SCLIAR, Carlos (1920). Nascido em Santa Maria (RS). Tinha apenas 11 anos quando
começou a publicar na imprensa gaúcha pequenos textos acompanhados de desenhos, e aos
14 tornou-se aluno do pintor austríaco Gustav Epstein, participando já no ano seguinte de sua
primeira coletiva, a Exposição do Centenário Farroupilha (1935). Em 1938 foi um dos
fundadores e primeiro secretário da Associação Francisco Lisboa, que contribuiria
poderosamente para a renovação do ambiente artístico e cultural do Estado. Transferindo-se,
em 1940, para São Paulo, integrou-se à Família Artística Paulista, de cuja mostra no Rio de
Janeiro participou; no mesmo ano, em São Paulo, fez sua primeira individual, e no Salão
Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro conquistou pela Divisão Moderna medalha de prata
em pintura. Atravessa, entre 1941 e 1942, um período de intensa atividade gráfica, organizando
o álbum 35 Litografias - do qual participa, ao lado de Bonadei, Graciano, Lívio Abramo e outros
- e publicando também seu próprio álbum de litografias, Fábula.

Convocado em 1943 para a Força Expedicionária Brasileira, segue para o Rio de Janeiro, em
cuja imprensa colabora como artista gráfico, ligando-se então de amizade ao casal Vieira da
Silva e Arpad Szenes, na época refugiado na capital brasileira. Enquanto não segue para a
Europa, escreve o roteiro de um documentário de Rui Santos sobre Segall, e dirige um curta-
metragem, Escadas, sobre Vieira da Silva e Szenes. Finalmente, pouco após efetuar sua
segunda individual de pinturas e desenhos embarca em agosto de 1944 para a Itália,
participando da II Guerra Mundial como cabo de artilharia. Terminado o conflito, expõe em
1945 os desenhos da série Com a FEB na Itália no Rio, em São Paulo e em Porto Alegre, ao
mesmo tempo em que realiza palestras sobre a atuação da FEB na Itália ou em prol da
Constituinte, batendo-se denodadamente pela redemocratização do Brasil.

Entre 1947 e 1950 residiu na Europa, com permanência mais longa em Paris mas viajando
extensamente por Itália, Inglaterra, Tchecoslováquia (como delegado ao I Congresso da
Juventude Democrática em 1947), Polônia (como delegado ao Congresso dos Intelectuais pela
Paz, em 1948), Portugal, etc. Ilustrador de Les Lettres Françaises, dirigiu artisticamente os
Cahiers d’art da Association Latino-Américaine de Paris, e em 1949 editou um álbum de
linóleogravuras, Les Chemins de la Faim, com apresentação de Jorge Amado. Ainda na capital
francesa, tomaria parte em algumas coletivas, como o VIII Salon des Moins de Trente Ans, em
1948.

Regressando em 1950 ao Brasil, Scliar novamente se fixa no Rio Grande do Sul, após breve
temporada no Rio de Janeiro. Em Porto Alegre integra a diretoria e participa do planejamento
gráfico da revista Horizonte, ao mesmo tempo em que é um dos fundadores e primeiro
presidente do Clube da Gravura, núcleo de um movimento cultural que se espraiaria pelo pais
inteiro. Algumas de suas estampas então produzidas, fortemente imbuídas do chamado
Realismo Social , foram reunidas em 1952 no álbum Gravuras Gaúchas, aliás contemplado
com o Prêmio Pablo Picasso da Paz. No ano seguinte Scliar realiza ilustrações para o romance
Seara Vermelha, de Jorge Amado, e inicia as gravuras da série Estância, concluída em 1956,
quando foi publicado o álbum homônimo. Nesse último ano, após uma grande mostra realizada
na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o artista dá por definitivamente encerrada essa fase
realista-social, e enceta uma nova etapa de sua produtividade. Mais uma vez no Rio de Janeiro
e após criar cartazes para o filme Rio, Zona Norte (1957) e de organizar, em 1958-60, o
Departamento de Arte da nova revista Senhor, Scliar retoma um novo veio pictórico, efetuando
em 1960 importante individual na Galeria Tenreiro, voltando a fazê-lo em 1961 na Petite
Galerie.

