Joao Cabral de Melo
Neto
1920-1999
“Os poetas que
escrevem por
escassez de ser,
como eu, planejam
os livros, têm um
vazio a preencher.
Os outros
transbordam.”
O poeta engenheiro
Modernismo “Particular”
O que parte da crítica literária
vem chamando de Geração de 45
consiste num grupo de poetas já
desligados da revolução artística
de 22, que recuperaram certos
valores parnasianos e
simbolistas, como o rigor formal
e o vocabulário erudito. No
entanto, à chamada Geração de
45 pertencem poetas não-
catalogáveis, o que nos leva a
análises individuais desses
autores. Dessa forma, João
Cabral de Melo Neto só
pertenceria à Geração de 45 se
levado em conta o critério
cronológico; esteticamente,
afasta-se de grupos, por ter
aberto caminhos próprios,
tornando-se, portanto, um caso
particular na evolução da poesia
brasileira moderna.
João Cabral e o modernismo
João Cabral
nasceu em Recife(PE), em janeiro
de 1920. Primo, pelo lado paterno,
de Manuel Bandeira e, pelo lado
materno, de Gilberto Freyre.
Em 1940 viaja com a família para
o Rio de Janeiro, onde conhece
Murilo Mendes. Esse o apresenta a
Carlos Drummond de Andrade e
ao círculo de intelectuais que se
reunia no consultório de Jorge de
Lima.
Em 1942 acontece a publicação de
seu primeiro livro,
Pedra do Sono.
A Pedra
O universo poético de João Cabral de
Melo Neto é, principalmente, o da zona
da mata e do sertão nordestino. Sua
poesia remete o leitor constantemente
às cidades de Olinda e de Recife com
seus casarões antigos , seus mares e rios
importantes como o Beberibe e o
Capibaribe, e aos canaviais da zona da
mata pernambucana. Mas também
remete para a vegetação escassa da
caatinga e à dor do agreste brasileiro.
Por isso mesmo, dois de seus livros,
"Pedra do sono" e "A educação pela
pedra", trazem no título a idéia de
pedra, símbolo da secura sertaneja e do
solo pedroso da região.
“No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.”
O modernismo pós-geração de 45
Após 1945, o Modernismo
brasileiro apresenta-se como um
período rico em produções tanto
na prosa quanto na poesia.
Na prosa, o regionalismo foi, aos
poucos, cedendo espaço para uma
tendência universalista que
tematizava os dramas humanos.
Destacam-se as obras de Clarice
Lispector e Guimarães Rosa.
Na poesia, há um retorno ao rigor
formal abandonado pelos
primeiros modernistas. Entre os
poetas desse período, destaca-se
João Cabral de Melo Neto.
Poesia Concreta e visual
A poesia de João Cabral de Melo
Neto é um marco dentro da
literatura brasileira porque
representa a maturidade das
conquistas estéticas mais radicais
do século XX.
Contrariando a poética nacional
que sempre fora sentimental,
retórica, ornamental, João Cabral
de Melo Neto constrói uma poesia
não-lírica, não-confessional, presa
à realidade e dirigida ao intelecto.
Apesar de pertencer
cronologicamente à geração de 45,
Cabral não se enquadra somente
nesta geração. *
João Cabral é tido como o único
poeta da geração de 45 que
influencia a geração posterior
(vanguarda concreta) porque
defendia a aproximação da poesia
com os meios de comunicação e
com a arte popular.
*A geração de 45 propunha um retorno às formas
tradicionais do verso, como o soneto, e negava o
experimentalismo dos modernistas de 1922.
Alan Ridell
em Eclipse: Concrete Poems,
1963.
Obra construtiva x obra participante
O próprio poeta
ao publicar
o livro Duas Águas,
propõe uma
divisão de sua obra em
dois módulos distintos
A água construtiva
seria formada pelos poemas
experimentais, arquitetônicos,
feitos para poetas e que versam
sobre o próprio fazer poético.
A água participante
volta-se para a problemática
social do homem
do nordeste e é formada
poemas longos sobre os miseráveis
habitantes da caatinga.
