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Luís Vaz de Camões
Época -   1524 (?) - 1580
Em síntese:
Características gerais:
    * Racionalidade
    * Rigor Científico
    * Dignidade do Ser Humano
    * Ideal Humanista
    * Reutilização das artes greco-romana

a) Racionalismo – a razão é o único caminho para se chegar ao conhecimento.
b) Experimentalismo – todo o conhecimento deverá ser demonstrado
   racionalmente.
c) Antropocentrismo – colocava o homem como a suprema criação de Deus e como
   o centro do universo.
d) Humanismo – glorificação do homem e da natureza humana, em contraposição
   ao divino e ao sobrenatural.
e) Classicismo - movimento cultural que valoriza e recupera os elementos artísticos
   da cultura clássica (greco-romana). Ocorreu nas artes plásticas, teatro e literatura,
   nos séculos XIV ao XVI.
As características da epopeia:

• A epopeia é um género narrativo em verso;
• visa celebrar feitos grandiosos de heróis fora do comum reais ou lendários.;
• tem pois sempre um fundo histórico;
• é um género narrativo e que exige a presença de uma acção, desempenhada por
personagens num determinado tempo e espaço.
• O estilo é elevado e grandioso e possui uma estrutura própria, cujos principais aspectos
são:
PROPOSIÇÃO - em que o autor apresenta a matéria do poema;
INVOCAÇÃO – pedido de inspiração às musas ou outras divindades e entidades míticas
protectoras das artes;
DEDICATÓRIA - em que o autor dedica o poema a alguém, sendo esta facultativa;
NARRAÇÃO - a acção é narrada por ordem cronológica dos acontecimentos, mas inicia-se já
no decurso dos acontecimentos (“in medias res”), sendo a parte inicial narrada
posteriormente num processo de retrospectiva, “flash-back” ou “analepse”;
PRESENÇA DE MITOLOGIA GRECO-LATINA - contracenando heróis mitológicos e heróis humanos.
A narrativa organiza-se em quatro planos:
Plano da viagem - A viagem de Vasco da Gama de Lisboa até à Índia.
 Saída de Belém, paragem em Melinde e chegada a Calecut

Plano Mitológico, em alternância, ocupam uma posição importante.

Plano da História de Portugal – Quando Vasco da Gama ou outro
narrador conta, por exemplo ao rei de Melinde, a História de Portugal.
Está encaixada na viagem.

Plano do Poeta – ou as considerações pessoais aparecem normalmente
nos finais de canto e constituem, de um modo geral, a visão crítica do
poeta sobre o seu tempo.

A narrativa organiza-se de forma anacrónica:

Passado – reconto da História de Portugal desde as origens até D. Manuel I. (analepse)

Presente – tempo da acção central do poema, ou seja, da viagem de Vasco da Gama,
iniciada “ in media res”.

Futuro – Profecias . (prolepse)
Proposição      I
                As armas, e os barões assinalados         Todos os homens ilustres
 Sinédoque –                                              Que, saíram de Portugal
 apresentar a   Que, da Ocidental praia Lusitana,
  parte pelo                                              E foram por mares desconhecidos -
     todo
                Por mares nunca dantes navegados,         navegadores
                                                          Passaram além da já conhecida ilha de
                Passaram ainda além da Taprobana,         Ceilão

                Em perigos e guerras esforçados           Enfrentaram perigos enormes,
                                                          Mesmo superiores ao seu estatuto de
  Hipérbole –
  exagero da    Mais do que prometia a força humana,      ser humano – afasta-os do comum
   realidade                                              mortal
                E entre gente remota edificaram           Construíram um novo império em
                                                          terras distantes. Um reino que tanto
                Novo Reino, que tanto sublimaram;         desejaram



   O sujeito poético começa por apresentar os destinatários da epopeia, valorizando já os
  seus feitos e aproximando-os já de um estatuto acima do humano.

   Fazem-se referências a factos históricos e locais concretos.
Gerúndio –
                                                           processo de
                               enumeração                 continuidade
                  II
                  E também as memórias gloriosas                    E aqueles reis que estiveram
                                                                    envolvidos na reconquista cristã
                  Daqueles Reis que foram dilatando                 /nas cruzadas contra os
   Conjunção
 coordenativa                                                       mouros/infiéis em África e na
  copulativa –    A Fé, o Império, e as terras viciosas
                                                                    Ásia
enumeração de
  figuras a ser   De África e de Ásia andaram devastando;
    exaltadas
                                                                    E aqueles que fazem obras com
                  E aqueles que por obras valerosas                 valor e que, por isso, não cairão
                                                                    no esquecimento – se vão
                  Se vão da lei da Morte libertando.                imortalizando
                  Cantando espalharei por toda aaparte,
                  Cantando espalharei por toda parte,               O sujeito poético compromete-
                                                                    se a exaltar a louvar, a cantar os
                  Se a tanto me ajudar ooengenho eearte.
                  Se a tanto me ajudar engenho arte.
                                                                    feitos daqueles que enumerou
                                                                    anteriormente. Usando a
                          1ª pessoa do                              primeira pessoa – plano do
                           singular –                               poeta.
                        envolvimento do
                              poeta
Herói de          Herói de
                                                Odisseia -        Eneida -
                    III                          Ulisses           Eneias
                    Cessem do sábio Grego e do Troiano              Num tom imperativo, de ordem
                    As navegações grandes que fizeram;              manda suspender/cessar a fama
      Imperativo                                                    dos gregos e romanos
                    de Alexandro e de Trajano
                                                                    Manda suspender a fama das
                    A fama das vitórias que tiveram;                vitórias de reis e imperadores
                                                                    clássicos
                    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
                                                                    Porque o poeta louva o povo
                    A quem Neptuno e Marte obedeceram.              lusitano ao qual pertence.
    Conjunção                                                       Povo esse que dominou o mar
  subordinativa     Cesse tudo o que a Musa antiga canta,           (Neptuno)e a guerra (Marte).
causal (= porque)
  . Apresenta a     Que outro valor mais alto se alevanta.
     causa da                                                       Continua em tom imperativo,
 desvalorização                                                     ordenando que os clássicos
   dos clássicos
                                         Neptuno – deus do mar      suspendam a sua fama, porque
                                         Marte – deus da guerra     agora há um novo povo que
     1ª pessoa do
                          Patriotismo,                              apresenta feitos ainda mais
       singular –
                            valores
     envolvimento
                           nacionais                                valerosos.
        do poeta


  Para demonstrar a superioridade e a legitimidade da realização desta epopeia, o
 poeta compara os feitos dos Portugueses aos de Ulisses, herói da Odisseia de Homero e
 aos de Eneias, o troiano que, na Eneida de Virgílio, chegou ao Lácio e fundou Roma, ou
 seja compara o seu herói com os heróis das epopeias de referência.
Proposição

Canto I, est. 1-3,
• Camões proclama ir cantar as grandes vitórias e os homens ilustres –
              “as armas e os barões assinalados”;

•as conquistas e navegações no Oriente (reinados de D. Manuel e de D. João III);

•as vitórias em África e na Ásia desde D. João a D. Manuel, que dilataram “a fé e o
império”;

• e, por último, todos aqueles que pelas suas obras valorosas “se vão da lei da morte
libertando”, todos aqueles que mereceram e merecem a “imortalidade” na memória
dos homens.
A proposição aponta também para os “ingredientes” que constituíram os quatro planos
do poema:

Plano da Viagem - celebração de uma viagem:
"...da Ocidental praia lusitana / Por mares nunca dantes navegados
 / Passaram além da Tapobrana...";

Plano da História - vai contar-se a história de um povo:
"...o peito ilustre lusitano..."."...as memórias gloriosas /
Daqueles Reis que foram dilatando / A Fé, o império e as
terras viciosas / De África e de Ásia...";

Plano dos Deuses (ou do Maravilhoso) aos quais os Portugueses se equiparam:
"... esforçados / Mais do que prometia a força humana..."."A quem Neptuno e Marte
obedeceram...";

Plano do Poeta - em que a voz do poeta se ergue, na primeira pessoa:
"...Cantando espalharei por toda a parte. / Se a tanto me ajudar o engenho e
arte..."."...Que eu canto o peito ilustre lusitano...".
Funcionamento da língua

Identificação de orações subordinadas relativas

             I
             As armas, e os barões assinalados
             Que, da Ocidental praia Lusitana,
             Por mares nunca dantes navegados,
             Passaram ainda além da Taprobana,
             Em perigos e guerras esforçados
             Mais do que prometia a força humana,
             E entre gente remota edificaram
             Novo Reino, que tanto sublimaram;
Funcionamento da língua

Identificação de orações subordinadas causais / relativas
              III
              Cessem do sábio Grego e do Troiano
              As navegações grandes que fizeram;
              de Alexandro e de Trajano
              A fama das vitórias que tiveram;
porque        Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
               A quem Neptuno e Marte obedeceram.
              Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
porque        Que outro valor mais alto se alevanta.
Funcionamento da língua

Identificação de Conjugação perifrástica


                                       II
                                           E também as memórias gloriosas
                                       Daqueles Reis que foram dilatando
                                       A Fé, o Império, e as terras viciosas
                                       De África e de Ásia andaram devastando;
                                       E aqueles que por obras valerosas
                                       Se vão da lei da Morte libertando.
                                                                   c
Funcionamento da língua
                                                           Nome próprio
 Identificação de classes e subclasses de palavras
                                                           Nome comum
     I
     As armas, e os barões assinalados
                                                             Conjunção
     Que, da Ocidental praia Lusitana,
     Por mares nunca dantes navegados,
     Passaram ainda além da Taprobana,                       Preposição
     Em perigos e guerras esforçados
     Mais do que prometia a força humana,                Pronome relativo
     E entre gente remota edificaram
     Novo Reino, que tanto sublimaram;               Determinante artigo definido

                                                     Determinante demonstrativo
II
                                                       Pronome demonstrativo
E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando                            Advérbio
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;                      Adjectivo
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando.
Funcionamento da língua

Graus dos adjectivos

Elabora frases onde uses os adjectivos nos graus indicados

  adjectivo                       Grau
  valorosas                       Grau normal
  remotas                         Grau comparativo de superioridade
  glorioso                        Grau comparativo de inferioridade
  famoso                          Grau comparativo de igualdade
  importante                      Grau superlativo relativo de superioridade
  conhecido                       Grau superlativo relativo de nferioridade
  falador                         Grau superlativo absoluto analítico
  famoso                          Grau superlativo absoluto sintético
Correcção

adjectivo                  Grau
valorosas                  Grau normal
… mais remotas do que…     Grau comparativo de superioridade
… menos glorioso do que…   Grau comparativo de inferioridade
…tão famoso como…          Grau comparativo de igualdade
… o mais importante…       Grau superlativo relativo de superioridade
… o menos conhecido…       Grau superlativo relativo de nferioridade
… muito falador….          Grau superlativo absoluto analítico
…famosíssimo…              Grau superlativo absoluto sintético




                                                         Seguir para a Invocação
Invocação
Canto I, est. 4-5, o poeta pede ajuda a entidades mitológicas, chamadas musas. Isso
acontece várias vezes ao longo do poema, sempre que o autor precisa de inspiração:



  Tágides ou ninfas do Tejo (Canto I, est. 4-5);

  Calíope - musa da eloquência e da poesia épica (Canto II, est. 1-2);

  Ninfas do Tejo e do Mondego (Canto VII, est. 78-87);

  Calíope (Canto X, est. 8-9);

  Calíope (Canto X, est. 145).
Anáfora - é uma figura de estilo
         que consiste em repetir a mesma                                                       Metáfora –
          palavra no princípio de várias frases.   Aposto           Perífrase                 dar coragem

 Invocação estrofes 4-5                            Apóstrofe

 E vós, Tágides minhas, pois criado
                                                                     Invocar significa apelar, pedir, suplicar.
 Tendes em mi um novo engenho ardente                                Daí a presença do Imperativo.
 Se sempre, em verso humilde, celebrado
 Foi de mi vosso rio alegremente,                                    Nestas estrofes, Camões dirige-se às
                                                                     Tágides, as ninfas do Tejo, pedindo-lhes
 Dai-me agora um som alto e sublimado                                que o ajudem a cantar os feitos dos
 Um estilo grandíloco e corrente,                                    portugueses de uma forma sublime.
 Por que de vossas águas Febo ordene                                 Até aí apenas usou a inspiração na
                                                                     humilde lírica, mas agora precisa de
 Que não tenham enveja às de Hipocrene.
                                                                     uma inspiração superior.

 Dai-me hua fúria grande e sonorosa,                           O estilo da epopeia aparece aqui descrito:
 E não de agreste avena ou frauta ruda,                        “alto e sublimado”
                                                               ”Um estilo grandíloco e corrente.“
 Mas de tuba canora e belicosa,
                                                               “fúria grande e sonorosa”
 Que o peito acende e a cor ao gesto muda.                     “tuba canora e belicosa”
 Dai-me igual canto aos feitos da famosa                       “Que se espalhe e se cante no Universo”
 Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
                                                               -“Que se espalhe e se cante no Universo, Se
 Que se espalhe e se cante no Universo                         tão Sublime preço cabe em verso” Ou seja
 Se tão sublime preço cabe em verso.                           ,Camões quer que a mensagem se espalhe e
                                                               que cante ao universo os feitos dos
 Conjunção              Imperativo                             portugueses
subordinativa
 condicional
Dedicatória ***(sem leitura obrigatória)
Canto I, est. 6-18, é o oferecimento do poema a D.
Sebastião, que encara toda a esperança do poeta,
que quer ver nele um monarca poderoso, capaz de
retomar “a dilatação da fé e do império” e de
ultrapassar a crise do momento.

Termina com uma exortação ao rei para que
também se torne digno de ser cantado,
prosseguindo as lutas contra os Mouros.

                   Exórdio (est. 6-8) - início do discurso;

                   Exposição (est. 9-11) - corpo do discurso;

                   Confirmação (est. 12-14) - onde são apresentados os exemplos;

                   Peroração (est. 15-17) - espécie de recapitulação ou remate;

                   Epílogo (est. 18) - conclusão.
Dedicatória estrofes 6-8

E vós, ó bem nascida segurança
                                                  Metáfora e Apóstrofe : Vós, tenro e novo ramo
Da Lusitana antiga liberdade,                     florecente”,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,                -“E vós” 6estrofe-1linha: A D.Sebastião
Vós, ó novo temor da Maura lança,                 -“Maravilha Fatal da Nossa Idade”: Elogio a
Maravilha fatal da nossa idade,                   D.Sebastião
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande.
                                            Vós, tenro e novo ramo florecente,
                                            De hua árvore, de Cristo mais amada
                                            Que nenhua nascida no Ocidente,
                                            Cesária ou Cristianíssima chamada,
                                            Vede-o no vosso escudo, que presente
                                            Vos amostra a vitória já passada,
                                            Na qual vos deu por armas e deixou
                                            As que Ele pera Si na Cruz tomou;
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E, quando dece, o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do tope Ismaelita cavaleiro,
Do Turco Oriental e do Gentio
Que inda bebe o licor do santo Rio: (...)
Narração
Começa no Canto I, est. 19
• constitui a acção principal que, à maneira clássica, se inicia “in medias res”, isto é,
quando a viagem já vai a meio, “Já no largo oceano navegavam”, encontrando-se já
os portugueses em pleno Oceano Índico.




• Este começo da acção central, a viagem da descoberta do caminho marítimo para a
Índia, quando os portugueses se encontram já a meio do percurso do canal de
Moçambique vai permitir:
      A narração do percurso até Melinde (narrador heterodiegético);

      A narração da História de Portugal até à viagem (por Vasco da Gama);

      A inclusão da narração da primeira parte da viagem;

      A apresentação do último troço da viagem (narrador heterodiegético).
Consílio dos Deuses - plano mitológico   Canto I – 19-41c
Consílio dos Deuses - plano mitológico                         Canto I – 19-41c
Os Deuses reúnem-se para decidir se ajudam ou não os portugueses a chegar à Índia.
Esta reunião foi presidida por Júpiter, tendo estado presentes todos os Deuses convocados.
Os Deuses sentem a necessidade de reunir face aos feitos gloriosos conseguido até ao
momento.

Júpiter decide ajudá-los, pois considera que os portugueses, pelos seus feitos passados,
são dignos de tal ajuda.
Baco, pelo contrário, não queria que os portugueses fossem para a Índia, com medo
de perder a sua fama no Oriente.
Vénus apoia Júpiter, pois vê reflectida nos portugueses a força e a coragem do seu filho
Eneias e dos seus descendentes, os romanos. Vénus defende os portugueses não só por se
tratar de uma gente muito semelhante à do seu amado povo latino e com uma língua
derivada do Latim, como também por terem demonstrado grande valentia no norte de
África.
Marte - deus defensor desta gente lusitana, porque o amor antigo que o ligava a Vénus o
leva a tomar essa posição e porque reconhece a bravura deste povo. Marte consegue
convencer Júpiter a não abdicar da sua decisão e assim, os portugueses serão recebidos
num porto amigo. Pede a Mercúrio - o Deus mensageiro - que colha informações sobre a
Índia, pois começa a desconfiar da posição tomada por Baco.
Este consílio termina com a decisão favorável aos portugueses e cada um dos deuses regressa
ao seu domínio celeste.
Consílio dos Deuses - plano mitológico                             Canto I – 19-41

                Já no largo Oceano navegavam,              A narração começa “in média”. Já no oceano
                                                           Pacífico.
                As inquietas ondas apartando;
                                                           Faz-se referência ao domínio da técnica da
                Os ventos brandamente respiravam,          navegação, dominada pelos portugueses.
                Das naus as velas côncavas inchando;
                Da branca escuma os mares se mostravam
                Cobertos, onde as proas vão cortando
                As marítimas águas consagradas,
                Que do gado de Próteu são cortadas,
  Perífrase

                Quando os Deuses no Olimpo luminoso,     Apresenta-se então:
 Conjunção                                               - o local da reunião - Olimpo;
                Onde o governo está da humana gente,
subordinativa
                                                         - o objectivo da reunião – decisão sobre as
  temporal      Se ajuntam em consílio glorioso,         coisas do Oriente.
                Sobre as cousas futuras do Oriente.
                Pisando o cristalino Céu fermoso,
                                                         Indicação da forma como os deuses foram
                Vêm pela Via Láctea juntamente,          convocados: foi Mercúrio que avisou todos os
                Convocados, da parte de Tonante,         deuses cumprindo a vontade de Júpiter.

