teoria da literatura
Elementos da narrativa
        Manoel Neves
ENREDO
                                 elementos da narrativa
Trinta e cinco anos fazendo roupas de talhe masculino, eah, trezentos e cinquenta ternos talvez,
tesourei um sem-fim de casimiras linhos que tais, vida toda quase, debruçado sobre aquela
Singer velha de guerra, infarto maldito me trouxe de repente para esta UTI, destino fez
chanfreta comigo, gostaria tanto de fazer meu próprio jaquetão de oito botões pra chegar
vistoso que só vendo diante do criador do Univer... [FERREIRA, Evandro Affonso. Grogotó]
                                          peripécias
                           eventos que mantêm o leitor interessado

                             narrativa tradicional
                    centrada na peripécia; estruturada em início, meio e fim
                              Iracema                    Lucíola

                               narrativa moderna
                centrada na análise psicológica e na revelação da interioridade
                          A hora da estrela            São Bernardo
FOCO NARRATIVO
                                elementos da narrativa

                         narrador onisciente neutro
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não
tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da
feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um
cabrito.

                             visão por trás: narrador observador
              o locutor apresenta os eventos distanciadamente, sem os analisar
FOCO NARRATIVO
                                elementos da narrativa
                         narrador onisciente intruso
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria
responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a
obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas
dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde. [RAMOS, Graciliano. Vidas
secas]
                             visão por trás: narrador observador
        conta-se a história e comenta os eventos apresentados [tinha o coração grosso]
FOCO NARRATIVO
                                 elementos da narrativa
                             narrador protagonista
Desde sempre fui assim, moleirão; vida toda você fez gato-sapato do pai-gonçalo aqui; lua-de-
mel, ei, maljeitoso, vê se consegue tirar uma vez que seja minha calcinha sem arrebentar o
elástico; menino nasceu, não deixa essa fralda cheia de merda aí não, palonço, acabei de trocar
a fronha; aniversário casamentos natais coquetéis, chega, bebeu demais, duas doses são
suficientes, troca de copo, guaraná cheinho de gelo, pronto, excelente disfarce; trinta anos,
quase, comendo da banda podre, humilhações reprimendas públicas, o diabo; bom, você com
certeza está tentando inutilmente gritar a plenos pulmões, banazola de merda, mijou no meu
túmulo, não sacolejou direito o pinto, pronto, lambuzou toda a calça. [FERREIRA, Evandro
Affonso. Lanfranhudo]

                        visão com: o narrador é a personagem principal
                  narrativa construída a partir de uma visão bastante limitada

                              narrador testemunha
              visão com: o narrador de primeira pessoa é personagem secundária
FOCO NARRATIVO
                                  elementos da narrativa
                                       visão de fora
CONFISSÃO, Luiz Vilela
– Sim. E quê mais?... Foi essa a primeira vez ou já houve outras antes dessa?
– Mais ou menos... – É que...
– Pode dizer, meu filho, não tenha receio.
– Uma vez...
– Essa mesma moça?
– É... Ela estava de camisola; uma camisola meio transparente...
– De tal modo que permitisse enxergar a nudez?
– É...
– A nudez completa? [...]
– Pois vamos pedir perdão a Deus e a Virgem Santíssima pelos pecados cometidos e implorar a
graça de um arrependimento sincero e de nunca mais tornarmos a ofender o coração do seu
Divino Filho que padeceu e morreu na cruz por nossos pecados e para a nossa salvação...
  a história se conta sem a presença de um narrador, o que gera uma ideia de impessoalidade
FOCO NARRATIVO
                                 elementos da narrativa
                              narrativas polifônicas
SINHA VITÓRIA: Pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam
naquilo, tinham-se acostumado, mas seria mais agradável dormirem numa cama de lastro de
couro, como outras pessoas.
MENINO MAIS NOVO: O menino deitou-se na esteira, enrolou-se e fechou os olhos. Fabiano era
terrível. No chão, despidos os couros reduzia-se bastante, mas no lombo da égua alazã era
terrível.
MENINO MAIS VELHO: Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa
ruim. E resolvera discutir com sinhá Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem,
Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se houvesse feito menção de qualquer
autoridade invisível e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um
cocorote, e isto lhe parecia absurdo. [RAMOS, Graciliano. Vidas secas]
                             várias personagens contam a história
PERSONAGENS
                            elementos da narrativa
   planas       mantêm as mesmas atitudes e características psicológicas ao longo da obra

  redondas              modificam-se ao longo da narrativa; surpreendem o leitor

protagonistas      são as mais relevantes na obra; por isso, desempenham papel central

antagonistas    proporcionam conflito no enredo [pessoa, sistema político, preconceito...]

secundárias        não apresentam relevância para o enredo; ficam em segundo plano

 caricaturais   cômicas, satíricas; uma característica é trabalhada até chegar a deformação

    tipos                 estereótipos, padrões, arquétipos; caráter metonímico
TEMPO
                     elementos da narrativa
                           cronológico
         linear; evolutivo; segue à lógica de dias, meses e anos

   Bom crioulo                  Iracema                     Helena

                           psicológico
é o tempo da consciência do homem; análise das motivações existenciais

   Nove noites               Dom Casmurro                São Bernardo
TEMPO
                           elementos da narrativa
                                    mítico
início do tempo; tempo em que homens e deuses viviam em harmonia; illo tempore

                         lendas                     mitos

                                     cíclico
início-fim da narrativa são idênticos; sugere que a realidade apresentada é imutável

           Maíra                    Vidas secas                São Bernardo

                                   histórico
  veiculado a acontecimentos verídicos, episódios vivenciados pela humanidade

