Regina Kioko  - Ciranda Azul - http://rkioko.blogspot.com/2009/03/ciranda-azul.html  Ciranda Reflexiva II  SIEPE  -  2010
Liane Araujo Mary Arapiraca Eventos de Letramento
A Bordo do Rui Barbosa Chico Buarque
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Bordo do Rui Barbosa Chico Buarque Ilustrações: Vallandro Keating Disponível em: http://www.chicobuarque.com.br
Mafalda, Quino
Danilo, 6 anos. In: O diálogo entre o ensino e a aprendizagem, Telma Weisz, Ed. Ática, p. 86
Texto encontrado no elevador de um prédio
Letramento
Histórico e significados Definição: Mary Kato,  literacy Analfabetismo funcional; alfabetismo Lêda Tfouni foi quem primeiro tratou do conceito, no Brasil, segundo Magda Soares Significados do Letramento, Ângela Kleiman Modelos autônomo e modelo ideológico (Street,  apud  Kleiman) Oralidade como prática discursiva letrada (fala letrada); oralidade secundária (ONG) Letrado e letramento x letrado, culto, erudito
 
Ângela Kleiman Leda Tfouni Magda Soares Silvia Terzi
A despeito de algumas diferenças conceituais, todas essas autoras concordam, entretanto, que o núcleo do conceito de letramento diz respeito às  práticas sociais de leitura e de escrita , para além da aquisição do sistema de escrita, ou seja, para além da alfabetização.
ALFABETIZAÇÃO EM CONTEXTO DE LETRAMENTO L A A LETRAMENTO
LETRAMENTO Usos, conhecimentos, valorização da escrita  e  valores e crenças em torno da escrita (Terzi)
Usos  Usos da escrita:  ler e escrever autonomamente ou com apoio, em diversas situações, com diferentes funções, para atingir diversos fins e participar de práticas diversas de leitura e escrita da sociedade;
Conhecimentos Conhecimentos gerais  obtidos através de práticas letradas, seja autonomamente ou por intermédio de outros. Conhecimentos   da própria escrita : funções da escrita, funções e características de gêneros textuais diversos, linguagem própria da escrita, variedades linguísticas/norma culta
Valorização   da escrita, sua importância, consideração da função da escrita na sociedade; Crenças   e   valores   atribuídos à escrita por indivíduos e grupos sociais.
Desdobramentos do conceito Letramento crítico  Letramento literário Múltiplos letramentos/Letramentos Letramento visual, letramento digital... Letramento na “cultura de papel” e letramento na cibercultura Alfabetização semiótica
Letramento na cibercultura As tecnologias tipográficas e digitais de escrita têm diferenciados efeitos sobre o estado ou condição de quem as utiliza. É preciso, então, reconhecer, como nos ensina Magda Soares (2002), que diferentes tecnologias de escrita criam diferentes  letramentos .
O que é Letramento? Letramento não  é  um gancho  em que se pendura cada som enunciado, não  é  treinamento repetitivo de uma habilidade, nem um martelo quebrando blocos de gram á tica. Letramento  é  diversão,  é  leitura  à  luz de vela ou l á  fora,  à  luz do sol.
São not í cias sobre o presidente. O tempo, os artistas da tevê e mesmo Mônicas e Cebolinhas nos jornais de domingo. É uma receita de biscoito, uma lista de compras, recados colados na geladeira, um bilhete de amor, telegramas de parab é ns e cartas de amigos.
É viajar para países desconhecidos, sem deixar sua cama. É rir e chorar com personagens, heróis  e grandes amigos.   É um atlas do mundo, sinais de trânsito,  caças ao tesouro,  manuais, instruções, guias e orientações em bulas de remédio  para que você não fique perdido.
Letramento é, sobretudo,  um mapa do coração do homem, um mapa de quem você é e de tudo que você pode ser. Poema de Kate Chong, extraído do livro  Letramento, um tema em três generos , de Magda Soares
Eventos de letramento Ilustração: André Neves, confabulandoimagens.com.br
Joaquim, antes de um ano
Joaquim, antes de um ano
Não tinha nem um ano...
Comendo livros Aconteceu de um dia, num shopping, Joaquim estar já meio inquieto no seu carrinho e, contando já com todo o percurso até o carro – eu, ele, carrinho – comprei-lhe algo para ocupar as mãos e a atenção. O livrinho estava em cima do balcão onde eu já acertava as contas com a loja – mamadeiras e outras coisinhas. Olhei, gostei, levei. Era aquele pequeninho, da coleção “Quem mora”: “Quem mora no jardim”. Desses que devemos abrir as abas, em cada página, para descobrir o que/quem se esconde atrás de alguma coisa. No caso, bichos do jardim.  Já no meio do caminho até o carro, depois de manusear de todo modo, o livrinho foi à boca. Lógico! Passei a semana brincando com a ideia de que ele já era um menino letrado: come livros!!! E ele o “comeu” por muito tempo, mas sem deixar de manuseá-lo de outros modos e de ficar atento, até a metade, ao menos, quando eu o lia, encontrando festivamente os bichinhos por detrás das abas.  Depois de um tempo, nenhum desses livros – vieram outros depois – tinham mais abas! Ele descobriu alguma graça em destruí-los.  Peguei um dia ele tentando recolocar as abas no lugar. Acho que percebeu que a leitura não tinha mais o mesmo gosto da surpresa sem elas...
Informações mandada pela mãe quando ficava com o pai. E Dodó, com esse papel debaixo do braço, “lia” e dizia: “meu bilhete”, 1 ano e meio
Joaquim, 2 anos e meio: “aqui, o desenho, aqui, o  iquitinho,  o nome” Escrever antes de saber escrever
Joaquim, 2 anos e meio: escrevendo no cantinho dos desenhos: Dona Lica, papai, vovó, Zazá, Val...
