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PSICOSES INFANTIS
   Para Ajuriaguerra e Marcelli (1986) a psicose infantil é um
    transtorno de personalidade dependente do
    transtorno da organização do eu e da relação da
    criança com o meio ambiente.
   A psicose na criança ocupa, no contexto da psiquiatria
    infantil, o lugar ocupado pela debilidade mental no começo
    do século XX. Inicialmente ignoradas, depois negadas, as
    psicoses infantis cresceram em frequência, sendo
    consideradas para alguns psiquiatras a referência
    diagnóstica mais comum
   Não é possível comparar as psicoses infantis às psicoses
    dos adultos (quadros semiológicos diferentes),
    principalmente pela ausência de delírio crônico nas
    crianças.
ESTUDO DAS PRINCIPAIS
CONDUTAS
ISOLAMENTO – AUTISMO
 A história recente das psicoses infantis é
  marcada pela introdução, em 1943, do autismo de
  Kanner
 L. Kanner e H. Asperger descreveram, quase
  simultaneamente, estados de Autismo na
  infância. A forma clínica descrita por Kanner foi
  inicialmente considerada como entidade
  nosológica à parte, posteriormente ele inclui no
  capítulo geral das psicoses.
 Tanto o autismo quanto a esquizofrenia envolvem
  comprometimento no relacionamento
  interpessoal e estereotipias.
 O autismo consiste na impossibilidade da
  criança conseguir estabelecer a relação e a
  comunicação com o ambiente que o rodeia
 No decorrer do 1o ano de vida: o isolamento já
  pode ser observado; os bebês autistas são
  descritas como calmos, “fáceis”, sem muitas
  manifestações, felizes quando estão sós. Na
  presença de adultos são indiferentes. Em relação
  à mãe não apresentam as reações típicas como
  mover a cabeça para olhar quando a mãe entra
  em um quarto ou se agitarem quando são
  pegadas no colo
 São bebês com pouco tônus muscular que
  não apresentam o sorriso característico do
  3º mês nem a reação de angústia ao
  estranho por volta do 8º mês.       
 Segundo a Organização Mundial de Saúde, o
  Distúrbio Autista é cerca de três vezes mais
  comum em meninos que em meninas. Em relação
  a população em geral, é de 5 em cada 10 mil
  pessoas.
 Hoje o Autismo é considerado, pelos parâmetros
  dominantes psiquiátricos, como um Transtorno
  Invasivo do Desenvolvimento. No DSM IV (1991),
  o autismo se caracteriza por prejuízo severo e
  invasivo em diversas áreas do desenvolvimento.
  No CID-10 (1993), o autismo é considerado um
  distúrbio global do desenvolvimento.
   Segundo ou terceiro ano de vida: o autismo torna-se mais
    evidente, não havendo nenhum tipo de contato e
    reconhecimento em relação à mãe.
   Tornam-se crianças com o olhar vazio e ausente, sem
    contato físico normal.
   Os objetos e as pessoas são concebidos de maneira
    parcial e sem simbolismo, brincam de forma
    estereotipada e repetitiva com objetos pouco usuais
    para as crianças, podem ser objetos duros e
    barulhentos ou simplesmente parte desses objetos.
   Não se relacionam com as outras crianças e são
    indiferentes aos jogos. Podem mesmo ser agressivas
    em alguns momentos, podendo mesmo auto-agredir-
    se.
CONDUTAS MOTORAS                           P. 202

   Anomalia tônica: São crianças que apresentam uma
    hipotonia generalizada, acentuando a ausência de contato e
    relação corporal com a mãe.
   Gestualidade inabitual: Podem apresentar gestos,
    brincadeiras e comportamentos inadequados e repetitivos,
    sendo que as estereotipias são freqüentes.
   Comportamentos motores particulares: Os movimentos são
    ritmados, recorrentes e parecem envolver a criança num
    espaço só dela.     
   Instabilidade: batidas frequentes contra móveis e pessoas,
    quedas sem movimentos de defesa nem choro 
DISTÚRBIOS DA LINGUAGEM
   No que respeito à linguagem, a criança psicótica é descrita
    como silenciosa ou simplesmente emitindo sons
    estereotipados, como o grito agudo ou o ranger dos dentes.  
