Biblioteca Municipal Miguel Torga – Arganil – Dezembro 2017
Falsos gigantes
Já o dia se aproximava da noite quando regressou a casa. Sempre o fizera.
Sempre lhe disseram que era assim que se fazia. Que era este o caminho,
que era a Natureza, que era assim e pronto.
Depois de uma jornada intensa de trabalho sabia-lhe bem o conforto do
seu refúgio. O conforto era algo que perseguia, mas não era o conforto
físico. Era o conforto etéreo da vida. Aquele que não se pode medir, nem
pedir ou comprar.
Subiu lentamente as escadas gastas pelo tempo da sabedoria. Meteu a
chave na ranhura e rodou até sentir o familiar afrouxar da firmeza da
porta, que o separava do mundo de lá de fora.
Junto ao borralho, assim chamavam à zona onde a fogueira era ateada,
riscou um fósforo e acendeu uma pinha seca que iluminou aquele
momento. Colocou gentilmente a pinha no chão, pegou em alguns galhos
que dispôs parcimoniosamente e, por cima destes, alguns toros. Depois
de acender o velhinho lampião, sentou-se no mocho e encostou-se à
parede. Na sua companhia, apenas a sua caneca de esmalte que ameou
com café de cevada e a pôs a aquecer na trempe mais pequena,
encostada às chamas ainda fracas.
Já sentia o crepitar da lenha quando, encostado à parede, fechou os
olhos. Judicioso, refletiu sobre a caminhada do seu dia. Parou para
refletir, refletiu para pensar, pensou para agir. Mas não agiu. Era assim.
Havia momentos em que a sabedoria o aconselhava a estar quieto.
Frequentemente dizia a si próprio que só nos tornamos sábios muito
depois de escutarmos o nosso eu. A sabedoria é muito profunda. A
sabedoria simplesmente não se aprende com nenhum mestre, nem em
nenhum livro. Não é imposta. É uma coisa que nasce de lá de dentro. E
estava imbuído neste pensamento quando lhe vieram à memória
episódios da sua manhã. Acontecimentos em que nada mais interessava
do que a brincadeira, mas que deram lugar à curiosidade e depois a uma
Biblioteca Municipal Miguel Torga – Arganil – Dezembro 2017
incessante descoberta. E depois vieram as incertezas e as ações arrojadas,
quase mesmo inconsequentes, a roçar a arrogância própria da ignorância
de batalhas que ainda nem sequer imaginava. Não obstante a juventude
do dia, debateu-se com os primeiros gigantes cuja soberba dobrava ou
triplicava a sua. Pareciam-lhe ainda mais altivos, todos aqueles gigantes.
Sem falhas, sem dores ou maleitas que lhes afetassem a mente ou lhes
alterassem a postura, senhores de si e dos outros. Aqueles gigantes
teimavam em seguir em frente, bem-sucedidos, com os ombros para trás.
Era assim a vida. Injusta, cria. Remetia-se ao reino dos transparentes e
dos anões.
E ao meio dia, também ele quase se convencera do seu gigantismo. Era,
se calhar, até mais descomunal do que aqueles que pensava gigantes. E,
no entanto, nunca se sentiu gigante. Olhava para muitos que o
acompanhavam e eram iguaizinhos a si. Pequenos. Anões. Militava num
exército de anões comandado por gigantes. Desde o raiar do dia que
sempre se pensara mais formiga do que cigarra, sempre se identificara
mais com a maneira de agir do povo Blefuscu do que povo de Liliput, das
conhecidas Viagens de Gulliver.
A sua tarde não passou de um frágil equilíbrio, análogo à homeostasia da
vida. Ora amarga, penosa, árdua e laboriosa, por de trás das cortinas e
dos holofotes, ora recebendo os louros doces e balsâmicos das suas
concretizações. E por muitos que fossem, por muito doces e balsâmicos
que fossem, não eram suficientes para o fazer esquecer o desprezado
sentimento de ananismo. Houve momentos em que se sentiu um pouco
menos anão. Mas esses momentos foram sempre mitigados pelos
dolorosos momentos de vazio. Quais gatos que, por detrás de uma janela
ou no alto de um corrimão, se espreguiçam com o seu porte imponente,
triunfante, independente e que, contudo, não conseguem encontrar o
caminho para a casa quando estão longe, começou – naquele fim de
tarde - a perceber a fragilidade daqueles que outrora lhe pareceram
gigantes.
