oceano,
Fui capitão do mar, por onde andava
A armada de Neptuno,que eu buscava.
“Contra o que vibra os raios de Vulcano” (perífrase
- Júpiter)
52 Amores da alta esposade Peleu
Me fizeramtomar tamanha empresa;
Todas as Deusas desprezei doCéu,
Só por amar das águas a Princesa.
Um dia a vi, co as filhasde Nereu,
Sair nua na praia e logo presa
A vontade senti de tal maneira
Que inda não sinto cousa que mais queira.
“da alta esposa de Peleu” (perífrase- Tétis)
“cousa” (arcaísmo)
53 Como fosse impossibil alcançá-la,
Pola grandeza feiade meugesto,
Determinei porarmas de tomá-la
E a Dóris este caso manifesto.
De medoa Deusa então por mi lhe fala;
Mas ela, cum fermosoriso honesto,
Respondeu:- «Qual será o amor bastante
De Ninfa,que sustente odum Gigante?
“Impossibil”, “Pola”,“cum” e “fermoso”
(arcaísmo)
54 Contudo, por livrarmos o Oceano
De tanta guerra, eubuscarei maneira
Com que,com minha honra, escuse o dano.»
Tal resposta me torna a mensageira.
Eu, que cair não pude neste engano
(Que é grande dos amantes a cegueira),
Encheram-me,com grandes abondanças,
O peitode desejose esperanças.
“por” e “abondanças” (arcaísmos)
“desejose esperanças” (duplaadjetivação)
55 Já néscio,já da guerra desistindo,
Huã noite,de Dóris prometida,
Me aparece de longe o gesto lindo
Da branca Tétis,única, despida.
Como doudo corri de longe,abrindo
Os braços pera aquelaque era vida
Deste corpo, e começo os olhosbelos
A lhe beijar, as faces e os cabelos.
“Já néscio,já da guerra desistindo” (anáfora,
repetiçãoda palavra “já”)
“única,despida” (adjetivação)
“doudo” e “pera” (arcaísmos)
“Deste corpo, e começo os olhos belos
A lhe beijar, as faces e os cabelos.” (hipérbato)
56 Oh que não sei de nojo como o conte!
Que,crendo ter nos braços quemamava,
Abraçado me achei cum duro monte
De áspero mato e de espessurabrava.
Estando cum penedofronte a fronte,
Que eupolo rosto angélicoapertava,
Não fiquei homem,não; mas mudo e quedo
E, junto dum penedo,outro penedo!
57 Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano,
Já que minha presençanão te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte,nuvem,sonho ou nada?
Daqui me parto, irado e quase insano
Da mágoa e da desonraali passada,
A buscar outro mundo, onde não visse
Quem de meu pranto e de meu mal se risse.
“Ó Ninfa,a mais fermosa do Oceano” (apóstrofe e
hipérbole)
“Oufosse monte, nuvem,sonho ou nada?”
(enumeraçãoe gradação)
58 Eram já neste tempo meusIrmãos
Vencidose em misériaextremapostos,
E, por mais segurar-se osDeusesvãos,
Algunsa vários montessotopostos.
E, como contra o Céu não valem mãos,
Eu, que chorando andava meusdesgostos,
Comecei a sentirdo Fado immigo,
Por meus atrevimentos,ocastigo.
59 Converte-se-me acarne em terra dura;
Em penedosos ossos se fizeram;
Estes membrosque vês,e estafigura,
Por estas longas águas se estenderam.
Enfim,minha grandíssima estatura
Neste remotoCabo converteram
Os Deuses;e, por mais dobradas mágoas,
Me anda Thetiscercando destas águas.»
60 Assim contava; e, cum medonhochoro,
Súbito de ante os olhos se apartou.
Desfez-se anuvemnegra, e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantandoas mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos, que Adamastor contou futuros.
