Ensino de Ciências e Educação Infantil

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Ensino de Ciências e Educação Infantil

  1. 1. Ensino de Ciências e Educação Infantil Russel Teresinha Dutra da Rosa Princípios da área de ensino de ciências O ensino de ciências na educação infantil acontece preferencialmenteintegrado às demais áreas de conhecimento, proporcionando, através dos co-nhecimentos acumulados, teorias, metodologias e instrumentos da área, umariqueza de possibilidades de exploração do mundo realizada pelas crianças. Muitosdos temas enfocados por esta área, são temas de interesse das crianças sobre osquais elas já vêm se perguntando e construindo concepções e representações,sendo fundamental, ao planejarmos qualquer atividade envolvendo conhecimentosda área de ciências, criar oportunidades para que as crianças interajam comdiferentes materiais e expressem suas concepções, representações e hipótesesexplicativas. Nesses momentos, através de diferentes materiais, é possível ampliarinteresses e fornecer informações adicionais. Uma postura desejável no ensino deciências é a de encorajar as crianças a realizar testes e expor suas dúvidas sobreos temas abordados. O ensino de ciências pode propiciar o contato com a diversidade de formasde vida e de ambientes, bem como com as necessidades e condições necessárias àsobrevivência das diferentes espécies de seres vivos, procurando-se incluir aespécie humana entre as demais espécies e superar visões utilitaristas eantropocêntricas de natureza. Isto é, olhar para os seres vivos procurando ver suasestratégias de sobrevivência ao invés de considerá-Ios em função dos interesses evalores da espécie humana. O ensino precisa superar classificações simplistas deelementos da natureza como úteis ou nocivos aos seres humanos, ou comorecursos naturais a serem explorados. Outro aspecto importante a ser considerado ao trabalharmos com temasdas ciências é a busca permanente de informações, o desassossego. Em ciência,as verdades são provisórias, são revistas de tempos em tempos, portanto,precisamos tomar cuidado com expressões como "tal fato foi comprovadocientificamente". Somente podemos afirmar que um conjunto de experimentos eobservações realizadas rigorosamente, do ponto de vista científico, evidencia que
  2. 2. tal explicação pode ser aceita hoje. Isso significa que em se tratando deconhecimento científico não existem explicações definitivas, eternas, absolutas, oque existem são verdades provisórias que são aceitas e válidas pela comunidadecientífica, durante um período histórico, mas que estão sujeitas a transformaçõesdevido ao avanço dos estudos e ao desenvolvimento tecnológico. Portanto, osconhecimentos têm uma história e o que consideramos correto hoje, como porexemplo, o fato da terra girar em tomo do sol, não era considerado correto há 500anos atrás pelos cientistas. Uma das grandes dificuldades do trabalho com a área de ciências é oexcesso de nomenclatura científica, de conceitos e definições encontrados nosmanuais didáticos, em detrimento de explicações dobre os fenômenos da natureza.Por esta razão, as informações devem ser buscadas em outras fontes, além doslivros didáticos, como por exemplo notícias de jornais e revistas. Além disso, naeducação infantil, é fundamental que os temas sejam abordados de forma lúdicaatravés de jogos simbólicos, do "faz de conta", de personagens da literatura e datelevisão e etc.., por esta razão é fundamental utilizarmos e confeccionarmosmateriais alternativos para o desenvolvimento de projetos com as crianças.Trabalhar com a fantasia e a imaginação, mas também com a observação, ascomparações, as medidas e os registros escritos, os desenhos, as modelagens, ascolagens e etc.. Em suma, a criança para construir conhecimentos precisa agir, perguntar,ler o mundo, olhar imagens, criar relações, testar hipóteses e refletir sobre o que fazde modo a reestruturar o pensamento permanentemente.Alguns princípios da educação infantil O conhecimento, bem como as regras e os valores são construídos pelaação sobre o meio físico e social, cabendo, ao adulto, oportunizar a ocorrência desituações interativas em que a criança precise tomar decisões, fazer escolhas,expressar pontos de vista e fazer trocas no sentido de desenvolver a autonomia e acooperação. Entretanto os processos pedagógicos não se restringem à realizaçãode atividades, sendo fundamental a realização de reflexões sobre as atividadescotidianas. É parte dos processos de ensino-aprendizagem a investigação dasconcepções e representações das crianças, considerando-se as características dafaixa etária e as especificidades socioculturais do grupo e os ritmos de cada
