PEREIRA DA SILVA, Oscar (1867-1939). Nascido em São Fidélis (RJ) e falecido em São
Paulo. Cursou a Academia Imperial de Belas Artes de 1880 a 1887, tendo por mestres a, entre
outros, Chaves Pinheiro, Vítor Meireles, José Maria de Medeiros e Zeferino da Costa, de quem
aliás foi ajudante nas decorações da Igreja da Candelária, ao lado de Castagneto e outros
jovens colegas. Parece ter sido aluno displicente, tanto que Zeferino da Costa dele se queixa,
no relatório de ensino dos alunos de pintura histórica:

- Outro, o Sr. Oscar Pereira da Silva (também aluno antigo) só compareceu na primeira
semana de trabalho, fazendo apenas um estudo!

Mesmo assim conquistou, durante o curso, importantes premiações, e inclusive, no exato ano
da queixa de Zeferino, o prêmio de viagem à Europa, último concedido no Império. Partindo
pouco depois para a França, tornou-se aluno, em Paris, de Leon Gêrome e de Leon Bonnat -
que iria marcá-lo, a ponto de Infância de Giotto, do brasileiro, repetir uma das composições
mais conhecidas do francês. Durante a permanência em Paris Oscar fez cópias (inclusive do
Naufrágio do "Medusa", de Géricault), e pintou alguns de seus melhores óleos, como Sansão
e Dalila (1893), a já citada Infância de Giotto (1895), Escrava Romana (1895) e Criação da
Vovó (1895), que lhe valeria a grande medalha de prata na Exposição de Saint Louis, em
1904. Em 1896 achava-se novamente no Rio, pouco depois expondo 33 obras feitas na
Europa, numa dependência da antiga Academia. Essa exposição foi mal recebida, e a Revista
Brasileira assim se externou sobre o pintor:

- A obra do Sr. Pereira da Silva não revela por ora nenhuma qualidade notável, sendo
principalmente desigual e incaracterística.

Fixando-se no mesmo ano de 1896 em São Paulo, 0scar passou a se dedicar ao magistério,
primeiro no Liceu de Artes e Ofícios e depois no Ginásio Estadual. E foi com um colega do
Ginásio, José Cândido de Sousa, que fundou o Núcleo Artístico, do qual se originaria a atual
Escola de Belas Artes de São Paulo. Em 1898 já expunha em São Paulo, primeiro no Banco
União de São Paulo, e em dezembro no Banco Construtor. Daí até o fim da vida desincumbiu-
se em São Paulo de importantes comissões, como a decoração do Teatro Municipal e diversos
painéis religiosos para as igrejas de Nossa Senhora da Conceição e de Santa Cecília. Foi
também em São Paulo que se lançou à tarefa de recriar, em grandes composições, os
principais episódios da História Nacional, como Desembarque de Cabral em Porto Seguro, A
Fundação de São Paulo, Sessão das Cortes de Lisboa em 9 de Maio de 1822, etc.

O governo do Estado, cioso de sua contribuição à vida cultural de São Paulo, recompensou-o
em vários ensejos, inclusive propiciando-lhe algumas viagens à Europa. Numa delas, em 1925,
encontrou-o numa obscura academia de Montparnasse o então muito jovem pintor Tulio
Mugnaini, a quem singelamente explicou o motivo de sua presença naquele lugar:

- Vim estudar um pouco.

Oscar, que na ocasião se abeirava dos 60 anos, sentia-se ainda capaz de aprender, e assim
não perdia a ocasião de praticar um pouco de desenho, dando aos mais novos uma lição de
humildade, ele que em 1905 ganhara a medalha de ouro na I Exposição de Animais do Estado
de São Paulo e em 1908 o grande prêmio da Exposição Comemorativa da Abertura dos Portos.

