DE FIORI, Ernesto (1884-1945). Nascido em Roma (Itália) e falecido em São Paulo (SP). Aos
19 anos desloca-se a Munique, matriculando-se na Academia de Belas Artes, que cursa por um
ano. Aluno de Otto Greiner, é por esse desencorajado, e em 1904 acha-se de novo em Roma,
onde tem início uma fase fundamente influenciada pela obra do pintor expressionista suíço
Ferdinand Hodler.

Após uma permanência de mais de ano em Londres, em 1909-10, visita Paris pela primeira
vez, ali se deixando ficar até 1914. Ligando-se aos círculos de vanguarda, amigo de Matisse e
Picasso, tem porém um abalo ao tomar contato com a pintura de Renoir e principalmente com
a de Cézanne, passando dois dias fechado em seu quarto "com o rosto virado para a parede,
decidido a não mais pintar", Após quatro meses de total apatia, volta a trabalhar, agora como
escultor, e como escultor é que, nos próximos anos, conhecerá sucesso internacional, sofrendo
sucessivamente a influência de Maillol, Degas e do Cubismo, até adotar o estilo vigoroso e
pessoal que iria caracterizá-lo por volta de meados da década de 1920.

Cidadão alemão naturalizado, De Fiori é convocado em 1916 e luta no front francês.
Desmobilizado, transfere-se para a Suíça, e em 1919 casa-se com uma jovem escultora, com a
qual viverá sete anos. Famoso, presença obrigatória em todas as grandes manifestações de
arte contemporânea levadas a efeito na Europa ao longo de mais de duas décadas de ativo
labor, em 1936 De Fiori decide-se a abandonar a Alemanha, pressentindo a aproximação da
tragédia iminente, e após curta temporada em Paris dirige-se ao Brasil, fixando-se em São
Paulo, onde já residiam seu irmão Mario De Fiori e sua mãe, Maria De Fiori Unger. Pouco após
a chegada, realizou uma exposição de esculturas, pinturas e desenhos na Galeria Guatapará,
passando desapercebido.

Apaixonado pela paisagem brasileira, em nosso país não deixa de esculpir, mas pratica com
assiduidade cada vez maior a pintura, que assim retomava após um intervalo de mais de 20
anos. Pretendendo embora regressar à Europa tão logo as circunstâncias o permitissem, e
tendo ainda a intenção de viajar aos Estados Unidos, não logrou concretizar nem uma coisa
nem outra, deixando-se ficar no Brasil em definitivo, e aqui se ligando de amizade a intelectuais
e artistas como Menotti del Picchia e Paulo Rossi Osir. Desportista, adepto da vela e vencedor
de inúmeras regatas, deu seqüência no Brasil à sua ilustre carreira, expondo nos três Salões
de Maio (1937-39), no III Salão da Família Artística Paulista (Rio de Janeiro, 1940), no 1 Salão
de Arte da Feira Nacional de Indústrias (1941) e nos Salões do Sindicato dos Artistas Plásticos
de 1942 e 1944, ao mesmo tempo em que realizava mais três individuais: em 1937, na Nova
Galeria de Arte de Theodor Heuberger, no Rio de Janeiro; em 1939, na Casa e Jardim, de São
Paulo, e em 1944 na Galeria Itá, também de São Paulo. Foi a partir da mostra de 1941 em
Casa e Jardim que seu prestigio no Brasil começou a aumentar, diversos críticos e intelectuais
tendo-lhe dedicado, na ocasião, artigos encomiásticos.

A obra pictórica de De Fiori compreende retratos, paisagens, figuras, sucessivas
representações do tema de São Jorge e o Dragão, que assumia a seus olhos conotações
simbólicas, e inúmeras vistas da represa de Santo Amaro, iniciadas por volta de 1939. É uma
pintura alegre, extravasada em pinceladas largas, de cromatismo intenso, sem preocupações
com o fini, e estilisticamente ligada ao expressionismo germânico, a cuja sombra se
desenvolvera. O crítico de arte Walter Zanini, que lhe estudou a obra em profundidade, divide
sua pintura brasileira em duas fases: a primeira, a partir de 1936, mais subordinada à realidade
objetiva, e a segunda, que surge por volta de 1939 e atinge seu apogeu em 1942-43, marcada
por forte expressionismo, o qual se reflete "não apenas na vitalidade de sua cor, nos acidentes
de matéria, mas em detalhes ponderáveis como os arrependimentos freqüentes na disposição
dos tons, os refazimentos propositadamente não dissimulados dos motivos, o inacabado, os
escorrimentos de tinta (antecipação às coulées informalistas), o avanço das cores pelas
molduras".