  3. 3. indivíduo. Para isso é fundamental que o adulto observe, interprete e registre asações e as reações das crianças com a finalidade de descobrir o que é significativopara elas e as lógicas de suas práticas cotidianas. O trabalho pedagógico na educação infantil diferencia-se de acordo com afaixa etária e o processo de construção progressiva de autonomia por parte dacriança. As atividades dedicadas a crianças de zero a um ano precisam considerara grande dependência das crianças em relação ao adulto e, portanto, a necessidadede interações individualizadas adulto-criança, nos momentos de explorar o própriocorpo através de movimentos e da experiência de diferentes sensações no contatocom os objetos. Nessa fase inicial o ambiente precisa ser aconchegante, masapresentar, também, alguns desafios através da diversidade de materiais que irãomediar a relação e as brincadeiras entre o adulto e a criança. Um exemplo édescoberta de brinquedos que possibilitem formas variadas de interações dentro deum saco de retalhos ou dentro de uma caixa fechada como panos, bolsas, bolas,argolas, cubos, fantasias, sapatos e etc.. As crianças de um a dois anos já poderão participar de algumas atividadesem grupo, mas ainda têm necessidade de muita atenção individualizada por partedo adulto. Nessa fase, é fundamental pensar em atividades que proporcionem odesenvolvimento motor e o desenvolvimento da linguagem como, por exemplo,imitar os movimentos e os sons produzidos por diferentes animais. Aqui, o adultoprecisa estar muito atento para o significado da fala das crianças que se confundecom as ações e os gestos. Ainda é importante considerar que o tempo deconcentração em cada atividade é muito pequeno, sendo necessário, portanto, umavariedade de propostas na rotina cotidiana. De dois a quatro anos, iniciam os jogos simbólicos, as brincadeiras de faz-de-conta e uma maior desenvoltura motora das crianças para a exploração doambiente e dos objetos. Nessa fase já é possível organizar as primeiras rodinhaspara comunicação e representação como, por exemplo, fazer mímicas para imitaroutros seres vivos, além de desenhar, pintar, modelar, ler histórias infantis, ouvir ecantar algumas músicas. Nessa fase as crianças começam a tomar algumasdecisões por conta própria como escolher alimentos e roupas e, também, sealimentar e se vestir sozinhas. Nessa época, as crianças começam a se dar conta das diferenças entre ascoisas mesmas e as suas representações através de desenhos, histórias e etc.. Ainteração da criança com o mundo se dá, portanto, no plano da ação e no planosimbólico, através da fala, do jogo e da imitação. A passagem do plano da ação
  4. 4. para o plano da representação se dá através da linguagem. As representações sãocondições para as operações mentais. As ações são interiorizadas e reconstruídaspelas representações. Ao tomar consciência das ações, o sujeito representa o real. Para isso é importante valorizar o faz de conta, as imitações, os desenhos,as histórias, a fala, as narrativas e etc. Além disso, a autonomia se constitui atravésda responsabilidade em realizar tarefas e em cumprir compromissos com o grupo.Um espaço importante é o do planejamento coletivo, isto é, das decisões em gruposobre as atividades cotidianas. Dos quatro aos seis anos, é possível investir nas atividades cooperativasque requerem negociações permanentes. Nesse período começam a se estabeleceras regras de convivência, sendo o momento privilegiado para o desenvolvimento deatividades a partir dos temas e metodologias