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  1. 1. 108 6. CONCEPÇÕES DOS USUÁRIOS SOBRE OS TEMAS PESQUISADOS Neste capítulo serão apresentadas e discutidas as concepções dosalunos e mães, usuários do serviço de Psicologia do Ambulatório Regional deEspecialidades, que participaram deste estudo. 6.1. Concepções das mães As mães escolhidas como sujeitos desta pesquisa foram entrevistadas,a partir de um roteiro composto por oito questões (Anexo 3). Do total de novemães amostradas, uma (01) não participou da entrevista de coleta de dados. 6.1.1. Concepções sobre os motivos de encaminhamento da criança O roteiro de entrevista com as mães contou com questões que tinhampor objetivo investigar as concepções das mesmas sobre as razões pelas quaissugeriu-se ou indicou-se o envio de seus filhos a uma instituição de saúde paraavaliação psicológica assim como as suas opiniões sobre quem teria sido oresponsável pelo encaminhamento da criança. Além da questão relacionada ao autor do pedido de encaminhamentodo aluno, procurou-se investigar junto às mães as concepções que possuem arespeito dos motivos de encaminhamento de seus filhos ao ARE. A maioria das mães aponta os mesmos argumentos utilizados pelasprofessoras, utilizando termos diferentes, menos técnicos (como “não temacompanhamento na aula”) e enfatizando um ou outro aspecto da queixaapresentada pelas docentes. Somente no caso de Vilma parece haver correspondência total entre asrespostas da mãe e da professora, tanto em relação ao responsável peloencaminhamento, quanto aos motivos alegados para que ocorresse oencaminhamento. A incoerência entre as falas das mães e das professoras a
  2. 2. 109respeito do real responsável pelo encaminhamento pode sugerir que a interaçãoou comunicação escola/ profissional/ família se configura, ao menos nos casosanalisados, como imprecisas e/ou deficitárias. As respostas das mães de Vilma, Antônio, Roberto e Marcosapresentam uma maior concordância na questão dos motivos de encaminhamento,diferindo em relação ao real responsável pelo pedido. As mães de Dalva e Eduardo enfatizam aspectos referentes às criançasque não foram mencionados pelas professoras. A mãe de Dalva, por exemplo,coloca que a criança seria muito “nervosa”, aludindo também ao que havia sidocolocado pela professora (“não conseguia acompanhar as criança”). A mãe deEduardo, por sua vez, dá mais importância às dificuldades de relacionamento dacriança com seus pares, à sua rebeldia e falta de obediência para, posteriormente,citar os aspectos relativos ao desempenho escolar do filho. Nos casos de Telma e José não há coerência entre os motivosapontados pelas mães e pelas professoras. A mãe de José afirma que a professora,após observar a criança, sugeriu a ida a um psicólogo para ver o “problema” dele.No entanto, a professora não sustenta essa afirmação da mãe, nega terencaminhado a criança a qualquer profissional específico e apenas admite tersugerido de que fossem feitos exames de rotina. No caso de Telma, a mãe colocater sido a professora a responsável pelo encaminhamento, mas a professoraafirma ter partido da mãe o pedido de que a criança fosse encaminhada aopsicólogo. Pode-se perceber que as mães acrescentam aos problemas edificuldades observados e indicados pelas professoras as suas própriasobservações ou queixas acerca da criança. Nem sempre os comentários sobre acriança, realizados pela mãe, estão relacionados aos problemas de aprendizagemobservados. Em outras palavras, algumas mães, ao levarem seus filhos aopsicólogo para resolverem supostas dificuldades de aprendizagem ou de condutada criança no ambiente escolar estariam aproveitando a oportunidade,