Mila lê Ler antes de saber ler
Eventos de Letramento
Eventos de letramento  São ocorrências em que a língua escrita é essencial à natureza das interações e determinante dos   processos e estratégias produtivas e   interpretativas de seus participantes. (inspirado em Heath,  apud  MAYRINK-SABINSON 1988)
Eventos de letramento: antes  durante depois ...da alfabetização
Eventos de letramento  X Práticas de letramento
Uma  prática  social de leitura e escrita, ou seja, uma pratica letrada, como, por exemplo, mandar convites de aniversário para os amigos, pode dar margem a diversos  eventos  de letramento, como  Luan   e  Joaquim   lendo os convites de seus colegas da escola, antes, inclusive, de saberem, de fato, ler.
Luan  lendo um convite
 
Os eventos de letramento podem se dar em  presença da escrita  (leitura ou produção), ou seja, na presença concreta do portador de escrita, ou em  situações orais  que tomam a escrita como foco de atenção, objeto de interação.
O modo de participação nas práticas de leitura e escrita, ainda na  oralidade , é ressaltado, pois as práticas orais são apontadas como fundamentais para o processo letramento (oralidade letrada), favorecendo a construção de uma relação com a escrita como prática sociodiscursiva e como objeto.
Nas práticas orais, a escrita e a leitura ganham sentido para a  criança , especialmente nas conversas, nos jogos interacionais e nos de faz-de-conta, em torno da escrita, fundamentais no desenvolvimento do letramento.  Para o  adulto , em diversas situações cotidianas, atravessadas, de algum modo, pelo universo da escrita.
Numa sociedade letrada, a oralidade constitui-se como uma  oralidade secundária  (ONG, 1998), atravessada pelas práticas letradas existentes nessa sociedade.
O desenvolvimento da linguagem escrita e do processo de letramento de uma criança tem relação com o  grau de letramento da família  e dos  grupos sociais  dos quais participa, que afeta, provoca o letramento da criança. ...assim como tem relação com o seu  modo de participação  nas práticas discursivas escritas e orais que ressaltam usos, conhecimentos e valores da escrita.
É na  interação  com os outros, adultos e outras crianças que participam do mundo letrado, que a escrita vai se constituindo como  foco de interesse  da criança.  O outro é  co-construtor  do interesse do sujeito pela escrita e do fato desta torná-la foco de sua atenção.     Perspectiva sociointeracionista, sociodiscursiva de letramento
Os adultos letrados têm um papel fundamental nessa constituição, pois  interpretando  os atos das crianças como atos de leitura e escrita e essas como práticas merecedoras de atenção, tornam observáveis e dignos de interesse vários aspectos relativos à escrita e leitura.
Em cena...a delicadeza... De como  o sujeito é provocado pelos eventos envolvendo um outro Mary  escreveu, no computador, um texto para Lou, sobrinha querida, pedido dela para o seu aniversário. Depois o transformou em slides no  Power Point . Falava poeticamente de Lou, de suas qualidades, sua delicadeza...  Delicadeza, delicadeza, delicadeza... Mila  quis fazer um também e, sozinha, digitou seu texto, usando uma estrutura próxima ao da avó e sua ortografia de menina recém alfabetizada.  Delicadeza, delicadeza, delicadeza... Luan  quis também... Foi ditando para Mila, dizendo seu texto para Lou. Juntos, transformaram tudo em slides, para apresentar na festa de Lou.
Os  eventos de letramento  que ocorrem no meio digital, com o suporte do computador e com a intermediação da Internet, exigem novas práticas e novas habilidades de leitura e de escrita.
Eventos de Letramento A  constituição da escrita como   foco de interesse  se dá de  diferentes modos , que implicam a participação em  eventos de letramento  em que a escrita ou está presente ou é tomada como objeto de atenção nas interações. Esses diferentes modos podem se associar em um mesmo evento.
A  constituição da escrita como   foco de interesse Usos e funções   da escrita como foco:  interações  ou  participação  em torno das funções, relacionadas ou não a outros aspectos – forma, conteúdo, disposição – dos textos que circulam socialmente. Ex. conversa sobre um livro, ou sobre uma receita de bolo, lista de compras, agenda, lista telefônica; pedir que um outro leia um trecho do jornal para obter determinada informação...
Exemplos Seguindo os passos do pai, Joaquim pegou seu violãozinho de madeira e começou a cantar. Parou. Procurava algo. - Cadê o  livo , mãe? - Que livro, filho? - O  livo pá  cantar... E assim foi ele até seus livros, pegou qualquer um e abriu, colocando no pufe e aí, sim, tocando e cantando o seu violão. Importante era ter o livro para olhar, tal qual seu pai, que abre o seu de canções cifradas.
Mila acompanha a avó que assistia a uma palestra e anotava coisas. De repente, pergunta, apontando:  - Vó, você está rabiscando aí o que ele tá falando lá? Subiam os créditos finais do filme que acabara de assistir no DVD. Fazendo gestos seguidos de apontar a tela da TV, de baixo para cima, como sobem os créditos, Joaquim diz:  - Mãe, o que é esses  iquitinhos  aí?
No caso das crianças,  brincadeiras  remetendo-se a situações do dia-a-dia que incluem a escrita: Ex. tomar nota, preencher fichas, cheques, listar, olhar a lista telefônica, ao brincar de casinha ou mercado.  Daí a importância de, na Educação Infantil, disponibilizar nos espaços preparados para as brincadeiras livres, diversos portadores de escrita que podem ser incluídos nas brincadeiras das crianças, como agendas, talões de cheque, papel, folhetos de supermercado, lista telefônica, computador etc.
2.  Conteúdos do universo da escrita e marcadores de gêneros textuais  como foco : Seja em presença ou ausência de textos, trazer para as práticas orais conteúdos e conhecimentos adquiridos por meio de práticas letradas.  Ex. fazer referência a elementos de narrativas conhecidas, falar de temas ou de aspectos que são aprendidos por meio de textos, de práticas letradas etc.
