SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 4
Baixar para ler offline
LINGUAGENS – ENSINO MÉDIO
A importância da leitura como identidade social
Identidade social é a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela
própria, construída por meio de sua vivência, na qual estão incluídas suas leituras e
(re)leituras da vida e também dos livros
Por Simone Strelciunas Goh
É notória e já foi cotejada em inúmeros textos a importância da leitura. Daremos continuidade a essa discussão;
entretanto, tomaremos como norte não apenas a importância da leitura, mas o tipo de leitura que se faz importante
e como se configuram seus leitores.
Ingedore Villaça Koch e Vanda Maria Elias apontam para três perspectivas de leitura: a primeira, cujo foco está
centrado no autor, que se mostra um sujeito individual e produz seu texto por meio da língua, entendendo-o como
um produto do seu pensamento. A leitura aqui é vista como um ato de captação de representações programadas.
Essa visão se distancia do que conceitua Goodman, para o qual a leitura é uma atividade que se estabelece entre
o pensamento e a linguagem. Todos os gêneros podem proporcionar esse tipo de leitura em que o leitor parte
deste princípio: vê o texto como um produto acabado, cujas ideias representam máximas a serem aceitas, sem
reflexão.
A segunda perspectiva de leitura tratada por Koch e Elias centra-se no texto: a
língua é vista como um código tanto pelo autor quanto pelo leitor e a leitura se dá
apenas no nível do enunciado, tudo está dito no dito. A maioria dos livros que
aparecem na lista dos mais vendidos pode proporcionar esse tipo de leitura
linear. Tudo é desvendado para o leitor pelo texto, por meio de descrições e
diálogos, pelo explícito. O livro de mistério mostra o mistério em cada página, o
envolvimento romântico é desnudado a cada linha; página lida, informação recebida; página virada, parte-se para
outra informação, esquecendo-se da anterior, sem reflexão nenhuma.
Choramos, rimos, a cada página surgem novos sentimentos, advindos dos adjetivos adequados e de marcas de
oralidade que dão o tom de realidade ao discurso. Contudo, ao terminar o livro, esquecemos aquele mundo, a
leitura não nos fez mais gente, não revisitamos nossos pensamentos, o mundo real continua o mesmo, nem mais
feio, nem mais bonito. Tal leitura não torna o leitor consciente de seu papel. Podemos dizer que esse é um tipo de
leitura linear, em que preocupação do leitor está voltada apenas para as palavras e a estrutura textual.
Monteiro Lobato repudiava esse tipo de leitura, em suas cartas endereçadas ao amigo e também escritor
Godofredo Rangel, editadas sob o título de A Barca de Gleyre, relatou as dificuldades de produzir um texto em que
os "enfeites literários" não fossem os mais importantes.
Chegou-me afinal o livro infantil - mas não é livro infantil. Não é literatura para crianças. É literatura geral. (...) A
coisa tem de ser narrativa a galope, sem nenhum enfeite literário. O enfeito literário agrada aos oficiais do mesmo
ofício, aos que compreendem a Beleza literária. Mas o que é a beleza literária para nós é maçada e
incompreensibilidade para o cérebro ainda não envenenado das crianças. (...) Não imaginas a minha luta para
extirpar a literatura dos meus livros infantis. A cada revisão nova nas novas edições, mato, como quem mata
pulgas, todas as "literaturas" que ainda as estragam. Assim fiz no Hércules, e na segunda edição deixá-lo-ei ainda
menos literário do que está. Depois da primeira edição é que faço a caçada das pulgas - e quantas encontro, meu
Deus!
Monteiro Lobato, em A Barca de Gleyre , como citado em Metalinguagem e marcas de oralidade em Monteiro
Lobato, de Simone Strelciunas Goh. Grifo nosso.
O autor não enxerga o seu texto como algo acabado, mas vê no leitor uma voz
diferente da sua, que vai a busca de perguntas, não enxergando o texto apenas
como resposta para suas dúvidas ou aflições.
O leitor que assim se configura como "leitor ideal" é temido pelo escritor, pois de certa forma irá subverter seus
pensamentos na busca por infinitas interpretações. Machado de Assis tinha plena consciência da importância dos
leitores como reconstrutores de seus pensamentos, o Bruxo do Cosme Velho tratava-os de forma especial,
indagando-os. O grande escritor trazia para cada página de seus livros o inesperado, forçava os leitores às
inferências, inquirindo-os a construir a história com ele.
Conceituados os tipos de leitura, verifica-se que o problema não reside no ato de ler em si, mas como ele é
norteado. Todos somos leitores (não discutiremos aqui sobre os níveis de letramento), até Fabiano de Vidas
Secas é um leitor na medida em que lê (de sua forma) as linguagens de seu meio, mas não lê a palavra escrita,
está longe de ser um leitor comum, quiçá ideal.
Um dos nossos objetivos é incentivar a leitura de textos escritos, não apenas daqueles legitimados pelos
acadêmicos como "boa leitura", mas os escolhidos livremente. Pela análise dos números da última Bienal do Livro
realizada em São Paulo, constata-se que "ler não é problema", pois, segundo o Correio Braziliense de 25 de
agosto de 2010, cerca de 740 mil pessoas visitaram os stands que apresentaram mais de 2.200.000 títulos. Mas,
