“Eu nunca
guardei
rebanhos”
Alberto Caeiro
1ª estrofe 2ª estrofe
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela
dar por isso.
3ª estrofe
Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
audição
antítese
pleonasmo
4ª estrofe 5ª estrofe
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição
minha.
É a minha maneira de estar
sozinho.
comparação
6ª estrofe
E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
7ªestrofe
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
tacto
8ªestrofe
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
9ªestrofe
Saúdo-os e desejo-lhes sol
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Este é o primeiro poema do heterónimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro.
Este poema é o primeiro dos 49 poemas que constituem "O Guardador de Rebanhos" e que segundo
Pessoa foi escrito no dia 8 de março de 1914.
1ª estrofe:
O poeta compara-se a um pastor que anda pelos campos a guardar rebanhos, neste caso, os seus
rebanhos são os seus pensamentos.
O facto de conhecer «o vento e o sol». assim como andar “pela mão das Estações”, estabelece urna
ligação plena entre ele e a Natureza.
Se «anda pela mão» então é como se deixasse levar por ela e por isso anda sem destino, deambula pela
Natureza a “seguir e a olhar” e se ele segue a Natureza porque a aceita serenamente, tal como ela é.
É referido o «olhar» que é um dos cinco sentidos, o sentido que permite apreender imediatamente a
realidade.
Sente tristeza causada pelo fim do dia, quando a noite cai sobre a Natureza, é impossível ver com nitidez
o que o rodela, é a dificuldade em ver a Natureza que causa tristeza no sujeito poético.
Ainda no verso 9, a conjunção adversativa “mas” chama a atenção para o facto de ser contraditória a
tristeza que o sujeito poético vai confessar, pois se ele tem à sua volta tudo aquilo que deseja, como
poderá sentir-se triste?
A sua "tristeza” provocada pelo pôr do sol, então é 'sossego", já que o sol está a fazer "o que deve" e a
"tristeza” que ele sente, no fundo, deve se ao facto do seu sentido primordial ficar toldado pela ausência
de luz.
3ª estrofe:
Como sabe que os seus pensamentos são «contentes», estes transformam-se também em
pensamentos “tristes”.
Saber significa intelectualizar, pensar, racionalizar, e por isso ele sabe que os pensamentos são
«contentes» é porque os racionalizou, então os pensamentos são «contentes e tristes» porque
por um lado captam a essência do mundo, por isso «contentes», mas não escapam à
racionalização, por isso são “tristes”.
Se não soubesse que eles eram “contentes” os pensamentos seriam alegres e contentes, uma
vez que não passariam pelo filtro da intelectualização.
4ª estrofe:
Caeiro apresenta-nos o “pensar” como algo incômodo, que não permite alcançar a paz, causa
desconforto e faz uma comparação com a chuva em dias em que há vento e esta nos atinge
como se estivesse a chover o dobro do que está na realidade.
5ª estrofe:
“ambições” e ”desejos” pressupõem pensamento, logo o sujeito poético recusa-os.
A sua ligação com a Natureza é “sem gente”, ou seja, a ligação que estabelece com a Natureza dá-se porque ele é um
ser solitário.
6ª estrofe:
O único desejo que lhe resta é um desejo infantil: «desejo às vezes (...) ser cordeirinho». O cordeiro é o símbolo do ser
pacífico, natural, ingênuo, desprovido de pensamento, e da ligação à natureza. Ou então deseja ser o rebanho todo,
para melhor desfrutar da felicidade e ultrapassar a tristeza que ocasionalmente o assalta, representada simbolicamente
pelo pôr do sol, pela nuvem que «passa a mão por cima da luz» (v. 37), pelo silêncio que «corre (...) pela erva fora» (v.
38).
7ª estrofe-fim:
O pastor ilusório que escreve versos num papel que está no seu pensamento, sentindo «um cajado nas mãos» (v. 42),
um cajado que só sente, não possui (o cajado é o atributo do pastor e, simultaneamente, o símbolo da sua segurança e
estabilidade).
De seguida, o sujeito poético saúda todos quantos o lerem (v. 49), de forma gentil e humilde, como homem do campo e
da natureza.
E deseja que tenham uma casa, com a janela aberta (para ver a Natureza), a cadeira predileta propícia à leitura dos
seus versos, mas o seu maior desejo, porém, consiste em que pensem nele como algo natural, como uma árvore antiga
que conheceu crianças a brincar (tal como no ortónimo, a alusão à temática da infância)

“Eu nunca guardei rebanhos”-Alberto Caeiro

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  • 2.
    1ª estrofe 2ªestrofe Eu nunca guardei rebanhos, Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr do Sol Para a nossa imaginação, Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela. Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
  • 3.
    3ª estrofe Com umruído de chocalhos Para além da curva da estrada, Os meus pensamentos são contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes, Porque, se o não soubesse, Em vez de serem contentes e tristes, Seriam alegres e contentes. audição antítese pleonasmo
  • 4.
    4ª estrofe 5ªestrofe Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais. Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho. comparação
  • 5.