No período que medeia entre os princípios da década de 1960 e a atualidade, Scliar tem-se
conservado fiel a essa orientação, praticando uma pintura que pode ser caracterizada por
rigoroso senso de construção, apuro formal e caprichoso esquema cromático, pondo em
circulação novos materiais de pintura - como o vinil - e praticando preferencialmente a
natureza-morta, a marinha e a paisagem, com abundante utilização da colagem - documentos
antigos e velhas páginas de livros, acrescentados à sua pintura como recurso expressivo. A
partir de 1962 vem pintando regularmente, a intervalos, em Ouro Preto, e de pouco depois
datam suas primeiras obras realizadas em Cabo Frio, propiciando-lhe ambas as cidades,
montanha e mar, assunto para incontáveis pinturas. E se alguma crítica pode ser feita a tais
pinturas de Scliar, é a de que emana de todas elas uma certa sensação de frieza, como se
nascidas mais da razão que da emoção.
Scliar tem realizado numerosíssimas individuais, dentro e fora do Brasil, destacando-se as
diversas retrospectivas de sua obra, organizadas desde 1961 (22 Anos de Pintura, Porto
Alegre), e que prosseguiriam em 1970 (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), 1971
(Museu de Arte Moderna de São Paulo, Secretaria de Cultura do Paraná em Curitiba e Reitoria
da Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte), 1977 (Fundação Cultural do
Estado da Bahia em Salvador), 1978 (Universidade Federal do Espírito Santo em Vitória,
Universidade de Blumenau em Santa Catarina), 1983 (Museu de Arte Brasileira da Fundação
Armando Álvares Penteado em São Paulo), 1985 (Museu de Arte de Joinville em Santa
Catarina) e 1991 (MAM-RJ). A retrospectiva carioca de 1970 foi particularmente importante,
tendo sido acompanhada do lançamento do livro Scliar, o Real em Reflexo e Transfiguração,
de Roberto Pontual, e do documentário Os Caminhos da Cor, de Adamastor Camará.

Desde 1967 o artista tem produzido também serigrafias, técnica de gravura que se presta
admiravelmente aos contornos estilisticos de sua produção, datando daquele ano quatro
envelopes com cinco serigrafias cada - Cinco Serigrafias, Caixas I e II e Frutas - com execução
técnica de Dionisio del Santo. Entusiasmado pela serigrafia, Scliar lançaria novos álbuns em
1972 (Scliar - Serigrafias) e em 1977 (Telhados de Ouro Preto), ao mesmo tempo realizando
mostras de divulgação em várias cidades brasileiras. O artista também é autor de numerosos
painéis, destacando-se os que fez em 1967 para o Banco Aliança do Rio de Janeiro, em 1973
para Manchete (Ouro Preto 180º), em 1974 para a Prefeitura de Porto Alegre e para o Centro
Administrativo do Governo da Bahia, em Salvador, em 1977 para a Imprensa Oficial do Rio de
Janeiro (Leia-Pense), em 1978 para a Líder Transportes Aéreos de Belo Horizonte, etc. Entre
outros trabalhos do artista, devem ser mencionados os álbuns como Caderno de Guerra de
Carlos Scliar, com reproduções de desenhos feitos em 1944 e 1945 (1969), Série Gaúcha, com
linóleo gravuras e pochoirs (1974) e Scliar - Desenhos 1940-1949 (1983), e a ilustração dos
bilhetes das principais extrações de Loteria Federal, em 1971.

                                 Sesta, linóleo-gravura, 1955;
                       0,42 X 0,62, Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

                            Natureza morta, óleo s/ madeira, 1964;
                            0,54 X 0,75, Palácio Bandeirantes, SP.

