BANDEIRA, Antônio (1922-67). Nascido em Fortaleza (CE) e falecido em Paris. Toda a sua
carreira iria desenvolver-se em pouco mais de 20 anos, e em três cidades: Fortaleza, em que
nasceu, Rio de Janeiro, onde por muitos anos morou e produziu, e Paris, onde estudou e
amadureceu, e onde veio a precocemente falecer, vítima de uma choque pós-operatório. O
próprio artista assim explicou o que lhe significavam cada uma de tais cidades:

- Da Rua Santa Isabel, em Fortaleza, guardei o vigor do meu país, gosto e cheiro das frutas da
infância e ciranda no areal. De Copacabana, sinto um mundo de praias, de cores e de
liberdade. Saint-Germain-des-Près é aquela aldeia que você conhece bem e que é também
uma grande cidade. Sabe, o melhor do Quartier é que todo mundo se diz bom-dia. Acho que na
vida devia ser assim - todo mundo se cumprimentando.

Sua vocação surgiu cedo, ainda no colégio marista de Fortaleza e com as aulas de Dona
Mundica, sua primeira mestra de desenho. Adolescente, foi um dos fundadores, em 1940, do
Centro Cultural, logo depois Sociedade Cearense de Belas Artes, ao lado de Inimá, Aldemir
Martins e outros artistas, com os quais expôs, em 1945, no Instituto dos Arquitetos no Rio de
Janeiro. Contemplado, nessa coletiva, com bolsa de estudos em França, em 1946 achava-se
em Paris, matriculado na Escola Superior de Belas Artes e na Academia da Grande
Chaumière. Pouco adaptável ao estudo acadêmico, em breve rompia com ambas as
instituições, para trabalhar livremente. Conheceu, então, artistas como Bryen, e o célebre Wols,
hoje considerado um dos corifeus da chamada pintura informal. Com Bryen e Wols teria
chegado a formar um grupo de vida efêmera, a que foi dado o nome de Banbryols, composto
por uma sílaba de cada sobrenome dos três integrantes. O grupo após uma única exposição,
em 1949, dissolveu-se, pelo retorno de Bandeira ao Brasil em 1950 e pela morte de Wols, um
ano depois.

A partir da primeira temporada em Paris, Bandeira alternará toda a sua existência entre o Brasil
e a França. De 1950 a 1954 permanece no Brasil, retornando a Paris nesse último ano, com o
prêmio Fiat, recebido na II Bienal de São Paulo, em 1953; novamente vive no Brasil de 1959 a
1964, com permanência no Rio de Janeiro e breves escapadas à Bahia (mostra inaugural do
Museu de Arte Moderna de Salvador, em 1960), e a Fortaleza (mostra inaugural do Museu de
Arte da Universidade do Ceará, 1961). Mais uma vez regressaria ao Brasil, para uma
exposição que teria lugar no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, quando em
conseqüência de um choque, após uma simples extração das amídalas, foi surpreendido pela
morte. A exposição no MAM carioca teve lugar, então sem a presença do artista com as
numerosas obras que guarneciam seu ateliê parisiense.

A produção de Bandeira estendeu-se por quase 25 anos, entre começos da década de 1940 e
o ano do falecimento - 1967. Pode ser distribuída por dois grandes grupos, de importância e
extensão desiguais: fase figurativista, que vai dos primórdios aos dois primeiros anos da
permanência em Paris - cerca de 1940 a 1947 -, e fase não-figurativista, de então até o fim da
vida. Em 1947-48 é lícito falar-se numa fase transicional, durante a qual o artista afasta-se
gradativamente da referência ao mundo objetivo, adotando uma linguagem mais e mais
abstrata.

Os trabalhos da fase figurativista são realizados em Fortaleza, no Rio de Janeiro e em Paris
sob o influxo do Expressionismo e, com menor intensidade, do Surrealismo. São figuras,
paisagens e naturezas-mortas que apenas preludiam realizações futuras. A técnica é ainda
insegura, o desenho cru; repercutem, aqui e ali, influências meramente livrescas, portanto
epidérmicas. Seria em contato com Wols que a arte de Antônio Bandeira tomaria seu rumo
definitivo e amadureceria, cumprindo então o artista papel de pioneiro entre os introdutores do
não-figurativismo no Brasil.