“A Deuspedi que removesse osduros
Casos, que Adamastor contou futuros.” (hipérbato)
Divisão do episódio
1. Visão/ Avistamento do Adamastor (estrofes37 à 40)
2. Discurso do Adamastor - profeciasterríveis (estrofes41 à 48)
3. Tragédia da família Sepúlveda (estrofes 46 à 48)
4. Interpelação deVasco da Gama (estrofe 49)
5. História do Gigantecontada por ele próprio (estrofes 50-59)
6. Desaparecimento da ameaça (estrofe 60)
O Gigante Adamastor - estrofe a estrofe
37. Cinco dias depois de terem deixado a baía de Santa Helena, os Lusos viajavam por
mares “nunca de outrem navegados” como vento de feição, mas certa noite uma nuvem
escura surgiu sobrea armada.
38. Os marinheiros encheram-sede medo, o mar estava agitado e batia ferozmentecontra
os rochedos. Vasco da Gama aterrorizado pergunta-sesobreo que poderá estar a
acontecer. Todo o cenário aterrador torna a imagem do Gigante ainda mais terrível e
assustadora.
39. De repente, uma figura gigantesca surgiu no mar a uma altitude ameaçadora: um ser
disforme, tinha os olhos encovados, o rosto sério, a barba suja e maltratada, os cabelos
ásperos, crespos echeios de terra, a boca escura e os dentes amarelos.
40. Camões (através do narrador queé agora Vasco da Gama) compara-o a uma das 7
maravilhas do mundo: o Colosso de Rodes. Surgeno 4º verso a introdução da fala do
Gigante, cuja voz fazia arrepiar os cabelos e a carne dos navegantes. Este dirige-se aos
marinheiros num tom “horrendo e grosso”.
41. O Gigante começa a por elogiar os portugueses: “Ó povo audacioso (ousado), que
alcançou grandes feitos e que não descansa (têm como objetivo a glória e nunca
repousam), como ousas navegar estes mares, que eu guardo e nunca foram cortados por
qualquer outro navio?” (nunca antes ninguém se atrevera a navegar aquele mar, que há
tanto tempo ele guarda). Faz o reconhecimento do mérito.
42. Depois, pergunta-lhes se vieramdesvendar os segredos do mar que nunca nenhum
mortal conheceu e avisa-os dos perigos, das mortes e dos naufrágios quetem preparado
para castigar o seu atrevimento quer no mar, quer na terra que, com dura guerra, vierama
dominar.
43. O Gigante afirma que os navios terão aquele cabo como inimigo, com ventos fortes e
tempestades. Adverte que a primeira armada que ali passar sofrerá um castigo inesperado
e súbito, mas destruidor.
44. O Gigante afirma que sevingará do seu descobridor, Bartolomeu Dias, e que outras
embarcações portuguesas serão destruídas por ele. Adamastor anuncia as desgraças e a
perdição por toda a parte. O sofrimento seria tal que seria preferívela morte.
45. O Gigante diz que do primeiro ilustre (D. Francisco de Almeida) será eterna sepultura,
ou seja, morreu pela obra do Adamastor e eles terão o mesmo destino. Deixará os troféus
das suas vitórias sobreos turcos, aqui se vingarão dele as cidades de Quíloa e Mombaça.
46. Nesta estrofe o Gigante cita a desgraça da família de Manuel de Sousa Sepúlveda, cujo
destino será tenebroso: depois de um naufrágio sofrerão muito.
47. O Gigante diz que os filhos queridos de Manuel de Sousa Sepúlveda morrerão de fome
e sua esposa será violentada pelos habitantes da África, depois de caminhar pela areia do
deserto.
48. Os sobreviventes da desgraça verão Manuel de Sousa Sepúlveda e sua esposa (os dois
amantes) morreremos 2 juntos com grandesofrimento e “mágoa pura” (libertando a alma
do corpo).
49. Ia o “monstro horrendo” continuar a antever o destino perdido dos portugueses
quando é corajosamenteinterrompido por Vasco da Gama que lhe pergunta quem é ele,
mostrando-semaravilhado eestupefacto pela grandiosidadedeste ser. O Gigante mostra-
se surpreendido por ter sido interrompido.
