À terra
Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
A abrir leques de sonho e de centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã,
Sem fronteiras nem dono,
Há-de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoila vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem,
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada
Na criação!
Seja funda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração.
Odes, 1946
Coimbra, 15 de Maio de 1944
Legado
A quem vier um dia, curioso
De conhecer uma novela triste,
Contai-lhe a minha história verdadeira.
Dizei-lhe onde nasci, onde morri,
O que vi,
E como só fui carne passageira.
Podeis também mostrar-lhe estes meus versos
E o caminho do jugo onde passei
A cantá-los, rebelde e apaixonado…
Mas guardai o segredo do meu pó
Onde podre e desfeito vivo só,
Da própria consciência abandonado.
Diário III, 1946
Coimbra, 5 de Março de 1973
Relato
Foi longo o meu caminho de poeta,
Com versos de agonia demorada.
A vida imaginada
Paralela
À outra, acontecida.
E ambas a enfunar a mesma vela
Já sem rumo à partida.
Os áugures previam,
Os mapas ensinavam,
A bússola apontava…
Mas faltava-me a fé das almas confiadas.
Teimoso, repetia
A pergunta inquieta que fazia
Ao vazio das horas navegadas.
Que certa direcção
Dar ao timão
Numa viagem sem qualquer sentido?
O mar diariamente enfurecido,
O céu diariamente enevoado,
E o barco fatalmente conduzido
A um cais de morte sempre adivinhado…
Diário XI, 1973

Poemas de Miguel Torga

  • 1.
    À terra Também euquero abrir-te e semear Um grão de poesia no teu seio! Anda tudo a lavrar, A abrir leques de sonho e de centeio, E são horas de eu pôr a germinar A semente dos versos que granjeio. Na seara madura de amanhã, Sem fronteiras nem dono, Há-de existir a praga da milhã, A volúpia do sono Da papoila vermelha e temporã, E o alegre abandono De uma cigarra vã. Mas das asas que agite, O poema que cante Será graça e limite Do pendão que levante A fé que a tua força ressuscite! Casou-nos Deus, o mito! E cada imagem que me vem, É um gomo teu, ou um grito Que eu apenas repito Na melodia que o poema tem. Terra, minha aliada Na criação! Seja funda a vessada, Seja à tona do chão, Nada fecundas, nada, Que eu não fermente também de inspiração. Odes, 1946
  • 2.
    Coimbra, 15 deMaio de 1944 Legado A quem vier um dia, curioso De conhecer uma novela triste, Contai-lhe a minha história verdadeira. Dizei-lhe onde nasci, onde morri, O que vi, E como só fui carne passageira. Podeis também mostrar-lhe estes meus versos E o caminho do jugo onde passei A cantá-los, rebelde e apaixonado… Mas guardai o segredo do meu pó Onde podre e desfeito vivo só, Da própria consciência abandonado. Diário III, 1946
  • 3.
    Coimbra, 5 deMarço de 1973 Relato Foi longo o meu caminho de poeta, Com versos de agonia demorada. A vida imaginada Paralela À outra, acontecida. E ambas a enfunar a mesma vela Já sem rumo à partida. Os áugures previam, Os mapas ensinavam, A bússola apontava… Mas faltava-me a fé das almas confiadas. Teimoso, repetia A pergunta inquieta que fazia Ao vazio das horas navegadas. Que certa direcção Dar ao timão Numa viagem sem qualquer sentido? O mar diariamente enfurecido, O céu diariamente enevoado, E o barco fatalmente conduzido A um cais de morte sempre adivinhado… Diário XI, 1973