                Pelo neto gentil do velho Atlante.
Perífrase
21
              Deixam dos sete Céus o regimento,          Reunião dos deuses vindos de
                                                         todos os quadrantes: N, S, E, O.
              Que do poder mais alto lhe foi dado,
              Alto poder, que só co pensamento
              Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.
Perífrase -
 Júpiter      Ali se acharam juntos num momento
              Os que habitam o Arcturo congelado

Perífrases:
              E os que o Austro têm e as partes onde
Norte, Sul,
Oriente e
              A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.
 Ocidente
              22
              Estava o Padre ali, sublime e dino,        É apresentada a descrição de
                                                         Júpiter – um deus poderoso,
              Que vibra os feros raios de Vulcano,       soberano, severo.
              Num assento de estrelas cristalino,
              Com gesto alto, severo e soberano;
              Do rosto respirava um ar divino,
              Que divino tornara um corpo humano;
              Com ũa coroa e ceptro rutilante,
              De outra pedra mais clara que diamante.
23
  Descrição    Em luzentes assentos, marchetados
 de um local                                                  Caracterização do espaço
    rico,      De ouro e de perlas, mais abaixo estavam       do Olimpo e Organização
  luxuoso,                                                    do espaço.
  sublime.     Os outros Deuses, todos assentados
                                                              Os deuses sentam-se
               Como a Razão e a Ordem concertavam             segundo a sua hierarquia.
               (Precedem os antigos, mais honrados,
               Mais abaixo os menores se assentavam);
               Quando Júpiter alto, assi dizendo,             Introdução ao discurso de
                                                              Júpiter – Discurso directo.
               Cum tom de voz começa grave e horrendo:
               24                                         Apóstrofe, indicação dos
               – «Eternos moradores do luzente,           destinatários do seu discurso –
Apóstrofe
e perífrase
                                                          os restantes deuses
               Estelífero Pólo e claro Assento:           Início do discurso de Júpiter
               Se do grande valor da forte gente
               De Luso não perdeis o pensamento,
                                                          Júpiter começa por recordar
               Deveis de ter sabido claramente            que é do conhecimento geral
               Como é dos Fados grandes certo intento     que os Fados têm a intenção de
                                                          tornar este povo luso superior
               Que por ela se esqueçam os humanos         aos antigos heróis.
  Enumeração
               De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
25
               Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
               Cum poder tão singelo e tão pequeno,
               Tomar ao Mouro forte e guarnecido            Júpiter recorda as vitórias e
                                                            a protecção concedidas e
               Toda a terra que rega o Tejo ameno.          realizadas pelos lusos.
               Pois contra o Castelhanovtão temido          Lutou contra os Mouros e
sinédoque
                                                            contra os castelhanos e
               Sempre alcançou favor do Céu sereno:         sempre foi protegido pelas
               Assi que sempre, enfim, com fama e glória,   divindades.
      Os
   inimigos
   que teve    Teve os troféus pendentes da vitória.
      de
  enfrentar    26
      são
  apresenta    Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
  dos como                                                  Júpiter continua a relembra as
  “fortes” e   Que co a gente de Rómulo alcançaram,
                                                            raízes do povo português:
 “temidos”,
 reforçando    Quando com Viriato, na inimiga               . Guerra com os Romanos,
 o seu valor                                                . A importância e valor de Viriato,
               Guerra Romana, tanto se afamaram;
                                                            . Lendas romanas.
               Também deixo a memória que os obriga
    vocativo
               A grande nome, quando alevantaram
               Um por seu capitão, que, peregrino,
               Fingiu na cerva espírito divino.
O
              27
advérbio
“agora” –
              Agora vedes bem que, cometendo                Júpiter reconhece a força a
  antes
              O duvidoso mar num lenho leve,                coragem para descobrir e explorar
 esteve a                                                   territórios em locais tão diferentes.
 falar do
passado,
              Por vias nunca usadas, não temendo
 “agora”
falará do
              de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve:
presente
     –
              Que, havendo tanto já que as partes vendo
              Onde o dia é comprido e onde breve,
                                                            E diz que agora querem explorar o
              Inclinam seu propósito e perfia               oriente.

  perífrase   A ver os berços onde nasce o dia.
              28
              Prometido lhe está do Fado eterno,
                                                           Júpiter reafirma que os Fados já
              Cuja alta lei não pode ser quebrada,         determinaram a glória dos
                                                           portugueses.
              Que tenham longos tempos o governo
              Do mar que vê do Sol a roxa entrada.
              Nas águas têm passado o duro Inverno;
                                                            Júpiter considera os portugueses
              A gente vem perdida e trabalhada;             merecedores de algum recobro e
              Já parece bem feito que lhe seja              reconforto, pois as tripulações
                                                            estão cansadas. Apresenta pois a
              Mostrada a nova terra que deseja.             sua posição pessoal
E porque, como vistes, têm passados         A viagem tem levado a enfrentar
Na viagem tão ásperos perigos,              perigos, climas, intempéries…

Tantos climas e céus exprimentados,
Tanto furor de ventos inimigos,
                                            Júpiter apresenta a sua
Que sejam, determino, agasalhados           determinação em apoiar os
                                            portugueses, mostrando-lhes terra
Nesta costa Africana como amigos;
                                            e assegurando-lhes que serão bem
E, tendo guarnecido a lassa frota,          “agasalhados” para que depois
                                            possam seguir viagem.
Tornarão a seguir sua longa rota.»
             Final do discurso de Júpiter

                    Posição de Baco
Estas palavras Júpiter dizia,
                                                  Júpiter terminara o seu
Quando os Deuses, por ordem respondendo,          discurso e os deuses
                                                  apresentam as suas
Na sentença um do outro diferia,                  posições
Razões diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali não consentia
No que Júpiter disse, conhecendo                Baco, deus do vinho, teme
                                                perder a sua fama no Oriente.
Que esquecerão seus feitos no Oriente
Se lá passar a Lusitana gente.
31
                 Ouvido tinha aos Fados que viria
                 Ũa gente fortíssima de Espanha             Baco já tinha ouvido a fama deste povo
                                                            e sabe que este povo levará ao
                 Pelo mar alto, a qual sujeitaria           esquecimento dos antigos heróis,
Perífrase-       Da Índia tudo quanto Dóris banha,          entre eles, o próprio Baco.
Pacífico/
 oriente         E com novas vitórias venceria              E mais uma vez se reforça a ideia de
                                                            que perderia a fama que ainda tem no
                 A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.   Oriente (Nisa).
                 Altamente lhe dói perder a glória
                 De que Nisa celebra inda a memória.
                 32
                 Vê que já teve o Indo sojugado             Baco nunca fora posto em causa por
                                                            nenhum herói ou poeta.
                 E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
                 Por vencedor da Índia ser cantado
  Perífrase -    De quantos bebem a água de Parnaso.
   poetas
                 Teme agora que seja sepultado              Baco teme agora que o seu nome seja
                                                            votado ao esquecimento e à “morte” – este
    Metáfora -   Seu tão célebre nome em negro vaso         medo reforça o valor dos lusos, pois são um
   esquecimen
                 D' água do esquecimento, se lá chegam      poder fora de comum.
       to

                 Os fortes Portugueses que navegam.
Posição de Vénus
Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana                 Vénus defendia os
                                           portugueses:
Por quantas qualidades via nela            -Descendentes dos
                                           romanos;
Da antiga, tão amada, sua Romana;          - coragem e força
Nos fortes corações, na grande estrela     demonstrada;
                                           -Uso da língua com
Que mostraram na terra Tingitana,          origem latina.

E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.
34
                                            Vénus defendia os
Estas causas moviam Citereia,               portugueses, pois sabe
                                            que se eles tiverem
E mais, porque das Parcas claro entende
                                            sucesso ela também
Que há-de ser celebrada a clara Deia        será louvada.

Onde a gente belígera se estende.
Assi que, um, pela infâmia que arreceia,    Enquanto Baco se
                                            opõe, porque não
E o outro, pelas honras que pretende,
                                            quer perder a fama,
Debatem, e na perfia permanecem;            Vénus defendia, pois
                                            deseja ser louvada.
A qualquer seus amigos favorecem.
Balanço da discussão



Qual Austro fero ou Bóreas na espessura
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata escura
                                               A agitação dos ventos era
Com ímpeto e braveza desmedida,                grande, evidenciando a
Brama toda montanha, o som murmura,            agitação da discussão
                                               gerada no Olimpo.
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:    A natureza reflecte o
Tal andava o tumulto, levantado                humor dos deuses.

Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
Posição de Marte
               Mas Marte, que da Deusa sustentava
                                                             Marte, porque
               Entre todos as partes em porfia,              amava Vénus,
                                                             ou porque a gente lusa o merecia,
               Ou porque o amor antigo o obrigava,
                                                             tomou a palavra e uma posição.
               Ou porque a gente forte o merecia,

Anáfora        De antre os Deuses em pé se levantava:
               Merencório no gesto parecia;
               O forte escudo, ao colo pendurado,
               Deitando pera trás, medonho e irado;          Descrição de Marte
          37
          A viseira do elmo de diamante
          Alevantando um pouco, mui seguro,
          Por dar seu parecer se pôs diante
          De Júpiter, armado, forte e duro;
                                                              Descrição de Marte –
          E dando ũa pancada penetrante                       deus forte, decidido, duro.
          Co conto do bastão no sólio puro,                   Faz-se ouvir e respeitar.

          O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
          Um pouco a luz perdeu, como enfiado;
Discurso de Marte
            E disse assi: – «Ó Padre, a cujo império
                                                          Discurso de Marte –
            Tudo aquilo obedece que criaste:              Começa por reforçar o
Apóstrofe
            Se esta gente que busca outro Hemisfério,     poder de Júpiter.
            Cuja valia e obras tanto amaste,
            Não queres que padeçam vitupério,           Começa por reforçar o poder de
                                                        Júpiter. Considera que Júpiter é
            Como há já tanto tempo que ordenaste,       soberano e que não deve ouvir as
            Não ouças mais, pois és juiz direito,       opiniões dos restantes deuses.
            Razões de quem parece que é suspeito.       Deuses esses que são “suspeitos”.
            39
            Que, se aqui a razão se não mostrasse
            Vencida do temor demasiado,                 Marte tenta provar que a opinião de
                                                        Baco é fundada na inveja.
            Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
            Pois que de Luso vêm, seu tão privado;      Considera ainda que a inveja nunca
                                                        poderá roubar as glórias merecidas e
            Mas esta tenção sua agora passe,
                                                        oferecidas pelo céu, como é o caso
            Porque enfim vem de estâmago danado;        dos portugueses.
            Que nunca tirará alheia enveja
            O bem que outrem merece e o Céu deseja.
Aposto   E tu, Padre de grande fortaleza,          Reforça novamente o poder de
                     Da determinação que tens tomada           Júpiter. Considera que Júpiter é
Apóstrofe                                                      soberano que se voltar atrás com a
                     Não tornes por detrás, pois é fraqueza    sua posição é uma mostra de
                                                               fraqueza.
                     Desistir-se da cousa começada.
                     Mercúrio, pois excede em ligeireza
                                                              Finaliza o seu discurso, dizendo que
                     Ao vento leve e à seta bem talhada,      Mercúrio deverá, rapidamente,
                                                              indicar um porto seguro, onde os
                     Lhe vá mostrar a terra onde se informe   portugueses sejam reabastecidos e
                                                              orientados.
                     Da Índia, e onde a gente se reforme.»

                                  Fim do discurso de Marte

                     Como isto disse, o Padre poderoso,       Júpiter concorda e termina este
                                                              consílio.
                     A cabeça inclinando, consentiu
                     No que disse Mavorte valeroso
                     E néctar sobre todos esparziu.
                     Pelo caminho Lácteo glorioso
                     Logo cada um dos Deuses se partiu,
                                                              Todos os deuses regressaram aos
                     Fazendo seus reais acatamentos,
                                                              respectivos aposentos, aceitando a
                     Pera os determinados apousentos.         decisão tomada.
Episódio de Inês de Castro - plano história de Portugal – episódio lírico   Canto III – 119- 135
Episódio de Inês de Castro - plano história de Portugal – episódio lírico   Canto III – 119- 135

   Episódio inclui-se no plano da História de Portugal, pois:

   • é narrado por Vasco da Gama, cujo narratário/destinatário é o Rei de Melinde.
   • surge na continuidade da apresentação do reinado de D. Afonso IV.


   Episódio é considerado um momento lírico, pois:

   •Exploram-se os sentimentos pessoais do narrador;
   • Dá-se expressão à emotividade e à exploração de sentimentos como o Amor, a
   crueldade, o sofrimento…

   • pode-se mesmo considerar que as principais características da tragédia clássica
   estão patentes:
        • Há o desenvolvimento de uma acção, que termina com a morte da
        protagonista;
        • Observa-se a lei das três unidades (acção, tempo e espaço);
        • Há uma motivação para sentimentos de terror e piedade;
        • A catástrofe é simbolizada pela morte da protagonista.
Estrutura deste episódio

A primeira parte, referente as causas da morte de Inês, vítima do amor.

A segunda, constitui o desenvolvimento em que se descreve o modo de vida feliz e
despreocupado que Inês tinha em Coimbra - é apresentada a razão de estado para que Inês
deixe a vida, pois o perigo que representa a ligação de D. Inês com D. Pedro, receia o domínio
espanhol.
O poeta põe em questão a grandeza moral do Rei por solucionar o problema de seu reino
mandando matar a sua própria filha:
“Tirar Inês ao mundo, determina”;
“Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra üa fraca dama delicada?”.
Também nesta segunda parte é redigido o discurso suplicante de Inês ao rei de Portugal, seu
pai. Ela utiliza súplicas e argumento para comover o Rei na sua determinação - apresenta a
sua situação de mãe e a orfandade de seus filhos, declara-se inocente perante toda a situação
de futuro conflito, comove o rei dizendo-lhe que sendo um cavaleiro que sabe dar morte,
também sabe ”dar vida, com clemência” e como alternativa à morte, dá preferência ao exílio.

A terceira e última parte, constitui a reprovação do narrador, sublinhada pelo pranto
comovente das “filhas do Mondego” e pela animização da Natureza, que chora a morte de
Inês, sua antiga confidente.
Episódio de Inês de Castro - plano história de Portugal – episódio lírico              Canto III – 119- 135
                    Passada esta tão próspera vitória,
                                                             Início remete para o plano da história
                    Tornando Afonso à Lusitana terra,        de Portugal – o episódio narrado
                                                             anteriormente foi o da Batalha do
                    A se lograr da paz com tanta glória
                                                             Salado
                    Quanta soube ganhar na dura guerra,
                    O caso triste, e dino da memória,        O narrador introduz o caso de Inês de
                    Que do sepulcro os homens desenterra,    Castro, como um episódio do reinado
      A                                                      de D. AfonsoIV, remetendo já para os
imparcialidade      Aconteceu da mísera e mesquinha          contornos do mesmo.
 do narrador




                                                                                                         Introdução
                    Que depois de ser morta foi Rainha.
                                                               Perífrase - D. Inês
                    119                                            de Castro

                    Tu só, tu, puro Amor, com força crua,   O narrador dirige-se ao Amor,
                                                            atribuindo-lhe várias características:
    Apóstrofe e
                    Que os corações humanos tanto obriga,
                                                              - puro, mas cruel
   personificação
     do Amor
                    Deste causa à molesta morte sua,          -dominador e tirano;
                                                              - causador da desgraça que conta;
                    Como se fora pérfida inimiga.             - cruel, que não se satisfaz com
                    Se dizem, fero Amor, que a sede tua       lágrimas, pois deseja sangue.

                    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
   comparação
                    É porque queres, áspero e tirano,
                    Tuas aras banhar em sangue humano.
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
                                                            Apresentação de Inês,
                       De teus anos colhendo doce fruto,    remetendo para o momento
                                                            anterior à sua morte:
                       Naquele engano da alma, ledo e cego,
  Metáfora                                                  - beleza, juventude, em Coimbra
                       Que a fortuna não deixa durar muito, - tranquilidade,
                                                            - paz ilusória,
                       Nos saudosos campos do Mondego,
                                                            - já a presença do sofrimento
                       De teus fermosos olhos nunca enxuto, amoroso




                                                                                              Desenvolvimento
                       Aos montes ensinando e às ervinhas

     Perífrase –       O nome que no peito escrito tinhas.
       Pedro
                       121
      Hipérbato:       Do teu Príncipe ali te respondiam         Este amor vive de memórias
  As lembranças do                                               felizes e ilusórias.
 teu príncipe que na   As lembranças que na alma lhe moravam,    Também D. Pedro vive este
 alma lhe moravam,
  respondiam-te ali.   Que sempre ante seus olhos te traziam,    amor, da mesma forma.