   A aquisição da linguagem pode estar ausente no autismo
    de Kanner ou ser geralmente tardia, situando-se nos 4 ou 5
    anos de idade.
   É comum a inversão pronominal: a criança refere a ela
    mesma usando a terceira pessoa do singular ou o seu nome
    próprio
   Nestes casos, o cantarolar, a ecolalia, as estereotipias
    verbais e o verbalismo solitário são freqüentes. Mesmo
    depois de adquirida, a linguagem pode regredir, chegando
    mesmo ao mutismo secundário (psicose de segunda
    infância).
A  linguagem não tem, para a criança
 psicótica o valor da comunicação com o
 outro. Isto é observável, também, nos
 casos mais raros, em que as crianças
 psicóticas apresentam um extenso
 vocabulário, aprendendo páginas inteiras
 de dicionários ou inventando novas
 linguagens, mas nunca utilizando esta
 linguagem para a comunicação com os
 outros.      
DISTÚRBIOS DAS FUNÇÕES
INTELECTUAIS –
   Um déficit intelectual é freqüentemente constatado
   A profundidade do déficit é variável, assim como a sua
    evolução
   Diversas funções específicas (organização temporal,
    espacial) podem ser perturbadas
   Apresenta-se dificuldade na compreensão do esquema
    corporal e na qualidade da figura humana (homem girino,
    homem sem fundilhos, corpo despedaçado, desrespeito às
    proporções)
   Articulação entre a deficiência mental e a psicose precoce –
    problema essencial da psiquiatria infantil. Muitos
    psiquiatras acreditavam que apenas as crianças
    inteligentes poderiam ser psicóticas e as deficientes
    somente serial débeis mentais
DISTÚRBIOS AFETIVOS
   Oscilações ráoidas de humor: Os distúrbios afetivos são
    também observáveis, nas crianças psicóticas não autistas.
    Estas crianças podem apresentar diferenças de humor, em
    períodos curtos de tempo, como passar do choro para um
    riso exuberante.
   Crises de angústia aguda: Sofrem também de recorrentes
    crises de angústia aguda, quando expostos a conflitos como
    a mudança de lugares, ou podem ser totalmente
    espontâneas sem razão aparente.
   Crises de riso: esta angústia aparece, ou pela forma de riso
    discordante, ou por crises de cólera e auto – agressão.
DISTÚRBIOS DAS CONDUTAS
MENTALIZADAS

   As condutas estereotipadas e os rituais invasivos, de
    limpeza, ordenação ou verificação podem ser também
    observados na verificação e podem ser também observados
    na psicose, sendo mais freqüentes nas psicoses de segunda
    infância.      
   O delírio, não é muito comum, podendo aparecer
    excepcionalmente antes dos 10/11 anos, com a produção
    imaginativa que distorce o reconhecimento de si, do outro,
    e do mundo real.
   Ao acontecerem, os delírios centra-se sobre o corpo
    aparecendo preocupações hipocondríacas ou idéias
    persecutórias. As alucinações não são de fácil
    reconhecimento nas crianças mas podem eventualmente
    acontecer alucinações auditivas e visuais.
DISTÚRBIOS PSICOSSOMÁTICOS E
ANTECEDENTES SOMÁTICOS
   Alguns distúrbios psicossomáticos podem também aparecer nestas
    crianças. O distúrbio do sono pode traduzir-se pela insônia calma
    ou agitada que ocorrem desde o primeiro semestre de vida e,
    podem alargar-se por meses ou anos. Este distúrbio é muito
    freqüente na psicose infantil.
   Os distúrbios alimentares são, também, muito freqüentes.
    Apresenta-se de forma muito precoce, desde a ausência de
    sucção ao mamar, até aos vômitos repetitivos.      
   A enurese e encoprese podem ser do tipo primário ou
    secundário, bem como podem ser permanentes no tempo ou
    dependerem de fases de ansiedade ou separação.
   A existência de antecedentes patológicos marca,
    nitidamente, as crianças com psicose infantil, sendo
    freqüente a desidratação aguda, a gravidez difícil, a
    prematuridade e a patologia neonatal, entre outras.