Exemplos: A babá e sua filha, que fazia faxina em casa vez por outra, conversavam na cozinha sobre um namorado que a outra filha dela arrumara. E, no meio da conversa, a irmã, referindo-se ao universo dos contos maravilhosos, diz: - Esse está mais pra sapo do que pra príncipe...
Com 3 anos e meio, se achando um menino grande, Joaquim não quer mais chamar a mamãe quando acorda, para pedir o leitinho. Levanta sozinho, procura sua babá na cozinha, vai para a sala, brinca com seus carrinhos, ou fica cantarolando, conversando com seus brinquedos no quarto.  Certo dia, ouvindo a casa em silêncio, pois a babá não havia chegado e ninguém havia ainda acordado – e certamente querendo atenção ou leitinho – ficou enrolando na cama, virando para lá e para cá, e de repente soltou essa: - Cocolicó, cocolicó!!! - Cocolicó, cocolicó!!! (mais alto) Menino urbano, certamente não aprendeu isso na experiência, não tem essa vivência de roça. Aprendeu que o galo canta para acordar os outros em filmes e livros, provavelmente no seu livro Dorminhoco, em que o cachorro que dorme e ronca, depois das tentativas frustradas de todos os bichos de acordá-lo, é despertado pelo galo que canta ao amanhecer...
Usar marcadores que caracterizam gêneros textuais articulados a práticas letradas. Ex. Ao pegar um livro, usar ao  “Era uma vez...”, “Um dia...” para as histórias. Ou ao ditar uma carta, usar marcadores desse gênero, como uma fórmula de abertura, data, saudação, despedida, assinatura.
Exemplos Com pouco mais de 2 anos, ao contar as histórias que ouvia na escola ou quando abria os livros, Joaquim dizia: “ Um dia...”,“ Ela  uma vez...”, “e  folam  felizes pala  sempe ”, reconhecendo e usando esses marcadores de abertura e fechamento das narrativas.
3. Ação de produzir leitura e escrita  como foco: a. Ações de leitura e escrita  autônoma , ainda que rudimentares e sem o domínio ainda completo do sistema de escrita; b. Diante de suportes de leitura e escrita,“falar como se lesse”, “fazer-de-conta que lê”, “falar à maneira da escrita...”; “agir como se escrevesse”; “fazer-de-conta que escreve”, ler sem saber ler, escrever sem saber escrever convencionalmente.
“ Mãe, aqui eu  tô  fazendo um plano, ó!  É nosso plano de mudança... Umas bolotas...saco  pá  botar as coisas... pá  levar... Tudo  iquito  aí. É o plano  pá  salvar a nossa vida!!! ... Pá  salvar nossa casa...as coisas...na mudança.  O plano  pá  isso!” Joaquim, 3 anos,  abril de 2010 Produção próxima a nossa mudança de casa
Exemplos Joaquim faz um bolo e checa a receita Sempre que vou fazer um bolo ou biscoito, Joaquim vem fazer comigo e adora mexer a massa, colocar os ingredientes, e fica bem ligado nos passos e nos ingredientes. Já sabe que num bolo tem sempre  falinha , açúcar, ovos, manteiga... E sempre me vê olhando as receitas, faz perguntas, explico o porquê.  Um dia, fui fazer um bolo diferente e imprimi a receita. Ele quis uma pra ele também. Colocamos nossas receitas na mesa e seguimos fazendo o bolo.  Cada ingrediente que ele me ajudava a colocar na tigela, ele “checava” na sua receita: “é, isso mesmo, mãe, tem ‘ fa-li-nha’  aqui. Tá certo, mãe”.
Lendo um bilhete Com 2 anos e 2 meses, veio um bilhete da escola para os pais, sobre uma merenda coletiva que haveria no final da semana. Joaquim me entregou dizendo:  -“Tá  iquito  aqui, uva, U-VA, que é  pá  eu  tazê pá icola, melendá ”.
Shampoo e condicinador Tomando banho, o shampoo no fim, a babá, desavisada, diz: - Não, bê, tem outro aqui, ó, cheinho! Ele,  bavo , como diz, meio impaciente, pega a embalagem do antes referido “queminho” e aponta o escrito, dizendo: - Não, Zéu, ó, é  CON-DI-ÇO-NA-DÔ. CON-DI-ÇO-NA-DÔ , tá vendo???!!! Não é Shampoo! E foi recentemente que nomeei condicionador ao que antes era “queminho”. Silabando, o moleque!!!!
c. Leitura logográfica :  A leitura visual, global, pelos indícios visuais da palavra e seu entorno, muito comum na leitura de logomarcas, rótulos, títulos estilizados de filmes etc, também constitui-se em ação de produzir leitura, de ler sem ainda saber decodificar, de agir como se lesse, de ação de leitura.
Luan lê a cidade...
Joaquim lê a cidade...
d. Ações de leitura e escrita  com apoio , através de alguém alfabetizado (leitor, escriba): Ex.  Ditar um texto (palavra, carta, relato, narrativa, por exemplo) para um outro registrar. Trata-se, no caso de textos, do conhecimento da linguagem que se usa para escrever, ainda que via oralidade.  Solicitar um outro que leia um texto (ou se interessar pela leitura), para se informar ou usufruir dessa leitura (é ação de leitura, mas implica também o conhecimento de usos e funções,  item 1 ).
Fabiana,  6 anos. In: Lúcia Browne Rego,  Literatura infantil:  uma nova  perspectiva para a alfabetização na pré-escola. Ed. FTD
A Menina do Chapéu Verde
Pede para o adulto ler livros e outros textos e ouve atentamente; Completa a nossa leitura, quando já conhece a história; Pergunta em diversas ocasiões: “O que tá  iquito  aqui?”; Solicita em diversas situações: “ esquêva  aí ó”. E Joaquim, como muitas crianças...:
e.   As   próprias  práticas e ações de leitura e escrita  como foco de interesse, mas não produzindo, de fato, leitura e escrita:  Referir-se à prática de ler e escrever, às ações ligadas a essas práticas.
