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Marinho Martins Fontes apresenta:
Tributo ao  poeta santista Martins Fontes
Foi junto ao Coliseu, à direita do Teatro  No mais puro e feliz de todos os recantos  Que, em junho a 23 do ano de oitenta e quatro  Desabrochei ao sol, na Cidade de Santos.  Era a "chácara" um bosque impenetrável e átro  Sombreado de araças, cambucás, amarantos...  E eu, que adoro o passado e que os meus idolatro  Sinto, ao rever a infância, o maior dos encantos.  Comovido, a evocar, muitas vezes contemplo,  Na Praça de José Bonifácio de Andrada,  O prédio hoje desfeito onde vivemos nós...  Rezo. Em frente a Matriz, aberta como um templo  Berço da Abolição era outrora a morada  Da família Martins, Casa de meus Avós!  E mais:  A Casa dos Martins vivia cheia  De novidades e de comensais,  Tendo a alegria de quem presenteia,  Era herdada a franqueza de meus Pais.  Até o rosar - doirar da madrugada,  A Casa Ilustre esplendia, a arder,  E, nababescamente iluminada,  Era um solar no brilho e no prazer.  Em cada ponche havia uma surpresa.  Cada vianda era um beijo ao paladar.  Nunca se retirou daquela mesa  A alva toalha, na sala de jantar.  Mas do que se tratava nessa Casa,  Qual a causa de tantas discussões?  Eram os corações fulgindo em brasa,  Sonhando alegria das revoluções!  E abolição saiu, dez anos antes  Dela em pleito vivaz, luta febril,  Nela teve a República os amantes  Mais tenazes e puros do Brasil!  As mais altas virtudes socialistas  Eram aclamadas com fervor e afã  Nessa Casa pregaram-se as conquistas,  As sagradas vitórias do Amanhã.
Soneto   Antes de conhecer-te, eu já te amava. Porque sempre te amei a vida inteira: Eras a irmã, a noiva, a companheira, A alma gêmea da minha que eu sonhava. Com o coração, à noite, ardendo em lava Em meus versos vivias, de maneira Que te contemplo a imagem verdadeira E acho a mesma que outrora contemplava. Amo-te.  Sabes que me tens cativo. Retribuis a afeição que em mim fulgura, Transfigurada nos anseios da Arte. Mas, se te quero assim, por que motivo Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura, Mais que loucura, um crime desejar-te?
Soneto Se eu fosse Deus seria a vida um sonho, Nossa existência um júbilo perene! Nenhum pesar que o espírito envenene Empanaria a luz do céu risonho! Não haveria mais: o adeus solene, A vingança, a maldade, o ódio medonho, E o maior mal, que a todos anteponho, A sede, a fome da cobiça infrene! Eu exterminaria a enfermidade, Todas as dores da senilidade, E os pecados mortais seriam dez... A criação inteira alteraria, Porém, se eu fosse Deus, te deixaria Exatamente a mesma que tu és!
Ser Paulista Ser Paulista é ser grande no passado! E inda maior nas glórias do presente! É ser a imagem do Brasil sonhado, E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente! Ser Paulista! é morrer sacrificado Por nossa Terra e pela nossa Gente! É ter dó das fraquezas do soldado, Tendo horror à filáucia do tenente! Ser Paulista! é rezar pelo Evangelho De Rui Barbosa - o Sacrossanto Velho Civilista imortal de nossa fé! Ser Paulista! - em brasão e em pergaminho É ser traído e pelejar sozinho, É ser vencido, mas cair de pé!
