RUGENDAS, Johann Moritz (1802-58). Nascido em Augsburg (Baviera) e falecido em
Weilheim (Württemberg). Pertencendo a uma família de pintores, gravadores e editores oriunda
provavelmente da França mas que se fixara nos primeiros anos do Séc. XVII em Augsburg, era
bisneto do grande pintor de batalhas Georg Philipp Rugendas (1666-1742) e filho de Johann
Lorenz Rugendas II (1775-1826), que chegou a dirigir a Academia de Belas Artes de Augsburg.
Foi com o pai e com um dos tios que se iniciou no desenho e na gravura, matriculando-se em
1817 na Academia de Munique. Em 1818 estava em Viena quando do retorno à Áustria do
pintor e desenhista Thomas Ender, que acabara de acompanhar a futura Imperatriz Leopoldina
ao Brasil, tendo aproveitado sua permanência naquele país longínquo para realizar uma série
de obras valiosas. Fascinado com uma visita ao "Imperial e Real Museu do Brasil", então
inaugurado em Viena, e onde estavam em exposição não somente as pinturas e os desenhos
de Ender, como ainda material coletado nos Trópicos pelos cientistas Natterer, Mikan e Pohl,
os quais tinham igualmente integrado a comitiva da princesa, o jovem Rugendas decidiu
embarcar também para o Brasil tão logo o permitissem as circunstâncias. A oportunidade
surgiu poucos anos depois, quando o Barão Georg Heinrich Langsdorff, alemão da Suábia mas
cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, acenou-lhe com um contrato para participar, como
desenhista documentarista, da expedição científica que estava organizando por ordem do Czar,
e que tinha por meta atravessar o interior do Brasil, desde o Rio de Janeiro até o Amazonas.

Em fins de 1821, com apenas 19 anos, Rugendas partia para o Rio de Janeiro, encontrando ao
desembarcar um Brasil às vésperas de acontecimentos que culminariam poucos meses depois
com a Independência. A atmosfera política carregada protelou o início da expedição, uma vez
que como diplomata Langsdorff tinha de acompanhar o desenrolar dos fatos. Rugendas foi-se
deixando ficar no Rio, visitando também suas cercanias e tomando anotações gráficas de tudo
quanto lhe era facultado ver. E não foi senão em 1824 que, a convite do Barão, acompanhou-o
numa excursão a Minas Gerais, visitando, então, Barbacena, São João del Rey, Vila Rica,
Sabará, Caeté e Diamantina, para retornar em seguida à Corte, onde se separou
definitivamente de Langsdorff, seguindo a 21 de maio de 1825 para a Europa, com escalas na
Bahia e em Pernambuco. Nesse mesmo ano de 1825 teria início afinal a expedição de
Langsdorff, com o jovem desenhista Adrien-Aimé Taunay no lugar de Rugendas. Certos lances
dramáticos da viagem, como a morte trágica de Adrien e a demência que se apossou de
Langsdorff, contribuíram em muito para o relativo insucesso da missão, se bem que a
Academia de Ciências de Leningrado conserve bom número de papéis e originais a ela
referentes, inclusive 67 desenhos e aquarelas de Rugendas.

A caminho da Alemanha Rugendas deteve-se em Paris, a fim de preparar os originais do livro
que tinha a intenção de fazer editar, dando contas de sua viagem. Foi incentivado, nessa
iniciativa, por Humboldt e pelo célebre pintor francês François Gérard. Intitulou o livro
Malerische Reisein Brasilien - ou, na sua versão francesa, Voyage pittoresque dans le Brésil -,
e o entregou aos editores. Cansado, porém, de aguardar o lançamento (que só se daria em
1834, por Engelmann & Cie.), decidiu mais uma vez embarcar para a América, o que fez a
bordo do L'Antigone, a 30 de abril de 1831, com destino ao México.