oriundas das diferentes áreas deconhecimento. Para tanto é importante a observação dos interesses e dasnecessidades das crianças, através da oferta de materiais variados e da proposiçãode atividades diferentes simultaneamente para que as crianças possam realizaralgumas escolhas. Aqui a atividade simbólica começa a complexificar-se nasbrincadeiras de faz-de-conta e nas dramatizações. Também é possível propor jogosnão competitivos e atividades de leitura e escrita de obras de literatura, de imagens,de músicas e etc. É importante considerar que a diferenciação entre o desenho e a escritacomeça a ser construída nessa época. Além disso, a escrita assim como a fala éaprendida pela exposição a situações comunicativas, por isso é desejávelproporcionar o contato das crianças com diferentes textos escritos na fase pré-escolar para que percebam as diferenças de estilo entre a linguagem oral e a escritae entre os diferentes textos escritos. Para ler, as crianças devem utilizar suaexperiência com o discurso de maneira a desenvolver estratégias que isolem o textodo contexto de modo a reduzir o número de opções complexas que um texto deleitura apresenta. Ler, portanto, é lidar com a linguagem como algo em si, como ummeio de expressar significados que são relativamente independentes do contextoimediato. Em síntese, na educação infantil, as atividades devem ser planejadas como objetivo de atender as necessidades das crianças em suas diferentes fases dedesenvolvimento de modo a contribuir para os processos de construção de suaautonomia. Face os princípios da área de ensino de ciências e alguns princípios daeducação infantil podemos pensar em algumas atividades que abordem espe-
  5. 5. cificamente temáticas e metodologias da área de ciências naturais.Algumas possíveis atividades Objetivando desenvolver a capacidade das crianças de observar anatureza, expressar suas concepções e registrá-Ias podem ser desenvolvidasalgumas atividades com obras da literatura infantil, músicas, vídeos, além, é claro,da exploração do ambiente próximo à instituição educativa. Uma primeira sugestão consiste em apresentar para as crianças um "sacosurpresa" com objetos de diferentes materiais (plástico, papel, tecido, madeira,metal e etc.) que permitam uma exploração táctil. Primeiramente, as criançaspodem ser instigadas a tentar imaginar ou adivinhar o que tem dentro do saco para,logo a seguir, serem incentivadas, em um jogo, a tocar o saco por fora paradescobrir o que tem dentro. Nessa atividade, as crianças trabalham com outrossentidos que não o sentido da visão, predominante nas atividades escolares. Elaspodem sacudir, ouvir os sons produzidos pelos objetos, cheirar e, finalmente, tocarpor dentro do saco com a finalidade de explorar texturas e identificar os objetos. Ograu de certeza sobre os objetos aumenta quando as crianças tocam por dentro dosaco. Isso pode ser discutido com elas. O saco surpresa pode também ser pensado como metáfora do encontroentre professora e crianças. Não saber o que existe dentro do saco, o ainda nãodito, desperta o nosso interesse, nos deixa curiosos, excitados, permite soltar aimaginação, bem como depositar nossas expectativas e também nossos medos ládentro. O saco pode, nesse sentido, representar nossas bagagens, nossasexperiências anteriores, nossos conhecimentos e nossos projetos.Os bichos na literatura e na vida mesmo Dentro do saco pode ter um bicho de pelúcia ou um fantoche como, porexemplo, um pato. Esse pode se transformar no "Patinho Feio". Feio ou diferente?Agora imaginem que uma fada apareceu e transformou cada um de nós em patinhofeio. O que estamos sentindo? Durante essa atividade podemos nos colocar nolugar de cada personagem: o lugar do "feinho", dos outros patinhos, da mãe, do paie da professora do patinho feio e, ao dramatizar as ações, descrever os sentimentosde cada personagem. Para enriquecer esse trabalho dramático é importante a realização de