  3. 3. 110igualmente, para resolverem os conflitos existentes em seus própriosrelacionamentos com as crianças. As respostas das mães indicam que, na maioria dos casos, foram asprofessoras as principais responsáveis pelo encaminhamento das crianças. Alémdisso, a maioria das mães parece concordar e até justificar, com argumentaçãoprópria, o pedido de encaminhamento feito pelas professoras, transformando-seem veículos para a concretização deste processo. No entanto, há casos em que as falas das mães não coincidem com orelato das professoras. Tem-se, por exemplo, o caso de José, em que a mãe afirma inúmeravezes ter sido a professora a responsável pelo pedido de encaminhamento dacriança ao psicólogo; embora afirme ter pedido que a mãe levasse a criança aoARE para realizar exames de rotina (sangue, fezes, urina), a docente nãoconfirma, em momento algum, ter encaminhado o aluno a um psicólogo. Percebe-se, neste caso, uma divergência entre o que a mãe e a professora afirmam,dificultando a identificação de quem iniciou, de fato, o processo deencaminhamento. Este confronto pode ser entendido de duas maneiras: como umatentativa da mãe em tornar o encaminhamento ao psicólogo o mais justificávelpossível ou então que a mãe poderia estar percebendo elementos que, a seu ver,justificariam o envio da criança a um psicólogo; essa suposição também pareceválida quando aplicada ao comportamento do professor no ato deencaminhamento. A situação ilustrada acima faz com que se reflita a respeito daconcepção, entre a população e os profissionais em geral, de que é necessário queos encaminhamentos para médicos e outros profissionais de saúde sejam feitospor médicos ou, eventualmente, por outros profissionais vistos como “figuras deautoridade”. Parece razoável supor que professores se incluem nessa categoria eque muitas mães podem crer que o psicólogo só irá avaliar seus filhos se o pedidofor feito por um médico ou professor, ou seja, uma “autoridade”.
  4. 4. 111 Os casos de Telma e Antônio são ilustrativos de um outro tipo deacordo firmado entre mãe e professora, pertinente à discussão sobre a figura deautoridade do professor. A mãe de Telma, num primeiro momento, afirma ter sido a professoraa responsável pelo encaminhamento da criança ao psicólogo; essa última, porém,afirma ter partido da mãe a iniciativa do encaminhamento. No decorrer da entrevista, a mãe esclarece melhor a contradiçãocolocando que, após um série de reclamações e envio de bilhetes por parte daprofessora, a mãe resolveu procurá-la e inquirir: “por que a senhora não pedeuma psicóloga?” A atitude da professora em resposta à solicitação da mãe parece tersido a autorização para que o encaminhamento fosse realizado em seu nome. A sugestão da mãe à professora pode ilustrar as pré - concepções que apopulação parece possuir sobre a necessidade da intermediação de um outroprofissional ou figura de autoridade, para que o indivíduo seja encaminhado aoprofissional especializado, no caso, o psicólogo. De acordo com PAIN (1985), a atitude da mãe de Telma, procurando aprofessora para avalizar o encaminhamento de sua filha pode estar configurandouma situação em que: “... são os pais os que se dirigem à professora para confirmar uma suspeita que, no entanto, não se atrevem a desvendar por si sós, requerendo um fracasso prévio da criança para entrar em ação.” (p.40) A pré-concepção de que é necessário que o encaminhamento de alunosseja intermediado por um profissional ligado à escola (docentes, coordenadorespedagógicos, diretores, etc), também está presente no ideário dos profissionais desaúde. É comum que profissionais se recusem a atender pacientes sem um pedidoformal de encaminhamento de um professor, de preferência por escrito, poisparecem duvidar da capacidade do leigo em julgar a necessidade de umdiagnóstico ou tratamento especializado.