50. Adamastor afirma ser o grande cabo que era apelidado do “Cabo das Tormentas”,
(tinha esse nome porquenunca ninguém até aquele momento conseguira atravessá-lo)
que nenhum geógrafo da antiguidade tinha tido conhecimento. Diz que faz parte de toda a
costa sul de África e a quem a ousadia dos portugueses ofende.
51. Adamastor era um dos Gigantes filhos do céu e da Terra, e confrontou Júpiter e
Neptuno com Encélado, Egeu e Centimano (outros gigantes).
52. Adamastor cometeu a loucura de lutar contra Neptuno por amor a Tétis, por quem
desprezou todas as Deusas. Umdia, viu-a nua na praia e apaixonou-sepor ela, e ainda hoje,
não há algo que deseje mais do que ela.
53. Como jamais conquistaria Tétis porque era muito feio, Adamastor resolveu conquistá-la
e manifestou a sua intenção a Dóris, mãe de Tétis, que ouviu da filha a seguinte resposta:
como poderia uma ninfa amar um Gigante.
54. Continua a resposta de Tétis: ela, para livrar o Oceano da guerra, tentará solucionar o
problema com dignidade e honra. O Gigante afirma que, como estava cego de amor, não
percebeu que as promessas deDóris não eram verdadeiras.
55. Uma noite, louco de amor e desistindo da guerra, apareceu-lheo lindo rosto de Tétis,
única e nua. Como louco, o Gigante correu abrindo os braços para aquela que era a vida do
seu corpo e começou a beijá-la nos olhos, na face e nos cabelos.
56. Adamastor não consegue expressar a mágoa que sentiu porque, quando pensava que
estava a beijar e abraçar Tétis, encontrou-seabraçado a um duro monte. Sem palavras e
imóvel, sentiu-secomo uma rocha diante de outra rocha. Tornou-seo Cabo das Tormentas.
57. Adamastor invocaTétis, perguntando porquêque ela, senão o amava, manteve a ilusão
de que ele iria abraça-la? Dali ele partiu quaselouco pela mágoa e pela desonra procurando
outro lugar em que não houvessequem se risseda sua tristeza.
58. Os Titãs já foramvencidos e soterrados para maior segurança dos deuses, contra quem
não é possívellutar. Adamastor anuncia, então, o seu triste destino, como contra o céu não
há defesa, começou a sentir o castigo dos seus atrevimentos.
59. A carne do gigante transformou-seem terra e os ossos em pedra, e,os seus membros e
a sua figura alongaram-sepelo mar. Os Deuses fizeram dele um Cabo para que sofresseem
dobro, tendo Tétis a banhar-senas águas próximas.
60. O gigante desapareceu humilhado e a chorar, desaparecendo também a nuvemescura
e o mar soando longínquo. Vasco da Gama ergueu os braços ao céu e pediu aos anjos que
os casos futuros contados por Adamastor não se realizassem. Com o afastamento do
Gigante, é permitida a passagemdas naus.
Valor simbólico do episódio
- geograficamente: Adamastor simboliza o cabo das Tormentas que posteriormente é
designado de cabo da Boa Esperança, depois de dobrado.
- mitologicamente: simboliza o amor insatisfeito e não correspondido, a frustração e
humilhação amorosa. Tambémé uma figura mitológica que, pela a sua ousadia foi punida
pelos deuses.
- simbolicamente: no contexto da obra d’ Os Lusíadas, Adamastor representa o maior de
todos os obstáculos, o medo do desconhecido, e as dificuldades que os portugueses
tiveram de enfrentar e vencer comcoragem e ousadia, ao longo da sua viagem “por mares
nunca dantes navegados”.