  6. 6. algumas investigações prévias. O que os patos comem? Como é a boca / bico dospatos? Como são as patas? (refletir sobre as adaptações para alimentação elocomoção) Como são os movimentos na água, no ar e na terra? São rápidos? Sãobarulhentos? Onde dormem? São ativos durante o dia ou durante a noite? Têmhábitos diferentes no inverno e no verão? Vamos imitá-los? Como nascem osfilhotes? Quanto tempo acham que demoram para nascer os filhotes depois que apata coloca os ovos? Existem cuidados com os filhotes? Andam sozinhos ou embandos? Quem são os inimigos? Vocês sabiam que os patos são aves migratórias? Dentro do saco também pode ter um disco com uma música que conta ahistória de um monstro que tem medo de princesas.O MONSTRO(Luis Tatit)Era um monstro filho de uma monstra, desses grandes Deformado mas até quebonitinho como monstroÉ que prá gente, prá gente os padrões são outros Tinha muito pêlo pelo corpoUmas manchas esverdeadasUns caroços, uns buracosMas também o que você pode esperar de um monstro Muita sensibilidade, isso queimportaCriativo, um devorador de livros de estóriaNão gostava de princesa, achava todas horrorosas Em compensação com osmonstros,Como se identificavaE ele achava uma beleza as estórias só de monstrosMas se pintava uma princesa: "Ai mamãe que medo!Tire essa princesa.Ela deve Ter um dente, mãe! TIra!"Vocês vêem que é um monstro tipo mariquinhas pelo jeito Mas na verdade é asuper proteção da mamãe monstraÉ que no fundo, no fundo ele bem que gosta: "Ai mamãe... "Que medo!Tire essa princesa,
  7. 7. Ela deve ter um dente, mãe! Tira!" A partir da audição da música, as crianças podem desenhar o monstro esua mãe. Imaginar o que ele come? Será que os filhotes de monstros comem asmesmas coisas que os monstros adultos? Qual o seu tamanho? E que tamanhotinha quando nasceu? Qual o tamanho dos pais? Ele tem irmãos? Do que elebrinca? Ele tem cheiro? Ele tem dentes? Ele voa? Ele caminha? Ele se arrasta? Elepula? Quem são seus amigos? E seus inimigos? Como ele se defende? Do que elegosta? Como é a casa dele? Os monstros vivem sozinhos ou em grupos? Quantotempo ele demora para nascer? As crianças também podem montar um monstro desucata e tentar construir o ambiente onde ele vive. A música do monstro permite a continuidade da reflexão iniciada com opatinho feio. É possível realizar uma discussão sobre padrões estéticos. Quandodizemos que um animal é bonito ou feio, o comparamos, geralmente, com outrosanimais e mobilizamos um conjunto de valores socioculturais, atribuindocaracterísticas humanas a esses seres. O que nos faz dizer que um cisne é ma_sbonito que um pato, que uma princesa é mais bonita que um monstrinho ou, ainda,que uma borboleta é mais bonita que uma lagarta são convenções e preconceitosproduzidos pela nossa cultura ao longo da história. Por outro lado, aquela música possibilita desencadear uma atividade deobservação da imensa diversidade dos seres vivos, através da descrição e registrodas diferentes formas e adaptações para a sobrevivência existentes na natureza. Asquestões anteriormente levantadas e as atividades sugeri das para a exploração dopato e do monstro permitem o estudo de outros animais como borboletas, sapos,formigas, baratas, galinhas, gatos e etc.. Tais estudos podem principiar pela leiturade uma obra da literatura infantil como, por exemplo, "Quintino, o girino" ou "Opintinho do vizinho". As crianças também podem se fantasiar, buscando caracterizaros animais estudados. Basta um rabo e nasceu o gato. Com uma almofada nascostas pode ser feito um casco de tartaruga ou uma corcova de camelo. Um panolongo, como dois lençóis costurados e uma fila de crianças embaixo são suficientespara inventarmos uma centopéia. Um lençol com um rabo e duas crianças e estáfeita a "vaca louca" ou o "bumba meu boi", ou, ainda, uma "cabaninha" ou uma toca.Uma caixa de papelão grandona é suficiente para montar um ninho de ratinhos oude passarinhos. Nesses estudos dos animais, conforme já foi mencionado, é importantechamar a atenção das crianças para as estruturas adaptativas dos organismos para