Nesse país ficaria até 1834, tendo produzido nos três anos de sua estada cerca de 1.700
obras, entre desenhos, aquarelas e óleos. Envolvendo-se em 1833 num movimento
revolucionário, foi preso e em seguida expulso do México, dirigindo-se então ao Chile, onde
permaneceria os próximos 12 anos com curtas viagens à Argentina, em 1837 e 1838, ao Peru
e à Bolívia, entre 1842 e 1844. Datam da fase chilena cenas da vida campesina e indígena que
tranqüilamente se situam entre o que de melhor produziu, tudo vazado num desenho agilíssimo
e num colorido de extrema sensibilidade, dentro de uma atmosfera inconfundivelmente
romântica. Em 1845 o artista, sempre em busca de novos cenários, embarca em Valparaíso
com destino a Buenos Aires e Montevidéu, efetuando em ambas essas capitais animadas
cenas militares, ao lado das costumeiras cenas de gênero. Encontrando porém a situação no
Rio de la Plata muito conturbada, em agosto de 1845 já se encontrava no Rio de Janeiro, após
uma ausência de exatos 20 anos. Reatando antigas amizades brasileiras, tornou-se habitué do
Paço Imperial, tendo realizado os retratos de Dom Pedro II, da Imperatriz Teresa Cristina e do
Príncipe Dom Afonso, atualmente no Palácio do Grão-Pará em Petrópolis. Também concorreu
às Exposições Gerais de Belas Artes de 1845 e 1846, e nesse ano recebeu as insígnias de
Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro.
Em fins de 1846 ou inícios de 1847 partia para a Europa, deixando definitivamente o Novo
Mundo. Embora não tivesse mais de 45 anos, achava-se cansado pelas constantes viagens, e
ao regressar à pátria desejou obter uma renda capaz de lhe assegurar tranqüilidade pelo resto
da vida. Cedeu então ao Rei Ludwig I da Baviera sua coleção de desenhos e aquarelas
americanos, num total de cerca de 3 mil peças, em troca de uma pensão anual de 1.200 florins.
Seus derradeiros anos não foram calmos, porém: acossado permanentemente por credores,
desfrutando de saúde precária, tinha ainda assim de produzir, tanto mais que suas aventuras
amorosas o forçavam a efetuar pesados gastos financeiros. A 29 de maio de 1858, faleceu de
repente aos 56 anos, saudoso, sempre, do Novo Mundo e do Brasil. A 22 de outubro de 1966,
na cidade de Weilheim, não longe de Stuttgart, onde se encontra o jazigo do pintor, foi
inaugurada por iniciativa do então cônsul brasileiro em Munique, Mário Calábria, uma placa
com os seguintes dizeres:

- À memória de Johann Moritz Rugendas, pintor das paisagens e da gente brasileira, em
agradecimento - a Nação Brasileira.

Rugendas é, sem qualquer dúvida, o mais artista dentre todos os pintores e desenhistas-
viajantes que estiveram no Brasil em começos do Oitocentos. Sua execução econômica, a
emoção que soube imprimir a seus desenhos, aquarelas e óleos, o suave colorido de suas
paisagens e cenas de gênero, tudo contribui para fazer, de Rugendas, um pintor de altíssimo
nível, aliando-se, às suas qualidades propriamente artísticas, a circunstância de ter com igual
sensibilidade e delicadeza retratado a terra e a gente de países como o Brasil e o México, o
Peru e a Bolívia, Argentina, Uruguai e sobretudo Chile, tornando-se, como é por vezes
chamado, o Pintor das Américas.

                                  Cena rural, desenho, 1835;
                              0,25 X 0,31, in: Voyage Pittoresque.

                               Numa fazenda, litografia, s/ data;
                            0,23 X 0,33, Palácio Bandeirantes, SP.

                       Vista da Igreja de São Bento, litogravura, s/ data;
                            0,26 X 0,21, Palácio Bandeirantes, SP.

                      Dois escravos sentados, detalhe, desenho, s/ data;
                             0,26 X 0,19, Biblioteca Nacional, RJ.