0scar Pereira da Silva foi de certo modo o último representante de uma geração diretamente
nutrida nos ensinamentos da Academia Imperial, através dos sucessores de Debret e Taunay.
Cultivou, em data relativamente tardia, assuntos bíblicos ou históricos já então desleixados pela
maioria dos nossos pintores, e o fez com perfeição de desenho, minúcia arqueológica e aquela
mesma frieza que se observa, por exemplo, na obra de um de seus principais mentores,
Zeferino da Costa. Por seu temperamento-, oscilaria a vida inteira entre o romantismo e o
naturalismo. Se é fato que sua pintura, como um todo, carece de maior emoção ou simpatia
humana (Gonzaga Duque já em 1907 se referia à sua frieza, ressalvando-lhe sem embargo a
correção do desenho), não é menos verdadeiro que em certas obras o artista se impôs
nitidamente ao artesão. Isso ocorre quer em grandes quadros, como a Infância de Giotto ou a
Criação da Vovó, como principalmente em obras menores, não tão severamente policiadas
pela estética oficial. Suas pinturas de conotação histórica como Salomé, Lídia, mesmo a
Escrava Romana, parecem ser as que envelheceram mais rapidamente; as reconstituições da
História do Brasil impressionam pela composição, pelo cuidado desenho e pelo colorido, às
vezes bastante feliz, mas não têm o dom de comover; quanto às incontáveis Cabeças de
Ancião, às poucas paisagens, às cenas de gênero do tipo Raccomodeur de Faiences, às
naturezas-mortas e às alegorias como O Sonho de Beethoven, sem falar nos retratos, nas
cenas de ateliê e nos interiores à Luiz XV, formam uma galeria imensa mas de valor desigual.
Paradoxalmente, em certas aquarelas realizadas já quase ao fim da vida o velho artista como
que se revitaliza, dando então provas de uma frescura de execução e de uma leveza de toque
que em vão procuraremos nas grandes pinturas que lhe deram fama.

                   D. Pedro I a bordo da fragata União, óleo s/ tela, s/ data;
                            0,49 X 0,44, Museu Paulista da USP.

                             Hora da música, óleo s/ tela, 1901;
                      0,65 X 0,50, Pinacoteca do Estado de São Paulo

            Desembarque de Cabral em Porto Seguro em 1500, óleo s/ tela, 1922;
                         3,33 X 1,90, Museu Paulista da USP.

                      Aclamação de Amador Bueno, óleo s/ tela, 1930;
                          1,71 X 2,27, Palácio Bandeirantes, SP.