Dora, perto de seu aniversário de 2 anos, na livraria, olhava vários livros, numa mesa com outras crianças. De repente, uma menina pegou um livro da mão dela, meio abruptamente. Sem pestanejar, ela responde ao ato, com desdém: -  Eu já li esse. Joaquim protesta ao me ver pegar uma revista:  - Ah, mãe, eu é que tava lendo esse... Joaquim pede uma caneta. Eu, inadvertidamente lhe ofereço um lápis. E ele: - Não, mãe, caneta. Eu vou  isquêvê . Exemplos:
Um dia (2 anos e 3 meses), depois de tantos eventos de Joaquim lendo livros a seu modo, ocorreu dele começar a contar um, que sempre ele conta, e parar. Disse:  - Mãe, esse livro é meu, mas eu te  empesto .  Pá  você ler  pá  mim. - Mas tá tão legal você lendo filho! - Mas eu não sei ler!!! Joaquim ganhou um livro dos Três porquinhos, uma história que sempre eu contava para ele, sem livro, na hora de dormir. Quando eu estava lendo o livro ele comentou: -  Agola  você pode ler, né, mãe? Você antes contava só com a voz...  Sempre que está no Shopping, Joaquim faz questão, depois de brincar no parquinho, de ir ver os  livos . Um dia, inclusive, levou alguns brinquedos e ao descer do carro, disse: - Mãe, vou deixar os  blinquedos  no carro, se não eu fico  segulando  e não posso ler os  livos ”.
4.  Constituição de quaisquer  elementos do sistema alfabético  como merecedores de atenção e interesse, em interações que “recortam” esses elementos dos sistema como relevantes: Interações em torno dos signos da escrita, letras, da diferença entre letra e não letras (desenhos, números), palavras, parte de palavras, relações entre segmentos de fala e segmentos de grafia, direção da leitura etc.
Exemplos: Dora e os homeopáticos de Joaquim No tempo que se interessava pelas letras de seu nome, Dora as reparva em todo lugar. Um dia ficou perguntando sobre as letras escritas nos frasquinhos de remédios homeopáticos de Joaquim: M (manhã), T (tarde) e N (noite). Para que servia, que letras eram, o que diziam, quem botou elas ali e por que.   Joaquim, perto de 3 anos Joaquim começa a reparar em  letas  e  númelos ...escritos em carros, em livros, na tela, no celular...Contava desde antes dos 3 anos: 1, 2, 3, 9, 14, 44... Luan, reconhecendo as letras de seu nome Diante de uma palavra com duas letras A, diz:  - Olha, tem dois “ares”!
Nessas interações em torno dos diversos aspectos do  sistema de escrita , que não são didáticas nem planejadas, o adulto passa a apontá-los, nomeá-los, chamar a atenção para eles, a singularizá-los, a dar pistas de seus usos e, a criança, num  jogo especular , passa a focar a atenção também nesses elementos.
Os  eventos   de letramento  tanto podem referir-se à escrita como  prática social e discursiva  quanto à escrita quanto  sistema notacional , pois as construções relativas ao sistema alfabético (alfabetização) também fazem parte do processo de letramento.
Enfim... Eventos de letramento são esses acontecimentos... ...ocorrências... episódios... ...que podem, inclusive, virar pequenas histórias, anedotas, como as que contamos aqui.  Como mãe e avó, e como pesquisadoras, registramos esses eventos como pérolas de estudo e de amor, por compartilhar com nossas crianças essas ricas interações, em que elas vão se apropriando devagarzinho, mas desde sempre, do mundo da escrita. Lica   e  Mary
O PRINCIPIANTE Cecília Meireles Sua mão mal se movimenta, custa a escorregar pela mesa, caracol no jardim da ciência, desenrolando letra a letra a obscura linha do seu nome. Ah, como é leve o átomo puro, e ágil o equilíbrio do mundo, e rápido, e célere, o curso do céu, do destino de tudo! Mas na terra o pálido aluno devagar escreve o seu nome.
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Referências : ECO, U. From Internet to Gutemberg.  1996. Disponível em:  http://www.hf.ntnu.no/anv/Finnbo/tekster/Eco/Internet.htm HEATH, S. Protean shapes in literacy events: ever-shifting oral and literate traditions. In: TANNEN, D. (Ed.).  Spoken and written language :  exploring orality and literacy.  Norwood, N.J.: Ablex, 1982, p. 91-117. KLEIMAN, A. (Org.).  Os significados do letramento : uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995, p. 15-61. KLEIMAN, A. Ação e mudança na sala de aula: uma pesquisa sobre letramento e interação. In: ROJO, R. (Org.).  Alfabetização e letramento :  perspectivas linguísticas. Campinas: Mercado de Letras, 1998, p. 173-203. MAYRINK-SABINSON, M.L. Reflexões sobre o processo de aquisição da escrita. In: ROJO, R.  Alfabetização e Letramento : perspectivas linguísticas. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1998  ONG, W.J.  Oralidade e cultura escrita .  Campinas: Papirus, 1998. SOARES, M.  Letramento :  um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998. SOARES, M. Novas práticas de leitura e letramento na cibercultura.  Educ. Soc . , Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002 143. Disponível em  http://www.cedes.unicamp.br   TERZI, S.B. Afinal, para quê ensinar a língua escrita?  Revista da FACED , Salvador, n.7, p. 227-241, 2003. TFOUNI, L.V.  Adultos não alfabetizados : o avesso do avesso. Campinas: Pontes, 1988. TFOUNI, L.V.  Letramento e alfabetização . São Paulo: Cortez, 1995.