Ana Sofia Dias Gomesnº2 12ºA

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Episódio "O Gigante Adamastor" d' Os Lusíadas

  • 1. O Gigante Adamastor 37 Porém já cinco Sóis eram passados Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca de outrem navegados, Prosperamente os ventosassoprando, Quando huã noite,estando descuidados Na cortadora proa vigiando, Huã nuvemque os ares escurece, Sobre nossas cabeças aparece. “cincoSóis” (elipse,omissãode determinados acontecimentosnum certo tempo). “cortando” (adjetivação expressiva) “Prosperamente osventosassoprando,” (anástrofe, inversãoda ordemnatural dos elementosdafrase)) 38 Tão temerosavinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo; Bramindo, o negro mar de longe brada, Como se desse em vão nalgum rochedo. - «Ó Potestade (disse) sublimada: Que ameaço divinoou que segredo Este clima e este mar nos apresenta, Que mor cousa parece que tormenta?» “temerosavinha e carregada” (adjetivação expressiva “negromar” (adjetivaçãoanteposta) “Bramindo,o negromar de longe brada," (sensação auditiva, onomatopeia) “Bramindo,o negromar de longe brada, Como se desse em vão nalgum rochedo.” (comparação e aliteração em“r” e dos sons fechadose nasais, que sugeremo ruído do mar) “Ó Potestade” (apóstrofe) 39 Não acabava, quando huã figura Se nos mostra no ar, robusta e válida, De disforme e grandíssima estatura; O rosto carregado, a barba esquálida, Os olhos encovados,e a postura Medonhae má e a cor terrena e pálida; Cheiosde terra e crespos os cabelos, A boca negra,os dentesamarelos. “robusta e válida”,“disforme e grandíssima”, “Medonhae má” e “terrenae pálida” (dupla adjetivação) “rosto carregado” (adjetivaçãoanteposta)
  • 2. 40 «Tão grande era de membros que bem posso Certificar-te que este era o segundo De Rodes estranhíssimoColosso, Que um dos sete milagresfoi do mundo. Cum tom de voz nos fala,horrendo e grosso, Que pareceusair do mar profundo. Arrepiam-se as carnes e o cabelo, A mi e a todos, só de ouvi-loe vê-lo! “Tão grande era de membrosque bemposso ... Colosso” (hipérbole) “este era o segundo De Rodes estranhíssimoColosso” (hipérbato, alteração da ordemhabitual das palavras na frase) “Que um dos sete milagresfoi do mundo.” (anástrofe) “horrendoe grosso” (duplaadjetivação) “Cumtom de voz nos fala, horrendoe grosso Que pareceusair do mar profundo.” (comparação) “Arrepiam-se ascarnes e o cabelo,” (hipérbole) 41 E disse:- «Ó gente ousada, mais que quantas No mundo cometeramgrandes cousas, Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, E por trabalhos vãos nunca repousas, Poisos vedadostérminosquebrantas E navegar meuslongosmares ousas, Que eutanto tempohá já que guardo e tenho, Nunca arados de estranho ou próprio lenho: “E navegar meuslongos mares ousas, Que eutanto tempohá já que guardo e tenho, Nunca arados de estranho ou próprio lenho:” (metáfora) “Ó gente ousada” (apóstrofe) 42 Pois vensver os segredosescondidos Da natureza e do húmidoelemento, A nenhumgrande humano concedidos De nobre ou de imortal merecimento, Ouve os danos de mi que apercebidos Estão a teu sobejoatrevimento, Por todo o largo mar e pola terra Que inda hás-de sojugar com dura guerra. “Ouve os danos de mi que apercebidos” (eufemismo) “Da natureza e do húmidoelemento,” (metonímia, toma parte de uma realidade por outra realidade) “Ouve” (funçãoapelativa) “pola”,“inda” e “sojugar” (arcaísmos)