Biblioteca Municipal Miguel Torga – Arganil – Dezembro 2017
A luz entenebrecia pelo postigo. Era agora ainda mais ténue, quase
sumida. O dia ameaçava acabar brevemente e a noite, aquela
desdenhada noite, ameaçava instalar-se. Havia quem a temesse. Sim,
claro. Os gigantes. Atemorizavam-na e fugiam dela. Muniam-se de
projetores potentes para que nenhum canto da casa ficasse sem luz.
Eram, afinal, seres angustiados e em permanente desassossego ante a
ameaça de alguma lâmpada falhar. Mas ele… ele não. Nem ele nem os
anões que tinha na sua companhia. Eles não receavam a noite.
Aceitavam-na com a mesma naturalidade com que aceitavam cada hora
do seu dia. E percebeu que afinal aqueles anões eram gigantes. Gigantes
de uma altura incomensurável. Aquela que nenhuma régua pode algum
dia ambicionar medir. Uma altura que só está acessível às pessoas
realmente grandes, mesmo que o seu tamanho não seja extraordinário.
Percebeu, que nos momentos importantes, os anões gigantes lhe
pegaram ao colo e que fizeram dele, não um gigante, mas uma pessoa
melhor. Talvez tenham feito dele também um anão gigante. Assim o
queria acreditar. Sorriu por dentro. Regozijou-se e sentiu-se invadir por
um sono tranquilizante. Na sua companhia, a luz da fogueira e do lampião
provocavam variações de luz. Umas vezes mais forte, outras mais fraca.
Pegou na caneca de esmalte e degustou a cevada que já fumegava.
Pousou de novo o púcaro na trempe e deixou-se invadir pelo eflúvio da
noite.
Louvou o dia que tivera, os momentos por que passara, a sabedoria e a
paz com que fora agraciado. Humedeceu os dedos e apagou a chama.
Encostou-se de novo à parede e partiu. Partiu rumo a uma merecida luz
que o havia de preencher de paz e de esperança num novo começo.
Albano P. Santos

Falsos gigantes

  • 1.
    Biblioteca Municipal MiguelTorga – Arganil – Dezembro 2017 Falsos gigantes Já o dia se aproximava da noite quando regressou a casa. Sempre o fizera. Sempre lhe disseram que era assim que se fazia. Que era este o caminho, que era a Natureza, que era assim e pronto. Depois de uma jornada intensa de trabalho sabia-lhe bem o conforto do seu refúgio. O conforto era algo que perseguia, mas não era o conforto físico. Era o conforto etéreo da vida. Aquele que não se pode medir, nem pedir ou comprar. Subiu lentamente as escadas gastas pelo tempo da sabedoria. Meteu a chave na ranhura e rodou até sentir o familiar afrouxar da firmeza da porta, que o separava do mundo de lá de fora. Junto ao borralho, assim chamavam à zona onde a fogueira era ateada, riscou um fósforo e acendeu uma pinha seca que iluminou aquele momento. Colocou gentilmente a pinha no chão, pegou em alguns galhos que dispôs parcimoniosamente e, por cima destes, alguns toros. Depois de acender o velhinho lampião, sentou-se no mocho e encostou-se à parede. Na sua companhia, apenas a sua caneca de esmalte que ameou com café de cevada e a pôs a aquecer na trempe mais pequena, encostada às chamas ainda fracas. Já sentia o crepitar da lenha quando, encostado à parede, fechou os olhos. Judicioso, refletiu sobre a caminhada do seu dia. Parou para refletir, refletiu para pensar, pensou para agir. Mas não agiu. Era assim. Havia momentos em que a sabedoria o aconselhava a estar quieto. Frequentemente dizia a si próprio que só nos tornamos sábios muito depois de escutarmos o nosso eu. A sabedoria é muito profunda. A sabedoria simplesmente não se aprende com nenhum mestre, nem em nenhum livro. Não é imposta. É uma coisa que nasce de lá de dentro. E estava imbuído neste pensamento quando lhe vieram à memória episódios da sua manhã. Acontecimentos em que nada mais interessava do que a brincadeira, mas que deram lugar à curiosidade e depois a uma
  • 2.