    6ª estrofe E sedesejo às vezes, Por imaginar, ser cordeirinho (Ou ser o rebanho todo Para andar espalhado por toda a encosta A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz E corre um silêncio pela erva fora.
  • 6.
    7ªestrofe Quando me sentoa escrever versos Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, Sinto um cajado nas mãos E vejo um recorte de mim No cimo dum outeiro, Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz E quer fingir que compreende. tacto
  • 7.
    8ªestrofe Saúdo todos osque me lerem, Tirando-lhes o chapéu largo Quando me vêem à minha porta Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
  • 8.
    9ªestrofe Saúdo-os e desejo-lhessol E chuva, quando a chuva é precisa, E que as suas casas tenham Ao pé duma janela aberta Uma cadeira predilecta Onde se sentem, lendo os meus versos. E ao lerem os meus versos pensem Que sou qualquer coisa natural — Por exemplo, a árvore antiga À sombra da qual quando crianças Se sentavam com um baque, cansados de brincar, E limpavam o suor da testa quente Com a manga do bibe riscado.
  • 9.
    Este é oprimeiro poema do heterónimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro. Este poema é o primeiro dos 49 poemas que constituem "O Guardador de Rebanhos" e que segundo Pessoa foi escrito no dia 8 de março de 1914. 1ª estrofe: O poeta compara-se a um pastor que anda pelos campos a guardar rebanhos, neste caso, os seus rebanhos são os seus pensamentos. O facto de conhecer «o vento e o sol». assim como andar “pela mão das Estações”, estabelece urna ligação plena entre ele e a Natureza. Se «anda pela mão» então é como se deixasse levar por ela e por isso anda sem destino, deambula pela Natureza a “seguir e a olhar” e se ele segue a Natureza porque a aceita serenamente, tal como ela é. É referido o «olhar» que é um dos cinco sentidos, o sentido que permite apreender imediatamente a realidade. Sente tristeza causada pelo fim do dia, quando a noite cai sobre a Natureza, é impossível ver com nitidez o que o rodela, é a dificuldade em ver a Natureza que causa tristeza no sujeito poético. Ainda no verso 9, a conjunção adversativa “mas” chama a atenção para o facto de ser contraditória a tristeza que o sujeito poético vai confessar, pois se ele tem à sua volta tudo aquilo que deseja, como poderá sentir-se triste? A sua "tristeza” provocada pelo pôr do sol, então é 'sossego", já que o sol está a fazer "o que deve" e a "tristeza” que ele sente, no fundo, deve se ao facto do seu sentido primordial ficar toldado pela ausência de luz.
  • 10.
    3ª estrofe: Como sabeque os seus pensamentos são «contentes», estes transformam-se também em pensamentos “tristes”. Saber significa intelectualizar, pensar, racionalizar, e por isso ele sabe que os pensamentos são «contentes» é porque os racionalizou, então os pensamentos são «contentes e tristes» porque por um lado captam a essência do mundo, por isso «contentes», mas não escapam à racionalização, por isso são “tristes”. Se não soubesse que eles eram “contentes” os pensamentos seriam alegres e contentes, uma vez que não passariam pelo filtro da intelectualização. 4ª estrofe: Caeiro apresenta-nos o “pensar” como algo incômodo, que não permite alcançar a paz, causa desconforto e faz uma comparação com a chuva em dias em que há vento e esta nos atinge como se estivesse a chover o dobro do que está na realidade.
  • 11.
    5ª estrofe: “ambições” e”desejos” pressupõem pensamento, logo o sujeito poético recusa-os. A sua ligação com a Natureza é “sem gente”, ou seja, a ligação que estabelece com a Natureza dá-se porque ele é um ser solitário. 6ª estrofe: O único desejo que lhe resta é um desejo infantil: «desejo às vezes (...) ser cordeirinho». O cordeiro é o símbolo do ser pacífico, natural, ingênuo, desprovido de pensamento, e da ligação à natureza. Ou então deseja ser o rebanho todo, para melhor desfrutar da felicidade e ultrapassar a tristeza que ocasionalmente o assalta, representada simbolicamente pelo pôr do sol, pela nuvem que «passa a mão por cima da luz» (v. 37), pelo silêncio que «corre (...) pela erva fora» (v. 38). 7ª estrofe-fim: O pastor ilusório que escreve versos num papel que está no seu pensamento, sentindo «um cajado nas mãos» (v. 42), um cajado que só sente, não possui (o cajado é o atributo do pastor e, simultaneamente, o símbolo da sua segurança e estabilidade). De seguida, o sujeito poético saúda todos quantos o lerem (v. 49), de forma gentil e humilde, como homem do campo e da natureza. E deseja que tenham uma casa, com a janela aberta (para ver a Natureza), a cadeira predileta propícia à leitura dos seus versos, mas o seu maior desejo, porém, consiste em que pensem nele como algo natural, como uma árvore antiga que conheceu crianças a brincar (tal como no ortónimo, a alusão à temática da infância)