  • 3. 43 Sabe que quantas naus esta viagem Que tu fazes,fizerem,de atrevidas, Inimigaterão estaparagem, Com ventose tormentas desmedidas; E da primeiraarmada que passagem Fizerpor estas ondas insofridas, Eu farei de improvisotal castigo Que sejamor o dano que o perigo! “mor” (arcaísmo) 44 Aqui esperotomar, se não me engano, De quemme descobriusuma vingança; E não se acabará só nisto o dano De vossa pertinace confiança: Antes,em vossas naus vereis,cada ano, Se é verdade o que meu juízoalcança, Naufrágios,perdiçõesde toda sorte , Que o menormal de todos seja a morte! “pertinace” (arcaísmo) 45 E do primeiroIlustre,que a ventura Com fama alta fizertocar os Céus, Serei eternae nova sepultura, Por juízosincógnitosde Deus. Aqui porá da Turca armada dura Os soberbose prósperostroféus; Comigode seusdanos o ameaça A destruída Quíloacom Mombaça. “Comfama alta fizertocar os Céus,” (hipérbole) “Ossoberbos e prósperos troféus;” (dupla adjetivação) “Serei eternae nova sepultura” (metáfora)
  • 4. 46 Outro também virá, de honrada fama, Liberal,cavaleiro, enamorado, E consigo trará a fermosadama Que Amor por grão mercê lhe terá dado. Triste ventura e negro fado os chama Neste terrenomeu,que, duro e irado, Os deixará dum cru naufrágio vivos, Pera veremtrabalhos excessivos. “honrada fama” e “fermosadama” (adjetivação anteposta) “honrada fama, Liberal,cavaleiro, enamorado” (enumeração) “fermosa” (arcaísmo) “duro e irado” (duplaadjetivação) 47 Verão morrer com fome os filhoscaros, Em tanto amor gèradose nacidos; Verão os Cafres,ásperos e avaros, Tirar à linda dama seusvestidos; Os cristalinosmembros e perclaros À calma , ao frio, ao ar, verão despidos, Depoisde ter pisada, longamente, Cos delicadospésa areia ardente. “ásperose avaros” (duplaadjetivação) “gèradose nacidos”,“perclaros” e “Cos” (arcaísmos) 48 E verão mais os olhosque escaparem De tanto mal, de tanta desventura, Os dous amantes míserosficarem Na férvida,implacabil espessura. Ali,depoisque as pedras abrandarem Com lágrimas de dor, de mágoa pura, Abraçados, as almas soltarão Da fermosae misérrimaprisão.» “Implacabil” e “fermosa” (arcaísmo) “férvida,implacabil” (duplaadjetivação) “férvida,implacabil espessura” (significafloresta) “pedrasabrandarem” (personificação) “Abraçados, as almas soltarão Da fermosae misérrimaprisão.” (eufemismopara “morte”) “E verão mais os olhosque escaparem De tanto mal, de tanta desventura,” (sinédoque e perífrase,sobreviventesdonaufrágio)
  • 5. 49 Mais ia por diante o monstro horrendo, Dizendonossos Fados,quando, alçado, Lhe disse eu:- «Quem éstu? Que esse estupendo Corpo, certo me tem maravilhado!» A boca e os olhos negrosretorcendo E dando um espantosoe grande brado, Me respondeu,comvoz pesada e amara, Como quemda perguntalhe pesara: “espantosoe grande brado”(adjetivação anteposta) “pesadae amara” e “espantosoe grande” (dupla adjetivação) “com voz pesadae amara, Como quemda perguntalhe pesara” (comparação) 50 «Eu sou aquele oculto e grande Cabo A quem chamais vós outros Tormentório, Que nunca a Ptolomeu,Pompónio,Estrabo, Plínioe quantos passaram fui notório. Aqui toda a Africana costa acabo Neste meununca vistoPromontório, Que pera o PóloAntártico se estende, A quem vossa ousadia tanto ofende. “pera” (arcaísmo) “Ptolomeu,Pompónio,Estrabo, Plínio” (enumeração) 51Fui dos filhosaspérrimos da Terra, Qual Encélado,Egeu e o Centimano; Chamei-me Adamastor,e fui na guerra Contra o que vibra os raios de Vulcano; Não que pusesse serrasobre serra, Mas, conquistandoas ondas do Oceano, Fui capitão do mar, por onde andava A armada de Neptuno,que eu buscava. “Contra o que vibra os raios de Vulcano” (perífrase - Júpiter)