  5. 5. 112 O caso de Antônio é uma variante do caso de Telma: a mãe deAntônio afirma que a criança foi encaminhada à APAE e que esseencaminhamento se deu em comum acordo com a professora. A semelhança como caso de Telma reside na reação apresentada pela mãe, ou seja, após uma sériede reclamações e cobranças da professora, a mãe colocou-se à disposição daescola para fazer o que fosse necessário para resolver ou minimizar asdificuldades do filho. A esse respeito, reproduz-se o depoimento completo da mãe deAntônio, no intuito de uma melhor compreensão do processo deencaminhamento, neste caso em especial: “... a professora fala dele, que ele não aprende, não sei o quê, que agente precisava fazer alguma coisa; falei ‘bom tudo que pedem para eu fazer, eufaço’. Ela falou que precisava fazer uns teste nele, falei ‘tudo bem, vamos fazer’,aí ela falou ‘é que os pais assustam quando a gente encaminha pro APAE, mas éo único lugar que a gente encaminha’. Mas como eu já sabia que era só umteste, que ele não ia estudar lá no APAE, então eu fui lá e fiz .” ∗ Cabe ressaltar que a avaliação por meio de testes psicológicos, quecorresponde ao método avaliativo usualmente adotado pelas APAEs, tem comoobjetivo essencial determinar o nível de inteligência da criança e, desse modo,confirmar ou rejeitar a hipótese de que as dificuldades de aprendizagem que oaluno apresenta são devido à deficiência mental. Já o ARE, para algumas escolas, poderia passar a imagem (em termosdo serviço de psicologia) de um local que oferece um atendimento de caráterpsicoterápico, destinado às crianças que apresentam distúrbios emocionais oucasos mais “leves” de dificuldades de aprendizagem. Portanto, no caso destaA contradição, neste caso, é que o pai do aluno era, na época do encaminhamento à APAE, funcionáriodo ERSA 53, exercendo uma função que o levava a estar constantemente no ARE. Portanto, questiona-seo porquê dos pais não terem procurado o serviço de Psicologia, e sim submeterem-se em levar seu filho àAPAE, instituição estigmatizada pela maioria da população, já que tem sua imagem diretamenteassociada à deficiência mental. A mãe justificativa-se afirmando estar certa de que seriam realizadossomente alguns “testes” com a criança e que ela não precisaria estudar ali.
  6. 6. 113criança, a intenção da escola em encaminhar a criança à APAE parece ser devidoà hipótese de que o aluno poderia ser deficiente mental, o que justificaria as suasdificuldades acadêmicas. Outra hipótese que podemos levantar diante da cumplicidade família-escola no encaminhamento dessa criança à APAE é, novamente, a questão dasubmissão e obediência à autoridade relacionada ao professor. A mãe de Antônio, através do senso comum, vê a professora comoautoridade e não pode questionar diretamente a sua sugestão ou orientação.Defende-se dos sentimentos desagradáveis suscitados pelo fato de ter de levar ofilho à APAE, utilizando o argumento de que seria “só um teste”. 6.1.2. Concepções sobre “distúrbios de aprendizagem” e “fracassoescolar” Partiu-se das respostas das mães à questão “por que você acha queseu(ua) filho(a) está apresentando o(s) problema(s) que levou(aram) aoencaminhamento?”, para se analisar as concepções que esse grupo de sujeitospossui acerca dos conceitos de “distúrbios de aprendizagem” e “fracassoescolar”. Evitou-se referência direta aos conceitos “distúrbios deaprendizagem”/“fracasso escolar”, partindo-se da suposição de que tais conceitosnão seriam familiares às mães e que a menção aos mesmos poderia tolher aespontaneidade dos sujeitos. As mães limitaram-se a opinar sobre o que consideram como possíveiscausas dos “distúrbios de aprendizagem” e “fracasso escolar”. A partir dasopiniões dadas, tem-se um panorama das concepções das mesmas acerca dascausas das dificuldades de aprendizagem apresentadas por seus filhos. Classificou-se as respostas em categorias, de forma semelhante àquelautilizada para classificar as respostas do grupo de professoras: A) Atribuição de causas à criança A.1.) dificuldades emocionais da criança: baixa auto-estima (Vilma), dificuldade de lidar com perdas (Dalva e Eduardo), insegurança e falta