Eventos de Letramento

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    Regina Kioko - Ciranda Azul - http://rkioko.blogspot.com/2009/03/ciranda-azul.html Ciranda Reflexiva II SIEPE - 2010
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    Liane Araujo MaryArapiraca Eventos de Letramento
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    A Bordo doRui Barbosa Chico Buarque
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    A Bordo doRui Barbosa Chico Buarque Ilustrações: Vallandro Keating Disponível em: http://www.chicobuarque.com.br
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    Danilo, 6 anos.In: O diálogo entre o ensino e a aprendizagem, Telma Weisz, Ed. Ática, p. 86
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    Texto encontrado noelevador de um prédio
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    Histórico e significadosDefinição: Mary Kato, literacy Analfabetismo funcional; alfabetismo Lêda Tfouni foi quem primeiro tratou do conceito, no Brasil, segundo Magda Soares Significados do Letramento, Ângela Kleiman Modelos autônomo e modelo ideológico (Street, apud Kleiman) Oralidade como prática discursiva letrada (fala letrada); oralidade secundária (ONG) Letrado e letramento x letrado, culto, erudito
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    Ângela Kleiman LedaTfouni Magda Soares Silvia Terzi
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    A despeito dealgumas diferenças conceituais, todas essas autoras concordam, entretanto, que o núcleo do conceito de letramento diz respeito às práticas sociais de leitura e de escrita , para além da aquisição do sistema de escrita, ou seja, para além da alfabetização.
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    ALFABETIZAÇÃO EM CONTEXTODE LETRAMENTO L A A LETRAMENTO
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    LETRAMENTO Usos, conhecimentos,valorização da escrita e valores e crenças em torno da escrita (Terzi)
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    Usos Usosda escrita: ler e escrever autonomamente ou com apoio, em diversas situações, com diferentes funções, para atingir diversos fins e participar de práticas diversas de leitura e escrita da sociedade;
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    Conhecimentos Conhecimentos gerais obtidos através de práticas letradas, seja autonomamente ou por intermédio de outros. Conhecimentos da própria escrita : funções da escrita, funções e características de gêneros textuais diversos, linguagem própria da escrita, variedades linguísticas/norma culta
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    Valorização da escrita, sua importância, consideração da função da escrita na sociedade; Crenças e valores atribuídos à escrita por indivíduos e grupos sociais.
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    Desdobramentos do conceitoLetramento crítico Letramento literário Múltiplos letramentos/Letramentos Letramento visual, letramento digital... Letramento na “cultura de papel” e letramento na cibercultura Alfabetização semiótica
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    Letramento na ciberculturaAs tecnologias tipográficas e digitais de escrita têm diferenciados efeitos sobre o estado ou condição de quem as utiliza. É preciso, então, reconhecer, como nos ensina Magda Soares (2002), que diferentes tecnologias de escrita criam diferentes letramentos .
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    O que éLetramento? Letramento não é um gancho em que se pendura cada som enunciado, não é treinamento repetitivo de uma habilidade, nem um martelo quebrando blocos de gram á tica. Letramento é diversão, é leitura à luz de vela ou l á fora, à luz do sol.
  • 40.
    São not ícias sobre o presidente. O tempo, os artistas da tevê e mesmo Mônicas e Cebolinhas nos jornais de domingo. É uma receita de biscoito, uma lista de compras, recados colados na geladeira, um bilhete de amor, telegramas de parab é ns e cartas de amigos.
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    É viajar parapaíses desconhecidos, sem deixar sua cama. É rir e chorar com personagens, heróis e grandes amigos.   É um atlas do mundo, sinais de trânsito, caças ao tesouro, manuais, instruções, guias e orientações em bulas de remédio para que você não fique perdido.
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    Letramento é, sobretudo, um mapa do coração do homem, um mapa de quem você é e de tudo que você pode ser. Poema de Kate Chong, extraído do livro Letramento, um tema em três generos , de Magda Soares
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    Eventos de letramentoIlustração: André Neves, confabulandoimagens.com.br
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    Não tinha nemum ano...
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    Comendo livros Aconteceude um dia, num shopping, Joaquim estar já meio inquieto no seu carrinho e, contando já com todo o percurso até o carro – eu, ele, carrinho – comprei-lhe algo para ocupar as mãos e a atenção. O livrinho estava em cima do balcão onde eu já acertava as contas com a loja – mamadeiras e outras coisinhas. Olhei, gostei, levei. Era aquele pequeninho, da coleção “Quem mora”: “Quem mora no jardim”. Desses que devemos abrir as abas, em cada página, para descobrir o que/quem se esconde atrás de alguma coisa. No caso, bichos do jardim. Já no meio do caminho até o carro, depois de manusear de todo modo, o livrinho foi à boca. Lógico! Passei a semana brincando com a ideia de que ele já era um menino letrado: come livros!!! E ele o “comeu” por muito tempo, mas sem deixar de manuseá-lo de outros modos e de ficar atento, até a metade, ao menos, quando eu o lia, encontrando festivamente os bichinhos por detrás das abas. Depois de um tempo, nenhum desses livros – vieram outros depois – tinham mais abas! Ele descobriu alguma graça em destruí-los. Peguei um dia ele tentando recolocar as abas no lugar. Acho que percebeu que a leitura não tinha mais o mesmo gosto da surpresa sem elas...
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    Informações mandada pelamãe quando ficava com o pai. E Dodó, com esse papel debaixo do braço, “lia” e dizia: “meu bilhete”, 1 ano e meio
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    Joaquim, 2 anose meio: “aqui, o desenho, aqui, o iquitinho, o nome” Escrever antes de saber escrever
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    Joaquim, 2 anose meio: escrevendo no cantinho dos desenhos: Dona Lica, papai, vovó, Zazá, Val...
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    Mila lê Lerantes de saber ler
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    Eventos de letramento São ocorrências em que a língua escrita é essencial à natureza das interações e determinante dos processos e estratégias produtivas e interpretativas de seus participantes. (inspirado em Heath, apud MAYRINK-SABINSON 1988)
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    Eventos de letramento:antes durante depois ...da alfabetização
  • 55.