  • 6. 52 Amores da alta esposade Peleu Me fizeramtomar tamanha empresa; Todas as Deusas desprezei doCéu, Só por amar das águas a Princesa. Um dia a vi, co as filhasde Nereu, Sair nua na praia e logo presa A vontade senti de tal maneira Que inda não sinto cousa que mais queira. “da alta esposa de Peleu” (perífrase- Tétis) “cousa” (arcaísmo) 53 Como fosse impossibil alcançá-la, Pola grandeza feiade meugesto, Determinei porarmas de tomá-la E a Dóris este caso manifesto. De medoa Deusa então por mi lhe fala; Mas ela, cum fermosoriso honesto, Respondeu:- «Qual será o amor bastante De Ninfa,que sustente odum Gigante? “Impossibil”, “Pola”,“cum” e “fermoso” (arcaísmo) 54 Contudo, por livrarmos o Oceano De tanta guerra, eubuscarei maneira Com que,com minha honra, escuse o dano.» Tal resposta me torna a mensageira. Eu, que cair não pude neste engano (Que é grande dos amantes a cegueira), Encheram-me,com grandes abondanças, O peitode desejose esperanças. “por” e “abondanças” (arcaísmos) “desejose esperanças” (duplaadjetivação)
  • 7. 55 Já néscio,já da guerra desistindo, Huã noite,de Dóris prometida, Me aparece de longe o gesto lindo Da branca Tétis,única, despida. Como doudo corri de longe,abrindo Os braços pera aquelaque era vida Deste corpo, e começo os olhosbelos A lhe beijar, as faces e os cabelos. “Já néscio,já da guerra desistindo” (anáfora, repetiçãoda palavra “já”) “única,despida” (adjetivação) “doudo” e “pera” (arcaísmos) “Deste corpo, e começo os olhos belos A lhe beijar, as faces e os cabelos.” (hipérbato) 56 Oh que não sei de nojo como o conte! Que,crendo ter nos braços quemamava, Abraçado me achei cum duro monte De áspero mato e de espessurabrava. Estando cum penedofronte a fronte, Que eupolo rosto angélicoapertava, Não fiquei homem,não; mas mudo e quedo E, junto dum penedo,outro penedo! 57 Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano, Já que minha presençanão te agrada, Que te custava ter-me neste engano, Ou fosse monte,nuvem,sonho ou nada? Daqui me parto, irado e quase insano Da mágoa e da desonraali passada, A buscar outro mundo, onde não visse Quem de meu pranto e de meu mal se risse. “Ó Ninfa,a mais fermosa do Oceano” (apóstrofe e hipérbole) “Oufosse monte, nuvem,sonho ou nada?” (enumeraçãoe gradação)
  • 8. 58 Eram já neste tempo meusIrmãos Vencidose em misériaextremapostos, E, por mais segurar-se osDeusesvãos, Algunsa vários montessotopostos. E, como contra o Céu não valem mãos, Eu, que chorando andava meusdesgostos, Comecei a sentirdo Fado immigo, Por meus atrevimentos,ocastigo. 59 Converte-se-me acarne em terra dura; Em penedosos ossos se fizeram; Estes membrosque vês,e estafigura, Por estas longas águas se estenderam. Enfim,minha grandíssima estatura Neste remotoCabo converteram Os Deuses;e, por mais dobradas mágoas, Me anda Thetiscercando destas águas.» 60 Assim contava; e, cum medonhochoro, Súbito de ante os olhos se apartou. Desfez-se anuvemnegra, e cum sonoro Bramido muito longe o mar soou. Eu, levantandoas mãos ao santo coro Dos Anjos, que tão longe nos guiou, A Deus pedi que removesse os duros Casos, que Adamastor contou futuros. “A Deuspedi que removesse osduros Casos, que Adamastor contou futuros.” (hipérbato)