  7. 7. 114 de iniciativa (Antônio), não tem noção de limites (José), agitado (Roberto); A.2.) deficiência mental da criança (Telma); A.3.) doença mental, herdada de pai (Marcos); A.4.) falta de esforço – “preguiça” – da criança (Vilma). B) Atribuição de causas à família: B.1.) dificuldades no relacionamento familiar – pai agressivo com a criança (Antônio); B.2.) circunstâncias na história familiar: crises e separações conjugais(Vilma e Eduardo); separação ou perdas, falecimentos, prisão do pai (Dalva eRoberto). Observa-se que as mães, da mesma forma que as professoras, tendema nomear vários fatores como possíveis causas do distúrbio de aprendizagem edo fracasso escolar. Um exemplo deste padrão de resposta com a indicação de váriosfatores, é dada pela mãe de Vilma: atribui a causa dos problemas escolares dacriança na escola a uma crise conjugal vivida pelos pais, ao fato da criança seachar muito feia e possuir dificuldade de relacionamento com outras crianças.Em seguida, retorna à questão dos problemas específicos de aprendizagem emenciona a falta de esforço ou “preguiça” da criança A mãe de Telma atribui, mesmo que indiretamente, a causa dasdificuldades da criança a uma possível deficiência mental. Tais resultados sugerem que as mães atribuem a origem dasdificuldades de aprendizagem, basicamente, a duas classes de fatores: aquelesrelacionados à criança e os relacionados à família. As mães (de Vilma e Antônio) que eventualmente questionam aopinião das professoras sobre a real necessidade de encaminhamento de seusfilhos ao psicólogo passam, rapidamente, a lançar mão de explicações que
  8. 8. 115culpabilizam apenas à criança, submetendo-se à posição de autoridade daprofessora e isentando o sistema educacional de qualquer papel na construção ousuperação das chamadas “dificuldades de aprendizagem”. A maioria das mães não realizarem atribuições de causalidade afatores intra-escolares, como por exemplo a metodologia de ensino, as condiçõesdo trabalho docente, etc. Há apenas uma exceção: a mãe de Antônio. Ela manifesta, durante aentrevista, uma postura mais crítica em relação à escola: “... eles me chamam lá,falam as coisa. Se fazem alguma coisa eu não sei. Inclusive esses dia eu fui levara mochila do Antônio que ele esqueceu, ele estava lá, na última carteira. Entãoeu comentei com o F. [pai] ‘eu não vou falar nada porque já está no final doano’, mas o ano que vem vamos ver, eu vou ficar meio em cima da professora.” No entanto, essa mesma mãe, ao focalizar a problemática da criança,remete ao discurso de “culpabilização da vítima”: “Já é uma criança meia assim,que dá trabalho, o meu medo é esse também. É por isso que eu quero ver se euacho logo o que ele tem, para mim ver o que eu posso fazer.” Evidencia-se,nessa fala da mãe, a sua preocupação em estar diagnosticando as causas dasdificuldades e, assim, agir de modo mais rápido em relação ao problemasapresentados pela criança. 6.1.3. Concepções sobre a necessidade de encaminhamento dacriança Quanto à concordância das mães com o pedido de encaminhamentodas professoras, observamos que, com exceção das mães de Vilma e Eduardo,todas parecem aceitar e até complementar os argumentos utilizados. Como foi dito anteriormente, parece existir uma postura de submissãoe a obediência das mães em relação às decisões das professoras, especialmenteno que diz respeito ao fato da criança necessitar de avaliação ou atendimentopsicológico. Esta situação parece incomodar algumas mães, principalmente
  9. 9. 116quando as mesmas se referem à “pressão” exercida pela professora ou pela escolacomo um todo. As mães de Telma e Antônio, além de concordarem com o pedido deencaminhamento do aluno ao psicólogo, acabam se transformando em “parceiras”das professoras, no sentido de que iniciam e agilizam esse processo, seja porsentirem-se pressionadas ou importunadas pelas constantes reclamações dasdocentes sobre as dificuldades da criança, por se preocuparem com o futuroacadêmico de seus filhos ou por ambas as razões. Ilustrando a situação acima como “parceria” entre mãe e professora,reproduz-se o depoimento da mãe de Antônio. Depois de ter sido perguntadosobre as razões pelas quais havia solicitado