    Eventos de letramento X Práticas de letramento
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    Uma prática social de leitura e escrita, ou seja, uma pratica letrada, como, por exemplo, mandar convites de aniversário para os amigos, pode dar margem a diversos eventos de letramento, como Luan e Joaquim lendo os convites de seus colegas da escola, antes, inclusive, de saberem, de fato, ler.
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    Luan lendoum convite
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    Os eventos deletramento podem se dar em presença da escrita (leitura ou produção), ou seja, na presença concreta do portador de escrita, ou em situações orais que tomam a escrita como foco de atenção, objeto de interação.
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    O modo departicipação nas práticas de leitura e escrita, ainda na oralidade , é ressaltado, pois as práticas orais são apontadas como fundamentais para o processo letramento (oralidade letrada), favorecendo a construção de uma relação com a escrita como prática sociodiscursiva e como objeto.
  • 61.
    Nas práticas orais,a escrita e a leitura ganham sentido para a criança , especialmente nas conversas, nos jogos interacionais e nos de faz-de-conta, em torno da escrita, fundamentais no desenvolvimento do letramento. Para o adulto , em diversas situações cotidianas, atravessadas, de algum modo, pelo universo da escrita.
  • 62.
    Numa sociedade letrada,a oralidade constitui-se como uma oralidade secundária (ONG, 1998), atravessada pelas práticas letradas existentes nessa sociedade.
  • 63.
    O desenvolvimento dalinguagem escrita e do processo de letramento de uma criança tem relação com o grau de letramento da família e dos grupos sociais dos quais participa, que afeta, provoca o letramento da criança. ...assim como tem relação com o seu modo de participação nas práticas discursivas escritas e orais que ressaltam usos, conhecimentos e valores da escrita.
  • 64.
    É na interação com os outros, adultos e outras crianças que participam do mundo letrado, que a escrita vai se constituindo como foco de interesse da criança. O outro é co-construtor do interesse do sujeito pela escrita e do fato desta torná-la foco de sua atenção.  Perspectiva sociointeracionista, sociodiscursiva de letramento
  • 65.
    Os adultos letradostêm um papel fundamental nessa constituição, pois interpretando os atos das crianças como atos de leitura e escrita e essas como práticas merecedoras de atenção, tornam observáveis e dignos de interesse vários aspectos relativos à escrita e leitura.
  • 66.
    Em cena...a delicadeza...De como o sujeito é provocado pelos eventos envolvendo um outro Mary escreveu, no computador, um texto para Lou, sobrinha querida, pedido dela para o seu aniversário. Depois o transformou em slides no Power Point . Falava poeticamente de Lou, de suas qualidades, sua delicadeza... Delicadeza, delicadeza, delicadeza... Mila quis fazer um também e, sozinha, digitou seu texto, usando uma estrutura próxima ao da avó e sua ortografia de menina recém alfabetizada. Delicadeza, delicadeza, delicadeza... Luan quis também... Foi ditando para Mila, dizendo seu texto para Lou. Juntos, transformaram tudo em slides, para apresentar na festa de Lou.
  • 67.
    Os eventosde letramento que ocorrem no meio digital, com o suporte do computador e com a intermediação da Internet, exigem novas práticas e novas habilidades de leitura e de escrita.
  • 68.
    Eventos de LetramentoA constituição da escrita como foco de interesse se dá de diferentes modos , que implicam a participação em eventos de letramento em que a escrita ou está presente ou é tomada como objeto de atenção nas interações. Esses diferentes modos podem se associar em um mesmo evento.
  • 69.
    A constituiçãoda escrita como foco de interesse Usos e funções da escrita como foco: interações ou participação em torno das funções, relacionadas ou não a outros aspectos – forma, conteúdo, disposição – dos textos que circulam socialmente. Ex. conversa sobre um livro, ou sobre uma receita de bolo, lista de compras, agenda, lista telefônica; pedir que um outro leia um trecho do jornal para obter determinada informação...
  • 70.
    Exemplos Seguindo ospassos do pai, Joaquim pegou seu violãozinho de madeira e começou a cantar. Parou. Procurava algo. - Cadê o livo , mãe? - Que livro, filho? - O livo pá cantar... E assim foi ele até seus livros, pegou qualquer um e abriu, colocando no pufe e aí, sim, tocando e cantando o seu violão. Importante era ter o livro para olhar, tal qual seu pai, que abre o seu de canções cifradas.
  • 71.
    Mila acompanha aavó que assistia a uma palestra e anotava coisas. De repente, pergunta, apontando: - Vó, você está rabiscando aí o que ele tá falando lá? Subiam os créditos finais do filme que acabara de assistir no DVD. Fazendo gestos seguidos de apontar a tela da TV, de baixo para cima, como sobem os créditos, Joaquim diz:  - Mãe, o que é esses iquitinhos aí?
  • 72.
    No caso dascrianças, brincadeiras remetendo-se a situações do dia-a-dia que incluem a escrita: Ex. tomar nota, preencher fichas, cheques, listar, olhar a lista telefônica, ao brincar de casinha ou mercado. Daí a importância de, na Educação Infantil, disponibilizar nos espaços preparados para as brincadeiras livres, diversos portadores de escrita que podem ser incluídos nas brincadeiras das crianças, como agendas, talões de cheque, papel, folhetos de supermercado, lista telefônica, computador etc.
  • 73.
    2. Conteúdosdo universo da escrita e marcadores de gêneros textuais como foco : Seja em presença ou ausência de textos, trazer para as práticas orais conteúdos e conhecimentos adquiridos por meio de práticas letradas. Ex. fazer referência a elementos de narrativas conhecidas, falar de temas ou de aspectos que são aprendidos por meio de textos, de práticas letradas etc.
  • 74.