PSICOSES DA SEGUNDA
INFÂNCIA

   São as psicoses que se manifestam entre 5-6 anos e
    os 12-13 anos. São mais raras que as psicoses da 1a
    infância. Um certo número delas são apenas o
    prolongamento de uma psicose precoce
   Outros estudos mostram que cerca de 0,1 a 1% dos casos de
    esquizofrenia tenha iniciado antes dos 10 anos de idade e
    aproximadamente 4% antes dos 15 anos de idade
   Em alguns casos clínicos raros, as condutas psicóticas
    sobrevêm após uma 1a infância “aparentemente” normal
   A anamnese permite encontrar sinais de uma distorção
    precoce em uma ou outra das linhagens maturativas
    (condições de desenvolvimento): anorexia precoce e rebelde,
    graves distúrbios do sono, angústia extrema pela entrada
    na escola maternal, docilidade e submissão excessivas,
    rituais obsessivos, persistentes e invasivos. Não é raro que
    estes distúrbios tenham sido banalizados pela família e
    pelo médico
   As psicoses da 2a infância ocorrem em uma personalidade
    muito melhor estruturada que atingiu um grau
    nitidamente superior de maturação. Assim a linguagem já
    está elaborada, os processos cognitivos foram investidos e
    começam a se destacar do pensamento mágico – o real é
    percebido como tal e diferenciado do imaginário
   As manifestações psicóticas nessa idade surgem como
    condutas regressivas, até mesmo desestruturantes em
    relação às atitudes anteriores da criança
REAÇÃO DE RETRAIMENTO – P. 210
é a tradução do autismo secundário –
 pouco a pouco a criança perde o interesse,
 rompe as relações com os amigos, isola-se
 cada vez mais em seu quarto, recusa-se a
 sair, suspende as suas atividades
 esportivas e culturais
Condutas motoras:
 organizam-se em dois pólos: inibição e
  retraimento X instabilidade e agitação
  psicomotora
DISTÚRBIOS DA LINGUAGEM
   Podem se inscrever na continuidade das psicoses precoces ou
    haver um desenvolvimento normal da linguagem até o
    aparecimento da doença
   Há possibilidade de mutismo secundário (agravamento do
    retraimento autista) – paulatinamente a criança pára de falar,
    inicialmente fora do círculo familiar até o mutismo se tornar total
   Regressão formal da linguagem: traduz um episódio agudo,
    com o surgimento de anomalias idênticas as que se observa nas
    psicoses precoces, especialmente a inversão pronominal, podendo
    regredir até o balbucio. Há também a criação de neologismos
   Hiperinvestimento da linguagem: bem específico de certas
    psicoses: busca de uma linguagem adultomorfa (semelhante a do
    adulto) com controle e domínios absolutos – aprendizagem de
    definições de dicionário ou de outra lingua
P. 211
      Investimento cognitivo:
 Há a possibilidade de bruscos
  enfraquecimentos ou o desmoronamento
  das capacidades intelectuais
DISTÚRBIOS DE FUNCIONAMENTO
NEURÓTICO
 relacionados às fobias e obsessões. As
 fobias podem ser invasivas, cambiantes
 ou muito fixadas, racionalizadas pela
 criança e por sua família (medo irracional
 de cachorro por ter tido experiência ruim
 com cachorro no passado). As obsessões
 são frequentes e características e podem
 incluir rituais para deitar, de ordem, de
 limpeza, de lavagem, de verificação, de
 toque e de evitação
ABORDAGEM GENÉTICA E
HIPÓTESES DA PREDOMINÂNCIA
ORGÂNICA – P. 214
   Genética das psicoses precoces: a partir do estudo da
    criança autista, o estudo do risco nos pais ou na irmandade
    é variável.
   Para Roubertoux, o risco de esquizofrenia nos antecedentes
    (pais, avós) seria nulo
   O estudo sobre gêmeos apontam uma concordância mais
    elevada de autismo entre gêmeos monozigóticos ( 100%;
    36%) do que nos gêmeos dizigóticos
GENÉTICA DAS PSICOSES DA 2A.
INFÂNCIA
P. 215
   O risco nos ascendentes é muito variável – vai de 0% a
    43,3%.