                       Quando dos teus fermosos se apartavam:
   Antítese
                       De noite em doces sonhos, que mentiam,
Oração relativa
  explicativa          De dia em pensamentos, que voavam.        É um amor marcado pela
                       E quanto enfim cuidava, e quanto via,     separação e pela saudade.

                       Eram tudo memórias de alegria.
122
                    De outras belas senhoras e Princesas        O Príncipe D. Pedro rejeita
                    Os desejados tálamos enjeita,               todas as outras damas, pois
                                                                está apaixonado.
                    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
                    Quando um gesto suave te sujeita.
                    Vendo estas namoradas estranhezas
                                                               Reacção do pai, D. Afonso IV:
                    O velho pai sesudo, que respeita           -O pai determina a morte de




                                                                                               Desenvolvimento
                    O murmurar do povo, e a fantasia           Inês.
                                                               - tem em conta dois
                    Do filho, que casar-se não queria,         elementos: o povo e o filho.
 Eufemismo -
    matar
                    Tirar Inês ao mundo determina,
 Hipérbato:                                                    O rei acredita que ao matar
 Determina          Por lhe tirar o filho que tem preso,
tirar Inês ao                                                  Inês de Castro acabará com
   mundo            Crendo co'o sangue só da morte indina      o seu amor
       Oração       Matar do firme amor o fogo aceso.
     subordinada                                               O narrador mostra a sua
        causal      Que furor consentiu que a espada fina,     indignação e questiona o
                                                               exercício deste poder e desta
                    Que pôde sustentar o grande peso
                                                               força, pois usa-se a mesma
         A
   imparcialidade   Do furor Mauro, fosse alevantada           força contra o Mouro feroz e
    do narrador                                                contra uma fraca dama
                    Contra uma fraca dama delicada?
                                                               delicada.
124                                          Início da narração da sua
                 Traziam-na os horríficos algozes             execução:
                                                              -Os executores trazem-na à
                 Ante o Rei, já movido a piedade:             presença do rei;
  Oração
                 Mas o povo, com falsas e ferozes             - mais uma vez são apresentadas
coordenada                                                    as motivações desta morte, da
adversativa
                 Razões, à morte crua o persuade.             responsabilidade do povo;
                 Ela com tristes o piedosas vozes,            - há aqui alguma
                                                              desresponsabilização do rei…
                 Saídas só da mágoa, e saudade
                                                              Descrição da reacção de Inês à




                                                                                                   Desenvolvimento
                 Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
                                                              prisão e condenação:
                 Que mais que a própria morte a magoava,      - O seu sofrimento não é pela sua
                 125                                          morte, mas por aqueles que
                                                              deixa: Pedro e os filhos.
                 Para o Céu cristalino alevantando
 Anteposição                                                  -Inês com os olhos repletos de
                 Com lágrimas os olhos piedosos,
do adjectivo –                                                lágrimas …
   reforça a
                 Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
crueldade dos
 executores.     Um dos duros ministros rigorosos;
                                    v
                 E depois nos meninos atentando,              -… e tendo em atenção os seus
                                                              filhos, dirigiu-se ao rei, avô dos
                 Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
                                                              seus filhos.
                 Cuja orfandade como mãe temia,
                 Para o avô cruel assim dizia:                Introdução ao discurso de Inês.
- "Se já nas brutas feras, cuja mente
              Natura fez cruel de nascimento,               Início do discurso de Inês:
              E nas aves agrestes, que somente
                                                            -Começa por referir que a
              Nas rapinas aéreas têm o intento,             Natureza e as feras não
                                                            conseguem ser cruéis com as
              Com pequenas crianças viu a gente
                                                            crianças, protegem-nas.
              Terem tão piedoso sentimento,
              Como coa mãe de Nino já mostraram,
                                                            - ilustra com exemplo latino.




                                                                                            Desenvolvimento
              E colos irmãos que Roma edificaram;
 Oração
 relativa     127
explicativa
              Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito,
              (Se de humano é matar uma donzela                 Continuação do
 Apóstrofe
                                                                discurso de Inês:
   ao rei
              Fraca e sem força, só por ter sujeito             . Dirige-se directamente
              O coração a quem soube vencê-la)                  ao rei:
                                                                -apelando à sua
              A estas criancinhas tem respeito,                 humanidade e piedade;
              Pois o não tens à morte escura dela;              -Invocando os seus
                                                                filhos.
              Mova-te a piedade sua e minha,                    - afirma-se fraca, frágil
              Pois te não move a culpa que não tinha.           e inocente.
E se, vencendo a Maura resistência,       Continuação do discurso de
   Oração
Subordinativa   A morte sabes dar com fogo e ferro,       Inês:
 condicional
                Sabe também dar vida com clemência        - refere que o rei sabe dar
                A quem para perdê-la não fez erro.        morte aos seus inimigos
                                                          também deve saber dar vida
                Mas se to assim merece esta inocência,    aos inocentes.
                Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
  Oração                                                  - no entanto, Inês apresenta
                Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente,




                                                                                          Desenvolvimento
coordenada                                                outra hipótese ao rei, caso a
adversativa
                Onde em lágrimas viva eternamente.        queira condenar, apesar de
                                                          inocente – o desterro.
                129
                Põe-me onde se use toda a feridade,       - conclui o seu discurso
                Entre leões e tigres, e verei             reforçando a ideia do
                                                          desterro, dizendo que entre
                Se neles achar posso a piedade            os animais mais ferozes
                Que entre peitos humanos não achei:       poderia achar piedade que os
     No
                                                          homens não têm.
                Ali com o amor intrínseco e vontade
   desterro
                Naquele por quem morro, criarei           - termina usando novamente
                                                          os filhos como argumento,
                Estas relíquias suas que aqui viste,
                                                          dizendo que longe, no
                Que refrigério sejam da mãe triste."      desterro as poderia criar e
                                                          seriam o seu consolo.
130
Queria perdoar-lhe o Rei benino,            Desculpabilização do rei e as
                                            pressões que sofre: O povo.




                                                                             Desenvolvimento
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
                                         Momento da execução de D.
Os que por bom tal feito ali apregoam.   Inês, que causa sofrimento e
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,   indignação ao narrador, visível
                                         na interrogação retórica.
Feros vos amostrais, e cavaleiros?
131
"Qual contra a linda moça Policena,         Início da terceira parte deste
                                            episódio com a reprovação do
Consolação extrema da mãe velha,            narrador e a exploração da
                                            parte mais lírica.




                                                                             Conclusão
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
                                            - Estado contemplativo desta
Mas ela os olhos com que o ar serena
                                            morte e associação a outros
(Bem como paciente e mansa ovelha)          episódios clássicos.
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:
132
Tais contra Inês os brutos matadores        Continuação da reprovação do
No colo de alabastro, que sustinha          narrador e a exploração da
                                            parte mais lírica.
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha;
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,




                                                                           Conclusão
No futuro castigo não cuidosos.
133
Bem puderas, ó Sol, da vista destes
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
                                            Animização da Natureza, que
Quando os filhos por mão de Atreu comia.    chora a morte de Inês, sua
                                            antiga confidente.
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetisses!
134
Assim como a bonina, que cortada            - Estado contemplativo desta
Antes do tempo foi, cândida e bela,         morte, destacando-se as
                                            características da inocente e
Sendo das mãos lascivas maltratada          comparando-a às flores.
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida




                                                                            Conclusão
A branca e viva cor, coa doce vida.
135
As filhas do Mondego a morte escura
                                            -É sublinhado o pranto
Longo tempo chorando memoraram,
                                            comovente das “filhas do
E, por memória eterna, em fonte pura        Mondego” e é apresentada a
                                            animização da Natureza, que
As lágrimas choradas transformaram;
                                            chora a morte de Inês, sua
O nome lhe puseram, que inda dura,          antiga confidente.
                                            -Natureza que criou uma fonte
Dos amores de Inês que ali passaram.
                                            deste choro.
Vede que fresca fonte rega as flores,       – Quinta das lágrimas.
Que lágrimas são a água, e o nome amores.
136
Não correu muito tempo que a vingança      -O narrador apresenta a
                                           reacção feroz de D. Pedro a
Não visse Pedro das mortais feridas,
                                           esta execução:
Que, em tomando do Reino a governança,     - - logo que se tornou rei,
                                           perseguiu e puniu os
A tomou dos fugidos homicidas.
                                           executores de Inês.
Do outro Pedro cruíssimo os alcança,
Que ambos, imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,        - comparação com exemplos de




                                                                          Conclusão
                                           Espanha e dos clássicos.
Que com Lépido e António fez Augusto.
                                           -Pacto entre os reis que
137                                        obrigava um a entregar os
                                           criminosos ao outro se os
Este, castigador foi rigoroso
                                           capturasse
De latrocínios, mortes e adultérios:
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
Eram os seus mais certos refrigérios.    D. Pedro tornou-se um rei
                                         rigoroso e justo em relação a
As cidades guardando justiçoso           todos os crimes.
De todos os soberbos vitupérios,
                                         D. Pedro, o justo.
Mais ladrões castigando à morte deu,
Que o vagabundo Aleides ou Teseu.
138
          Do justo e duro Pedro nasce o brando,       - O plano da história de
          (Vede da natureza o desconcerto!)           Portugal prossegue,
                                                      apresentando já o seu filho
          Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,     sucessor- D. Fernando, que
          Que todo o Reino pôs em muito aperto:       teve um reinado fraco,
                                                      chegando a ver o reino de
          Que, vindo o Castelhano devastando          Portugal em risco face ao
          As terras sem defesa, esteve perto          Castelhano.
                                                      - Oposição entre os dois reis.
          De destruir-se o Reino totalmente;
                                                      -Termina com uma máxima que




                                                                                          transição
          Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.
Leitura




                                                      justifica os períodos menos
          139                                         bons deste povo vitorioso:
          Ou foi castigo claro do pecado
          De tirar Lianor a seu marido,               - o narrador termina
                                                      reflectindo ainda na
          E casar-se com ela, de enlevado             possibilidade de o fraco
          Num falso parecer mal entendido;            governo de D. Fernando ser um
                                                      castigo, pois D. Fernando
          Ou foi que o coração sujeito e dado         roubou Leonor Teles ao marido
          Ao vício vil, de quem se viu rendido,       para casar com ela.
                                                      -O narrador acusa-o de se
          Mole se fez e fraco; e bem parece,          entregar à luxúria, daí o castigo
          Que um baixo amor os fortes enfraquece.     e a fraqueza.
Questionário:

1 – De que forma podemos dizer que este é um episódio do plano da história de Portugal?
1.1 – Comprova com versos do texto.

2 – Por que razão podemos também considerar este episódio lírico?
2.1 – Comprova com versos do texto.

3 – De acordo com o texto, apresenta a posição de D. Afonso IV face a esta mulher e a este
relacionamento. Justifica.

4 – Apresenta a caracterização do Amor exposta pelo narrador.

5 – Estamos na presença de um narrador parcial ou imparcial? Justifica a afirmação e ilustra com
versos.

6 – Ao longo do seu discurso, Inês de Castro tenta defender-se. Apresenta os seus argumentos de
defesa.

7 – D. Pedro ficou conhecido pelo exercício da justiça. Justifica a afirmação e ilustra com versos.

8 – Apresenta um exemplo de apóstrofe e explora a sua intencionalidade.

9 – Apresenta um exemplo de interrogação retórica e demonstra a sua intencionalidade.

10 – Quais os elementos da natureza referidos na conclusão? Justifica estas alusões.
Batalha de Aljubarrota - Plano da História de Portugal   Canto – IV 28-45
Episódio bélico apresentado em tom hiperbólico
 - referências ao número e valor dos inimigos
 - pormenores dos preparativos
 - valentia demonstrada

 Está Vasco da Gama a contar a História de Portugal ao Rei de Melinde;
 - refere a morte de D. Fernando e respectivas consequências;
 Depois da morte de D. Fernando, o Formoso, cuja filha D. Beatriz — com 11 anos apenas — casara com o rei
 de Castela, Portugal insurge-se contra a ideia de ser governado por um estrangeiro.

 A arraia-miúda das cidades e vilas e dos campos acompanhada por abastados mercadores e por alguns
 fidalgos, aclama D. João, mestre de Avis, defensor e regedor ou regente do Reino.
 -Refere toda a história da nomeação de D. João I, a Regedor e Defensor do Reino dá origem à
 batalha contra Castela que se travou em 14 de Agosto de 1383.

 -O Rei de Castela invade Portugal, e poucos eram os que queriam combater pela Pátria. Mas os
 que estavam dispostos a defender o seu Reino, de entre os quais se destacava Nuno Álvares
 Pereira, iriam defendê-lo com a convicção da vitória,
 pois o país vizinho tinha enfraquecido bastante no reinado de D. Fernando e D. João I era
 garantia de valor e sucesso e nunca Portugal tinha saído derrotado dos combates contra os
 Castelhanos.
 Na descrição da batalha, destacam-se as actuações de Nuno Álvares Pereira e de D. João,
 Mestre de Avis; salienta-se também o facto dos irmãos de Nuno combaterem contra a própria
 Pátria, acabando por morrer numa batalha em que foram traidores de Portugal.
 No final, Camões refere o desânimo e a fuga dos Castelhanos, que novamente foram
 derrotados pelos lusitanos.
A partir do casamento, D. Leonor Teles tornara-se cada
vez mais influente junto do rei, manobrando a sua
intervenção política nas relações exteriores, e ao mesmo
tempo cada vez mais impopular. Aparentemente, D.
Fernando mostra-se incapaz de manter uma
governação forte e o ambiente político interno ressente-
se disso, com intrigas constantes na corte. Em 1382, no
fim da guerra com Castela, estipula-se que a única filha
legítima de D. Fernando, D. Beatriz de Portugal, case
com o rei D. João I de Castela. Esta opção significava
uma anexação de Portugal e não foi bem recebida pela
classe média e parte da nobreza portuguesa.
Quando D. Fernando morre em 1383, a linha da dinastia
de Borgonha chega ao fim. D. Leonor Teles é nomeada
regente em nome da filha e de D. João de Castela, mas a
transição não será pacífica. Respondendo aos apelos de
grande parte dos Portugueses para manter o país
independente, D. João, mestre de Avis e irmão bastardo
de D. Fernando, declara-se rei de Portugal. O resultado
foi a crise de 1383-1385, um período de interregno,
onde o caos político e social dominou. D. João tornou-se
no primeiro rei da Dinastia de Avis em 1385.
Batalha de Aljubarrota - plano da História de Portugal
                 28

                 Deu sinal a trombeta Castelhana,
                                                               Início da batalha, dado pelo
                 Horrendo, fero, ingente e temeroso;           toque de trombeta que se
  gradação       Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana           ouviu desde a Galiza até ao sul
                 Atrás tornou as ondas de medroso;
                                                               de Portugal
                 Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
Personificação




                                                                                                 Batalha – 28 - 41
                 Correu ao mar o Tejo duvidoso;
                 E as mães, que o som terríbil escutaram,      Ao som do início da batalha as
  hipérbole      Aos peitos os filhinhos apertaram.            mães temeram pela segurança
                                                               de seus filhos.
                 29

                 Quantos rostos ali se vêem sem cor,         Há rostos sem cor e o terror é
   Sensações
     visuais     Que ao coração acode o sangue amigo!        grande, muitas vezes maior do
                 Que, nos perigos grandes, o temor           que o próprio perigo.
                 É maior muitas vezes que o perigo;
                 E se o não é, parece-o; que o furor
                 De ofender ou vencer o duro amigo           Durante o combate as pessoas,
                 Faz não sentir que é perda grande e rara,   com o furor de vencer,
                 Dos membros corporais, da vida cara.        esquecem-se do perigo e da
                                                             possibilidade de ficarem feridas
                                                             ou mesmo de perderem a
                                                             própria vida.
30

             Começa-se a travar a incerta guerra;
             De ambas partes se move a primeira ala;       A guerra começa. Uns são movidos pela
 Presente    Uns leva a defensão da própria terra,         defesa da sua própria terra e outros pelo
    do       Outros as esperanças de ganhá-la;             desejo de vitória
Indicativo   Logo o grande Pereira, em quem se encerra
             Todo o valor, primeiro se assinala:           D. Nuno Álvares Pereira destaca-se na
             Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
             Dos que a tanto desejam, sendo alheia.
                                                           luta.

             31




                                                                                                       Batalha – 28 - 41
             Já pelo espesso ar os estridentes
Sensações    Farpões, setas e vários tiros voam;            Descrição da cena de guerra.
  visuais    Debaixo dos pés duros dos ardentes             Características da descrição.
 auditivas   Cavalos treme a terra, os vales soam;
                                                            Portugueses lutam, mas os castelhanos
             Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
             Quedas coas duras armas, tudo atroam;          são mais numerosos
             Recrescem os amigos sobre a pouca
             Gente do fero Nuno, que os apouca.

             32
                                                           D. Diogo e D. Pedro Pereira, irmãos de
             Eis ali seus irmãos contra ele vão,           Nuno Álvares Pereira, estão a combater
             (Caso feio e cruel!) mas não se espanta,      contra ele, “(caso feio e cruel)” – no
             Que menos é querer matar o irmão,             entanto, não tão grave como combater
             Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:
                                                           contra o rei e a pátria.
             Destes arrenegados muitos são
             No primeiro esquadrão, que se adianta
             Contra irmãos e parentes (caso estranho!)     No primeiro esquadrão há portugueses
             Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.     que renegaram a pátria e combatem
                                                           contra seus irmãos, o que já acontecia no
                                                           tempo dos clássicos.
33

Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
                                            Apóstrofe a figuras que traíram a sua
Catilina, e vós outros dos antigos,         pátria
Que contra vossas pátrias, com profano
Coração, vos fizestes inimigos,
Se lá no reino escuro de Sumano             Se estes traidores receberem castigos,
Receberdes gravíssimos castigos,            também os portugueses têm casos
Dizei-lhe que também dos Portugueses        destes.
Alguns tredores houve algumas vezes.

