Entendendo, aprendendo
e desenvolvendo,
Sistema de Produção
Lean Manufacturing
C0025.indd iC0025.indd i 30/08/13 3:13 PM30/08/13 3:13 PM
Sumário
Agradecimentos vii
Introdução 1
1. Entendendo Lean Manufacturing 9
O pensamento Lean 1
0Valor 11
Cadeia de valor 1
2Fluxo da cadeia de valor 1
3Produção puxada 1
5Busca da perfeição 1
5Os ciclos do consumo e da produção 1
7Os sete desperdícios fundamentais 2
0Juran e o desperdício 2
3JIPM e o desperdício 2
4O Sistema Toyota de Produção
como referência inicial 2
5Os 4P’s da Toyota 2
8O Relatório A3 da Toyota 3
1O Lean Manufacturing 3
4O Lean Seis Sigma 3
6O Lean Management 3
92. Aprendendo o Suporte
para o Lean Manufacturing 4
1Gestão e medição do desempenho
dos processos 4
2Métodos para alinhamento e medição
do desempenho 4
8
C0045.indd ixC0045.indd ix 02/09/13 7:59 AM02/09/13 7:59 AM
Balanced Scorecard 49
Performance Pyramid 51
Performance Prism 53
Ferramentas e técnicas para análise
e melhoria dos processos 5
4Padronização dos processos 5
6Os ciclos PDCA e SDCA 5
8Nivelamento dos processos 6
0
3. Desenvolvendo Lean Manufacturing 6
5A filosofia just in time 65
Métodos operacionais
para o just in time 67
Foco nas estruturas 6
8Programa 5 S 6
9Células de produção 7
9Foco na mão de obra 9
1Poka-Yoke 91
Jidoca 97
Foco nos equipamentos 10
4Troca rápida de ferramenta 10
5Manutenção produtiva total 11
7Foco nos movimentos 12
7Sistema Kanban 12
8Milk Run 137
Considerações finais 14
6
Referências 147
C0045.indd xC0045.indd x 02/09/13 7:59 AM02/09/13 7:59 AM
9
Entendendo Lean
Manufacturing
Os valores sociais mudaram. Agora, não podemos vender
nossos produtos a não ser que nos coloquemos dentro
dos corações de nossos consumidores, cada um dos
quais tem conceitos e gostos diferentes. Hoje, o mundo
industrial foi forçado a dominar de verdade o sistema de
produção múltiplo, em pequenas quantidades.
Taiichi Ohno
Criador do just in time , base para o Lean Manufacturing
Este capítulo apresentará o pensamento Lean quanto a seus
conceitos, princípios e evolução. O Sistema Toyota de Produção será
tratado como um referencial com base em suas contribuições para
o Lean Manufacturing. Aqui serão tratadas também as posições de
Taiichi Ohno e Shigeo Shingo quanto às ações para a busca de um
novo sistema de produção e à análise dos sistemas produtivos com
base nos ciclos de produção e consumo.
Com o objetivo de proporcionar um melhor entendimento ao
leitor, este livro deverá utilizar um modelo operacional criado pelo
autor para sistematizar e apresentar os sistemas, os métodos e os
programas que contribuem para a filosofia just in time (JIT).
Assim,este capítulo deverá tratar do primeiro nível do modelo proposto
(Figura 1.1): do cliente com seu entendimento de valor e com suas
expectativas e desejos; da identificação pela organização da voz do
cliente; dos princípios e operacionalização do pensamento Lean; da
identificação de mudas; e da busca de oportunidades de melhorias
organizacionais.
1
10 LEAN
MANUFACTURING
O pensamento
LeanNa década de 1980, pesquisadores do Massachusetts Institute
of Technology (MIT) vinculados ao International Motor Vehicle
Program (IMVP) realizaram um criterioso e profundo trabalho de
pesquisa nas organizações do setor automobilístico localizadas
nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e na Coreia do Sul. Essa
pesquisa foi publicada em 1990 por James Womack, Daniel Jones e
Daniel Roos no livro The Machine That Changed the
World.
1
A citada pesquisa constatou, principalmente nas indústrias au-
tomobilísticas asiáticas, boas práticas na gestão dos negócios, nas
relações com parceiros e na eficácia dos sistemas de manufatura,
e várias dessas práticas foram identificadas como as responsáveis
pelo êxito de algumas plantas asiáticas analisadas, principalmente
as japonesas.
A Toyota foi a organização que demonstrou possuir técnicas e
modelos de gestão e de produção mais eficazes, e a sistematização
1
JONES, Daniel T.; WOMACK, James P. A máquina que mudou o mundo. Rio
deJaneiro: Campus,
2004.
FIGURA 1.1 Ações iniciais para o Lean
Manufacturing.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
11
dessas práticas com foco integrado nos ciclos ciclo da produção
e do consumo, tendo o produto como elo, foi denominado Lean
Manufacturing, como mostra a Figura 1.2. O termo lean foi utilizado
inicialmente por John Krafcik, pesquisador do IMVP.
Já um roteiro para o entendimento do pensamento Lean foi
proposto por J. Womack e D. Jones no livro Lean Thinking. 2 Os
autores resumiram o pensamento Lean em cinco princípios: valor,
cadeia de valor, fluxo da cadeia de valor, produção puxada e busca
da perfeição (veja a Figura 1.3).
Na construção do conceito do pensamento Lean, e com obje-
tivo de criar condições para atender plenamente às necessidades
e expectativas do cliente final, dois outros aspectos se fizeram
imperiosos: a delimitação dos ciclos de consumo e da produção
e a busca de métodos para identificar e combater o desperdício.
Valo
r No Sistema Lean, valor é o princípio inicial e que norteia todos
os outros. Valor de um produto é o que atende plenamente a neces-
sidades, expectativas e desejos do cliente final. Valor é definido pelo
FIGURA 1.2 Os Ciclos da Produção e do
Consumo.
2
JONES, Daniel T.; WOMACK, James P. A mentalidade enxuta nas empresas.
Riode Janeiro: Campus,
2004.
12 LEAN
MANUFACTURING
cliente e deve ser criado pela organização. O cliente só está disposto
a pagar por aquilo que ele considera e entende por valor.
Por outro lado, aquilo que não agrega valor a um produto ou
processo, mas consome tempo, insumos ou qualquer outro recurso,
como mencionado anteriormente, é chamado de muda, que são
associadas a perdas ou desperdício. Além dessa, outras formas que
não agregam valores a um produto ou processo a partir do des-
nivelamento ou sobrecarga nos processos foram denominadas de
mur
a
3 e
muri
4 respectivamente.
Cadeia de
valorA cadeia de valor (Figura 1.4) é composta por todas as etapas
e ações necessárias ao atendimento pleno do valor do cliente por
meio da concepção do bem ou da realização do serviço, ou de uma
3
Mura perdas devido ao desnivelamento do fluxo produtivo.
4
Muri perdas devido a sobrecarga da linha de
produção.
FIGURA 1.3 Princípios do pensamento
Lean.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
13
composição dos dois. Assim, ela é formada por todas as organiza-
ções que participam do processo para o atendimento do cliente
final: fornecedores, organização focal, distribuidores, varejistas,
entre outros.
Por sua vez, cada um desses atores tem suas cadeias de valores
interna, em que cada unidade deve ser gerenciada com foco no
valor do cliente interno 5 imediato, que, por sua vez, está dimensio-
nado no valor do cliente externo, e assim segue até atingir o valor
do cliente final.
Fluxo da cadeia de
valorO fluxo da cadeia de valor (Figura 1.5) deve nortear e envolver
todos os atores do processo em um contínuo no qual cada etapa,
seja interna ou externa, sempre deve gerar valor para a seguinte.
FIGURA 1.4 A cadeia de
valor.
5
Cliente Interno é aquele que recebe os benefícios do produto e é membro da
organização que elabora o
produto.
14 LEAN
MANUFACTURING
Sendo assim, os conceitos e as práticas de cada unidade devem ser
planejadas com foco no todo, e não em peculiaridades ou métodos
isolados.
O objetivo do fluxo está associado a um planejamento integrado
do produto em todas as etapas do processo, procurando eliminar
barreiras entre organizações envolvidas nesse processo ou de suas
unidades, ou ainda, de atribuições funcionais ou operacionais nas
diversas unidades.
O fluxo deve ser sempre mapeado, ou seja, representado
graficamente, explicitando todas as etapas do processo quanto
às ações, aos materiais utilizados, às informações disponíveis
e ao pessoal envolvido. O mapeamento do fluxo permite uma
visualização completa de todo o processo, ajudando, de forma
simples e de baixo custo, a identificar desperdícios, práticas não
convergentes e junções entre etapas não alinhadas.
Assim, o mapeamento é uma ferramenta vital para identificar
o real estado atual do fluxo e projetar seu estado desejado com a
FIGURA 1.5 Fluxo da cadeia de
valor.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
15
eliminação de desperdícios, bem como para fornecer maior har-
monia entre todas as etapas.
A análise do todo por meio do fluxo possibilita buscar uma es-
tabilidade do processo ao identificar atividades que necessitam de
um corretivo para garantir a fluidez contínua e eficaz, eliminando,
assim, as mudas e gerando valor ao
processo.
O fluxo da cadeia de valor é ainda o grande responsável pela
definição, delimitação e gestão dos estoques em pequenos lotes
em todo o processo produtivo, dando ênfase, em primeiro lugar, a
eficácia da relação produto versus cliente em todas as etapas, e
nãosomente em estruturas, máquinas ou equipamentos.
Produção
puxadaA produção puxada é que define o início de todo o processo
produtivo no Sistema Lean: não se deve produzir sem que o cliente
do processo posterior, interno ou externo, solicite, ou seja, puxe.
Com isso, busca-se um nivelamento em toda a cadeia, gerando um
fluxo contínuo, eficaz e com pequenos lotes.
Para que isso seja sempre possível, é necessário um planejamen-
to inicial em todas as unidades do sistema produtivo, buscando um
balanceamento entre a demanda dos diversos clientes puxados
pelo cliente final com a capacidade produtiva.
Mas nem sempre é viável utilizar os conceitos da produção
puxada, porque para isso é necessário que o processo tenha uma
demanda sem grandes mudanças. Por exemplo, esse conceito não
deve ser utilizado em uma linha ou um negócio em que ocorre uma
grande flutuação na demanda, nas relações de volume e variedade
de itens.
Busca da
perfeiçãoA busca da perfeição tem por objetivo melhorar todo o pro-
cesso produtivo de maneira contínua e permanente, e as pos-
sibilidades de melhorias estão em todas as etapas e organizações
16 LEAN
MANUFACTURING
envolvidas e, a partir de comandos claros e transparentes dado
pelo cliente final e devidamente decodificado em toda a rede,
os processos devem se ajustar de maneira a consumir menos
tempo, esforço, materiais, espaço, mão de obra, equipamentos,
entre outros.
As melhorias para a busca da perfeição podem ser realizadas por
intermédio de ações contínuas e de pouco impacto, chamadas
kai-ze
n,
6 ou, quando necessário, de ações radicais, chamadas
kaikaku.
7
O kaizen está relacionado a pequenas, mas contínuas, me-
lhorias que são realizadas nas práticas já existentes. As mudanças
tendem a ser lentas, mas contínuas e consistentes. Já no kaikaku,
as mudanças são radicais, muitas vezes com a utilização de novos
conceitos, tecnologias ou práticas.
Sempre é possível melhorar! Esse é um lema que não se pode
esquecer nas organizações que buscam o Sistema Lean. O
kaizendeve ser uma ação diária e fazer parte da cultura; o kaikaku deve ser
empregado quando for necessário eliminar mudas significativas.
A perfeição tem como foco o atendimento do cliente final em
seus valores. Mas quem é esse cliente final? O conceito de cliente
precisa ter uma visão macro. Considerando uma unidade organiza-
cional em um sistema produtivo, pode-se dizer que cliente é aquele
que tem necessidades reais ou simbólicas, aqui representadas
por “valor” e manifestadas por expectativas ou desejos a serem
atendidos.
Assim, como mostra a Figura 1.6, o ator que consome um bem
ou utiliza um serviço de uma organização ou unidade para atender
a suas necessidades pessoais ou institucionais é um cliente dessa
organização. Os acionistas dessa mesma organização também têm
necessidades, porém relacionadas ao retorno do capital investido,
mas, de qualquer maneira, eles também são clientes. Do mesmo
6
Kaizen é um termo criado pelos japoneses e utilizado com frequência no
ocidente para representar pequenas mudanças para melhorias
contínuas.7
Kaikaku, também conhecido por kaizen de fluxo ou kaizen de sistema, é
um termo criado pelos japoneses e utilizado com frequência no ocidente para
representar mudanças
radicais.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
17
modo, a sociedade, que tem necessidades com relação à citada
organização, quanto a aspectos ambientais e sociais, é cliente, e
os parceiros e os próprios fornecedores também têm necessidades
com relação à organização a quem abastecem, e também são clien-
tes. É preciso ainda considerar os diversos clientes internos e os
clientes de segundo e terceiro níveis.
Os ciclos do consumo e da
produçãoMais do que nunca o atual contexto organizacional tem o clien-
te como o foco principal. O ciclo da produção, historicamente
muito estudado e analisado, com seus métodos e sistemas, tem
hoje como elemento integrador e complementar o ciclo do con-
sumo, como apresentado na Figura 1.7. O ciclo do consumo é um
processo que envolve o cliente com suas necessidades, que podem
ser reais ou simbólicas, e suas consequentes expectativas e seus
desejos, norteadas por posições econômicas, comportamentais
FIGURA 1.6 A organização e seus
clientes.
18 LEAN
MANUFACTURING
ou cognitivas diante das variáveis de mercado, demográficas ou
culturais
.
A eficácia organizacional do sistema tem como um dos seus
principais indicadores a proximidade, a integração e o nivelamento
dos ciclos do consumo e da produção, buscando um menor lead
tim
e
8 e o pleno atendimento do valor de todos os atores envolvidos,
em particular do cliente final.
O lead time, tempo entre o pedido e recebimento do produto
pelo cliente, contempla o tempo de processamento e todos os
outros tempos do processo produtivo, como período de armaze-
namento, de transporte, de operações, de movimentos, de setup,
entre outros.
O cliente, seja institucional ou individual, busca o atendimento
de seu valor ao identificar a utilidade de um produto para atender
suas necessidades, o que gera expectativas e desejos que, se aten-
didos, o leva à satisfação, como mostra a Figura 1.8.
8
Lead time é o tempo decorrido do pedido de um produto pelo cliente, a
entregado mesmo pelo produtor.
FIGURA 1.7 Lean Manufacturing e os ciclos da produção e do
consumo.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
19
A satisfação pode ser de ordem funcional, sensorial ou psicos-
sociológia. Essa satisfação em clientes institucionais geralmente é
de ordem funcional. Já em clientes individuais, além de funcional,
pode ser de ordem sensorial ou psicossociológica.
O ciclo do consumo aciona o início do ciclo da produção com
a realização do pedido pelo cliente, e o fim desse ciclo ocorre com a
entrega do produto ao cliente. 9 Entre um pedido e outro, o cliente
está sujeito a criar ou desenvolver novas necessidades e, conse-
quentemente, novos valores. Já o ciclo da produção pode ser divido
em três níveis: no primeiro, é preciso identificar a voz do cliente,
buscar, diante das necessidades dos clientes, oportunidades de
melhoria, identificar as mudas e realizar kaizen de fluxo (kaikaku),
quando necessário; no segundo nível, é preciso criar fluxos de
valor dos processos, implantar uma metodologia para a gestão
e melhoria contínua dos processos, buscar a padronização dos
processos e o nivelamento do fluxo. O detalhamento dessas etapas
será realizado no Capítulo 2 deste livro.
FIGURA 1.8 Da utilidade do produto a satisfação do
cliente.
9
Em determinados casos, dependendo da especificidade do processo, do produto
e do cliente, o ciclo do produto vai até a forma de descarte dele próprio ou de sua
embalagem.
20 LEAN
MANUFACTURING
No terceiro nível, consideram-se os métodos, sistemas ou pro-
gramas vinculados ao Sistema Lean Manufacturing. Este livro
priorizou oito ações por meio de métodos que devem ser associadas
em quatro grupos, todos convergindo para a filosofia just in time,
como mostra a Figura 1.9. O detalhamento desses grupos será
realizado no Capítulo 3 do livro.
Os sete desperdícios
fundamentaisO foco permanente no Pensamento Lean tem como suporte
principal a eliminação de mudas (desperdícios) em todas as
etapase em todos os níveis do processo produtivo por meio da otimização
ou de mudanças das ações que as geram. Muitos têm sido os méto-
dos ou as técnicas utilizadas para esse fim. Uma das mais eficazes
surgiu a partir das preocupações de Taiichi Ohno, que desenvolveu
suas ideias como executivo da Toyota.
Ohno tinha duas posições notáveis em relação aos resultados
organizacionais: em uma ele acreditava que “o aumento da eficácia
só faz sentido quando está associado à redução de custos” e, na
FIGURA 1.9 Os métodos, sistemas e programas para Lean
Manufacturing.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
21
outra, que “a eficiência deve ser melhorada em cada estágio e, ao
mesmo tempo, para a fábrica como um todo”. 1
0
É ainda de Ohno a proposta de equação: Capacidade atual =
Trabalho + Desperdício. Ele associou a variável trabalho, em pri-
meiro plano, aos colaboradores: é possível produzir mais com a
mesma ou com menos força de trabalho. A eficiência total deve ser
atingida com o zero desperdício.
Todavia, foi Shigeo Shingo, consultor da Toyota na época de
Ohno, quem o auxiliou e ampliou as formas de entendimento
sobre o desperdício não só com foco na mão de obra, mas também
considerando todas as outras atividades organizacionais. Assim,
foram elencados sete grandes grupos potenciais de ocorrência
de desperdício, apresentados na Figura 1.10: superprodução, es-
pera, transporte, processos, estoque, movimentação e produtos
defeituosos.
O desperdício associado à superprodução diz respeito à pro-
dução em excesso, ou seja, em quantidades elevadas ou no tempo
errado, o que gera estoques adicionais e tende a omitir problemas
em todo o processo. Já o desperdício em virtude da espera está as-
FIGURA 1.10 Os sete desperdícios de Ohno e
Shingo.
10
OHNO, T. O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga
escala.Porto Alegre: Bookman, p.
38.
22 LEAN
MANUFACTURING
sociado ao tempo parado da mão de obra, peças ou equipamentos
e pode-se dividir em espera do lote ou espera do processo; no
entanto, os dois tempos de espera são significativos e tendem a
trazer desperdícios.
O desperdício vinculado às atividades de transporte é causado
principalmente por layouts mal projetados, o que tem como con-
sequência uma grande — e muitas vezes desnecessária — movi-
mentação de peças, estoques e equipamentos, gerando custos e
desperdícios.
O desperdício proveniente do processo diz respeito à metodo-
logia de processamento em si: procedimentos e atividades des-
necessárias ou superdimensionadas, utilização de equipamentos
dimensionados de maneira inadequada, alocação de mão de obra
não compatível, entre outros. A análise desse tipo de desperdício
possibilita identificar o que está sendo utilizado ou colocado à dis-
posição do processo e que tem custos, mas não gera valor para o
produto do processo.
O desperdício relacionado a estoque é causado pela estoca-
gem de peças ou produtos semiacabados em quantidades su-
periores ao realmente necessário, o que pode ocorrer por conta
de vários fatores e, além de imobilizar capital sem necessidade,
pode trazer várias outras consequências, como utilização não
adequada de espaços, omissão de falhas no fluxo ou nivelamento
do processo, riscos com estocagem e outros custos vinculados
à estocagem.
O desperdício quanto à movimentação está relacionado prin-
cipalmente ao movimento interno dos operadores nas estações
de trabalho para realizar suas tarefas específicas diante do po-
sicionamento das ferramentas, do layout e da localização dos
equipamentos, dos aspectos ergonômicos dos equipamentos e
do próprio setor produtivo. O desperdício motivado por produtos
defeituosos é provocado pela produção de bens ou serviços fora
das especificações e necessidades dos clientes internos ou ex-
ternos, o que provoca retrabalho ou refugo, acarretando elevados
custos e desperdícios para a organização.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
23
Outros estudos e modelos também priorizam a identificação
e o controle dos desperdícios e das perdas, entre eles a trilogia da
qualidade e a manutenção produtiva total, que são apresentados
a seguir.
Juran e o
desperdícioJoseph Juran, um dos gurus da metodologia da gestão da qua-
lidade total, ao definir sua trilogia da qualidade (Figura 1.11) com
base no planejamento, no controle e na melhoria da qualidade,
sugeriu uma divisão das perdas, associadas diretamente aos cus-
tos desnecessários e que provocam desperdícios em dois níveis:
as perdas esporádicas e as perdas crônicas. As perdas esporádicas
são de fácil identificação e, muitas vezes, aparentemente de solu-
ção simples; já algumas das perdas crônicas também podem ser
identificadas com relativa facilidade, e algumas estão até
associa-das às perdas esporádicas, mas suas causas estão relacionadas
ao planejamento ou projeto, sendo a relação causa-efeito muitas
FIGURA 1.11 A trilogia da qualidade de
Juran.
24 LEAN
MANUFACTURING
vezes de identificação não simplista. Nesse caso, é necessária a
utilização de técnicas e ferramentas próprias para identificação
da causa raiz e eliminação das perdas e dos desperdícios para
a busca da devida solução. 1
1
A eliminação ou redução das per-
das crônicas está associada diretamente à redução de custos do
processo.
JIPM e o
desperdícioO Japan Institute of Plant Maintenance (JIPM) apresentou, na
década 1970, outra significativa contribuição com o objetivo de
identificar e combater o desperdício por meio da incansável perse-
guição das perdas associadas aos processos de manutenção. Com a
criação do sistema de manutenção produtiva total (Total
ProductiveMaintenance – TPM), assunto a ser tratado no Capítulo 3, o JIPM
identificou 16 tipos de perdas que provocam desperdício ao não
agregar valor ao produto final:
• Perdas por quebra de equipamento;
• Perdas por troca de ferramenta;
• Perdas por falhas no processo;
• Perdas por espera;
• Perdas por velocidade de equipamento;
• Perdas por rendimento do equipamento;
• Perdas na administração;
• Perdas na mobilidade operacional;
• Perdas na organização da linha;
• Perdas na logística;
• Perdas na medição;
• Perdas relativas à energia;
• Perdas relativas ao
material;• Perdas relativas a ferramentas;
• Perdas com a mudança de dispositivo de controle;
• Perdas por retrabalho.
11
Maior detalhamento da trilogia da qualidade poderá ser encontrada em
RODRIGUES, M. Ações para a qualidade. 4ª edição. São Paulo: Campus,
2012.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
25
O Sistema Toyota de Produção
como referência
inicialA Toyota foi a grande referência para a sistematização do Sistema
Lean Manufacturing. Além das publicações clássicas de Taiichi
Ohno e Shigeo Shingo, relatando suas experiências como executivo
e consultor da Toyota, respectivamente, têm-se as contribuições de
James Womack e seus colaboradores, e de Jeffrey Liker, em que são
feitas muitas, importantes e esclarecedoras considerações sobre o
Sistema Toyota de Produção (STP).
O sonho de um novo sistema de produção nasceu a partir de
Kiichiro Toyoda, sempre se espelhando em seu pai, Sakichi Toyo-
da, um inventor e revolucionário quanto às formas de produzir.
Kiichiro, em 1929, visitou a unidade Rouge da Ford, em Detroid,
e esse foi um dos motivadores para a criação, em 1933, da Toyota
Motor Company. Uma visão embrionária de uma maneira de
operacionalizar o processo produtivo, que seria chamado pos-
teriormente just in time, já era, naquela época,considerada por
Toyoda.
A sua operacionalização teve início a partir das investigações e
observações de Eiji Toyoda em uma visita feita, em 1950, à mesma
unidade da Ford visitada por seu primo, Kiichiro Toyoda, o que o
motivou a ter como missão aumentar a eficácia da Toyota com base
na movimentação dos materiais e na liderança com criatividade,
habilidade, conhecimento, sempre voltada a iniciativas produtivas.
E Eiji Toyoda teve o apoio do engenheiro chinês Taiichi Ohno, cola-
borador da Toyota na época e que também conheceu várias fábricas
nos Estados Unidos, inclusive unidades da Ford e General Motors.
Mas o que chamou a atenção de Ohno nos Estados Unidos foi,
principalmente, a eficácia do supermercado Piggly Wiggly quanto à
movimentação de materiais e mercadorias. O “método” adotado por
esse supermercado serviu de base para que anos depois Ohno crias-
se as bases para a filosofia just in
time
. As iniciativas de Ohno foram
reforçadas pelas incansáveis tentativas de melhoria idealizadas
pelo consultor Shigeo Shingo. O Quadro 1.1 apresenta os principais
gurus do STP com suas respectivas contribuições.
26 LEAN
MANUFACTURING
Jeffrey Liker contribuiu para um entendimento do STP com suas
diversas pesquisas e consequentes publicações com abordagens
gerenciais sistematizadas e objetivas, e é com um questionamento
apresentado por esse autor que se pode dar sequência a essa apre-
sentação: qual é o segredo do sucesso da Toyota? O próprio autor
responde ao questionamento dizendo que a principal justificativa
Quadro 1.1 Os gurus do STP
GURUS DO STP CONTRIBUIÇÃO PARA O
STPSAKICHI
TOYODA(1867-
1930)
Revolucionou a indústria têxtil no final do século XIX ao inventar
a primeira máquina de fiar elétrica no Japão e, posteriormente,
uma máquina de fiar automática, com dispositivos que
identificavam automaticamente os desvios ou erros de operações
e, consequentemente, desligava a máquina. O invento, na época
revolucionário, foi vendido à empresa inglesa Platt Brothers, e o
negociador foi seu filho, Kiichiro
Toyoda.KIICHIRO
TOYODA(1894-
1952)
Filho de Sakichi Toyoda, que criou, em 1933, com os recursos
financeiros obtidos na negociação com a Platt Brothers, a Toyota
Motors Corporation. Foi, desde o início, um grande incentivador a
ideias e métodos racionais para a redução de
desperdícios.EIJI
TOYODA(1913-
)
Sobrinho de Sakichi Toyoda e ex-presidente da Toyota. Eiji
Toyoda visitou plantas automobilísticas norte-americanas
em 1950 e levou para o Japão questionamentos e ideias que
motivaram o surgimento do STP.
TAIICHI
OHNO(1912-
1990)
Engenheiro mecânico nascido na China e ex-vice-presidente
da Toyota, é considerado o criador do Sistema Toyota de
Produção. Entrou para a Toyota em 1933 e, desde então,
passou a compartilhar e operacionalizar as ideias de Kiichiro
Toyoda para eliminação dos desperdícios e reduzir perdas na
produção. Ohno desenvolveu o Sistema Toyota de Produção
e o just in time , motivado por questionamentos, e a não
coerência por ele observada nos modelos existentes na epoca e
em suas observações pessoais sobre a forma de operação dos
supermercados dos Estados Unidos.
SHIGEO SHINGO
(1909-
1990)
Como consultor da Toyota, colaborou intensamente para
operacionalizar as ideias de Ohno. Shigeo Shingo é autor de
varios livros e é o grande responsavel pelo desenvolvimento
de várias das técnicas utilizadas hoje no mundo produtivo, entre
elas a troca rápida de
ferramenta.FUJIO CHO
(1937-
)
Ex-presidente da Toyota, criou a Casa do STP, que procura
sistematizar e apresentar de forma objetiva e clara todas as
ações, os métodos, os sistemas e os programas do STP
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
27
para tal sucesso é a excelência operacional com base em métodos,
sistemas e programas para a busca da qualidade contínua como
parte atuante da estratégia da organização e, também, a filosofia or-
ganizacional voltada para as pessoas, priorizando a compreensão,
o respeito, a motivação e a otimização de suas forças de trabalho.
A integração dos métodos, sistemas e programas com a busca
da excelência operacional foi sistematizada por Fujio Cho, que
também trabalhou com Ohno e chegou à presidência da Toyota por
meio do que ficou conhecido como “Casa do STP” (Figura 1.12).