Scliar, carlos

  • 1.
    SCLIAR, Carlos (1920).Nascido em Santa Maria (RS). Tinha apenas 11 anos quando começou a publicar na imprensa gaúcha pequenos textos acompanhados de desenhos, e aos 14 tornou-se aluno do pintor austríaco Gustav Epstein, participando já no ano seguinte de sua primeira coletiva, a Exposição do Centenário Farroupilha (1935). Em 1938 foi um dos fundadores e primeiro secretário da Associação Francisco Lisboa, que contribuiria poderosamente para a renovação do ambiente artístico e cultural do Estado. Transferindo-se, em 1940, para São Paulo, integrou-se à Família Artística Paulista, de cuja mostra no Rio de Janeiro participou; no mesmo ano, em São Paulo, fez sua primeira individual, e no Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro conquistou pela Divisão Moderna medalha de prata em pintura. Atravessa, entre 1941 e 1942, um período de intensa atividade gráfica, organizando o álbum 35 Litografias - do qual participa, ao lado de Bonadei, Graciano, Lívio Abramo e outros - e publicando também seu próprio álbum de litografias, Fábula. Convocado em 1943 para a Força Expedicionária Brasileira, segue para o Rio de Janeiro, em cuja imprensa colabora como artista gráfico, ligando-se então de amizade ao casal Vieira da Silva e Arpad Szenes, na época refugiado na capital brasileira. Enquanto não segue para a Europa, escreve o roteiro de um documentário de Rui Santos sobre Segall, e dirige um curta- metragem, Escadas, sobre Vieira da Silva e Szenes. Finalmente, pouco após efetuar sua segunda individual de pinturas e desenhos embarca em agosto de 1944 para a Itália, participando da II Guerra Mundial como cabo de artilharia. Terminado o conflito, expõe em 1945 os desenhos da série Com a FEB na Itália no Rio, em São Paulo e em Porto Alegre, ao mesmo tempo em que realiza palestras sobre a atuação da FEB na Itália ou em prol da Constituinte, batendo-se denodadamente pela redemocratização do Brasil. Entre 1947 e 1950 residiu na Europa, com permanência mais longa em Paris mas viajando extensamente por Itália, Inglaterra, Tchecoslováquia (como delegado ao I Congresso da Juventude Democrática em 1947), Polônia (como delegado ao Congresso dos Intelectuais pela Paz, em 1948), Portugal, etc. Ilustrador de Les Lettres Françaises, dirigiu artisticamente os Cahiers d’art da Association Latino-Américaine de Paris, e em 1949 editou um álbum de linóleogravuras, Les Chemins de la Faim, com apresentação de Jorge Amado. Ainda na capital francesa, tomaria parte em algumas coletivas, como o VIII Salon des Moins de Trente Ans, em 1948. Regressando em 1950 ao Brasil, Scliar novamente se fixa no Rio Grande do Sul, após breve temporada no Rio de Janeiro. Em Porto Alegre integra a diretoria e participa do planejamento gráfico da revista Horizonte, ao mesmo tempo em que é um dos fundadores e primeiro presidente do Clube da Gravura, núcleo de um movimento cultural que se espraiaria pelo pais inteiro. Algumas de suas estampas então produzidas, fortemente imbuídas do chamado Realismo Social , foram reunidas em 1952 no álbum Gravuras Gaúchas, aliás contemplado com o Prêmio Pablo Picasso da Paz. No ano seguinte Scliar realiza ilustrações para o romance Seara Vermelha, de Jorge Amado, e inicia as gravuras da série Estância, concluída em 1956, quando foi publicado o álbum homônimo. Nesse último ano, após uma grande mostra realizada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o artista dá por definitivamente encerrada essa fase realista-social, e enceta uma nova etapa de sua produtividade. Mais uma vez no Rio de