  8. 8. alimentação, locomoção, proteção contra a dessecação, estratégias para fuga dosinimigos ou estratégias para capturar os alimentos, abrigos e etc. Alguns exemplosdessas adaptações são os diversos tipos de bicos dos pássaros adaptados paracomer pequenos insetos, peixes, grãos e etc.; as mandíbulas fortes dos felinosadaptadas para hábitos carnívoros; o casco das tartarugas que garantem proteção;os pequenos vermes que vivem enterrados ou sob as pedras para evitar a perda deumidade por exposição ao sol; os ovos das aves protegidos por uma cascaresistente para evitar a perda de água, em comparação com a cobertura gelatinosados ovos dos sapos, que são postos dentro da água; as asas das aves adaptadaspara o vôo; as patas de galinhas adaptadas para ciscar; as patas dos patosadaptadas para o movimento dentro da água e etc.. Podem ainda ser investigadasas estratégias de atração e aproximação para o acasalamento (estratégias decorte). Os sapos e os passarinhos, por exemplo, cantam, o pavão exibe as penascoloridas, algumas mariposas liberam escamas que têm um odor característico eesse odor é captado por outras mariposas através das antenas. Podem ainda serobservados e descritos os cuidados com os filhotes. As espécies que constróemninhos, aquelas em que os pais buscam alimento para os filhotes, aquelas em queos filhotes têm uma alimentação específica como o leite e etc. Do trabalho a partir da música do monstro pode derivar, ainda, um trabalhode investigação sobre os dinossauros. Aqui, é possível tratar de algumasinformações importantes para as ciências naturais como, por exemplo, o fato de osdinossauros terem existido muito tempo antes de existirem macacos e sereshumanos, o fato de terem sido extintos, o fato de sabermos de sua existência nopassado através dos fósseis e etc.. As crianças podem ser instigadas a fazerinvestigações através de questões do tipo: Como as pessoas souberam que osdinossauros eram assim? O que pensamos, o que queremos saber, o que estamosdescobrindo? O trabalho com animais pode aproveitar imagens de documentários, delivros e revistas com a finalidade de caracterizar com as crianças as populações deanimais e plantas de regiões contrastantes em termos de clima. Quem são oshabitantes das regiões geladas? Pingüins, lobos e leões marinhos, no extremo suldo planeta, e focas e ursos no extremo norte. Quais são suas adaptações para viverem lugares tão frios? Os lobos, os leões e as focas apresentam um couro espesso euma camada grossa de gordura, os pingüins também têm uma camada de gordurasob a pele e outra sobre as penas, os ursos além de também serem gordos eapresentarem pelos fartos, têm o hábito de hibernar, durante o inverno rigoroso,
  9. 9. diminuindo a necessidade de alimentos (que são mais raros no inverno). De outraparte, nas regiões muito secas, como o sertão brasileiro e alguns desertosafricanos, encontramos plantas retorcidas com poucas folhas ou com folhastransformadas em espinhos para evitar a perda de água por evaporação através dasuperfície foliar e reservas de água e nutrientes nos caules, como no caso doscactos. Os animais encontrados nessas regiões como pequenos roedores e lagartosvivem enterrados, para diminuir o tempo de exposição ao sol e a perda de água. Podem também ser feitos passeios para observar pequenos animais nopátio ou em terrenos baldios ou ainda em granjas ou chácaras próximas. Nessemomento é importante incentivar as crianças a observar e interagir com os animais,sempre com cuidado para não expor as crianças a nenhum risco e, também,tratando os animais com muito respeito, sem machucá-Ios ou estressá-losdesnecessariamente. Alguns animais podem ser tocados para que as criançasexperimentem as diferentes texturas de pelos e penas por exemplo. Podem serobservados os insetos que voam sobre as flores, sendo feitas observações emdiferentes horários, como pela manhã, bem cedinho, e em um horário próximo aomeio dia para que as crianças façam comparações quanto à quantidade de insetosem cada um desses horários. As crianças também podem ser incentivadas a prestaratenção nos sons dos animais nos diferentes momentos do dia. Ao amanhecer,ouvimos o canto dos pássaros, próximo do meio dia, o som das cigarras e, aoentardecer, o som de grilos e sapos. Podem também prestar atenção nos