34




                                                                                       Batalha – 28 - 41
Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,    Começa a haver perda de vidas.
Tantos dos inimigos a eles vão!
Está ali Nuno, qual pelos outeiros
                                           Entre todos está Nuno Álvares Pereira,
De Ceita está o fortíssimo leão,           general com experiência nas guerras de
Que cercado se vê dos cavaleiros           Ceuta. Ele encontra-se a ser atacado,
Que os campos vão correr de Tetuão:        perturbado, mas não com medo.
Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,   Valorização do perfil de Álvares Pereira.
Torvado um pouco está, mas não medroso.

35

Com torva vista os vê, mas a natura
Ferina e a ira não lhe compadecem
Que as costas dê, mas antes na espessura   A sua natureza guerreira faz com que
Das lanças se arremessa, que recrescem.    não desista e continue a lutar.
Tal está o cavaleiro, que a verdura
Tinge co'o sangue alheio; ali perecem
                                           Morrem alguns portugueses, pois apesar
Alguns dos seus, que o ânimo valente
Perde a virtude contra tanta gente.        de corajosos enfrentavam um poder
                                           maior.
36
Sentiu Joane a afronta que passava
Nuno, que, como sábio capitão,               D. João I, sabendo que D. Nuno Álvares
Tudo corria e via, e a todos dava,           corria perigo, acudiu à linha da frente
Com presença e palavras, coração.            para apoiar os guerreiros com a sua
Qual parida leoa, fera e brava,              presença e palavras de encorajamento.
Que os filhos que no ninho sós estão,
Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
O pastor de Massília lhos furtara;           Comparação com uma leoa que protege
37                                           as suas crias (norte de África)




                                                                                          Batalha – 28 - 41
Corre raivosa, e freme, e com bramidos
Os montes Sete Irmãos atroa e abala:
Tal Joane, com outros escolhidos
Dos seus, correndo acode à primeira ala:
-"Ó fortes companheiros, ó subidos            Discurso de encorajamento de D. João I.
Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,          -Apelo ao patriotismo, à coragem, à
Defendei vossas terras, que a esperança       superioridade, responsabilidade,
Da liberdade está na vossa lança.             liberdade…
38

Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,
Que entre as lanças, e setas, e os arneses    - reforça a ideia de que ele próprio está
Dos inimigos corro e vou primeiro:            no campo de batalha e deve ser o
Pelejai, verdadeiros Portugueses!"-           exemplo a seguir!
Isto disse o magnânimo guerreiro,
E, sopesando a lança quatro vezes,              Com um único tiro, matou muitos
Com força tira; e, deste único tiro,            adversários.
Muitos lançaram o último suspiro.
39
Reacção ao discurso de    Porque eis os seus acesos novamente        O ânimo volta e continuam a lutar
rei                       Duma nobre vergonha e honroso fogo,        com coragem e progredindo na
                          Sobre qual mais com ânimo valente          batalha.
                          Perigos vencerá do Márcio jogo,
                          Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;
                          Rompem malhas primeiro, e peitos logo:
                          Assim recebem junto e dão feridas,
                          Como a quem já não dói perder as vidas.    Já nem temem perder a vida.

                          40




                                                                                                           Batalha – 28 - 41
Entre os muitos mortos    A muitos mandam ver o Estígio lago,
são apontados: o mestre   Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:
de Santiago, D. Pedro
                          O Mestre morre ali de Santiago,            São mortas várias figuras ilustres,
Moniz, ou Munoz, e os                                                entre elas, os irmãos de Nuno
irmãos de D. Nuno, os     Que fortíssimamente pelejava;
                          Morre também, fazendo grande estrago,      Álvares Pereira.
renegados, um deles
mestre de Calatra-va.     Outro Mestre cruel de Calatrava;
Alguns comentadores       Os Pereiras também arrenegados
dão, porém, o mestre de   Morrem, arrenegando o Céu e os fados.
Santiago como morto em
Valverde.
                          41
                          Muitos também do vulgo vil sem nome        São mortos outros menos ilustres e
                          Vão, e também dos nobres, ao profundo,     outros nobres.
                          Onde o trifauce Cão perpétua fome
                          Tem das almas que passam deste mundo.      Muitos são feridos, muitos
   Perífrase -            E porque mais aqui se amanse e dome
                                                                     morrem, mas a bandeira
    inferno               A soberba do amigo furibundo,
                          A sublime bandeira Castelhana
                                                                     castelhana é derrubada aos pés
                          Foi derribada aos pés da Lusitana.         da lusitana.
Resultado da
Batalha
42

                Aqui a fera batalha se encruece           Com a queda da bandeira castelhana, a
                Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;   batalha tornou-se ainda mais cruel.
                A multidão da gente que perece
Enumeração      Tem as flores da própria cor mudadas;
                Já as costas dão e as vidas; já falece    Sem forças para combaterem, os
                O furor e sobejam as lançadas;            castelhanos começam a fugir e o rei de
   Metáfora
                Já de Castela o Rei desbaratado           Castela vê-se derrotado e impedido de
                Se vê, e de seu propósito mudado.         atingir o seu propósito/objectivo.
                43

                O campo vai deixando ao vencedor,         O rei vai abandonando o campo de
                Contente de lhe não deixar a vida.        batalha e atrás dele fogem todos os
                Seguem-no os que ficaram, e o temor       castelhanos com grade dor, devido:
                Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.       -à morte;
                Encobrem no profundo peito a dor          -Aos meios gastos e perdidos;
                Da morte, da fazenda despendida,          - à mágoa e desonra;
   Enumeração   Da mágoa, da desonra, e triste nojo       - ao luto de ser vencido.
                De ver outrem triunfar de seu despojo.
                44
                                                          Reacções à derrota:
                Alguns vão maldizendo e blasfemando
                                                          -Uns maldizem a guerra;
                Do primeiro que guerra fez no mundo;
                                                          -Outros maldizem a ambição de desejar
                Outros a sede dura vão culpando
                                                          o que não é seu.
                Do peito cobiçoso e sitibundo,
                Que, por tomar o alheio, o miserando
                Povo aventura às penas do profundo,
                Deixando tantas mães, tantas esposas
                                                          - A derrota causa dor em muitas mães,
                Sem filhos, sem maridos, desditosas.
                                                          esposas, filhos…
45

O vencedor Joane esteve os dias                    Fazia parte do ritual destas
Costumados no campo, em grande glória;             guerras permanecer o vencedor
Com ofertas depois, e romarias,                    alguns dias no campo da
As graças deu a quem lhe deu vitória.              batalha, dando assim ao
Mas Nuno, que não quer por outras vias             vencido oportunidade de
Entre as gentes deixar de si memória               desforra.
Senão por armas sempre soberanas,
Para as terras se passa Transtaganas.




           São Nuno foi canonizado pelo Papa Bento XVI em 26 de Abril de 2009.
Partida das naus , o velho do restelo - plano da História de Portugal e início da viagem
Canto – IV 83-89 / 94-104
O projecto para o caminho marítimo para a Índia foi delineado
                           por D. João II como medida de redução dos custos nas trocas
                           comerciais com a Ásia e tentativa de monopolizar o comércio
                           das especiarias. A juntar à cada vez mais sólida presença
                           marítima portuguesa, D. João almejava o domínio das rotas
                           comerciais e expansão do reino de Portugal que já se
                           transformava em Império. Porém, o empreendimento não seria
Portugal (, 3 de Maio de
1455 – Alvor, 25 de        realizado durante o seu reinado. Seria o seu sucessor, D.
Outubro de 1495)           Manuel I que iria designar Vasco da Gama para esta expedição,
                           embora mantendo o plano original.




                                   Na preparação da partida das naus de Vasco da Gama
                                   para a Índia, sobressai no meio da confusão um
                                   alvoroço e ao mesmo tempo um desejo de alcançar o
                                   trajecto pretendido.
                                   Após a citação do chamado Velho do Restelo, deu-se a
  Portugal (, 31 de Maio           partida; ficaram para trás as terras portuguesas e
  de 1469 — Lisboa, 13
  de Dezembro de 1521)
                                   apenas o mar e o céu infinitos cabiam na visão dos
                                   lusitanos.
Partida das naus , o velho do restelo -
plano da História de Portugal e início da viagem Canto – IV 83-89 / 94-104
Preparação do rei   Foram de Emanuel remunerados,
                    Porque com mais amor se apercebessem,               D. Manuel é o responsável pela
                    E com palavras altas animados                       organização deste grupo. Tê-lo-
                    Para quantos trabalhos sucedessem.                  á incentivado e motivado.
                    Assim foram os Mínias ajuntados,
                    Para que o Véu dourado combatessem,                 Tal como já acontecera no mar
                    Na fatídica Nau, que ousou primeira                 Negro
                    Tentar o mar Euxínio, aventureira.
Apresentação dos
                    84
marinheiros e
                    E já no porto da ínclita Ulisseia            Já no Porto de Lisboa, em
soldados
                    C'um alvoroço nobre, e é um desejo,          Belém, onde o rio Tejo encontra
 Perífrase -
                    (Onde o licor mistura e branca areia         o mar.
   Lisboa           Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
                    As naus prestes estão; e não refreia         As naus já estão prontas e o
 Narrador
                    Temor nenhum o juvenil despejo,              ânimo dos marinheiros e
participante:       Porque a gente marítima e a de Marte         soldados é elevado.
  Vasco da          Estão para seguir-me a toda parte.
  Gama a            85
  contar a          Pelas praias vestidos os soldados
   própria          De várias cores vêm e várias artes,          Descrição dos soldados, prontos
   viagem
                    E não menos de esforço aparelhados           para descobrir novos mundos.
                    Para buscar do mundo novas partes.
                    Nas fortes naus os ventos sossegados
                    Ondeam os aéreos estandartes;                As naus são personificadas e
                    Elas prometem, vendo os mares largos,        prometem levar aqueles
                    De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.   homens à imortalidade.
86

                     Depois de aparelhados desta sorte           As condições físicas estão
                     De quanto tal viagem pede e manda,          asseguradas, há que preparar o
                     Aparelhamos a alma para a morte,            espírito para o perigo da morte,
                                                                 que sempre existe.
                     Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
                     Para o sumo Poder que a etérea corte        Vasco da Gama recorda a
 Perífrase:          Sustenta só coa vista veneranda,            oração e pedido de protecção e
   Deus
                     Imploramos favor que nos guiasse,           ajuda a Deus para esta viagem.
                     E que nossos começos aspirasse.
    Deus
   Cristão
                     87

                     Partimo-nos assim do santo templo            Partiram da ermida de Nossa S.
 Perífrase:
  Belém              Que nas praias do mar está assentado,        de Belém.
                     Que o nome tem da terra, para exemplo,
                     Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
  Apóstrofe:
    Rei de           Certifico-te, ó Rei, que se contemplo       Apóstrofe ao rei de Melinde,
   Melinde           Como fui destas praias apartado,            recordando a dúvida e o receio
                     Cheio dentro de dúvida e receio,            que sentira, mas que tentara
Apresentação do      Que apenas nos meus olhos ponho o freio.    disfarçar.
estado de espírito
de Vasco da Gama
88
   Apresentação do
   estado de espírito
                        A gente da cidade aquele dia,            No dia da partida, havia muitos
   das gentes
                        (Uns por amigos, outros por parentes,    presentes descontentes/
                        Outros por ver somente) concorria,       infelizes.
                        Saudosos na vista e descontentes.
                        E nós coa virtuosa companhia             A comitiva fez-se acompanhar
                                                                 de religiosos em procissão.
                        De mil Religiosos diligentes,
                        Em procissão solene a Deus orando,
                        Para os batéis viemos caminhando.

                        89

                        Em tão longo caminho e duvidoso            O povo não acreditava no
                        Por perdidos as gentes nos julgavam;       sucesso desta expedição.
                        As mulheres c'um choro piedoso,
Enumeração              Os homens com suspiros que arrancavam;
 de pessoas
  que não
                        Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
acreditavam             Amor mais desconfia, acrescentavam
 voltar a ver           A desesperarão, e frio medo
   os que
embarcavam
                        De já nos não tornar a ver tão cedo.
90
Qual vai dizendo: -" Ó filho, a quem eu tinha   Apresentam-se dois casos de
Só para refrigério, e doce amparo               lamúrias/queixas:
Desta cansada já velhice minha,                 . Os filhos que deveriam
Que em choro acabará, penoso e amaro,           acompanhar os pais e ajudá-los
Por que me deixas, mísera e mesquinha?          são afastados.
Por que de mim te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento,
Onde sejas de peixes mantimento!" –
91
"Qual em cabelo: -"Ó doce e amado esposo,       . Os homens que abandonavam
Sem quem não quis Amor que viver possa,         os lares para se aventurarem no
Por que is aventurar ao mar iroso               mar.
Essa vida que é minha, e não é vossa?
Como por um caminho duvidoso                    * Crítica aos descobrimentos ao
Vos esquece a afeição tão doce nossa?           facto de se abandonar o país e o
Nosso amor, nosso vão contentamento             seu desenvolvimento.
Quereis que com as velas leve o vento?" -
92
Nestas e outras palavras que diziam             O narrador diz que todos
De amor e de piedosa humanidade,                tinham esta perspectiva.
Os velhos e os meninos os seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;                  E até a natureza responde a
A branca areia as lágrimas banhavam,            esta dor.
Que em multidão com elas se igualavam.                                             Personificação
93
          Nós outros sem a vista alevantarmos       O narrador diz que a tripulação não parou os seus
          Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,    olhos naqueles que deixava para não sofrerem,
          Por nos não magoarmos, ou mudarmos        nem se deixarem mover dos seus propósitos.
          Do propósito firme começado,
          Determinei de assim nos embarcarmos       Vasco da Gama não quis demorar as despedidas
          Sem o despedimento costumado,             que sempre magoam.
          Que, posto que é de amor usança boa,
          A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
          94
          Mas um velho d'aspeito venerando,
          Que ficava nas praias, entre a gente,
          Postos em nós os olhos, meneando
          Três vezes a cabeça, descontente,
          A voz pesada um pouco alevantando,
          Que nós no mar ouvimos claramente,
          C'um saber só de experiências feito,
Leitura




          Tais palavras tirou do experto peito:

          95
          - Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
          Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
          Ó fraudulento gosto, que se atiça
          C'uma aura popular, que honra se chama!
          Que castigo tamanho e que justiça
          Fazes no peito vão que muito te ama!
          Que mortes, que perigos, que tormentas,
          Que crueldades neles experimentas!
Adamastor - plano da História de Portugal /viagem – episódio lendário   Canto – V
39-60
Adamastor - estrutura


• Inspirado em Homero e Ovídio, o episódio do Gigante Adamastor é o mais rico e complexo do
poema. de natureza simbólica, mitológica e lírica.

• Compõe-se de vinte e quatro estrofes (canto V, 37 - 60), assim distribuídas:

Estrofes 37-38: introdução (2)

Estrofes 39-48: Adamastor (10)

Estrofe 49: transição (1)

Estrofes 50-59: Adamastor (10)

Estrofe 60: epílogo (1)

Como se vê, há uma distribuição muito equilibrada das partes: das vinte e quatro estrofes, quatro se
destinam à introdução, transição e epílogo; as vinte restantes, divididas ao meio, apresentam o herói
da sequência. Tanto Vasco da Gama como o Adamastor aparecem como narradores e como
personagens.
No plano histórico, simboliza:
- a superação pelos portugueses do medo do “Mar Tenebroso”, das superstições medievais que povoavam o
Atlântico e o Índico de monstros e abismos.
- Adamastor é uma visão, um espectro, uma alucinação que existe só nas crendices dos portugueses. É
contra seus próprios medos que os navegadores triunfam.

No plano lírico é um dos pontos altos do poema, retomando dois temas constantes da lírica camoniana:
- o do amor impossível e o do amante rejeitado.

          Adamastor, um dos gigantes filhos da Terra, apaixonou-se pela nereida Tétis. Não
correspondido, tenta tomá-la à força, provocando a cólera de Júpiter, que o transforma no
Cabo das Tormentas, personificado numa figura monstruosa, lançada nos confins do Atlântico.

Este episódio é importante, pois nele se concentram as grandes linhas da epopeia:

1. O real maravilhoso (dificuldade na passagem do cabo).

2. A existência de profecias (história de Portugal).

3. Lirismo (história de amor);

4. É também um episódio trágico, de amor e morte;

5. É um episódio épico, em que se consolida a vitória do homem sobre os elementos (água, fogo, terra, ar);
Resumo do Enredo

Introdução (est. 37, 38, Canto V):
· Preparação do ambiente para o aparecimento do gigante: depois de cinco dias claros, com
ventos calmos, com os marinheiros “descuidados”, surge uma nuvem negra “tão temerosa e
carregada” que põe “nos corações um grande medo” e leva Vasco da Gama a interpelar o
próprio Deus todo-poderoso.

Aparecimento do monstro e sua descrição (est. 39, 40, Canto V).
· Caracterização directa e indirecta do monstro, sobretudo através de uma adjectivação
sugestiva e abundante, para realçar a imponência da figura e o terror e a estupefacção do Gama
e dos seus companheiros (“Arrepiam-se as carnes e o cabelo/A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-
lo.” (est. 40. Vv- 7-8, Canto V).