                        Dois escravos em pé, detalhe, desenho, s/ data;
                              0,25 X 0,21, Biblioteca Nacional, RJ.

Rugendas, johann moritz

  • 1.
    RUGENDAS, Johann Moritz(1802-58). Nascido em Augsburg (Baviera) e falecido em Weilheim (Württemberg). Pertencendo a uma família de pintores, gravadores e editores oriunda provavelmente da França mas que se fixara nos primeiros anos do Séc. XVII em Augsburg, era bisneto do grande pintor de batalhas Georg Philipp Rugendas (1666-1742) e filho de Johann Lorenz Rugendas II (1775-1826), que chegou a dirigir a Academia de Belas Artes de Augsburg. Foi com o pai e com um dos tios que se iniciou no desenho e na gravura, matriculando-se em 1817 na Academia de Munique. Em 1818 estava em Viena quando do retorno à Áustria do pintor e desenhista Thomas Ender, que acabara de acompanhar a futura Imperatriz Leopoldina ao Brasil, tendo aproveitado sua permanência naquele país longínquo para realizar uma série de obras valiosas. Fascinado com uma visita ao "Imperial e Real Museu do Brasil", então inaugurado em Viena, e onde estavam em exposição não somente as pinturas e os desenhos de Ender, como ainda material coletado nos Trópicos pelos cientistas Natterer, Mikan e Pohl, os quais tinham igualmente integrado a comitiva da princesa, o jovem Rugendas decidiu embarcar também para o Brasil tão logo o permitissem as circunstâncias. A oportunidade surgiu poucos anos depois, quando o Barão Georg Heinrich Langsdorff, alemão da Suábia mas cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, acenou-lhe com um contrato para participar, como desenhista documentarista, da expedição científica que estava organizando por ordem do Czar, e que tinha por meta atravessar o interior do Brasil, desde o Rio de Janeiro até o Amazonas. Em fins de 1821, com apenas 19 anos, Rugendas partia para o Rio de Janeiro, encontrando ao desembarcar um Brasil às vésperas de acontecimentos que culminariam poucos meses depois com a Independência. A atmosfera política carregada protelou o início da expedição, uma vez que como diplomata Langsdorff tinha de acompanhar o desenrolar dos fatos. Rugendas foi-se deixando ficar no Rio, visitando também suas cercanias e tomando anotações gráficas de tudo quanto lhe era facultado ver. E não foi senão em 1824 que, a convite do Barão, acompanhou-o numa excursão a Minas Gerais, visitando, então, Barbacena, São João del Rey, Vila Rica, Sabará, Caeté e Diamantina, para retornar em seguida à Corte, onde se separou definitivamente de Langsdorff, seguindo a 21 de maio de 1825 para a Europa, com escalas na Bahia e em Pernambuco. Nesse mesmo ano de 1825 teria início afinal a expedição de Langsdorff, com o jovem desenhista Adrien-Aimé Taunay no lugar de Rugendas. Certos lances dramáticos da viagem, como a morte trágica de Adrien e a demência que se apossou de Langsdorff, contribuíram em muito para o relativo insucesso da missão, se bem que a Academia de Ciências de Leningrado conserve bom número de papéis e originais a ela referentes, inclusive 67 desenhos e aquarelas de Rugendas. A caminho da Alemanha Rugendas deteve-se em Paris, a fim de preparar os originais do livro que tinha a intenção de fazer editar, dando contas de sua viagem. Foi incentivado, nessa iniciativa, por Humboldt e pelo célebre pintor francês François Gérard. Intitulou o livro Malerische Reisein Brasilien - ou, na sua versão francesa, Voyage pittoresque dans le Brésil -, e o entregou aos editores. Cansado, porém, de aguardar o lançamento (que só se daria em 1834, por Engelmann & Cie.), decidiu mais uma vez embarcar para a América, o que fez a bordo do L'Antigone, a 