Água construtiva
João Cabral de Mello Neto é um poeta
construtivista, ligado por
temperamento às formas visuais de
expressão. Ele valoriza a forma visual
dos poemas, a geometrização. Propõe
para a poesia um verso construído,
desmistificando o ato de "criar com
inspiração".
Sua poesia dialoga com artistas
plásticos contemporâneos como
Mondrian ou Juan Miró e tem
afinidade com os cubistas. Além das
influências literárias, seus poemas são
inspirados nas teorias arquitetônicas de
Le Corbusier e nas estruturas das artes
plásticas construtivas. Seus poemas são
trabalhados em blocos ou "quadras-
blocos" que funcionam como os
retângulos de um quadro de Mondrian.
(Haroldo de Campos)
Mondrian
Miró
"Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco."
Catar feijão
Em geral os poetas só começam a
pensar na publicação de um livro
após terem escrito um certo número
de poemas. João Cabral procedia de
maneira diferente. Ele planejava
seus livros antes mesmo de começar
a escrever e sabia, exatamente, como
queria editá-los; assim, ele
determinava o formato e o número
de poemas que seriam publicados em
cada um de seus livros. O próprio
poeta afirmava que se impunha todas
essas dificuldades para que o livro e
os poemas crescessem
paralelamente.
João Cabral costumava dizer que o
livro não é um depósito de poemas e,
portanto, deveria ser concebido
como uma estrutura total, uma
macroestrutura.
O livro "A Educação pela Pedra" de 1966, é
dividido em 4 partes: a, A, b e B . Nas partes
minúsculas os poemas são curtos e nas
partes maiúsculas os poemas são longos.
Os temas dos poemas também são
distribuídos conforme as letras. Esta maneira
de organizar os poemas pode exemplificar a
preocupação do poeta com um livro
cuidadosamente projetado.
“O que o mar sim ensina ao canavial:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial sim ensina ao mar:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.”
Trecho do poema
O ENGENHEIRO
( O Engenheiro - 1942- 1945 )
A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.
O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.
Água participante
O poeta explicita sua
preocupação com a realidade
nordestina e a denúncia da miséria.
Em O Cão Sem Plumas , o
poeta inicia um ciclo de poemas em
que busca, em meio uma atmosfera
mineral, a vida possível.
Essa ênfase se desdobrará em
O Rio
e
Morte e Vida Severina.
Ressalta-se na redundância, na
duplicação de palavras e ritmos, o
poema sugere a cadência da prosa e
a monotonia das águas barrentas do
Capibaribe, cão sem pêlo ou pluma,
reduzido só a detritos e lama.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul.
da fonte cor-de-rosa
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
"Ao inverter a ordem natural do sintagma "vida
e morte", o poeta registra com precisão a qualidade
da vida que seu poema visa a descrever: uma vida a
que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por
determinante o adjetivo "severina". Igualam-se nisso
de serem ambas pobres, parcas, anônimas.”
(Marta de Senna)
Dois procedimentos chamam à
atenção de imediato no título
do livro. A inversão do
sintagma vida e morte e a
adjetivação do substantivo
próprio Severino. Tais
recursos poéticos colaboram
para realçar aspectos
importantes na composição da
obra.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Severino apresenta a sua
vida/morte em 28 versos,
exatamente o mesmo número
de anos a que, segundo João
Cabral, reduzia-se a
expectativa média de vida do
pernambucano na época:
antes dos trinta.
Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
-- É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
-- Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
-- É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
-- É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
-- É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
Confirmando a preocupação
com problemas sociais e sua
disposição para a denúncia
da miséria do nordestino,
João Cabral já observava a
exploração do homem,
anunciando disputas por
terras que ainda hoje vemos
desencadear movimentos de
lavradores e sem –terra.
27min32seg
-Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
(...)
- Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
Funeral de um lavrador
João Cabral na TV e no cinema
Em 1981 Morte e Vida
Severina foi produzido pela TV
Globo, dirigido por Walter
Avancini, e os versos de João
Cabral de Melo Neto (de seu
auto homônimo) foram
musicados por Chico Buarque.