  • 9. Divisão do episódio 1. Visão/ Avistamento do Adamastor (estrofes37 à 40) 2. Discurso do Adamastor - profeciasterríveis (estrofes41 à 48) 3. Tragédia da família Sepúlveda (estrofes 46 à 48) 4. Interpelação deVasco da Gama (estrofe 49) 5. História do Gigantecontada por ele próprio (estrofes 50-59) 6. Desaparecimento da ameaça (estrofe 60) O Gigante Adamastor - estrofe a estrofe 37. Cinco dias depois de terem deixado a baía de Santa Helena, os Lusos viajavam por mares “nunca de outrem navegados” como vento de feição, mas certa noite uma nuvem escura surgiu sobrea armada. 38. Os marinheiros encheram-sede medo, o mar estava agitado e batia ferozmentecontra os rochedos. Vasco da Gama aterrorizado pergunta-sesobreo que poderá estar a acontecer. Todo o cenário aterrador torna a imagem do Gigante ainda mais terrível e assustadora. 39. De repente, uma figura gigantesca surgiu no mar a uma altitude ameaçadora: um ser disforme, tinha os olhos encovados, o rosto sério, a barba suja e maltratada, os cabelos ásperos, crespos echeios de terra, a boca escura e os dentes amarelos. 40. Camões (através do narrador queé agora Vasco da Gama) compara-o a uma das 7 maravilhas do mundo: o Colosso de Rodes. Surgeno 4º verso a introdução da fala do Gigante, cuja voz fazia arrepiar os cabelos e a carne dos navegantes. Este dirige-se aos marinheiros num tom “horrendo e grosso”. 41. O Gigante começa a por elogiar os portugueses: “Ó povo audacioso (ousado), que alcançou grandes feitos e que não descansa (têm como objetivo a glória e nunca repousam), como ousas navegar estes mares, que eu guardo e nunca foram cortados por qualquer outro navio?” (nunca antes ninguém se atrevera a navegar aquele mar, que há tanto tempo ele guarda). Faz o reconhecimento do mérito. 42. Depois, pergunta-lhes se vieramdesvendar os segredos do mar que nunca nenhum mortal conheceu e avisa-os dos perigos, das mortes e dos naufrágios quetem preparado para castigar o seu atrevimento quer no mar, quer na terra que, com dura guerra, vierama dominar.
  • 10. 43. O Gigante afirma que os navios terão aquele cabo como inimigo, com ventos fortes e tempestades. Adverte que a primeira armada que ali passar sofrerá um castigo inesperado e súbito, mas destruidor. 44. O Gigante afirma que sevingará do seu descobridor, Bartolomeu Dias, e que outras embarcações portuguesas serão destruídas por ele. Adamastor anuncia as desgraças e a perdição por toda a parte. O sofrimento seria tal que seria preferívela morte. 45. O Gigante diz que do primeiro ilustre (D. Francisco de Almeida) será eterna sepultura, ou seja, morreu pela obra do Adamastor e eles terão o mesmo destino. Deixará os troféus das suas vitórias sobreos turcos, aqui se vingarão dele as cidades de Quíloa e Mombaça. 46. Nesta estrofe o Gigante cita a desgraça da família de Manuel de Sousa Sepúlveda, cujo destino será tenebroso: depois de um naufrágio sofrerão muito. 47. O Gigante diz que os filhos queridos de Manuel de Sousa Sepúlveda morrerão de fome e sua esposa será violentada pelos habitantes da África, depois de caminhar pela areia do deserto. 48. Os sobreviventes da desgraça verão Manuel de Sousa Sepúlveda e sua esposa (os dois amantes) morreremos 2 juntos com grandesofrimento e “mágoa pura” (libertando a alma do corpo). 49. Ia o “monstro horrendo” continuar a antever o destino perdido dos portugueses quando é corajosamenteinterrompido por Vasco da Gama que lhe pergunta quem é ele, mostrando-semaravilhado eestupefacto pela grandiosidadedeste ser. O Gigante mostra- se surpreendido por ter sido interrompido. 