insetosque são atraídos, à noite, pelas lâmpadas. Depois desses passeios e dessasobservações, as crianças podem construir jogos envolvendo as informações como"trilhas", por exemplo, inventar histórias sobre os bichos estudados, confeccionaranimais gigantes com sucata, cantar e inventar músicas para esses animais.Escrever recados e bilhetes para o personagem inventado e etc.Observando o céu Nas incursões pelos pátios e jardins é possível chamar atenção para asdiferentes posições do sol. As crianças podem fazer medidas do tamanho de suassombras, com pedaços de barbante, nó início da manhã, ou no fim da tarde e emum horário próximo ao meio dia. Podem também fazer medidas das sombras deobjetos como um mastro ou um prédio. Essas medidas podem ser feitas contando-se os passos. Todas essas medidas precisam ser registradas por elas através dedesenhos e de informações escritas para depois serem lembradas e comparadas. É
  10. 10. possível fazer observações, desenhos e pinturas dos diferentes tipos e cores denuvens e aproveitar para ouvir as hipóteses das crianças sobre a formação dosventos e das chuvas. Além disso, as crianças podem ser questionadas sobre o queproduz os dias e as noites e sobre onde está o sol quando anoitece ou em diasnublados e chuvosos. As crianças podem, ainda, ser incentivadas a observar asdiferentes formas/fases da lua, seus diferentes tamanhos e posições no céu. Geralmente as crianças se fazem muitas perguntas sobre esses temas e éimportante criar situações para que elas possam expressar suas hipóteses eexperimentar algumas problematizações sobre elas.Por dentro do corpo Um outro trabalho importante de ser desenvolvido, na pré-escola, é o deexploração e conhecimento do corpo. As crianças podem fazer medidas umas dasoutras, entrevistar os pais para saber o tamanho que tinham quando nasceram ecomparar esses dois tamanhos. Podem também fazer medidas dos irmãos e dospais para tentar fazer estimativas sobre o tamanho que terão quando forem adultas.Podem ainda aproveitar para medir outros seres, como o gato por exemplo, oupequenas plantinhas que estejam cultivando na escola. Podem ainda fazer ocontorno do pé e da mão e compará-Ios com o contorno dos pés e das mãos deoutras pessoas. Também é importante que as crianças toquem o próprio corpo para des-cobrir as costelas, os ossinhos da mão e do pé, os ossos do nariz e da face, ocrânio, as vértebras no pescoço e nas costas, os omoplatas, nas costas, o lu-garzinho do estômago, sentir a pulsação do coração, no coração, no pulso e nopescoço, antes e depois de uma corrida, prestar atenção em outras transformaçõesdo corpo, depois da corrida, como o vermelho do rosto, o suor e a sede. Ascrianças, nesse momento, podem ser levadas a refletir sobre os porquês dessasreações do corpo. Na hora do lanche também podem ser levadas a pensar sobre a origemdos alimentos: o leite vem das vacas, o arroz, o feijão e o amendoim são sementes,a cenoura é uma raiz, muitas farinhas também são feitas de sementes moídas, acarne corresponde à musculatura dos animais e assim por diante. É importantepensar e representar o caminho dos alimentos dentro do corpo, bem como astransformações desse alimento, durante o processo de digestão. Depois, é possível
  11. 11. imaginar que todas as crianças engoliram uma "pílula do tamanho" e que foramfazer uma viagem por dentro do corpo de alguém. O que viram, durante a viagem? É possível representar as imagens internas em um papel pardo em queseja feito o contorno do corpo de uma das crianças. As partes internas do corpotambém podem ser feitas com massinha de modelar ou com argila, tentando-seimaginar o tamanho e a sobreposição dos órgãos internos. Nesse trabalho com o corpo, as crianças a partir da história infantil "Tumtum tum" que trata dos sons do corpo podem gravar a própria voz para depois ouvi-Ia. Podem cantar, podem produzir um anúncio publicitário, podem imitar sons deanimais e etc. Todas essas atividades de observação do próprio corpo sãofundamentais para que as crianças reflitam sobre o funcionamento e os cuidadosnecessários com o corpo, além de contribuir