Violentamente antiabstracionista, comprazendo-se com freqüência na representação de cenas
urbanas de São Paulo - que descrevia pouco após sua chegada como " uma grande e
inacabada cidade, uma pequena Nova Iorque, meio titânica, meio nanica, habitada por
estranha mistura de raças, uma pequena Babel" -, de figuras isoladas ou em grupo e de
naturezas-mortas ou interiores, De Fiori chegaria a influenciar a, entre outros, Alfredo Volpi,
Mario Zanini e Joaquim Figueira, como pintor, enquanto o mesmo Figueira e principalmente
Bruno Giorgi iriam sofrer seu impacto como escultor. Foi porém Zanini quem mais fundamente
sentiu o influxo da arte de De Fiori, a ponto de lhe assimilar processos e maneiras, até o
esquema colorístico.

Para os últimos anos de vida, acabrunhado com o rumo da guerra na Europa e decidido a
emprestar sua colaboração à luta contra o Nazismo, propõe sem sucesso a criação, em São
Paulo, de uma Liga de Resistência Espiritual contra o Hitlerismo, ao mesmo tempo em que
desenha armas antitorpedos que oferece ao governo norte-americano, e tenta induzir as
autoridades diplomáticas inglesas em São Paulo a aproveitá-lo numa missão secreta junto a
Goering. Em 1997 a Pinacoteca de Estado, em São Paulo, dedicou-lhe importantíssima
retrospectiva.

                       Arlequim dançando, detalhe, óleo s/ tela, 1942;
                    1,10 X 0,90, Museu de Arte Contemporânea da USP.

                             São Jorge, azulejo, década de 40;
                                  feito para Osirarte, SP.

                              Batalha, têmpera s/ tela, s/ data;
                           0,48 X 0,61, Palácio Bandeirantes, SP.

                                São Jorge, óleo s/ tela, 1943;
                      0,95 X 0,65, Pinacoteca do Estado de São Paulo.