         Nove noites              Boca do inferno           Incidente em Antares
ESPAÇO
                  elementos da narrativa
                            físico
         lugar onde transcorrem os eventos da narrativa

                        psicológico
revelação dos conflitos existenciais vivenciados pelas personagens

                            social
        lugares sociais por onde transitam as personagens

Elementos da narrativa

  • 1.
    teoria da literatura Elementosda narrativa Manoel Neves
  • 2.
    ENREDO elementos da narrativa Trinta e cinco anos fazendo roupas de talhe masculino, eah, trezentos e cinquenta ternos talvez, tesourei um sem-fim de casimiras linhos que tais, vida toda quase, debruçado sobre aquela Singer velha de guerra, infarto maldito me trouxe de repente para esta UTI, destino fez chanfreta comigo, gostaria tanto de fazer meu próprio jaquetão de oito botões pra chegar vistoso que só vendo diante do criador do Univer... [FERREIRA, Evandro Affonso. Grogotó] peripécias eventos que mantêm o leitor interessado narrativa tradicional centrada na peripécia; estruturada em início, meio e fim Iracema Lucíola narrativa moderna centrada na análise psicológica e na revelação da interioridade A hora da estrela São Bernardo
  • 3.
    FOCO NARRATIVO elementos da narrativa narrador onisciente neutro Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito. visão por trás: narrador observador o locutor apresenta os eventos distanciadamente, sem os analisar
  • 4.
    FOCO NARRATIVO elementos da narrativa narrador onisciente intruso O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde. [RAMOS, Graciliano. Vidas secas] visão por trás: narrador observador conta-se a história e comenta os eventos apresentados [tinha o coração grosso]
  • 5.
    FOCO NARRATIVO elementos da narrativa narrador protagonista Desde sempre fui assim, moleirão; vida toda você fez gato-sapato do pai-gonçalo aqui; lua-de- mel, ei, maljeitoso, vê se consegue tirar uma vez que seja minha calcinha sem arrebentar o elástico; menino nasceu, não deixa essa fralda cheia de merda aí não, palonço, acabei de trocar a fronha; aniversário casamentos natais coquetéis, chega, bebeu demais, duas doses são suficientes, troca de copo, guaraná cheinho de gelo, pronto, excelente disfarce; trinta anos, quase, comendo da banda podre, humilhações reprimendas públicas, o diabo; bom, você com certeza está tentando inutilmente gritar a plenos pulmões, banazola de merda, mijou no meu túmulo, não sacolejou direito o pinto, pronto, lambuzou toda a calça. [FERREIRA, Evandro Affonso. Lanfranhudo] visão com: o narrador é a personagem principal narrativa construída a partir de uma visão bastante limitada narrador testemunha visão com: o narrador de primeira pessoa é personagem secundária
  • 6.
    FOCO NARRATIVO elementos da narrativa visão de fora CONFISSÃO, Luiz Vilela – Sim. E quê mais?... Foi essa a primeira vez ou já houve outras antes dessa? – Mais ou menos... – É que... – Pode dizer, meu filho, não tenha receio. – Uma vez... – Essa mesma moça? – É... Ela estava de camisola; uma camisola meio transparente... – De tal modo que permitisse enxergar a nudez? – É... – A nudez completa? [...] – Pois vamos pedir perdão a Deus e a Virgem Santíssima pelos pecados cometidos e implorar a graça de um arrependimento sincero e de nunca mais tornarmos a ofender o coração do seu Divino Filho que padeceu e morreu na cruz por nossos pecados e para a nossa salvação... a história se conta sem a presença de um narrador, o que gera uma ideia de impessoalidade
  • 7.
    FOCO NARRATIVO elementos da narrativa narrativas polifônicas SINHA VITÓRIA: Pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam naquilo, tinham-se acostumado, mas seria mais agradável dormirem numa cama de lastro de couro, como outras pessoas. MENINO MAIS NOVO: O menino deitou-se na esteira, enrolou-se e fechou os olhos. Fabiano era terrível. No chão, despidos os couros reduzia-se bastante, mas no lombo da égua alazã era terrível. MENINO MAIS VELHO: Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com sinhá Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem, Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo. [RAMOS, Graciliano. Vidas secas] várias personagens contam a história
  • 8.
    PERSONAGENS elementos da narrativa planas mantêm as mesmas atitudes e características psicológicas ao longo da obra redondas modificam-se ao longo da narrativa; surpreendem o leitor protagonistas são as mais relevantes na obra; por isso, desempenham papel central antagonistas proporcionam conflito no enredo [pessoa, sistema político, preconceito...] secundárias não apresentam relevância para o enredo; ficam em segundo plano caricaturais cômicas, satíricas; uma característica é trabalhada até chegar a deformação tipos estereótipos, padrões, arquétipos; caráter metonímico
  • 9.
    TEMPO elementos da narrativa cronológico linear; evolutivo; segue à lógica de dias, meses e anos Bom crioulo Iracema Helena psicológico é o tempo da consciência do homem; análise das motivações existenciais Nove noites Dom Casmurro São Bernardo
  • 10.
    TEMPO elementos da narrativa mítico início do tempo; tempo em que homens e deuses viviam em harmonia; illo tempore lendas mitos cíclico início-fim da narrativa são idênticos; sugere que a realidade apresentada é imutável Maíra Vidas secas São Bernardo histórico veiculado a acontecimentos verídicos, episódios vivenciados pela humanidade Nove noites Boca do inferno Incidente em Antares
  • 11.
    ESPAÇO elementos da narrativa físico lugar onde transcorrem os eventos da narrativa psicológico revelação dos conflitos existenciais vivenciados pelas personagens social lugares sociais por onde transitam as personagens