Janeiro e após criar cartazes para o filme Rio, Zona Norte (1957) e de organizar, em 1958-60, o Departamento de Arte da nova revista Senhor, Scliar retoma um novo veio pictórico, efetuando em 1960 importante individual na Galeria Tenreiro, voltando a fazê-lo em 1961 na Petite Galerie. No período que medeia entre os princípios da década de 1960 e a atualidade, Scliar tem-se conservado fiel a essa orientação, praticando uma pintura que pode ser caracterizada por rigoroso senso de construção, apuro formal e caprichoso esquema cromático, pondo em circulação novos materiais de pintura - como o vinil - e praticando preferencialmente a natureza-morta, a marinha e a paisagem, com abundante utilização da colagem - documentos antigos e velhas páginas de livros, acrescentados à sua pintura como recurso expressivo. A partir de 1962 vem pintando regularmente, a intervalos, em Ouro Preto, e de pouco depois datam suas primeiras obras realizadas em Cabo Frio, propiciando-lhe ambas as cidades, montanha e mar, assunto para incontáveis pinturas. E se alguma crítica pode ser feita a tais pinturas de Scliar, é a de que emana de todas elas uma certa sensação de frieza, como se nascidas mais da razão que da emoção.
  • 2.
    Scliar tem realizadonumerosíssimas individuais, dentro e fora do Brasil, destacando-se as diversas retrospectivas de sua obra, organizadas desde 1961 (22 Anos de Pintura, Porto Alegre), e que prosseguiriam em 1970 (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), 1971 (Museu de Arte Moderna de São Paulo, Secretaria de Cultura do Paraná em Curitiba e Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte), 1977 (Fundação Cultural do Estado da Bahia em Salvador), 1978 (Universidade Federal do Espírito Santo em Vitória, Universidade de Blumenau em Santa Catarina), 1983 (Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado em São Paulo), 1985 (Museu de Arte de Joinville em Santa Catarina) e 1991 (MAM-RJ). A retrospectiva carioca de 1970 foi particularmente importante, tendo sido acompanhada do lançamento do livro Scliar, o Real em Reflexo e Transfiguração, de Roberto Pontual, e do documentário Os Caminhos da Cor, de Adamastor Camará. Desde 1967 o artista tem produzido também serigrafias, técnica de gravura que se presta admiravelmente aos contornos estilisticos de sua produção, datando daquele ano quatro envelopes com cinco serigrafias cada - Cinco Serigrafias, Caixas I e II e Frutas - com execução técnica de Dionisio del Santo. Entusiasmado pela serigrafia, Scliar lançaria novos álbuns em 1972 (Scliar - Serigrafias) e em 1977 (Telhados de Ouro Preto), ao mesmo tempo realizando mostras de divulgação em várias cidades brasileiras. O artista também é autor de numerosos painéis, destacando-se os que fez em 1967 para o Banco Aliança do Rio de Janeiro, em 1973 para Manchete (Ouro Preto 180º), em 1974 para a Prefeitura de Porto Alegre e para o Centro Administrativo do Governo da Bahia, em Salvador, em 1977 para a Imprensa Oficial do Rio de Janeiro (Leia-Pense), em 1978 para a Líder Transportes Aéreos de Belo Horizonte, etc. Entre outros trabalhos do artista, devem ser mencionados os álbuns como Caderno de Guerra de Carlos Scliar, com reproduções de desenhos feitos em 1944 e 1945 (1969), Série Gaúcha, com linóleo gravuras e pochoirs (1974) e Scliar - Desenhos 1940-1949 (1983), e a ilustração dos bilhetes das principais extrações de Loteria Federal, em 1971. Sesta, linóleo-gravura, 1955; 0,42 X 0,62, Museu Nacional de Belas Artes, RJ. Natureza morta, óleo s/ madeira, 1964; 0,54 X 0,75, Palácio Bandeirantes, SP.