    Exemplos: A babáe sua filha, que fazia faxina em casa vez por outra, conversavam na cozinha sobre um namorado que a outra filha dela arrumara. E, no meio da conversa, a irmã, referindo-se ao universo dos contos maravilhosos, diz: - Esse está mais pra sapo do que pra príncipe...
  • 75.
    Com 3 anose meio, se achando um menino grande, Joaquim não quer mais chamar a mamãe quando acorda, para pedir o leitinho. Levanta sozinho, procura sua babá na cozinha, vai para a sala, brinca com seus carrinhos, ou fica cantarolando, conversando com seus brinquedos no quarto. Certo dia, ouvindo a casa em silêncio, pois a babá não havia chegado e ninguém havia ainda acordado – e certamente querendo atenção ou leitinho – ficou enrolando na cama, virando para lá e para cá, e de repente soltou essa: - Cocolicó, cocolicó!!! - Cocolicó, cocolicó!!! (mais alto) Menino urbano, certamente não aprendeu isso na experiência, não tem essa vivência de roça. Aprendeu que o galo canta para acordar os outros em filmes e livros, provavelmente no seu livro Dorminhoco, em que o cachorro que dorme e ronca, depois das tentativas frustradas de todos os bichos de acordá-lo, é despertado pelo galo que canta ao amanhecer...
  • 76.
    Usar marcadores quecaracterizam gêneros textuais articulados a práticas letradas. Ex. Ao pegar um livro, usar ao “Era uma vez...”, “Um dia...” para as histórias. Ou ao ditar uma carta, usar marcadores desse gênero, como uma fórmula de abertura, data, saudação, despedida, assinatura.
  • 77.
    Exemplos Com poucomais de 2 anos, ao contar as histórias que ouvia na escola ou quando abria os livros, Joaquim dizia: “ Um dia...”,“ Ela uma vez...”, “e folam felizes pala sempe ”, reconhecendo e usando esses marcadores de abertura e fechamento das narrativas.
  • 78.
    3. Ação deproduzir leitura e escrita como foco: a. Ações de leitura e escrita autônoma , ainda que rudimentares e sem o domínio ainda completo do sistema de escrita; b. Diante de suportes de leitura e escrita,“falar como se lesse”, “fazer-de-conta que lê”, “falar à maneira da escrita...”; “agir como se escrevesse”; “fazer-de-conta que escreve”, ler sem saber ler, escrever sem saber escrever convencionalmente.
  • 79.
    “ Mãe, aquieu tô fazendo um plano, ó! É nosso plano de mudança... Umas bolotas...saco pá botar as coisas... pá levar... Tudo iquito aí. É o plano pá salvar a nossa vida!!! ... Pá salvar nossa casa...as coisas...na mudança. O plano pá isso!” Joaquim, 3 anos, abril de 2010 Produção próxima a nossa mudança de casa
  • 80.
    Exemplos Joaquim fazum bolo e checa a receita Sempre que vou fazer um bolo ou biscoito, Joaquim vem fazer comigo e adora mexer a massa, colocar os ingredientes, e fica bem ligado nos passos e nos ingredientes. Já sabe que num bolo tem sempre falinha , açúcar, ovos, manteiga... E sempre me vê olhando as receitas, faz perguntas, explico o porquê. Um dia, fui fazer um bolo diferente e imprimi a receita. Ele quis uma pra ele também. Colocamos nossas receitas na mesa e seguimos fazendo o bolo. Cada ingrediente que ele me ajudava a colocar na tigela, ele “checava” na sua receita: “é, isso mesmo, mãe, tem ‘ fa-li-nha’ aqui. Tá certo, mãe”.
  • 81.
    Lendo um bilheteCom 2 anos e 2 meses, veio um bilhete da escola para os pais, sobre uma merenda coletiva que haveria no final da semana. Joaquim me entregou dizendo: -“Tá iquito aqui, uva, U-VA, que é pá eu tazê pá icola, melendá ”.
  • 82.
    Shampoo e condicinadorTomando banho, o shampoo no fim, a babá, desavisada, diz: - Não, bê, tem outro aqui, ó, cheinho! Ele, bavo , como diz, meio impaciente, pega a embalagem do antes referido “queminho” e aponta o escrito, dizendo: - Não, Zéu, ó, é CON-DI-ÇO-NA-DÔ. CON-DI-ÇO-NA-DÔ , tá vendo???!!! Não é Shampoo! E foi recentemente que nomeei condicionador ao que antes era “queminho”. Silabando, o moleque!!!!
  • 83.
    c. Leitura logográfica: A leitura visual, global, pelos indícios visuais da palavra e seu entorno, muito comum na leitura de logomarcas, rótulos, títulos estilizados de filmes etc, também constitui-se em ação de produzir leitura, de ler sem ainda saber decodificar, de agir como se lesse, de ação de leitura.
  • 84.
    Luan lê acidade...
  • 85.
    Joaquim lê acidade...
  • 86.
    d. Ações deleitura e escrita com apoio , através de alguém alfabetizado (leitor, escriba): Ex. Ditar um texto (palavra, carta, relato, narrativa, por exemplo) para um outro registrar. Trata-se, no caso de textos, do conhecimento da linguagem que se usa para escrever, ainda que via oralidade. Solicitar um outro que leia um texto (ou se interessar pela leitura), para se informar ou usufruir dessa leitura (é ação de leitura, mas implica também o conhecimento de usos e funções, item 1 ).
  • 87.
    Fabiana, 6anos. In: Lúcia Browne Rego, Literatura infantil: uma nova perspectiva para a alfabetização na pré-escola. Ed. FTD
  • 88.
    A Menina doChapéu Verde
  • 89.
    Pede para oadulto ler livros e outros textos e ouve atentamente; Completa a nossa leitura, quando já conhece a história; Pergunta em diversas ocasiões: “O que tá iquito aqui?”; Solicita em diversas situações: “ esquêva aí ó”. E Joaquim, como muitas crianças...:
  • 90.
    e. As próprias práticas e ações de leitura e escrita como foco de interesse, mas não produzindo, de fato, leitura e escrita: Referir-se à prática de ler e escrever, às ações ligadas a essas práticas.