50. Adamastor afirma ser o grande cabo que era apelidado do “Cabo das Tormentas”, (tinha esse nome porquenunca ninguém até aquele momento conseguira atravessá-lo) que nenhum geógrafo da antiguidade tinha tido conhecimento. Diz que faz parte de toda a costa sul de África e a quem a ousadia dos portugueses ofende. 51. Adamastor era um dos Gigantes filhos do céu e da Terra, e confrontou Júpiter e Neptuno com Encélado, Egeu e Centimano (outros gigantes). 52. Adamastor cometeu a loucura de lutar contra Neptuno por amor a Tétis, por quem desprezou todas as Deusas. Umdia, viu-a nua na praia e apaixonou-sepor ela, e ainda hoje, não há algo que deseje mais do que ela. 53. Como jamais conquistaria Tétis porque era muito feio, Adamastor resolveu conquistá-la e manifestou a sua intenção a Dóris, mãe de Tétis, que ouviu da filha a seguinte resposta: como poderia uma ninfa amar um Gigante.
  • 11. 54. Continua a resposta de Tétis: ela, para livrar o Oceano da guerra, tentará solucionar o problema com dignidade e honra. O Gigante afirma que, como estava cego de amor, não percebeu que as promessas deDóris não eram verdadeiras. 55. Uma noite, louco de amor e desistindo da guerra, apareceu-lheo lindo rosto de Tétis, única e nua. Como louco, o Gigante correu abrindo os braços para aquela que era a vida do seu corpo e começou a beijá-la nos olhos, na face e nos cabelos. 56. Adamastor não consegue expressar a mágoa que sentiu porque, quando pensava que estava a beijar e abraçar Tétis, encontrou-seabraçado a um duro monte. Sem palavras e imóvel, sentiu-secomo uma rocha diante de outra rocha. Tornou-seo Cabo das Tormentas. 57. Adamastor invocaTétis, perguntando porquêque ela, senão o amava, manteve a ilusão de que ele iria abraça-la? Dali ele partiu quaselouco pela mágoa e pela desonra procurando outro lugar em que não houvessequem se risseda sua tristeza. 58. Os Titãs já foramvencidos e soterrados para maior segurança dos deuses, contra quem não é possívellutar. Adamastor anuncia, então, o seu triste destino, como contra o céu não há defesa, começou a sentir o castigo dos seus atrevimentos. 59. A carne do gigante transformou-seem terra e os ossos em pedra, e,os seus membros e a sua figura alongaram-sepelo mar. Os Deuses fizeram dele um Cabo para que sofresseem dobro, tendo Tétis a banhar-senas águas próximas. 60. O gigante desapareceu humilhado e a chorar, desaparecendo também a nuvemescura e o mar soando longínquo. Vasco da Gama ergueu os braços ao céu e pediu aos anjos que os casos futuros contados por Adamastor não se realizassem. Com o afastamento do Gigante, é permitida a passagemdas naus. Valor simbólico do episódio - geograficamente: Adamastor simboliza o cabo das Tormentas que posteriormente é designado de cabo da Boa Esperança, depois de dobrado. - mitologicamente: simboliza o amor insatisfeito e não correspondido, a frustração e humilhação amorosa. Tambémé uma figura mitológica que, pela a sua ousadia foi punida pelos deuses. - simbolicamente: no contexto da obra d’ Os Lusíadas, Adamastor representa o maior de todos os obstáculos, o medo do desconhecido, e as dificuldades que os portugueses tiveram de enfrentar e vencer comcoragem e ousadia, ao longo da sua viagem “por mares nunca dantes navegados”. Ana Sofia Dias Gomesnº2 12ºA