A citada formação estabelece como meta a melhor qualidade, o
menor custo, o menor lead time, mais segurança, a moral e o
com-prometimento elevado. Como base inicial para atingir essas metas
está a filosofia da Toyota, seguida por um gerenciamento visual, por
processos estáveis e padronizados e produção nivelada.
A operacionalidade e busca da eficácia do sistema proposto pelo
modelo de Cho é feita por meio de quatro pilares, com métodos,
sistemas ou programas, todos buscando a melhoria contínua: o
FIGURA 1.12 A casa do
STP.
Fonte:Liker (2005),
p.51.
28 LEAN
MANUFACTURING
just in time, a autonomação (jidoca), o foco nas pessoas e equipes
de trabalho e o foco na redução das perdas. Todos serão tratados
por este livro no Capítulo 3.
Os princípios da Toyota (4P's) representam o fluído para a ope-
racionalização do modelo sistematizado por Cho. Outro aspecto
relevante, ressaltado por Ohno, para administrar o STP, são as folhas
de trabalho padrão (Relatório A3). A seguir, serão apresentados os
4P's e o Relatório
A3.
Os 4P's da
ToyotaJá em 1934 a Toyota estabeleceu sua primeira relação de princí-
pios que foram posteriormente atualizados. Com habilidade para
possibilitar um entendimento adequado desses princípios e de suas
operacionalizações, J. Liker descreve a base do STP em 14 outros
princípios básicos, divididos didaticamente em quatro grupos
denominados 4P's: philosophy (filosofia), processos, parceiros e
problemas (veja a Figura
1.13).
FIGURA 1.13 Os 4P's da
Toyota.
Fonte:Adaptado de Liker (2005),
p.28.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
29
A filosofia dá um norte a toda a organização ao associar de
maneira eficaz seus objetivos, seus valores, sua visão de futuro e
sua missão. Isso deve ser operacionalizado por meio de um plano
estratégico integrado.
O processo é analisado por intermédio de sete princípios:
• Fluxo de processos
contínuo
: explicita problemas que devem
contemplar e alinhar o desmembramento dos objetivos e das
estratégias organizacionais para todos os níveis e setores da
organização, sempre focando na relação fornecedor-cliente,
em todos os níveis, buscando valor no fornecedor e atendendo
ao valor do cliente imediato, o que pode ser atingido por meio
da gestão estratégica de processos. Para ajudar a atingir esse
princípio, a organização e o layout da linha que podem ser
trabalhados por meio do programa 5S e das células de produção,
respectivamente, são boas alternativas.
• Sistema puxado evitando a superprodução : tem início no
momento em que são acionados pelo cliente; e deve ocorrer com
as especificações e o valor que ele quer, no momento em que ele
quer e na quantidade desejada. O Kanban tem sido o sistema que
tem operacionalizado a produção puxada, e para aumentar sua
eficácia com a coleta de insumos pode-se utilizar o Milk
Run.• Nivelamento da carga de
trabalho
: também conhecido por
heijunka, busca nivelar a carga de trabalho por meio da coordenação
integrada de todas as unidades, os equipamentos e as equipes de
trabalho. Busca-se o nivelamento por intermédio do mapeamento,
da medição, da gestão e do controle dos processos.
• Cultura da
qualidade
, fazendo certo na primeira
vez
: um dos
principais focos do Sistema Lean é produzir certo na primeira
vez, sem retrabalho. Assim, é preciso criar uma cultura para
priorizar a solução de problemas de maneira rápida e eficaz, com
a criação de sistemas programados para identificar falhas ou
interrompendo imediatamente toda a produção ao se identificar
alguma anomalia. O Poka-Yoke e a autonomação, jidoca, tem
auxiliado a garantir a integridade de produtos semiacabados
em toda a
linha.• Padronização para melhoria contínua e aprendizagem :
é preciso definir o ponto ótimo para cada ação a partir das
30 LEAN
MANUFACTURING
melhores práticas, capacitando os colaboradores e calibrando
todos os equipamentos, para depois padronizar. A estabilidade
das ações possibilita previsões adequadas e dentro das metas
estabelecidas, e é o passo anterior a padronização.
• Controle visual , explicitando os
problemas
: a observação in-loco
é a melhor ação para identificar prováveis anomalias; sendo assim, é
preciso preparar toda a linha com indicadores visuais simples e
de fácil acesso. A gestão visual tem sido uma das medidas simples
e eficazes utilizadas nas organizações que buscam o Sistema
Lean. O Programa 5S, Poka-Yoke e a autonomação, e alguns
elementos ou etapas do TPM e do Kanban, auxiliam a dinamizar
o controle visual.
• Tecnologia alinhada aos processos e funcionários : as
organizações Lean buscam na tecnologia um meio, e não um fim,
e as pessoas representam o foco principal. As novas tecnologias
são bem-vindas mas necessariamente devem se adaptar à
cultura e ao modelo de gestão da organização. A TPM, a TRF e a
autonomação são exemplos das participações ativa das pessoas
diante das características e tecnologia dos equipamentos, para
melhores resultados.
A parceria é analisada por meio de três princípios:
• Desenvolvimento de líderes comprometidos com o
trabalho e afilosofi
a
: os lideres devem disseminar os princípios da organização
e conhecer plenamente todas as atividades operacionais. Um
plano de carreiras consistente e políticas de RH vinculadas aos
objetivos estratégicos garantem que os líderes terão origem na
base da organização e longa permanência nesta.
• Desenvolvimento de pessoas e equipes : a cultura da
organização deve ser entendida e compartilhada por todos. Os
colaboradores e as equipes devem ter um conhecimento pleno
de suas atividades específicas, mas também envolvimento e
responsabilidade com todas as outras atividades da organização.
A operacionalização pode ocorrer por meio de um programa de
treinamento e da utilização de técnicas para o comprometimento
dos colaboradores.
• Cooperação e Respeito aos parceiros e
fornecedores
: a integração
e o compartilhamento de conhecimento com os parceiros e
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
31
fornecedores devem ser um dos pilares da organização. Geralmente,
essas relações devem ser de longo prazo, estabelecendo um clima
de cooperação e estabilidade.
Os problemas são analisados, também, por intermédio de três
princípios:
• Participação pessoal nos problemas e
ações
: isso deve fazer
parte da cultura de cada executivo, líder ou colaborador, uma
vez que conhecer pessoalmente a situação-problema tem sido
uma forma de nivelar e unificar as informações.
• Decisões lentas, implementação
rápida:
todos os envolvidos de
alguma maneira no processo devem participar ou contribuir com
dados ou informações para as decisões, que são definidas após
a identificação das várias alternativas. Isso aumenta o tempo para a
tomada de decisão, mas quando definido, já é do conhecimento e
da concordância de todos, o que agiliza sua implementação.
• Aprendizagem como
foco
: os processos de aprendizagem estão
vinculados a aspetos da cultura da organização e às melhores
práticas utilizadas nos processos já estabilizados. Outro aspecto
importante é a proteção do conhecimento com a busca da
manutenção do corpo funcional por longo prazo.
A sistematização apresentada e descrita sobre os princípios da
Toyota, com base nos ensinamentos de J. Liker, pode ser tomada co-
mo um roteiro e objetivos para organizações que buscam o Sistema
Lean. Como se viu, as ações, que partem de posições estratégicas,
são operacionalizadas em todos os níveis da organização, com foco
na mão de obra e em materiais, máquinas e
métodos.
O Relatório A3 da
ToyotaO Relatório A3 (Figura 1.14) é um sistema eficaz de informação,
operacionalizado por meio de uma folha de papel tamanho A3
(27,5 × 42,5 cm). Historicamente, a Toyota utiliza esse meio para
concentrar, de maneira simples e de fácil acesso, todas as infor-
mações relevantes, com o histórico, início, meio e fim da análise,
e com a solução de problemas, status de um projeto, projetos de
mudança, entre outros.
32
LEAN
MANUFACTURING
FIGURA 1.14 Um Relatório A3 de análise e solução de problema.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
33
Ohno atesta que a “folha de papel padrão” é um meio de con-
trole visual e que as informações nela contidas são elementos
importantes para a administração do STP. É por meio desse ins-
trumento que devem se combinar e integrar materiais, colabo-
radores, máquinas, com técnicas e ferramentas de melhoria. O
Relatório A3 pode ter diversas apresentações e informações, de
acordo com seu objetivo específico, e o Relatório A3 para solução
de problemas é o utilizado com maior frequência. Neste, devem
constar todas as etapas para análise e solução, desde a identificação
do problema até definição da causa raiz e o consequente plano de
ação para sua solução. Um relatório A3 de solução de problemas é
a representação gráfica e resumida de todas as ações na execução
de um ciclo
PDCA.
1
2
Nesse relatório, uma folha de papel tamanho A3 é dividida em
setores. Inicialmente em uma linha superior, coloca-se o título ou
tema do relatório, seguidos da:
• Definição e descrição do problema;
• Análise e identificação do problema e causas;
• Plano de ação;
• Análise dos resultados;
• Acompanhamento e Ações futuras.
No final ou no início, abaixo do tema, devem ser inseridos a
unidade, o departamento ou processo analisado, o nome do res-
ponsável, a equipe (se for o caso) e data da concepção do relatório.
Nas etapas de um Relatório A3 são utilizadas ferramentas analí-
ticas, como lista de verificação, gráficos de controle, diagrama
de Pareto, diagrama de causa e efeito, FMEA, gráficos box-plot,
entre outros.
Assim, o Relatório A3 é um excelente meio para viabilizar a
gestão visual e nivelar e integrar as informações, entre os diversos
setores. Sua simplicidade permite a utilização por qualquer orga-
nização que busque melhoria nos seus resultados, em particular
as que buscam o Sistema Lean.
12
Ciclo PDCA (Planejar, Fazer, Verificar e Agir Correticamente) será apresentado
no Capítulo
2.
34 LEAN
MANUFACTURING
O Lean
ManufacturingComo já mencionado, o Sistema Lean teve inicialmente a Toyota
como seu maior operacionalizador com uma cultura e princípios
próprios adaptados às especificidades da organização. O sucesso
fez com que muitos autores, consultores e organizações procuras-
sem utilizar seu modelo ou ações como referência, sem uma devida
contextualização das diversas realidades geográficas, culturais,
setoriais ou organizacionais.
O Lean Manufacturing busca uma melhor qualidade para todo
o sistema, com a redução do desperdício, do custo, do lead time e
aumento da rentabilidade e da eficácia no atendimento ao valor
do cliente, como mostra a Figura 1.15.
A virtude para criação de novas maneiras de gerenciar a produ-
ção e a coragem para a implantação de revolucionários e ousados
métodos e sistemas faz com que a Toyota ocupe, em relação ao
Lean Manufacturing, o mesmo papel que a Ford desempenhou
FIGURA 1.15 Resultados do Lean
Manufacturing.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
35
no início do século passado com relação ao sistema de produção
em massa.
Mas é preciso recordar a história. Logo após Henry Ford lançar
seu modelo, diversas novas contribuições surgiram, agregando
conhecimento e valores ao modelo original. Assim, é preciso que
se considere o Lean Manufacturing como um norte dinâmico a ser
atingido, no qual o caminho que cada organização deverá trilhar
provavelmente não será o mesmo adotado por outras organizações.
O Sistema Lean pode ser adotado por organizações de qualquer
setor, e não somente do setor de manufatura, mas é preciso que
sejam levados em consideração alguns aspectos vitais para o suces-
so, como:
• O total comprometimento da alta direção;
• A disciplina e comprometimento do corpo funcional;
• A flexibilidade para o realinhamento da cultura da organização;
• O entendimento adequado do pensamento Lean.
É necessário ainda que a organização entenda e aprenda, em
toda sua plenitude, as diferenças e ações necessárias para a eficaz
integração entre o sistema de consumo e o sistema de produção,
em que, além da busca da satisfação do cliente, o lead time e a
rentabilidade da organização são variáveis imperiosas.
A operacionalização do Lean Manufacturing na busca de resul-
tados tem muitos de seus meios e ações desenvolvidas ou criadas
com foco na pensamento Lean e na busca da gestão da qualidade
total, muitos concebidos no início ou meados do século XX, no
mínimo há mais de 50
anos.
Quanto à necessidade de as pessoas terem o comprometimen-
to, motivação e conhecimento de seus processos, isso também
não é novo. Já se tem uma base conceitual consistente concebida
a partir do fim do século XIX e que foi sistematizada no início do
século XX.
Mas a neurose de “copiar” modelos de excelência de outras
organizações sem uma contextualização adequada, muitas vezes
sem verificar as reais necessidades, ou de utilizar instrumentos
36 LEAN
MANUFACTURING
gerenciais ultrapassados como “novas ideias”, buscando “reinventar
a roda”, tem, de maneira contrária, provocado desperdício.
A todo momento surgem na literatura especializada “novos” e
“revolucionários” modelos ou metodologias. Alguns se propõem
a fazer “milagres” organizacionais. Outros, criados por empresas,
consultores ou autores com o objetivo de personalizar seus modelos
ou produtos com base em conhecimentos já existentes, na busca
de uma maior inserção no mercado da consultoria, ou do conheci-
mento da gestão das organizações. Esses modelos ou metodologias
não têm apresentado resultados adequados.
Assim, muitas das práticas que surgem hoje como as grandes
novidades não são novas. O que hoje se poderia chamar de “novo” é
ter uma visão ampla e seletiva do conhecimento e, a partir desse po-
sicionamento, cada organização deve utilizar o que for necessário
e próprio aos seus processos. É ainda “nova” a consciência dos
profissionais de buscarem soluções no conhecimento já constituído
e sedimentado, compatibilizando-o com as reais necessidades da
organização, para o caminho da eficácia, em vez de adotar o “achis-
mo” ou o “eu já sei” como modelo gerencial prioritário. O “novo” é
um mercado global e competitivo, que não mais admite gestores
amadores com conhecimento apenas prático ou superficial.
É preciso ainda lembrar que o problema maior não é o que o
profissional não sabe, mas sim o que ele sabe, mas que não é mais
verdadeiro ou está ultrapassado. O Lean Manufacturing é um co-
nhecimento já desenvolvido, com diversos métodos, sistemas ou
programas, com histórico e experiência bem-sucedida em muitas
organizações. Em outras, sua implantação não atingiu as metas pre-
vistas, mas tudo isso é conhecimento a ser utilizado como suporte
para as novas implantações.
O Lean Seis
SigmaO termo Lean Seis Sigma surgiu em uma tentativa de
consulto-res de unir as boas práticas do Sistema Lean Manufacturing com
as ferramentas, as técnicas e os métodos utilizados na Metodo-
logia Seis Sigma, originada na Motorola no início dos anos 1980,
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
37
dinamizada no final dos anos 1990 na GE e hoje amplamente
utilizada pelas organizações dos diversos setores.
A Metodologia Seis Sigma busca associar ações de melhorias
contínuas de processos com projetos de rupturas, denominados
Projetos Seis Sigma, buscando resultados melhores e mais eficazes,
como mostra a Figura 1.16.
Um Projeto Seis Sigma, seguindo os ensinamentos do Guia
PMBOK (Project Management Body of Knowledge) do PMI (Project
Management Institute), é dividido em cinco fases: D (define —
definir); M (measure — medir); A (analyze — analisar); I (improve
— melhorar); e C (control — controlar). O Quadro 1.2 apresenta o
significado de cada fase.
A Metodologia Seis Sigma “trata a qualidade de maneira sis-
têmica, considerando todas as ações e setores de uma organização,
e não somente as não conformidades de processos isolados”. 1
3
FIGURA 1.16 A metodologia Seis
Sigma.
Fonte:Rodrigues (2012), p.
16.
13
Em Rodrigues (2012), na pagina 17, em obra citada nas Referencias Bibliograficas
desse livro.
38 LEAN
MANUFACTURING
Já o “Projeto Seis Sigma, por meio do DMAIC, é o instrumento
utilizado por essa metodologia para criar ou modificar os processos
ou produtos na busca da melhoria”. 1
4
Nos Projetos Seis Sigma, os profissionais recebem treinamento
próprio e ocupam funções específicas denominadas de:
• Master Black Belt — instrutores e mentores das ações para
viabilizar a metodologia.
• Black Belt (faixa preta) — líder de equipes de projetos Seis
Sigma
.• Green Belt (faixa verde) — membros de equipes de projetos
Seis
Sigma.• Champion — facilitador ou patrocinador de projetos
Seis Sigma ao realizar o elo entre o nível estratégico
e o operacional.
Diante da importância e ampla utilização pelo mercado, é
preciso que o leitor busque um aprofundamento nos conceitos
e técnicas específicas da Metodologia Seis Sigma. 1
5
15
Não é objetivo deste livro tratar da Metodologia Seis Sigma, mas se o leitor
quiser se aprofundar nesse tema leia Entendendo, aprendendo e desenvolvendo
qualidade padrão seis sigma, do mesmo autor deste livro e lançado pela mesma
editora
.
Quadro 1.2 As fases de um projeto Seis Sigma
GUIAPMBOK PROJETO SEIS SIGMA
FASE
S
DMAI
C
Iniciação D Definir os processos críticos e os objetivos diante
do negócio e das expectativas e necessidades dos
clientes.Planejamento M Medir o desempenho do processo e identificar
os problemas e a intensidade destes.
Execuçã
o
A Analisar o desempenho e as causas dos problemas.
Finalizaçã
o
I Melhorar o processo, eliminando os problemas, reduzindo
custos e agregando valores para o
cliente.Control
e
C Controlar o desempenho do
processo.
Font
e
: Rodrigues (2012),
p.28.
14
Em Rodrigues (2012), na página 30, em obra citada nas Referências
Bibliográficas deste livro.
Capítulo 1 • Entendendo Lean
Manufacturing
39
O Lean
ManagementO Lean Management vem sendo utilizado para denominar uma
filosofia de gestão, com foco na gestão estratégica e integrada dos
processos, que tem como base principal o pensamento Lean em
toda a organização a partir do desdobramento das estratégias, de-
limitação dos processos, definição de seus indicadores vinculados
aos objetivos estratégicos e de suas consequentes metas.
Tanto o Lean Seis Sigma, quanto o Lean Management, como ou-
tros termos com menor utilização, como Lean Enterprise ou Lean
Business System, são tentativas de utilizar o termo lean, que vem
ganhando credibilidade no mundo organizacional, principalmente
no setor da manufatura, para divulgação de conhecimento já exis-
tente com outras denominações ou embalagens. São variações
sobre o mesmo tema. É preciso atenção por parte das organizações
para identificação de suas necessidades reais e busca dos caminhos
consistentes, sem modismos.
41
Aprendendo
o Suporte para o Lean
Manufacturing
O melhor tipo de administração usada
atualmente pode ser definido como um sistema
em que os trabalhadores dão os seus melhores
esforços e recebem estímulos especiais
dos seus patrões.
Frederik
TaylorO pai da produtividade
Este capítulo tem por objetivo apresentar o principal suporte
para um sistema produtivo, em particular para o Lean Manufac-
turing: os processos. Inicialmente, serão trabalhados os conceitos
básicos e as métricas para a medição de um processo com a apre-
sentação dos principais e atuais modelos que buscam alinhar e
analisar os indicadores de desempenho diante dos objetivos da
organização.
Seguindo o roteiro inicial apresentado de maneira com-
pleta na Figura 1.7, no Capítulo 1, este capitulo dará sequência
com a apresentação das ferramentas e técnicas para análi-
se e melhoria dos processos, padronização e nivelamento dos
processos, conforme a Figura 2.1, que apresenta o roteiro pa-
ra a gestão dos processos organizacionais, desde a necessida-
de de criação de um fluxo de valor, motivada pelo cliente do
processo.
2
42 LEan ManuFaCturIng
Gestão e medição do
desempenhodos
processosa existência de uma organização tem início com a elaboração
dos elementos, que devem nortear suas ações e sua cultura para
viabilizar seus negócios. a missão, os valores e a visão são elemen-
tos imperiosos, que devem dar uma identidade à organização
e um caminho de acordo com sua realidade e seu estado desejado
idealizado (veja a Figura 2.2).
a caminhada na busca do estado desejado tem trajetória e
etapas disciplinadas pelos objetivos estratégicos; já as estratégias
buscam, nesse sentido, viabilizar as estruturas, as unidades de
negócios ou operacionais e os colaboradores, para unificar, integrar
e personalizar o valor ao qual a organização se propõe a atender,
para um eficaz desempenho do fluxo de valor e alinhamento e
harmonia da cadeia de valor em todo o ciclo de produção.
a integração da cadeia de valor no sistema produtivo é feita por
meio dos processos. um processo é um conjunto de atividades com
início e fim bem delimitados, cujo objetivo é prestar atendimento
FIGURA 2.1 A Busca de excelência dos processos diante de um ciclo
produtivo.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
43
do valor e que busca, por meio de ações realizadas por máquinas e
colaboradores, transformar elementos de entradas (insumos, peças,
entre outros), agregando valor para elementos de saída (sistemas,
produtos, entre outros).
na Figura 2.3 é apresentado um processo padrão: na entrada,
temos o elemento que deve ser processado e modificado, e, na
saída, o produto desejado. Seguem alguns exemplos:
• Em uma montadora, a entrada pode ser peças e a saída, um
automóvel
;• Em um escritório de contabilidade, a entrada pode ser dados
contábeis e a saída, um balanço financeiro;
• Em uma escola, a entrada pode ser o aluno e a saída, esse
aluno com conhecimento;
• Em uma unidade interna de uma montadora, a entrada pode
ser uma chapa e a saída, essa chapa perfurada destinada à
estação de trabalho seguinte.
FIGURA 2.2 Estágios e dinâmica de uma
organização.
44 LEan ManuFaCturIng
ainda na entrada, encontra-se todo o suporte e a infraestrutura
necessária para viabilizar o início das atividades: colaboradores,
equipamentos, tecnologia, instalações, entre outros. Já a saída do
processo é o resultado: o produto destinado ao cliente final, ou um
componente, ou serviço destinado a um cliente interno.
a metodologia de processamento ordena e disciplina as ativida-
des, que têm início a partir de ações que podem utilizar conhecimen-
tos e tecnologias específicas, máquinas e equipamentos próprios,
e colaboradores capacitados para realização das atividades.
um processo em qualquer organização ou qualquer área pode ter
como subproduto indesejado os problemas socioambientais. Isso
sempre ocorreu, mas só recentemente as organizações passaram a
se preocupar com esse importante aspecto. assim, hoje o objetivo
de um processo é, diante de uma mesma entrada, obter uma melhor
saída, minimizando ou eliminando as possibilidades de problemas
socioambientais
.
FIGURA 2.3 Etapas de um
processo.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
45
O significado de melhor saída está relacionado ao desempenho
e depende da especificidade e do objetivo do processo, e pode estar
relacionado a diversas variáveis, entre elas:
• Confiabilidade;
• Crescimento;
• Custo;
• Flexibilidade;
• Grau de inovação;
• Grau de internacionalização;
• Prazo;
• Produtividade;
• Qualidade
;• Rentabilidade
;• Velocidade
;• Volume
.
O desempenho tem origem e é viabilizado pelo processo, sendo
que a medição dessas variáveis atestam o nível de desempenho de
um processo e são denominadas indicadores de desempenho (ID).
Eles estão diretamente associados à eficiência e eficácia da gestão,
bem como ao controle dos processos e de toda a organização. É
de vital importância para o gestor que os IDs sejam confiáveis,
obtidos com a periodicidade necessária, no grau de precisão
exigido pelo processo e na quantidade certa. Hoje, o desempenho
organizacional e o alcance dos objetivos estratégicos são vistos
como frutos dos resultados alinhados dos diversos processos, mas
durante muito tempo o único ID considerado por uma organiza-
ção para a medição de seu resultado era o financeiro, por meio
dos processos tradicionais com informações apenas em aspectos
financeiros e contábeis, não considerando os requisitos para
atendimento dos valores da cadeia de clientes de um processo
produtivo.
Esses sistemas tradicionais de medição foram desenvolvidos no
contexto do sistema de produção em massa e tinham como foco
uma visão de curto prazo e setorial por meio da maximização da
produtividade, da minimização dos custos, da eficiência na realização
46 LEan ManuFaCturIng
das tarefas e da busca da maior padronização. Os pioneiros na
utilização desses modelos, no início do século XX, foram a DuPont
e a general Motors.
Os sistemas de medição evoluíram, mas ainda é considerado
como suporte o sistema de produção em massa. a partir dos
anos 1980, muitas organizações passaram a utilizar diversas
medidas, ainda focadas somente no desempenho contábil ou
financeiro. as mais utilizadas como indicadores financeiros
ainda são Return on Investment (rOI) 1 e a Economic Value
Ad-ded
(EVA)
2. Já como indicador contábil, a Earnings Before In-
terest, Taxes, Depreciation and Amortiation (EBItDa) 3 tem sido
a prioritária.
atualmente, isso não é mais suficiente. Diante das tendências
dos sistemas de produção e da busca cada vez maior do Lean Ma-
nufacturing, as medidas de desempenho utilizadas até a década
de 1990 deixaram de ser suficientes para uma medição do desem-
penho pleno nas etapas de um ciclo de produção e no resultado
final
.
a eficaz e integrada medida do desempenho é um dos aspectos
de maior relevância no atual contexto organizacional e só se pode
gerenciar, controlar e melhorar aquilo que se pode medir. a medida
do desempenho é um feedback do próprio processo, que pode
sugerir ajustes ou mudanças e que vai facilitar a gestão, o controle,
a definição de responsabilidades, a identificação de falhas e de
desperdício, e o consequente realinhamento dos processos e dos
objetivos estratégicos.
a medição do desempenho em uma organização deve ser feita
em três dimensões: individual, por unidade e com foco no mercado,
sempre considerando os aspectos organizacionais, culturais e de
1
rOI é a taxa de retorno, ou lucro, futuro a ser apurado em negócios ou aplicações
financeiras.
2
EVA é o ganho final de capital, riqueza sob o foco
econômico.3
EBItDa é um indicador contábil que apresenta o caixa operacional de uma
organização, quanto a empresa gera de recursos apenas através de suas atividades
operacionais, não são considerados os custos financeiros ou os impostos.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
47
mercado. um ID sempre deve estar alinhado ao objetivo da organi-
zação e a especificidade de seu processo, e por essa razão é preciso
também verificar sua viabilidade estratégica, organizacional e
operacional. um “bom” ID deve ter em relação ao processo em que
está medindo os seguintes aspectos:
• Abrangência;
• Acessibilidade
;• Confiabilidade;
• Economicidade;
• Estabilidade
;• Independência;
• Praticidade
;• Relevância;
• Representatividade;
• Simplicidade;
• Validade
.
O ID, com suas medidas, precisa contribuir com informações
atualizadas para a realização do objetivo estratégico da organização
(Figura 2.4) e, diante disso, é preciso sempre estar alinhado, ter
harmonia e sinergia vertical e horizontal com os indicadores dos
FIGURA 2.4 Da visão às metas dos
indicadores.
48 LEan ManuFaCturIng
outros processos. O alinhamento vertical entre indicadores busca
evitar conflitos entre os indicadores dos diversos níveis hierárqui-
cos. Já o alinhamento horizontal busca garantir a harmonia entre
os indicadores de um mesmo nível hierárquico.
Seguem algumas recomendações sobre os indicadores de de-
sempenho:
• Os indicadores são muito úteis, para apoiar e direcionar as
decisões gerenciais, mas isolados não têm representatividade
e podem induzir a erros;
• Os resultados dos processos não podem ser garantidos apenas
com base nos indicadores de maneira isolada;
• Um processo comporta vários indicadores, mas sempre
é aconselhável identificar os prioritários e trabalhar com
poucos;
• Todos os indicadores devem ter a mesma origem ou vertente,
e não podem perder de foco os objetivos da organização;
• É vital o alinhamento horizontal e vertical do sistema de
indicadores tomando como norte os objetivos da organização.