O musical aproveita parte do
elenco do filme de 1977, de
Zelito Vianna.
Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=_tM1dByXVxY&feature=related
Influências sobre o autor
A poesia de João Cabral de
Mello Neto é difícil para o
grande público porque não
dialoga apenas com o leitor
comum mas, também com os
realizadores de poesia. Em
sintonia com a corrente
evolutiva da literatura, parte da
poesia de Cabral reflete uma
postura crítica sobre o ato de
escrever e são descrições ou
mesmo reflexões, quase sempre
indiretas, sobre o fazer literário
de outros escritores como a
americana Marianne Moore , o
português Cesário Verde, os
franceses Baudelaire, Paul
Valéry e Mallarmé.
“ O Carlos Drummond
de Andrade, quando eu
o li ainda no Recife, foi
uma revelação. Eu
tenho a impressão de
que eu escrevo poesia
porque eu li o primeiro
livro dele "Alguma
Poesia". Foi ele quem
me mostrou que ser
poeta não significava
ser sonhador, que a
ironia, a prosa cabiam
dentro da poesia. “
A obra
Em 50 anos de
intensa
atividade literária,
João Cabral de Melo
Neto publicou :
18 livros de poemas
destacam-se
O engenheiro, de 1945,
O cão sem pluma (1950),
Duas águias (1956),
2 autos
dramáticos
"Morte e Vida Severina"
e
“Auto do Frade".
Fontes
•Releituras.com.br
•diasdescola.blogspot.com
•algosobre.com.bre-melo-neto.html
•tvcultura.com.br/.../literatura/index.htm
• fredbar.sites.uol.com.br/mvs.htm
Pesquisa e organização
Profa. Cláudia Heloísa Cunha Andria
Contato: clauheloisa@yahoo.com.br

João Cabral de Melo Neto

  • 1.
    Joao Cabral deMelo Neto 1920-1999 “Os poetas que escrevem por escassez de ser, como eu, planejam os livros, têm um vazio a preencher. Os outros transbordam.” O poeta engenheiro
  • 2.
    Modernismo “Particular” O queparte da crítica literária vem chamando de Geração de 45 consiste num grupo de poetas já desligados da revolução artística de 22, que recuperaram certos valores parnasianos e simbolistas, como o rigor formal e o vocabulário erudito. No entanto, à chamada Geração de 45 pertencem poetas não- catalogáveis, o que nos leva a análises individuais desses autores. Dessa forma, João Cabral de Melo Neto só pertenceria à Geração de 45 se levado em conta o critério cronológico; esteticamente, afasta-se de grupos, por ter aberto caminhos próprios, tornando-se, portanto, um caso particular na evolução da poesia brasileira moderna.
  • 3.
    João Cabral eo modernismo João Cabral nasceu em Recife(PE), em janeiro de 1920. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira e, pelo lado materno, de Gilberto Freyre. Em 1940 viaja com a família para o Rio de Janeiro, onde conhece Murilo Mendes. Esse o apresenta a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório de Jorge de Lima. Em 1942 acontece a publicação de seu primeiro livro, Pedra do Sono.
  • 4.
    A Pedra O universopoético de João Cabral de Melo Neto é, principalmente, o da zona da mata e do sertão nordestino. Sua poesia remete o leitor constantemente às cidades de Olinda e de Recife com seus casarões antigos , seus mares e rios importantes como o Beberibe e o Capibaribe, e aos canaviais da zona da mata pernambucana. Mas também remete para a vegetação escassa da caatinga e à dor do agreste brasileiro. Por isso mesmo, dois de seus livros, "Pedra do sono" e "A educação pela pedra", trazem no título a idéia de pedra, símbolo da secura sertaneja e do solo pedroso da região. “No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse, não ensinaria nada; Lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma.”
  • 6.
    O modernismo pós-geraçãode 45 Após 1945, o Modernismo brasileiro apresenta-se como um período rico em produções tanto na prosa quanto na poesia. Na prosa, o regionalismo foi, aos poucos, cedendo espaço para uma tendência universalista que tematizava os dramas humanos. Destacam-se as obras de Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Na poesia, há um retorno ao rigor formal abandonado pelos primeiros modernistas. Entre os poetas desse período, destaca-se João Cabral de Melo Neto.