Discurso do gigante (1ª parte) (est. 41-48, Canto V). Glorificação épica.
· Discurso de carácter profético e ameaçador, através do qual Adamastor, num tom de voz
“horrendo e grosso” anuncia os castigos e danos por si reservados para aquela “gente ousada”
que invadira o seu reino (dos mares):
. A “suma vingança” (a morte) de quem o descobriu (Bartolomeu Dias);
. A morte de D. Francisco de Almeida, primeiro Vice-rei da Índia;
. O naufrágio e a morte da família Sepúlveda;
. E, para além destes casos particulares, as naus portuguesas terão sempre “inimiga esta
paragem” através de “naufrágios, perdições de toda sorte/Que o menor mal de todos seja a
morte”.
Interpelação do Gama (est. 49, Canto V).
· Gama já incomodado com todas aquelas profecias de desgraça, interroga o monstro sobre a sua
identidade. É essa pergunta tão simples que promove a profunda viragem do seu discurso,
fazendo-o recordar a frustração amorosa passada e meditar na sua actual condição de degredado
solitário e petrificado.

Discurso do gigante (2ª parte) (est. 50-59, Canto V). Lirismo amoroso e elegíaco.
· A resposta à pergunta de Gama tem carácter autobiográfico e tom elegíaco (lamentação, triste)
(“com voz pesada e amara”) e disfórico, pois assistimos à evocação do seu passado amoroso
infeliz.

Epílogo (est. 60, Canto V).
· Súbito desaparecimento do Gigante, agora choroso pela recordação do seu passado triste e
levando consigo a nuvem negra e o “sonoro bramido” do mar com que aparecera.
Pedido de Gama a Deus para que remova “os duros casos, que Adamastor contou futuros”.
37 -

Porém já cinco sóis eram passados               A viagem da esquadra é rápida e
Que dali nos partíramos, cortando




                                                                                              Introdução – preparação do cenário
                                                próspera até uma nuvem que escurece
Os mares nunca doutrem navegados,               os ares surge sobre as cabeças dos
Prosperamente os ventos assoprando,             navegantes.
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
                                                hipérbato
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.
                                    Discurso de 1º
                                        pessoa
38 -
                                                  A nuvem escura que surgiu vinha tão
Tão temerosa vinha e carregada,
                                                 carregada que encheu de medo os
Que pôs nos corações um grande medo;             navegantes. O mar, ao longe, fazia grande
Bramindo, o negro mar de longe brada,            ruído ao bater contra os rochedos.
Como se desse em vão nalgum rochedo.
"Ó Potestade (disse) sublimada:                  Vasco da Gama, atemorizado, lança voz à
Que ameaço divino ou que segredo                 tempestade perguntando o que era ela, que
Este clima e este mar nos apresenta,             parecia mais que uma simples tormenta
                                                 marinha.
Que mor cousa parece que tormenta?"
                                                 O cenário aterrador fará a imagem do
                                                 Gigante ainda mais terrível e assustadora.

                            comparação
Desenvolvimento: Aparecimento do monstro e sua descrição
                                                       39 - Vasco da Gama não havia
                                                       terminado de falar quando surgiu uma
                                                       figura enorme. Segue-se a descrição do
Não acabava, quando uma figura                         mostrengo/Adamastor:
Se nos mostra no ar, robusta e válida,                 - de rosto fechado, de olhos encovados,
De disforme e grandíssima estatura;                    de postura má, de cabelos crespos e
                                                       cheios de terra, de boca negra e de
O rosto carregado, a barba esquálida,
                                                       dentes amarelos. Esta passagem é
Os olhos encovados, e a postura                        meramente descritiva.
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,                                                Discurso de 1º
A boca negra, os dentes amarelos.                                                        pessoa



                                                                                    Exemplos
Tão grande era de membros, que bem posso                                            clássicos
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,                                 40 - A figura era tão enorme que
Que um dos sete milagres foi do mundo.                          poder-se-ia jurar ser ela o segundo
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,                     Colosso de Rodes. Surge no quarto
                                                                verso a introdução da fala do
Que pareceu sair do mar profundo.
                                                                Gigante, cuja voz fazia arrepiar os
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,                               cabelos e a carne dos navegantes.
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

                                O Colosso de Rodes foi uma estátua de Hélios, deus grego do sol, construída
                                entre 292 a.C. e 280 a.C. pelo escultor Carés de Lindos. A estátua tinha trinta
                                metros de altura, 70 toneladas e era feita de bronze. Tornou-se uma das sete
                                maravilhas do mundo antigo.
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Análise de Os Lusíadas