Como é bom ser bom Tú, que vês tudo pelo coração, Que perdoas e esqueces facilmente, E és, para todos, sempre complacente, Bendito sejas, venturoso irmão. Possues a graça como inspiração Amas, divides, dás, vives contente, E a bondade que espalhas, não se sente, Tão natural é a tua compaixão. Como o pássaro tem maviosidade, Tua voz, a cantar, no mesmo tom, Alivia, consola e persuade. E assim, tal qual a flôr contém o dom. De concentrar no aroma a suavidade, Da mesma forma, tu nasceste bom
Inocência   Criança ingênua, o dia inteiro, com os meus caniços de taquara, ficava eu, ao sol de então, junto dos tanques, no terreiro, soprando a espuma, leve e clara, fazendo bolhas de sabão. Corando a roupa, entre cantigas, as lavadeiras, que passavam, interrompiam a canção... Riam-se as pobres raparigas, vendo as imagens que brilhavam, nas minhas bolhas de sabão. Cresci. Sofri. Sonhando vivo. E, homem e artista, ainda agora, me apraz aquela distração... E fico, às vezes, pensativo, fazendo versos, como outrora fazia bolhas de sabão. E velho, um dia, de repente, sem ter, de fato, sido nada, pois tudo é apenas ilusão, há de extinguir-se a alma inocente que em mim fulgura, evaporada como uma bolha de sabão.
Minha mãe Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma  Para me abençoar e proteger, Teu puro amor o coração me acalma;  Provo a doçura do teu bem-querer. Porque a mão te beijei, a minha palma Olho, analiso, linha a linha, a ver Se em mim descubro um traço de tua alma, Se existe em mim a graça do teu ser. E o M, gravado sobre a mão aberta, Pela sua clareza, me desperta Um grato enlevo, que jamais senti: Quer dizer — Mãe! este M tão perfeito,  E, com certeza, em minha mão foi feito  Para, quando eu for bom, pensar em ti.
Canção aromal A mocidade tem perfume, cheira A nardo, a cravo, a flor de laranjeira! E teu corpo é tal qual uma roseira, Sorrindo ao sol, festivamente em flor! E o perfume trescalas de maneira Que, impressionando a redondeza inteira, Até quem não te vê, faz que te queira, Aspirando-te o aroma sedutor! Sai do rosal da tua pele a essência Da juventude em superflorescência! E eu inspiradamente o pressenti! Dizem que sempre vivo perfumado, Sem pensarem que, andando enamorado, O perfume que tenho vem de ti!
Preexistência   Ardem recordações em minha vida De inumeráveis vidas anteriores: A essência do meu ser guarda, incontida, Milhões de anseios e milhões de dores. Sinto que, eternamente renascida, Minh'alma palpitou, entre esplendores, No coração das águias encendida, Refulgindo nos surtos dos condores. Quando os segredos da nudez te vejo, Diante do orgulho do teu corpo amado, Sinto que eu os criei, que eles são meus. Assim, pelos eflúvios do desejo, Enamoradamente astralizado, Tenho a certeza de ter sido um Deus!
Otelo   Quem amar deste modo antes prefira Morrer, do que sentir a desventura De não saber, nas vascas da loucura, Distinguir a verdade da mentira: Infrene dúvida, implacável ira, Esta que me alucina e me tortura! Ter ciúmes da luz, formosa e pura, Do chão, da sombra e do ar que se respira! Invejo a veste que te esconde! A espuma Que beijando o teu corpo, linha a linha, Toda do teu aroma se perfuma... Amo! E o delírio desta dor mesquinha Faz que eu deseje ser tu mesma, em suma, Para ter a certeza de que és minha!
Ama, para que, assim, sejas amado... Se queres ser amado, ama primeiro, Faze-te amar, amando com ternura, Pois só merece a graça da ventura Quem for capaz de um culto verdadeiro. Sem raízes profundas no canteiro, Em teu jardim nenhuma flor perdura. É preciso que a terra seja pura, Para viçar, florindo, o jasmineiro. Sob a sideração do amor fulmínio, Pode estar crente todo enamorado, Que há de se realizar meu vaticínio. Quem for constante, sendo delicado, Pelo espírito alcança o predomínio, Sabendo amar, para que seja amado.