   De modo geral os dados tendem a confirmar o caráter
    familiar das psicoses infantis diferentes do autismo, sem
    que seja possível dizer se esse caráter é atribuível a fatores
    genéticos ou a fatores ambientais comuns
   O estudo dos gêmeos mostra que a concordância de psicoses
    infantis tardias é de 70% nos monozigóticos e de 17% nos
    dizigóticos
   Conclusão: a origem genética é uma hipótese
    provável mas não única nem segura em suas
    modalidades
HIPÓTESES ORGÂNICAS E
NEUROPSICOLÓGICAS
P. 216

   Alguns autores situam preferencialmente a
    anomalia das psicoses infantis no domínio
    sensorial, especialmente no domínio dos
    processos cognitivos – pode haver a ausência de
    desenvolvimento de pensamento abstrato ou
    uma desordem primária no desenvolvimento
    da linguagem que implica a sua compreensão e
    utilização. Este “defeito cognitivo” estaria na
    origem das dificuldades/incapacidades das
    crianças autistas, por exemplo, em perceber e
    discriminar afetos e emoções, em melhorar
    o conhecimento de outras pessoas (por
    exemplo, a incapacidade de imitar condutas
    sociais)
ABORDAGEM PSICOPATOLÓGICA E
HIPÓTESES DE PREDOMINÂNCIA
PSICOGENÉTICA
P. 217

   Fatores psicogenéticos: são os fatores que estão claramente
    associadas a um fator psicodinâmico desencadeante –
    relacionados aos processos psicológicos, internos
   Abordagem psicopatológica: esta abordagem descreve a
    natureza do funcionamento mental (o “como”) sem
    prejulgar o processo iniciador (o “porquê)
   O conjunto de traços psicopatológicos constitui o “núcleo
    estrutural psicótico” – conjunto das condutas
    mentalizadas (aquilo que a pessoa pensa) ou realizadas
    (aquilo que a pessoa faz)
   O núcleo estrutural psicótico refere-se à:
   Existência de angústia primária de aniquilamento, retaliamento,
    engolimento – implica a dissolução ou a destruição completa do
    indivíduo
   Não distinção entre o eu e não – eu, o não reconhecimento de seus
    limites e dos limites dos outros. Exemplo: ausência de sorriso, não
    aparecimento de angústia frente a estranhos (estranheza do 8o
    mês), manipulação do corpo de outrem como um objeto
   Ruptura com a realidade devido a ausência de delimitação do
    contorno de si mesmo, a realidade externa é incluída no eu e se
    torna ameaçadora
   Prevalência de processos primários (impulsos) sobre os
    secundários (racionalidade), o que leva ao descarregar imediato de
    todas as emoções
HIPÓTESE PSICOGENÉTICA
CENTRADA NO AMBIENTE: O PAPEL
DOS PAIS
P. 219

   As proposições teóricas e/ou descrições clínicas nas quais o
    ambiente tem um papel importante no surgimento e
    manutenção das psicoses infantis – não se excluem os
    outros fatores que podem estar associados
   A literatura sobre o papel dos pais é rica mas voltada para
    o estudo das crianças autistas. Kanner estudou o perfil
    psicológico dos pais de 11 crianças autistas e identificou um
    nível intelectual e sócio-cultural elevado, frieza e
    mecanização: são pais polidos, dignos, porém frios; mais
    observam os filhos do que os amam. Estas características
    não são constantes
   Estudos mais recentes demonstram:
   Origem e nível sócio-econômico variável, repartido em dois
    extremos: famílias de nível muito desfavorecido ou de nível
    cultural superior
   Atmosfera e organização familiar confusa – os papéis dos
    pais são pouco diferenciados ou cambiantes
   Modelos particulares de comunicação intrafamiliar –
    “duplo vínculo” ou “duplo impasse” – modo de
    comunicação imposto por um dos membros da família e do
    qual a criança não pode escapar. O emissor dirige uma
    dupla mensagem, contraditória em seu conteúdo, porém
    emitida em níveis diferentes (exemplo: a expressão
    demonstrada é oposta à mensagem contida na fala)
   A reação de loucura ou “resposta louca” da criança é uma
    tentativa de satisfazer este “duplo vínculo”
   Em resumo, as características do psicótico infantil
    frequentemente listadas são:
   dificuldade para se afastar da mãe;
   problemas para compreender o que vê;
   alterações significativas na forma ou conteúdo do discurso,
    repetindo de imediato palavras e/ou frases ouvidas (fala ecolálica),
    ou empregando-se de forma idiossincrática estereotipias verbais
    ou frases ouvidas anteriormente, sendo comum a inversão
    pronominal, referindo-se a ela mesma usando a terceira pessoa do
    singular ou o seu nome próprio;
   alterações significantes na produção da fala com relação ao
    volume, ritmo e modulação;
   habilidades especiais;
   conduta socialmente embaraçosa;
   negação da transformação da alimentação líquida para sólida ou
    bulimia não diferenciada incorporando qualquer objeto pela boca.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
   Ajuriaguerra J.; Marcelli D. Manual de
    Psicopatologia Infantil. 2ªed. Porto Alegre: Artes
    Médicas; 1991.