Métodos para alinhamento e medição
do
desempenhoCom o objetivo de agrupar, alinhar, controlar e gerenciar os
indicadores de desempenho dos processos em todos os níveis
organizacionais, diante das novas tendências dos sistemas de
produção e da importância de relacioná-los e alinhá-los com
os objetivos estratégicos, surgiram nos últimos 20 anos vários
modelos para a medição do desempenho organizacional. Es-
ses modelos facilitaram a gestão e o monitoramento pelo nível
estratégico com informações mais confiáveis, algumas em tem-
po real, para o melhor entendimento e controle do desempe-
nho de toda a organização. Dentre os modelos mais conhecidos
estão:
• Balanced Scorecard
(BSC);• Performance
Pyramid;• Performance
Prism.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
49
Balanced
ScorecardO Balanced Scorecard (BSC) é um sistema de medição do
de-sempenho organizacional, proposto por robert Kaplan e David
norton, que busca, por meio de quatro perspectivas interligadas
— financeira, cliente, processos internos e conhecimento — medir
o desempenho da organização em relação ao seu mercado por meio
de uma relação de causa e efeito nas diversas etapas e processos de
uma organização (veja Figura 2.5).
a relação de causa e efeito, como os autores do modelo mos-
tram, é um dos pontos fortes para o balanceamento dos diversos
processos e concepção de um mapa estratégico, tendo em vista
as demandas do nível estratégico por retorno do capital investido
ou sobre o valor econômico agregado. A Figura 2.6 apresenta um
exemplo dessa relação de causa e efeito.
O BSC inicialmente teve como objetivo utilizar medidas não
financeiras para alinhar os indicadores dos processos críticos e,
em um segundo momento, buscou-se um alinhamento desses in-
dicadores com os objetivos estratégicos com foco no atendimento
à perspectiva financeira. atualmente, o BSC é considerado um
FIGURA 2.5
O
balanced
scorecard (BSC).
50 LEan ManuFaCturIng
método que busca apoiar a organização na concepção e gestão
da visão, buscando nivelar os objetivos de curto, médio e longo
prazos, e na implementação e desdobramento das estratégias, com
o balanceamento a partir dos indicadores de desempenho.
as perspectivas do BSC são:
• Perspectiva
financeira:
refere-se aos resultados finais das ações
empreendidas e dos recursos necessários às outras dimensões.
Essa perspectiva tem por função medir o crescimento da
organização, a atratividade e confiabilidade perante o mercado
e os parceiros. Esses indicadores financeiros indicam como
foram os esforços das outras áreas em termos de rentabilidade
e ganhos incrementais, permitindo à organização ligar seus
objetivos financeiros com seus objetivos estratégicos. Essa
perspectiva utiliza como indicadores o crescimento da receita,
a redução de custos, a melhoria da produtividade, a utilização
dos ativos, entre outros.
FIGURA 2.6 Exemplo de Relação de Causa e Efeito no
BSC.
Fonte:Adaptado de
Kaplane Norton (1997),
p.31.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
51
• Perspectiva do cliente: refere-se à medição de como a
organização está atendendo os valores de seus clientes. Essa
perspectiva utiliza como indicadores a satisfação dos clientes,
a retenção de clientes, a captação de clientes, a participação de
mercado, entre outros.
• Perspectiva dos processos
internos:
refere-se à medição dos
processos de negócios, operacionais e administrativos, e suas
capacidades comportamentais, estruturais, operacionais e
tecnológicas, para o eficaz atendimento aos indicadores de
perspectiva dos clientes e para dar suporte às perspectivas
financeiras. Essa perspectiva foca em três processos principais,
inovação, operações e serviço pós-venda, e utiliza como
indicadores a qualidade, o tempo de resposta, custo, entre
outros.
• Perspectiva do conhecimento: refere-se à medição do
aperfeiçoamento contínuo e da busca de habilidade de inovar e
aprender, e tem relação direta com a capacidade de agregar valor
aos processos e produtos. Essa perspectiva foca três processos
principais, capacitação dos colaboradores, capacidades dos
sistemas de informação e motivação, além de comprometimento
dos colaboradores, e utiliza como indicadores a satisfação dos
colaboradores, o grau de aprendizagem, o grau de inovação,
entre outros.
O BSC vem sendo muito utilizado no Brasil. Sua eficácia é
com-provada, e o nível de praticidade, razoável, mas é preciso cuidado
para entender que o BSC não é um modelo de gestão, como muitas
organizações o consideram, mas sim apenas um eficaz sistema de
suporte a medição.
Performance
PyramidO Performance Pyramid é um sistema de medição do
desempenhoorganizacional, proposto por richard Lynch e Kelvin Cross, que foca
na eficiência interna e externa da organização e que prioriza suas
medidas de desempenho na busca da necessidade do consumidor
a partir da medição estratégica e análise dos relatórios decorrentes
dos desdobramentos das estratégias.
52 LEan ManuFaCturIng
a visão é o ponto de partida e o norte a ser seguido por toda a
organização, e deve definir onde a organização está, aonde quer
chegar e com que meios ela vai atingir esse objetivo. as estratégias
são definidas de acordo com o mercado e os aspectos financeiros,
e desdobradas diante dos objetivos e dos aspectos culturais da
organização, considerando, em primeiro plano, a satisfação dos
clientes, a flexibilidade da organização e a produtividade. Para
viabilizar esses objetivos, o modelo considera a qualidade, o tempo
de entrega e de produção, além das perdas nos processos.
Como mostra a Figura 2.7, a Performace Pyramid estabelece
umalinha divisória entre as variáveis com foco interno e externo, ao pas-
so que o mercado, a satisfação do cliente, a qualidade e o tempo de
entrega têm um foco externo. Já as finanças, produtividade, tempo
de produção e perdas no processo têm foco interno. Flexibilidade
da organização apresenta no modelo foco interno e externo.
O modelo também apresenta uma relação de causa e efeito, e
mostra-se mais detalhista que o BSC, o que em alguns casos poderia
ser eficaz. Mas, se comparado com o BSC, tem pouca utilização,
principalmente nas organizações brasileiras.
FIGURA 2.7 A Performance
Pyramid.
Fonte:Adaptado de Cross e Lynch (1990),
p.56.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
53
Performance
PrismO Performance Prism é um modelo tridimensional de medição
de desempenho organizacional integrado proposto por andy neely
e Cris adams, e que tem como foco principal todos os
stakeholdersda organização. O modelo utiliza cinco etapas integradas com
início no que os stakeholders querem, e com final no que os
stake-holders podem favorecer a organização, como mostra a Figura 2.8.
Entre essas duas etapas há três outras: estratégias, processos e
capacidades.
O Performance Prism possibilita uma comunicação estratégica,
integração, gestão dos processos e a identificação das capacidades
necessárias para o alcance do desempenho desejado. Segue um
roteiro norteador, por meio de questionamentos, para um melhor
entendimento do Performance Prism:
1. Quem são e o que querem os
stakeholders?2. Quais as estratégias para atender o que os
stakeholdersquerem?
FIGURA 2.8 O Performance
Prism.
Fonte:Adaptado de Adams e Neely (2002),
p.181.
54 LEan ManuFaCturIng
3. Quais os processos que podem viabilizar as estratégias?
4. Quais as capacidades necessárias para operacionalizar os
processos?
5. Quais as contribuições que as organizações querem dos
stakeholder
s?
Diante de sua estrutura, o Performance Prism dá uma atenção
especial a todos os atores do processos, em particular aos clientes
e acionistas. a relação de causa e efeito também é o suporte do
modelo, que tem como grande virtude fechar o ciclo no mesmo
foco: os
stakeholders.
a posição e amplitude dada as categorias “processos” e “capa-
cidades” dota o modelo de maior flexibilidade, podendo ser uma
alternativa eficaz para as organizações que utilizam o Sistema Lean.
Esse também é um modelo pouco utilizado pelas organizações
brasileiras.
Ferramentas e técnicas para
análisee melhoria dos
processosas ferramentas e técnicas para análise e melhoria dos pro-
cessos tiveram origens diversas, e muitas inicialmente foram
destinadas a outros fins. Mas, em meados dos anos 1950, Kao-
ru Ishikawa fez o agrupamento dessas ferramentas e técnicas
com o objetivo de que qualquer operador tivesse condições de
utilizá-las em uma sequência lógica e obter informações, que
deveriam ser repassadas para que os gestores melhorassem os
processos. Ishikawa organizou inicialmente estas sete ferra-
mentas e técnicas: lista de verificação, fluxograma, histograma,
gráfico de controle, diagrama de Pareto, diagrama de Ishikawa
e gráficos de dispersão.
O ciclo PDCA, que foi criado nos anos 1930 nos Estados Unidos
pelo matemático Walter Shewhart e amplamente utilizado por W.
Edwards Deming, serviu de base para agrupar e dar uma sequência
lógica e eficaz às ferramentas. Já as técnicas estatísticas e o Con-
trole Estatístico dos Processos (CEP), também criado por Shewhart,
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
55
deram o suporte para a medição e identificação dos desvios por
meio de limites de aceitação predefinidos.
FIGURA 2.9 Principais ferramentas e técnicas para análise e melhoria dos
processos.
56 LEan ManuFaCturIng
atualmente, muitas outras ferramentas e técnicas, algumas
mais sofisticadas e com maior grau de precisão, vêm sendo
utilizadas para análise e melhoria dos processos, muitas dessas
vinculadas ou dando suporte a métodos, sistemas e programas
que servem de base para o Lean Manufacturing. 4 a Figura 2.9
apresenta de forma resumida as principais ferramentas e técnicas
aqui referenciadas.
Padronização dos
processosO conceito de padronização, como já foi apresentado na in-
trodução deste livro, surge juntamente com o taylorismo, no início
do século XX, e foi o suporte principal para o sistema de produção
em massa. não é correto dizer que hoje o contexto de padronização
FIGURA 2.9
(cont.)
4
não é objetivo deste livro tratar dessas ferramentas e técnicas. Caso o leitor
queira se aprofundar nesse tema, consulte o livro Entendendo, aprendendo e
desenvolvendo qualidade padrão Seis Sigma, deste mesmo autor e lançado pela
mesma editora.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
57
é radicalmente diferente do apresentado no início do século XX, e
como cita Harry Braverman: o taylorismo “como movimento
distin-to desapareceu na grande depressão dos anos 1930, mas, naquele
tempo, o conhecimento dele tinha se difundido na indústria e seus
métodos e sua filosofia eram lugares comuns em muitas escolas
de engenharia e administração”; ou seja, continua Braverman, “o
taylorismo está obsoleto ou superado apenas no sentido em que
uma seita, que tenha se difundido e se tornado amplamente aceita,
venha a desaparecer como seita”.5
taylor propõe na época, de acordo com o contexto social, eco-
nômico e tecnológico, quatro princípios:
• Princípio de
planejamento
, em que pregava o desenvolvimento
de uma ciência do trabalho com a substituição de métodos
empíricos por métodos científicos com o objetivo de reduzir os
movimentos e racionalizar a execução das tarefas;
• Princípio de seleção e
capacitação
, que buscava selecionar e
depois desenvolver cientificamente os colaboradores por meio
do treinamento específico e destinado à tarefa;
• Princípio de
controle
, que tinha como objetivo acompanhar e
controlar a realização das tarefas por meio de supervisores;
• Princípio da
execução
, que visava a uma racional distribuição
de tarefas, definição de responsabilidades e a disciplina de
todo o sistema para, assim, possibilitar melhores resultados
de acordo com o que foi planejado.
Esses princípios foram os responsáveis, entre outros aspectos,
pela busca da produção padrão: da padronização de tarefas, de
ferramentas, de movimentos e de métodos de execução. Eviden-
temente, não é possível utilizar hoje esses conceitos sem uma
contextualização adequada. as relações de trabalho, as funções
e os papéis do colaborador tiveram mudanças radicais, mas a
base dos conceitos de padronização utilizadas até hoje conti-
nuam sendo as apresentadas no início do século passado, isto é,
com nova roupagem, novos papéis para os colaboradores, com
5
Citação de Harry Braverman, nas páginas 83 e 84, em obra citada nas referências
deste livro.
58 LEan ManuFaCturIng
funções diferentes para as máquinas e ferramentas, diante das
novas tecnologias.
O Lean Manufacturing prioriza a padronização, que é um aspec-
to vital para o seu sucesso. Sem padronização não se pode analisar,
propor melhorias ao sistema e, principalmente, possibilitar o fluxo
eficaz da cadeia de valor. a padronização é uma das principais
responsáveis pela estabilidade e pelo fluxo contínuo de uma linha
de produção. Diante do atual contexto, a padronização no setor
produtivo tem dado ênfase a quatro aspectos:
• Padronização do takt-time, que é o tempo em que o produto
completa o ciclo de produção;
• Padronização dos processos;
• Padronização da sequência das operações realizadas;
• Padronização dos estoques nos processos.
a padronização nas organizações que utilizam o Sistema Lean
Manufacturing tem sido uma das responsáveis pelos seguintes
fatores:
• Redução de falhas;
• Estabilidade da linha de produção;
• Produção em pequenos lotes;
• Regulação e melhorias nos processos das funções;
• Valorização, participação e autocontrole dos colaboradores.
Os ciclos PDCA e
SDCAO ciclo PDCA tem como objetivo controlar e indicar
oportunida-des de melhorias em um processo ao identificar os desvios diante
de resultados esperados. É realizado da seguinte maneira: faz-se um
planejamento (P), executa-se o planejamento (D), verifica-se o
resultado (C) e, se este não estiver de acordo com o planejado,
realiza-se uma ação corretiva (a).
Deve-se “rodar” o PDCA no final de cada ciclo de produção ou
ao identificar um desvio. A utilização contínua do PDCA em um
processo leva o seu gestor a identificar a estabilização do processo,
esse é o momento para a padronização.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
59
no nível operacional para o controle e a manutenção do
padrão estabelecido, é utilizada uma variação do PDCA, na qual
o P do planejamento é substituído pelo S de standard (padrão), e
isso deve ser feito de maneira cíclica, ou seja, o padrão deve ser
dinâmico. ao se atingir um padrão, deve-se buscar melhorias,
alterando o padrão anterior e estabelecendo um padrão novo e
mais eficaz, em um processo de melhoria contínua, como mostra
a Figura 2.10.
Massaaki Imai defende que as obrigações entre as melhorias
(PDCA) e manutenção (SDCA) dos processos devem ser comparti-
lhadas pela alta e média gerência e, em um segundo momento,
com os supervisores e os operadores, conforme a distribuição
sugerida na Figura 2.11. Imai sugere ainda que as inovações são de
responsabilidade maior da alta gerência e em um segundo plano
da média gerência.
A organização precisa implantar a cultura do PDCA em todos
os níveis hierárquicos. É preciso pensar, sentir e agir com foco
no PDCA, mais formal ou menos formal, e essa é a maneira
FIGURA 2.10
PDCA
versu
s SDCA.
60 LEan ManuFaCturIng
mais simples e consistente de se criar uma cultura e processos
dinâmicos para a busca de melhores resultados.
Nivelamento dos
processosa busca do Lean Manufacturing tem início com o entendimento
do pensamento lean e o comprometimento do nível estratégico
da organização, além da sensibilização de todo o corpo funcional.
O entendimento do termo muda, de maneira correta, é de vital
importância. O passo seguinte é preparar a organização, no nível
comportamental, estrutural e técnico para a implantação dos prin-
cipais programas e métodos que deverão viabilizar a filosofia JIt e,
depois, vem a implantação desses programas e métodos.
após combater as mudas e iniciar o processo de produção
puxa-da, procurando seguir o ritmo dos pedidos dos clientes, espera-se a
identificação de um problema: a não constância no funcionamento
da linha. Isso provoca períodos de sobrecarga de trabalho e outros
períodos de ociosidade, o que afeta os colaboradores, o equipa-
mento e as estruturas, ou seja, o combate inicial à muda gera o
des-nivelamento (mura) ou a sobrecarga da linha de produção (muri),
que, consequentemente, geram novas muda. É preciso, portanto,
buscar um ponto ótimo: com menor muda, menor mura e menor
muri (Figura
2.12).
a toyota identificou esse problema ainda nos anos 1950, quan-
do passou a fornecer caminhões para que os norte-americanos
FIGURA 2.11 Responsabilidades sobre a mudança e manutenção dos
processos.
Fonte:
Adaptada de Imai (1994), p.
6.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
61
utilizassem na guerra da Coreia. Desde lá, busca-se uma solução
eficaz para o nivelamento da produção em volume e mix (combi-
nação) de produtos, que é conhecido em algumas organizações
por heijunka.
a solução foi não considerar a ordem dos pedidos de cada
cliente, o que não pode ser controlado e pode ter significativas
variabilidades, mas pode definir pequenos períodos e nestes
considerar o total de pedidos e nivelá-los para obter um mesmo
nível de produção a cada momento. Ohno já sugeria, nos anos
1950, que “deve rebaixar os picos e elevar os vales de produção
tanto quanto possível, de modo que a superfície do fluxo seja
suave”.6 Com isso, corre-se o risco do não atendimento imediato
ao cliente, do aumento da quantidade de setup na linha e das
necessidades de programação de pequenos lotes. Quanto à gestão
dos setups, será preciso reduzir o seu tempo, o que será
analisadono Capítulo 3 por meio da troca rápida de ferramentas (trF).
Quanto à programação de pequenos lotes, os sistemas de abas-
tecimento das unidades produtivas e das linhas de produção, Milk
6
OHnO, t. O sistema Toyota de produção: além da produção em larga escala.
Porto Alegre: Bookman, 1997, p.
54.
FIGURA 2.12 Os 3
Ms:
muda, mura e
muri
. Fonte:Liker (2005),
p.121.
62 LEan ManuFaCturIng
run e Kanban, são dois dos responsáveis por essa gestão, também
serão apresentados no Capítulo 3.
Já quanto à primeira posição, o não atendimento imediato ao
cliente, isso é verdadeiro no início da implantação do processo
de nivelamento, mas, em um segundo momento, e consideran-
do as unidades de produção, os ganhos para a organização e para
o próprio cliente são significativos, bem maiores que os prováveis
prejuízos identificados, já que o nivelamento tende a eliminar
custos com a ociosidade ou a sobrecarga da linha, e estes são sig-
nificativos. O nivelamento faz com que a linha de produção opere
uniformemente e busque atender os clientes nos diversos compo-
nentes ou produtos. assim, o nivelamento busca a otimização de
todos os recursos da organização, como estrutura, equipamentos,
colaboradores, entre outros.
Ohno fez uma associação clássica esclarecedora entre uma
tartaruga e uma lebre, para exemplificar a importância de um sis-
tema nivelado, ao dizer que: “a lenta, porém consistente, tartaruga
causa menos desperdício e é muito mais desejável que a lebre
veloz que corre na frente e para de vez em quando para cochilar.
O Sistema Toyota de Produção só pode funcionar quando todos os
trabalhadores se tornarem tartarugas”. 7
Com o nivelamento, é possível minimizar os efeitos negativos
da demanda puxada e não previsível do cliente, com a necessidade
de uma produção previsível, com a distribuição e utilização dos
recursos já existentes e da capacidade instalada, de maneira mais
constante em períodos determinados (veja Figura 2.13).
Para a organização atingir o nivelamento, é necessário tempo
para amadurecimento dos processos produtivos e de relaciona-
mento com os diversos clientes, internos e externos, além de um
sistema de planejamento disciplinado e da utilização eficaz de
programas ou sistemas vinculados ao Lean Manufacturing, prin-
cipalmente a TRF, a TPM, a Kanban e Milk
Run.
O nivelamento é a busca, através de uma programação, de uma
linha de produção com funcionamento e alimentação constante,
7
Idem, página
78.
Capítulo 2 • Aprendendo o Suporte para o Lean
Manufacturing
63
com o objetivo de minimizar as variações provocadas pelos pedidos
não constantes dos clientes. O nivelamento é um dos conceitos
de maior importância para a manutenção de um Sistema Lean
Manufacturing.
nas Figuras 2.14 e 2.15 é apresentado um exemplo de uma linha
que produz os produtos a, B, C e D. O total da produção semanal é
de mil unidades, sendo 150 unidades do produto a; 300 do produto
B; 50 do produto C; e 500 do produto D.
a produção sequencial dos produtos, em uma semana, o que
geralmente é feito em uma linha de produção tradicional, exige
apenas três setups semanais, que é um dos pontos críticos em
qual-quer linha de produção (Figura 2.14). Mas isso provocará muitas
FIGURA 2.13 Busca do nivelamento da
produção.
FIGURA 2.14 Produção semanal dos produtos A, B, C e D não
nivelada.
64 LEan ManuFaCturIng
perdas por estocagem, mobilização desnecessária de capital, entre
outros desperdícios, já que, por exemplo, o produto a, que será
produzido apenas na segunda-feira, poderá ficar muito tempo
acabado e estocado esperando o cliente. Já no caso de um cliente
que deseja um produto D na segunda-feira, ele teria de esperar até
quarta-feira, quando esse produto será produzido.
todos esses inconvenientes são solucionados pela programação
da produção sugerida pela Figura 2.15, que apresenta o nivelamen-
to da produção para uma semana, considerando como unidade
para nivelamento o dia. Há, nesse caso, quinze setups semanais
em vez dos três anteriores, mas os métodos e sistemas a serem
utilizados buscarão minimizar de maneira eficaz e significativa o
tempo dos setups, fazendo com que o nivelamento apresente no
final condições bem mais vantajosas que a situação anterior.
a busca do nivelamento eficaz deve ser uma das metas, não sim-
plista, de uma organização que já tenha iniciado a implantação ou
que deseje implantar o Sistema Lean Manufacturing, sendo que o
fluxo de processos padronizados é um dos pré-requisitos funda-
mentais, e os resultados de longe compensarão os investimentos
e tempo dedicado ao nivelamento eficaz: heijunka.
Diante das etapas dos processos, no que diz respeito à gestão,
medição, melhoria, padronização e nivelamento, já vencida, o
capitulo seguinte deverá apresentar os métodos, os sistemas e
os programas utilizados para possibilitar a filosofia just in time
(JIt), dando continuidade às variáveis do modelo apresentado na
Figura 1.7, no Capítulo 1.
FIGURA 2.15 Produção Semanal dos produtos A, B, C e D
nivelada.
65
Desenvolvendo Lean
Manufacturing
Os gerentes responsáveis pela produção devem
reconhecer que a melhor estratégia é produzir aquilo que
pode ser vendido... mas ... Se você não consegue imaginar
como realizar alguma coisa, discuta com suas máquinas.
Shigeo
ShingoCriador de métodos e sistemas
para o Lean Manufacturing
Este capítulo tem como objetivo apresentar os sistemas, mé-
todos e programas que alimentam a filosofia just in time (JIT), o
suporte maior para o Lean Manufacturing. Inicialmente, será feita
uma abordagem histórica e conceitual do JIT e, em seguida, para
facilitar o entendimento, principalmente dos principiantes no
tema, foi feita uma sistematização com quatro focos: estruturas,
mão de obra, equipamentos e movimentos.
Nesses quatro focos, serão apresentados os seguintes métodos,
sistemas e programas recomendados e mais utilizados no Lean
Manufacturing: 5S; Layout em celular; Poka-Yoke, Jidoca, Troca
rápida de ferramenta (TRF), Manutenção produtiva total (TPM),
Kanban e Milk Run.
A filosofiajust in
timeO just in time (JIT), cuja tradução significa “no momento exato”,
teve como visionário Kiichiro Toyoda, mesmo antes do surgimento
da Toyota, da qual foi o fundador. Após uma visita que fez à fábrica da
Ford, em Detroit, foi inspirado a conceber um sistema para controlar
os estoques em todas as estações de trabalho, reduzindo, assim, des-
perdícios em toda a linha de produção.
3
66 LEAN
MANuFAcTuRINg
Os primeiros passos para a concepção do sistema JIT foram no
início da década de 1950, quando Taiichi Ohno, por orientação de
Eiji Toyoda, implantou, em uma oficina na unidade da Toyota em
Nagoya, um sistema para gerenciar o suprimento, que só permitia
adquirir as peças necessárias no momento certo e na quantidade
desejada.
Quase uma década depois o sistema seria implantado plena-
mente em toda a organização. No primeiro momento, o termo JIT
foi diretamente associado ao Kanban, mas já no final da década de
1960 JIT tinha uma amplitude bem maior, sendo o Kanban apenas
um dos sistemas que buscavam viabilizar o JIT.
O JIT só chega ao Ocidente após a crise do petróleo dos anos
1970, mas hoje, pelo fato de ter se tornado o objetivo de muitas
organizações, dos diversos setores da economia, não pode ser con-
siderado apenas um método ou técnica de produção. Na verdade,
o JIT é tratado como uma filosofia, que norteia sistemas, métodos
e programas para viabilizar o sistema Lean Manufacturing.
Muitas são as definições e interpretações sobre o JIT encon-
tradas na literatura especializada ou nas organizações, e o próprio
Ohno, considerado o seu “criador”, diz que JIT “é um conceito único
e de difícil compreensão”.
uma forma de entender e conceber um conceito próprio para
o JIT, customizado a cada organização, é buscar o entendimento
de seus princípios e objetivos que perseguem a melhoria contínua
dos processos a partir da busca de:
• Ambiente de trabalho limpo e
organizado;• Células de produção com base na
tecnologia de grupo;• Sistema à prova de
falhas humanas;• Sistemas e equipamentos controlados pelo
operador;• Menor tempo de
preparação da
máquina;
• Maior integração operador x
máquina;• Sistema de produção puxada
pelo cliente;• Zero estoque em
todo o
processo;
• Um eficaz abastecimento e
otimização da relaçãocom os fornecedores ou parceiros;
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
67
• Zero
defeito;
• Zero
des
perdício;
• Qualidade
total
.O JIT tende a nortear a organização para um menor lead time,
reduzir custos, eliminar os desperdícios, aumentar a flexibilidade,
dar confiabilidade ao sistema e, principalmente, possibilitar uma
integração eficaz entre o ciclo de produção e o ciclo de consu-
mo, fazendo com que a produção atenda plenamente o valor do
cliente
.
Métodos operacionais para
o
just in
timecom o objetivo de criar as condições necessárias para operacio-
nalizar a filosofia JIT, este livro sistematizou as principais ações, os
sistemas, os métodos e os programas nos quatro focos já citados,
como mostra a Figura 3.1.
FIGURA 3.1 JIT e seus sistemas, métodos e
programas.
68 LEAN
MANuFAcTuRINg
O foco nas estruturas abordará as medidas relacionadas à orga-
nização e ao layout de linha; o foco na mão de obra, a prevenção
das falhas humanas e a automação com toque humano; o foco
nos equipamentos, as técnicas para redução do tempo de setup e
a prevenção de falhas nas máquinas; e o foco nos movimentos, o
abastecimento da linha e das unidades produtivas.
Foco nas
estruturasO êxito do Lean Manufacturing em um primeiro momento está
associado às condições estruturais adequadas. com esse objetivo,
foram selecionadas duas ações eficazes: a organização da linha e a
definição adequada do layout da linha (Veja Figura 3.2).
A organização da linha pode ser realizada com eficácia por
meio do programa 5s. criando com base nas características cul-
turais japonesas, esse programa visa arrumar a “casa” a partir
da otimização de espaços físicos, do descarte de utensílios, ar-
quivos ou outros matériais não necessários ao processo produ-
tivo; da organização e do adequado posicionamento de móveis
e equipamentos, e da padronização de condições de trabalho
disciplinados pelos órgãos reguladores e que venham garantir a
integridade física dos equipamentos e a saúde e o bem-estar dos
colaboradores.
Já o layout da linha deve ser definido de acordo com as es-
pecificações e natureza do processo, e a correta definição do
layout otimiza recursos, espaço, tempo e movimentos, agilizando
FIGURA 3.2 Foco nas estruturas e suas
ações.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
69
e aumentando a eficácia do processo. Não existe genericamente
layout melhor ou pior; existe, sim, layout que se adapta de maneira
mais adequada e eficaz às necessidades e características de cada
processo.
A seguir, são apresentados os diversos tipos de layout para o se-
tor produtivo com as características, vantagens e desvantagens de
cada um. O layout em células, associado à tecnologia de grupo, tem
se notabilizado nas unidades de manufatura que utilizam o Sis-
tema Lean e, em muitos casos, tem se mostrado o mais adequado.