Imagem das imagens É o meu cigarro um típico resumo Da ilusão entre as suas mutações. De violetas ou rosas o perfumo, E esta é a maior das minhas distrações. Provo-o, aspiro-o, enganando-me. E, no fumo, Vejo em volutas as evoluções Da fantasia a divagar sem rumo, Dispersa em mil volatilizações. Fulgiu, queimou, viveu, mas de fugida. E o prazer produzido foi mendaz, Sua consolação dissaborida. E, finalmente, em cinzas se desfaz, E é como tanta cousa, que há na vida, Uma delícia que não satisfaz.
A ilha do amor Porque julgo impossível seres minha, Sonho acharmo-nos juntos, em viagem, Suceder um naufrágio na romagem, E salvar-te, encontrando-te sozinha. E ambos vamos parar a uma selvagem Ilha deserta, na amplidão marinha. E aí nos amarmos, logo se adivinha, Livres do mundo, escapos da voragem. Essa jornada é a — Vida, em que o — Destino, É o naufrágio, entre suas alternâncias, Cheio de angústias, mas também divino. E a Ilha, oculta no enredo das distâncias, Que nome tem? Chamemos-lhe, imagino, Do — Acaso Amável — ou — Das Circunstâncias.
Espelhado em teus olhos   Quando no espelho me contemplo, a frio, Notando o ultraje que produz a idade, Sou como quem suporta, ao desafio, A afronta iníqua da fatalidade. Mas se em teus olhos, cheios de bondade, Me revejo, ante a análise, sorrio; Volvo ao fulgor da antiga mocidade, Em subitâneo e alegre desvario! Espelhado em teus olhos, estremeço! Aos teus olhos, feliz, rejuveneço, Revibrando de espanto e de alvoroço! Porque sempre que os beijo e os interpelo, Por sua refração, me torno belo, E pelo teu amor me sinto moço!
Delicadeza  Tranco-me, quando sofro, a sete chaves  Fujo dos seres o infernal tumulto  E tanto as dores físicas oculto,  Quanto as outras mais íntimas e graves.  Alegremente me comparo às aves,  Carinhosas amigas de meu culto,  Que vão morrer, longe do mundo oculto,  Nos bosques ermos, de sonoras naves.  Tendo o brilho e a beleza da saúde,  A elegância do traje e das maneiras,  Quando apareço meu aspecto ilude.  O pudor torna as horas prazenteiras,  E a gentileza, máxima virtude,  Em mim roseia a sombra das olheiras.
José Martins   Fontes, o "Zezinho Fontes", como era carinhosamente chamado pelos santistas, poeta brasileiro, nascido na cidade paulista de Santos, às  17 h 30 min. em 23 de junho de 1884 na casa 4 da Praça José Bonifácio, filho de Dona Isabel Martins Fontes e do Dr. Sylvério Martins Fontes, freqüentou os principais colégios de seu tempo, entre eles o Colégio Nogueira da Gama em Jacarei. Mais tarde vai para o Rio de Janeiro, onde estuda no Colégio Alfredo Gomes.    Aos 8 anos de idade, Martins Fontes publicou seus primeiros versos num jornalzinho denominado "A Metralha" dando os primeiros sinais ao grande poeta que iria ser durante sua vida, do qual foram publicados 9 números aos domingos e cujo cabeçalho em três cores era feito por seu avô, o coronel Franscico Martins dos Santos. A 1° de maio desse mesmo (1892) estréia o moço poeta, recitando um hino a Castro Alves no Centro Socialista, organização marxista-leninista criada por seu pai. Com 16 anos, ele lê uma ode de sua autoria na inauguração do monumento comemorativo ao 4° centenário do Descobrimento do Brasil, levantado próximo à biquinha em São Vicente.    Em 1906, defendeu tese de doutorado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro tornando-se médico sanitarista, tendo convivido com poetas como Olavo Bilac, Coelho Netto, Emílio de Menezes e outros. Depois de formado foi médico da Comissão das Obras do Alto Acre, interno da Santa Casa do Rio de Janeiro, auxiliar de Oswaldo Cruz na profilaxia urbana, médico da Santa Casa de Misericórdia de Santos, médico da Beneficência Portuguesa de Santos, Inspetor Sanitário em Santos e Diretor do Serviço Sanitário. Também foi médico da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio, da Companhia Segurança Industrial, da Companhia Brasil, da Repartição de Saneamento e da Casa de Saúde de Santos. Durante a epidemia de gripe de 1918 tornou-se um dos beneméritos da cidade, desdobrando-se para socorrer os bairros do Macuco e Campo Grande e estendendo sua ação para a cidade de Iguape. Como médico, notabilizou-se como conferencista e foi tisiologista da Santa Casa de Misericórdia de Santos e destacado humanista, lutou junto com Oswaldo Cruz em defesa sanitária da cidade de Santos. Dois dias por semana dedicava-se por completo ao atendimento em seu consultório de pessoas sem poder aquisitivo.
