Concepções aprendizagem

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Concepções aprendizagem

  1. 1. Inatismo, empirismo e interacionismo/construtivismo: três concepções sobre odesenvolvimento e a aprendizagem Juliana Zantut NuttiConcepção inatista: o saber congênitoA busca por respostas começa na Antiguidade grega, com o nascimento do pensamento racional,que busca explicações baseadas em conceitos (e não mais em mitos) como uma forma de entender omundo. Para os primeiros filósofos, a dúvida consistia em saber se as pessoas possuem saberesinatos ou é se possível ensinar alguma coisa a alguém.Chamada de Inatismo, essa perspectiva sustenta que as pessoas naturalmente carregam certasaptidões, habilidades, conceitos, conhecimentos e qualidades em sua bagagem hereditária. Talconcepção motivou um tipo de ensino que acredita que o educador deve interferir o mínimopossível, apenas trazendo o saber à consciência e organizando-o. "Em resumo, o estudante aprendepor si mesmo", escreve Fernando Becker, professor da Faculdade de Educação da UniversidadeFederal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no livro Educação e Construção do Conhecimento.A concepção inatista parte do pressuposto de que os eventos que ocorrem após o nascimento nãosão essenciais e/ou importantes para o desenvolvimento. As qualidades e capacidades básicas decada ser humano  personalidade, valores, hábitos, crenças, forma de pensar, reações emocionais,conduta social  já se encontrariam basicamente prontas e em sua forma final por ocasião donascimento, sofrendo pouca diferenciação e quase nenhuma transformação ao longo da existência.O papel do ambiente é tentar interferir o mínimo possível no processo do desenvolvimentoespontâneo da pessoa.As origens da concepção inatista podem ser encontradas, por um lado, na Teologia (o destinoindividual de cada ser humano já estaria determinado pela graça divina) e, por outro, em umentendimento errôneo de algumas contribuições da proposta evolucionista de Darwin, daEmbriologia e da Genética (as mudanças no desenvolvimento das espécies decorrem de variaçõeshereditárias em que o papel do ambiente é limitado).Platão (427-347 a.C.) firmou posição a favor das ideias congênitas. Defendendo a tese de que aalma precede o corpo e que, antes de encarnar, tem acesso ao conhecimento, o discípulo de Sócrates(469-399 a.C.) afirmou que conhecer é relembrar, pois a pessoa já domina determinados conceitosdesde que nasce.
  2. 2. Platão (427-347 a.C.)"Mas o deus que vos modelou, àqueles dentre vós que eram aptos para governar, misturou-lhesouro na sua composição, motivo por que são mais preciosos; aos auxiliares, prata; ferro e bronzeaos lavradores e demais artífices." Platão, no livro A RepúblicaNesta perspectiva, a aprendizagem é considerada como um processo interno do sujeito (aquele queaprende). O objeto do conhecimento (aquilo que é aprendido) é algo que o sujeito descobre. Por issose diz que esta vertente se caracteriza pelo primado do sujeito.A concepção inatista gerou uma idéia de homem que produziu uma abordagem rígida, autoritária e,sobretudo, pessimista para a educação de crianças e adolescentes: se o homem “já nasce pronto”,pode-se apenas aprimorar aquilo que ele é ou virá a ser.O ditado “pau que nasce torto morre torto” expressa bem a concepção inatista, que ainda hojeaparece na escola, camuflada sob o disfarce das aptidões, da prontidão e do coeficiente deinteligência (QI).Concepção ambientalista/empirista: a absorção do conhecimento externoA concepção ambientalista/empirista atribui um imenso poder ao ambiente no desenvolvimento eaprendizagem humanos. O homem é concebido como um ser extremamente plástico, quedesenvolve as suas características em função das condições existentes no meio em que se encontra.Para essa concepção, o conhecimento é algo que existe fora do sujeito. A realidade está fora doindivíduo, localiza-se no ambiente, no meio, por isso se diz que esta vertente se caracteriza peloprimado do objeto (ambiente). 2
  3. 3. Esta concepção deriva do empirismo, corrente filosófica que enfatiza a experiência sensorial comofonte do conhecimento e que determinados fatores encontram-se associados a outros, sendo possívelidentificar, controlar e manipular essas associações.Aristóteles (384-322 a.C.) apresentou uma perspectiva contrária à de Platão (como se vê no quadroresumo, abaixo). Segundo ele, embora as pessoas nasçam com capacidade de aprender, elasprecisam de experiências ao longo da vida para que se desenvolvam. A fonte do conhecimento sãoas informações captadas do meio exterior pelos sentidos. Ideias como essa impulsionaram oempirismo, corrente favorável a um ensino pela imitação - na escola, as atividades propostas são asque facilitam a memorização, como a repetição e a cópia. Aristóteles (384-322 a.C.)"As virtudes, portanto, não são geradas em nós nem através da natureza nem contra a natureza. Anatureza nos confere a capacidade de recebê-las, e essa capacidade é aprimorada e amadurecidapelo