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Cap5
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Psicoses

  • 2. Para Ajuriaguerra e Marcelli (1986) a psicose infantil é um transtorno de personalidade dependente do transtorno da organização do eu e da relação da criança com o meio ambiente.  A psicose na criança ocupa, no contexto da psiquiatria infantil, o lugar ocupado pela debilidade mental no começo do século XX. Inicialmente ignoradas, depois negadas, as psicoses infantis cresceram em frequência, sendo consideradas para alguns psiquiatras a referência diagnóstica mais comum  Não é possível comparar as psicoses infantis às psicoses dos adultos (quadros semiológicos diferentes), principalmente pela ausência de delírio crônico nas crianças.
  • 3. ESTUDO DAS PRINCIPAIS CONDUTAS ISOLAMENTO – AUTISMO  A história recente das psicoses infantis é marcada pela introdução, em 1943, do autismo de Kanner  L. Kanner e H. Asperger descreveram, quase simultaneamente, estados de Autismo na infância. A forma clínica descrita por Kanner foi inicialmente considerada como entidade nosológica à parte, posteriormente ele inclui no capítulo geral das psicoses.  Tanto o autismo quanto a esquizofrenia envolvem comprometimento no relacionamento interpessoal e estereotipias.
  • 4.  O autismo consiste na impossibilidade da criança conseguir estabelecer a relação e a comunicação com o ambiente que o rodeia  No decorrer do 1o ano de vida: o isolamento já pode ser observado; os bebês autistas são descritas como calmos, “fáceis”, sem muitas manifestações, felizes quando estão sós. Na presença de adultos são indiferentes. Em relação à mãe não apresentam as reações típicas como mover a cabeça para olhar quando a mãe entra em um quarto ou se agitarem quando são pegadas no colo  São bebês com pouco tônus muscular que não apresentam o sorriso característico do 3º mês nem a reação de angústia ao estranho por volta do 8º mês.       
  • 5.  Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Distúrbio Autista é cerca de três vezes mais comum em meninos que em meninas. Em relação a população em geral, é de 5 em cada 10 mil pessoas.  Hoje o Autismo é considerado, pelos parâmetros dominantes psiquiátricos, como um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. No DSM IV (1991), o autismo se caracteriza por prejuízo severo e invasivo em diversas áreas do desenvolvimento. No CID-10 (1993), o autismo é considerado um distúrbio global do desenvolvimento.
  • 6. Segundo ou terceiro ano de vida: o autismo torna-se mais evidente, não havendo nenhum tipo de contato e reconhecimento em relação à mãe.  Tornam-se crianças com o olhar vazio e ausente, sem contato físico normal.  Os objetos e as pessoas são concebidos de maneira parcial e sem simbolismo, brincam de forma estereotipada e repetitiva com objetos pouco usuais para as crianças, podem ser objetos duros e barulhentos ou simplesmente parte desses objetos.  Não se relacionam com as outras crianças e são indiferentes aos jogos. Podem mesmo ser agressivas em alguns momentos, podendo mesmo auto-agredir- se.