perguntamo-nos: os livros expostos e os leitores que lá compareceram se encaixam em qual tipo de leitor?
Podemos afirmar que todos os livros foram escritos para um leitor ideal, reflexivo, que dialogará com os textos?
Muitos livros vendidos na Bienal têm como foco a primeira e a segunda visão de leitura, seus autores enxergam o
texto como um fim em si mesmo, apresentando ideias prontas, ou primando pelo seu trabalho como um objeto de
arte, em que o domínio da língua é a base para a leitura.
Assim, cabe-nos refletir inicialmente sobre como transformar um leitor comum em leitor ideal, um cidadão pleno em
relação a sua identidade. A construção da identidade social é um fenômeno que se produz em referência aos
outros, a aceitabilidade que temos e a credibilidade que conquistamos por meio da negociação direta com as
pessoas. A leitura é a ferramenta que assegurará não apenas a constituição da identidade, como também tornará
esse processo contínuo.
Para tornar isso factível podemos, como educadores, adotar estratégias de incentivo, apoiando-nos em textos
como as tirinhas e as histórias em quadrinhos, até chegar a leituras mais complexas, como um romance de
Saramago, Machado de Assis ou textos científicos. Construir em sala de aula relações intertextuais entre gêneros
e autores também é uma estratégia válida.
A família também tem papel importante no incentivo à leitura, mas como incentivar filhos a ler, se os pais não são
leitores? Cabe à família não apenas tornar a leitura acessível, mas pensar no ato de ler como um processo.
Discutimos à mesa questões políticas, a trama da novela, por que não trazermos para nosso cotidiano discussões
sobre os livros que lemos?
Certo ano letivo, o estado de São Paulo enviou para as escolas públicas livros literários. Um dos títulos distribuídos
foi Eles não usam blacktie, de Gianfrancesco Guarnieri; um exemplar deste acabou por ser ofertado para uma
estagiária por um aluno, na porta da escola, no mesmo dia em que ele o recebera. A estagiária perguntou ao aluno
se ele não queria ler o livro, pois era uma obra importante. Recebeu apenas um "não" como resposta. Mais à frente
da escola, essa mesma estagiária encontrou vários outros livros novos jogados e os trouxe para a faculdade para
compartilhar com seus colegas, futuros professores.
O que fez com que os alunos desprezassem os livros? Esses alunos são leitores, frequentam a escola, não são
como Fabiano, configuram-se como leitores comuns, mas estão longe de ser leitores ideais. Porém, a intervenção
de professores e da família pode tornar esses leitores comuns leitores ideais.
A leitura é a ferramenta que assegurará não apenas a constituição da identidade, como também tornará
esse processo contínuo
Trazemos por fim outra preocupação, muito mais grave: aproximar o homem da palavra escrita nas revistas, jornais
ou em qualquer outro veículo escrito, a formação de leitores comuns. Esse tipo de leitor pode até jogar fora um
livro clássico, ler de forma linear e enxergar o texto como um fim em si mesmo; nós o encontramos nos ônibus,
lendo livros de grande apelo popular, ou até nos bancos das grandes universidades, debruçados sobre textos
altamente complexos, acreditando piamente que tais ideias são imutáveis, sem questionar, sem reconstruir seu
mundo. Contudo, são leitores, convivem com o universo da palavra escrita.
Mas e aqueles que veem o mundo da leitura como algo inatingível, possível apenas para o outro? Esses não-
leitores usam de estratégias evasivas como "não gosto de ler", "não tenho tempo para ler nada...". Em vez de
produzir símbolos e dialogar com as diversas situações da vida por meio de palavras, o não-leitor vive o mutismo, o
não-falar, e isso faz com que ele não se reconheça socialmente e inevitavelmente não seja reconhecido.
Algumas fundações e ONGs fazem trabalhos de contação de histórias, recontos de livros, mas ainda não há um
número significativo de programas para transformar milhões de Fabianos em leitores comuns.
No início de nosso texto apresentamos concepções de leitura e dissemos o quanto esse assunto foi abordado,
talvez aí incida nosso erro, teorizarmos muito. O importante é darmos boas novas para aqueles que não leem:
participar e convidá-los a participar de projetos nas bibliotecas públicas, se não houver bibliotecas, por que não
criar uma biblioteca circulante, ouvimos histórias de moradores de comunidades que fizeram a diferença, levando
livros e construindo reflexões com crianças e adultos.
Segundo Paulo Freire, durante a abertura do Congresso Brasileiro de Leitura em Campinas, novembro de 1981: "A
leitura de mundo precede a leitura das palavras". Mas é impossível não perceber que a leitura de mundo pode se
expandir ao mergulharmos no universo das palavras. Talvez estejamos longe do momento em que 180 milhões de
brasileiros pensem que o mundo poderá ficar mais triste por eles não terem lido aquele texto, mas se parte dessa
população, que apenas sobrevive e enxerga as palavras como um mundo à parte, tiver contato com esse universo,
talvez abramos perspectivas para um real admirável mundo novo, uma sociedade de leitores ideais.