Programa 5
S O Programa 5S — conhecido em algumas organizações como
housekeeping, que significa “arrumando a casa” — teve origem no
Japão, no início dos anos 1950, e foi motivado pela necessidade
de reorganizar em todos os níveis esse país parcialmente des-
truído pela Segunda guerra Mundial, isto é, nas organizações, na
sociedade e nas residências.
Kaoru Ishikawa foi um dos grandes incentivadores desse pro-
grama simples e de baixo custo de implementação, que possibilita
a participação de todos e que, se bem gerenciado, pode trazer
resultados significativos para a organização.
A denominação 5S está vinculada aos cinco sensos priorizados
pelo
programa:
• Seiri: senso de
utilização;• Seiton: senso de
organização;• Seiso: senso de
limpeza;• Seiketsu: senso de
padronização;• Shitsuke: senso de
disciplina.
Conceituando os cinco sensos (5S)
Em uma pesquisa na literatura e em manuais de empresas é
pos-sível verificar que os cinco sensos muitas vezes são conceituados
de maneira diferente, o que não configura um problema, já que se
aconselha adequar e contextualizar cada um dos “S” à realidade e
70 LEAN
MANuFAcTuRINg
aos aspectos culturais da organização analisada. Na sequência, serão
apresentados conceitos e objetivos para cada um dos cinco sensos:
• Seiri — senso de
utilização
: tem como objetivo otimizar os
espaços, a alocação e utilização de móveis, equipamentos e
materiais de trabalho em geral. É aconselhável que nos locais
de trabalho estejam alocados apenas o necessário e com layout
adequado para a
utilização eficaz.• Seiton — senso de
organização
: tem como objetivo ordenar
racionalmente móveis, equipamentos, material de uso e
documentos para facilitar o acesso e a utilização dos diversos
recursos em um layout coerente. Busca ainda definir novas
formas de armazenar materiais de consumo e definir novos
fluxos de produção.
• Seiso — senso de
limpeza
: tem como objetivo deixar sempre
limpo ou em condições favoráveis para uso os recursos físicos,
móveis e equipamentos utilizados. Procura criar a cultura
de utilizar um calendário para limpeza e manutenção de
equipamentos, ferramentas e estrutura.
• Seiketsu — senso de padronização : tem como objetivo
cumprir as recomendações técnicas e manter as condições de
trabalho e dos colaboradores, favorecendo a saúde com relação
às limitações físicas e mentais. Procura ainda a padronização
dos bons hábitos das normas técnicas e dos procedimentos e
ações
eficazes.
• Shitsuke — senso de
disciplina:
tem por objetivo criar uma
cultura para educar, conscientizar e disciplinar o colaborador
visando a um comportamento e a hábitos que motivem a
melhoria contínua por meio da força física, mental e moral.
Busca ainda a manutenção dos quatro sensos iniciais.
Importância do Programa 5S
O Programa 5S não pode ser considerado um programa de
qualidade, mas é o passo inicial e a base para muitos processos
de melhoria nas organizações por intermédio da busca e da
introdução de boas e eficazes práticas, com o objetivo de criar e
manter um ambiente limpo, organizado, com layout adaptado às
necessidades e potencialmente gerenciável.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
71
O padrão do layout e as condições do ambiente de trabalho no
que diz respeito à organização e limpeza poderá ser constatado
visualmente e monitorado por qualquer operador que possa identifi-
car anomalias, desvios e necessidades de alinhamento. um ambien-
te organizado e limpo é condição básica para a operacionalização
eficaz de muitas das ações utilizadas no Lean Manufacturing, dentre
elas a preparação da manutenção produtiva total (TPM) e da troca
rápida de ferramentas (TRF), o fluxo das células de produção, a pre-
cisão da autonomação e a dinâmica do Kanban (veja a Figura 3.3).
As dimensões do programa 5S
O programa 5S contempla, conforme apresentado na Figura 3.4,
três dimensões: física, intelectual e social. A dimensão física está
relacionada à preparação do ambiente por meio da utilização dos
sensos de utilização, organização e limpeza, com o objetivo de tor-
nar o fluxo de trabalho mais eficaz, mais rápido e sem desperdício.
A dimensão intelectual é motivada pelo aprendizado contínuo
obtido com a aplicação dos cinco sensos e com a busca de novos
valores e maneiras de atendê-los, visando obter padrões novos e
mais eficazes. Os sensos de padronização e de disciplina são os mais
atuantes nessa dimensão.
FIGURA 3.3 O programa 5S e as ações do Sistema
Lean.
72 LEAN
MANuFAcTuRINg
A dimensão social está disseminada em todo o programa 5S,
e o trabalho em equipe, em todas as etapas e busca integrar todo
o corpo funcional diante de um único objetivo. Em particular o
“Dia do Descarte” ou “Dia D”, é um dos momentos mais ricos
para gerar uma nova e eficaz dinâmica de relacionamentos den-
tro das organizações. O Dia do Descarte, com data marcada com
antecedência e divulgada em toda a organização, é o dia em que
os colaboradores fazem uma arrumação total na organização,
liberando áreas antes ocupadas por objetos ou equipamentos sem
necessidade, enviando para o lixo papéis e documentos antigos,
móveis velhos ou quebrados, equipamentos defeituosos ou sem
utilização, e tudo isso com o objetivo de permanecer no local de
trabalho somente o necessário para as atividades produtivas.
Benefícios do programa 5S
Muitos são os benefícios de um programa 5S implantado
e gerenciado com eficácia, e entre os principais estão:
FIGURA 3.4 As dimensões do programa
5S.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
73
• Aproveitamento eficaz dos
espaços;• Otimização de materiais e
mobiliário;• Redução do
desperdício;• Motivação das equipes
de trabalho;• Maior
orga
nização;
• Maior
limpeza;
• Criação de novos
valores na
organização.Implantação e manutenção do programa 5S
O sucesso do programa 5S está relacionado a dois momen-
tos: a implantação e a manutenção. Alguns autores procuram
dividir o programa em três momentos: 5S ativos, 5S eficazes e
5S preventivos. E todos eles utilizam a mesma sequência: senso
de utilização, senso de organização, senso de limpeza, senso de
padronização e senso de disciplina.
Os 5S ativos estão relacionados com o início da implantação do
programa; os 5S eficazes, com a consolidação; e os 5S preventivos
buscam a manutenção através de ações preventivas.
As principais etapas para a implantação do programa 5S são:
• Buscar o comprometimento do
nível estratégico;• Buscar o conhecimento do
nível tático;• Buscar a sensibilização do
nível operacional;• Formar equipes 5S para a
implantação do programa;• Capacitar os facilitadores para o
programa;• Registrar a situação atual das unidades
da organização;• Divulgar o programa em toda
a organização;• Promover o Dia do Descarte com foco
na otimização dautilização, na ordenação física, operacional e na limpeza.
Já as principais etapas para a consolidação e manutenção do
Programa 5S são:
• Manter o comprometimento do
nível estratégico;• Criar ações para divulgação
do programa 5S;• Criar ações de modo a
motivar os colaboradores parao programa 5S;
74 LEAN
MANuFAcTuRINg
• Definir critérios de inspeção para a
busca de um fluxoprodutivo eficaz e para integridade
física e mentaldo trabalhador;
• Capacitar a equipe
para inspeção;• Criar e implantar programa
de avaliação;• Criar e implantar o programa
de reconhecimentoe recompensa associado ao programa 5S;
• Reforçar o programa, buscando introduzir na
organizaçãovalores para cristalizar os sensos de utilização, ordem,
limpeza, padronização e disciplina.
A seguir, leia o estudo de caso da WEg, relatado por um cola-
borador da empresa.
CASO ORGANIZACIONAL: WEG– O PROGRAMA
MELHORIA CONTÍNUA WEG (PMC)
Na WEg Equipamentos Elétricos, o Lean Manufacturing está inserido
no programa de melhoria contínua (PMc), que é um dos pilares
do Sistema de gestão WEg, conforme a Figura c1.
Marcio Rui de Oliveira 1
FIGURA C1 Os programas de melhoria da
WEG.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
75
Além do PMc, iniciado em 2008, a WEg mantém hoje mais três
programas que buscam melhorias nos processos:
• Comissões, iniciado em
1969;• CCQ, iniciado
em
1982;
• PWQP, iniciado
em
1991.
O PMc foi responsável pela disseminação da cultura de melhoria
contínua por todas as áreas da organização e apresenta como principais
metodologias:
• Gemba
Kaizen
2
• Mapeamento do fluxo
de valor• 5S
O PMc busca gerar:
• Ganhos de produtividade e
de espaço físico;• Maiores retornos sobre
o
investimento;
• Eliminação de desperdícios e atividades que não
agregam valor;• Redução de
despesas;• Fortalecimento dos processos para aprendizagem e
melhoria contínua.Para dar sustentação à implantação do PMc foi estruturado o
“departamento de melhoria contínua e meio ambiente”, no qual se
definiram coordenadores Kaizens para dar
suporte metodológico acada uma das unidades de negócio: automação, motores elétricos,
energia, tintas, transmissão e distribuição.
O PROGRAMA 5S NA
WEGO 5S é um programa utilizado na WEg desde 1994 e busca gerar
um ambiente de trabalho mais organizado e agradável a todos
os colaboradores ( Figura c2). Além disso, ajuda na educação, no
treinamento e na prática efetiva do trabalho em equipe, levando a
empresa a ganhos de qualidade e produtividade. A WEg trabalha o
programa 5S com as seguintes interpretações:
• Seiri (senso de utilização): separar
o útil do inútil• Seiton (senso de ordenação): cada
coisa em seu lugar• Seiso (senso de limpeza):
manter o local
limpo
• Seiketsu (senso de padronização): padronizar
as boas práticas• Shitsuke (senso de autodisciplina): práticar
para se tornar hábitoDentro do PMc, os conceitos do 5S de utilização, ordenação,
limpeza, padronização e autodisciplina são fortemente aplicados tanto
(Continua
)
76 LEAN
MANuFAcTuRINg
nos mapeamentos de fluxo de valor, quanto nos eventos Gemba
Kaizensrealizados nos processos, e o principal objetivo é facilitar a atividade
do operador em seu posto de trabalho, agregando valor aos produtos e
serviços WEg com a implantação de práticas 5S que:
• Reduzam ou eliminem a movimentação de pessoas
e a procura pormatérias-primas, equipamentos, documentos e informações;
• Reduzam o transporte de materiais e
produto acabado entre asoperações;
• Reduzam ou eliminem o excesso de
estoque entre os processos(Work in Process/Progress —
WIP);• Reduzam ou eliminem a possibilidade
de retrabalho;• Reduzam ou eliminem o trabalho fisicamente
extenuante com aliberação de espaços.
A Figura c2 apresenta um quadro com os momentos antes e depois
de uma aplicação do programa 5S.
PROJETO WEG AUTOMAÇÃO
No processo de produção de drives, elaborou-se o mapeamento
de fluxo de valor, no qual foram evidenciadas oportunidades de
ganhos de produtividade, gerando, assim, um conjunto de eventos
Gemba Kaizens para alcançar tais resultados. No fluxo de materiais,
realizaram-se melhorias de 5S para facilitar o acesso a insumos e
equipamentos tanto para os operadores, quanto para os abastecedores
das linhas de produção, aumentando, assim, o tempo de agregação
de valor aos produtos e melhoria no lead time. Nas Figuras c3 e c4
FIGURA C2 O processo antes e depois do programa
5S.
Font
e
: Kaizen
Institute.
Capítulo3•
DesenvolvendoLean
Manufacturing
77(Continua) FIGURA C3 Fotosdosprocessosna WEG.
78 LEAN
MANuFAcTuRINg
FIGURA C4 Fotos dos processos na
WEG.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
79
Células de
produçãoA definição do layout de uma unidade do setor produtivo é uma
das etapas de maior importância na definição, no planejamento e
na operação da produção.
Mas, para a correta definição do layout do setor produtivo, é
necessário analisar:
• A especificação e especificidade dos produtos
finais e parciais;• A localização da unidade industrial e a
distância desta dosfornecedores e dos clientes;
• O mercado potencial para o
produto final;• A capacidade de
produção;• O nível de automação e
tecnologias a serem utilizadas;
são apresentadas fotos dos processos operacionais da WEg com a
utilização do Programa 5S.
A busca e o acesso a informações importantes para realização das
operações também foram otimizados e disponibilizados de maneira
ordenada, respeitando o FIFO 3
por meio de caixas de nivelamento e
sequenciadores posicionados próximos às células de produção.
Essas ações de utilização, ordenação e padronização criaram
uma melhor gestão visual das áreas produtivas e contribuíram para
consolidação de um fluxo mais rápido e contínuo, com ganhos
expressivos de produtividade e redução dos desperdícios de
movimentação de pessoas, redução do estoque entre os processos e
superprodução.
1
Marcio Rui de
Oliveira
é Engenheiro de alimentos, com pós-graduações
em qualidade e produtividade e em Lean Manufacturing. Atualmente,
é coordenador corporativo do programa de melhoria contínua na WEg
Equipamentos Elétricos S.A.
2
gemba está associado ao “chão de fabrica” onde os processos de transformação
ocorrem. O gemba Kaizen são as melhorias de forma contínua que devem
ocorrer no local da
produção.3
FIFO — First In, First Out, “primeiro a entrar, primeiro a sair” está associado
a uma sequência em processo produtivo. utiliza-se ainda frequentemente o
LIFO — que
significa Last In, First
Out.
80 LEAN
MANuFAcTuRINg
• A lógica sequencial para
o setor produtivo;• A quantidade e o tipo de
máquinas a serem utilizadas;• O ciclo entre duas máquinas ou estações
de trabalho sucessivascom o objetivo de garantir o balanceamento da produção;
• A dimensão e a infraestrutura necessárias para
cada estação detrabalho e para o setor produtivo como um todo;
• O método e as especificidades para o
fluxo de materiais no setorprodutivo;
• Os métodos e as relações entre
máquinas e operadores.
Para a definição do melhor layout do arranjo físico produtivo
diante das posições citadas, é preciso, ainda, verificar a melhor
relação entre a capacidade do sistema, os custos envolvidos, o
eficaz balanceamento da produção e a velocidade de produção.
Os principais tipos de layout são:
• Layout por
linha
;
• Layout por
processo
;
• Layout por
posição
;
• Layout por
células
.Layout por linha
O layout por linha caracteriza-se por ter as estações de trabalho
na sequência previamente definida pelas operações e é utilizado
com frequência em unidades produtivas com pouca diversificação,
padronizada e contínua que necessitam de uma produção em
grande escala e com baixo custo unitário. Quanto maior a pa-
dronização, maior será o investimento inicial e menor será o custo
final dos produtos (veja Figura 3.5).
Esse layout tem como fatores positivos a facilitação dos métodos
de controles, a gestão dos operadores e a previsão do fluxo de
materiais. E como fatores negativos podem ser explicitados a neces-
sidade de um alto investimento inicial nas estações de trabalho no
que diz respeito a operadores e máquinas.
As atividades repetitivas executadas pelos operadores nesse
tipo layout podem causar problemas motivacionais e estresse nos
operadores. Outro problema gerado em consequência do layout por
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
81
linha é a falta de condições de se estabelecerem planos individuais
de produtividade e incentivos.
Na Figura 3.6 é apresentado um modelo de layout por linha, e
alguns exemplos desse tipo de layout são:
FIGURA 3.5 Nível de padronização da produção diante do custo e
volume.
FIGURA 3.6 Layout por
linha.
82 LEAN
MANuFAcTuRINg
• Linha de montagens de
automóveis;• Programa de triagem em um
serviço de saúde;• Sistema de verificação e emplacamento
de veículos.
Layout por processo
O layout por processo caracteriza-se pelo agrupamento de ati-
vidades ou operações similares em uma mesma área, com o
des-locamento dos materiais ou produtos semiacabados. Os processos,
ou grupo de processos, recebem os elementos a serem processados
em uma ordem predefinida para cada tipo de produto.
comparando com o layout por linha, a produção no layout por
processo tem uma velocidade menor com custos fixos menores,
mas os custos unitários tendem a ser maiores.
As principais vantagens do layout por processo são: flexibilidade
para produtos diferentes; flexibilidade para a produção de pequenos
lotes; infraestrutura e equipamentos mais baratos, se comparados
com os utilizados no layout por linha; identificação de falhas de
maneira mais eficaz e com maior precisão; possibilidade de medição
da produtividade individual e a decorrente utilização de uma polí-
tica com salários variáveis e incentivos vinculados aos resultados.
Pode-se considerar desvantagens do layout por processo: a pos-
sibilidade de maior estoque de materiais e produtos semiacabados
entre os processos; o planejamento e controle são mais complexos;
e a produção geralmente apresenta uma velocidade menor do que
a tratada na produção no layout por linha.
Na Figura 3.7 é apresentado um modelo de layout por processo.
Seguem alguns
exemplos:
• Serviços em um
hospital;• Atividades em uma
agência bancária;• Vendas em um
supermercado.
Layout por posição
O layout por posição, também conhecido por layout por posi-
ção fixa, caracteriza-se pela concepção de produtos que tendem a
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
83
permanecer fixos durante todo o processamento, ou seja, quem se
desloca são as estações de trabalho em torno dele.
Esse layout é utilizado para concepção de produtos únicos,
muitas vezes apenas uma unidade, por isso com baixa ou ne-
nhuma padronização, o que exige, no processamento, um alto
nível de habilidades diferenciadas dos operadores e dos equi-
pamentos.
A Figura 3.8 apresenta um modelo de layout por posição, e a
seguir estão alguns exemplos:
• Construção de um
edifício;• Construção de um
navio;• Construção de uma
rodovia.
Layout por células
O layout por células (Figura 3.9) caracteriza-se por ter como
suporte o agrupamento de peças, componentes ou ações similares
em grupos ou família que são denominadas “tecnologia de grupo”,
que é a concepção ou o processamento de peças e componentes
FIGURA 3.7 Layout por
processo.
84 LEAN
MANuFAcTuRINg
com características semelhantes em unidades que tenham equipa-
mentos ou para as quais sejam executadas ações para essa mesma
finalidade. O objetivo, a partir do agrupamento de diversas peças
ou componentes, por meio da forma, do tamanho ou de ações do
FIGURA 3.8 Layout por
posição.
FIGURA 3.9 Layout por
células.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
85
processo, é o de aumentar a eficácia da produção com a otimização
dos recursos já disponíveis.
O conceito de tecnologia de grupo foi originalmente utiliza-
do pela Toyota, mas o pioneiro dos estudos e desenvolvimen-
tos de técnicas é o russo S. P. Mitofanov. Outras contribuições
significativas ao estudo da tecnologia de grupo surgiram com
H. Opitz, na Alemanha, e com J. Burbidge, na Inglaterra, ambas
no início dos anos 1960: Opitz desenvolveu o sistema de codi-
ficação e classificação (Scc), com foco no agrupamento diante
das características geométricas das peças; já Burbidge buscou um
agrupamento com base nas ações similares no fluxo de um sis-
tema produtivo e dos consequentes grupos por meio da análise
de fluxo de produção (AFP).
Esses sistemas e essa metodologia criaram a base e alimentam
os novos sistemas e métodos de controle, como os sistemas flexíveis
de manufatura (FMS) e a manufatura integrada por computador
(cIM).
Além dos sistemas já citados de tecnologia de grupo, sistema
de codificação e classificação (Scc) e análise de fluxo de produção
(AFP), outros sistemas com menor ou maior complexidade também
são utilizados, entre eles:
• Inspeção ou agrupamento
visual
: agrupamento de peças pela
análise visual ou experiência dos operadores;
• Análise de
agrupamento
: método de maior complexidade,
que utiliza o conceito matemático de matriz, denominada
matriz de incidência peça/máquina, para o estudo das diversas
possibilidades de agrupamentos.
• Algoritmo
s
: o desenvolvimento e a aplicação de algoritmos
para o agrupamento eficaz vêm sendo
realizados por meio deprogramação matemática e técnicas heurísticas.
• Metodologias com base na inteligência artificial : este
método utiliza a inteligência artificial e
leva em consideraçãoprincipalmente as características geométricas das peças e as
características e especificidade do processo ou
do fluxo.
A orientação para a eficaz definição dos grupos e, consequen-
temente, a formação das células pode tomar como base o projeto,
86 LEAN
MANuFAcTuRINg
os processos ou o fluxo de produção. Várias são as vantagens ao
utilizar o conceito de tecnologia de grupo para a formação do
layout por células:
• Otimização do tempo de setup, de
operação e de produção;• Redução de custo com
maquinário, com estoqueintermediário, espaço e mão de obra;
• Aumento do nível de automação,
da autonomiae da responsabilidade do operador, da motivação
dos trabalhadores, da qualidade das peças ou dos componentes
e da satisfação dos clientes.
O layout por célula geralmente tem formato em “u” (Figura 3.10)
e busca flexibilidade e uma ação produtiva completa nas peças ou
nos componentes. Para definir o número de máquinas e operadores,
é levado em consideração o balanceamento da linha, o tamanho dos
lotes, o espaço físico disponível e as especificidades do processo.
FIGURA 3.10 Uma célula de
produção.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
87
uma célula pode ser concebida, de maneira semelhante aos
tipos clássicos de layout aqui já apresentados, em:
• Células de manufatura por linha: com
foco na máquinaou com foco no operador.
• Células de manufatura
por processo.• Células de manufatura por
posição fixa do
produto.Segue, exemplificando a utilização de celulas de produção, um
caso relatado por colaborador da EMBRAER.
CASO ORGANIZACIONAL: EMBRAER– O PROGRAMA
DE EXCELÊNCIA EMPRESARIAL EMBRAER (P3E)
No segundo semestre de 2007 foi lançado na Embraer o Programa de
Excelência Empresarial Embraer (P3E), com o objetivo de melhorar os
resultados da empresa, aumentando sua competitividade e
eficiênciaoperacional. O P3E possui as frentes pessoas, cultura, liderança e
eficiência empresarial. Todas as frentes estão baseadas nos
princípiosda filosofia lean. A partir de 2011, foram
incorporados também algunsrequisitos baseados nos critérios do Prêmio Nacional da Qualidade,
o PNQ.
AS CÉLULAS DE MELHORIA CONTÍNUA
De modo a operacionalizar o P3E, todos os fluxos de valor na Embraer
foram mapeados e estruturados em forma de células, as quais são
formadas por pessoas, podendo ser de diferentes áreas, que trabalham
no mesmo fluxo de valor e compartilham os mesmos resultados. As
células trabalham em um sistema cliente-fornecedor, sendo que cada
bem ou serviço processado e produzido compõe parte do resultado
de todo o negócio.
A estruturação da empresa em células busca organizar as áreas de
acordo com cada fluxo de valor, independente da estrutura hierárquica
ou da localização física dos membros e processos. Todas as células
da Embraer, desde o projeto, passando pela produção, pelas áreas de
apoio e chegando ao contato com cliente e suporte, aplicam as mesmas
ferramentas e devem mostrar melhoria em seus resultados.
Vitor Eduardo Nogueira Lourenço 4
(Continua
)
88 LEAN
MANuFAcTuRINg
cada célula de melhoria contínua possui um líder, responsável pelos
resultados da célula, e um agente de melhoria contínua, que auxilia nas
atividades de melhoria contínua, kaizens, treinamentos e aplicação de
ferramentas no dia a dia. As células são apoiadas pelo Time P3E, conforme
Figura c5 dos KPOs5
, que auxiliam na identificação e
condução de eventoskaizen e dos consultores Lean, que ajudam as células na aplicação das
ferramentas do P3E e de treinamentos.
EVOLUÇÃO DAS
CÉLULASAs células demonstram sua evolução por meio de etapas: passam
pela qualificação e pelas certificações bronze, prata
e ouro, e para issodevem demonstrar a correta aplicação das ferramentas e obtenção
de resultados. Na Embraer, células qualificadas são aquelas que se
estruturaram e iniciaram a aplicação das ferramentas P3E. As células
bronze mostraram melhoria e atingiram bons resultados em alguns
processos; as células prata apresentam melhoria considerável diante
dos resultados bronze e já possuem seus principais indicadores
estabilizados há determinado período de tempo. As células ouro
devem apresentar resultados estáveis e equivalentes a referenciais
comparativos adequados, podendo ser consideradas best in
class.AS FERRAMENTAS DO
P3EO dia a dia das células está baseado na prática de ferramentas que se
relacionam e estimulam a aproximação entre células distintas. Algumas
das principais ferramentas são:
FIGURA C5 Atores dos processos de melhoria da
EMBRAER.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
89
• SIPOC
:
ferramenta que mostra a identidade da célula e suas
interfaces por meio da identificação de fornecedores (suppliers),
entradas (inputs), processos (process), saídas (outputs) e clientes
(clients). Também são levantados requisitos com relação às
entradas, bem como pesquisadas as expectativas dos clientes em
relação às saídas.
• Torre de
controle:
painel com os principais resultados de negócio
da célula, com indicadores relativos a meio ambiente, saúde e
segurança, clientes, qualidade, entregas, financeiro e pessoas.
• MFA: pesquisa de satisfação de clientes (market feedback
analisys)internos ou externos com relação ao atendimento de requisitos
de produtos e definição de planos de ação de modo a aumentar o
atendimento a esses requisitos.
• Clínica da qualidade: ferramenta utilizada para a resolução
de problemas por meio da análise destes por pessoas de áreas
relacionadas, com a identificação de causa raiz e definição de ações
eficazes. Também é utilizada para o acompanhamento de ações de
melhoria provenientes de desperdícios identificados.
• DMAIC: as células aplicam a Metodologia Seis Sigma, através do
DMAIc 6
como forma de gestão de seus processos e projetos. com
base nas expectativas dos clientes, são definidas características
críticas para a qualidade (cTQs), que geram indicadores de
processos. São mapeadas as principais variáveis que afetam
esses indicadores e criam-se planos de ação e de controle para
manter os mesmos em níveis ótimos, sempre mantendo o foco nas
necessidades ou nos requisitos dos clientes.
• Mapa de fluxo de valor
(VSM):
ferramenta utilizada para mapear
os fluxos de materiais e informações, e para identificar atividades
que, sob a ótica do cliente, agregam valor aos produtos. Mapeia-se
a situação atual e planeja-se a situação futura por meio da
identificação de melhorias e de desperdícios que precisam ser
eliminados.
AGRUPAMENTOS E FLUXO DE VALOR
Em 2011, a Embraer começou a organizar suas células em
“agrupamentos”, ou seja, conjuntos de células que processam os
mesmos produtos (valores). Esses agrupamentos serão novamente
unidos em “fluxos de valor” ou cadeias maiores, interligando todas
as áreas da empresa, desde o início de seu fluxo até a entrega de cada
produto ao cliente, de modo que cada célula entenderá seu impacto
(Continua
)
90 LEAN
MANuFAcTuRINg
em toda a cadeia e no
cliente final. A Figura c6 apresenta um fluxooperacional do P3E.
RESULTADOS DO P3E — CÉLULAS E
KAIZENSSeguem alguns resultados obtidos pela Embraer durante a aplicação
do P3E, de 2007 a 2010:
• Horas extra —
redução de
68,8%.
• Estoques — redução
de 13,5%.• Inventory Turnover (ITO) (giro/ano) —
aumento de 25,0%.• Lead time (Ejets — 170/190) —
redução de 24,6%.• Custo de não qualidade —
redução de 44,0%.• Pesquisa de clima —
melhoria de 27,1%.
4
Vitor Eduardo Nogueira
Lourenço
, colaborador da Embraer, é engenheiro
de produção mecânica graduado pela Escola de Engenharia de São carlos da
uSP, tem MBA em gestão empresarial pela FgV. É green Belt e foi examinador
do Prêmio Nacional da Qualidade em 2011. Possui cinco anos de experiência
com Lean Production em indústrias.
5
KPO (Kaizen Promotion Officer) é o profissional especialista em
orientar oseventos kaizen. Na Embraer, as células são apoiadas pelo Time P3E, do qual
fazem parte os KPOs, que auxiliam na
identificação e condução de eventos kai-zen, e os consultores Lean, que ajudam as células na aplicação das ferramentas
do P3E e de
treinamentos.6
DMAIc são as etapas de um projeto Seis Sigma: D (define) — definir;
M (measure)— medir; A (analyze) — analisar; I (improve) — melhorar; c (control) —
controlar.