  • 7. CONDUTAS MOTORAS P. 202  Anomalia tônica: São crianças que apresentam uma hipotonia generalizada, acentuando a ausência de contato e relação corporal com a mãe.  Gestualidade inabitual: Podem apresentar gestos, brincadeiras e comportamentos inadequados e repetitivos, sendo que as estereotipias são freqüentes.  Comportamentos motores particulares: Os movimentos são ritmados, recorrentes e parecem envolver a criança num espaço só dela.       Instabilidade: batidas frequentes contra móveis e pessoas, quedas sem movimentos de defesa nem choro 
  • 8. DISTÚRBIOS DA LINGUAGEM  No que respeito à linguagem, a criança psicótica é descrita como silenciosa ou simplesmente emitindo sons estereotipados, como o grito agudo ou o ranger dos dentes.    A aquisição da linguagem pode estar ausente no autismo de Kanner ou ser geralmente tardia, situando-se nos 4 ou 5 anos de idade.  É comum a inversão pronominal: a criança refere a ela mesma usando a terceira pessoa do singular ou o seu nome próprio  Nestes casos, o cantarolar, a ecolalia, as estereotipias verbais e o verbalismo solitário são freqüentes. Mesmo depois de adquirida, a linguagem pode regredir, chegando mesmo ao mutismo secundário (psicose de segunda infância).
  • 9. A linguagem não tem, para a criança psicótica o valor da comunicação com o outro. Isto é observável, também, nos casos mais raros, em que as crianças psicóticas apresentam um extenso vocabulário, aprendendo páginas inteiras de dicionários ou inventando novas linguagens, mas nunca utilizando esta linguagem para a comunicação com os outros.      
  • 10. DISTÚRBIOS DAS FUNÇÕES INTELECTUAIS –  Um déficit intelectual é freqüentemente constatado  A profundidade do déficit é variável, assim como a sua evolução  Diversas funções específicas (organização temporal, espacial) podem ser perturbadas  Apresenta-se dificuldade na compreensão do esquema corporal e na qualidade da figura humana (homem girino, homem sem fundilhos, corpo despedaçado, desrespeito às proporções)  Articulação entre a deficiência mental e a psicose precoce – problema essencial da psiquiatria infantil. Muitos psiquiatras acreditavam que apenas as crianças inteligentes poderiam ser psicóticas e as deficientes somente serial débeis mentais
  • 11. DISTÚRBIOS AFETIVOS  Oscilações ráoidas de humor: Os distúrbios afetivos são também observáveis, nas crianças psicóticas não autistas. Estas crianças podem apresentar diferenças de humor, em períodos curtos de tempo, como passar do choro para um riso exuberante.  Crises de angústia aguda: Sofrem também de recorrentes crises de angústia aguda, quando expostos a conflitos como a mudança de lugares, ou podem ser totalmente espontâneas sem razão aparente.  Crises de riso: esta angústia aparece, ou pela forma de riso discordante, ou por crises de cólera e auto – agressão.
  • 12. DISTÚRBIOS DAS CONDUTAS MENTALIZADAS  As condutas estereotipadas e os rituais invasivos, de limpeza, ordenação ou verificação podem ser também observados na verificação e podem ser também observados na psicose, sendo mais freqüentes nas psicoses de segunda infância.        O delírio, não é muito comum, podendo aparecer excepcionalmente antes dos 10/11 anos, com a produção imaginativa que distorce o reconhecimento de si, do outro, e do mundo real.  Ao acontecerem, os delírios centra-se sobre o corpo aparecendo preocupações hipocondríacas ou idéias persecutórias. As alucinações não são de fácil reconhecimento nas crianças mas podem eventualmente acontecer alucinações auditivas e visuais.
  • 13. DISTÚRBIOS PSICOSSOMÁTICOS E ANTECEDENTES SOMÁTICOS  Alguns distúrbios psicossomáticos podem também aparecer nestas crianças. O distúrbio do sono pode traduzir-se pela insônia calma ou agitada que ocorrem desde o primeiro semestre de vida e, podem alargar-se por meses ou anos. Este distúrbio é muito freqüente na psicose infantil.  Os distúrbios alimentares são, também, muito freqüentes. Apresenta-se de forma muito precoce, desde a ausência de sucção ao mamar, até aos vômitos repetitivos.        A enurese e encoprese podem ser do tipo primário ou secundário, bem como podem ser permanentes no tempo ou dependerem de fases de ansiedade ou separação.
  • 14. A existência de antecedentes patológicos marca, nitidamente, as crianças com psicose infantil, sendo freqüente a desidratação aguda, a gravidez difícil, a prematuridade e a patologia neonatal, entre outras.