30 de abril de 1831, com destino ao México. Nesse país ficaria até 1834, tendo produzido nos três anos de sua estada cerca de 1.700 obras, entre desenhos, aquarelas e óleos. Envolvendo-se em 1833 num movimento revolucionário, foi preso e em seguida expulso do México, dirigindo-se então ao Chile, onde permaneceria os próximos 12 anos com curtas viagens à Argentina, em 1837 e 1838, ao Peru e à Bolívia, entre 1842 e 1844. Datam da fase chilena cenas da vida campesina e indígena que tranqüilamente se situam entre o que de melhor produziu, tudo vazado num desenho agilíssimo e num colorido de extrema sensibilidade, dentro de uma atmosfera inconfundivelmente romântica. Em 1845 o artista, sempre em busca de novos cenários, embarca em Valparaíso com destino a Buenos Aires e Montevidéu, efetuando em ambas essas capitais animadas cenas militares, ao lado das costumeiras cenas de gênero. Encontrando porém a situação no Rio de la Plata muito conturbada, em agosto de 1845 já se encontrava no Rio de Janeiro, após uma ausência de exatos 20 anos. Reatando antigas amizades brasileiras, tornou-se habitué do Paço Imperial, tendo realizado os retratos de Dom Pedro II, da Imperatriz Teresa Cristina e do Príncipe Dom Afonso, atualmente no Palácio do Grão-Pará em Petrópolis. Também concorreu às Exposições Gerais de Belas Artes de 1845 e 1846, e nesse ano recebeu as insígnias de Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro.
  • 2.
    Em fins de1846 ou inícios de 1847 partia para a Europa, deixando definitivamente o Novo Mundo. Embora não tivesse mais de 45 anos, achava-se cansado pelas constantes viagens, e ao regressar à pátria desejou obter uma renda capaz de lhe assegurar tranqüilidade pelo resto da vida. Cedeu então ao Rei Ludwig I da Baviera sua coleção de desenhos e aquarelas americanos, num total de cerca de 3 mil peças, em troca de uma pensão anual de 1.200 florins. Seus derradeiros anos não foram calmos, porém: acossado permanentemente por credores, desfrutando de saúde precária, tinha ainda assim de produzir, tanto mais que suas aventuras amorosas o forçavam a efetuar pesados gastos financeiros. A 29 de maio de 1858, faleceu de repente aos 56 anos, saudoso, sempre, do Novo Mundo e do Brasil. A 22 de outubro de 1966, na cidade de Weilheim, não longe de Stuttgart, onde se encontra o jazigo do pintor, foi inaugurada por iniciativa do então cônsul brasileiro em Munique, Mário Calábria, uma placa com os seguintes dizeres: - À memória de Johann Moritz Rugendas, pintor das paisagens e da gente brasileira, em agradecimento - a Nação Brasileira. Rugendas é, sem qualquer dúvida, o mais artista dentre todos os pintores e desenhistas- viajantes que estiveram no Brasil em começos do Oitocentos. Sua execução econômica, a emoção que soube imprimir a seus desenhos, aquarelas e óleos, o suave colorido de suas paisagens e cenas de gênero, tudo contribui para fazer, de Rugendas, um pintor de altíssimo nível, aliando-se, às suas qualidades propriamente artísticas, a circunstância de ter com igual sensibilidade e delicadeza retratado a terra e a gente de países como o Brasil e o México, o Peru e a Bolívia, Argentina, Uruguai e sobretudo Chile, tornando-se, como é por vezes chamado, o Pintor das Américas. Cena rural, desenho, 1835; 0,25 X 0,31, in: Voyage Pittoresque. Numa fazenda, litografia, s/ data; 0,23 X 0,33, Palácio Bandeirantes, SP. Vista da Igreja de São Bento, litogravura, s/ data; 0,26 X 0,21, Palácio Bandeirantes, SP. Dois escravos sentados, detalhe, desenho, s/ data; 0,26 X 0,19, Biblioteca Nacional, RJ. Dois escravos em pé, detalhe, desenho, s/ data; 0,25 X 0,21, Biblioteca Nacional, RJ.