  • 91.
    Dora, perto deseu aniversário de 2 anos, na livraria, olhava vários livros, numa mesa com outras crianças. De repente, uma menina pegou um livro da mão dela, meio abruptamente. Sem pestanejar, ela responde ao ato, com desdém: - Eu já li esse. Joaquim protesta ao me ver pegar uma revista: - Ah, mãe, eu é que tava lendo esse... Joaquim pede uma caneta. Eu, inadvertidamente lhe ofereço um lápis. E ele: - Não, mãe, caneta. Eu vou isquêvê . Exemplos:
  • 92.
    Um dia (2anos e 3 meses), depois de tantos eventos de Joaquim lendo livros a seu modo, ocorreu dele começar a contar um, que sempre ele conta, e parar. Disse: - Mãe, esse livro é meu, mas eu te empesto . Pá você ler pá mim. - Mas tá tão legal você lendo filho! - Mas eu não sei ler!!! Joaquim ganhou um livro dos Três porquinhos, uma história que sempre eu contava para ele, sem livro, na hora de dormir. Quando eu estava lendo o livro ele comentou: - Agola você pode ler, né, mãe? Você antes contava só com a voz... Sempre que está no Shopping, Joaquim faz questão, depois de brincar no parquinho, de ir ver os livos . Um dia, inclusive, levou alguns brinquedos e ao descer do carro, disse: - Mãe, vou deixar os blinquedos no carro, se não eu fico segulando e não posso ler os livos ”.
  • 93.
    4. Constituiçãode quaisquer elementos do sistema alfabético como merecedores de atenção e interesse, em interações que “recortam” esses elementos dos sistema como relevantes: Interações em torno dos signos da escrita, letras, da diferença entre letra e não letras (desenhos, números), palavras, parte de palavras, relações entre segmentos de fala e segmentos de grafia, direção da leitura etc.
  • 94.
    Exemplos: Dora eos homeopáticos de Joaquim No tempo que se interessava pelas letras de seu nome, Dora as reparva em todo lugar. Um dia ficou perguntando sobre as letras escritas nos frasquinhos de remédios homeopáticos de Joaquim: M (manhã), T (tarde) e N (noite). Para que servia, que letras eram, o que diziam, quem botou elas ali e por que.   Joaquim, perto de 3 anos Joaquim começa a reparar em letas e númelos ...escritos em carros, em livros, na tela, no celular...Contava desde antes dos 3 anos: 1, 2, 3, 9, 14, 44... Luan, reconhecendo as letras de seu nome Diante de uma palavra com duas letras A, diz: - Olha, tem dois “ares”!
  • 95.
    Nessas interações emtorno dos diversos aspectos do sistema de escrita , que não são didáticas nem planejadas, o adulto passa a apontá-los, nomeá-los, chamar a atenção para eles, a singularizá-los, a dar pistas de seus usos e, a criança, num jogo especular , passa a focar a atenção também nesses elementos.
  • 96.
    Os eventos de letramento tanto podem referir-se à escrita como prática social e discursiva quanto à escrita quanto sistema notacional , pois as construções relativas ao sistema alfabético (alfabetização) também fazem parte do processo de letramento.
  • 97.
    Enfim... Eventos deletramento são esses acontecimentos... ...ocorrências... episódios... ...que podem, inclusive, virar pequenas histórias, anedotas, como as que contamos aqui. Como mãe e avó, e como pesquisadoras, registramos esses eventos como pérolas de estudo e de amor, por compartilhar com nossas crianças essas ricas interações, em que elas vão se apropriando devagarzinho, mas desde sempre, do mundo da escrita. Lica e Mary
  • 98.
    O PRINCIPIANTE CecíliaMeireles Sua mão mal se movimenta, custa a escorregar pela mesa, caracol no jardim da ciência, desenrolando letra a letra a obscura linha do seu nome. Ah, como é leve o átomo puro, e ágil o equilíbrio do mundo, e rápido, e célere, o curso do céu, do destino de tudo! Mas na terra o pálido aluno devagar escreve o seu nome.
  • 99.
    Nossos Blogs http://maryarapiraca.wordpress.com/http://oficinasdealfabetizacao.blogspot.com/
  • 100.
    Referências : ECO,U. From Internet to Gutemberg. 1996. Disponível em: http://www.hf.ntnu.no/anv/Finnbo/tekster/Eco/Internet.htm HEATH, S. Protean shapes in literacy events: ever-shifting oral and literate traditions. In: TANNEN, D. (Ed.). Spoken and written language : exploring orality and literacy. Norwood, N.J.: Ablex, 1982, p. 91-117. KLEIMAN, A. (Org.). Os significados do letramento : uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995, p. 15-61. KLEIMAN, A. Ação e mudança na sala de aula: uma pesquisa sobre letramento e interação. In: ROJO, R. (Org.). Alfabetização e letramento : perspectivas linguísticas. Campinas: Mercado de Letras, 1998, p. 173-203. MAYRINK-SABINSON, M.L. Reflexões sobre o processo de aquisição da escrita. In: ROJO, R. Alfabetização e Letramento : perspectivas linguísticas. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1998 ONG, W.J. Oralidade e cultura escrita . Campinas: Papirus, 1998. SOARES, M. Letramento : um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998. SOARES, M. Novas práticas de leitura e letramento na cibercultura. Educ. Soc . , Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002 143. Disponível em http://www.cedes.unicamp.br TERZI, S.B. Afinal, para quê ensinar a língua escrita? Revista da FACED , Salvador, n.7, p. 227-241, 2003. TFOUNI, L.V. Adultos não alfabetizados : o avesso do avesso. Campinas: Pontes, 1988. TFOUNI, L.V. Letramento e alfabetização . São Paulo: Cortez, 1995.