  • 15. PSICOSES DA SEGUNDA INFÂNCIA  São as psicoses que se manifestam entre 5-6 anos e os 12-13 anos. São mais raras que as psicoses da 1a infância. Um certo número delas são apenas o prolongamento de uma psicose precoce  Outros estudos mostram que cerca de 0,1 a 1% dos casos de esquizofrenia tenha iniciado antes dos 10 anos de idade e aproximadamente 4% antes dos 15 anos de idade  Em alguns casos clínicos raros, as condutas psicóticas sobrevêm após uma 1a infância “aparentemente” normal  A anamnese permite encontrar sinais de uma distorção precoce em uma ou outra das linhagens maturativas (condições de desenvolvimento): anorexia precoce e rebelde, graves distúrbios do sono, angústia extrema pela entrada na escola maternal, docilidade e submissão excessivas, rituais obsessivos, persistentes e invasivos. Não é raro que estes distúrbios tenham sido banalizados pela família e pelo médico
  • 16. As psicoses da 2a infância ocorrem em uma personalidade muito melhor estruturada que atingiu um grau nitidamente superior de maturação. Assim a linguagem já está elaborada, os processos cognitivos foram investidos e começam a se destacar do pensamento mágico – o real é percebido como tal e diferenciado do imaginário  As manifestações psicóticas nessa idade surgem como condutas regressivas, até mesmo desestruturantes em relação às atitudes anteriores da criança
  • 17. REAÇÃO DE RETRAIMENTO – P. 210 é a tradução do autismo secundário – pouco a pouco a criança perde o interesse, rompe as relações com os amigos, isola-se cada vez mais em seu quarto, recusa-se a sair, suspende as suas atividades esportivas e culturais
  • 18. Condutas motoras:  organizam-se em dois pólos: inibição e retraimento X instabilidade e agitação psicomotora
  • 19. DISTÚRBIOS DA LINGUAGEM  Podem se inscrever na continuidade das psicoses precoces ou haver um desenvolvimento normal da linguagem até o aparecimento da doença  Há possibilidade de mutismo secundário (agravamento do retraimento autista) – paulatinamente a criança pára de falar, inicialmente fora do círculo familiar até o mutismo se tornar total  Regressão formal da linguagem: traduz um episódio agudo, com o surgimento de anomalias idênticas as que se observa nas psicoses precoces, especialmente a inversão pronominal, podendo regredir até o balbucio. Há também a criação de neologismos  Hiperinvestimento da linguagem: bem específico de certas psicoses: busca de uma linguagem adultomorfa (semelhante a do adulto) com controle e domínios absolutos – aprendizagem de definições de dicionário ou de outra lingua
  • 20. P. 211 Investimento cognitivo:  Há a possibilidade de bruscos enfraquecimentos ou o desmoronamento das capacidades intelectuais
  • 21. DISTÚRBIOS DE FUNCIONAMENTO NEURÓTICO  relacionados às fobias e obsessões. As fobias podem ser invasivas, cambiantes ou muito fixadas, racionalizadas pela criança e por sua família (medo irracional de cachorro por ter tido experiência ruim com cachorro no passado). As obsessões são frequentes e características e podem incluir rituais para deitar, de ordem, de limpeza, de lavagem, de verificação, de toque e de evitação
  • 22. ABORDAGEM GENÉTICA E HIPÓTESES DA PREDOMINÂNCIA ORGÂNICA – P. 214  Genética das psicoses precoces: a partir do estudo da criança autista, o estudo do risco nos pais ou na irmandade é variável.  Para Roubertoux, o risco de esquizofrenia nos antecedentes (pais, avós) seria nulo  O estudo sobre gêmeos apontam uma concordância mais elevada de autismo entre gêmeos monozigóticos ( 100%; 36%) do que nos gêmeos dizigóticos
  • 23. GENÉTICA DAS PSICOSES DA 2A. INFÂNCIA P. 215  O risco nos ascendentes é muito variável – vai de 0% a 43,3%.  De modo geral os dados tendem a confirmar o caráter familiar das psicoses infantis diferentes do autismo, sem que seja possível dizer se esse caráter é atribuível a fatores genéticos ou a fatores ambientais comuns  O estudo dos gêmeos mostra que a concordância de psicoses infantis tardias é de 70% nos monozigóticos e de 17% nos dizigóticos  Conclusão: a origem genética é uma hipótese provável mas não única nem segura em suas modalidades