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Apostila portugues
Apostila portuguesApostila portugues
Apostila portuguesGera Barbosa
 
Ensino de literatura
Ensino de literaturaEnsino de literatura
Ensino de literaturaElis Silva
 
Oficina de leitura e interpretação david araujo
Oficina de leitura e interpretação david araujoOficina de leitura e interpretação david araujo
Oficina de leitura e interpretação david araujoLORENA BRITO
 
Constituição de acervo para bibliotecas
Constituição de acervo para bibliotecasConstituição de acervo para bibliotecas
Constituição de acervo para bibliotecasAna Paula Cecato
 
Roteiro de-leitura-pública
Roteiro de-leitura-públicaRoteiro de-leitura-pública
Roteiro de-leitura-públicaFabiana Esteves
 
Apresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da História
Apresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da HistóriaApresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da História
Apresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da HistóriaAna Souza
 
Apresentação literatura infanto juvenil turma
Apresentação literatura infanto juvenil turma Apresentação literatura infanto juvenil turma
Apresentação literatura infanto juvenil turma Norma Almeida
 
Retratos da Leitura em Esteio
Retratos da Leitura em EsteioRetratos da Leitura em Esteio
Retratos da Leitura em EsteioAna Paula Cecato
 
A natureza da literatura infantil
A natureza da literatura infantilA natureza da literatura infantil
A natureza da literatura infantilRosemary Batista
 
Gastao Cruz - entrevista de Maria Augusta Silva
Gastao Cruz - entrevista de Maria Augusta SilvaGastao Cruz - entrevista de Maria Augusta Silva
Gastao Cruz - entrevista de Maria Augusta SilvaLoulet
 
[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.crianca
[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.crianca[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.crianca
[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.criancaAriane Mafra
 
Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...
Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...
Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...Mônica Santana
 

Mais procurados (20)

Apostila portugues
Apostila portuguesApostila portugues
Apostila portugues
 
Ensino de literatura
Ensino de literaturaEnsino de literatura
Ensino de literatura
 
Oficina de leitura e interpretação david araujo
Oficina de leitura e interpretação david araujoOficina de leitura e interpretação david araujo
Oficina de leitura e interpretação david araujo
 
Hipertexto leitor
Hipertexto leitorHipertexto leitor
Hipertexto leitor
 
Constituição de acervo para bibliotecas
Constituição de acervo para bibliotecasConstituição de acervo para bibliotecas
Constituição de acervo para bibliotecas
 
Roteiro de-leitura-pública
Roteiro de-leitura-públicaRoteiro de-leitura-pública
Roteiro de-leitura-pública
 
Tessituras
TessiturasTessituras
Tessituras
 
Portugues vol3
Portugues vol3Portugues vol3
Portugues vol3
 
Portugues vol2
Portugues vol2Portugues vol2
Portugues vol2
 
Portugues vol1
Portugues vol1Portugues vol1
Portugues vol1
 
Apresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da História
Apresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da HistóriaApresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da História
Apresentação UFMG projeto Literatura Caminhos da História
 
Apresentação literatura infanto juvenil turma
Apresentação literatura infanto juvenil turma Apresentação literatura infanto juvenil turma
Apresentação literatura infanto juvenil turma
 
Módulo 3
Módulo 3Módulo 3
Módulo 3
 
Retratos da Leitura em Esteio
Retratos da Leitura em EsteioRetratos da Leitura em Esteio
Retratos da Leitura em Esteio
 
A natureza da literatura infantil
A natureza da literatura infantilA natureza da literatura infantil
A natureza da literatura infantil
 
Gastao Cruz - entrevista de Maria Augusta Silva
Gastao Cruz - entrevista de Maria Augusta SilvaGastao Cruz - entrevista de Maria Augusta Silva
Gastao Cruz - entrevista de Maria Augusta Silva
 
A literatura infantil e seu poder de formar leitores
A literatura infantil e seu poder de formar leitoresA literatura infantil e seu poder de formar leitores
A literatura infantil e seu poder de formar leitores
 
[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.crianca
[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.crianca[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.crianca
[Livrosparatodos.net].maria.jose.palo.literatura.infantil.voz.de.crianca
 
[Resenha] Afinal, o que é Literatura Infantil?
[Resenha] Afinal, o que é Literatura Infantil?[Resenha] Afinal, o que é Literatura Infantil?
[Resenha] Afinal, o que é Literatura Infantil?
 
Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...
Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...
Letramento Literário na Quebra dos Estigmas Vividos por Crianças com HIV/AIDS...
 

Destaque

recursos hídricos, geografia
recursos hídricos, geografiarecursos hídricos, geografia
recursos hídricos, geografiaNilton Goulart
 
Monkey business social and cultural geography 2010
Monkey business   social and cultural geography 2010Monkey business   social and cultural geography 2010
Monkey business social and cultural geography 2010Fábio Coltro
 
ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์
ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์
ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์122 Chen
 
Presentacion proyecto sin fronteras
Presentacion proyecto sin fronterasPresentacion proyecto sin fronteras
Presentacion proyecto sin fronterasGuadalinfo Montaraz
 
Especismo e a percepção dos animais coltro
Especismo e a percepção dos animais   coltroEspecismo e a percepção dos animais   coltro
Especismo e a percepção dos animais coltroFábio Coltro
 
Aula roteiro 2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)
Aula roteiro   2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)Aula roteiro   2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)
Aula roteiro 2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)informaticafdv
 
A importância da leitura no dia a dia escolar
A importância da leitura no dia a dia escolarA importância da leitura no dia a dia escolar
A importância da leitura no dia a dia escolarclaudineiaramiresmoraes
 
A IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITA
A IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITAA IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITA
A IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITAcefaprodematupa
 
A importância do ato de ler
A importância do ato de lerA importância do ato de ler
A importância do ato de lerRoberto Gomes
 
Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...
Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...
Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...Marco Santos
 

Destaque (14)

recursos hídricos, geografia
recursos hídricos, geografiarecursos hídricos, geografia
recursos hídricos, geografia
 
Monkey business social and cultural geography 2010
Monkey business   social and cultural geography 2010Monkey business   social and cultural geography 2010
Monkey business social and cultural geography 2010
 
ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์
ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์
ประเภทของโครงงานคอมพิวเตอร์
 
Presentacion proyecto sin fronteras
Presentacion proyecto sin fronterasPresentacion proyecto sin fronteras
Presentacion proyecto sin fronteras
 
Afip
Afip Afip
Afip
 
Especismo e a percepção dos animais coltro
Especismo e a percepção dos animais   coltroEspecismo e a percepção dos animais   coltro
Especismo e a percepção dos animais coltro
 
Aula roteiro 2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)
Aula roteiro   2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)Aula roteiro   2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)
Aula roteiro 2011.1 - 1o.per. - 2a.parte (alunos)
 
Ranking educacao no ceara
Ranking educacao no cearaRanking educacao no ceara
Ranking educacao no ceara
 
Apresentação Comitê de Bacias Hidrograficas
Apresentação Comitê de Bacias HidrograficasApresentação Comitê de Bacias Hidrograficas
Apresentação Comitê de Bacias Hidrograficas
 
A importância da leitura no dia a dia escolar
A importância da leitura no dia a dia escolarA importância da leitura no dia a dia escolar
A importância da leitura no dia a dia escolar
 
A IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITA
A IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITAA IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITA
A IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESCRITA
 
A importância do ato de ler
A importância do ato de lerA importância do ato de ler
A importância do ato de ler
 
Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...
Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...
Categorias de Análise da Geografia - Espaço Geográfico, Paisagem, Lugar, Terr...
 
A importância da leitura
A importância da leituraA importância da leitura
A importância da leitura
 

Semelhante a A importância da leitura

Prática de metodologia do ensino de leitura
Prática de metodologia do ensino de leituraPrática de metodologia do ensino de leitura
Prática de metodologia do ensino de leituraJamille Rabelo
 
Congresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltas
Congresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltasCongresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltas
Congresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltasCarlos Pinheiro
 
Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59
Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59
Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59Valter Gomes
 
Apresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de Ler
Apresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de LerApresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de Ler
Apresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de LerAna Paula Cecato
 
Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3
Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3
Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3Claudio Osti
 
A literatura e a formação do homem
A literatura e a formação do homemA literatura e a formação do homem
A literatura e a formação do homemJussiara Amaral
 