a realização dos testes na APAE,responde: “Porque as professoras ficam pegando no meu pé ‘o Antônio não vai,que está acontecendo com ele, a senhora já levou ele no neurologista?” As mães de Dalva, José, Roberto e Marcos concordam com asolicitação da professora, justificando-a com dois tipos de argumentos: a criançaapresenta algum tipo de problema que precisa ser diagnosticado e exibe sintomasque por si só justificam o encaminhamento. Por exemplo, no caso de José, o fatode ser considerado “desligado”, não prestar atenção e ser irônico, justificam anecessidade de encaminhá-lo ao psicólogo. As mães de Vilma e Eduardo são as únicas que se permitemquestionar a necessidade de que os filhos sejam atendidos por um psicólogo. Aresposta da mãe de Vilma, por exemplo, quando questionada sobre a necessidadede atendimento psicológico para o filho, é a seguinte: “Às vezes que ela não temproblema nenhum, eu acho ela normal, como uma criança qualquer, mas aprofessora achou que ela tivesse necessidade, então eu quero o melhor paraela.” Chama-se a atenção para a utilização da expressão “eu acho ela assimnormal”. O uso da palavra “normal” traz à tona a discussão sobre os conceitos denormalidade e os preconceitos associados aos indivíduos que necessitam deatendimento psicológico, como por exemplo aquele associado ao chavão “quem
  10. 10. 117precisa de psicólogo é louco”, dentre outros, utilizados comumente em nossasociedade. 6.1.4. Concepções sobre o papel do psicólogo As mães, como quaisquer usuários de uma instituição de saúde,possuem determinadas concepções e expectativas a respeito do papel dosprofissionais de saúde, as quais foram coletadas e analisadas a partir dasrespostas à questão “O que você gostaria que o psicólogo fizesse pelo seu(ua)filho(a)?” Todas as mães associam suas expectativas em relação ao trabalho dopsicólogo com o desaparecimento ou diminuição das dificuldades da criança. Algumas esperam resultados específicos, como é o caso da mãe deVilma, que gostaria que o psicólogo tirasse a “mania” da criança de se achar “feiae burra”. Outras esperam resultados de maior amplitude, como no caso da mãe deRoberto, que gostaria que seu filho, além de aprender a ler e escrever se“comporte melhor”. As mães de Telma e Dalva não expressam com muita clareza o queesperam do trabalho do psicólogo, recorrendo à idéia mais comum a respeito dotipo de trabalho realizado por esse profissional: “conversar”. As mães de Antônio e Eduardo esperam que o psicólogo desvende osmotivos pelos quais seus filhos vêem apresentando os padrões decomportamentos que tanto incomodam às suas famílias: no caso de Antônio, suaexcessiva insegurança e de Eduardo, sua “rebeldia”. As respostas das mães citadas nos dois parágrafos anteriores (deTelma, Dalva, Antônio e Eduardo) assemelham-se ao que PAIN (op. cit.), apontaquanto às expectativas dos familiares em relação ao início de umacompanhamento psicológico: “Com relação ao tratamento, a fantasia maiscomum é a de ‘um método especial’; outros esperam que ‘brincando’, opsicólogo perceba o que está se passando e diga à criança.” (p. 40-41) De modo geral, as respostas das mães revelam que:
  11. 11. 118 - suas expectativas em relação ao trabalho do psicólogo estárelacionada àquilo que mais incomoda no comportamento de seus filhos,coincidindo, geralmente, com o que vem sendo apontado como “problema” pelaescola; - a atuação do psicólogo está relacionada exclusivamente aoatendimento à criança, já que nenhuma mãe sugere uma aproximação doprofissional com a escola; - a maioria das mães atribui a responsabilidade pela mudança dospadrões de comportamento da criança ao tratamento psicológico, já que poucasmães fazem referência ao papel da escola ou da própria família na resolução dosproblemas da criança. Somente duas mães (Antônio e Marcos) parecem considerar que aescola e a família devam participar no processo de resolução dos problemasobservados na criança e para ilustrar essa afirmação, tem-se a fala da mãe deMarcos: “Eu gostaria que ele aprendesse, ajudaria ele nas dificuldades naescola, eu imaginava assim: que o psicólogo ia conversar, não sei se é bem oque eu estou falando, conversava com ele, poderia ajudar ele, lógico que eufazia a minha parte na minha casa.” Por outro lado, para exemplificar a não consideração deresponsabilidade da escola tanto na determinação como na superação dosproblemas de aprendizagem observados nos filhos, apresenta-se a fala da mãe deJosé: “A escola já faz tudo de bom pelo meu filho.” Nesta colocação fica evidente o que parece ser uma atitude de totalvalorização e credibilidade quanto ao trabalho da escola, assim como odesconhecimento de que a escola pode ter responsabilidade na construção dofracasso escolar e dos problemas de aprendizagem de seu filho. 