  • 24. HIPÓTESES ORGÂNICAS E NEUROPSICOLÓGICAS P. 216  Alguns autores situam preferencialmente a anomalia das psicoses infantis no domínio sensorial, especialmente no domínio dos processos cognitivos – pode haver a ausência de desenvolvimento de pensamento abstrato ou uma desordem primária no desenvolvimento da linguagem que implica a sua compreensão e utilização. Este “defeito cognitivo” estaria na origem das dificuldades/incapacidades das crianças autistas, por exemplo, em perceber e discriminar afetos e emoções, em melhorar o conhecimento de outras pessoas (por exemplo, a incapacidade de imitar condutas sociais)
  • 25. ABORDAGEM PSICOPATOLÓGICA E HIPÓTESES DE PREDOMINÂNCIA PSICOGENÉTICA P. 217  Fatores psicogenéticos: são os fatores que estão claramente associadas a um fator psicodinâmico desencadeante – relacionados aos processos psicológicos, internos  Abordagem psicopatológica: esta abordagem descreve a natureza do funcionamento mental (o “como”) sem prejulgar o processo iniciador (o “porquê)  O conjunto de traços psicopatológicos constitui o “núcleo estrutural psicótico” – conjunto das condutas mentalizadas (aquilo que a pessoa pensa) ou realizadas (aquilo que a pessoa faz)
  • 26. O núcleo estrutural psicótico refere-se à:  Existência de angústia primária de aniquilamento, retaliamento, engolimento – implica a dissolução ou a destruição completa do indivíduo  Não distinção entre o eu e não – eu, o não reconhecimento de seus limites e dos limites dos outros. Exemplo: ausência de sorriso, não aparecimento de angústia frente a estranhos (estranheza do 8o mês), manipulação do corpo de outrem como um objeto  Ruptura com a realidade devido a ausência de delimitação do contorno de si mesmo, a realidade externa é incluída no eu e se torna ameaçadora  Prevalência de processos primários (impulsos) sobre os secundários (racionalidade), o que leva ao descarregar imediato de todas as emoções
  • 27. HIPÓTESE PSICOGENÉTICA CENTRADA NO AMBIENTE: O PAPEL DOS PAIS P. 219  As proposições teóricas e/ou descrições clínicas nas quais o ambiente tem um papel importante no surgimento e manutenção das psicoses infantis – não se excluem os outros fatores que podem estar associados  A literatura sobre o papel dos pais é rica mas voltada para o estudo das crianças autistas. Kanner estudou o perfil psicológico dos pais de 11 crianças autistas e identificou um nível intelectual e sócio-cultural elevado, frieza e mecanização: são pais polidos, dignos, porém frios; mais observam os filhos do que os amam. Estas características não são constantes
  • 28. Estudos mais recentes demonstram:  Origem e nível sócio-econômico variável, repartido em dois extremos: famílias de nível muito desfavorecido ou de nível cultural superior  Atmosfera e organização familiar confusa – os papéis dos pais são pouco diferenciados ou cambiantes  Modelos particulares de comunicação intrafamiliar – “duplo vínculo” ou “duplo impasse” – modo de comunicação imposto por um dos membros da família e do qual a criança não pode escapar. O emissor dirige uma dupla mensagem, contraditória em seu conteúdo, porém emitida em níveis diferentes (exemplo: a expressão demonstrada é oposta à mensagem contida na fala)  A reação de loucura ou “resposta louca” da criança é uma tentativa de satisfazer este “duplo vínculo”
  • 29. Em resumo, as características do psicótico infantil frequentemente listadas são:  dificuldade para se afastar da mãe;  problemas para compreender o que vê;  alterações significativas na forma ou conteúdo do discurso, repetindo de imediato palavras e/ou frases ouvidas (fala ecolálica), ou empregando-se de forma idiossincrática estereotipias verbais ou frases ouvidas anteriormente, sendo comum a inversão pronominal, referindo-se a ela mesma usando a terceira pessoa do singular ou o seu nome próprio;  alterações significantes na produção da fala com relação ao volume, ritmo e modulação;  habilidades especiais;  conduta socialmente embaraçosa;  negação da transformação da alimentação líquida para sólida ou bulimia não diferenciada incorporando qualquer objeto pela boca.
  • 30. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  Ajuriaguerra J.; Marcelli D. Manual de Psicopatologia Infantil. 2ªed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1991.