hábito." Aristóteles, no livro Ética a Nicômaco"Os empiristas acreditavam que as informações se transformam em conhecimento quando passam afazer parte do hábito de uma pessoa", explica Clenio Lago, professor de Filosofia da Educação naUniversidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), em São Miguel do Oeste. Absorvidos tal comouma esponja retém líquido, os dados aprendidos são acumulados e fixados - e podem serrearranjados quando outros conteúdos mais complexos aparecem. A mente humana é definida comouma tábula rasa, um espaço vazio a ser preenchido. "A criança é comparada à água, que pode sercanalizada na direção desejada", diz Lago.Nos séculos 16 e 17, em plena Idade Moderna, essa perspectiva ganha força com filósofos comoFrancis Bacon (1561-1626), Thomas Hobbes (1588-1679) e John Locke (1632-1704). Do ponto devista dos empiristas, caberia à escola formar um sujeito capaz de conhecer, julgar e agir segundo oscritérios da razão, substituindo as respostas "erradas" absorvidas no contato com diversos meios (a 3
  4. 4. religião, por exemplo) pelas "certas", já validadas pelos acadêmicos por seguirem os critérioscientíficos da época.Na Psicologia, o maior defensor da posição ambientalista é o norte - americano B. F. Skinner, queelaborou uma teoria baseada na análise dos comportamentos observáveis do sujeito, desprezando aanálise de outros aspectos da conduta humana como o raciocínio, os desejos, as fantasias e ossentimentos (Behaviorismo). Na concepção de Skinner e seus colaboradores, o papel do ambiente émuito mais importante do que a maturação biológica, pois os estímulos presentes numa dadasituação levariam ao surgimento de determinados comportamentos.Manipulando-se os elementos existentes no ambiente é possível controlar o comportamento dosindivíduos: pode-se aumentar ou diminuir a freqüência com que os comportamentos aparecem,através de esquemas de reforçamento que envolvem elogios (aumentar a freqüência decomportamentos positivos) e punições (diminuir a freqüência de comportamentos negativos).Nesta perspectiva, o ensino é visto como o planejamento e o arranjo das contingências dereforçamento (elogios, notas, diplomas), as quais vão permitir a aprendizagem, que consiste emobter mudanças no comportamento dos alunos, tendo em vista objetivos predeterminados.Apesar dos séculos de distância, o fato é que algumas práticas empiristas seguem presentes no dia adia das escolas. "Até hoje, o conhecimento é visto por muitos como um produto que pertence aoprofessor", explica Becker. Os especialistas formulam outra crítica à corrente: nem sempre ideiassimples dão elementos para compreender as mais complexas. Dito de outra forma, não bastaacumular informações para aprender.Os efeitos nocivos da concepção ambientalista sobre a prática pedagógica estão relacionados a umaênfase exagerada na tecnologia educacional, em detrimento da reflexão filosófica sobre o papel daeducação.Concepção interacionista: a tentativa de caminho do meioCom inatismo e empirismo apontando para lados opostos ("O saber está no indivíduo" versus "Osaber está na realidade exterior"), o século 20 nasceu com uma tentativa de caminho do meio paraexplicar o aprendizado: a perspectiva construtivista. De acordo com essa linha, o sujeito tempotencialidades e características próprias, mas, se o meio não favorece esse desenvolvimento(fornecendo objetos, abrindo espaços e organizando ações), elas não se concretizam.A presença ativa do sujeito diante do conteúdo é essencial - portanto, não basta somente ter contatocom o conhecimento para adquiri-lo. É preciso "agir sobre o objeto e transformá-lo", como diz JeanPiaget (1896-1980) (leia o quadro abaixo). Foi o cientista suíço quem cunhou o termoconstrutivismo, comparando a construção de conhecimento à de uma casa, que deve ter materiaispróprios e a ação de pessoas para que seja erguida. 4
  5. 5. Embora seus estudos não tenham sido feitos para aplicação em sala de aula - por isso, é umequívoco falar em "método construtivista de ensino" -, suas teorias inspiraram as obras sobreEducação popular de Paulo Freire (1921-1997), sobre Matemática de Constance Kamii, sobre éticade Yves de la Taille e sobre a psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky.Nas últimas três décadas, elas também têm influenciado investigações nas chamadas didáticasespecíficas de cada disciplina.Pela concepção construtivista, o professor deve criar contextos, conceber ações e desafiar os alunospara que a aprendizagem ocorra."O conhecimento não é incorporado diretamente pelo sujeito: pressupõe uma atividade, por parte dequem aprende, que organize e integre os novos conhecimentos aos já existentes", escreve TeresaMauri em O Construtivismo na Sala de Aula.