FIGURA C6 Processos na
EMBRAER.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
91
Foco na mão de
obraAs pessoas representam o maior capital de qualquer organiza-
ção. A WEg foi feliz quando um de seus fundadores, Eggon João
da Silva, disse que: “Se faltam máquinas, você pode comprá-las.
Se não há dinheiro, você toma emprestado. Mas homens, você não
pode comprar nem pedir emprestado. E homens motivados por
uma ideia são a base do êxito”. cada um a seu modo, e diante das
crenças de suas épocas, muitas foram as contribuições conceituais
e práticas que respaldam tal posicionamento.
As pessoas são consideradas pontos importantes e integrados às
ações produtivas, não diante de suas lideranças ou comprometimento,
que também são vitais, mas como parte integrante do mecanismo de
produção (Figura 3.11). A princípio, diante de suas prováveis e inevitá-
veis falhas. Surge assim o Poka-Yoke, que são sistemas simples e muitas
vezes de baixo custo, como uma alternativa eficaz para prevenção de
falhas humanas, evitando falhas e desperdício nos processos.
Em seguida, o Jidoca, que é o responsável pela autonomia do co-
laborador diante de um sistema automatizado. O Jidoca possibilita
um controle em tempo real dos equipamentos pelos operadores,
possibilitando que estes paralizem toda a linha de produção na
menor manifestação de uma anomalia.
Poka-
YokeNo início do século XX, Sakichi Toyoda desenvolveu um tear a
prova de erros, dotado de dispositivos que identificavam automa-
ticamente os desvios ou erros de operações e, consequentemente,
FIGURA 3.11 Foco na mão de obra e suas
ações.
92 LEAN
MANuFAcTuRINg
desligava a máquina. Essa tecnologia, na época revolucionária, foi
vendida à empresa inglesa Platt Brothers. O negociador foi o filho
de Toyoda, Kiichiro Toyoda, e foi com esses recursos financeiros que
Kiichiro criou, em 1933, a Toyota Motors corporation. O conceito
de tecnologia negociada com a Platt Brothers foi disseminado nas
indústrias japonesas e denominado Baka Yoke, que significa “à
prova de tolos”, denominação que constrangia os operadores.
No início dos anos 1960, Shigeo Shingo sistematizou o conceito
e o redenominou para Poka-Yoke: yoke, que tem origem em yoker
esignifica prevenir; e poka, que significa erros de desatenção
motiva-dos por ações não adequadas de operadores. Várias são as naturezas
ou tipos de erros em um processo produtivo, motivado por ações
não adequadas do operador. Os erros de montagem, manutenção,
instalação e operação são os de maior importância.
As falhas humanas (Figura 3.12), além de inevitáveis, são
signi-ficativas, e podem ser divididas
em:
• Falhas por
inadvertência
: aquelas não percebidas no momento
em que são cometidas, que podem ser classificadas em
intencionais, inconsequentes ou imprevisíveis.
FIGURA
3.12
Poka
Yoke
: evitando as consequências das falhas
humanas.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
93
• Falhas
técnicas:
motivadas por falta de aptidão, habilidade ou
conhecimento, que podem ser classificadas
em intencionais,específicas, conscientes ou
inevitáveis.• Falhas
premeditadas:
decorrentes de questões vinculadas à
responsabilidade ou comunicação confusa, que podem ser
classificadas em consciente, intencionais ou
persistentes.
O conceito de Poka-Yoke surge com base no lema de que “a
falha humana é inevitável”. Logo, a confiabilidade de um sistema
produtivo está diretamente condicionada à interferência dessas fa-
lhas humanas na operação, o que atesta a importância na utilização
eficaz do Poka Yoke. Este não é um sistema de inspeção, e sim um
método que auxilia nas atividades de inspeção ao indicar ao ope-
rador ou à máquina o modo adequado de realizar uma operação.
A operacionalização do Poka-Yoke ocorre por meio de disposi-
tivos ou de ações para prevenir as prováveis falhas dos operadores
que trariam como consequência defeitos nas peças, nos produtos
ou causariam acidentes de diversas naturezas.
Tipos de Poka-Yoke
Os Poka-Yoke podem ser divididos quanto à função de regula-
gem ou de detecção (Figura 3.13.)
FIGURA
3.13
Poka
Yoke
: funções e
métodos.
94 LEAN
MANuFAcTuRINg
A função regulagem pode utilizar dois métodos: o de controle
e o de advertência. O método de controle tem como tarefa parar a
máquina ou o processo quando o Poka-Yoke for ativado. Ele atua
com eficácia e precisão, interrompendo imediatamente um
proces-so com defeito. Já o método de advertência, quando o Poka-Yoke é
ativado, aciona um alarme por intermédio de um efeito sonoro ou
visual, porém esse método não para o funcionamento da máquina e
não interrompe o processo. A efetiva ação vai depender da percepção
do operador quanto ao alarme. caso o alarme não seja percebido o
processo continuará produzido com defeito.
Quanto à função detecção, esta pode utilizar três métodos: o de
contato, o de conjunto e o de etapas. O método de contato busca
identificar falhas diante do contato, ou não, entre dispositivos,
peças ou de características relacionadas à forma, ao peso ou às
dimensões. O método de conjunto busca verificar se todas as ações
previstas foram executadas, em uma unidade, e o método de etapas
busca garantir que as ações estão seguindo a sequência prevista
originalmente no projeto.
CASOS DE UTILIZAÇÃO DO POKA-
YOKE
O Poka-Yoke pode ser utilizado em todas as atividades e setores, seguem
alguns exemplos:
Caso
1:
o motorista pode esquecer e deixar os faróis de seu
automóvel ligado, o que implica o descarregamento da bateria.
Poka
Yoke:
com a retirada da chave da ignição do automóvel a energia
é cortada para os faróis, desligando-os e evitando falhas na bateria.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
95
Caso
2:
o operador de um computador poderia trocar os cabos
dos diversos periféricos, causando problemas ao funcionamento do
equipamento ou quebra deste.
Poka
Yoke:
os cabos dos periféricos de um computador passaram a
ter formatos de entrada e saída de
acordo com suas funções específicas,impedindo que o operador cometa erros.
Caso
3:
o operador, por distração ou falha, poderia não executar
todas as tarefas em uma estação de trabalho.
Poka
Yoke:
contadores digitais indicam o número de operações
realizadas em uma estação de trabalho, e caso estas não sejam todas
realizadas, a máquina não libera a peça, evitando que um componente
com desvio vá para outra estação de trabalho.
(Continua
)
96 LEAN
MANuFAcTuRINg
Caso
4:
o operador poderia cortar uma
peça fora das especificações.Poka
Yoke:
gabarito instalado nas máquinas com a forma padrão
para referenciar o corte de peças evita o erro.
Caso
5:
o operador poderia executar uma operação fora das normas,
causando acidentes diversos.
Poka
Yoke:
sensores instalados nas máquinas evitam acidentes de
trabalho ou erros nas operações.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
97
Jidoc
a O termo Jidoca, utilizado com frequência em outros países, vem
sendo substituído no Brasil por autonomação, o qual será adota-
do também por este livro. O significado real de Jidoka é somente
o de automação, mas, historicamente, de forma isolada, tem sido
utilizado para substituir “ninben no aru jidoka” que representa au-
tonomação. Autonomação é também conhecida como “automação
com máquina dotada de inteligência humana” ou “automação com
toque humano”.
Autonomação são sistemas projetados ou instalados em linhas
de produção ou máquinas que possibilitam que o operador ou a
própria máquina pare o processo diante da detecção de falhas ou
anormalidades (Figura 3.14). As paradas são sinalizadas por um
sistema de informação visual chamado andon, que significa “sinal
Caso
6:
o operador poderia deixar de executar por esquecimento
uma etapa de uma atividade.
Poka
Yoke:
O cheklist pode ser utilizado para controlar e
verificar se todas as etapas foram
realizadas antes da conclusãodo processo.
98 LEAN
MANuFAcTuRINg
de luz para pedir ajuda”, e o operador ou a máquina deve parar o
sistema sempre que detectar qualquer anormalidade. O conceito
de autonomação está assim vinculado a autonomia e automação,
apesar de esse conceito ser também utilizado em processos ma-
nuais, sem a presença de máquinas.
Inicialmente, o conceito de autonomação surgiu com Taiichi
Ohno e tinha como foco aumentar a produtividade. como as
máquinas passaram a ter dispositivos que as fazia parar quando
ocorressem falhas, o operador poderia, assim, ser liberado e operar
outro equipamento ou posto de trabalho enquanto sua máquina
não estivesse em operação. Todavia, essa visão vai de encontro ao
paradigma taylorista que pregava: “um homem versus um posto
de trabalho”.
Assim, o operador passou a ter possibilidade de trabalhar
simultaneamente em diversas máquinas ou postos de trabalho, o
que tende a reduzir o número de operadores envolvidos no pro-
cesso, aumentando, consequentemente, a produtividade deste, o
que pode ocorrer por meio de operações em múltiplas máquinas
ou de operações em múltiplos processos. Em suma, a autonoma-
ção cria condições operacionais para a multifuncionalidade ou
variedade de tarefas. Em um segundo momento, a autonomação
FIGURA 3.14 Linha de produção com sistema de
autonomação.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
99
passou a ser relacionada a qualidade e a busca do zero defeito
e hoje é considerada um sistema eficaz de apoio à gestão da
produção.
As posições conceituais de dois dos principais estudiosos do
assunto, Shingo — que prefere utilizar o termo pré-automação em
vez de autonomação — e Ohno apresentam algumas divergências,
mas que são irrelevantes diante do escopo deste livro.
O objetivo maior da autonomação tem sido evitar que uma
peça ou um produto que apresente alguma falha durante o seu
processamento continue a ser produzido, reduzindo a produ-
tividade e aumentando o custo do processo diante do retraba-
lho ou do refugo que decorrem dos consequentes defeitos. O
procedimento-chave para a eliminação dos defeitos é a imediata
identificação e correção das causas quando da paralização da
máquina ou linha.
Implantação do sistema de autonomação
A exigência cada vez maior do mercado por produtos à medi-
da que aumenta a concorrência enfrentada pelas empresas tem
motivado a busca de meios que garantam a confiabilidade a baixo
custo, e uma das alternativas que vem apresentando sucesso são
os sistemas de autonomação.
No planejamento para a implantação de sistemas de auto-
nomação, é preciso levar em consideração alguns importantes
aspectos:
• Definir com clareza todas as
condições de falhas;• Buscar sistemas de autonomação simples e
de baixo custo,sempre com o foco na relação custo-benefício;
• Alinhar o sistema autonomatizadocom a
sequência e o fluxo deoperações dos processos;
• Conscientizar e capacitar os operadores e a
supervisão acerca dosconceitos, da filosofia e dos ganhos
obtidos com os sistemas deautonomação;
• Criar uma equipe para análise e
melhoria contínua dos sistemasde autonomação;
100 LEAN
MANuFAcTuRINg
• Definir as linhas, os processos ou as
máquinas em que se faznecessário e é viável técnica, operacional e economicamente a
implantação de sistemas de autonomação.
A autonomatização, uma das principais bases para a busca do
Lean Manufacturing, além de ser responsável pela confiabilidade
dos produtos e evitar custos desnecessários com produtos com
falhas, tem sido também um elemento de valorização e motivação
dos operadores, dando a estes maior autonomia, poder e integração
com o sistema produtivo. A Figura 3.15 apresenta a relação entre
autonomação e as outras ações para a eficácia do Sistema Lean
Manufacturing.
Entre os principais benefícios na utilização de sistemas de au-
tonomação, estão:
• A redução de custos com a
eliminação da peça defeituosa;• A qualidade
assegurada;• O aumento da segurança
do operador;• A otimização e flexibilidade da
força de trabalho.
FIGURA 3.15 A autonomação e o sistema Lean
Manufacturing.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
101
Entretanto, é preciso que a organização tome medidas com
o objetivo de preparar ou criar as condições necessárias para a
adaptação eficaz do operador ao sistema. Entre as principais re-
comendações estão:
• Implantação de uma nova política
de recursos humanos;• Capacitação dos operadores para a
multifuncionalidade;• Redefinição das
responsabilidades;• Redistribuição de atividades ao longo
do tempo;• Redefinição da política salarial associada à
multifuncionalidade.
Segue, exemplificando a utilização da autonomação, um caso
relatado por colaborador da Alumar.
CASO ORGANIZACIONAL: ALUMAR — MÉTODO
DE AUTOMAÇÃO COM INTELIGÊNCIA HUMANA
O consórcio de Alumínio do Maranhão (ALuMAR) é uma empresa
do setor industrial que vem atuando no mercado de alumínio desde
a década de 1980 e é responsável pela produção anual de 430 mil
toneladas de alumínio, comercializados tanto no mercado nacional
quanto internacional. A ALuMAR é um consórcio formado por três
multinacionais (Alcoa, Rio Tinto Alcan e BHP Billinton) e tem como
base de seus negócios a tríade sustentabilidade, preservação ambiental
e responsabilidade social.
Situada na cidade de São Luís, a
ALUMAR é composta por 90%de mão de obra maranhense e vem se destacando tanto pelos seus
recordes de produção, quanto pela preservação do meio ambiente
e da qualidade de vida de seus funcionários.
A estrutura de negócios da ALuMAR, baseada na sustentabilidade,
preservação ambiental e responsabilidade social, tem no Alcoa
Business System (ABS) seu principal modelo, buscando a melhoria
contínua de seus processos produtivos e com foco em redução de
custos, otimização do tempo de produção e melhoria das condições
de saúde, segurança e meio ambiente. As pessoas sempre estão em
primeiro lugar para o sistema ABS, e com esse intuito a ALuMAR
Therige Logrado
Vanni
7
(Continua
)
102 LEAN
MANuFAcTuRINg
vem desenvolvendo métodos e sistemas que contribuam para que as
atividades de seus colaboradores sejam otimizadas e reduzam gastos
e falhas na produção.
O Sistema ABS, apoiado inicialmente na filosofia do Sistema
Toyota de Produção, vem utilizando também a ferramenta Jidoca,
conceito criado na Toyota que busca fornecer a máquinas/operadores
autonomia para detectar o problema durante o processo produtivo e
interromper o trabalho, sinalizando a falha ocorrida.
Sabe-se que o Sistema Toyota de Produção é referência de produção
no mercado mundial e influencia sobremaneira as produções
mais diversas no cenário industrial. Trata-se de uma filosofia de
gerenciamento que busca otimizar a organização, preocupando-se
em atender às necessidades de seus clientes no menor tempo possível,
com a maior qualidade e os mais baixos custos, além de proporcionar
segurança a seus colaboradores. Não tem sido diferente com a
ALuMAR, que tem buscado alternativas para alcançar a qualidade
de seus serviços e, consequentemente, a satisfação de seus clientes.
Pensando dessa maneira, a empresa passou a utilizar a ferramenta
Jidoca, que busca detectar falhas ou problemas no processo de
produção dos lingotes de alumínio por meio da automação inteligente
de máquinas.
A ALuMAR passou a utilizar a automação inteligente por meio
da criação de dois sensores, sendo que um identifica a altura dos
lingotes de alumínio (111 mm) e o outro, o peso dos amarrados, que é
composto por 44 lingotes sobrepostos e deve atingir o valor de 1.025 kg
(Figura c7), buscando atender aos padrões determinados para a linha
de produção. caso esses padrões não sejam atingidos, tanto os lingotes
de alumínio, quanto os amarrados são automaticamente rejeitados da
esteira de produção.
Num primeiro momento, os lingotes retirados dos moldes são
transportados pela esteira de produção até chegarem ao sensor que
identifica a altura a ser alcançada.
Obtendo a altura correspondente,esses lingotes continuam pela esteira até a linha de empilhamento,
para formar os amarrados de alumínio ( Figura c8). Inicia-se, então, o
segundo momento, em que esses amarrados passam por outro sensor,
o qual é responsável por identificar seu
peso padronizado. Estando osresultados de altura dos lingotes e o peso dos amarrados dentro dos
padrões estabelecidos, o produto final é
encaminhado para o processode estocagem e posterior comercialização pelos membros do consórcio
de Alumínio.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
103
com a utilização dessa automação de máquinas por intermédio
dos sensores e baseado na ferramenta Jidoca, a ALuMAR reduziu o
seu percentual de rejeitos e proporcionou a entrega de produtos com
a garantia de 0% de erros oriundos
de altura e peso dos alumínios,favorecendo o processo de qualidade e melhoria contínua de seus
produtos. Verifica-se, dessa maneira, que a
automação inteligente demáquinas vem proporcionar um novo modelo de gestão de qualidade
que está sendo amplamente utilizado por várias empresas e vem
contribuir com a otimização de todo processo produtivo.
7
Therige Logrado
Vanni
possui graduação em administração de empresas e
em ciências contábeis, com MBA em engenharia da produção e MBA em ges-
tão empresarial pela FGV. Profissionalmente, ocupa o
cargo de planejador deprodução e analista de contratos e serviços na ALuMAR, além de ser professor
universitário.
FIGURA C7 Amarrado e lingotes de
alumínio.
FIGURA C8 Sensor de
altura/dimensional.
104 LEAN
MANuFAcTuRINg
Foco nos
equipamentosSejam pequenos equipamentos utilizados no setor de serviço,
sejam equipamentos pesados utilizados em alguns processos de
manufatura, as máquinas certamente viabilizam a produção. um
dos maiores investimentos de uma organização é a mecanização ou
automação de seus processos por intermédio dos equipamentos,
os quais só apresentam retorno do capital investido quando estão
produzindo de maneira eficaz. Máquinas paradas involuntaria-
mente é desperdício.
com o objetivo de minimizar os desperdícios, otimizando a
utilização dos equipamentos, o Lean Manufacturing tem utili-
zado os conceitos e métodos sugeridos pela TRF - Troca Rápida
de Ferramenta (Single-Minute Exchange of Die – SMED) e TPM –
Manutenção Produtiva Total (Total Productive Maintenance – TPM)
(Figura 3.16).
A TRF é um método utilizado para minimizar o tempo de
setup, historicamente um dos maiores responsáveis pelos des-
perdícios nos processos de manufatura, ao passo que a TPM é
uma maneira de tratar o processo de manutenção com a inserção
do operador no processo e com a integração de toda a organi-
zação, buscando combater as perdas e eliminar os desperdícios.
Trata-se de um processo integrado e eficaz de prevenção de falhas
nas máquinas.
FIGURA 3.16 Foco nos equipamentos e em suas
ações.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
105
Troca rápida de
ferramentaA troca rápida de ferramentas (TRF) é um método fundamental
para auxiliar na redução do tempo de setup. O termo setup é utili-
zado para identificar o tempo de preparação de uma máquina ou
equipamento, ou seja, o tempo que a máquina ou equipamento fica
parado ou deixa de produzir plenamente, para que sejam realizadas
trocas de ferramentas ou para uma nova programação, com o obje-
tivo de executar uma nova atividade, ou fabricar uma nova peça ou
produto. O tempo de setup tem início na produção da última peça
de um lote ou na última ação, dentro das especificações definidas,
e vai até o momento em que primeira peça do novo lote, ou nova
ação, é produzida ou realizada dentro das especificações definidas.
um bom exemplo é o pit-stop em uma corrida de Fórmula 1 (veja
Figura 3.17).
cada vez mais o mercado exige produtos diversificados ou
únicos e isso tem exigido das organizações uma produção flexível
FIGURA 3.17 Fórmula 1 e os tempos
de
setu
p
.
106 LEAN
MANuFAcTuRINg
em pequenos lotes, o que reduz o custo de estoque, mas aumen-
ta, em muito, a frequência nas mudanças ou preparação das má-
quinas e das linhas de produção para atender a essa dinâmica
(Figura 3.18). consequentemente, as operações de setup, um dos
pontos críticos no processo produtivo, aumentam em frequência
e em
especificidade.
uma das principais motivações para redução de setup tem sido
a busca para a otimização da capacidade instalada ou para a in-
trodução das técnicas para o Lean Manufacturing.
FIGURA 3.18 Lote econômico:
custo
versu
s
tamanho do
lote.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
107
A otimização da capacidade está diretamente vinculada a uma
utilização mais eficaz das máquinas e dos equipamentos pelo
tempo efetivo de trabalho dos operadores, que são consequência
de redução de setup. Já a redução de setup como uma etapa para
a implantação do Lean Manufacturing tem uma amplitude bem
maior em termos de ganho. Os efeitos colaterais positivos são
muitos, dentre eles:
• Maior flexibilidade da
linha;• Redução do
lead time;• Redução do
estoque;• Torna economicamente possíveis
pequenos lotes;• Reduz tempos improdutivos das máquinas
e operadores;• Aumenta a produtividade da
linha.
As eficazes operações de setup são imperiosas para o sistema
Lean Manufacturing, em particular para o nivelamento do fluxo
produtivo, e essas operações geralmente são complexas e os resul-
tados, de médio ou longo prazo.
Tradicionalmente, as organizações buscavam produzir gran-
des lotes para fugir dos possíveis problemas de produção que
poderiam ser criados pelo setup. Atualmente, isso não é mais
possível, pois a acirrada concorrência tem feito com que as
organizações otimizem seus processos por meio da redução de
custos em um mercado cada vez mais exigente, o que obriga uma
maior flexibilidade e um menor lead time, tornando inevitável a
frequente utilização de setup.
uma das principais contribuições para o estudo dos setups veio
com o japonês Shigeo Shingo e será apresentada na sequência
deste livro.
Shigeo Shingo e as primeiras ações
para o estudo do setup
Shigeo Singo iniciou seus estudos com o objetivo de reduzir
o tempo de setup ainda nos anos 1950. Seus estudos e suas ex-
periências foram marcados por três importantes eventos, todos
108 LEAN
MANuFAcTuRINg
no Japão: o primeiro em 1950, na Madza Toyo Kogyo; o segundo
em 1957, na Mitsubishi Heavy; e o terceiro em 1969, na Toyota
Motor company.
Na Madza, Shingo teve como atividade agilizar a troca de ma-
trizes em uma prensa de 800 toneladas, com o objetivo de eliminar
gargalos. Após análise do funcionamento do processo surgiu a
primeira grande contribuição para o estudo do setup: as atividades
deste foram divididas pela primeira vez em internas e externas. O
setup interno, que passou a ser chamado “tempo de preparação
interna” (TPI), é aquele realizado com a máquina parada; já o
setupexterno, “tempo de preparação externo” (TPE), é o que pode ser
realizado com a máquina em funcionamento.
Nesse caso na Madza, Shingo sugeriu identificar as operações
para o TPE e criar condições antecipadas e favoráveis para aumen-
tar a eficiência do processo. O resultado foi
aumento de 50% deeficiência na troca das citadas matrizes.
Na Mitsubishi, Shingo tinha como missão otimizar a utilização
de uma plaina utilizada para usinar a base de um motor. Suas
observações o levaram a sugerir a conversão de atividades de setup,
antes consideradas internas (TPI) em externas (TPE). Para isso, foi
necessário criar uma estrutura de suporte ao lado do equipamento
a ser trabalhado, onde essas atividades seriam realizadas sem alte-
rar o funcionamento do processo. O ganho de produtividade com
essa medida
chegou a
40%.
TRF — LIÇÃO 1 DE
SHINGO:
Importância da separação dos setups internos dos
externos e definiçõesde ações eficazes para
os setups externos.
TRF — LIÇÃO 2 DE
SHINGO:
Importância da conversão de setup interno em setup externo e
criaçãode suporte para a
eficiência dessas mudanças.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
109
Na Toyota, Shingo teve como objetivo reduzir o tempo de operação
de setup de uma prensa de mil toneladas que era de 4 horas. No
primeiro momento, com a separação dos setups internos e
externos(Lição 1) e com a conversão de setup internos em externos (Lição 2),
o tempo final setup chegou a 90 minutos, uma
redução de 62% dotempo
inicial.
No segundo momento buscou-se uma racionalização de cada
operação de setup interno e externo, e vários procedimentos
foramadotados, entre os quais:
• Documentação das ações do processo de
setup como modo debuscar melhores resultados e um tempo padrão;
• Execução de tarefas de setup paralelas, ou
seja, execução demais de uma tarefa ao mesmo tempo e utilização de mais
operadores;
• Utilização de fixadores funcionais para minimizar os
esforçosdos operadores e auxiliar na eficácia
das operações de setup;• Busca de técnicas para eliminar ajustes
a partir de ferramentaspadronizadas e com dispositivos próprios, como guias, pinos
pilotos, batentes, entre outros;
• Redistribuição das ações para agrupar
as que apresentamsimilaridades
.
Essas medidas lavaram o setup da prensa aqui tratada a ser
realizado em 3 minutos, e, considerando o momento inicial, a
redução foi de 4 horas para 3 minutos. Foi isso que levou Shingo
a usar o termo “Single Minute Exchange of Die (SMED)”, ou seja,
atroca de ferramentas em um tempo inferior a dez minutos.
TRF — LIÇÃO 3 DE
SHINGO:
Após a separação dos setups internos dos externos, da conversão de
setu
p
interno em externo e da
criação de métodos para a
maior efi-
ciência de setups internos, deve-se racionalizar cada operação de
setuppor meio da padronização, paralelização de operações e eliminação
dos ajustes.
110 LEAN
MANuFAcTuRINg
Etapas para a TRF
Para operacionalização da TRF, Shingo sugeriu quatro estágios,
de acordo com a Figura 3.19 e como exposto a seguir:
• Estágio inicial — análise das
condições de setup;• Estágio 1 — separação dos
setups interno e externo;• Estágio 2 — conversões de
setups interno e externo;• Estágio 3 — racionalização das ações
e operações dos setupsinterno e externo.
No estágio inicial, deve-se fazer uma análise da linha de
produ-ção por meio de filmagens e cronômetros. Além disso, as entrevistas
aos operadores e supervisores também são importantes para ter
informações do processo.
No estágio 1 busca-se separar os setups interno e externo, e
uma primeira ação é a utilização de um checklist incluindo todas
FIGURA 3.19 Fases para a
TRF.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
111
as peças, as condições operacionais e os passos a serem realizados.
Nessa etapa, também são verificadas as condições de funciona-
mento de toda a estrutura e dos equipamentos a serem utilizados
nas operações de setup. Além disso, outra preocupação que se deve
ter é com a eficácia dos transportes dos equipamentos citados
anteriormente.
No estágio 2 busca-se a conversão dos setups internos em
ex-ternos com o objetivo de reduzir os internos e, consequentemente,
o tempo de máquina parada. Nesse estágio, uma das principais
ações é a preparação antecipada das condições operacionais e a pa-
dronização das atividades. A utilização de guias padronizados para
o auxílio também é uma ação recomendável de modo a preparar as
condições favoráveis para uma eficaz operação de
setup.
O Estágio 3 é destinado à racionalização de todas as opera-
ções de setup tanto interno quanto externo e tem como objetivo o
single-minute, ou seja, um tempo inferior a 10 minutos, e é
destinadoa melhorias radicais nas operações de setup externo e de setup
interno.
No setup externo, têm-se como principais ações para a busca
do single-minute as melhorias das condições de estocagem e
trans-porte dos equipamentos a serem utilizados nas operações; e quanto
ao setup interno, as buscas das melhorias radicais têm como
focosprincipais:
• A implantação de
operações paralelas;• A utilização de
fixadores;• A eliminação de
ajustes;• A
meca
nização.A Figura 3.20 apresenta, por meio de um fluxograma, um roteiro
padrão para operacionalização da TRF
Atualmente, algumas ações não consideradas por Shingo es-
tão sendo adotadas por diversas organizações com o objetivo de
reforçar o Estágio 3, proposto pelo autor ou criação de novo estágio.
Entre essas ações principais, estão:
• Busca de uma sequência eficaz com
foco na similaridade eutilização do mesmo equipamento;
112 LEAN
MANuFAcTuRINg
• Busca de métodos para minimizar as
perdas do processode tempo antes e depois da parada total para troca de
ferramentas. Essas perdas estão associadas à desaceleração
para a parada e ao período de aceleração para atingir o padrão
do processo;
• Estudo ergonômico do local e
equipamentos utilizados noprocesso de
setup;• Adaptação do layout do local onde
serão executadas as ações;• Implantação de programa de treinamentos
das equipesenvolvidas nas operações de
setup;• Identificação de mudanças necessárias aos
projetos dasmáquinas para adaptação que visem à realização de setup
mais simples, eliminação de ajustes ou mesmo eliminação
da necessidade de
setup.