Em 1914 mudou-se para Paris, e lá fundou, com Olavo Bilac, uma Agência Americana para serviços de propaganda dos produtos brasileiros na Europa e em outros países. A partir de 1924 tornou-se correspondente da Academia de Ciência de Lisboa. É o patrono da Cadeira n.º 26 da Academia Paulista de Letras. Quando o Dr. Júlio Prestes, presidente do Estado de São Paulo e candidato à presidência da República, partiu em viagem para percorrer os países da Europa, Martins Fontes foi convidado para acompanhá-lo como médico da caravana paulista. Muito viajado, conheceu o Brasil de norte a sul, a Argentina, Uruguai, Estados Unidos, França, Inglaterra, Espanha, Itália e Portugal. Escreveu durante toda a sua vida, trabalhando para os jornais "A Gazeta" e "Diário Popular" em São Paulo, e para o "Diário de Santos" e o "Cidade de Santos". Sua obra, bastante volumosa, soma mais de 70 títulos publicados em poesia e prosa, além de algumas de caráter científico. Foi titular da Academia de Ciências de Lisboa e, ao longo de sua vida, recebeu os títulos de Comendador da Ordem de São Thiago da Espada, Cavalheiro da Espanha, Par da Inglaterra e Gran Cruz da Ordem de São Thiago da Espada, conferido pelo Presidente da República de Portugal. É patrono da cadeira n.° 26 da Academia Paulista de Letras.   Morreu em Santos em 25 de junho de 1937 e está sepultado no Cemitério de Paquetá, desta cidade.    Bibliografia: "Um manifesto socialista" (de parceria com seu pai Silvério Fontes, 1899); "O Acre" (1908); "Verão" (versos, 1917); "Granada" (poema, 1899); "A gripe em Iguape" (1920); "A transformação das classes parasitárias em classes produtivas" (estudo social, 1920); "Boêmia Galante" (versos, 1920); "Arlequinada" (fantasia, 1922); "As cidades eternas" (versos, 1923); "Rosicler" (versos, 1923); "Marabá" (versos, 1923); "Prometeu" (versos, 1924); "Pastoral" (versos, 1925); "Partida para Citera" (teatro, 1925); "Volúpia" (versos, 1925); "Decameron" (contos, 1925); "Vulcão" (1926); "O céu verde" (versos, 1926); "Scheherezade" (1927); "A fada Bombom" (versos, 1927); "Escarlate" (versos, 1928); "O Colar Partido" (crônicas poéticas-biográficas, 1927); "Santos" (conferência, 1925); "A flauta encantada" (poesias, 1931); "Paulistânia" (poesias épicas, 1934); "Terras da Fantasia' (poesia, 1933). Obras póstumas: "Indaiá" (poesia, 1937); "Calendário Positivista" (poesias, 1938) e mais algumas dezenas de obras poéticas, teatrais, crônicas literárias, médicas e filosóficas.
Esta é uma singela homenagem ao grande poeta santista, compilada, editada e formatada por Mário Rubens (Marinho) Martins Fontes, santista desde 28 de julho de 1952, primo em quarto grau de José Martins Fontes. Visite o site  http ://www.martinsfontes.adm.br , e escreva para  [email_address]  caso tenha contribuições para valorizar este trabalho em contínua atualização.