Em busca de escritores
Em busca de escritoresEm busca de escritores
Em busca de escritoresKatia Cristina
 
Porque (não) ler best sellers na escola
Porque (não) ler best sellers na escolaPorque (não) ler best sellers na escola
Porque (não) ler best sellers na escolaCassia Motta
 
Sobre leituras compartilhadas
Sobre leituras compartilhadasSobre leituras compartilhadas
Sobre leituras compartilhadasKaren Kampa
 
Formação literatura agosto
Formação literatura agostoFormação literatura agosto
Formação literatura agostoDyone Andrade
 
Cultura de massa na escola uma proposta de letramento literário
Cultura de massa na escola uma proposta de letramento literárioCultura de massa na escola uma proposta de letramento literário
Cultura de massa na escola uma proposta de letramento literárioJanny Gomes Quixaba Silva
 
Luiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga Lopes
Luiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga LopesLuiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga Lopes
Luiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga LopesLaeticia Jensen Eble
 
A importância da literatura na educação infantil
A importância da literatura na educação infantilA importância da literatura na educação infantil
A importância da literatura na educação infantilKeilita Igor Fabrine
 
Espiral 01 - Discursos sobre a leitura | Filipe Leal
Espiral 01 - Discursos sobre a leitura  |  Filipe LealEspiral 01 - Discursos sobre a leitura  |  Filipe Leal
Espiral 01 - Discursos sobre a leitura | Filipe LealBibliotecAtiva
 

Semelhante a A importância da leitura (20)

Resumo Tp4 Unid. 16
Resumo Tp4   Unid. 16Resumo Tp4   Unid. 16
Resumo Tp4 Unid. 16
 
Prática de metodologia do ensino de leitura
Prática de metodologia do ensino de leituraPrática de metodologia do ensino de leitura
Prática de metodologia do ensino de leitura
 
linguistica textual
 linguistica textual  linguistica textual
linguistica textual
 
Congresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltas
Congresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltasCongresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltas
Congresso Internacional de Promoção da Leitura - Notas soltas
 
Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59
Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59
Folhetim do Estudante - Ano VII - Núm. 59
 
elefante
elefanteelefante
elefante
 
Apresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de Ler
Apresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de LerApresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de Ler
Apresentaçao Fundamentos do Programa de Leitura Fome de Ler
 
Atos de Leitura
Atos de Leitura Atos de Leitura
Atos de Leitura
 
Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3
Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3
Programacao 40pag semana-literaria2013_londrina 3
 
A literatura e a formação do homem
A literatura e a formação do homemA literatura e a formação do homem
A literatura e a formação do homem
 
Em busca de escritores
Em busca de escritoresEm busca de escritores
Em busca de escritores
 
Porque (não) ler best sellers na escola
Porque (não) ler best sellers na escolaPorque (não) ler best sellers na escola
Porque (não) ler best sellers na escola
 
Sobre leituras compartilhadas
Sobre leituras compartilhadasSobre leituras compartilhadas
Sobre leituras compartilhadas
 
Formação literatura agosto
Formação literatura agostoFormação literatura agosto
Formação literatura agosto
 
"O que é leitura?"
"O que é leitura?""O que é leitura?"
"O que é leitura?"
 
Cultura de massa na escola uma proposta de letramento literário
Cultura de massa na escola uma proposta de letramento literárioCultura de massa na escola uma proposta de letramento literário
Cultura de massa na escola uma proposta de letramento literário
 
Luiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga Lopes
Luiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga LopesLuiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga Lopes
Luiz Ruffato em entrevista a Luiz Gonzaga Lopes
 
A importância da literatura na educação infantil
A importância da literatura na educação infantilA importância da literatura na educação infantil
A importância da literatura na educação infantil
 
LEITURA E FORMAÇÃO DE LEITORES
LEITURA E FORMAÇÃO DE LEITORESLEITURA E FORMAÇÃO DE LEITORES
LEITURA E FORMAÇÃO DE LEITORES
 
Espiral 01 - Discursos sobre a leitura | Filipe Leal
Espiral 01 - Discursos sobre a leitura  |  Filipe LealEspiral 01 - Discursos sobre a leitura  |  Filipe Leal
Espiral 01 - Discursos sobre a leitura | Filipe Leal
 

Mais de Kênia Machado

Avalição de linguagensdivergente8º1
Avalição de linguagensdivergente8º1Avalição de linguagensdivergente8º1
Avalição de linguagensdivergente8º1Kênia Machado
 
Linguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadas
Linguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadasLinguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadas
Linguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadasKênia Machado
 
142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivos
142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivos142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivos
142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivosKênia Machado
 