FIGURA 3.20 Fluxograma para a
TRF.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
113
Roteiro para operacionalização da TRF
uma contribuição dividida em três momentos, apresentadas
por J. Black, tem sido muito útil para o planejamento das opera-
ções de setup. Os três momentos são: estratégico, preparatório e
operacional
.
O estratégico é composto pela definição do escopo, dos obje-
tivos e das metas a serem atingidas, capacitação da equipe que
deverá atuar no processo e definição das estratégias. O prepa-
ratorio é composto pelas definições do resultado esperado, do
detalhamento do processo e das ações operacionais. O operacional
é composto pela análise inicial da operação, identificação das
operações de setup internas e externas, conversão de setup
internoem externo, padronização, eliminação de ajustes e finalmente
eliminação de
setup.
A utilização da TRF é exemplificada no caso a seguir, sobre a
ZF do
Brasil
.
CASO ORGANIZACIONAL: ZF DO BRASIL– OTIMIZAÇÃO
DO TEMPO DESETUPNA PLANTA
SOROCABA
Em um acompanhamento de tomada de decisões para o aumento
da demanda de um produto a ser fabricad
na ZF do Brasil Planta deSorocaba, verificou-se a necessidade de comprar
três retíficas internaspara atender à nova demanda, cada uma com custo médio de R$2,5
milhões.
Inicialmente, a demanda era composta por 250 transmissões, em
que cada uma teria nove peças. O cliente exigia receber todas as peças
todos os dias, portanto, seria necessário produzir as três peças em
cada máquina. Para produção das nove peças, seriam necessárias três
máquinas.
Anderson Loureiro Botas 8
Marco Antonio dos Santos Junior 9
Marcos Aguilera Padilha 1
0
(Continua
)
114 LEAN
MANuFAcTuRINg
como a empresa trabalha em regime de 24 horas, dividido em três
turnos diários na premissa, planejava-se trabalhar, em cada máquina,
com uma peça por turno, ou seja, todo começo de turno começaria
com um setup e produziria o montante necessário daquele item no
turno. No desenvolvimento dos produtos, o tempo
era suficiente, mas,ao aumentar a demanda de 250 para
379 transmissões, identificou-sea necessidade de comprar mais uma máquina, ou seja, R$2,5 milhões
em investimento para atender à demanda. Então, foi questionado:
qual a capacidade das máquinas e como seria possível melhorar a
produtividade e a flexibilidade do processo?
cada máquina pode produzir em média 60 peças/hora, e o tempo
de setup para preparação da máquina, de um componente para outro,
é de 3 horas por causa da complexidade das máquinas e da espera para
suas avaliações dimensionais (veja Figura c9).
como cada turno é de 8 horas, seria possível produzir no máximo
300 peças nos três turnos por máquina. Para produzir 379 peças seria
necessário um turno de 9,31 horas, o que, evidentemente não seria
possível.
A solução foi aplicar o SMED (TRF)
para identificar as possíveismelhorias. Após uma semana de trabalho utilizando muitos dos
FIGURA C9 Situação por máquina antes da aplicação do
SMED.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
115
métodos aqui já apresentados para a busca de melhorias no sistema,
atingiram-se os seguintes resultados:
• 45% do setup interno foi
transformado em setup externo;• Foi reduzido o percurso do operador
que faz o setup externo em72%, de 1.180 metros
para 494 metros, por
setup;
• Foram centralizadas todas as informações e os
dispositivos em umasala de setup única, com fluxo, análise dos desgastes dos dispositivos
e ferramentas, armazenagem de informações das aprovações etc.;
• Foi melhorado o fluxo de
entrega de material programadojuntamente com o setup chegando ao máximo em meia hora de
antecedência e parada do equipamento para fazer a troca;
• Foram eliminadas cinco tipos de chave
Allen para sistema deparafuso com pino borboleta, reduzindo em
25% o tempo emmanuseio com os dispositivos;
• Foi padronizada a forma de setup e
colocadas nos postos de trabalhonormas operacionais.
com essas melhorias, conseguiu-se reduzir o tempo de setup em
2 horas e 5 minutos, ou seja, o setup de três horas passou a ser de 55
minutos, conseguindo, assim, atender à demanda sem aquisição de
um novo equipamento e com o investimento de apenas R$15 mil, não
precisando fazer um investimento de 2,5 milhões de reais em uma nova
máquina (veja Figura c10).
Juntamente com o trabalho, os operadores e preparadores dos três
horários foram envolvidos e participaram das decisões e trabalhos, e
todos foram treinados no conceito e com proposta de abrangências
para outros equipamentos da fábrica. As mudanças e melhorias em
tempo de setups foram importantes para atingir a flexibilidade no
sistema produtivo, uma vez que, com as melhorias nesse sistema,
pode-se ganhar em flexibilidade e produtividade em caso de aumento
de demandas.
O desenvolvimento do presente trabalho na planta de Sorocaba
da ZF do Brasil evidencia a importância
da utilização do setup nas
FIGURA C10 Situação por máquina depois da aplicação do
SMED.
(Continua
)
116 LEAN
MANuFAcTuRINg
grandes e pequenas empresas como uma ferramenta indispensável
para reduzir o tempo de parada e, assim, aumentar o índice
de funcionamento dos equipamentos. Isso auxilia nas tomadas de
decisões, tornando-as mais objetivas e precisas, e proporcionando,
assim, a possibilidade de aumentar a flexibilidade com ganho de
qualidade, pois um setup bem feito é a garantia da produção com
qualidade e maior aproveitamento dos recursos produtivos. Isso
consequentemente traz à empresa maior destaque no mercado, graças
à redução dos custos, melhor capacitação de seus funcionários, maior
atenção ao meio ambiente, aumento da satisfação de seus clientes e
de seu patrimônio.
Todas as melhorias são bem-vindas, mas é preciso torná-las
sustentáveis por meio de um sistema
de monitoramento, definindopadrões, e estar sempre tentando melhorar os padrões, pois, como
citado, se não pensar em melhoria todos os dias, o progresso é
interrompido e corre-se um sério risco de se perderem as melhorias
conquistadas, tornando-se, assim, menos competitivo.
Muitas melhorias estão nas coisas simples e, como visto na análise
do caso apresentado, não necessariamente precisa-se de grandes
investimentos para conseguir grandes resultados. Muitas vezes pode-se
ter o efeito inverso, pois é
possível dificultar ainda mais o
sistema por
conta dos altos investimentos irreversíveis. com o SMED, pode-se obter
grandes resultados.
8
Anderson Loureiro
Botas
é tecnólogo em processos de produção pela FA-
TEc-Sorocaba, pós-graduado em gestão estratégica de negócios, com MBA
em gestão empresarial pela FGV. Profissionalmente, atua
há 11 anos em umaempresa multinacional do segmento automobilístico, adquirindo experiência
em coordenação de equipes, gerenciamento de projetos e consultoria em
ferramentas Lean Manufacturing.
9
Marco Antonio dos Santos
Junior
tem graduação em engenharia de produção
mecânica pela universidade do grande ABc, com MBA em gestão empresarial
pela FgV. Sua experiência inclui cargos nas áreas de manutenção, engenharia
de processos, qualidade e gestão da produção. Atualmente, é engenheiro de
qualidade do escritório de gerenciamento de
projeto (PMO) da empresa ZFdo Brasil Ltda.
10
Marcos Aguilera
Padilha
tem graduação em administração de empresas pela
universidade de Sorocaba (uNISO), com MBA em gestão empresarial pela FgV.
Possui experiência profissional de 22 anos na
área industrial em empresas multina-cionais na área técnica de processos de produção, gestão de pessoas e planejamento.
Atualmente é supervisor de produção da
empresa ZF do Brasil Ltda.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
117
Manutenção produtiva
totalManutenção são as ações para recuperar, monitorar e geren-
ciar um equipamento a fim de mantê-lo em condições normais
de funcionamento, e a sistematização desse conceito e de suas
técnicas associadas teve início no século XVI. A primeira mani-
festação formal surgiu a partir da construção dos relógios mecâ-
nicos, em que os fabricantes capacitavam os profissionais para
a montagem, operação e, também, para os prováveis concertos.
com o início da Revolução Industrial, os processos de manu-
tenção tiveram grande evolução e passaram a fazer parte das ações
produtivas. Na época, os processos de manutenção eram, em gran-
de parte, executados pelos próprios operadores dos equipamentos.
Em casos de maior gravidade e complexidade, o fabricante do
equipamento era convocado.
Até o início da década de 1940, os processos de manutenção
basicamente buscavam a disponibilidade e o pleno funcionamento
do equipamento depois da falha ocorrida, processo este que ficou
conhecido como manutenção corretiva. A partir dos anos 1940,
diante da Segunda guerra Mundial e motivados pelas necessidades
de maior eficiência nos equipamentos bélicos, as organizações do
setor introduziram um novo conceito: a manutenção preventiva.
Esse tipo de manutenção caracteriza-se por intervenções perió-
dicas nos equipamentos com o objetivo de mantê-los em pleno
funcionamento, e entre as principais ações estão a limpeza, a lu-
brificação, a substituição programada de peças ou componentes,
entre outras.
Nos anos 1960, surge a manutenção preditiva, que visa prever
falhas pelo monitoramento e pela medição das condições ple-
nas do equipamento, sem interromper as operações deste. Nos
anos 1970, o Japan Institute of Plant Maintenance (JIPM), com
o objetivo de integrar novamente o operador nos processos de
manutenção, reduzindo custos e otimizando o gerenciamento
das unidades produtivas, desenvolveu a manutenção produtiva
total (TPM), que tem sido uma grande aliada nos sistemas Lean
Manufacturing.
118 LEAN
MANuFAcTuRINg
Tipos de manutenção
Os tipos de manutenção podem ser classificados quanto ao
nível de centralização e quanto ao nível de planejamento. No nível
centralização, a classificação é feita em:
• Processo de manutenção centralizado, que tem toda
a estruturae os recursos de manutenção situados em um único local;
• Processo de manutenção descentralizada, que tem
a estruturae os recursos de manutenção divididos e localizados por setor
ou por equipamentos.
Já quanto ao nível de planejamento, temos:
• Processo de manutenção não planejada: é
quando, diantedas características do equipamento e do processo, é
economicamente mais viável deixar o equipamento trabalhar
até a quebra. Esse processo é também conhecido como
manutenção corretiva emergencial;
• Processo de manutenção planejada: nesse caso,
é possívelinserir as ações de manutenção citadas anteriormente —
preventiva, preditiva, corretiva e a produtiva total.
Existem ainda outros processos de manutenção menos utili-
zados, alguns destinados a setores ou equipamentos específicos,
entre eles:
• Manutenção de melhoria — busca corrigir, de maneira
programada, prováveis desvios do equipamento
identificadosnas manutenções produtivas e preventivas;
• Manutenção centrada na
confiabilidade
— busca, por meio
da utilização dos demais tipos de manutenção, garantir a
confiabilidade do desempenho do equipamento de acordo
com o previsto no projeto;
• Prevenção de
manutenção
— busca melhorar as condições
de funcionamento, disponibilidade, manutenabilidade e
confiabilidade do equipamento durante o
seu projeto;• Manutenção detectiva — busca criar condições para a
manutenção de equipamentos em que as falhas só podem ser
identificadas no momento de
utilização deste;
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
119
• Terotecnolog
ia
— busca métodos para minimizar os recursos
financeiros na utilização dos equipamentos por meio da
otimização das condições técnico-econômicas, da
confiabilidadedo planejamento e do modelo de gestão.
A manutenção produtiva total
Logo após a sua criação, na década de 1970, a Total
ProductiveMaintenance (TPM) foi utilizada para a busca da eficiência dos
equipamentos focada nas perdas por quebra, conceito este que
evoluiu (Figura 3.21). Na década de 1980, a TPM passa a focar a bus-
ca da eficácia, combatendo seis tipos de perdas nos equipamentos:
• Perda por quebra
de
equipamento;
• Perda por troca
de
ferramenta;
• Perda por falhas
no
processo;
• Perda por
espera
;
• Perda por velocidade de
equipamento;• Perda por rendimento do
equipamento.
FIGURA 3.21 Evolução do conceito de perda na
TPM.
120 LEAN
MANuFAcTuRINg
Já na década de 1990, o TPM passa a focar não só nos equi-
pamentos, mas todo o sistema de produção por meio de oito
perdas vinculadas aos equipamentos, cinco perdas vinculadas
aos colaboradores e três perdas vinculadas aos recursos de pro-
dução.
com relação às perdas vinculadas aos equipamentos, além das
já consideradas no momento anterior, passaram a ser prioridades
aquelas com a mudança de dispositivo de controle e as por re-
trabalho. Quanto às perdas vinculadas aos colaboradores, estas
são focadas em:
• Perdas na
administração
;
• Perdas na mobilidade
operacional;• Perdas na organização
da linha;• Perdas na
logística
;
• Perdas na
medição
.Já quanto às perdas vinculadas aos recursos, estas são focadas
em
:
• Perdas relativas à
energia;• Perdas relativas ao
material;• Perdas relativas a
ferramentas.
A TPM vem sendo utilizada por muitas organizações com uma
visão estratégica e com participação de toda a organização, sendo
um procedimento vital para o Lean Manufacturing e que tem como
principais objetivos:
• Integrar todo o setor produtivo e
administrativo no processo demanutenção;
• Otimizar o equipamento quanto ao seu
desempenho e ciclo devida
;• Diluir a responsabilidade da manutenção
com o operadorde cada equipamento e com todos os outros setores da
organização;
• Motivar e capacitar o operador diante de
detalhes técnicos ouoperacionais do equipamento que utiliza;
• Reduzir custos de
manutenção e
operação.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
121
Os pilares da TPM
Para a implantação da TPM, devem-se utilizar alguns princípios
denominados de pilares (Figura 3.22). Ao todo, são considerados
oito
pilares:
• Manutenção
planejada
: consiste em elaborar um plano de
manutenção preventiva e preditiva para maximizar a utilização
do equipamento.
• Processo de
treinamento
: consiste em capacitar todos os
atores envolvidos em técnicas, liderança de equipes e modelo
de gestão, para melhor compreensão e melhor desempenho
diante do projeto TPM.
• Manutenção
autônoma
: consiste na capacitação do operador de
revisar seu equipamento e na integração e no comprometimento
de toda a equipe.
• Gestão da melhoria focada : consiste nas ações para a
eliminação de perdas crônicas a fim de
aumentar a eficiência,a disponibilidade e o tempo de vida do equipamento.
FIGURA 3.22 Pilares da
TPM.
122 LEAN
MANuFAcTuRINg
• Gestão dos
equipamentos
: consiste em garantir, por meio
da eficiência dos equipamentos, os produtos finais com as
características e especificações
planejadas.• Gestão da manutenção da
qualidade
: consiste na interação
quanto à confiabilidade dos equipamentos com
a qualidadedos produtos e a capacidade de produção.
• Gestão do processo
administrativo
: consiste em garantir o
pleno funcionamento, sem desperdício, das áreas de apoio
administrativo, minimizando ou eliminando sua interferência
na funcionalidade dos equipamentos.
• Gestão da segurança, saúde e meio
ambiente
: consiste na
utilização e integração dos sete pilares anteriores para as
melhorias das condições de trabalho, minimizando os riscos e
otimizando a efetividade.
Implementação da TPM
A implementação da TPM pode ser divida em quatro momen-
tos: preparação, introdução, implantação e consolidação. Na pre-
paração, é necessário o total comprometimento da autodireção,
a concepção de um plano diretor com políticas, metas e um pro-
grama de capacitação, e a divulgação dos princípios da TPM. Já
a introdução é o momento do lançamento do programa, no qual
devem estar todos os atores estratégicos da organização. Deve ser
dado a esse momento um grau da importância e a visibilidade
adequada.
Na implantação, devem-se iniciar as ações para tornar possíveis
os pilares da manutenção focada, da gestão dos equipamentos, da
gestão dos processos administrativos e da gestão da segurança,
da saúde e do meio ambiente. Por fim, a consolidação da TPM
consiste na continuidade desta com a introdução dos programas
que alimentam o processo estabelecendo ações, indicadores de
desempenho e metas.
A utilização da TPM, em particular pelas organizações que bus-
cam o Sistema Lean, tem levado às melhorias significativas de seus
indicadores; com bases em divulgações de entidades vinculadas ao
setor e em publicações científicas, pode-se citar:
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
123
• Aumento de
produtividade;• Redução dos custos
de produção;• Redução de
estoque;• Diminuição dos acidentes e
trabalho;• Maior participação dos colaboradores e
comprometimento.
Para ilustrar esse conceito, vamos verificar a utilização da TPM
no caso relatado pelo colaborador da Eletrobras Amazonas Energia.
CASO ORGANIZACIONAL: ELETROBRÁS AMAZONAS
ENERGIA — PROGRAMA DE GESTÃO
DE MANUTENÇÃO COM IMPLANTAÇÃO DA
TPM
Milton Fonseca Junior 1
1
O Programa de gestão de Manutenção (PgM) da Eletrobras Amazonas
Energia apresentou ganhos significativos de confiabilidade nos
equipamentos das usinas termelétricas a diesel, motores de combustão
interna, como resultado da implantação da TPM. Diante das
características da organização, foram priorizados quatro pilares nessa
implantação: manutenção autônoma, manutenção planejada, processo
de treinamento e melhorias focadas. Assim, foram utilizadas as técnicas
referentes a esses pilares para busca das
melhorias e confiabilidade naprodução de energia na usina citada.
FASES PARA IMPLANTAÇÃO DO TPM NA
USINAA implantação foi realizada em quatro fases. A fase 1, o diagnóstico,
teve como objetivo o levantamento de dados das operações e a análise
de documentos para servirem de base ao plano mestre estratégico
da Fase 2. Após a realização do diagnóstico, os dados levantados e as
oportunidades e recomendações foram apresentados à diretoria e à
gerência da organização para análise, discussão, prováveis adaptações
e aprovação.
Na fase 2, foi concebido o “plano mestre estratégico”, que
contemplou as oportunidades e os objetivos definidos e
aprovados norelatório do diagnóstico. O plano citado foi apresentado, analisado,
adaptado e aprovado pela diretoria e pela gerência da empresa, e
também pelas pessoas indicadas envolvidas no programa, visando
(Continua
)
124 LEAN
MANuFAcTuRINg
determinar as necessidades específicas e os objetivos das
áreas em queo programa seria implantado.
A fase 3 foi a responsável pelo treinamento. Foi necessário nivelar
o conhecimento dos participantes que seriam os responsáveis
por desenvolver internamente o programa nas funções de
líderes, coordenadores de pilar e membros do comitê diretivo. O
acompanhamento foi sistematizado pela fase 4, que incluiu reuniões
com os coordenadores de pilar, auditorias durante a fase de implantação
e orientação das atividades, definição de conceitos e
premissas novase necessárias, e utilização de metodologia para operacionalização do
plano mestre estratégico.
AÇÕES, RESULTADOS E OBJETIVOS ALCANÇADOS COM A
IMPLANTAÇÃO DO TPM
O acompanhamento dos indicadores foi realizado por um período
de 12 meses, o que permitiu analisar as implicações da aplicação
das ferramentas da TPM na organização. A análise dos resultados
obtidos de cada pilar, descritos na metodologia, indicou de maneira
incontestável os expressivos ganhos obtidos com a adoção da TPM na
Eletrobras Amazonas Energia.
PILAR DE MANUTENÇÃO AUTÔNOMA
No momento inicial, os operadores envolvidos foram capacitados para
identificar anormalidades nos motores, nos
equipamentos auxiliares,nas instalações e no local de trabalho, utilizando a colocação de
etiquetas como meio de registro das anormalidades. um dos princípios
adotados no início era que as áreas, os motores, os equipamentos
auxiliares e as instalações estivessem sempre limpos e fossem mantidas
nessas condições, não sendo tolerado qualquer sinal de desorganização
ou locais sujos. um dos programas adotados inicialmente, com esse
objetivo, foi o 5S.
Os locais que não estivessem atendendo aos requisitos eram
sinalizados por meio de etiquetas, e o reparo destes era realizado
pelo plano de ação, com prazo definido e responsável. Foi criado
ainda um painel de controle que indicava os tipos de problemas
identificados, a quantidade de etiquetas colocadas e retiradas,
e as áreas envolvidas nas anormalidades: manutenção, operação,
segurança e meio ambiente.
Os operadores tinham o dever de
verificar sempre as condiçõesideais dos motores e dos equipamentos auxiliares. A equipe deveria
continuamente inspecionar se as instalações e áreas de trabalho
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
125
estavam sinalizadas, com as cores de segurança industrial, placas
de identificação, iluminação e limpeza. Os painéis
de controles dasetiquetas deveriam sempre estar atualizados, indicando o volume de
etiquetas colocadas e retiradas no mês.
PILAR DE MANUTENÇÃO PLANEJADA
Foi elaborada uma planilha de priorização contendo as perguntas
pertinentes das áreas envolvidas com os processos da organização:
operação, manutenção, engenharia, segurança e meio ambiente. A
equipe de manutenção e operação passou a realizar o planejamento de
inspeção em todos os motores, equipamentos auxiliares e instalações
para atender às normas de manutenção, conforme descritas pelo
fabricante, ou para resgatar as condições desejadas de funcionamento.
O plano de ação definido tomou como
foco as atividades, os materiais,os prazos, o tempo previsto em cada atividade de reparo e a equipe
de manutenção nos equipamentos classificados. com isso, foi
possível elaborar os relatórios das atividades concluídas e iniciadas
das manutenções, o que possibilitou a realização da análise crítica dos
gráficos produzidos, indicando o
MTBF
1
2
(Mean Time Between
Failures)e MTTR1
3
(Mean Time to Recover) por
motor.
PILAR DE MELHORIAS FOCADAS
Nesse Pilar foram realizadas algumas ações, porém as de maior importância
foram: a formação dos grupos de trabalho, a
definição do fluxo operacionalde maneira clara e didática, a
preparação dos equipamentos, definindoas prioridades e os principais riscos, a identificação das respectivas
capacidades nominais e reais dos motores, dos equipamentos auxiliares
e das operações, e a definição de critérios para analisar, identificar e
estratificar as principais perdas
nas operações.Tudo isso ocorreu com o conhecimento e a participação dos
colaboradores envolvidos no processo, e as principais ferramentas
utilizadas para investigar e eliminar as perdas foram o ciclo PDcA e o
diagrama de causa e efeito.
Já o “plano de ação” foi elaborado pelo grupo de trabalho com
ações focadas, responsáveis, com prazos
definidos e controle sobreo andamento das atividades. O acompanhamento desse plano foi
realizado com a comparação dos resultados antes e depois. Foi
concebido um padrão operacional provisório, que passou a ser
utilizado pelos operadores em cada motor e equipamento auxiliar,
sendo avaliados por meio de indicadores e
objetivos definidos paracada motor ou ação operacional da usina.
(Continua
)
126 LEAN
MANuFAcTuRINg
PILAR DE EDUCAÇÃO & TREINAMENTO
Todos os funcionários participantes do programa TPM receberam o
treinamento básico ministrado pelos coordenadores de pilares, e o
material didático para a realização do treinamento básico foi aprovado
pelo comitê diretivo e disponibilizado para os coordenadores de
pilares. Com isso, verificou-se um
planejamento mais rigoroso, comum cronograma dos treinamentos e instrutores capacitados. Foi ainda
elaborada uma versão do treinamento de TPM para integração de novos
funcionários. Os indicadores relacionados aos funcionários treinados e
horas de treinamento realizadas foram colocados à disposição de todo
o corpo funcional da organização.
RESULTADOS DO PGM COM A IMPLANTAÇÃO DO TPM
Com as análises dos resultados e discussão
dos fatos, verificamos quefoi economicamente viável a implantação do TPM como melhoria
contínua e para gestão de manutenção como mostra o aumento de
MTBF de 279 h para 332 h e a diminuição do MTTR de 5,66 h para
1,99 h, como mostra a Figura c11. Verificou-se ainda um
aumento damanutenção autônoma realizada pelos operadores, um aumento da
manutenção preditiva e a diminuição da manutenção corretiva.
11
Milton Fonseca
Junior
é engenheiro eletricista e possui mestrado pelo Ins-
tituto de Tecnologia (ITEc) do programa de pós-gradução em engenharia
elétrica da uFPA. Atualmente, é engenheiro da Eletrobras Amazonas
Energia.12
MTBF — Mean Time Between Failures, que significa o
período médio entrefalhas e é um valor atribuído a determinado dispositivo ou aparelho para des-
crever a sua
confiabilidade.13
MTTR — Mean Time to Recovery, que significa tempo médio
de recuperaçãoou tempo médio de
reparo.
FIGURA C11 Ganhos coma a TPM na Eletrobras Amazonas
Energia.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
127
Foco nos
movimentosA movimentação de materiais, interna ou externa (Figura 3.23)
que pode provocar estoques desnecessários, é outro fator crítico
no Lean Manufacturing. A movimentação interna de materiais é
aqui tratada por meio do Kanban, um sistema de informação que
orienta o fluxo ao acionar as unidades produtivas de acordo com
as necessidades do cliente. O Kanban é um dos principais sistemas
operacionais que viabiliza o just in time.
Quanto à movimentação externa de materiais, a partir dos
fornecedores não se tem, no setor produtivo, uma única tendên-
cia. Além do modo tradicional de operação nos fornecimentos
de insumos e peças, várias outras ações vêm sendo adotadas,
como
:
• Sistemas de consórcio ou condomínios nos quais
os fornecedoreslocalizam-se “dentro” da planta do cliente;
• Fornecedores localizados próximos aos clientes
realizandoa entrega de seus materiais a partir de um comando deste
último;
• Fornecedores que participam da concepção dos
produtos aoentregar sistemas já instalados ao
produto final;• Instalação de esteira ou caminhos exclusivos
para que ofornecedor entregue materiais já na estação de trabalho em
que serão utilizados.
FIGURA 3.23 Foco nos movimentos e suas
ações.
128 LEAN
MANuFAcTuRINg
Este livro optou por apresentar o Milk Run, uma alternativa que
vem sendo utilizada de maneira eficaz pelo setor automotivo,
prin-cipalmente as montadoras que já utilizam o Lean Manufacturing.
Sistema
KanbanO termo Kanban surgiu no Japão e foi utilizado inicialmente
com significado de “cartão”/“etiqueta”. Nas organizações atuais,
o termo Kanban é utilizado para identificar um eficaz sistema
de informação para o gerenciamento e a otimização do fluxo de
materiais em um processo produtivo. Hoje em dia, o “cartão” vem
sendo substituído em algumas organizações por outros sistemas de
informação visual, como sinais luminosos, bolas coloridas, caixas
vazias, locais demarcados e vazios, entre outros.
A operacionalização do sistema Kanban foi realizada por Taiichi
Ohno nos anos 1950, e esse sistema, no contexto da filosofia JIT,
busca dar informações ao fornecedor da estação de trabalho de um
processo produtivo sobre o que produzir, quando produzir, em que
quantidade produzir e para quem produzir.
Já no início dos anos 1970, a Mitsubishi Eletric company, ao co-
nhecer e questionar o sistema Kanban, criou o Programa do Mínimo
Inventário em Processo, que estabelece uma sequência de ações a
serem executadas para dar suporte ao sistema Kanban, entre elas:
• O programa
5S;• A manutenção produtiva
total;• O controle e
gestão dos
processos;
• A troca rápida
de
ferramentas;
• Programa de capacitação de operadores
polivalentes;• Técnicas para
automatização;• Planejamento do fluxo para produção em
pequenos lotes.