    Biblioteca Municipal MiguelTorga – Arganil – Dezembro 2017 incessante descoberta. E depois vieram as incertezas e as ações arrojadas, quase mesmo inconsequentes, a roçar a arrogância própria da ignorância de batalhas que ainda nem sequer imaginava. Não obstante a juventude do dia, debateu-se com os primeiros gigantes cuja soberba dobrava ou triplicava a sua. Pareciam-lhe ainda mais altivos, todos aqueles gigantes. Sem falhas, sem dores ou maleitas que lhes afetassem a mente ou lhes alterassem a postura, senhores de si e dos outros. Aqueles gigantes teimavam em seguir em frente, bem-sucedidos, com os ombros para trás. Era assim a vida. Injusta, cria. Remetia-se ao reino dos transparentes e dos anões. E ao meio dia, também ele quase se convencera do seu gigantismo. Era, se calhar, até mais descomunal do que aqueles que pensava gigantes. E, no entanto, nunca se sentiu gigante. Olhava para muitos que o acompanhavam e eram iguaizinhos a si. Pequenos. Anões. Militava num exército de anões comandado por gigantes. Desde o raiar do dia que sempre se pensara mais formiga do que cigarra, sempre se identificara mais com a maneira de agir do povo Blefuscu do que povo de Liliput, das conhecidas Viagens de Gulliver. A sua tarde não passou de um frágil equilíbrio, análogo à homeostasia da vida. Ora amarga, penosa, árdua e laboriosa, por de trás das cortinas e dos holofotes, ora recebendo os louros doces e balsâmicos das suas concretizações. E por muitos que fossem, por muito doces e balsâmicos que fossem, não eram suficientes para o fazer esquecer o desprezado sentimento de ananismo. Houve momentos em que se sentiu um pouco menos anão. Mas esses momentos foram sempre mitigados pelos dolorosos momentos de vazio. Quais gatos que, por detrás de uma janela ou no alto de um corrimão, se espreguiçam com o seu porte imponente, triunfante, independente e que, contudo, não conseguem encontrar o caminho para a casa quando estão longe, começou – naquele fim de tarde - a perceber a fragilidade daqueles que outrora lhe pareceram gigantes.
  • 3.
    Biblioteca Municipal MiguelTorga – Arganil – Dezembro 2017 A luz entenebrecia pelo postigo. Era agora ainda mais ténue, quase sumida. O dia ameaçava acabar brevemente e a noite, aquela desdenhada noite, ameaçava instalar-se. Havia quem a temesse. Sim, claro. Os gigantes. Atemorizavam-na e fugiam dela. Muniam-se de projetores potentes para que nenhum canto da casa ficasse sem luz. Eram, afinal, seres angustiados e em permanente desassossego ante a ameaça de alguma lâmpada falhar. Mas ele… ele não. Nem ele nem os anões que tinha na sua companhia. Eles não receavam a noite. Aceitavam-na com a mesma naturalidade com que aceitavam cada hora do seu dia. E percebeu que afinal aqueles anões eram gigantes. Gigantes de uma altura incomensurável. Aquela que nenhuma régua pode algum dia ambicionar medir. Uma altura que só está acessível às pessoas realmente grandes, mesmo que o seu tamanho não seja extraordinário. Percebeu, que nos momentos importantes, os anões gigantes lhe pegaram ao colo e que fizeram dele, não um gigante, mas uma pessoa melhor. Talvez tenham feito dele também um anão gigante. Assim o queria acreditar. Sorriu por dentro. Regozijou-se e sentiu-se invadir por um sono tranquilizante. Na sua companhia, a luz da fogueira e do lampião provocavam variações de luz. Umas vezes mais forte, outras mais fraca. Pegou na caneca de esmalte e degustou a cevada que já fumegava. Pousou de novo o púcaro na trempe e deixou-se invadir pelo eflúvio da noite. Louvou o dia que tivera, os momentos por que passara, a sabedoria e a paz com que fora agraciado. Humedeceu os dedos e apagou a chama. Encostou-se de novo à parede e partiu. Partiu rumo a uma merecida luz que o havia de preencher de paz e de esperança num novo começo. Albano P. Santos