6.2. Concepções dos alunos:
  12. 12. 119 Os alunos encaminhados ao serviço de Psicologia do ARE, sujeitosdeste estudo, participaram de uma entrevista, que teve como objetivo coletar assuas concepções sobre: os motivos de encaminhamento ao psicólogo, a(s)causa(s) do(s) problema(s) escolares observados e as expectativas quanto aopapel do ARE e do psicólogo em relação aos problemas de aprendizagem.(Anexo 4) 6.2.1. Concepções sobre os motivos de encaminhamento A maioria dos alunos considera as dificuldades acadêmicas como oprincipal motivo para terem sido levados ao serviço de Psicologia do ARE. Citamdificuldades de leitura, baixo rendimento acadêmico em determinadas disciplinas,em conteúdos ministrados pela professora ou a combinação desses motivos. Vilma, quando perguntada sobre as possíveis causas do fato de nãoestar aprendendo a ler – em conformidade com o que foi apresentado pela mãe eprofessora – disse que não sabia como responder à questão. Embora concorde com a mãe e com a professora, confirmando apresença de dificuldades de aprendizagem da leitura, quando perguntado àcriança sobre quem havia dito que a ela que apresentava dificuldades para ler,responde que “ninguém” havia falado sobre o seu problema de leitura. Noentanto, como a aluna tomou conhecimento de que o que lia estava incorreto?Quem a corrigiu ou disse a ela que o que lia não estava correto? Ao comentarem sobre os motivos de encaminhamento, os alunosexpressaram a pouca auto - estima que parecem possuir de si mesmos Joana, por exemplo, é uma das que parece possuir a visão maisnegativa sobre o que é considerado como seu “problema de aprendizagem”.Afirma, num primeiro momento que está “ruim da lição” e, posteriormente,generaliza, dizendo que está “mal em tudo”. Seu auto-conceito é tão baixo quenão consegue apontar ou identificar os conteúdos e atividades escolares em quepossui um desempenho bom ou regular, embora seja capaz de apresentar uma
  13. 13. 120lista razoavelmente numerosa de atividades em que não considera seudesempenho satisfatório. Para Telma, seus problemas de aprendizagem vão desde o “não saberler” até o “não saber nada”. Apresenta auto-estima bastante rebaixada, apesarde achar que sabe fazer “continhas”. Alguns alunos associam os seus problemas de aprendizagem aoinsucesso nas avaliações acadêmicas ou ao rendimento escolar pouco valorizado,como no caso de Antônio que, hesitante, acredita que foi encaminhado ao serviçopor ser “ruim na escola” e de José, para quem o motivo de seu encaminhamentoao ARE é por apresentar simplesmente “muita dificuldade”. José ainda colocaque sua mãe lhe disse que a psicóloga e a terapeuta ocupacional iriam ajudá-lo asuperar sua dificuldade; parece ter introjetado o discurso, utilizado pela mãe, deque os serviços de Psicologia e Terapia Ocupacional iriam ajudá-lo, mesmo nãosabendo exatamente no quê e o porquê de ser ajudado. Para Roberto, os motivos de ter sido encaminhado ao psicólogo doARE são por estar “mal na escola, fazer bagunça, não aprender a ler e escrevere não guardar as coisas”, manifestando um ponto de vista acerca de suas“dificuldades” muito parecido àquele manifestado por sua professora: estáfazendo “bagunça”, não aprende a ler e escrever e não consegue acompanhar aclasse. Neste caso, parece difícil discriminar-se onde começa um problema etermina o outro, ou seja, problemas de comportamento e aprendizagem podemestar inter - relacionados. É complexa a diferenciação, por parte dos profissionaisde saúde, dos docentes e dos próprios pais, entre a indisciplina e problemas deaprendizagem. O comentário acima remete ao estudo realizado por SCHNEIDER(1977), onde se analisa a carreira acadêmica dos chamados “alunos excepcionais”e chama a atenção para o fato de que, em relação a estes indivíduos, qualquertipo de comportamento pode ser rotulado como “anormal”. O emblema daexcepcionalidade perpassa todas as possíveis interpretações feitas sobre seu