para trabalhos de reflexão sobreidentidade.As jóias do lixo Na área de ciências, uma outra temática importante de ser trabalhada,desde a pré-escola, é a (ia reciclagem de lixo. As crianças podem, a partir demateriais secos e limpos, como caixas, sacos, frascos e etc.. ser convidadas aformar grupos com esses materiais. Nesse trabalho de classificação costumamaparecer critérios diferentes daqueles que nós adultos utilizamos como, porexemplo, os materiais que servem para brincar de farmácia, de supermercado, decasinha e etc.. As crianças podem principiar explorando esses materiais paraconfeccionar brinquedos. Em outro momento, podem fazer experimentos verificandoque tipos de materiais se desmancham, se decompõem, e quais não, colocandodiferentes materiais do lixo dentro de vidros fechados e etiquetados com o nome e adata do que foi ali colocado. As crianças poderão verificar que folhas de alface,pedaços de cenoura, cascas de mamão e etc. passam por muitas transformaçõesdurante seu processo de decomposição, enquanto que plásticos, vidros, metais epapéis não se decompõem quando colocados dentro de vidros fechados. Podemser feitas observações e registros semanais dessas transformações. Paralelamente,no pátio, podem ser enterrados os mesmos materiais, sendo identificados os locaispor plaquinhas. Através desse experimento paralelo, as crianças poderão compararas velocidades de decomposição dos materiais, dentro dos vidros fechados e dosmateriais enterrados. Em outra ocasião, pode ser discutido com as crianças, o fato de algunsmateriais levarem muito tempo para se decompor ou não se decomporem nunca,
  12. 12. sendo, portanto, necessária a ocupação de uma área muito grande para depositaresse lixo que não se desmancha. Por essa razão é fundamental que utilizemos osmateriais com parcimônia, uma vez que não temos muitos lugares disponíveis paracolocar todo o lixo que produzimos ao descartar embalagens que não sedecompõem ou que levam muito tempo para fazê-Io. As crianças podem separar olixo orgânico (restos de comida) e o lixo seco (papéis, vidros, latas e plásticoslimpos) e construir uma composteira no pátio, um monte de material orgânicocoberto com terra e areia para formar adubo. Também é possível propor que façamentrevistas com o pessoal da limpeza pública, perguntando para onde vai o lixo,quem trabalha nesse lugar, o que é feito com o lixo. Em Porto Alegre e, em outrosmunicípios, que têm algum sistema de reciclagem, é possível visitar as unidades dereciclagem e os aterros sanitários com as crianças. Visitas a lixões, por outro lado,não são recomendáveis pelos odores desprendidos durante os processos dedecomposição a céu aberto. Um outro trabalho interessante a ser feito é o de investigação sobre aorigem dos materiais que são postos no lixo. Os vidros são produzidos pelafundição de areia, os plásticos a partir de petróleo, as latas a partir de minério deferro ou de bauxita, os papéis a partir de árvores. Essa investigação nos leva apensar na destruição produzida em áreas naturais para extração dessa matéria-prima e na destruição das condições de vida dos seres vivos que habitam esseslocais. Por exemplo, ao extrair a areia, muitos animais que vivem enterrados, comosiris, por exemplo, são mortos, além de ser produzida uma alteração da paisagemdo litoral que pode produzir inundações e ventanias, pela ausência de dunas quefuncionam como "quebra-ventos" e como contenedores das águas. As matas quesão devastadas para produção de papel ou durante as escavações para obtençãode minérios e etc.Considerações finais O ensino de ciências na educação infantil propicia a interação com diferen-tes materiais, a observação e o registro de muitos fenômenos, a elaboração deexplicações, enfim a construção de conhecimentos e de valores pelas crianças.Essa área, entretanto, precisa tomar parte nas atividades de outras áreas como alinguagem, os estudos sociais a matemática, as artes plásticas, o teatro e a música.Na educação infantil é fundamental superar as fragmentações do conhecimento ebuscar articulá-lo através de atividades lúdicas e instigantes.