  • 1. Luís Vaz de Camões
  • 2. Época - 1524 (?) - 1580
  • 3.
  • 4. Em síntese: Características gerais: * Racionalidade * Rigor Científico * Dignidade do Ser Humano * Ideal Humanista * Reutilização das artes greco-romana a) Racionalismo – a razão é o único caminho para se chegar ao conhecimento. b) Experimentalismo – todo o conhecimento deverá ser demonstrado racionalmente. c) Antropocentrismo – colocava o homem como a suprema criação de Deus e como o centro do universo. d) Humanismo – glorificação do homem e da natureza humana, em contraposição ao divino e ao sobrenatural. e) Classicismo - movimento cultural que valoriza e recupera os elementos artísticos da cultura clássica (greco-romana). Ocorreu nas artes plásticas, teatro e literatura, nos séculos XIV ao XVI.
  • 5. As características da epopeia: • A epopeia é um género narrativo em verso; • visa celebrar feitos grandiosos de heróis fora do comum reais ou lendários.; • tem pois sempre um fundo histórico; • é um género narrativo e que exige a presença de uma acção, desempenhada por personagens num determinado tempo e espaço. • O estilo é elevado e grandioso e possui uma estrutura própria, cujos principais aspectos são: PROPOSIÇÃO - em que o autor apresenta a matéria do poema; INVOCAÇÃO – pedido de inspiração às musas ou outras divindades e entidades míticas protectoras das artes; DEDICATÓRIA - em que o autor dedica o poema a alguém, sendo esta facultativa; NARRAÇÃO - a acção é narrada por ordem cronológica dos acontecimentos, mas inicia-se já no decurso dos acontecimentos (“in medias res”), sendo a parte inicial narrada posteriormente num processo de retrospectiva, “flash-back” ou “analepse”; PRESENÇA DE MITOLOGIA GRECO-LATINA - contracenando heróis mitológicos e heróis humanos.
  • 6. A narrativa organiza-se em quatro planos: Plano da viagem - A viagem de Vasco da Gama de Lisboa até à Índia. Saída de Belém, paragem em Melinde e chegada a Calecut Plano Mitológico, em alternância, ocupam uma posição importante. Plano da História de Portugal – Quando Vasco da Gama ou outro narrador conta, por exemplo ao rei de Melinde, a História de Portugal. Está encaixada na viagem. Plano do Poeta – ou as considerações pessoais aparecem normalmente nos finais de canto e constituem, de um modo geral, a visão crítica do poeta sobre o seu tempo. A narrativa organiza-se de forma anacrónica: Passado – reconto da História de Portugal desde as origens até D. Manuel I. (analepse) Presente – tempo da acção central do poema, ou seja, da viagem de Vasco da Gama, iniciada “ in media res”. Futuro – Profecias . (prolepse)
  • 7.
  • 8.
  • 9. Proposição I As armas, e os barões assinalados Todos os homens ilustres Sinédoque – Que, saíram de Portugal apresentar a Que, da Ocidental praia Lusitana, parte pelo E foram por mares desconhecidos - todo Por mares nunca dantes navegados, navegadores Passaram além da já conhecida ilha de Passaram ainda além da Taprobana, Ceilão Em perigos e guerras esforçados Enfrentaram perigos enormes, Mesmo superiores ao seu estatuto de Hipérbole – exagero da Mais do que prometia a força humana, ser humano – afasta-os do comum realidade mortal E entre gente remota edificaram Construíram um novo império em terras distantes. Um reino que tanto Novo Reino, que tanto sublimaram; desejaram  O sujeito poético começa por apresentar os destinatários da epopeia, valorizando já os seus feitos e aproximando-os já de um estatuto acima do humano.  Fazem-se referências a factos históricos e locais concretos.
  • 10. Gerúndio – processo de enumeração continuidade II E também as memórias gloriosas E aqueles reis que estiveram envolvidos na reconquista cristã Daqueles Reis que foram dilatando /nas cruzadas contra os Conjunção coordenativa mouros/infiéis em África e na copulativa – A Fé, o Império, e as terras viciosas Ásia enumeração de figuras a ser De África e de Ásia andaram devastando; exaltadas E aqueles que fazem obras com E aqueles que por obras valerosas valor e que, por isso, não cairão no esquecimento – se vão Se vão da lei da Morte libertando. imortalizando Cantando espalharei por toda aaparte, Cantando espalharei por toda parte, O sujeito poético compromete- se a exaltar a louvar, a cantar os Se a tanto me ajudar ooengenho eearte. Se a tanto me ajudar engenho arte. feitos daqueles que enumerou anteriormente. Usando a 1ª pessoa do primeira pessoa – plano do singular – poeta. envolvimento do poeta
  • 11. Herói de Herói de Odisseia - Eneida - III Ulisses Eneias Cessem do sábio Grego e do Troiano Num tom imperativo, de ordem As navegações grandes que fizeram; manda suspender/cessar a fama Imperativo dos gregos e romanos de Alexandro e de Trajano Manda suspender a fama das A fama das vitórias que tiveram; vitórias de reis e imperadores clássicos Que eu canto o peito ilustre Lusitano, Porque o poeta louva o povo A quem Neptuno e Marte obedeceram. lusitano ao qual pertence. Conjunção Povo esse que dominou o mar subordinativa Cesse tudo o que a Musa antiga canta, (Neptuno)e a guerra (Marte). causal (= porque) . Apresenta a Que outro valor mais alto se alevanta. causa da Continua em tom imperativo, desvalorização ordenando que os clássicos dos clássicos Neptuno – deus do mar suspendam a sua fama, porque Marte – deus da guerra agora há um novo povo que 1ª pessoa do Patriotismo, apresenta feitos ainda mais singular – valores envolvimento nacionais valerosos. do poeta  Para demonstrar a superioridade e a legitimidade da realização desta epopeia, o poeta compara os feitos dos Portugueses aos de Ulisses, herói da Odisseia de Homero e aos de Eneias, o troiano que, na Eneida de Virgílio, chegou ao Lácio e fundou Roma, ou seja compara o seu herói com os heróis das epopeias de referência.
  • 12. Proposição Canto I, est. 1-3, • Camões proclama ir cantar as grandes vitórias e os homens ilustres – “as armas e os barões assinalados”; •as conquistas e navegações no Oriente (reinados de D. Manuel e de D. João III); •as vitórias em África e na Ásia desde D. João a D. Manuel, que dilataram “a fé e o império”; • e, por último, todos aqueles que pelas suas obras valorosas “se vão da lei da morte libertando”, todos aqueles que mereceram e merecem a “imortalidade” na memória dos homens.
  • 13. A proposição aponta também para os “ingredientes” que constituíram os quatro planos do poema: Plano da Viagem - celebração de uma viagem: "...da Ocidental praia lusitana / Por mares nunca dantes navegados / Passaram além da Tapobrana..."; Plano da História - vai contar-se a história de um povo: "...o peito ilustre lusitano..."."...as memórias gloriosas / Daqueles Reis que foram dilatando / A Fé, o império e as terras viciosas / De África e de Ásia..."; Plano dos Deuses (ou do Maravilhoso) aos quais os Portugueses se equiparam: "... esforçados / Mais do que prometia a força humana..."."A quem Neptuno e Marte obedeceram..."; Plano do Poeta - em que a voz do poeta se ergue, na primeira pessoa: "...Cantando espalharei por toda a parte. / Se a tanto me ajudar o engenho e arte..."."...Que eu canto o peito ilustre lusitano...".
  • 14. Funcionamento da língua Identificação de orações subordinadas relativas I As armas, e os barões assinalados Que, da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca dantes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram;
  • 15. Funcionamento da língua Identificação de orações subordinadas causais / relativas III Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; porque Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, porque Que outro valor mais alto se alevanta.
  • 16. Funcionamento da língua Identificação de Conjugação perifrástica II E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando. c
  • 17. Funcionamento da língua Nome próprio Identificação de classes e subclasses de palavras Nome comum I As armas, e os barões assinalados Conjunção Que, da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca dantes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Preposição Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, Pronome relativo E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; Determinante artigo definido Determinante demonstrativo II Pronome demonstrativo E também as memórias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando Advérbio A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; Adjectivo E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando.
  • 18. Funcionamento da língua Graus dos adjectivos Elabora frases onde uses os adjectivos nos graus indicados adjectivo Grau valorosas Grau normal remotas Grau comparativo de superioridade glorioso Grau comparativo de inferioridade famoso Grau comparativo de igualdade importante Grau superlativo relativo de superioridade conhecido Grau superlativo relativo de nferioridade falador Grau superlativo absoluto analítico famoso Grau superlativo absoluto sintético
  • 19. Correcção adjectivo Grau valorosas Grau normal … mais remotas do que… Grau comparativo de superioridade … menos glorioso do que… Grau comparativo de inferioridade …tão famoso como… Grau comparativo de igualdade … o mais importante… Grau superlativo relativo de superioridade … o menos conhecido… Grau superlativo relativo de nferioridade … muito falador…. Grau superlativo absoluto analítico …famosíssimo… Grau superlativo absoluto sintético Seguir para a Invocação
  • 20. Invocação Canto I, est. 4-5, o poeta pede ajuda a entidades mitológicas, chamadas musas. Isso acontece várias vezes ao longo do poema, sempre que o autor precisa de inspiração: Tágides ou ninfas do Tejo (Canto I, est. 4-5); Calíope - musa da eloquência e da poesia épica (Canto II, est. 1-2); Ninfas do Tejo e do Mondego (Canto VII, est. 78-87); Calíope (Canto X, est. 8-9); Calíope (Canto X, est. 145).
  • 21. Anáfora - é uma figura de estilo que consiste em repetir a mesma Metáfora – palavra no princípio de várias frases. Aposto Perífrase dar coragem Invocação estrofes 4-5 Apóstrofe E vós, Tágides minhas, pois criado Invocar significa apelar, pedir, suplicar. Tendes em mi um novo engenho ardente Daí a presença do Imperativo. Se sempre, em verso humilde, celebrado Foi de mi vosso rio alegremente, Nestas estrofes, Camões dirige-se às Tágides, as ninfas do Tejo, pedindo-lhes Dai-me agora um som alto e sublimado que o ajudem a cantar os feitos dos Um estilo grandíloco e corrente, portugueses de uma forma sublime. Por que de vossas águas Febo ordene Até aí apenas usou a inspiração na humilde lírica, mas agora precisa de Que não tenham enveja às de Hipocrene. uma inspiração superior. Dai-me hua fúria grande e sonorosa, O estilo da epopeia aparece aqui descrito: E não de agreste avena ou frauta ruda, “alto e sublimado” ”Um estilo grandíloco e corrente.“ Mas de tuba canora e belicosa, “fúria grande e sonorosa” Que o peito acende e a cor ao gesto muda. “tuba canora e belicosa” Dai-me igual canto aos feitos da famosa “Que se espalhe e se cante no Universo” Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; -“Que se espalhe e se cante no Universo, Se Que se espalhe e se cante no Universo tão Sublime preço cabe em verso” Ou seja Se tão sublime preço cabe em verso. ,Camões quer que a mensagem se espalhe e que cante ao universo os feitos dos Conjunção Imperativo portugueses subordinativa condicional
  • 22. Dedicatória ***(sem leitura obrigatória) Canto I, est. 6-18, é o oferecimento do poema a D. Sebastião, que encara toda a esperança do poeta, que quer ver nele um monarca poderoso, capaz de retomar “a dilatação da fé e do império” e de ultrapassar a crise do momento. Termina com uma exortação ao rei para que também se torne digno de ser cantado, prosseguindo as lutas contra os Mouros. Exórdio (est. 6-8) - início do discurso; Exposição (est. 9-11) - corpo do discurso; Confirmação (est. 12-14) - onde são apresentados os exemplos; Peroração (est. 15-17) - espécie de recapitulação ou remate; Epílogo (est. 18) - conclusão.
  • 23. Dedicatória estrofes 6-8 E vós, ó bem nascida segurança Metáfora e Apóstrofe : Vós, tenro e novo ramo Da Lusitana antiga liberdade, florecente”, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade, -“E vós” 6estrofe-1linha: A D.Sebastião Vós, ó novo temor da Maura lança, -“Maravilha Fatal da Nossa Idade”: Elogio a Maravilha fatal da nossa idade, D.Sebastião Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Pera do mundo a Deus dar parte grande. Vós, tenro e novo ramo florecente, De hua árvore, de Cristo mais amada Que nenhua nascida no Ocidente, Cesária ou Cristianíssima chamada, Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas e deixou As que Ele pera Si na Cruz tomou; Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E, quando dece, o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do tope Ismaelita cavaleiro, Do Turco Oriental e do Gentio Que inda bebe o licor do santo Rio: (...)
  • 24. Narração Começa no Canto I, est. 19 • constitui a acção principal que, à maneira clássica, se inicia “in medias res”, isto é, quando a viagem já vai a meio, “Já no largo oceano navegavam”, encontrando-se já os portugueses em pleno Oceano Índico. • Este começo da acção central, a viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia, quando os portugueses se encontram já a meio do percurso do canal de Moçambique vai permitir:  A narração do percurso até Melinde (narrador heterodiegético);  A narração da História de Portugal até à viagem (por Vasco da Gama);  A inclusão da narração da primeira parte da viagem;  A apresentação do último troço da viagem (narrador heterodiegético).
  • 25.
  • 26. Consílio dos Deuses - plano mitológico Canto I – 19-41c
  • 27. Consílio dos Deuses - plano mitológico Canto I – 19-41c Os Deuses reúnem-se para decidir se ajudam ou não os portugueses a chegar à Índia. Esta reunião foi presidida por Júpiter, tendo estado presentes todos os Deuses convocados. Os Deuses sentem a necessidade de reunir face aos feitos gloriosos conseguido até ao momento. Júpiter decide ajudá-los, pois considera que os portugueses, pelos seus feitos passados, são dignos de tal ajuda. Baco, pelo contrário, não queria que os portugueses fossem para a Índia, com medo de perder a sua fama no Oriente. Vénus apoia Júpiter, pois vê reflectida nos portugueses a força e a coragem do seu filho Eneias e dos seus descendentes, os romanos. Vénus defende os portugueses não só por se tratar de uma gente muito semelhante à do seu amado povo latino e com uma língua derivada do Latim, como também por terem demonstrado grande valentia no norte de África. Marte - deus defensor desta gente lusitana, porque o amor antigo que o ligava a Vénus o leva a tomar essa posição e porque reconhece a bravura deste povo. Marte consegue convencer Júpiter a não abdicar da sua decisão e assim, os portugueses serão recebidos num porto amigo. Pede a Mercúrio - o Deus mensageiro - que colha informações sobre a Índia, pois começa a desconfiar da posição tomada por Baco. Este consílio termina com a decisão favorável aos portugueses e cada um dos deuses regressa ao seu domínio celeste.
  • 28. Consílio dos Deuses - plano mitológico Canto I – 19-41 Já no largo Oceano navegavam, A narração começa “in média”. Já no oceano Pacífico. As inquietas ondas apartando; Faz-se referência ao domínio da técnica da Os ventos brandamente respiravam, navegação, dominada pelos portugueses. Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteu são cortadas, Perífrase Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Apresenta-se então: Conjunção - o local da reunião - Olimpo; Onde o governo está da humana gente, subordinativa - o objectivo da reunião – decisão sobre as temporal Se ajuntam em consílio glorioso, coisas do Oriente. Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu fermoso, Indicação da forma como os deuses foram Vêm pela Via Láctea juntamente, convocados: foi Mercúrio que avisou todos os Convocados, da parte de Tonante, deuses cumprindo a vontade de Júpiter. Pelo neto gentil do velho Atlante. Perífrase
  • 29. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Reunião dos deuses vindos de todos os quadrantes: N, S, E, O. Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co pensamento Governa o Céu, a Terra e o Mar irado. Perífrase - Júpiter Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado Perífrases: E os que o Austro têm e as partes onde Norte, Sul, Oriente e A Aurora nasce e o claro Sol se esconde. Ocidente 22 Estava o Padre ali, sublime e dino, É apresentada a descrição de Júpiter – um deus poderoso, Que vibra os feros raios de Vulcano, soberano, severo. Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano; Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com ũa coroa e ceptro rutilante, De outra pedra mais clara que diamante.
  • 30. 23 Descrição Em luzentes assentos, marchetados de um local Caracterização do espaço rico, De ouro e de perlas, mais abaixo estavam do Olimpo e Organização luxuoso, do espaço. sublime. Os outros Deuses, todos assentados Os deuses sentam-se Como a Razão e a Ordem concertavam segundo a sua hierarquia. (Precedem os antigos, mais honrados, Mais abaixo os menores se assentavam); Quando Júpiter alto, assi dizendo, Introdução ao discurso de Júpiter – Discurso directo. Cum tom de voz começa grave e horrendo: 24 Apóstrofe, indicação dos – «Eternos moradores do luzente, destinatários do seu discurso – Apóstrofe e perífrase os restantes deuses Estelífero Pólo e claro Assento: Início do discurso de Júpiter Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Júpiter começa por recordar Deveis de ter sabido claramente que é do conhecimento geral Como é dos Fados grandes certo intento que os Fados têm a intenção de tornar este povo luso superior Que por ela se esqueçam os humanos aos antigos heróis. Enumeração De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
  • 31. 25 Já lhe foi (bem o vistes) concedido, Cum poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Júpiter recorda as vitórias e a protecção concedidas e Toda a terra que rega o Tejo ameno. realizadas pelos lusos. Pois contra o Castelhanovtão temido Lutou contra os Mouros e sinédoque contra os castelhanos e Sempre alcançou favor do Céu sereno: sempre foi protegido pelas Assi que sempre, enfim, com fama e glória, divindades. Os inimigos que teve Teve os troféus pendentes da vitória. de enfrentar 26 são apresenta Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, dos como Júpiter continua a relembra as “fortes” e Que co a gente de Rómulo alcançaram, raízes do povo português: “temidos”, reforçando Quando com Viriato, na inimiga . Guerra com os Romanos, o seu valor . A importância e valor de Viriato, Guerra Romana, tanto se afamaram; . Lendas romanas. Também deixo a memória que os obriga vocativo A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que, peregrino, Fingiu na cerva espírito divino.
  • 32. O 27 advérbio “agora” – Agora vedes bem que, cometendo Júpiter reconhece a força a antes O duvidoso mar num lenho leve, coragem para descobrir e explorar esteve a territórios em locais tão diferentes. falar do passado, Por vias nunca usadas, não temendo “agora” falará do de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve: presente – Que, havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, E diz que agora querem explorar o Inclinam seu propósito e perfia oriente. perífrase A ver os berços onde nasce o dia. 28 Prometido lhe está do Fado eterno, Júpiter reafirma que os Fados já Cuja alta lei não pode ser quebrada, determinaram a glória dos portugueses. Que tenham longos tempos o governo Do mar que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro Inverno; Júpiter considera os portugueses A gente vem perdida e trabalhada; merecedores de algum recobro e Já parece bem feito que lhe seja reconforto, pois as tripulações estão cansadas. Apresenta pois a Mostrada a nova terra que deseja. sua posição pessoal
  • 33. E porque, como vistes, têm passados A viagem tem levado a enfrentar Na viagem tão ásperos perigos, perigos, climas, intempéries… Tantos climas e céus exprimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Júpiter apresenta a sua Que sejam, determino, agasalhados determinação em apoiar os portugueses, mostrando-lhes terra Nesta costa Africana como amigos; e assegurando-lhes que serão bem E, tendo guarnecido a lassa frota, “agasalhados” para que depois possam seguir viagem. Tornarão a seguir sua longa rota.» Final do discurso de Júpiter Posição de Baco Estas palavras Júpiter dizia, Júpiter terminara o seu Quando os Deuses, por ordem respondendo, discurso e os deuses apresentam as suas Na sentença um do outro diferia, posições Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Baco, deus do vinho, teme perder a sua fama no Oriente. Que esquecerão seus feitos no Oriente Se lá passar a Lusitana gente.
  • 34. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Ũa gente fortíssima de Espanha Baco já tinha ouvido a fama deste povo e sabe que este povo levará ao Pelo mar alto, a qual sujeitaria esquecimento dos antigos heróis, Perífrase- Da Índia tudo quanto Dóris banha, entre eles, o próprio Baco. Pacífico/ oriente E com novas vitórias venceria E mais uma vez se reforça a ideia de que perderia a fama que ainda tem no A fama antiga, ou sua ou fosse estranha. Oriente (Nisa). Altamente lhe dói perder a glória De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado Baco nunca fora posto em causa por nenhum herói ou poeta. E nunca lhe tirou Fortuna ou caso Por vencedor da Índia ser cantado Perífrase - De quantos bebem a água de Parnaso. poetas Teme agora que seja sepultado Baco teme agora que o seu nome seja votado ao esquecimento e à “morte” – este Metáfora - Seu tão célebre nome em negro vaso medo reforça o valor dos lusos, pois são um esquecimen D' água do esquecimento, se lá chegam poder fora de comum. to Os fortes Portugueses que navegam.