Na análise da obra não-figurativa de Bandeira, é possível distinguir diversas etapas. De inicio,
há uma fase de influência do Informalismo de Wols, que se estende de fins da década de 1940
a começos da década seguinte: Bandeira descobre as possibilidades da pintura abstrata, à
qual se entrega com entusiasmo. Segue-se o período das cidades e das favelas observadas à
noite, de longe, iluminadas, algo reminiscentes de certas obras de Vieira da Silva, e resolvidas
em horizontais entremeadas de manchas de cor e pequeninos pontos fosforescentes, que
impregnam o espaço pictórico de um ritmo frenético, ao mesmo tempo em que lhe emprestam
uma aparência feérica. Nesse momento, que vai de meados da década de 1950 a cerca de
1959, dá-se o pleno amadurecimento do artista, que aprofunda a sua maneira e atinge uma
tipicidade. Entre fins da década de 1950 e 1964, surgem, na pintura de Bandeira, formas de
aspecto vegetal, resolvidas em vibrantes tonalidades de verde, azul, vermelho; ocorrem ainda
experimentações - nem sempre bem sucedidas -, que chegam até à adição, na lisa superfície
da tela, de contas ou sementes coladas. Em 1964 ocorre o que poderia perfeitamente
corresponder a uma nova transição: prevalecem os cinzas e os terras, em cavas evocações
minerais. A fase final, interrompida pela morte, é de novo marcada pelo otimismo e pela alegria,
com a retomada de temas brasileiros - favelas, frutas, o mar.

A pintura de Antônio Bandeira será sempre caracterizada pela sensibilidade, que se revela
acima de tudo na cor. A expressão, tão marcante nos quadros da fase inicial, figurativa, atenua-
se gradativamente, cedendo vez à sensibilidade. Filho de um ferreiro, ele mesmo um
grandalhão de aspecto rude, Bandeira assim comparou, de certa feita, seu ofício ao paterno:

- Da fundição do meu pai aprendi misturas que nem suspeitava: vendo derreter ferro ou bronze,
aprendi muito. Hoje misturo emoções em cadinhos iguais aos dele, de ferro, de bronze, de
corpo, de alma, de vento, de paisagem, de objeto, e dessa maneira fabrico peças para o meu
trabalho.

Carlos Drummond de Andrade, com a intuição dos grandes poetas, chamou-o, num poema, de
"moderador de névoas, formas raras, espumas, unindo a fantasia a uma restrita beleza", sendo
essa, possivelmente, a melhor definição de sua pintura.

                        A grande cidade iluminada, óleo s/ tela, 1953;
                       0,72 X 0,91, Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

                             A cidade, detalhe, óleo s/ tela, 1957;
                              1,26 X 2,44, Museus Castro Maya.

                               Flora noturna, óleo s/ tela, 1959;
                     1,62 X 0,97, Museu de Arte Contemporânea da USP.

                              La grande ville, óleo s/ tela, s/ data;
                       1,60 X 2,92, Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Bandeira, antônio