A importância da leitura
A importância da leituraA importância da leitura
A importância da leituraKênia Machado
 
Linguagens língualinguagemvariaçãolinguística
Linguagens língualinguagemvariaçãolinguísticaLinguagens língualinguagemvariaçãolinguística
Linguagens língualinguagemvariaçãolinguísticaKênia Machado
 
Gabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismo
Gabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismoGabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismo
Gabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismoKênia Machado
 
Linguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismo
Linguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismoLinguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismo
Linguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismoKênia Machado
 
2014 17a-at02-literatura
2014 17a-at02-literatura2014 17a-at02-literatura
2014 17a-at02-literaturaKênia Machado
 
Revisc3a3o das-escolas-literc3a1rias
Revisc3a3o das-escolas-literc3a1riasRevisc3a3o das-escolas-literc3a1rias
Revisc3a3o das-escolas-literc3a1riasKênia Machado
 
Leia o texto abaixo para em seguida responder à questão proposta
Leia o texto abaixo para em seguida responder à questão propostaLeia o texto abaixo para em seguida responder à questão proposta
Leia o texto abaixo para em seguida responder à questão propostaKênia Machado
 
Felicidade clandestina
Felicidade clandestinaFelicidade clandestina
Felicidade clandestinaKênia Machado
 

Mais de Kênia Machado (20)

Generos textuais
Generos textuaisGeneros textuais
Generos textuais
 
1º ano
1º ano1º ano
1º ano
 
Avalição de linguagensdivergente8º1
Avalição de linguagensdivergente8º1Avalição de linguagensdivergente8º1
Avalição de linguagensdivergente8º1
 
Linguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadas
Linguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadasLinguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadas
Linguagens coonsolidaçãodaaprendizagemoraçõescoordenadas
 
142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivos
142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivos142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivos
142686437 exercicios-sobre-flexao-dos-adjetivos
 
A importância da leitura
A importância da leituraA importância da leitura
A importância da leitura
 
Linguagens língualinguagemvariaçãolinguística
Linguagens língualinguagemvariaçãolinguísticaLinguagens língualinguagemvariaçãolinguística
Linguagens língualinguagemvariaçãolinguística
 
Gabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismo
Gabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismoGabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismo
Gabaritos roteiro de verificação da aprendizagem e estudoarcadismo
 
Linguagensrevisão
LinguagensrevisãoLinguagensrevisão
Linguagensrevisão
 
Novoacordoortografico
NovoacordoortograficoNovoacordoortografico
Novoacordoortografico
 
Linguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismo
Linguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismoLinguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismo
Linguagensrotrito erificaçãoaprendizagemarcadismo
 
Quem foi tomie ohtake
Quem foi tomie ohtakeQuem foi tomie ohtake
Quem foi tomie ohtake
 
2014 17a-at02-literatura
2014 17a-at02-literatura2014 17a-at02-literatura
2014 17a-at02-literatura
 
Revisc3a3o das-escolas-literc3a1rias
Revisc3a3o das-escolas-literc3a1riasRevisc3a3o das-escolas-literc3a1rias
Revisc3a3o das-escolas-literc3a1rias
 
1ppportugues1ano (1)
1ppportugues1ano (1)1ppportugues1ano (1)
1ppportugues1ano (1)
 
1ppliteratura1ano (1)
1ppliteratura1ano (1)1ppliteratura1ano (1)
1ppliteratura1ano (1)
 
Dicas de português1
Dicas de português1Dicas de português1
Dicas de português1
 
Leia o texto abaixo para em seguida responder à questão proposta
Leia o texto abaixo para em seguida responder à questão propostaLeia o texto abaixo para em seguida responder à questão proposta
Leia o texto abaixo para em seguida responder à questão proposta
 
Tc de literatura6º
Tc de literatura6ºTc de literatura6º
Tc de literatura6º
 
Felicidade clandestina
Felicidade clandestinaFelicidade clandestina
Felicidade clandestina
 