  13. 13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBANDEIRA, Pedra. O pintinho do vizinho. Moderna. Coleção Girassol.BELTON, William; DUNNING, John S. Aves Silvestres do Rio Grande do Sul. 3. ed.Porto Alegre: Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, 1993, 172 p. (J a ed.1983 ).COOK-GUMPERZ, Jenny. A Construção Social da Alfabetização. Porto Alegre:Artes Médicas, 1991.FAUNA GAÚCHA - Ponto de encontro das aves transcontinentais: O Rio Grandetem um papel muito especial para o equilíbrio do meio ambiente no continente. Avesdos dois hemisférios vêm aqui se alimentar e reproduzir. Zero-Hora, 5 jun. 1991,p.21.Filme Microcosmos. ,FRACALANZA, Hilário; AMARAL, Ivan A; GOUVEIA, Mariley S.E O Ensino deCiências no Primeiro Grau. São Paulo: Atual, 1986, 124p. (Projeto Magistério).GÓES, Lúcia Pimentel. A nuvem.IACOCCA, Liliana. Tum tum tum: um barulho do corpo. Ática.MÁLUS. Quintino. o girino. 2.ed. Belo Horizonte: Vigília. Coleção Filmes.MUYLAERT, Anna. O diário de bordo do Etevaldo. Companhia das Letrinhas.Coleção Castelo Rá-tim-bum.OLIVEIRA, Daisy Lara de (org.). Ciências nas Salas de Aula. Porto Alegre: Media-ção, 1997, 111 p.RODRIGUES, Maria Bernadette Castro; AMODEU, Maria Celina. O espaçopedagógico na pré-escola. Porto Alegre: Mediação. Cadernos de Educação Infantil2.ROSA, Russel Teresinha Dutra da Rosa. Educação Informal na Reciclagem deResíduos Sólidos Urbanos. Ijuí: Editora UNIJUI, 1997, 168 p. (Coleção TrabalhosAcadêmico-Científicos. Série Dissertações de Mestrado).SILVA, Flávio. Mamíferos Silvestres - Rio Grande do Sul. 2.ed. Porto Alegre:Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, 1994,246 p. (Ia ed. 1984). TATIT,Paulo. O monstro. Música do disco "Quero Passear" do grupo Rumo.VEITENHEIMER-MENDES, IngaL. (org.) Guia ilustrado de flora e fauna para oParque COPESUL de Proteção Ambiental. Porto Alegre: COPESUl JFZB, 1993,209p.WEISSMANN, Hilda (org.). Didática das Ciências Naturais: contribuições e
  14. 14. reflexões. Trad. Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: ARTMED, 1998, 244p.WORTMANN, Maria Lúcia Castagna. O estudo dos vertebrados na EscolaFundamental. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 1997. 128p.

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