  • 35. Posição de Vénus Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana Vénus defendia os portugueses: Por quantas qualidades via nela -Descendentes dos romanos; Da antiga, tão amada, sua Romana; - coragem e força Nos fortes corações, na grande estrela demonstrada; -Uso da língua com Que mostraram na terra Tingitana, origem latina. E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Vénus defendia os Estas causas moviam Citereia, portugueses, pois sabe que se eles tiverem E mais, porque das Parcas claro entende sucesso ela também Que há-de ser celebrada a clara Deia será louvada. Onde a gente belígera se estende. Assi que, um, pela infâmia que arreceia, Enquanto Baco se opõe, porque não E o outro, pelas honras que pretende, quer perder a fama, Debatem, e na perfia permanecem; Vénus defendia, pois deseja ser louvada. A qualquer seus amigos favorecem.
  • 36. Balanço da discussão Qual Austro fero ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura A agitação dos ventos era Com ímpeto e braveza desmedida, grande, evidenciando a Brama toda montanha, o som murmura, agitação da discussão gerada no Olimpo. Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: A natureza reflecte o Tal andava o tumulto, levantado humor dos deuses. Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
  • 37. Posição de Marte Mas Marte, que da Deusa sustentava Marte, porque Entre todos as partes em porfia, amava Vénus, ou porque a gente lusa o merecia, Ou porque o amor antigo o obrigava, tomou a palavra e uma posição. Ou porque a gente forte o merecia, Anáfora De antre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo, ao colo pendurado, Deitando pera trás, medonho e irado; Descrição de Marte 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro; Descrição de Marte – E dando ũa pancada penetrante deus forte, decidido, duro. Co conto do bastão no sólio puro, Faz-se ouvir e respeitar. O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado;
  • 38. Discurso de Marte E disse assi: – «Ó Padre, a cujo império Discurso de Marte – Tudo aquilo obedece que criaste: Começa por reforçar o Apóstrofe Se esta gente que busca outro Hemisfério, poder de Júpiter. Cuja valia e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Começa por reforçar o poder de Júpiter. Considera que Júpiter é Como há já tanto tempo que ordenaste, soberano e que não deve ouvir as Não ouças mais, pois és juiz direito, opiniões dos restantes deuses. Razões de quem parece que é suspeito. Deuses esses que são “suspeitos”. 39 Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Marte tenta provar que a opinião de Baco é fundada na inveja. Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vêm, seu tão privado; Considera ainda que a inveja nunca poderá roubar as glórias merecidas e Mas esta tenção sua agora passe, oferecidas pelo céu, como é o caso Porque enfim vem de estâmago danado; dos portugueses. Que nunca tirará alheia enveja O bem que outrem merece e o Céu deseja.
  • 39. Aposto E tu, Padre de grande fortaleza, Reforça novamente o poder de Da determinação que tens tomada Júpiter. Considera que Júpiter é Apóstrofe soberano que se voltar atrás com a Não tornes por detrás, pois é fraqueza sua posição é uma mostra de fraqueza. Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Finaliza o seu discurso, dizendo que Ao vento leve e à seta bem talhada, Mercúrio deverá, rapidamente, indicar um porto seguro, onde os Lhe vá mostrar a terra onde se informe portugueses sejam reabastecidos e orientados. Da Índia, e onde a gente se reforme.» Fim do discurso de Marte Como isto disse, o Padre poderoso, Júpiter concorda e termina este consílio. A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Todos os deuses regressaram aos Fazendo seus reais acatamentos, respectivos aposentos, aceitando a Pera os determinados apousentos. decisão tomada.
  • 40. Episódio de Inês de Castro - plano história de Portugal – episódio lírico Canto III – 119- 135
  • 41. Episódio de Inês de Castro - plano história de Portugal – episódio lírico Canto III – 119- 135 Episódio inclui-se no plano da História de Portugal, pois: • é narrado por Vasco da Gama, cujo narratário/destinatário é o Rei de Melinde. • surge na continuidade da apresentação do reinado de D. Afonso IV. Episódio é considerado um momento lírico, pois: •Exploram-se os sentimentos pessoais do narrador; • Dá-se expressão à emotividade e à exploração de sentimentos como o Amor, a crueldade, o sofrimento… • pode-se mesmo considerar que as principais características da tragédia clássica estão patentes: • Há o desenvolvimento de uma acção, que termina com a morte da protagonista; • Observa-se a lei das três unidades (acção, tempo e espaço); • Há uma motivação para sentimentos de terror e piedade; • A catástrofe é simbolizada pela morte da protagonista.
  • 42. Estrutura deste episódio A primeira parte, referente as causas da morte de Inês, vítima do amor. A segunda, constitui o desenvolvimento em que se descreve o modo de vida feliz e despreocupado que Inês tinha em Coimbra - é apresentada a razão de estado para que Inês deixe a vida, pois o perigo que representa a ligação de D. Inês com D. Pedro, receia o domínio espanhol. O poeta põe em questão a grandeza moral do Rei por solucionar o problema de seu reino mandando matar a sua própria filha: “Tirar Inês ao mundo, determina”; “Que furor consentiu que a espada fina, Que pôde sustentar o grande peso Do furor Mauro, fosse alevantada Contra üa fraca dama delicada?”. Também nesta segunda parte é redigido o discurso suplicante de Inês ao rei de Portugal, seu pai. Ela utiliza súplicas e argumento para comover o Rei na sua determinação - apresenta a sua situação de mãe e a orfandade de seus filhos, declara-se inocente perante toda a situação de futuro conflito, comove o rei dizendo-lhe que sendo um cavaleiro que sabe dar morte, também sabe ”dar vida, com clemência” e como alternativa à morte, dá preferência ao exílio. A terceira e última parte, constitui a reprovação do narrador, sublinhada pelo pranto comovente das “filhas do Mondego” e pela animização da Natureza, que chora a morte de Inês, sua antiga confidente.
  • 43. Episódio de Inês de Castro - plano história de Portugal – episódio lírico Canto III – 119- 135 Passada esta tão próspera vitória, Início remete para o plano da história Tornando Afonso à Lusitana terra, de Portugal – o episódio narrado anteriormente foi o da Batalha do A se lograr da paz com tanta glória Salado Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste, e dino da memória, O narrador introduz o caso de Inês de Que do sepulcro os homens desenterra, Castro, como um episódio do reinado A de D. AfonsoIV, remetendo já para os imparcialidade Aconteceu da mísera e mesquinha contornos do mesmo. do narrador Introdução Que depois de ser morta foi Rainha. Perífrase - D. Inês 119 de Castro Tu só, tu, puro Amor, com força crua, O narrador dirige-se ao Amor, atribuindo-lhe várias características: Apóstrofe e Que os corações humanos tanto obriga, - puro, mas cruel personificação do Amor Deste causa à molesta morte sua, -dominador e tirano; - causador da desgraça que conta; Como se fora pérfida inimiga. - cruel, que não se satisfaz com Se dizem, fero Amor, que a sede tua lágrimas, pois deseja sangue. Nem com lágrimas tristes se mitiga, comparação É porque queres, áspero e tirano, Tuas aras banhar em sangue humano.
  • 44. Estavas, linda Inês, posta em sossego, Apresentação de Inês, De teus anos colhendo doce fruto, remetendo para o momento anterior à sua morte: Naquele engano da alma, ledo e cego, Metáfora - beleza, juventude, em Coimbra Que a fortuna não deixa durar muito, - tranquilidade, - paz ilusória, Nos saudosos campos do Mondego, - já a presença do sofrimento De teus fermosos olhos nunca enxuto, amoroso Desenvolvimento Aos montes ensinando e às ervinhas Perífrase – O nome que no peito escrito tinhas. Pedro 121 Hipérbato: Do teu Príncipe ali te respondiam Este amor vive de memórias As lembranças do felizes e ilusórias. teu príncipe que na As lembranças que na alma lhe moravam, Também D. Pedro vive este alma lhe moravam, respondiam-te ali. Que sempre ante seus olhos te traziam, amor, da mesma forma. Quando dos teus fermosos se apartavam: Antítese De noite em doces sonhos, que mentiam, Oração relativa explicativa De dia em pensamentos, que voavam. É um amor marcado pela E quanto enfim cuidava, e quanto via, separação e pela saudade. Eram tudo memórias de alegria.
  • 45. 122 De outras belas senhoras e Princesas O Príncipe D. Pedro rejeita Os desejados tálamos enjeita, todas as outras damas, pois está apaixonado. Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza, Quando um gesto suave te sujeita. Vendo estas namoradas estranhezas Reacção do pai, D. Afonso IV: O velho pai sesudo, que respeita -O pai determina a morte de Desenvolvimento O murmurar do povo, e a fantasia Inês. - tem em conta dois Do filho, que casar-se não queria, elementos: o povo e o filho. Eufemismo - matar Tirar Inês ao mundo determina, Hipérbato: O rei acredita que ao matar Determina Por lhe tirar o filho que tem preso, tirar Inês ao Inês de Castro acabará com mundo Crendo co'o sangue só da morte indina o seu amor Oração Matar do firme amor o fogo aceso. subordinada O narrador mostra a sua causal Que furor consentiu que a espada fina, indignação e questiona o exercício deste poder e desta Que pôde sustentar o grande peso força, pois usa-se a mesma A imparcialidade Do furor Mauro, fosse alevantada força contra o Mouro feroz e do narrador contra uma fraca dama Contra uma fraca dama delicada? delicada.
  • 46. 124 Início da narração da sua Traziam-na os horríficos algozes execução: -Os executores trazem-na à Ante o Rei, já movido a piedade: presença do rei; Oração Mas o povo, com falsas e ferozes - mais uma vez são apresentadas coordenada as motivações desta morte, da adversativa Razões, à morte crua o persuade. responsabilidade do povo; Ela com tristes o piedosas vozes, - há aqui alguma desresponsabilização do rei… Saídas só da mágoa, e saudade Descrição da reacção de Inês à Desenvolvimento Do seu Príncipe, e filhos que deixava, prisão e condenação: Que mais que a própria morte a magoava, - O seu sofrimento não é pela sua 125 morte, mas por aqueles que deixa: Pedro e os filhos. Para o Céu cristalino alevantando Anteposição -Inês com os olhos repletos de Com lágrimas os olhos piedosos, do adjectivo – lágrimas … reforça a Os olhos, porque as mãos lhe estava atando crueldade dos executores. Um dos duros ministros rigorosos; v E depois nos meninos atentando, -… e tendo em atenção os seus filhos, dirigiu-se ao rei, avô dos Que tão queridos tinha, e tão mimosos, seus filhos. Cuja orfandade como mãe temia, Para o avô cruel assim dizia: Introdução ao discurso de Inês.
  • 47. - "Se já nas brutas feras, cuja mente Natura fez cruel de nascimento, Início do discurso de Inês: E nas aves agrestes, que somente -Começa por referir que a Nas rapinas aéreas têm o intento, Natureza e as feras não conseguem ser cruéis com as Com pequenas crianças viu a gente crianças, protegem-nas. Terem tão piedoso sentimento, Como coa mãe de Nino já mostraram, - ilustra com exemplo latino. Desenvolvimento E colos irmãos que Roma edificaram; Oração relativa 127 explicativa Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito, (Se de humano é matar uma donzela Continuação do Apóstrofe discurso de Inês: ao rei Fraca e sem força, só por ter sujeito . Dirige-se directamente O coração a quem soube vencê-la) ao rei: -apelando à sua A estas criancinhas tem respeito, humanidade e piedade; Pois o não tens à morte escura dela; -Invocando os seus filhos. Mova-te a piedade sua e minha, - afirma-se fraca, frágil Pois te não move a culpa que não tinha. e inocente.
  • 48. E se, vencendo a Maura resistência, Continuação do discurso de Oração Subordinativa A morte sabes dar com fogo e ferro, Inês: condicional Sabe também dar vida com clemência - refere que o rei sabe dar A quem para perdê-la não fez erro. morte aos seus inimigos também deve saber dar vida Mas se to assim merece esta inocência, aos inocentes. Põe-me em perpétuo e mísero desterro, Oração - no entanto, Inês apresenta Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente, Desenvolvimento coordenada outra hipótese ao rei, caso a adversativa Onde em lágrimas viva eternamente. queira condenar, apesar de inocente – o desterro. 129 Põe-me onde se use toda a feridade, - conclui o seu discurso Entre leões e tigres, e verei reforçando a ideia do desterro, dizendo que entre Se neles achar posso a piedade os animais mais ferozes Que entre peitos humanos não achei: poderia achar piedade que os No homens não têm. Ali com o amor intrínseco e vontade desterro Naquele por quem morro, criarei - termina usando novamente os filhos como argumento, Estas relíquias suas que aqui viste, dizendo que longe, no Que refrigério sejam da mãe triste." desterro as poderia criar e seriam o seu consolo.
  • 49. 130 Queria perdoar-lhe o Rei benino, Desculpabilização do rei e as pressões que sofre: O povo. Desenvolvimento Movido das palavras que o magoam; Mas o pertinaz povo, e seu destino (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. Arrancam das espadas de aço fino Momento da execução de D. Os que por bom tal feito ali apregoam. Inês, que causa sofrimento e Contra uma dama, ó peitos carniceiros, indignação ao narrador, visível na interrogação retórica. Feros vos amostrais, e cavaleiros? 131 "Qual contra a linda moça Policena, Início da terceira parte deste episódio com a reprovação do Consolação extrema da mãe velha, narrador e a exploração da parte mais lírica. Conclusão Porque a sombra de Aquiles a condena, Co'o ferro o duro Pirro se aparelha; - Estado contemplativo desta Mas ela os olhos com que o ar serena morte e associação a outros (Bem como paciente e mansa ovelha) episódios clássicos. Na mísera mãe postos, que endoudece, Ao duro sacrifício se oferece:
  • 50. 132 Tais contra Inês os brutos matadores Continuação da reprovação do No colo de alabastro, que sustinha narrador e a exploração da parte mais lírica. As obras com que Amor matou de amores Aquele que depois a fez Rainha; As espadas banhando, e as brancas flores, Que ela dos olhos seus regadas tinha, Se encarniçavam, férvidos e irosos, Conclusão No futuro castigo não cuidosos. 133 Bem puderas, ó Sol, da vista destes Teus raios apartar aquele dia, Como da seva mesa de Tiestes, Animização da Natureza, que Quando os filhos por mão de Atreu comia. chora a morte de Inês, sua antiga confidente. Vós, ó côncavos vales, que pudestes A voz extrema ouvir da boca fria, O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes, Por muito grande espaço repetisses!
  • 51. 134 Assim como a bonina, que cortada - Estado contemplativo desta Antes do tempo foi, cândida e bela, morte, destacando-se as características da inocente e Sendo das mãos lascivas maltratada comparando-a às flores. Da menina que a trouxe na capela, O cheiro traz perdido e a cor murchada: Tal está morta a pálida donzela, Secas do rosto as rosas, e perdida Conclusão A branca e viva cor, coa doce vida. 135 As filhas do Mondego a morte escura -É sublinhado o pranto Longo tempo chorando memoraram, comovente das “filhas do E, por memória eterna, em fonte pura Mondego” e é apresentada a animização da Natureza, que As lágrimas choradas transformaram; chora a morte de Inês, sua O nome lhe puseram, que inda dura, antiga confidente. -Natureza que criou uma fonte Dos amores de Inês que ali passaram. deste choro. Vede que fresca fonte rega as flores, – Quinta das lágrimas. Que lágrimas são a água, e o nome amores.
  • 52. 136 Não correu muito tempo que a vingança -O narrador apresenta a reacção feroz de D. Pedro a Não visse Pedro das mortais feridas, esta execução: Que, em tomando do Reino a governança, - - logo que se tornou rei, perseguiu e puniu os A tomou dos fugidos homicidas. executores de Inês. Do outro Pedro cruíssimo os alcança, Que ambos, imigos das humanas vidas, O concerto fizeram, duro e injusto, - comparação com exemplos de Conclusão Espanha e dos clássicos. Que com Lépido e António fez Augusto. -Pacto entre os reis que 137 obrigava um a entregar os criminosos ao outro se os Este, castigador foi rigoroso capturasse De latrocínios, mortes e adultérios: Fazer nos maus cruezas, fero e iroso, Eram os seus mais certos refrigérios. D. Pedro tornou-se um rei rigoroso e justo em relação a As cidades guardando justiçoso todos os crimes. De todos os soberbos vitupérios, D. Pedro, o justo. Mais ladrões castigando à morte deu, Que o vagabundo Aleides ou Teseu.
  • 53. 138 Do justo e duro Pedro nasce o brando, - O plano da história de (Vede da natureza o desconcerto!) Portugal prossegue, apresentando já o seu filho Remisso, e sem cuidado algum, Fernando, sucessor- D. Fernando, que Que todo o Reino pôs em muito aperto: teve um reinado fraco, chegando a ver o reino de Que, vindo o Castelhano devastando Portugal em risco face ao As terras sem defesa, esteve perto Castelhano. - Oposição entre os dois reis. De destruir-se o Reino totalmente; -Termina com uma máxima que transição Que um fraco Rei faz fraca a forte gente. Leitura justifica os períodos menos 139 bons deste povo vitorioso: Ou foi castigo claro do pecado De tirar Lianor a seu marido, - o narrador termina reflectindo ainda na E casar-se com ela, de enlevado possibilidade de o fraco Num falso parecer mal entendido; governo de D. Fernando ser um castigo, pois D. Fernando Ou foi que o coração sujeito e dado roubou Leonor Teles ao marido Ao vício vil, de quem se viu rendido, para casar com ela. -O narrador acusa-o de se Mole se fez e fraco; e bem parece, entregar à luxúria, daí o castigo Que um baixo amor os fortes enfraquece. e a fraqueza.
  • 54. Questionário: 1 – De que forma podemos dizer que este é um episódio do plano da história de Portugal? 1.1 – Comprova com versos do texto. 2 – Por que razão podemos também considerar este episódio lírico? 2.1 – Comprova com versos do texto. 3 – De acordo com o texto, apresenta a posição de D. Afonso IV face a esta mulher e a este relacionamento. Justifica. 4 – Apresenta a caracterização do Amor exposta pelo narrador. 5 – Estamos na presença de um narrador parcial ou imparcial? Justifica a afirmação e ilustra com versos. 6 – Ao longo do seu discurso, Inês de Castro tenta defender-se. Apresenta os seus argumentos de defesa. 7 – D. Pedro ficou conhecido pelo exercício da justiça. Justifica a afirmação e ilustra com versos. 8 – Apresenta um exemplo de apóstrofe e explora a sua intencionalidade. 9 – Apresenta um exemplo de interrogação retórica e demonstra a sua intencionalidade. 10 – Quais os elementos da natureza referidos na conclusão? Justifica estas alusões.
  • 55. Batalha de Aljubarrota - Plano da História de Portugal Canto – IV 28-45
  • 56. Episódio bélico apresentado em tom hiperbólico - referências ao número e valor dos inimigos - pormenores dos preparativos - valentia demonstrada Está Vasco da Gama a contar a História de Portugal ao Rei de Melinde; - refere a morte de D. Fernando e respectivas consequências; Depois da morte de D. Fernando, o Formoso, cuja filha D. Beatriz — com 11 anos apenas — casara com o rei de Castela, Portugal insurge-se contra a ideia de ser governado por um estrangeiro. A arraia-miúda das cidades e vilas e dos campos acompanhada por abastados mercadores e por alguns fidalgos, aclama D. João, mestre de Avis, defensor e regedor ou regente do Reino. -Refere toda a história da nomeação de D. João I, a Regedor e Defensor do Reino dá origem à batalha contra Castela que se travou em 14 de Agosto de 1383. -O Rei de Castela invade Portugal, e poucos eram os que queriam combater pela Pátria. Mas os que estavam dispostos a defender o seu Reino, de entre os quais se destacava Nuno Álvares Pereira, iriam defendê-lo com a convicção da vitória, pois o país vizinho tinha enfraquecido bastante no reinado de D. Fernando e D. João I era garantia de valor e sucesso e nunca Portugal tinha saído derrotado dos combates contra os Castelhanos. Na descrição da batalha, destacam-se as actuações de Nuno Álvares Pereira e de D. João, Mestre de Avis; salienta-se também o facto dos irmãos de Nuno combaterem contra a própria Pátria, acabando por morrer numa batalha em que foram traidores de Portugal. No final, Camões refere o desânimo e a fuga dos Castelhanos, que novamente foram derrotados pelos lusitanos.
  • 57. A partir do casamento, D. Leonor Teles tornara-se cada vez mais influente junto do rei, manobrando a sua intervenção política nas relações exteriores, e ao mesmo tempo cada vez mais impopular. Aparentemente, D. Fernando mostra-se incapaz de manter uma governação forte e o ambiente político interno ressente- se disso, com intrigas constantes na corte. Em 1382, no fim da guerra com Castela, estipula-se que a única filha legítima de D. Fernando, D. Beatriz de Portugal, case com o rei D. João I de Castela. Esta opção significava uma anexação de Portugal e não foi bem recebida pela classe média e parte da nobreza portuguesa. Quando D. Fernando morre em 1383, a linha da dinastia de Borgonha chega ao fim. D. Leonor Teles é nomeada regente em nome da filha e de D. João de Castela, mas a transição não será pacífica. Respondendo aos apelos de grande parte dos Portugueses para manter o país independente, D. João, mestre de Avis e irmão bastardo de D. Fernando, declara-se rei de Portugal. O resultado foi a crise de 1383-1385, um período de interregno, onde o caos político e social dominou. D. João tornou-se no primeiro rei da Dinastia de Avis em 1385.
  • 58. Batalha de Aljubarrota - plano da História de Portugal 28 Deu sinal a trombeta Castelhana, Início da batalha, dado pelo Horrendo, fero, ingente e temeroso; toque de trombeta que se gradação Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana ouviu desde a Galiza até ao sul Atrás tornou as ondas de medroso; de Portugal Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana; Personificação Batalha – 28 - 41 Correu ao mar o Tejo duvidoso; E as mães, que o som terríbil escutaram, Ao som do início da batalha as hipérbole Aos peitos os filhinhos apertaram. mães temeram pela segurança de seus filhos. 29 Quantos rostos ali se vêem sem cor, Há rostos sem cor e o terror é Sensações visuais Que ao coração acode o sangue amigo! grande, muitas vezes maior do Que, nos perigos grandes, o temor que o próprio perigo. É maior muitas vezes que o perigo; E se o não é, parece-o; que o furor De ofender ou vencer o duro amigo Durante o combate as pessoas, Faz não sentir que é perda grande e rara, com o furor de vencer, Dos membros corporais, da vida cara. esquecem-se do perigo e da possibilidade de ficarem feridas ou mesmo de perderem a própria vida.