De fiori, ernesto

  • 1.
    DE FIORI, Ernesto(1884-1945). Nascido em Roma (Itália) e falecido em São Paulo (SP). Aos 19 anos desloca-se a Munique, matriculando-se na Academia de Belas Artes, que cursa por um ano. Aluno de Otto Greiner, é por esse desencorajado, e em 1904 acha-se de novo em Roma, onde tem início uma fase fundamente influenciada pela obra do pintor expressionista suíço Ferdinand Hodler. Após uma permanência de mais de ano em Londres, em 1909-10, visita Paris pela primeira vez, ali se deixando ficar até 1914. Ligando-se aos círculos de vanguarda, amigo de Matisse e Picasso, tem porém um abalo ao tomar contato com a pintura de Renoir e principalmente com a de Cézanne, passando dois dias fechado em seu quarto "com o rosto virado para a parede, decidido a não mais pintar", Após quatro meses de total apatia, volta a trabalhar, agora como escultor, e como escultor é que, nos próximos anos, conhecerá sucesso internacional, sofrendo sucessivamente a influência de Maillol, Degas e do Cubismo, até adotar o estilo vigoroso e pessoal que iria caracterizá-lo por volta de meados da década de 1920. Cidadão alemão naturalizado, De Fiori é convocado em 1916 e luta no front francês. Desmobilizado, transfere-se para a Suíça, e em 1919 casa-se com uma jovem escultora, com a qual viverá sete anos. Famoso, presença obrigatória em todas as grandes manifestações de arte contemporânea levadas a efeito na Europa ao longo de mais de duas décadas de ativo labor, em 1936 De Fiori decide-se a abandonar a Alemanha, pressentindo a aproximação da tragédia iminente, e após curta temporada em Paris dirige-se ao Brasil, fixando-se em São Paulo, onde já residiam seu irmão Mario De Fiori e sua mãe, Maria De Fiori Unger. Pouco após a chegada, realizou uma exposição de esculturas, pinturas e desenhos na Galeria Guatapará, passando desapercebido. Apaixonado pela paisagem brasileira, em nosso país não deixa de esculpir, mas pratica com assiduidade cada vez maior a pintura, que assim retomava após um intervalo de mais de 20 anos. Pretendendo embora regressar à Europa tão logo as circunstâncias o permitissem, e tendo ainda a intenção de viajar aos Estados Unidos, não logrou concretizar nem uma coisa nem outra, deixando-se ficar no Brasil em definitivo, e aqui se ligando de amizade a intelectuais e artistas como Menotti del Picchia e Paulo Rossi Osir. Desportista, adepto da vela e vencedor de inúmeras regatas, deu seqüência no Brasil à sua ilustre carreira, expondo nos três Salões de Maio (1937-39), no III Salão da Família Artística Paulista (Rio de Janeiro, 1940), no 1 Salão de Arte da Feira Nacional de Indústrias (1941) e nos Salões do Sindicato dos Artistas Plásticos de 1942 e 1944, ao mesmo tempo em que realizava mais três individuais: em 1937, na Nova Galeria de Arte de Theodor Heuberger, no Rio de Janeiro; em 1939, na Casa e Jardim, de São Paulo, e em 1944 na Galeria Itá, também de São Paulo. Foi a partir da mostra de 1941 em Casa e Jardim que seu prestigio no Brasil começou a aumentar, diversos críticos e intelectuais tendo-lhe dedicado, na ocasião, artigos encomiásticos. A obra pictórica de De Fiori compreende retratos, paisagens, figuras, sucessivas representações do tema de São Jorge e o Dragão, que assumia a seus olhos conotações simbólicas, e inúmeras vistas da represa de Santo Amaro, iniciadas por volta de 1939. É uma pintura alegre, extravasada em pinceladas largas, de cromatismo intenso, sem preocupações com o fini, e estilisticamente ligada ao expressionismo germânico, a cuja sombra se desenvolvera. O crítico de arte Walter Zanini, que lhe estudou a obra em profundidade, divide sua pintura brasileira em duas fases: a primeira, a partir de 1936, mais subordinada à realidade objetiva, e a segunda, que surge por volta de 1939 e atinge seu apogeu em 1942-43, marcada por forte expressionismo, o qual se reflete "não apenas na vitalidade de sua cor, nos acidentes de matéria, mas em detalhes ponderáveis como os arrependimentos freqüentes na disposição dos tons, os refazimentos propositadamente não dissimulados dos motivos, o inacabado, os escorrimentos de tinta (antecipação às coulées informalistas), o avanço das cores pelas molduras". Violentamente antiabstracionista, comprazendo-se com freqüência na representação de cenas urbanas de São Paulo - que descrevia pouco após sua chegada como " uma grande e inacabada cidade, uma pequena Nova Iorque, meio titânica, meio nanica, habitada por estranha mistura de raças, uma pequena Babel" -, de figuras isoladas ou em grupo e de naturezas-mortas ou interiores, De Fiori chegaria a influenciar a, entre outros, Alfredo Volpi,
  • 2.
    Mario Zanini eJoaquim Figueira, como pintor, enquanto o mesmo Figueira e principalmente Bruno Giorgi iriam sofrer seu impacto como escultor. Foi porém Zanini quem mais fundamente sentiu o influxo da arte de De Fiori, a ponto de lhe assimilar processos e maneiras, até o esquema colorístico. Para os últimos anos de vida, acabrunhado com o rumo da guerra na Europa e decidido a emprestar sua colaboração à luta contra o Nazismo, propõe sem sucesso a criação, em São Paulo, de uma Liga de Resistência Espiritual contra o Hitlerismo, ao mesmo tempo em que desenha armas antitorpedos que oferece ao governo norte-americano, e tenta induzir as autoridades diplomáticas inglesas em São Paulo a aproveitá-lo numa missão secreta junto a Goering. Em 1997 a Pinacoteca de Estado, em São Paulo, dedicou-lhe importantíssima retrospectiva. Arlequim dançando, detalhe, óleo s/ tela, 1942; 1,10 X 0,90, Museu de Arte Contemporânea da USP. São Jorge, azulejo, década de 40; feito para Osirarte, SP. Batalha, têmpera s/ tela, s/ data; 0,48 X 0,61, Palácio Bandeirantes, SP. São Jorge, óleo s/ tela, 1943; 0,95 X 0,65, Pinacoteca do Estado de São Paulo.