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Martins Fontes Apresentação

  • 2. Tributo ao poeta santista Martins Fontes
  • 3. Foi junto ao Coliseu, à direita do Teatro No mais puro e feliz de todos os recantos Que, em junho a 23 do ano de oitenta e quatro Desabrochei ao sol, na Cidade de Santos. Era a "chácara" um bosque impenetrável e átro Sombreado de araças, cambucás, amarantos... E eu, que adoro o passado e que os meus idolatro Sinto, ao rever a infância, o maior dos encantos. Comovido, a evocar, muitas vezes contemplo, Na Praça de José Bonifácio de Andrada, O prédio hoje desfeito onde vivemos nós... Rezo. Em frente a Matriz, aberta como um templo Berço da Abolição era outrora a morada Da família Martins, Casa de meus Avós! E mais: A Casa dos Martins vivia cheia De novidades e de comensais, Tendo a alegria de quem presenteia, Era herdada a franqueza de meus Pais. Até o rosar - doirar da madrugada, A Casa Ilustre esplendia, a arder, E, nababescamente iluminada, Era um solar no brilho e no prazer. Em cada ponche havia uma surpresa. Cada vianda era um beijo ao paladar. Nunca se retirou daquela mesa A alva toalha, na sala de jantar. Mas do que se tratava nessa Casa, Qual a causa de tantas discussões? Eram os corações fulgindo em brasa, Sonhando alegria das revoluções! E abolição saiu, dez anos antes Dela em pleito vivaz, luta febril, Nela teve a República os amantes Mais tenazes e puros do Brasil! As mais altas virtudes socialistas Eram aclamadas com fervor e afã Nessa Casa pregaram-se as conquistas, As sagradas vitórias do Amanhã.
  • 4. Soneto   Antes de conhecer-te, eu já te amava. Porque sempre te amei a vida inteira: Eras a irmã, a noiva, a companheira, A alma gêmea da minha que eu sonhava. Com o coração, à noite, ardendo em lava Em meus versos vivias, de maneira Que te contemplo a imagem verdadeira E acho a mesma que outrora contemplava. Amo-te. Sabes que me tens cativo. Retribuis a afeição que em mim fulgura, Transfigurada nos anseios da Arte. Mas, se te quero assim, por que motivo Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura, Mais que loucura, um crime desejar-te?
  • 5. Soneto Se eu fosse Deus seria a vida um sonho, Nossa existência um júbilo perene! Nenhum pesar que o espírito envenene Empanaria a luz do céu risonho! Não haveria mais: o adeus solene, A vingança, a maldade, o ódio medonho, E o maior mal, que a todos anteponho, A sede, a fome da cobiça infrene! Eu exterminaria a enfermidade, Todas as dores da senilidade, E os pecados mortais seriam dez... A criação inteira alteraria, Porém, se eu fosse Deus, te deixaria Exatamente a mesma que tu és!
  • 6. Ser Paulista Ser Paulista é ser grande no passado! E inda maior nas glórias do presente! É ser a imagem do Brasil sonhado, E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente! Ser Paulista! é morrer sacrificado Por nossa Terra e pela nossa Gente! É ter dó das fraquezas do soldado, Tendo horror à filáucia do tenente! Ser Paulista! é rezar pelo Evangelho De Rui Barbosa - o Sacrossanto Velho Civilista imortal de nossa fé! Ser Paulista! - em brasão e em pergaminho É ser traído e pelejar sozinho, É ser vencido, mas cair de pé!