O Kanban, que é a base da filosofia JIT, tem como objetivo maior
não somente o controle de estoque das unidades envolvidas, mas
o de gerenciar e controlar o fluxo de materiais entre as estações de
trabalho ou unidades. Para isso, o controle dos lotes de produção
é disciplinado pelos operadores.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
129
A aplicação do Kanban é eficaz nas linhas em que a demanda
possui pequenas oscilações, promovendo a autorregulação. O mes-
mo item de uma família só deverá ser produzido novamente após
todos os outros itens terem sido produzidos, e esse nivelamento é
um fator decisivo para o sucesso do processo, servindo de motiva-
dor para a identificação de gargalos, desvios e situações críticas.
Operacionalização do sistema Kanban
A operacionalização do sistema Kanban ocorre por meio de uma
sequência de ações apresentadas na Figura 3.24 e descritas a seguir:
1. A estação de trabalho 1 (ET1) recebe Kanbans da estação de
trabalho 2 (ET2) e deve produzir somente o solicitado por meio
dos Kanbans (A e B).
2. Ao chegar a ET1, o Kanban enviado por ET2 é armazenado no
“painel de planejamento”, que delimita os limites de prioridade
para a produção do item solicitado.
3. Ao concluir a produção do item solicitado, estes são colocados
pela ET1 em um contêiner juntamente com o cartão que norteou
a produção e encaminhados a ET2;
FIGURA 3.24 Etapas do fluxo do sistema
Kanban
.
130 LEAN
MANuFAcTuRINg
4. Quando a ET2 recebe e utiliza os itens aqui tratados, o cartão
é retirado do contêiner e encaminhando a uma “caixa de
recolhimento de Kanbans”, para ser enviado novamente a ET1,
reiniciando, assim, todo processo.
O “cartão” Kanban deve ser feito de material resistente para
suportar o contínuo deslocamento, ter informações precisas e ser
de fácil visualização. Em um Kanban, é preciso especificar:
• O nome do
componente;• Descrição do
componente;• Fornecedor e
cliente;• Nível de reposição e
de urgência;• Tempo de
reposição
;
• Número total de Kanbans
em circulação;• Número de componentes a
serem produzidos.
O “painel de planejamento” tem como objetivo armazenar na
ET1, em local visível, os Kanbans recebidos da ET2. cada item
deve ter seus Kanbans alocados em uma única coluna, e o pai-
nel deve indicar três níveis de prioridade para a produção, que são
muitas vezes apresentados por cores:
• Limite de normalidade
(nível verde);• Limite de atenção
(nível
amarelo);
• Limite de urgência
(nível vermelho).
O contêiner é o local onde os componentes são alocados e des-
locados da posição fornecedor (ET1) para o cliente (ET2) e sua
capacidade não pode ser elevada e precisa ser definida sempre
com foco no nivelamento do fluxo de produção. A caixa de reco-
lhimento de Kanbans é o local onde a ET2 deposita os Kanbans dos
contêineres cujos itens foram utilizados. Essa caixa é esvaziada por
um responsável, que encaminha os Kanbans para a ET1.
Tipos de Kanban
O sistema Kanban pode ser utilizado em vários estágios de um sis-
tema produtivo, mas sempre utilizando a mesma base metodológica.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
131
Os mais conhecidos são os Kanbans de produção, de fornecedor e
de transporte:
• O Kanban de produção (Kp) é
utilizado entre os processosprodutivos em um mesmo sistema;
• O Kanban de fornecedor (Kf) é
utilizado entre um fornecedorexterno e uma posição de estoque central;
• O Kanban de transporte (Kt) é
utilizado entre uma posição deestoque e uma linha de produção.
Algumas organizações têm buscado na tecnologia meios para
agilizar o sistema Kanban por meio de painéis e dispositivos au-
tomatizados e monitorados por sistemas integrados apoiados por
códigos de barras. Essa nova abordagem, em qualquer um dos tipos
de Kanbans, vem sendo denominada Kanban Eletrônico.
Objetivos do Kanban
Além de ser um dos suportes principais para a filosofia JIT e
estar associado à eficácia dos diversos outros sistemas ou métodos
para a operacionalização do Lean Manufacturing (Figura 3.25), a
FIGURA 3.25 Kanban e outras ações para Lean
Manufacturing.
132 LEAN
MANuFAcTuRINg
aplicação eficaz do sistema Kanban tem vários objetivos específi-
cos, entre eles:
• O controle e nivelamento do estoque
entre as estações detrabalho com a consequente redução de custos;
• A redução dos lotes
de produção;• A descentralização do controle da
produção, dando maiorautonomia aos supervisores de linha e operadores;
• A explicitação de problemas no
fluxo de produção;• A possibilidade de um controle
visual do fluxo produtivo.
Dimensionamento do Kanban
O dimensionamento do Kanban passa por três ações:
• Definição da quantidade de
Kanbans;• Definição da capacidade dos
contêineres;• Identificação dos tempos envolvidos
no processo.
Esse dimensionamento está associado às características e
especificidades do processo e ao objetivo da organização. O di-
mensionamento não adequado pode ser responsável por diversos
problemas: se em excesso, gera inventário; se abaixo do neces-
sário, gera o desabastecimento, o que pode provocar a parada
de linha. O número de Kanbans deve ser fixado a partir das ex-
pectativas do cliente, das potencialidades do fornecedor e do
ritmo de produção.
A capacidade de um contêiner de determinado componente
deve ser sempre a mesma e definida com o objetivo de garantir
o nivelamento e a eficácia da produção, e os tempos envolvi-
dos no processo do sistema Kanban podem ser identificados
como
:
• Tempo de
espera
(Te);
• Tempo de
preparação
(Tp);
• Tempo de
operação
(To);
• Tempo de
movimento
(Tm);
• Tempo de resposta do
sistema (Tr), ondeTr = Te + Tp + To +
Tm.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
133
Apesar do empirismo utilizado com frequência para definição
da capacidade dos contêineres e do número de Kanbans, algumas
organizações utilizam uma lei de formação relacionando todas as
variáveis envolvidas, ou seja:
N(D/Q) Tr (1 Fs)=⋅ ⋅+
onde:
N = Número de Kanbans
D = Demanda do
cliente
Q = Quantidade de unidades por contêiner
Tr = Tempo de resposta do sistema
Fs = Fator de segurança do sistema
O Sistema Kanban e o MRP
O Material Requirents Planning (MRP) é um sistema de
apoio à produção que possibilita determinar a quantidade, os
tipos e em que momento os itens necessários devem estar à
disposição da estação de trabalho. Para isso, o MRP utiliza os
pedidos já realizados e uma previsão de pedidos que deverá
receber, e seu foco é o gerenciamento e controle de todo o sis-
tema produtivo.
uma das limitações do Kanban é que ele deve ser utilizado
em linha que tenham como característica a produção repetitiva
e com baixa oscilação quanto à demanda. caso contrário, o MRP
é o sistema mais adequado. Porém, a convivência conjunta de
MRP e Kanban tem se mostrado eficaz, uma vez que aquele
monitora o planejamento e controle da produção (PcP) em
nível macro e este atua de maneira dominante nos processos
de manufatura, gerenciando item por item, como mostra a
Figura 3.26.
N=(D/Q) × T
134 LEAN
MANuFAcTuRINg
Para ver um exemplo da utilização do Kanbam, leia o caso or-
ganizacional a
seguir:
FIGURA 3.26 Convivência entre os sistemas Kanban e
MRP.
CASO ORGANIZACIONAL: VOTORANTIM METAIS —
CIA BRASILEIRA DE ALUMÍNIO: O MÉTODO
KANBAN APLICADO À MANUTENÇÃO
INDUSTRIAL
Em meados de janeiro de 2009, o sistema Kanban foi implementado
na fábrica da companhia Brasileira de Alumínio/Votorantim Metais
na área de manutenção industrial, tendo como objetivo principal
a melhoria dos resultados do processo de manutenção, auxiliando
o planejamento e controle da manutenção (PcM) para aumentar a
assertividade com relação à realização dos serviços programados.
Originalmente desenvolvido na Toyota Motors, no Japão, e logo
divulgado para seus fornecedores e para a indústria em geral, ele é para
Votorantim Metais, acima de tudo, uma ferramenta de programação
de compras e produção, e de controle de estoques, que permite
Rodrigo Rocha Lourenço
Sobrinho
1
4
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
135
implantar a filosofia JIT de produção em
tempo hábil, sem estoquesdesnecessarios.
Para aplicação na Votorantim Metais, o método Kanban foi
adaptado à realidade da manutenção e aplicado nos centros de
trabalho de manutenção onde existem as
oficinas de manutenção, comespecialistas mecânicos e eletricistas. cada centro de trabalho possui
um planejador, cuja função é elaborar um plano de trabalho semanal
no sistema informatizado de manutenção, plano este que possui todas
as ordens de serviços que os mecânicos/eletricistas deverão executar ao
longo da semana. Para que todas essas necessidades planejadas fossem
transmitidas às equipes de execução, foi utilizado o quadro Kanban de
planejamento da manutenção. A Figura c12 apresenta o quadro em
uma das áreas de manutenção na Votorantim Metais — cBA.
O quadro possui a foto de todos os colaboradores mecânicos/
eletricistas que executam as atividades na referida área, e, como uma
agenda, possui os dias da semana em que os serviços são programados.
Após a elaboração do plano semanal de manutenção, o planejador,
no dia anterior ao início da próxima semana, alimenta o quadro com
FIGURA C12 Operacionalização do quadro Kanban de manutenção
planejada.
(Continua
)
136 LEAN
MANuFAcTuRINg
as ordens de manutenção. cada ordem de serviço é representada
por um cartão no quadro, ou seja, o programador utiliza um pincel
atômico para marcar em um cartão de acrílico o número da ordem a
ser executada no referido dia. Os cartões seguem o padrão de três cores,
as quais têm a função de sinalizar se os serviços estão no prazo ou se
já estão em atraso conforme as cores:
• Verde: o serviço foi programado
dentro da semana vigente;• Amarelo: o serviço está atrasado em
uma semana, ou seja, foiproveniente do plano da semana anterior;
• Vermelho: o serviço está atrasado em duas
semanas ou mais, ouseja, foi proveniente do plano da semana retrasada ou anteriores.
Os mecânicos/eletricistas, por sua vez, retiram os cartões do quadro
à medida que o serviço for concluído, registrando as observações e
outras necessidades no sistema informatizado de manutenção.
ESTRATÉGIA DO KANBAN DE PLANEJAMENTO NA MANUTENÇÃO
Entre as estratégias do Kanban de planenjamento e manutenção, estão:
• Envolver as áreas de manutenção, PCM e
execução, na elaboraçãodos planos de trabalhos semanais;
• Criar rotinas no planejamento a fim
de alimentar o quadrosemanalmente;
• Fornecer uma visão clara do plano
e agenda de trabalho semanalpara a equipe de execução dos serviços;
• Aproveitar ao máximo o número de
homem-hora disponível paraexecução das tarefas durante a semana;
• Aumentar o comprometimento das equipes de
manutenção de área(minha foto, minha cara, meu trabalho);
• Evidenciar possíveis pendências (cartões vermelhos que
indicamproblemas para a execução) para garantir a execução de todas as
tarefas programadas (rotinas de manutenção);
• Identificar gargalos e necessidades de
treinamento/capacitação daequipe.
MELHORIAS OBTIDAS APÓS A IMPLEMENTAÇÃO DO KANBAN
DE PLANEJAMENTO NA MANUTENÇÃO
Entre as melhorias obtidas após a implementação, podemos destacar:
• Aumento da quantidade de horas investidas
em manutençãopreventiva em comparação a manutenção corretiva;
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
137
Milk
RunO gerenciamento da cadeia de suprimento no que diz res-
peito principalmente ao abastecimento das unidades de pro-
dução, nos últimos 20 anos, vem sofrendo profundas mudanças
quanto a conceitos, técnicas e métodos operacionais ou de
gestão.
um dos motivadores dessas mudanças tem sido a dinâmica
evolução das tecnologias aplicadas ao setor e a globalização da
produção, que têm possibilitado que um produto venha a ser con-
cebido com peças ou componentes de diversas origens, cidades ou
países, promovendo, assim, novos arranjos setoriais dinâmicos, o
que exige novos métodos para o eficaz e ágil abastecimento das
linhas de produção por meio dos deslocamentos de materiais,
peças e componentes.
Parcerias estratégicas e relações interfuncionais e interem-
presariais — como redução e seleção criteriosa da cadeia de
fornecedores, maior integração entre fornecedores e clientes,
definição de indicadores de desempenho e metas comuns ou
alinhados aos atores da cadeia de suprimento — são algumas das
posições hoje adotadas para um mercado cada vez mais seletivo
e competitivo.
• Maior comprometimento das equipes com
relação ao cumprimentodas rotinas de manutenção (planos e rotas de manutenção);
• Maior comprometimento das pessoas com
o processo manutenção;• Maior estímulo com relação
ao trabalho em
equipe;
• Facilidade por parte dos gestores para
supervisionar o trabalho dasequipes;
• Maior comprometimento de todos os
envolvidos na cadeia demanutenção.
14
Rodrigo Rocha L.
Sobrinho
é engenheiro mecânico pela universidade Federal
de uberlândia (uFu) com MBA em gestão empresarial pela FgV. Atualmente,
é coordenador de manutenção na Votorantim Metais.
138 LEAN
MANuFAcTuRINg
Henry Ford e o abastecimento da linha de produção
do Modelo T
A primeira preocupação sistêmica com a gestão de suprimen-
tos surgiu ainda no início do século XX, com o norte-americano
Henry Ford, cujo método utilizado para a produção do Modelo T
tinha como suporte o conceito de linha de montagem por meio
de estações de trabalho. Para viabilizar economicamente e ope-
racionalmente o seu método, Ford, além dos métodos e das ações
para a movimentação dos produtos semiacabados e da busca da
padronização dos produtos, criou novos conceitos para os fluxos in-
ternos e externos de ferramentas, materiais, peças e componentes
(veja a Figura 3.27).
Para padronizar os produtos, Ford precisou criar um sistema
de padronização de materiais, peças e componentes. Até então,
no sistema de produção artesanal, em que a padronização do pro-
duto final não era considerada, as peças e os componentes eram
customizados e adquiridos de diversos fornecedores. A definição
FIGURA 3.27 Cadeia de suprimento nos sistemas de produção artesanal e em
massa.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
139
do formato da peça e de quem seria o fornecedor era feita caso a
caso. com Ford, em sua linha de montagem padronizada, cada
projeto passou a ter suas próprias peças, as quais passaram a ser
adquiridas de fornecedores únicos e específicos. Essa ação foi
determinante para a definição de várias características relativas
ao transporte para o abastecimento eficaz da linha de produção
do Modelo T, entre elas:
• Melhor planejamento do
abastecimento da linha;• Melhor seleção dos
fornecedores;• Maior comprometimento do
fornecedor;• Maior segurança da eficácia das
peças e componente;• Melhor administração dos
contratos.
Assim, a padronização de peças e componentes, além de facilitar
o gerenciamento do abastecimento, reduziu custos e facilitou o
ajuste entre os diversos componentes do automóvel, aumentando a
velocidade e a confiabilidade do processo. Muitas outras inovações
para o eficaz abastecimento das linhas de produção seguiram as
ideias introduzidas por Ford, e muitas — as mais notáveis — no
setor automobilístico. Provavelmente, pelo fato de esse ser um setor
de crescente competitividade, as indústrias são obrigadas a bus-
car constantes inovações tecnológicas, operacionais e gerenciais,
visando baixar custos, agregar valores ao produto final, aumentar
rentabilidade e obter uma maior participação no mercado.
Toyota e Cadeia de Fornecedores
A Toyota, ainda nos anos 1960, inovou a relação com sua cadeia
de fornecedores, e uma das primeiras ações foi trazer os forne-
cedores fisicamente para próximos da sua linha de produção: os
fornecedores satélites. Isso facilitou a movimentação das peças para
o abastecimento da linha ou das unidades produtivas.
Outra prática notável da Toyota, iniciada também nos anos 1960
e que vem, até hoje, apresentando excelentes resultados, tem sido a
crescente integração com a rede de fornecedores no nível de infor-
mações e conhecimento (Figura 3.28). Essa integração vem sendo
alimentada pela Associação de Fornecedores (que tem o objetivo
140 LEAN
MANuFAcTuRINg
de troca de informações e benchmark), pelo grupo de consultoria
(que é responsável por assessorias técnicas aos fornecedores por
meio de consultores especializados vinculados à Toyota) e pelas
Equipes de Aprendizado (que buscam repassar informações aos
fornecedores por meio de seminários ou workshops).
Novos arranjos produtivos e abastecimentos da linha
de produção
No final dos anos 1990, é implantado no Brasil um arranjo pro-
dutivo pioneiro e inovador: o consórcio modular. Esse arranjo foi
utilizado pela Volkswagen caminhões na cidade de Resende, no Rio
de Janeiro, e fez um papel inicial de grande laboratório para o setor
produtivo de todo o mundo. Esse conceito já havia sido utilizado
parcialmente em uma montadora da VW em Skoda, na República
Tcheca, para a produção do modelo Fenícia.
O consórcio modular utiliza como conceito o outsourcing, 1
5
ao
transferir de forma radical diversas ações que tradicionalmente
deveriam ser realizadas pela VW para seus parceiros, que é o termo
FIGURA 3.28 Relação da Toyota com seus
fornecedores.
15
Outsourcing é a utilização por parte de uma organização, em atividades
meios,de mão de obra fornecida por ortra organização, ou seja, uma
subcontratação.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
141
usual quando se trata do tema. Inicialmente, a planta da VW cami-
nhões em Resende (Figura 3.29) foi dividida em sete módulos ou
subsistemas, cada um dirigido por uma empresa parceira, deno-
minados de modulistas. Hoje, a citada planta, diante de mudanças
realizadas, comporta outros módulos.
No que diz respeito ao abastecimento da unidade de produção,
há diversas inovações, motivadas pelo fato de os fornecedores,
agora parceiros, modulistas, serem os responsáveis pela montagem
do produto final, caminhões ou ônibus, e pelo abastecimento da
unidade e linha de produção. Esse abastecimento, que antes no
modelo fordista tinha como base uma relação com fornecedor
baseada em contratos de curto ou médio prazo, passa a ser por uma
parceria estratégica, exclusiva, que inclui ações operacionais na
linha de montagem, de longo prazo entre a VW e seus modulistas;
o método centralizado, e muitas vezes único, para o abastecimento
dá espaço, a partir da autonomia dos modulistas, a métodos pró-
prios e diversos, de acordo com as conveniências de cada parceiro.
FIGURA 3.29 Layout inicial do consórcio modular da VW
Caminhões.
142 LEAN
MANuFAcTuRINg
Assim, o método introduzido pela VW caminhões traz como
resultado uma maior racionalização e diminuição da base de
fornecedores diretos e, consequentemente, de um menor e mais
confiável fluxo de abastecimento da produção e, também, um novo
conceito de abastecimento da linha de produção com obrigações
ampliadas, de montagem e fornecimento de módulos completos.
Na trajetória da VW caminhões duas outras plantas, localizadas
no Brasil, merecem ser referenciadas. A planta da gM em gravataí/
RS (condomínio industrial) e a planta da Ford em camaçari (con-
domínio modular) (Figura 3.30). As observações sobre os abas-
tecimentos das linhas de produção seguem as aqui já feitas ao
modelo consórcio modular.
Os novos arranjos produtivos motivaram a busca de métodos
mais ágeis e confiáveis para o abastecimento das linhas de pro-
dução. Tradicionalmente, os fornecedores eram os únicos res-
ponsáveis pela entrega de peças e componentes à organização
cliente, mas muitos foram os métodos que surgiram para fazer os
FIGURA 3.30 Tipos de plantas dos sistemas de
produção.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
143
insumos necessários chegarem à linha de produção com rapidez,
confiabilidade e baixo custo. Principalmente nas organizações
que vêm buscando a implantação do Lean Manufacturing, um dos
principais tem sido o Milk Run, que será apresentado na
sequência.
Milk Run — um um sistema para abastecimento
da linha de produção
O Milk Run é um método que busca operacionalizar de maneira
eficaz o suprimento de materiais em uma linha de produção. Esse
método tomou por base a experiência das leiterias no recolhi-
mento das “latas de leite” nas fazendas ou sítios todas as manhãs,
onde os produtores colocavam “na porta da propriedade”, em
local prederminado, em horário definido e em tipo de embalagens
acordadas, a sua produção de leite diária destinada ao proces-
samento pela indústria. um transporte da indústria de proces-
samento passava nas diversas propriedades e recolhia a quantidade
de leite previamente definida e o levava até a “linha de produção”.
A Figura 3.31 compara o sistema tradicional de suprimento com
o Milk
Run.
O sistema Milk Run chegou às indústrias e passou a ser uma
opção para o melhor controle e eficácia no abastecimento de peças
e componentes nas linhas de produção de muitas organizações de
vários setores, e o setor automobilístico é hoje quem mais utiliza
o citado método. com esse sistema, as organizações passam a ge-
renciar e controlar todo o fluxo de materiais, peças e componentes
com origem nos fornecedores, contribuindo de maneira eficaz
para a filosofia JIT. As vantagens do sistema Milk Run são muitas,
dentre elas:
• Redução do custo de transporte ao
otimizar a capacidade deveículo, controlar o tempo de carregamento e descarregamento
do veículo e definir um roteiro adequado para buscar as
peças nos fornecedores de acordo com as necessidades da
organização;
• Criação de condições para uma
melhor gestão de estoque,com o aumento na frequência do abastecimento, com fluxo
de abastecimento programado, com pequenos lotes e na
144 LEAN
MANuFAcTuRINg
quantidade necessária ao consumo da linha de produção
e com embalagens apropriadas (padronizadas e reutilizáveis);
• Controle do fluxo de recebimento de
peças e componentesno que diz respeito à hora e quantidade;
FIGURA 3.31 Sistema de abastecimento tradicional
e o
Milk
Run.
Capítulo 3 • Desenvolvendo
Lean Manufacturing
145
• Redução do movimento de veículos externos
dentro dasinstalações da organização.
O sistema Milk Run (Figura 3.32), além de poder ser controlado
pela organização, pode ser operacionalizado por um operador logís-
tico a partir de um plano de produção definido pela indústria ou por
uma transportadora, com roteiro e ações disciplinados pela indústria.
A implantação do sistema Milk Run requer alguns cuidados,
e, entre eles, alguns são prioritários:
• Fluxo eficaz de informações entre
organização focal efornecedores quanto aos períodos e quantidades de peças a
serem fornecidas;
• Disciplina e capacidade de gestão, operação
e produçãodos fornecedores para o pleno atendimento nas entregas de
materiais e peças de acordo com o planejado;
• Localização dos fornecedores próximos a indústrias e
roteiro defácil acesso;
• Conhecimento, conscientizaçãoe concordância quanto ao
novosistema por parte de todos os atores envolvidos no processo, seja
da organização focal ou do fornecedor;
FIGURA 3.32
Sistema
Milk
Run
.
146 LEAN
MANuFAcTuRINg
• Existência de plano para gerenciar
imprevistos diante decondições externas alheias a indústria e aos fornecedores.
Considerações
finaisO sistema Lean, hoje amplamente utilizado no setor da manu-
fatura, tem se apresentado como uma excelente alternativa para
a melhoria da competitividade das organizações ao reduzir ou
eliminar o que consome recursos, mas não agrega valor ao produto
final em todas as etapas do fluxo produtivo. O modelo apresentado
pelo autor para o entendimento do Lean Manufacturing e contem-
plando oito ações para viabilizar o JIT, após a gestão e o tratamento
dos processos, pode ser utilizado em sua totalidade ou de maneira
parcial diante das características da organização e da especificidade
de seus processos.
Essa ações, bem como a filosofia Lean, pode ser levada para
outros setores da economia, em particular a área de serviços, mas
é preciso que setores como o de serviços, saúde, educação, entre
outros deixem de lado o mito de que “suas áreas são diferentes”
e que não podem aplicar técnicas utilizadas no setor industrial;
é necessário que eles iniciem o processo de mudança buscando
resultados competitivos a partir de indicadores globais.
Em todos os setores organizacionais vivemos hoje a “Lei de Dar-
win”, ou seja, somente as organizações mais aptas vão sobreviver
no futuro próximo, e o conhecimento e a utilização, com as devidas
contextualizações, dos métodos, sistemas e programas já testados
por outras organizações são os meios que podem ajudar na busca
da sobrevivência organizacional, com saúde, produtividade, com-
petitividade e rentabilidade. E o sistema Lean, com seus princípios
e suas ações, é um caminho seguro e com retorno garantido.
147
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Janeiro:Elsevier,
2006.WOMACK, J.; JONES, D. A máquina que mudou o mundo. Rio de Janeiro:
Elsevier,2004.

Desvendando Lean Manufacturing

  • 2.
    Entendendo, aprendendo e desenvolvendo, Sistemade Produção Lean Manufacturing C0025.indd iC0025.indd i 30/08/13 3:13 PM30/08/13 3:13 PM
  • 3.
    Sumário Agradecimentos vii Introdução 1 1.Entendendo Lean Manufacturing 9 O pensamento Lean 1 0Valor 11 Cadeia de valor 1 2Fluxo da cadeia de valor 1 3Produção puxada 1 5Busca da perfeição 1 5Os ciclos do consumo e da produção 1 7Os sete desperdícios fundamentais 2 0Juran e o desperdício 2 3JIPM e o desperdício 2 4O Sistema Toyota de Produção como referência inicial 2 5Os 4P’s da Toyota 2 8O Relatório A3 da Toyota 3 1O Lean Manufacturing 3 4O Lean Seis Sigma 3 6O Lean Management 3 92. Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 4 1Gestão e medição do desempenho dos processos 4 2Métodos para alinhamento e medição do desempenho 4 8 C0045.indd ixC0045.indd ix 02/09/13 7:59 AM02/09/13 7:59 AM
  • 4.
    Balanced Scorecard 49 PerformancePyramid 51 Performance Prism 53 Ferramentas e técnicas para análise e melhoria dos processos 5 4Padronização dos processos 5 6Os ciclos PDCA e SDCA 5 8Nivelamento dos processos 6 0 3. Desenvolvendo Lean Manufacturing 6 5A filosofia just in time 65 Métodos operacionais para o just in time 67 Foco nas estruturas 6 8Programa 5 S 6 9Células de produção 7 9Foco na mão de obra 9 1Poka-Yoke 91 Jidoca 97 Foco nos equipamentos 10 4Troca rápida de ferramenta 10 5Manutenção produtiva total 11 7Foco nos movimentos 12 7Sistema Kanban 12 8Milk Run 137 Considerações finais 14 6 Referências 147 C0045.indd xC0045.indd x 02/09/13 7:59 AM02/09/13 7:59 AM
  • 5.
    9 Entendendo Lean Manufacturing Os valoressociais mudaram. Agora, não podemos vender nossos produtos a não ser que nos coloquemos dentro dos corações de nossos consumidores, cada um dos quais tem conceitos e gostos diferentes. Hoje, o mundo industrial foi forçado a dominar de verdade o sistema de produção múltiplo, em pequenas quantidades. Taiichi Ohno Criador do just in time , base para o Lean Manufacturing Este capítulo apresentará o pensamento Lean quanto a seus conceitos, princípios e evolução. O Sistema Toyota de Produção será tratado como um referencial com base em suas contribuições para o Lean Manufacturing. Aqui serão tratadas também as posições de Taiichi Ohno e Shigeo Shingo quanto às ações para a busca de um novo sistema de produção e à análise dos sistemas produtivos com base nos ciclos de produção e consumo. Com o objetivo de proporcionar um melhor entendimento ao leitor, este livro deverá utilizar um modelo operacional criado pelo autor para sistematizar e apresentar os sistemas, os métodos e os programas que contribuem para a filosofia just in time (JIT). Assim,este capítulo deverá tratar do primeiro nível do modelo proposto (Figura 1.1): do cliente com seu entendimento de valor e com suas expectativas e desejos; da identificação pela organização da voz do cliente; dos princípios e operacionalização do pensamento Lean; da identificação de mudas; e da busca de oportunidades de melhorias organizacionais. 1
  • 6.