É claro que nem tudo cabe debaixo do chapéu do construtivismo. Entre os mal-entendidos, um dosmais comuns é considerar que o professor construtivista não apresenta conteúdos nem orienta seusalunos. "Professor que não ensina não é construtivista", afirma Becker. Para que haja o avanço dosalunos, o docente precisa tomar muitas decisões: considerar as demandas da turma, propor questõese desafios e pensar formas de promover ações que gerem aprendizado. "O educador deve dominarsua área e conhecer os processos pelos quais o aluno aprende os mais diferentes conteúdos", diz.Ao pesquisar a maneira como a criança pensa, Piaget chamou a atenção para o papel da interaçãopara explicar como o conhecimento se origina e se desenvolve. Por essa via, aproximou-se depesquisadores como Lev Vygotsky (1896-1934) e Henri Wallon (1879-1962). Embora os registroshistóricos indiquem que Wallon e Vygostky não conviveram diretamente com Piaget, são muitos ospontos de contato entre o construtivismo piagetiano e a perspectiva defendida pela dupla, osociointeracionismo. Segundo ela, o processo de aprendizagem se dá pela relação do aprendiz como meio (ambiente familiar e social, professores, colegas e o próprio conteúdo). Você conhece maisdetalhes sobre as duas perspectivas nas próximas reportagens da série. Jean Piaget (1896-1980) 5
  6. 6. "Pensar não se reduz, acreditamos, em falar, classificar em categorias, nem mesmo abstrair.Pensar é agir sobre o objeto e transformá-lo." Jean Piaget, no livro Problemas de PsicologiaGenéticaPara esta concepção, não há o primado do sujeito nem do objeto, pois o conhecimento decorre doprocesso de interação constante entre sujeito e objeto.O sujeito tem um papel ativo no sentido de incorporar às suas estruturas os dados do ambiente,modificando-os e criando estruturas cada vez mais complexas que vão lhe permitir o domínio desseambiente e, se necessário, sua transformação.O ensino consiste no provimento de atividades desafiadoras que levem o educando a buscar novosconhecimentos. São atividades preparadas para que os indivíduos acionem seus processos mentais,num mecanismo ativo de assimilação dos dados do ambiente às suas estruturas, modificando-aspara incorporar esses novos dados, num movimento contínuo de desequilíbrio e equilíbrio.A aprendizagem é um processo ativo que ocorre no sujeito, através de uma interação constante como ambiente, na qual estruturas cada vez mais complexas vão sendo construídas. As informações, osconteúdos a que os educandos estão expostos vão sendo processados internamente num movimentode construção, que torna essa perspectiva também conhecida como construtivista.Várias correntes aparecem nesta tendência interacionista com implicações importantes para oensino e a aprendizagem. Uma delas é a que vem sendo denominada de sociointeracionistaconstrutivista (ou construtivismo sociointeracionista) e que envolve uma inter - relação entre asconcepções de Piaget e Vygotsky.O conhecimento é um processo socialmente construído: através da interação do sujeito com o“outro”, torna-se possível a incorporação dos conhecimentos sistematizados e o reconhecimento desua determinação histórica, ao mesmo tempo em que esse mesmo sujeito se reconhece comoparticipante do processo histórico de produção do conhecimento.A construção do real pelo sujeito é um processo sociocultural, pois envolve um sujeito de umadeterminada cultura, com hábitos, valores próprios, em interação com outro sujeito, também datadoe situado historicamente.As premissas básicas apresentadas determinam ao professor um papel muito mais maior do que o deum mero “facilitador” do processo de aprendizagem, pois exerce uma função vital na relação queestabelece com os educandos, dependendo também dele a conquista do conhecimento pelos alunos.Na sala de aula o conhecimento não é apenas transmitido pelo professor e apropriado pelos alunos.Os estudantes são exigidos como parceiros na construção do conhecimento, que é disputado, aceito,rejeitado, elaborado no processo concreto de interlocução. Assim, a interação em sala de aula épotencialmente conflitiva, pois nela se visa a substituição dos saberes do aluno por outros saberes. 6
  7. 7. ReferênciasCOLL, Cesar; PALACIOS, Jesus & MARCHESI, Alvaro (Orgs.) Desenvolvimento Psicológico eEducação. (vol.1) Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.Inatismo, empirismo e construtivismo: três concepções sobre a aprendizagem. Disponível em:http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-continuada/inatismo-empirismo-construtivismo-tres-ideias-aprendizagem-608085.shtml?page=0 Acessado em 08/02/2013.Publicado em NOVA ESCOLA Edição 237, Novembro 2010. Título original: Três ideias sobre aaprendizagem 7
  8. 8. ReferênciasCOLL, Cesar; PALACIOS, Jesus & MARCHESI, Alvaro (Orgs.) Desenvolvimento Psicológico eEducação. (vol.1) Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.Inatismo, empirismo e construtivismo: três concepções sobre a aprendizagem. Disponível em:http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-continuada/inatismo-empirismo-construtivismo-tres-ideias-aprendizagem-608085.shtml?page=0 Acessado em 08/02/2013.Publicado em NOVA ESCOLA Edição 237, Novembro 2010. Título original: Três ideias sobre aaprendizagem 7

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