  • 7. Como é bom ser bom Tú, que vês tudo pelo coração, Que perdoas e esqueces facilmente, E és, para todos, sempre complacente, Bendito sejas, venturoso irmão. Possues a graça como inspiração Amas, divides, dás, vives contente, E a bondade que espalhas, não se sente, Tão natural é a tua compaixão. Como o pássaro tem maviosidade, Tua voz, a cantar, no mesmo tom, Alivia, consola e persuade. E assim, tal qual a flôr contém o dom. De concentrar no aroma a suavidade, Da mesma forma, tu nasceste bom
  • 8. Inocência   Criança ingênua, o dia inteiro, com os meus caniços de taquara, ficava eu, ao sol de então, junto dos tanques, no terreiro, soprando a espuma, leve e clara, fazendo bolhas de sabão. Corando a roupa, entre cantigas, as lavadeiras, que passavam, interrompiam a canção... Riam-se as pobres raparigas, vendo as imagens que brilhavam, nas minhas bolhas de sabão. Cresci. Sofri. Sonhando vivo. E, homem e artista, ainda agora, me apraz aquela distração... E fico, às vezes, pensativo, fazendo versos, como outrora fazia bolhas de sabão. E velho, um dia, de repente, sem ter, de fato, sido nada, pois tudo é apenas ilusão, há de extinguir-se a alma inocente que em mim fulgura, evaporada como uma bolha de sabão.
  • 9. Minha mãe Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma Para me abençoar e proteger, Teu puro amor o coração me acalma; Provo a doçura do teu bem-querer. Porque a mão te beijei, a minha palma Olho, analiso, linha a linha, a ver Se em mim descubro um traço de tua alma, Se existe em mim a graça do teu ser. E o M, gravado sobre a mão aberta, Pela sua clareza, me desperta Um grato enlevo, que jamais senti: Quer dizer — Mãe! este M tão perfeito, E, com certeza, em minha mão foi feito Para, quando eu for bom, pensar em ti.
  • 10. Canção aromal A mocidade tem perfume, cheira A nardo, a cravo, a flor de laranjeira! E teu corpo é tal qual uma roseira, Sorrindo ao sol, festivamente em flor! E o perfume trescalas de maneira Que, impressionando a redondeza inteira, Até quem não te vê, faz que te queira, Aspirando-te o aroma sedutor! Sai do rosal da tua pele a essência Da juventude em superflorescência! E eu inspiradamente o pressenti! Dizem que sempre vivo perfumado, Sem pensarem que, andando enamorado, O perfume que tenho vem de ti!
  • 11. Preexistência   Ardem recordações em minha vida De inumeráveis vidas anteriores: A essência do meu ser guarda, incontida, Milhões de anseios e milhões de dores. Sinto que, eternamente renascida, Minh'alma palpitou, entre esplendores, No coração das águias encendida, Refulgindo nos surtos dos condores. Quando os segredos da nudez te vejo, Diante do orgulho do teu corpo amado, Sinto que eu os criei, que eles são meus. Assim, pelos eflúvios do desejo, Enamoradamente astralizado, Tenho a certeza de ter sido um Deus!
  • 12. Otelo   Quem amar deste modo antes prefira Morrer, do que sentir a desventura De não saber, nas vascas da loucura, Distinguir a verdade da mentira: Infrene dúvida, implacável ira, Esta que me alucina e me tortura! Ter ciúmes da luz, formosa e pura, Do chão, da sombra e do ar que se respira! Invejo a veste que te esconde! A espuma Que beijando o teu corpo, linha a linha, Toda do teu aroma se perfuma... Amo! E o delírio desta dor mesquinha Faz que eu deseje ser tu mesma, em suma, Para ter a certeza de que és minha!
  • 13. Ama, para que, assim, sejas amado... Se queres ser amado, ama primeiro, Faze-te amar, amando com ternura, Pois só merece a graça da ventura Quem for capaz de um culto verdadeiro. Sem raízes profundas no canteiro, Em teu jardim nenhuma flor perdura. É preciso que a terra seja pura, Para viçar, florindo, o jasmineiro. Sob a sideração do amor fulmínio, Pode estar crente todo enamorado, Que há de se realizar meu vaticínio. Quem for constante, sendo delicado, Pelo espírito alcança o predomínio, Sabendo amar, para que seja amado.