  14. 14. 121comportamento: “... se uma criança normal é barulhenta, trata-se de umasimples “bagunça”; se um Aluno Excepcional é barulhento, trata-se de um sinalde sua doença.” (p.57) Partindo-se do pressuposto de que a indisciplina do alunocom problemas de aprendizagem é decorrente de uma patologia, seja essa deordem individual ou social, qualquer manifestação desta criança acaba sendovista como um desvio da normalidade. Alguns sujeitos, não parecem estar envolvidos no processo deencaminhamento, como Marcos que deixa claro que o responsável pelo seuencaminhamento foi a mãe e que veio ao ARE para a psicóloga “falar umascoisa para ele”. Ainda em relação à percepção dos alunos acerca dos motivos deencaminhamento ao psicólogo percebeu-se, como era de se esperar, que ascrianças reproduzem aquilo que lhes foi colocado pelas mães ou suapercepção/interpretação a respeito destas verbalizações. Todavia, uma criançacolocou que sua mãe nada lhe respondeu quando perguntou a ela sobre o queaconteceria em sua primeira visita ao psicólogo. 6.2.2. Concepções sobre a(s) causa(s) do(s) problema(s)observado(s) A questão utilizada no roteiro de entrevista para investigar asatribuições de causalidade da amostra de alunos, a respeito dos seus problemasde aprendizagem, foi a seguinte: “Por que você acha que está com essasdificuldades na escola?” Aproximadamente metade da amostra de alunos atribuiu algumaespécie de causa a sua dificuldade escolar, sendo que das causas apontadas pode-se dizer que a totalidade refere-se a algum aspecto individual ou pessoal: “nãosabem ler” ou “não sabem nada”, estão “mal em tudo” ou “ruim na escola” eainda são “preguiçosos” e “não guardam as coisas”. Vilma não atribuiu causas para o seu suposto “problema deaprendizagem”, mas disse que não está acompanhando o ritmo de aprendizagem
  15. 15. 122da classe e que a professora passa “lição difícil”, principalmente “continhas dedividir que a gente ainda não sabe”. Portanto, essa aluna ao se queixar que não sabe fazer determinadasoperações matemáticas que, segundo ela, ainda não foram ensinadas, acaba porlançar uma pista sobre a possibilidade de que sua dificuldade de aprendizagemseja devido a um descompasso na sua relação com a professora, pois de quemaneira essa criança poderia ter queixas quanto ao fato de não conseguir fazerdeterminada atividade, se essa tarefa ainda nem havia sido ensinada a ela? Joana acha que está “mal” na escola porque “conversa demais”.Atribui somente essa causa ao seu “problema de aprendizagem”. Faz váriasassociações, no decorrer da entrevista, à conversas excessivas (suas e de outrascrianças de sua classe) e ao fato de não fazer ou não completar lições. Telma e Dalva não souberam como responder à questão. Antônio associou a causa de seu desempenho “ruim” na escola com oinsucesso no conteúdo escolar de matemática. José relata que sua mãe sempre dizia que ele possuía dificuldade parafalar. Considera-se igual ao avô que, segundo a criança, “fala pelo nariz”.Acrescenta, desta forma, mais um elemento ao que se configura como umapequena “confusão” quanto ao real motivo de seu encaminhamento ao serviço dePsicologia do ARE: veio ao psicólogo porque “fala errado”. Na colocação dacriança aparecem não só suas idéias a respeito dos motivos de encaminhamento,como também a atribuição de causalidade acerca dos seus problemas escolares. Acriança percebe suas supostas dificuldades de aprendizagem como decorrentes dodistúrbio de fala que possui e as atribui a uma questão hereditária. Roberto considera-se “preguiçoso” e sua resposta indica haveratribuição da causa de seus problemas exclusivamente a si. Questionado a respeito das causas de suas dificuldades deaprendizagem, Marcos coloca: “às vezes não consigo aprender, erro a lição deportuguês e matemática”.