  • 7.
    Poesia Concreta evisual A poesia de João Cabral de Melo Neto é um marco dentro da literatura brasileira porque representa a maturidade das conquistas estéticas mais radicais do século XX. Contrariando a poética nacional que sempre fora sentimental, retórica, ornamental, João Cabral de Melo Neto constrói uma poesia não-lírica, não-confessional, presa à realidade e dirigida ao intelecto. Apesar de pertencer cronologicamente à geração de 45, Cabral não se enquadra somente nesta geração. * João Cabral é tido como o único poeta da geração de 45 que influencia a geração posterior (vanguarda concreta) porque defendia a aproximação da poesia com os meios de comunicação e com a arte popular. *A geração de 45 propunha um retorno às formas tradicionais do verso, como o soneto, e negava o experimentalismo dos modernistas de 1922. Alan Ridell em Eclipse: Concrete Poems, 1963.
  • 8.
    Obra construtiva xobra participante O próprio poeta ao publicar o livro Duas Águas, propõe uma divisão de sua obra em dois módulos distintos A água construtiva seria formada pelos poemas experimentais, arquitetônicos, feitos para poetas e que versam sobre o próprio fazer poético. A água participante volta-se para a problemática social do homem do nordeste e é formada poemas longos sobre os miseráveis habitantes da caatinga.
  • 9.
    Água construtiva João Cabralde Mello Neto é um poeta construtivista, ligado por temperamento às formas visuais de expressão. Ele valoriza a forma visual dos poemas, a geometrização. Propõe para a poesia um verso construído, desmistificando o ato de "criar com inspiração". Sua poesia dialoga com artistas plásticos contemporâneos como Mondrian ou Juan Miró e tem afinidade com os cubistas. Além das influências literárias, seus poemas são inspirados nas teorias arquitetônicas de Le Corbusier e nas estruturas das artes plásticas construtivas. Seus poemas são trabalhados em blocos ou "quadras- blocos" que funcionam como os retângulos de um quadro de Mondrian. (Haroldo de Campos) Mondrian Miró
  • 10.
    "Catar feijão selimita com escrever: joga-se os grãos na água do alguidar e as palavras na da folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo pois para catar esse feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco." Catar feijão
  • 11.
    Em geral ospoetas só começam a pensar na publicação de um livro após terem escrito um certo número de poemas. João Cabral procedia de maneira diferente. Ele planejava seus livros antes mesmo de começar a escrever e sabia, exatamente, como queria editá-los; assim, ele determinava o formato e o número de poemas que seriam publicados em cada um de seus livros. O próprio poeta afirmava que se impunha todas essas dificuldades para que o livro e os poemas crescessem paralelamente. João Cabral costumava dizer que o livro não é um depósito de poemas e, portanto, deveria ser concebido como uma estrutura total, uma macroestrutura. O livro "A Educação pela Pedra" de 1966, é dividido em 4 partes: a, A, b e B . Nas partes minúsculas os poemas são curtos e nas partes maiúsculas os poemas são longos. Os temas dos poemas também são distribuídos conforme as letras. Esta maneira de organizar os poemas pode exemplificar a preocupação do poeta com um livro cuidadosamente projetado. “O que o mar sim ensina ao canavial: o avançar em linha rasteira da onda; o espraiar-se minucioso, de líquido, alagando cova a cova onde se alonga. O que o canavial sim ensina ao mar: a elocução horizontal de seu verso; a geórgica de cordel, ininterrupta, narrada em voz e silêncio paralelos.”
  • 12.
    Trecho do poema OENGENHEIRO ( O Engenheiro - 1942- 1945 ) A luz, o sol, o ar livre envolvem o sonho do engenheiro. O engenheiro sonha coisas claras: superfícies, tênis, um copo de água. O lápis, o esquadro, o papel; o desenho, o projeto, o número: o engenheiro pensa o mundo justo, mundo que nenhum véu encobre.