  • 14. Imagem das imagens É o meu cigarro um típico resumo Da ilusão entre as suas mutações. De violetas ou rosas o perfumo, E esta é a maior das minhas distrações. Provo-o, aspiro-o, enganando-me. E, no fumo, Vejo em volutas as evoluções Da fantasia a divagar sem rumo, Dispersa em mil volatilizações. Fulgiu, queimou, viveu, mas de fugida. E o prazer produzido foi mendaz, Sua consolação dissaborida. E, finalmente, em cinzas se desfaz, E é como tanta cousa, que há na vida, Uma delícia que não satisfaz.
  • 15. A ilha do amor Porque julgo impossível seres minha, Sonho acharmo-nos juntos, em viagem, Suceder um naufrágio na romagem, E salvar-te, encontrando-te sozinha. E ambos vamos parar a uma selvagem Ilha deserta, na amplidão marinha. E aí nos amarmos, logo se adivinha, Livres do mundo, escapos da voragem. Essa jornada é a — Vida, em que o — Destino, É o naufrágio, entre suas alternâncias, Cheio de angústias, mas também divino. E a Ilha, oculta no enredo das distâncias, Que nome tem? Chamemos-lhe, imagino, Do — Acaso Amável — ou — Das Circunstâncias.
  • 16. Espelhado em teus olhos   Quando no espelho me contemplo, a frio, Notando o ultraje que produz a idade, Sou como quem suporta, ao desafio, A afronta iníqua da fatalidade. Mas se em teus olhos, cheios de bondade, Me revejo, ante a análise, sorrio; Volvo ao fulgor da antiga mocidade, Em subitâneo e alegre desvario! Espelhado em teus olhos, estremeço! Aos teus olhos, feliz, rejuveneço, Revibrando de espanto e de alvoroço! Porque sempre que os beijo e os interpelo, Por sua refração, me torno belo, E pelo teu amor me sinto moço!
  • 17. Delicadeza Tranco-me, quando sofro, a sete chaves Fujo dos seres o infernal tumulto E tanto as dores físicas oculto, Quanto as outras mais íntimas e graves. Alegremente me comparo às aves, Carinhosas amigas de meu culto, Que vão morrer, longe do mundo oculto, Nos bosques ermos, de sonoras naves. Tendo o brilho e a beleza da saúde, A elegância do traje e das maneiras, Quando apareço meu aspecto ilude. O pudor torna as horas prazenteiras, E a gentileza, máxima virtude, Em mim roseia a sombra das olheiras.
  • 18. José Martins Fontes, o "Zezinho Fontes", como era carinhosamente chamado pelos santistas, poeta brasileiro, nascido na cidade paulista de Santos, às 17 h 30 min. em 23 de junho de 1884 na casa 4 da Praça José Bonifácio, filho de Dona Isabel Martins Fontes e do Dr. Sylvério Martins Fontes, freqüentou os principais colégios de seu tempo, entre eles o Colégio Nogueira da Gama em Jacarei. Mais tarde vai para o Rio de Janeiro, onde estuda no Colégio Alfredo Gomes.   Aos 8 anos de idade, Martins Fontes publicou seus primeiros versos num jornalzinho denominado "A Metralha" dando os primeiros sinais ao grande poeta que iria ser durante sua vida, do qual foram publicados 9 números aos domingos e cujo cabeçalho em três cores era feito por seu avô, o coronel Franscico Martins dos Santos. A 1° de maio desse mesmo (1892) estréia o moço poeta, recitando um hino a Castro Alves no Centro Socialista, organização marxista-leninista criada por seu pai. Com 16 anos, ele lê uma ode de sua autoria na inauguração do monumento comemorativo ao 4° centenário do Descobrimento do Brasil, levantado próximo à biquinha em São Vicente.   Em 1906, defendeu tese de doutorado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro tornando-se médico sanitarista, tendo convivido com poetas como Olavo Bilac, Coelho Netto, Emílio de Menezes e outros. Depois de formado foi médico da Comissão das Obras do Alto Acre, interno da Santa Casa do Rio de Janeiro, auxiliar de Oswaldo Cruz na profilaxia urbana, médico da Santa Casa de Misericórdia de Santos, médico da Beneficência Portuguesa de Santos, Inspetor Sanitário em Santos e Diretor do Serviço Sanitário. Também foi médico da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio, da Companhia Segurança Industrial, da Companhia Brasil, da Repartição de Saneamento e da Casa de Saúde de Santos. Durante a epidemia de gripe de 1918 tornou-se um dos beneméritos da cidade, desdobrando-se para socorrer os bairros do Macuco e Campo Grande e estendendo sua ação para a cidade de Iguape. Como médico, notabilizou-se como conferencista e foi tisiologista da Santa Casa de Misericórdia de Santos e destacado humanista, lutou junto com Oswaldo Cruz em defesa sanitária da cidade de Santos. Dois dias por semana dedicava-se por completo ao atendimento em seu consultório de pessoas sem poder aquisitivo.