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    BANDEIRA, Antônio (1922-67).Nascido em Fortaleza (CE) e falecido em Paris. Toda a sua carreira iria desenvolver-se em pouco mais de 20 anos, e em três cidades: Fortaleza, em que nasceu, Rio de Janeiro, onde por muitos anos morou e produziu, e Paris, onde estudou e amadureceu, e onde veio a precocemente falecer, vítima de uma choque pós-operatório. O próprio artista assim explicou o que lhe significavam cada uma de tais cidades: - Da Rua Santa Isabel, em Fortaleza, guardei o vigor do meu país, gosto e cheiro das frutas da infância e ciranda no areal. De Copacabana, sinto um mundo de praias, de cores e de liberdade. Saint-Germain-des-Près é aquela aldeia que você conhece bem e que é também uma grande cidade. Sabe, o melhor do Quartier é que todo mundo se diz bom-dia. Acho que na vida devia ser assim - todo mundo se cumprimentando. Sua vocação surgiu cedo, ainda no colégio marista de Fortaleza e com as aulas de Dona Mundica, sua primeira mestra de desenho. Adolescente, foi um dos fundadores, em 1940, do Centro Cultural, logo depois Sociedade Cearense de Belas Artes, ao lado de Inimá, Aldemir Martins e outros artistas, com os quais expôs, em 1945, no Instituto dos Arquitetos no Rio de Janeiro. Contemplado, nessa coletiva, com bolsa de estudos em França, em 1946 achava-se em Paris, matriculado na Escola Superior de Belas Artes e na Academia da Grande Chaumière. Pouco adaptável ao estudo acadêmico, em breve rompia com ambas as instituições, para trabalhar livremente. Conheceu, então, artistas como Bryen, e o célebre Wols, hoje considerado um dos corifeus da chamada pintura informal. Com Bryen e Wols teria chegado a formar um grupo de vida efêmera, a que foi dado o nome de Banbryols, composto por uma sílaba de cada sobrenome dos três integrantes. O grupo após uma única exposição, em 1949, dissolveu-se, pelo retorno de Bandeira ao Brasil em 1950 e pela morte de Wols, um ano depois. A partir da primeira temporada em Paris, Bandeira alternará toda a sua existência entre o Brasil e a França. De 1950 a 1954 permanece no Brasil, retornando a Paris nesse último ano, com o prêmio Fiat, recebido na II Bienal de São Paulo, em 1953; novamente vive no Brasil de 1959 a 1964, com permanência no Rio de Janeiro e breves escapadas à Bahia (mostra inaugural do Museu de Arte Moderna de Salvador, em 1960), e a Fortaleza (mostra inaugural do Museu de Arte da Universidade do Ceará, 1961). Mais uma vez regressaria ao Brasil, para uma exposição que teria lugar no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, quando em conseqüência de um choque, após uma simples extração das amídalas, foi surpreendido pela morte. A exposição no MAM carioca teve lugar, então sem a presença do artista com as numerosas obras que guarneciam seu ateliê parisiense. A produção de Bandeira estendeu-se por quase 25 anos, entre começos da década de 1940 e o ano do falecimento - 1967. Pode ser distribuída por dois grandes grupos, de importância e extensão desiguais: fase figurativista, que vai dos primórdios aos dois primeiros anos da permanência em Paris - cerca de 1940 a 1947 -, e fase não-figurativista, de então até o fim da vida. Em 1947-48 é lícito falar-se numa fase transicional, durante a qual o artista afasta-se gradativamente da referência ao mundo objetivo, adotando uma linguagem mais e mais abstrata. Os trabalhos da fase figurativista são realizados em Fortaleza, no Rio de Janeiro e em Paris sob o influxo do Expressionismo e, com menor intensidade, do Surrealismo. São figuras, paisagens e naturezas-mortas que apenas preludiam realizações futuras. A técnica é ainda insegura, o desenho cru; repercutem, aqui e ali, influências meramente livrescas, portanto epidérmicas. Seria em contato com Wols que a arte de Antônio Bandeira tomaria seu rumo definitivo e amadureceria, cumprindo então o artista papel de pioneiro entre os introdutores do não-figurativismo no Brasil. Na análise da obra não-figurativa de Bandeira, é possível distinguir diversas etapas. De inicio, há uma fase de influência do Informalismo de Wols, que se estende de fins da década de 1940 a começos da década seguinte: Bandeira descobre as possibilidades da pintura abstrata, à qual se entrega com entusiasmo. Segue-se o período das cidades e das favelas observadas à noite, de longe, iluminadas, algo reminiscentes de certas obras de Vieira da Silva, e resolvidas em horizontais entremeadas de manchas de cor e pequeninos pontos fosforescentes, que
  • 2.
    impregnam o espaçopictórico de um ritmo frenético, ao mesmo tempo em que lhe emprestam uma aparência feérica. Nesse momento, que vai de meados da década de 1950 a cerca de 1959, dá-se o pleno amadurecimento do artista, que aprofunda a sua maneira e atinge uma tipicidade. Entre fins da década de 1950 e 1964, surgem, na pintura de Bandeira, formas de aspecto vegetal, resolvidas em vibrantes tonalidades de verde, azul, vermelho; ocorrem ainda experimentações - nem sempre bem sucedidas -, que chegam até à adição, na lisa superfície da tela, de contas ou sementes coladas. Em 1964 ocorre o que poderia perfeitamente corresponder a uma nova transição: prevalecem os cinzas e os terras, em cavas evocações minerais. A fase final, interrompida pela morte, é de novo marcada pelo otimismo e pela alegria, com a retomada de temas brasileiros - favelas, frutas, o mar. A pintura de Antônio Bandeira será sempre caracterizada pela sensibilidade, que se revela acima de tudo na cor. A expressão, tão marcante nos quadros da fase inicial, figurativa, atenua- se gradativamente, cedendo vez à sensibilidade. Filho de um ferreiro, ele mesmo um grandalhão de aspecto rude, Bandeira assim comparou, de certa feita, seu ofício ao paterno: - Da fundição do meu pai aprendi misturas que nem suspeitava: vendo derreter ferro ou bronze, aprendi muito. Hoje misturo emoções em cadinhos iguais aos dele, de ferro, de bronze, de corpo, de alma, de vento, de paisagem, de objeto, e dessa maneira fabrico peças para o meu trabalho. Carlos Drummond de Andrade, com a intuição dos grandes poetas, chamou-o, num poema, de "moderador de névoas, formas raras, espumas, unindo a fantasia a uma restrita beleza", sendo essa, possivelmente, a melhor definição de sua pintura. A grande cidade iluminada, óleo s/ tela, 1953; 0,72 X 0,91, Museu Nacional de Belas Artes, RJ. A cidade, detalhe, óleo s/ tela, 1957; 1,26 X 2,44, Museus Castro Maya. Flora noturna, óleo s/ tela, 1959; 1,62 X 0,97, Museu de Arte Contemporânea da USP. La grande ville, óleo s/ tela, s/ data; 1,60 X 2,92, Pinacoteca do Estado de São Paulo.