  16. 16. 123 De modo geral, os alunos atribuíram a responsabilidade do fracassoexclusivamente a si próprios, o que sugere possuírem uma visão bastante negativae depreciativa de si próprios. Em algumas respostas há indicadores sobre a possível origem dossupostos problemas que os alunos apresentam na escola e dessa forma pergunta-se, até que ponto as histórias acadêmicas destas crianças seriam diferentes setivessem a oportunidade de externar aos seus professores como percebem oprocesso de ensino - aprendizagem a que são sujeitos? 6.2.3. Concepções sobre o trabalho do psicólogo: O ponto de partida para a coleta de dados sobre o que os alunosconhecem a respeito do trabalho do profissional de Psicologia, foi a seguintequestão do roteiro de entrevista: “O que você acha que o psicólogo faz?” Vilma afirma não saber o que o psicólogo faz, apesar de afirmar terconhecido um psicólogo na UFSCar, onde vem sendo atendida em um dosserviços de atendimento pedagógico prestados à comunidade. Joana responde, simplesmente, que psicólogo é “para aprender aler”. Telma e Antônio não sabem o que o psicólogo faz. Para Dalva, psicólogo é aquele que “ensina as crianças de oito, novee dez anos”. A concepção de José sobre o trabalho do profissional de Psicologia éque “... o psicólogo ajuda as pessoas que falam errado, que tem dificuldade emportuguês.” Essa resposta reforça a sua expectativa sobre o tratamento específicoaos seus problemas de fala. Roberto acredita que psicólogo é aquele que “ensina a aprender,incentiva a aprender a ler e escrever e guardar as coisas.” Marcos coloca que o psicólogo “é médico” e o ARE é um “lugar demédico, pros outros ficarem internados, tomarem injeção, tomar remédio.”
  17. 17. 124 6.2.4. Expectativas em relação ao ARE e ao trabalho do psicólogo Apresentam-se, a seguir, as expectativas do grupo de alunos emrelação ao trabalho a ser desenvolvido pelo ARE e pelo profissional dePsicologia. Em relação ao ARE os alunos, de modo geral, manifestaram a idéia deesta é uma instituição semelhante a um hospital. Quanto às expectativas dos alunos em relação ao atendimentoproporcionado pela instituição, Vilma, por exemplo, acha que vai “melhorar”. Joana quando questionada sobre “o que se faz neste prédio?” respondeque “gente que machuca vem aqui.” Como foi dito acima, pode-se concluir queessa aluna associa o ARE a um local de reabilitação ou cura de algum danofísico. O que Joana espera do trabalho do psicólogo é “... estudar, fazer lição,aprender.” Dalva, em relação ao trabalho do psicólogo espera, apenas,“melhorar.” Já Antônio imaginou que, se fosse ao psicólogo, teria que fazer“lição”; mas que gostaria mesmo de fazer “desenhos”; sua expectativa emrelação ao tratamento psicológico é de que irá “aprender.” A expectativa de José em relação ao ARE vincula-se à concepção quepossui acerca de sua função: “tratar as pessoas que tem doença, febre amarela,sarampo, dengue” e espera “melhorar mais ainda”, já que na época em que serealizou a entrevista, estava progredindo nos estudos e obtendo um bomrendimento acadêmico. Roberto alimenta a expectativa que o psicólogo o ajude a “melhorá epassá de ano”. Telma e Marcos, como nas questões anteriores, responderam que nãopossuem expectativas em relação ao encaminhamento do ARE ou ao fato de iremao psicólogo. Conclui-se, portanto, que no tocante às expectativas que alimentamsobre o tratamento com o psicólogo as crianças entrevistadas contam com uma
  18. 18. 125“melhora”, a qual está vinculada à resolução de seus problemas de aprendizagem.Acreditam que, durante a realização do acompanhamento psicológico, irãorealizar atividades similares às que já vêem realizando na escola, o que indica aassociação entre “lição” (ou seja, a produção em sala de aula) e “aprendizado”. Enfim, as crianças parecem acreditar que se fizerem suas lições e,portanto, produzirem dentro de sala de aula, estarão “aprendendo”.

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