Pereira da silva, oscar

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    PEREIRA DA SILVA,Oscar (1867-1939). Nascido em São Fidélis (RJ) e falecido em São Paulo. Cursou a Academia Imperial de Belas Artes de 1880 a 1887, tendo por mestres a, entre outros, Chaves Pinheiro, Vítor Meireles, José Maria de Medeiros e Zeferino da Costa, de quem aliás foi ajudante nas decorações da Igreja da Candelária, ao lado de Castagneto e outros jovens colegas. Parece ter sido aluno displicente, tanto que Zeferino da Costa dele se queixa, no relatório de ensino dos alunos de pintura histórica: - Outro, o Sr. Oscar Pereira da Silva (também aluno antigo) só compareceu na primeira semana de trabalho, fazendo apenas um estudo! Mesmo assim conquistou, durante o curso, importantes premiações, e inclusive, no exato ano da queixa de Zeferino, o prêmio de viagem à Europa, último concedido no Império. Partindo pouco depois para a França, tornou-se aluno, em Paris, de Leon Gêrome e de Leon Bonnat - que iria marcá-lo, a ponto de Infância de Giotto, do brasileiro, repetir uma das composições mais conhecidas do francês. Durante a permanência em Paris Oscar fez cópias (inclusive do Naufrágio do "Medusa", de Géricault), e pintou alguns de seus melhores óleos, como Sansão e Dalila (1893), a já citada Infância de Giotto (1895), Escrava Romana (1895) e Criação da Vovó (1895), que lhe valeria a grande medalha de prata na Exposição de Saint Louis, em 1904. Em 1896 achava-se novamente no Rio, pouco depois expondo 33 obras feitas na Europa, numa dependência da antiga Academia. Essa exposição foi mal recebida, e a Revista Brasileira assim se externou sobre o pintor: - A obra do Sr. Pereira da Silva não revela por ora nenhuma qualidade notável, sendo principalmente desigual e incaracterística. Fixando-se no mesmo ano de 1896 em São Paulo, 0scar passou a se dedicar ao magistério, primeiro no Liceu de Artes e Ofícios e depois no Ginásio Estadual. E foi com um colega do Ginásio, José Cândido de Sousa, que fundou o Núcleo Artístico, do qual se originaria a atual Escola de Belas Artes de São Paulo. Em 1898 já expunha em São Paulo, primeiro no Banco União de São Paulo, e em dezembro no Banco Construtor. Daí até o fim da vida desincumbiu- se em São Paulo de importantes comissões, como a decoração do Teatro Municipal e diversos painéis religiosos para as igrejas de Nossa Senhora da Conceição e de Santa Cecília. Foi também em São Paulo que se lançou à tarefa de recriar, em grandes composições, os principais episódios da História Nacional, como Desembarque de Cabral em Porto Seguro, A Fundação de São Paulo, Sessão das Cortes de Lisboa em 9 de Maio de 1822, etc. O governo do Estado, cioso de sua contribuição à vida cultural de São Paulo, recompensou-o em vários ensejos, inclusive propiciando-lhe algumas viagens à Europa. Numa delas, em 1925, encontrou-o numa obscura academia de Montparnasse o então muito jovem pintor Tulio Mugnaini, a quem singelamente explicou o motivo de sua presença naquele lugar: - Vim estudar um pouco. Oscar, que na ocasião se abeirava dos 60 anos, sentia-se ainda capaz de aprender, e assim não perdia a ocasião de praticar um pouco de desenho, dando aos mais novos uma lição de humildade, ele que em 1905 ganhara a medalha de ouro na I Exposição de Animais do Estado de São Paulo e em 1908 o grande prêmio da Exposição Comemorativa da Abertura dos Portos. 0scar Pereira da Silva foi de certo modo o último representante de uma geração diretamente nutrida nos ensinamentos da Academia Imperial, através dos sucessores de Debret e Taunay. Cultivou, em data relativamente tardia, assuntos bíblicos ou históricos já então desleixados pela maioria dos nossos pintores, e o fez com perfeição de desenho, minúcia arqueológica e aquela mesma frieza que se observa, por exemplo, na obra de um de seus principais mentores, Zeferino da Costa. Por seu temperamento-, oscilaria a vida inteira entre o romantismo e o naturalismo. Se é fato que sua pintura, como um todo, carece de maior emoção ou simpatia humana (Gonzaga Duque já em 1907 se referia à sua frieza, ressalvando-lhe sem embargo a correção do desenho), não é menos verdadeiro que em certas obras o artista se impôs nitidamente ao artesão. Isso ocorre quer em grandes quadros, como a Infância de Giotto ou a Criação da Vovó, como principalmente em obras menores, não tão severamente policiadas
  • 2.
    pela estética oficial.Suas pinturas de conotação histórica como Salomé, Lídia, mesmo a Escrava Romana, parecem ser as que envelheceram mais rapidamente; as reconstituições da História do Brasil impressionam pela composição, pelo cuidado desenho e pelo colorido, às vezes bastante feliz, mas não têm o dom de comover; quanto às incontáveis Cabeças de Ancião, às poucas paisagens, às cenas de gênero do tipo Raccomodeur de Faiences, às naturezas-mortas e às alegorias como O Sonho de Beethoven, sem falar nos retratos, nas cenas de ateliê e nos interiores à Luiz XV, formam uma galeria imensa mas de valor desigual. Paradoxalmente, em certas aquarelas realizadas já quase ao fim da vida o velho artista como que se revitaliza, dando então provas de uma frescura de execução e de uma leveza de toque que em vão procuraremos nas grandes pinturas que lhe deram fama. D. Pedro I a bordo da fragata União, óleo s/ tela, s/ data; 0,49 X 0,44, Museu Paulista da USP. Hora da música, óleo s/ tela, 1901; 0,65 X 0,50, Pinacoteca do Estado de São Paulo Desembarque de Cabral em Porto Seguro em 1500, óleo s/ tela, 1922; 3,33 X 1,90, Museu Paulista da USP. Aclamação de Amador Bueno, óleo s/ tela, 1930; 1,71 X 2,27, Palácio Bandeirantes, SP.