  • 19. Em 1914 mudou-se para Paris, e lá fundou, com Olavo Bilac, uma Agência Americana para serviços de propaganda dos produtos brasileiros na Europa e em outros países. A partir de 1924 tornou-se correspondente da Academia de Ciência de Lisboa. É o patrono da Cadeira n.º 26 da Academia Paulista de Letras. Quando o Dr. Júlio Prestes, presidente do Estado de São Paulo e candidato à presidência da República, partiu em viagem para percorrer os países da Europa, Martins Fontes foi convidado para acompanhá-lo como médico da caravana paulista. Muito viajado, conheceu o Brasil de norte a sul, a Argentina, Uruguai, Estados Unidos, França, Inglaterra, Espanha, Itália e Portugal. Escreveu durante toda a sua vida, trabalhando para os jornais "A Gazeta" e "Diário Popular" em São Paulo, e para o "Diário de Santos" e o "Cidade de Santos". Sua obra, bastante volumosa, soma mais de 70 títulos publicados em poesia e prosa, além de algumas de caráter científico. Foi titular da Academia de Ciências de Lisboa e, ao longo de sua vida, recebeu os títulos de Comendador da Ordem de São Thiago da Espada, Cavalheiro da Espanha, Par da Inglaterra e Gran Cruz da Ordem de São Thiago da Espada, conferido pelo Presidente da República de Portugal. É patrono da cadeira n.° 26 da Academia Paulista de Letras.   Morreu em Santos em 25 de junho de 1937 e está sepultado no Cemitério de Paquetá, desta cidade.   Bibliografia: "Um manifesto socialista" (de parceria com seu pai Silvério Fontes, 1899); "O Acre" (1908); "Verão" (versos, 1917); "Granada" (poema, 1899); "A gripe em Iguape" (1920); "A transformação das classes parasitárias em classes produtivas" (estudo social, 1920); "Boêmia Galante" (versos, 1920); "Arlequinada" (fantasia, 1922); "As cidades eternas" (versos, 1923); "Rosicler" (versos, 1923); "Marabá" (versos, 1923); "Prometeu" (versos, 1924); "Pastoral" (versos, 1925); "Partida para Citera" (teatro, 1925); "Volúpia" (versos, 1925); "Decameron" (contos, 1925); "Vulcão" (1926); "O céu verde" (versos, 1926); "Scheherezade" (1927); "A fada Bombom" (versos, 1927); "Escarlate" (versos, 1928); "O Colar Partido" (crônicas poéticas-biográficas, 1927); "Santos" (conferência, 1925); "A flauta encantada" (poesias, 1931); "Paulistânia" (poesias épicas, 1934); "Terras da Fantasia' (poesia, 1933). Obras póstumas: "Indaiá" (poesia, 1937); "Calendário Positivista" (poesias, 1938) e mais algumas dezenas de obras poéticas, teatrais, crônicas literárias, médicas e filosóficas.
  • 20. Esta é uma singela homenagem ao grande poeta santista, compilada, editada e formatada por Mário Rubens (Marinho) Martins Fontes, santista desde 28 de julho de 1952, primo em quarto grau de José Martins Fontes. Visite o site http ://www.martinsfontes.adm.br , e escreva para [email_address] caso tenha contribuições para valorizar este trabalho em contínua atualização.