A importância da leitura

  • 1. LINGUAGENS – ENSINO MÉDIO A importância da leitura como identidade social Identidade social é a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, construída por meio de sua vivência, na qual estão incluídas suas leituras e (re)leituras da vida e também dos livros Por Simone Strelciunas Goh É notória e já foi cotejada em inúmeros textos a importância da leitura. Daremos continuidade a essa discussão; entretanto, tomaremos como norte não apenas a importância da leitura, mas o tipo de leitura que se faz importante e como se configuram seus leitores. Ingedore Villaça Koch e Vanda Maria Elias apontam para três perspectivas de leitura: a primeira, cujo foco está centrado no autor, que se mostra um sujeito individual e produz seu texto por meio da língua, entendendo-o como um produto do seu pensamento. A leitura aqui é vista como um ato de captação de representações programadas. Essa visão se distancia do que conceitua Goodman, para o qual a leitura é uma atividade que se estabelece entre o pensamento e a linguagem. Todos os gêneros podem proporcionar esse tipo de leitura em que o leitor parte deste princípio: vê o texto como um produto acabado, cujas ideias representam máximas a serem aceitas, sem reflexão. A segunda perspectiva de leitura tratada por Koch e Elias centra-se no texto: a língua é vista como um código tanto pelo autor quanto pelo leitor e a leitura se dá apenas no nível do enunciado, tudo está dito no dito. A maioria dos livros que aparecem na lista dos mais vendidos pode proporcionar esse tipo de leitura linear. Tudo é desvendado para o leitor pelo texto, por meio de descrições e diálogos, pelo explícito. O livro de mistério mostra o mistério em cada página, o envolvimento romântico é desnudado a cada linha; página lida, informação recebida; página virada, parte-se para outra informação, esquecendo-se da anterior, sem reflexão nenhuma. Choramos, rimos, a cada página surgem novos sentimentos, advindos dos adjetivos adequados e de marcas de oralidade que dão o tom de realidade ao discurso. Contudo, ao terminar o livro, esquecemos aquele mundo, a leitura não nos fez mais gente, não revisitamos nossos pensamentos, o mundo real continua o mesmo, nem mais
  • 2. feio, nem mais bonito. Tal leitura não torna o leitor consciente de seu papel. Podemos dizer que esse é um tipo de leitura linear, em que preocupação do leitor está voltada apenas para as palavras e a estrutura textual. Monteiro Lobato repudiava esse tipo de leitura, em suas cartas endereçadas ao amigo e também escritor Godofredo Rangel, editadas sob o título de A Barca de Gleyre, relatou as dificuldades de produzir um texto em que os "enfeites literários" não fossem os mais importantes. Chegou-me afinal o livro infantil - mas não é livro infantil. Não é literatura para crianças. É literatura geral. (...) A coisa tem de ser narrativa a galope, sem nenhum enfeite literário. O enfeito literário agrada aos oficiais do mesmo ofício, aos que compreendem a Beleza literária. Mas o que é a beleza literária para nós é maçada e incompreensibilidade para o cérebro ainda não envenenado das crianças. (...) Não imaginas a minha luta para extirpar a literatura dos meus livros infantis. A cada revisão nova nas novas edições, mato, como quem mata pulgas, todas as "literaturas" que ainda as estragam. Assim fiz no Hércules, e na segunda edição deixá-lo-ei ainda menos literário do que está. Depois da primeira edição é que faço a caçada das pulgas - e quantas encontro, meu Deus! Monteiro Lobato, em A Barca de Gleyre , como citado em Metalinguagem e marcas de oralidade em Monteiro Lobato, de Simone Strelciunas Goh. Grifo nosso. O autor não enxerga o seu texto como algo acabado, mas vê no leitor uma voz diferente da sua, que vai a busca de perguntas, não enxergando o texto apenas como resposta para suas dúvidas ou aflições. O leitor que assim se configura como "leitor ideal" é temido pelo escritor, pois de certa forma irá subverter seus pensamentos na busca por infinitas interpretações. Machado de Assis tinha plena consciência da importância dos leitores como reconstrutores de seus pensamentos, o Bruxo do Cosme Velho tratava-os de forma especial, indagando-os. O grande escritor trazia para cada página de seus livros o inesperado, forçava os leitores às inferências, inquirindo-os a construir a história com ele. Conceituados os tipos de leitura, verifica-se que o problema não reside no ato de ler em si, mas como ele é norteado. Todos somos leitores (não discutiremos aqui sobre os níveis de letramento), até Fabiano de Vidas Secas é um leitor na medida em que lê (de sua forma) as linguagens de seu meio, mas não lê a palavra escrita, está longe de ser um leitor comum, quiçá ideal. Um dos nossos objetivos é incentivar a leitura de textos escritos, não apenas daqueles legitimados pelos acadêmicos como "boa leitura", mas os escolhidos livremente. Pela análise dos números da última Bienal do Livro realizada em São Paulo, constata-se que "ler não é problema", pois, segundo o Correio Braziliense de 25 de agosto de 2010, cerca de 740 mil pessoas visitaram os stands que apresentaram mais de 2.200.000 títulos. Mas, perguntamo-nos: os livros expostos e os leitores que lá compareceram se encaixam em qual tipo de leitor? Podemos afirmar que todos os livros foram escritos para um leitor ideal, reflexivo, que dialogará com os textos? Muitos livros vendidos na Bienal têm como foco a primeira e a segunda visão de leitura, seus autores enxergam o texto como um fim em si mesmo, apresentando ideias prontas, ou primando pelo seu trabalho como um objeto de arte, em que o domínio da língua é a base para a leitura.