  • 59. 30 Começa-se a travar a incerta guerra; De ambas partes se move a primeira ala; A guerra começa. Uns são movidos pela Presente Uns leva a defensão da própria terra, defesa da sua própria terra e outros pelo do Outros as esperanças de ganhá-la; desejo de vitória Indicativo Logo o grande Pereira, em quem se encerra Todo o valor, primeiro se assinala: D. Nuno Álvares Pereira destaca-se na Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia Dos que a tanto desejam, sendo alheia. luta. 31 Batalha – 28 - 41 Já pelo espesso ar os estridentes Sensações Farpões, setas e vários tiros voam; Descrição da cena de guerra. visuais Debaixo dos pés duros dos ardentes Características da descrição. auditivas Cavalos treme a terra, os vales soam; Portugueses lutam, mas os castelhanos Espedaçam-se as lanças; e as frequentes Quedas coas duras armas, tudo atroam; são mais numerosos Recrescem os amigos sobre a pouca Gente do fero Nuno, que os apouca. 32 D. Diogo e D. Pedro Pereira, irmãos de Eis ali seus irmãos contra ele vão, Nuno Álvares Pereira, estão a combater (Caso feio e cruel!) mas não se espanta, contra ele, “(caso feio e cruel)” – no Que menos é querer matar o irmão, entanto, não tão grave como combater Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta: contra o rei e a pátria. Destes arrenegados muitos são No primeiro esquadrão, que se adianta Contra irmãos e parentes (caso estranho!) No primeiro esquadrão há portugueses Quais nas guerras civis de Júlio e Magno. que renegaram a pátria e combatem contra seus irmãos, o que já acontecia no tempo dos clássicos.
  • 60. 33 Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano, Apóstrofe a figuras que traíram a sua Catilina, e vós outros dos antigos, pátria Que contra vossas pátrias, com profano Coração, vos fizestes inimigos, Se lá no reino escuro de Sumano Se estes traidores receberem castigos, Receberdes gravíssimos castigos, também os portugueses têm casos Dizei-lhe que também dos Portugueses destes. Alguns tredores houve algumas vezes. 34 Batalha – 28 - 41 Rompem-se aqui dos nossos os primeiros, Começa a haver perda de vidas. Tantos dos inimigos a eles vão! Está ali Nuno, qual pelos outeiros Entre todos está Nuno Álvares Pereira, De Ceita está o fortíssimo leão, general com experiência nas guerras de Que cercado se vê dos cavaleiros Ceuta. Ele encontra-se a ser atacado, Que os campos vão correr de Tetuão: perturbado, mas não com medo. Perseguem-no com as lanças, e ele iroso, Valorização do perfil de Álvares Pereira. Torvado um pouco está, mas não medroso. 35 Com torva vista os vê, mas a natura Ferina e a ira não lhe compadecem Que as costas dê, mas antes na espessura A sua natureza guerreira faz com que Das lanças se arremessa, que recrescem. não desista e continue a lutar. Tal está o cavaleiro, que a verdura Tinge co'o sangue alheio; ali perecem Morrem alguns portugueses, pois apesar Alguns dos seus, que o ânimo valente Perde a virtude contra tanta gente. de corajosos enfrentavam um poder maior.
  • 61. 36 Sentiu Joane a afronta que passava Nuno, que, como sábio capitão, D. João I, sabendo que D. Nuno Álvares Tudo corria e via, e a todos dava, corria perigo, acudiu à linha da frente Com presença e palavras, coração. para apoiar os guerreiros com a sua Qual parida leoa, fera e brava, presença e palavras de encorajamento. Que os filhos que no ninho sós estão, Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara, O pastor de Massília lhos furtara; Comparação com uma leoa que protege 37 as suas crias (norte de África) Batalha – 28 - 41 Corre raivosa, e freme, e com bramidos Os montes Sete Irmãos atroa e abala: Tal Joane, com outros escolhidos Dos seus, correndo acode à primeira ala: -"Ó fortes companheiros, ó subidos Discurso de encorajamento de D. João I. Cavaleiros, a quem nenhum se iguala, -Apelo ao patriotismo, à coragem, à Defendei vossas terras, que a esperança superioridade, responsabilidade, Da liberdade está na vossa lança. liberdade… 38 Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro, Que entre as lanças, e setas, e os arneses - reforça a ideia de que ele próprio está Dos inimigos corro e vou primeiro: no campo de batalha e deve ser o Pelejai, verdadeiros Portugueses!"- exemplo a seguir! Isto disse o magnânimo guerreiro, E, sopesando a lança quatro vezes, Com um único tiro, matou muitos Com força tira; e, deste único tiro, adversários. Muitos lançaram o último suspiro.
  • 62. 39 Reacção ao discurso de Porque eis os seus acesos novamente O ânimo volta e continuam a lutar rei Duma nobre vergonha e honroso fogo, com coragem e progredindo na Sobre qual mais com ânimo valente batalha. Perigos vencerá do Márcio jogo, Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente; Rompem malhas primeiro, e peitos logo: Assim recebem junto e dão feridas, Como a quem já não dói perder as vidas. Já nem temem perder a vida. 40 Batalha – 28 - 41 Entre os muitos mortos A muitos mandam ver o Estígio lago, são apontados: o mestre Em cujo corpo a morte e o ferro entrava: de Santiago, D. Pedro O Mestre morre ali de Santiago, São mortas várias figuras ilustres, Moniz, ou Munoz, e os entre elas, os irmãos de Nuno irmãos de D. Nuno, os Que fortíssimamente pelejava; Morre também, fazendo grande estrago, Álvares Pereira. renegados, um deles mestre de Calatra-va. Outro Mestre cruel de Calatrava; Alguns comentadores Os Pereiras também arrenegados dão, porém, o mestre de Morrem, arrenegando o Céu e os fados. Santiago como morto em Valverde. 41 Muitos também do vulgo vil sem nome São mortos outros menos ilustres e Vão, e também dos nobres, ao profundo, outros nobres. Onde o trifauce Cão perpétua fome Tem das almas que passam deste mundo. Muitos são feridos, muitos Perífrase - E porque mais aqui se amanse e dome morrem, mas a bandeira inferno A soberba do amigo furibundo, A sublime bandeira Castelhana castelhana é derrubada aos pés Foi derribada aos pés da Lusitana. da lusitana. Resultado da Batalha
  • 63. 42 Aqui a fera batalha se encruece Com a queda da bandeira castelhana, a Com mortes, gritos, sangue e cutiladas; batalha tornou-se ainda mais cruel. A multidão da gente que perece Enumeração Tem as flores da própria cor mudadas; Já as costas dão e as vidas; já falece Sem forças para combaterem, os O furor e sobejam as lançadas; castelhanos começam a fugir e o rei de Metáfora Já de Castela o Rei desbaratado Castela vê-se derrotado e impedido de Se vê, e de seu propósito mudado. atingir o seu propósito/objectivo. 43 O campo vai deixando ao vencedor, O rei vai abandonando o campo de Contente de lhe não deixar a vida. batalha e atrás dele fogem todos os Seguem-no os que ficaram, e o temor castelhanos com grade dor, devido: Lhe dá, não pés, mas asas à fugida. -à morte; Encobrem no profundo peito a dor -Aos meios gastos e perdidos; Da morte, da fazenda despendida, - à mágoa e desonra; Enumeração Da mágoa, da desonra, e triste nojo - ao luto de ser vencido. De ver outrem triunfar de seu despojo. 44 Reacções à derrota: Alguns vão maldizendo e blasfemando -Uns maldizem a guerra; Do primeiro que guerra fez no mundo; -Outros maldizem a ambição de desejar Outros a sede dura vão culpando o que não é seu. Do peito cobiçoso e sitibundo, Que, por tomar o alheio, o miserando Povo aventura às penas do profundo, Deixando tantas mães, tantas esposas - A derrota causa dor em muitas mães, Sem filhos, sem maridos, desditosas. esposas, filhos…
  • 64. 45 O vencedor Joane esteve os dias Fazia parte do ritual destas Costumados no campo, em grande glória; guerras permanecer o vencedor Com ofertas depois, e romarias, alguns dias no campo da As graças deu a quem lhe deu vitória. batalha, dando assim ao Mas Nuno, que não quer por outras vias vencido oportunidade de Entre as gentes deixar de si memória desforra. Senão por armas sempre soberanas, Para as terras se passa Transtaganas. São Nuno foi canonizado pelo Papa Bento XVI em 26 de Abril de 2009.
  • 65. Partida das naus , o velho do restelo - plano da História de Portugal e início da viagem Canto – IV 83-89 / 94-104
  • 66. O projecto para o caminho marítimo para a Índia foi delineado por D. João II como medida de redução dos custos nas trocas comerciais com a Ásia e tentativa de monopolizar o comércio das especiarias. A juntar à cada vez mais sólida presença marítima portuguesa, D. João almejava o domínio das rotas comerciais e expansão do reino de Portugal que já se transformava em Império. Porém, o empreendimento não seria Portugal (, 3 de Maio de 1455 – Alvor, 25 de realizado durante o seu reinado. Seria o seu sucessor, D. Outubro de 1495) Manuel I que iria designar Vasco da Gama para esta expedição, embora mantendo o plano original. Na preparação da partida das naus de Vasco da Gama para a Índia, sobressai no meio da confusão um alvoroço e ao mesmo tempo um desejo de alcançar o trajecto pretendido. Após a citação do chamado Velho do Restelo, deu-se a Portugal (, 31 de Maio partida; ficaram para trás as terras portuguesas e de 1469 — Lisboa, 13 de Dezembro de 1521) apenas o mar e o céu infinitos cabiam na visão dos lusitanos.
  • 67. Partida das naus , o velho do restelo - plano da História de Portugal e início da viagem Canto – IV 83-89 / 94-104 Preparação do rei Foram de Emanuel remunerados, Porque com mais amor se apercebessem, D. Manuel é o responsável pela E com palavras altas animados organização deste grupo. Tê-lo- Para quantos trabalhos sucedessem. á incentivado e motivado. Assim foram os Mínias ajuntados, Para que o Véu dourado combatessem, Tal como já acontecera no mar Na fatídica Nau, que ousou primeira Negro Tentar o mar Euxínio, aventureira. Apresentação dos 84 marinheiros e E já no porto da ínclita Ulisseia Já no Porto de Lisboa, em soldados C'um alvoroço nobre, e é um desejo, Belém, onde o rio Tejo encontra Perífrase - (Onde o licor mistura e branca areia o mar. Lisboa Co'o salgado Neptuno o doce Tejo) As naus prestes estão; e não refreia As naus já estão prontas e o Narrador Temor nenhum o juvenil despejo, ânimo dos marinheiros e participante: Porque a gente marítima e a de Marte soldados é elevado. Vasco da Estão para seguir-me a toda parte. Gama a 85 contar a Pelas praias vestidos os soldados própria De várias cores vêm e várias artes, Descrição dos soldados, prontos viagem E não menos de esforço aparelhados para descobrir novos mundos. Para buscar do mundo novas partes. Nas fortes naus os ventos sossegados Ondeam os aéreos estandartes; As naus são personificadas e Elas prometem, vendo os mares largos, prometem levar aqueles De ser no Olimpo estrelas como a de Argos. homens à imortalidade.
  • 68. 86 Depois de aparelhados desta sorte As condições físicas estão De quanto tal viagem pede e manda, asseguradas, há que preparar o Aparelhamos a alma para a morte, espírito para o perigo da morte, que sempre existe. Que sempre aos nautas ante os olhos anda. Para o sumo Poder que a etérea corte Vasco da Gama recorda a Perífrase: Sustenta só coa vista veneranda, oração e pedido de protecção e Deus Imploramos favor que nos guiasse, ajuda a Deus para esta viagem. E que nossos começos aspirasse. Deus Cristão 87 Partimo-nos assim do santo templo Partiram da ermida de Nossa S. Perífrase: Belém Que nas praias do mar está assentado, de Belém. Que o nome tem da terra, para exemplo, Donde Deus foi em carne ao mundo dado. Apóstrofe: Rei de Certifico-te, ó Rei, que se contemplo Apóstrofe ao rei de Melinde, Melinde Como fui destas praias apartado, recordando a dúvida e o receio Cheio dentro de dúvida e receio, que sentira, mas que tentara Apresentação do Que apenas nos meus olhos ponho o freio. disfarçar. estado de espírito de Vasco da Gama
  • 69. 88 Apresentação do estado de espírito A gente da cidade aquele dia, No dia da partida, havia muitos das gentes (Uns por amigos, outros por parentes, presentes descontentes/ Outros por ver somente) concorria, infelizes. Saudosos na vista e descontentes. E nós coa virtuosa companhia A comitiva fez-se acompanhar de religiosos em procissão. De mil Religiosos diligentes, Em procissão solene a Deus orando, Para os batéis viemos caminhando. 89 Em tão longo caminho e duvidoso O povo não acreditava no Por perdidos as gentes nos julgavam; sucesso desta expedição. As mulheres c'um choro piedoso, Enumeração Os homens com suspiros que arrancavam; de pessoas que não Mães, esposas, irmãs, que o temeroso acreditavam Amor mais desconfia, acrescentavam voltar a ver A desesperarão, e frio medo os que embarcavam De já nos não tornar a ver tão cedo.
  • 70. 90 Qual vai dizendo: -" Ó filho, a quem eu tinha Apresentam-se dois casos de Só para refrigério, e doce amparo lamúrias/queixas: Desta cansada já velhice minha, . Os filhos que deveriam Que em choro acabará, penoso e amaro, acompanhar os pais e ajudá-los Por que me deixas, mísera e mesquinha? são afastados. Por que de mim te vás, ó filho caro, A fazer o funéreo enterramento, Onde sejas de peixes mantimento!" – 91 "Qual em cabelo: -"Ó doce e amado esposo, . Os homens que abandonavam Sem quem não quis Amor que viver possa, os lares para se aventurarem no Por que is aventurar ao mar iroso mar. Essa vida que é minha, e não é vossa? Como por um caminho duvidoso * Crítica aos descobrimentos ao Vos esquece a afeição tão doce nossa? facto de se abandonar o país e o Nosso amor, nosso vão contentamento seu desenvolvimento. Quereis que com as velas leve o vento?" - 92 Nestas e outras palavras que diziam O narrador diz que todos De amor e de piedosa humanidade, tinham esta perspectiva. Os velhos e os meninos os seguiam, Em quem menos esforço põe a idade. Os montes de mais perto respondiam, Quase movidos de alta piedade; E até a natureza responde a A branca areia as lágrimas banhavam, esta dor. Que em multidão com elas se igualavam. Personificação
  • 71. 93 Nós outros sem a vista alevantarmos O narrador diz que a tripulação não parou os seus Nem a mãe, nem a esposa, neste estado, olhos naqueles que deixava para não sofrerem, Por nos não magoarmos, ou mudarmos nem se deixarem mover dos seus propósitos. Do propósito firme começado, Determinei de assim nos embarcarmos Vasco da Gama não quis demorar as despedidas Sem o despedimento costumado, que sempre magoam. Que, posto que é de amor usança boa, A quem se aparta, ou fica, mais magoa. 94 Mas um velho d'aspeito venerando, Que ficava nas praias, entre a gente, Postos em nós os olhos, meneando Três vezes a cabeça, descontente, A voz pesada um pouco alevantando, Que nós no mar ouvimos claramente, C'um saber só de experiências feito, Leitura Tais palavras tirou do experto peito: 95 - Ó glória de mandar! Ó vã cobiça Desta vaidade, a quem chamamos Fama! Ó fraudulento gosto, que se atiça C'uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles experimentas!
  • 72. Adamastor - plano da História de Portugal /viagem – episódio lendário Canto – V 39-60
  • 73.
  • 74. Adamastor - estrutura • Inspirado em Homero e Ovídio, o episódio do Gigante Adamastor é o mais rico e complexo do poema. de natureza simbólica, mitológica e lírica. • Compõe-se de vinte e quatro estrofes (canto V, 37 - 60), assim distribuídas: Estrofes 37-38: introdução (2) Estrofes 39-48: Adamastor (10) Estrofe 49: transição (1) Estrofes 50-59: Adamastor (10) Estrofe 60: epílogo (1) Como se vê, há uma distribuição muito equilibrada das partes: das vinte e quatro estrofes, quatro se destinam à introdução, transição e epílogo; as vinte restantes, divididas ao meio, apresentam o herói da sequência. Tanto Vasco da Gama como o Adamastor aparecem como narradores e como personagens.
  • 75. No plano histórico, simboliza: - a superação pelos portugueses do medo do “Mar Tenebroso”, das superstições medievais que povoavam o Atlântico e o Índico de monstros e abismos. - Adamastor é uma visão, um espectro, uma alucinação que existe só nas crendices dos portugueses. É contra seus próprios medos que os navegadores triunfam. No plano lírico é um dos pontos altos do poema, retomando dois temas constantes da lírica camoniana: - o do amor impossível e o do amante rejeitado. Adamastor, um dos gigantes filhos da Terra, apaixonou-se pela nereida Tétis. Não correspondido, tenta tomá-la à força, provocando a cólera de Júpiter, que o transforma no Cabo das Tormentas, personificado numa figura monstruosa, lançada nos confins do Atlântico. Este episódio é importante, pois nele se concentram as grandes linhas da epopeia: 1. O real maravilhoso (dificuldade na passagem do cabo). 2. A existência de profecias (história de Portugal). 3. Lirismo (história de amor); 4. É também um episódio trágico, de amor e morte; 5. É um episódio épico, em que se consolida a vitória do homem sobre os elementos (água, fogo, terra, ar);
  • 76. Resumo do Enredo Introdução (est. 37, 38, Canto V): · Preparação do ambiente para o aparecimento do gigante: depois de cinco dias claros, com ventos calmos, com os marinheiros “descuidados”, surge uma nuvem negra “tão temerosa e carregada” que põe “nos corações um grande medo” e leva Vasco da Gama a interpelar o próprio Deus todo-poderoso. Aparecimento do monstro e sua descrição (est. 39, 40, Canto V). · Caracterização directa e indirecta do monstro, sobretudo através de uma adjectivação sugestiva e abundante, para realçar a imponência da figura e o terror e a estupefacção do Gama e dos seus companheiros (“Arrepiam-se as carnes e o cabelo/A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê- lo.” (est. 40. Vv- 7-8, Canto V). Discurso do gigante (1ª parte) (est. 41-48, Canto V). Glorificação épica. · Discurso de carácter profético e ameaçador, através do qual Adamastor, num tom de voz “horrendo e grosso” anuncia os castigos e danos por si reservados para aquela “gente ousada” que invadira o seu reino (dos mares): . A “suma vingança” (a morte) de quem o descobriu (Bartolomeu Dias); . A morte de D. Francisco de Almeida, primeiro Vice-rei da Índia; . O naufrágio e a morte da família Sepúlveda; . E, para além destes casos particulares, as naus portuguesas terão sempre “inimiga esta paragem” através de “naufrágios, perdições de toda sorte/Que o menor mal de todos seja a morte”.
  • 77. Interpelação do Gama (est. 49, Canto V). · Gama já incomodado com todas aquelas profecias de desgraça, interroga o monstro sobre a sua identidade. É essa pergunta tão simples que promove a profunda viragem do seu discurso, fazendo-o recordar a frustração amorosa passada e meditar na sua actual condição de degredado solitário e petrificado. Discurso do gigante (2ª parte) (est. 50-59, Canto V). Lirismo amoroso e elegíaco. · A resposta à pergunta de Gama tem carácter autobiográfico e tom elegíaco (lamentação, triste) (“com voz pesada e amara”) e disfórico, pois assistimos à evocação do seu passado amoroso infeliz. Epílogo (est. 60, Canto V). · Súbito desaparecimento do Gigante, agora choroso pela recordação do seu passado triste e levando consigo a nuvem negra e o “sonoro bramido” do mar com que aparecera. Pedido de Gama a Deus para que remova “os duros casos, que Adamastor contou futuros”.
  • 78. 37 - Porém já cinco sóis eram passados A viagem da esquadra é rápida e Que dali nos partíramos, cortando Introdução – preparação do cenário próspera até uma nuvem que escurece Os mares nunca doutrem navegados, os ares surge sobre as cabeças dos Prosperamente os ventos assoprando, navegantes. Quando uma noite, estando descuidados Na cortadora proa vigiando, hipérbato Uma nuvem, que os ares escurece, Sobre nossas cabeças aparece. Discurso de 1º pessoa 38 - A nuvem escura que surgiu vinha tão Tão temerosa vinha e carregada, carregada que encheu de medo os Que pôs nos corações um grande medo; navegantes. O mar, ao longe, fazia grande Bramindo, o negro mar de longe brada, ruído ao bater contra os rochedos. Como se desse em vão nalgum rochedo. "Ó Potestade (disse) sublimada: Vasco da Gama, atemorizado, lança voz à Que ameaço divino ou que segredo tempestade perguntando o que era ela, que Este clima e este mar nos apresenta, parecia mais que uma simples tormenta marinha. Que mor cousa parece que tormenta?" O cenário aterrador fará a imagem do Gigante ainda mais terrível e assustadora. comparação
  • 79. Desenvolvimento: Aparecimento do monstro e sua descrição 39 - Vasco da Gama não havia terminado de falar quando surgiu uma figura enorme. Segue-se a descrição do Não acabava, quando uma figura mostrengo/Adamastor: Se nos mostra no ar, robusta e válida, - de rosto fechado, de olhos encovados, De disforme e grandíssima estatura; de postura má, de cabelos crespos e cheios de terra, de boca negra e de O rosto carregado, a barba esquálida, dentes amarelos. Esta passagem é Os olhos encovados, e a postura meramente descritiva. Medonha e má e a cor terrena e pálida; Cheios de terra e crespos os cabelos, Discurso de 1º A boca negra, os dentes amarelos. pessoa Exemplos Tão grande era de membros, que bem posso clássicos Certificar-te que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso, 40 - A figura era tão enorme que Que um dos sete milagres foi do mundo. poder-se-ia jurar ser ela o segundo Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso, Colosso de Rodes. Surge no quarto verso a introdução da fala do Que pareceu sair do mar profundo. Gigante, cuja voz fazia arrepiar os Arrepiam-se as carnes e o cabelo, cabelos e a carne dos navegantes. A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo! O Colosso de Rodes foi uma estátua de Hélios, deus grego do sol, construída entre 292 a.C. e 280 a.C. pelo escultor Carés de Lindos. A estátua tinha trinta metros de altura, 70 toneladas e era feita de bronze. Tornou-se uma das sete maravilhas do mundo antigo.