  • 13.
    Água participante O poetaexplicita sua preocupação com a realidade nordestina e a denúncia da miséria. Em O Cão Sem Plumas , o poeta inicia um ciclo de poemas em que busca, em meio uma atmosfera mineral, a vida possível. Essa ênfase se desdobrará em O Rio e Morte e Vida Severina. Ressalta-se na redundância, na duplicação de palavras e ritmos, o poema sugere a cadência da prosa e a monotonia das águas barrentas do Capibaribe, cão sem pêlo ou pluma, reduzido só a detritos e lama. O rio ora lembrava a língua mansa de um cão, ora o ventre triste de um cão, ora o outro rio de aquoso pano sujo dos olhos de um cão. Aquele rio era como um cão sem plumas. Nada sabia da chuva azul. da fonte cor-de-rosa da água do copo de água, da água de cântaro, dos peixes de água, da brisa na água.
  • 14.
    "Ao inverter aordem natural do sintagma "vida e morte", o poeta registra com precisão a qualidade da vida que seu poema visa a descrever: uma vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante o adjetivo "severina". Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas, anônimas.” (Marta de Senna) Dois procedimentos chamam à atenção de imediato no título do livro. A inversão do sintagma vida e morte e a adjetivação do substantivo próprio Severino. Tais recursos poéticos colaboram para realçar aspectos importantes na composição da obra.
  • 15.
    Somos muitos Severinos iguaisem tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida). Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza. Severino apresenta a sua vida/morte em 28 versos, exatamente o mesmo número de anos a que, segundo João Cabral, reduzia-se a expectativa média de vida do pernambucano na época: antes dos trinta.
  • 16.
    Essa cova emque estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida. -- É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio. -- Não é cova grande, é cova medida, é a terra que querias ver dividida. -- É uma cova grande para teu pouco defunto, mas estarás mais ancho que estavas no mundo. -- É uma cova grande para teu defunto parco, porém mais que no mundo te sentirás largo. -- É uma cova grande para tua carne pouca, mas a terra dada não se abre a boca. Confirmando a preocupação com problemas sociais e sua disposição para a denúncia da miséria do nordestino, João Cabral já observava a exploração do homem, anunciando disputas por terras que ainda hoje vemos desencadear movimentos de lavradores e sem –terra. 27min32seg -Viverás, e para sempre na terra que aqui aforas: e terás enfim tua roça. (...) - Esse chão te é bem conhecido (bebeu teu suor vendido). Funeral de um lavrador
  • 17.
    João Cabral naTV e no cinema Em 1981 Morte e Vida Severina foi produzido pela TV Globo, dirigido por Walter Avancini, e os versos de João Cabral de Melo Neto (de seu auto homônimo) foram musicados por Chico Buarque. O musical aproveita parte do elenco do filme de 1977, de Zelito Vianna. Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=_tM1dByXVxY&feature=related
  • 18.
    Influências sobre oautor A poesia de João Cabral de Mello Neto é difícil para o grande público porque não dialoga apenas com o leitor comum mas, também com os realizadores de poesia. Em sintonia com a corrente evolutiva da literatura, parte da poesia de Cabral reflete uma postura crítica sobre o ato de escrever e são descrições ou mesmo reflexões, quase sempre indiretas, sobre o fazer literário de outros escritores como a americana Marianne Moore , o português Cesário Verde, os franceses Baudelaire, Paul Valéry e Mallarmé.
  • 19.
    “ O CarlosDrummond de Andrade, quando eu o li ainda no Recife, foi uma revelação. Eu tenho a impressão de que eu escrevo poesia porque eu li o primeiro livro dele "Alguma Poesia". Foi ele quem me mostrou que ser poeta não significava ser sonhador, que a ironia, a prosa cabiam dentro da poesia. “
  • 20.
    A obra Em 50anos de intensa atividade literária, João Cabral de Melo Neto publicou : 18 livros de poemas destacam-se O engenheiro, de 1945, O cão sem pluma (1950), Duas águias (1956), 2 autos dramáticos "Morte e Vida Severina" e “Auto do Frade".
  • 21.