  • 3. Assim, cabe-nos refletir inicialmente sobre como transformar um leitor comum em leitor ideal, um cidadão pleno em relação a sua identidade. A construção da identidade social é um fenômeno que se produz em referência aos outros, a aceitabilidade que temos e a credibilidade que conquistamos por meio da negociação direta com as pessoas. A leitura é a ferramenta que assegurará não apenas a constituição da identidade, como também tornará esse processo contínuo. Para tornar isso factível podemos, como educadores, adotar estratégias de incentivo, apoiando-nos em textos como as tirinhas e as histórias em quadrinhos, até chegar a leituras mais complexas, como um romance de Saramago, Machado de Assis ou textos científicos. Construir em sala de aula relações intertextuais entre gêneros e autores também é uma estratégia válida. A família também tem papel importante no incentivo à leitura, mas como incentivar filhos a ler, se os pais não são leitores? Cabe à família não apenas tornar a leitura acessível, mas pensar no ato de ler como um processo. Discutimos à mesa questões políticas, a trama da novela, por que não trazermos para nosso cotidiano discussões sobre os livros que lemos? Certo ano letivo, o estado de São Paulo enviou para as escolas públicas livros literários. Um dos títulos distribuídos foi Eles não usam blacktie, de Gianfrancesco Guarnieri; um exemplar deste acabou por ser ofertado para uma estagiária por um aluno, na porta da escola, no mesmo dia em que ele o recebera. A estagiária perguntou ao aluno se ele não queria ler o livro, pois era uma obra importante. Recebeu apenas um "não" como resposta. Mais à frente da escola, essa mesma estagiária encontrou vários outros livros novos jogados e os trouxe para a faculdade para compartilhar com seus colegas, futuros professores. O que fez com que os alunos desprezassem os livros? Esses alunos são leitores, frequentam a escola, não são como Fabiano, configuram-se como leitores comuns, mas estão longe de ser leitores ideais. Porém, a intervenção de professores e da família pode tornar esses leitores comuns leitores ideais. A leitura é a ferramenta que assegurará não apenas a constituição da identidade, como também tornará esse processo contínuo Trazemos por fim outra preocupação, muito mais grave: aproximar o homem da palavra escrita nas revistas, jornais ou em qualquer outro veículo escrito, a formação de leitores comuns. Esse tipo de leitor pode até jogar fora um livro clássico, ler de forma linear e enxergar o texto como um fim em si mesmo; nós o encontramos nos ônibus, lendo livros de grande apelo popular, ou até nos bancos das grandes universidades, debruçados sobre textos altamente complexos, acreditando piamente que tais ideias são imutáveis, sem questionar, sem reconstruir seu mundo. Contudo, são leitores, convivem com o universo da palavra escrita. Mas e aqueles que veem o mundo da leitura como algo inatingível, possível apenas para o outro? Esses não- leitores usam de estratégias evasivas como "não gosto de ler", "não tenho tempo para ler nada...". Em vez de produzir símbolos e dialogar com as diversas situações da vida por meio de palavras, o não-leitor vive o mutismo, o não-falar, e isso faz com que ele não se reconheça socialmente e inevitavelmente não seja reconhecido. Algumas fundações e ONGs fazem trabalhos de contação de histórias, recontos de livros, mas ainda não há um número significativo de programas para transformar milhões de Fabianos em leitores comuns.
  • 4. No início de nosso texto apresentamos concepções de leitura e dissemos o quanto esse assunto foi abordado, talvez aí incida nosso erro, teorizarmos muito. O importante é darmos boas novas para aqueles que não leem: participar e convidá-los a participar de projetos nas bibliotecas públicas, se não houver bibliotecas, por que não criar uma biblioteca circulante, ouvimos histórias de moradores de comunidades que fizeram a diferença, levando livros e construindo reflexões com crianças e adultos. Segundo Paulo Freire, durante a abertura do Congresso Brasileiro de Leitura em Campinas, novembro de 1981: "A leitura de mundo precede a leitura das palavras". Mas é impossível não perceber que a leitura de mundo pode se expandir ao mergulharmos no universo das palavras. Talvez estejamos longe do momento em que 180 milhões de brasileiros pensem que o mundo poderá ficar mais triste por eles não terem lido aquele texto, mas se parte dessa população, que apenas sobrevive e enxerga as palavras como um mundo à parte, tiver contato com esse universo, talvez abramos perspectivas para um real admirável mundo novo, uma sociedade de leitores ideais.