    10 LEAN MANUFACTURING O pensamento LeanNadécada de 1980, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) vinculados ao International Motor Vehicle Program (IMVP) realizaram um criterioso e profundo trabalho de pesquisa nas organizações do setor automobilístico localizadas nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e na Coreia do Sul. Essa pesquisa foi publicada em 1990 por James Womack, Daniel Jones e Daniel Roos no livro The Machine That Changed the World. 1 A citada pesquisa constatou, principalmente nas indústrias au- tomobilísticas asiáticas, boas práticas na gestão dos negócios, nas relações com parceiros e na eficácia dos sistemas de manufatura, e várias dessas práticas foram identificadas como as responsáveis pelo êxito de algumas plantas asiáticas analisadas, principalmente as japonesas. A Toyota foi a organização que demonstrou possuir técnicas e modelos de gestão e de produção mais eficazes, e a sistematização 1 JONES, Daniel T.; WOMACK, James P. A máquina que mudou o mundo. Rio deJaneiro: Campus, 2004. FIGURA 1.1 Ações iniciais para o Lean Manufacturing.
  • 7.
    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 11 dessas práticas com foco integrado nos ciclos ciclo da produção e do consumo, tendo o produto como elo, foi denominado Lean Manufacturing, como mostra a Figura 1.2. O termo lean foi utilizado inicialmente por John Krafcik, pesquisador do IMVP. Já um roteiro para o entendimento do pensamento Lean foi proposto por J. Womack e D. Jones no livro Lean Thinking. 2 Os autores resumiram o pensamento Lean em cinco princípios: valor, cadeia de valor, fluxo da cadeia de valor, produção puxada e busca da perfeição (veja a Figura 1.3). Na construção do conceito do pensamento Lean, e com obje- tivo de criar condições para atender plenamente às necessidades e expectativas do cliente final, dois outros aspectos se fizeram imperiosos: a delimitação dos ciclos de consumo e da produção e a busca de métodos para identificar e combater o desperdício. Valo r No Sistema Lean, valor é o princípio inicial e que norteia todos os outros. Valor de um produto é o que atende plenamente a neces- sidades, expectativas e desejos do cliente final. Valor é definido pelo FIGURA 1.2 Os Ciclos da Produção e do Consumo. 2 JONES, Daniel T.; WOMACK, James P. A mentalidade enxuta nas empresas. Riode Janeiro: Campus, 2004.
  • 8.
    12 LEAN MANUFACTURING cliente edeve ser criado pela organização. O cliente só está disposto a pagar por aquilo que ele considera e entende por valor. Por outro lado, aquilo que não agrega valor a um produto ou processo, mas consome tempo, insumos ou qualquer outro recurso, como mencionado anteriormente, é chamado de muda, que são associadas a perdas ou desperdício. Além dessa, outras formas que não agregam valores a um produto ou processo a partir do des- nivelamento ou sobrecarga nos processos foram denominadas de mur a 3 e muri 4 respectivamente. Cadeia de valorA cadeia de valor (Figura 1.4) é composta por todas as etapas e ações necessárias ao atendimento pleno do valor do cliente por meio da concepção do bem ou da realização do serviço, ou de uma 3 Mura perdas devido ao desnivelamento do fluxo produtivo. 4 Muri perdas devido a sobrecarga da linha de produção. FIGURA 1.3 Princípios do pensamento Lean.
  • 9.
    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 13 composição dos dois. Assim, ela é formada por todas as organiza- ções que participam do processo para o atendimento do cliente final: fornecedores, organização focal, distribuidores, varejistas, entre outros. Por sua vez, cada um desses atores tem suas cadeias de valores interna, em que cada unidade deve ser gerenciada com foco no valor do cliente interno 5 imediato, que, por sua vez, está dimensio- nado no valor do cliente externo, e assim segue até atingir o valor do cliente final. Fluxo da cadeia de valorO fluxo da cadeia de valor (Figura 1.5) deve nortear e envolver todos os atores do processo em um contínuo no qual cada etapa, seja interna ou externa, sempre deve gerar valor para a seguinte. FIGURA 1.4 A cadeia de valor. 5 Cliente Interno é aquele que recebe os benefícios do produto e é membro da organização que elabora o produto.
  • 10.
    14 LEAN MANUFACTURING Sendo assim,os conceitos e as práticas de cada unidade devem ser planejadas com foco no todo, e não em peculiaridades ou métodos isolados. O objetivo do fluxo está associado a um planejamento integrado do produto em todas as etapas do processo, procurando eliminar barreiras entre organizações envolvidas nesse processo ou de suas unidades, ou ainda, de atribuições funcionais ou operacionais nas diversas unidades. O fluxo deve ser sempre mapeado, ou seja, representado graficamente, explicitando todas as etapas do processo quanto às ações, aos materiais utilizados, às informações disponíveis e ao pessoal envolvido. O mapeamento do fluxo permite uma visualização completa de todo o processo, ajudando, de forma simples e de baixo custo, a identificar desperdícios, práticas não convergentes e junções entre etapas não alinhadas. Assim, o mapeamento é uma ferramenta vital para identificar o real estado atual do fluxo e projetar seu estado desejado com a FIGURA 1.5 Fluxo da cadeia de valor.
  • 11.
    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 15 eliminação de desperdícios, bem como para fornecer maior har- monia entre todas as etapas. A análise do todo por meio do fluxo possibilita buscar uma es- tabilidade do processo ao identificar atividades que necessitam de um corretivo para garantir a fluidez contínua e eficaz, eliminando, assim, as mudas e gerando valor ao processo. O fluxo da cadeia de valor é ainda o grande responsável pela definição, delimitação e gestão dos estoques em pequenos lotes em todo o processo produtivo, dando ênfase, em primeiro lugar, a eficácia da relação produto versus cliente em todas as etapas, e nãosomente em estruturas, máquinas ou equipamentos. Produção puxadaA produção puxada é que define o início de todo o processo produtivo no Sistema Lean: não se deve produzir sem que o cliente do processo posterior, interno ou externo, solicite, ou seja, puxe. Com isso, busca-se um nivelamento em toda a cadeia, gerando um fluxo contínuo, eficaz e com pequenos lotes. Para que isso seja sempre possível, é necessário um planejamen- to inicial em todas as unidades do sistema produtivo, buscando um balanceamento entre a demanda dos diversos clientes puxados pelo cliente final com a capacidade produtiva. Mas nem sempre é viável utilizar os conceitos da produção puxada, porque para isso é necessário que o processo tenha uma demanda sem grandes mudanças. Por exemplo, esse conceito não deve ser utilizado em uma linha ou um negócio em que ocorre uma grande flutuação na demanda, nas relações de volume e variedade de itens. Busca da perfeiçãoA busca da perfeição tem por objetivo melhorar todo o pro- cesso produtivo de maneira contínua e permanente, e as pos- sibilidades de melhorias estão em todas as etapas e organizações
  • 12.
    16 LEAN MANUFACTURING envolvidas e,a partir de comandos claros e transparentes dado pelo cliente final e devidamente decodificado em toda a rede, os processos devem se ajustar de maneira a consumir menos tempo, esforço, materiais, espaço, mão de obra, equipamentos, entre outros. As melhorias para a busca da perfeição podem ser realizadas por intermédio de ações contínuas e de pouco impacto, chamadas kai-ze n, 6 ou, quando necessário, de ações radicais, chamadas kaikaku. 7 O kaizen está relacionado a pequenas, mas contínuas, me- lhorias que são realizadas nas práticas já existentes. As mudanças tendem a ser lentas, mas contínuas e consistentes. Já no kaikaku, as mudanças são radicais, muitas vezes com a utilização de novos conceitos, tecnologias ou práticas. Sempre é possível melhorar! Esse é um lema que não se pode esquecer nas organizações que buscam o Sistema Lean. O kaizendeve ser uma ação diária e fazer parte da cultura; o kaikaku deve ser empregado quando for necessário eliminar mudas significativas. A perfeição tem como foco o atendimento do cliente final em seus valores. Mas quem é esse cliente final? O conceito de cliente precisa ter uma visão macro. Considerando uma unidade organiza- cional em um sistema produtivo, pode-se dizer que cliente é aquele que tem necessidades reais ou simbólicas, aqui representadas por “valor” e manifestadas por expectativas ou desejos a serem atendidos. Assim, como mostra a Figura 1.6, o ator que consome um bem ou utiliza um serviço de uma organização ou unidade para atender a suas necessidades pessoais ou institucionais é um cliente dessa organização. Os acionistas dessa mesma organização também têm necessidades, porém relacionadas ao retorno do capital investido, mas, de qualquer maneira, eles também são clientes. Do mesmo 6 Kaizen é um termo criado pelos japoneses e utilizado com frequência no ocidente para representar pequenas mudanças para melhorias contínuas.7 Kaikaku, também conhecido por kaizen de fluxo ou kaizen de sistema, é um termo criado pelos japoneses e utilizado com frequência no ocidente para representar mudanças radicais.
  • 13.
    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 17 modo, a sociedade, que tem necessidades com relação à citada organização, quanto a aspectos ambientais e sociais, é cliente, e os parceiros e os próprios fornecedores também têm necessidades com relação à organização a quem abastecem, e também são clien- tes. É preciso ainda considerar os diversos clientes internos e os clientes de segundo e terceiro níveis. Os ciclos do consumo e da produçãoMais do que nunca o atual contexto organizacional tem o clien- te como o foco principal. O ciclo da produção, historicamente muito estudado e analisado, com seus métodos e sistemas, tem hoje como elemento integrador e complementar o ciclo do con- sumo, como apresentado na Figura 1.7. O ciclo do consumo é um processo que envolve o cliente com suas necessidades, que podem ser reais ou simbólicas, e suas consequentes expectativas e seus desejos, norteadas por posições econômicas, comportamentais FIGURA 1.6 A organização e seus clientes.
  • 14.
    18 LEAN MANUFACTURING ou cognitivasdiante das variáveis de mercado, demográficas ou culturais . A eficácia organizacional do sistema tem como um dos seus principais indicadores a proximidade, a integração e o nivelamento dos ciclos do consumo e da produção, buscando um menor lead tim e 8 e o pleno atendimento do valor de todos os atores envolvidos, em particular do cliente final. O lead time, tempo entre o pedido e recebimento do produto pelo cliente, contempla o tempo de processamento e todos os outros tempos do processo produtivo, como período de armaze- namento, de transporte, de operações, de movimentos, de setup, entre outros. O cliente, seja institucional ou individual, busca o atendimento de seu valor ao identificar a utilidade de um produto para atender suas necessidades, o que gera expectativas e desejos que, se aten- didos, o leva à satisfação, como mostra a Figura 1.8. 8 Lead time é o tempo decorrido do pedido de um produto pelo cliente, a entregado mesmo pelo produtor. FIGURA 1.7 Lean Manufacturing e os ciclos da produção e do consumo.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 19 A satisfação pode ser de ordem funcional, sensorial ou psicos- sociológia. Essa satisfação em clientes institucionais geralmente é de ordem funcional. Já em clientes individuais, além de funcional, pode ser de ordem sensorial ou psicossociológica. O ciclo do consumo aciona o início do ciclo da produção com a realização do pedido pelo cliente, e o fim desse ciclo ocorre com a entrega do produto ao cliente. 9 Entre um pedido e outro, o cliente está sujeito a criar ou desenvolver novas necessidades e, conse- quentemente, novos valores. Já o ciclo da produção pode ser divido em três níveis: no primeiro, é preciso identificar a voz do cliente, buscar, diante das necessidades dos clientes, oportunidades de melhoria, identificar as mudas e realizar kaizen de fluxo (kaikaku), quando necessário; no segundo nível, é preciso criar fluxos de valor dos processos, implantar uma metodologia para a gestão e melhoria contínua dos processos, buscar a padronização dos processos e o nivelamento do fluxo. O detalhamento dessas etapas será realizado no Capítulo 2 deste livro. FIGURA 1.8 Da utilidade do produto a satisfação do cliente. 9 Em determinados casos, dependendo da especificidade do processo, do produto e do cliente, o ciclo do produto vai até a forma de descarte dele próprio ou de sua embalagem.
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    20 LEAN MANUFACTURING No terceironível, consideram-se os métodos, sistemas ou pro- gramas vinculados ao Sistema Lean Manufacturing. Este livro priorizou oito ações por meio de métodos que devem ser associadas em quatro grupos, todos convergindo para a filosofia just in time, como mostra a Figura 1.9. O detalhamento desses grupos será realizado no Capítulo 3 do livro. Os sete desperdícios fundamentaisO foco permanente no Pensamento Lean tem como suporte principal a eliminação de mudas (desperdícios) em todas as etapase em todos os níveis do processo produtivo por meio da otimização ou de mudanças das ações que as geram. Muitos têm sido os méto- dos ou as técnicas utilizadas para esse fim. Uma das mais eficazes surgiu a partir das preocupações de Taiichi Ohno, que desenvolveu suas ideias como executivo da Toyota. Ohno tinha duas posições notáveis em relação aos resultados organizacionais: em uma ele acreditava que “o aumento da eficácia só faz sentido quando está associado à redução de custos” e, na FIGURA 1.9 Os métodos, sistemas e programas para Lean Manufacturing.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 21 outra, que “a eficiência deve ser melhorada em cada estágio e, ao mesmo tempo, para a fábrica como um todo”. 1 0 É ainda de Ohno a proposta de equação: Capacidade atual = Trabalho + Desperdício. Ele associou a variável trabalho, em pri- meiro plano, aos colaboradores: é possível produzir mais com a mesma ou com menos força de trabalho. A eficiência total deve ser atingida com o zero desperdício. Todavia, foi Shigeo Shingo, consultor da Toyota na época de Ohno, quem o auxiliou e ampliou as formas de entendimento sobre o desperdício não só com foco na mão de obra, mas também considerando todas as outras atividades organizacionais. Assim, foram elencados sete grandes grupos potenciais de ocorrência de desperdício, apresentados na Figura 1.10: superprodução, es- pera, transporte, processos, estoque, movimentação e produtos defeituosos. O desperdício associado à superprodução diz respeito à pro- dução em excesso, ou seja, em quantidades elevadas ou no tempo errado, o que gera estoques adicionais e tende a omitir problemas em todo o processo. Já o desperdício em virtude da espera está as- FIGURA 1.10 Os sete desperdícios de Ohno e Shingo. 10 OHNO, T. O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga escala.Porto Alegre: Bookman, p. 38.
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    22 LEAN MANUFACTURING sociado aotempo parado da mão de obra, peças ou equipamentos e pode-se dividir em espera do lote ou espera do processo; no entanto, os dois tempos de espera são significativos e tendem a trazer desperdícios. O desperdício vinculado às atividades de transporte é causado principalmente por layouts mal projetados, o que tem como con- sequência uma grande — e muitas vezes desnecessária — movi- mentação de peças, estoques e equipamentos, gerando custos e desperdícios. O desperdício proveniente do processo diz respeito à metodo- logia de processamento em si: procedimentos e atividades des- necessárias ou superdimensionadas, utilização de equipamentos dimensionados de maneira inadequada, alocação de mão de obra não compatível, entre outros. A análise desse tipo de desperdício possibilita identificar o que está sendo utilizado ou colocado à dis- posição do processo e que tem custos, mas não gera valor para o produto do processo. O desperdício relacionado a estoque é causado pela estoca- gem de peças ou produtos semiacabados em quantidades su- periores ao realmente necessário, o que pode ocorrer por conta de vários fatores e, além de imobilizar capital sem necessidade, pode trazer várias outras consequências, como utilização não adequada de espaços, omissão de falhas no fluxo ou nivelamento do processo, riscos com estocagem e outros custos vinculados à estocagem. O desperdício quanto à movimentação está relacionado prin- cipalmente ao movimento interno dos operadores nas estações de trabalho para realizar suas tarefas específicas diante do po- sicionamento das ferramentas, do layout e da localização dos equipamentos, dos aspectos ergonômicos dos equipamentos e do próprio setor produtivo. O desperdício motivado por produtos defeituosos é provocado pela produção de bens ou serviços fora das especificações e necessidades dos clientes internos ou ex- ternos, o que provoca retrabalho ou refugo, acarretando elevados custos e desperdícios para a organização.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 23 Outros estudos e modelos também priorizam a identificação e o controle dos desperdícios e das perdas, entre eles a trilogia da qualidade e a manutenção produtiva total, que são apresentados a seguir. Juran e o desperdícioJoseph Juran, um dos gurus da metodologia da gestão da qua- lidade total, ao definir sua trilogia da qualidade (Figura 1.11) com base no planejamento, no controle e na melhoria da qualidade, sugeriu uma divisão das perdas, associadas diretamente aos cus- tos desnecessários e que provocam desperdícios em dois níveis: as perdas esporádicas e as perdas crônicas. As perdas esporádicas são de fácil identificação e, muitas vezes, aparentemente de solu- ção simples; já algumas das perdas crônicas também podem ser identificadas com relativa facilidade, e algumas estão até associa-das às perdas esporádicas, mas suas causas estão relacionadas ao planejamento ou projeto, sendo a relação causa-efeito muitas FIGURA 1.11 A trilogia da qualidade de Juran.
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    24 LEAN MANUFACTURING vezes deidentificação não simplista. Nesse caso, é necessária a utilização de técnicas e ferramentas próprias para identificação da causa raiz e eliminação das perdas e dos desperdícios para a busca da devida solução. 1 1 A eliminação ou redução das per- das crônicas está associada diretamente à redução de custos do processo. JIPM e o desperdícioO Japan Institute of Plant Maintenance (JIPM) apresentou, na década 1970, outra significativa contribuição com o objetivo de identificar e combater o desperdício por meio da incansável perse- guição das perdas associadas aos processos de manutenção. Com a criação do sistema de manutenção produtiva total (Total ProductiveMaintenance – TPM), assunto a ser tratado no Capítulo 3, o JIPM identificou 16 tipos de perdas que provocam desperdício ao não agregar valor ao produto final: • Perdas por quebra de equipamento; • Perdas por troca de ferramenta; • Perdas por falhas no processo; • Perdas por espera; • Perdas por velocidade de equipamento; • Perdas por rendimento do equipamento; • Perdas na administração; • Perdas na mobilidade operacional; • Perdas na organização da linha; • Perdas na logística; • Perdas na medição; • Perdas relativas à energia; • Perdas relativas ao material;• Perdas relativas a ferramentas; • Perdas com a mudança de dispositivo de controle; • Perdas por retrabalho. 11 Maior detalhamento da trilogia da qualidade poderá ser encontrada em RODRIGUES, M. Ações para a qualidade. 4ª edição. São Paulo: Campus, 2012.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 25 O Sistema Toyota de Produção como referência inicialA Toyota foi a grande referência para a sistematização do Sistema Lean Manufacturing. Além das publicações clássicas de Taiichi Ohno e Shigeo Shingo, relatando suas experiências como executivo e consultor da Toyota, respectivamente, têm-se as contribuições de James Womack e seus colaboradores, e de Jeffrey Liker, em que são feitas muitas, importantes e esclarecedoras considerações sobre o Sistema Toyota de Produção (STP). O sonho de um novo sistema de produção nasceu a partir de Kiichiro Toyoda, sempre se espelhando em seu pai, Sakichi Toyo- da, um inventor e revolucionário quanto às formas de produzir. Kiichiro, em 1929, visitou a unidade Rouge da Ford, em Detroid, e esse foi um dos motivadores para a criação, em 1933, da Toyota Motor Company. Uma visão embrionária de uma maneira de operacionalizar o processo produtivo, que seria chamado pos- teriormente just in time, já era, naquela época,considerada por Toyoda. A sua operacionalização teve início a partir das investigações e observações de Eiji Toyoda em uma visita feita, em 1950, à mesma unidade da Ford visitada por seu primo, Kiichiro Toyoda, o que o motivou a ter como missão aumentar a eficácia da Toyota com base na movimentação dos materiais e na liderança com criatividade, habilidade, conhecimento, sempre voltada a iniciativas produtivas. E Eiji Toyoda teve o apoio do engenheiro chinês Taiichi Ohno, cola- borador da Toyota na época e que também conheceu várias fábricas nos Estados Unidos, inclusive unidades da Ford e General Motors. Mas o que chamou a atenção de Ohno nos Estados Unidos foi, principalmente, a eficácia do supermercado Piggly Wiggly quanto à movimentação de materiais e mercadorias. O “método” adotado por esse supermercado serviu de base para que anos depois Ohno crias- se as bases para a filosofia just in time . As iniciativas de Ohno foram reforçadas pelas incansáveis tentativas de melhoria idealizadas pelo consultor Shigeo Shingo. O Quadro 1.1 apresenta os principais gurus do STP com suas respectivas contribuições.
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    26 LEAN MANUFACTURING Jeffrey Likercontribuiu para um entendimento do STP com suas diversas pesquisas e consequentes publicações com abordagens gerenciais sistematizadas e objetivas, e é com um questionamento apresentado por esse autor que se pode dar sequência a essa apre- sentação: qual é o segredo do sucesso da Toyota? O próprio autor responde ao questionamento dizendo que a principal justificativa Quadro 1.1 Os gurus do STP GURUS DO STP CONTRIBUIÇÃO PARA O STPSAKICHI TOYODA(1867- 1930) Revolucionou a indústria têxtil no final do século XIX ao inventar a primeira máquina de fiar elétrica no Japão e, posteriormente, uma máquina de fiar automática, com dispositivos que identificavam automaticamente os desvios ou erros de operações e, consequentemente, desligava a máquina. O invento, na época revolucionário, foi vendido à empresa inglesa Platt Brothers, e o negociador foi seu filho, Kiichiro Toyoda.KIICHIRO TOYODA(1894- 1952) Filho de Sakichi Toyoda, que criou, em 1933, com os recursos financeiros obtidos na negociação com a Platt Brothers, a Toyota Motors Corporation. Foi, desde o início, um grande incentivador a ideias e métodos racionais para a redução de desperdícios.EIJI TOYODA(1913- ) Sobrinho de Sakichi Toyoda e ex-presidente da Toyota. Eiji Toyoda visitou plantas automobilísticas norte-americanas em 1950 e levou para o Japão questionamentos e ideias que motivaram o surgimento do STP. TAIICHI OHNO(1912- 1990) Engenheiro mecânico nascido na China e ex-vice-presidente da Toyota, é considerado o criador do Sistema Toyota de Produção. Entrou para a Toyota em 1933 e, desde então, passou a compartilhar e operacionalizar as ideias de Kiichiro Toyoda para eliminação dos desperdícios e reduzir perdas na produção. Ohno desenvolveu o Sistema Toyota de Produção e o just in time , motivado por questionamentos, e a não coerência por ele observada nos modelos existentes na epoca e em suas observações pessoais sobre a forma de operação dos supermercados dos Estados Unidos. SHIGEO SHINGO (1909- 1990) Como consultor da Toyota, colaborou intensamente para operacionalizar as ideias de Ohno. Shigeo Shingo é autor de varios livros e é o grande responsavel pelo desenvolvimento de várias das técnicas utilizadas hoje no mundo produtivo, entre elas a troca rápida de ferramenta.FUJIO CHO (1937- ) Ex-presidente da Toyota, criou a Casa do STP, que procura sistematizar e apresentar de forma objetiva e clara todas as ações, os métodos, os sistemas e os programas do STP
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 27 para tal sucesso é a excelência operacional com base em métodos, sistemas e programas para a busca da qualidade contínua como parte atuante da estratégia da organização e, também, a filosofia or- ganizacional voltada para as pessoas, priorizando a compreensão, o respeito, a motivação e a otimização de suas forças de trabalho. A integração dos métodos, sistemas e programas com a busca da excelência operacional foi sistematizada por Fujio Cho, que também trabalhou com Ohno e chegou à presidência da Toyota por meio do que ficou conhecido como “Casa do STP” (Figura 1.12). A citada formação estabelece como meta a melhor qualidade, o menor custo, o menor lead time, mais segurança, a moral e o com-prometimento elevado. Como base inicial para atingir essas metas está a filosofia da Toyota, seguida por um gerenciamento visual, por processos estáveis e padronizados e produção nivelada. A operacionalidade e busca da eficácia do sistema proposto pelo modelo de Cho é feita por meio de quatro pilares, com métodos, sistemas ou programas, todos buscando a melhoria contínua: o FIGURA 1.12 A casa do STP. Fonte:Liker (2005), p.51.
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    28 LEAN MANUFACTURING just intime, a autonomação (jidoca), o foco nas pessoas e equipes de trabalho e o foco na redução das perdas. Todos serão tratados por este livro no Capítulo 3. Os princípios da Toyota (4P's) representam o fluído para a ope- racionalização do modelo sistematizado por Cho. Outro aspecto relevante, ressaltado por Ohno, para administrar o STP, são as folhas de trabalho padrão (Relatório A3). A seguir, serão apresentados os 4P's e o Relatório A3. Os 4P's da ToyotaJá em 1934 a Toyota estabeleceu sua primeira relação de princí- pios que foram posteriormente atualizados. Com habilidade para possibilitar um entendimento adequado desses princípios e de suas operacionalizações, J. Liker descreve a base do STP em 14 outros princípios básicos, divididos didaticamente em quatro grupos denominados 4P's: philosophy (filosofia), processos, parceiros e problemas (veja a Figura 1.13). FIGURA 1.13 Os 4P's da Toyota. Fonte:Adaptado de Liker (2005), p.28.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 29 A filosofia dá um norte a toda a organização ao associar de maneira eficaz seus objetivos, seus valores, sua visão de futuro e sua missão. Isso deve ser operacionalizado por meio de um plano estratégico integrado. O processo é analisado por intermédio de sete princípios: • Fluxo de processos contínuo : explicita problemas que devem contemplar e alinhar o desmembramento dos objetivos e das estratégias organizacionais para todos os níveis e setores da organização, sempre focando na relação fornecedor-cliente, em todos os níveis, buscando valor no fornecedor e atendendo ao valor do cliente imediato, o que pode ser atingido por meio da gestão estratégica de processos. Para ajudar a atingir esse princípio, a organização e o layout da linha que podem ser trabalhados por meio do programa 5S e das células de produção, respectivamente, são boas alternativas. • Sistema puxado evitando a superprodução : tem início no momento em que são acionados pelo cliente; e deve ocorrer com as especificações e o valor que ele quer, no momento em que ele quer e na quantidade desejada. O Kanban tem sido o sistema que tem operacionalizado a produção puxada, e para aumentar sua eficácia com a coleta de insumos pode-se utilizar o Milk Run.• Nivelamento da carga de trabalho : também conhecido por heijunka, busca nivelar a carga de trabalho por meio da coordenação integrada de todas as unidades, os equipamentos e as equipes de trabalho. Busca-se o nivelamento por intermédio do mapeamento, da medição, da gestão e do controle dos processos. • Cultura da qualidade , fazendo certo na primeira vez : um dos principais focos do Sistema Lean é produzir certo na primeira vez, sem retrabalho. Assim, é preciso criar uma cultura para priorizar a solução de problemas de maneira rápida e eficaz, com a criação de sistemas programados para identificar falhas ou interrompendo imediatamente toda a produção ao se identificar alguma anomalia. O Poka-Yoke e a autonomação, jidoca, tem auxiliado a garantir a integridade de produtos semiacabados em toda a linha.• Padronização para melhoria contínua e aprendizagem : é preciso definir o ponto ótimo para cada ação a partir das
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    30 LEAN MANUFACTURING melhores práticas,capacitando os colaboradores e calibrando todos os equipamentos, para depois padronizar. A estabilidade das ações possibilita previsões adequadas e dentro das metas estabelecidas, e é o passo anterior a padronização. • Controle visual , explicitando os problemas : a observação in-loco é a melhor ação para identificar prováveis anomalias; sendo assim, é preciso preparar toda a linha com indicadores visuais simples e de fácil acesso. A gestão visual tem sido uma das medidas simples e eficazes utilizadas nas organizações que buscam o Sistema Lean. O Programa 5S, Poka-Yoke e a autonomação, e alguns elementos ou etapas do TPM e do Kanban, auxiliam a dinamizar o controle visual. • Tecnologia alinhada aos processos e funcionários : as organizações Lean buscam na tecnologia um meio, e não um fim, e as pessoas representam o foco principal. As novas tecnologias são bem-vindas mas necessariamente devem se adaptar à cultura e ao modelo de gestão da organização. A TPM, a TRF e a autonomação são exemplos das participações ativa das pessoas diante das características e tecnologia dos equipamentos, para melhores resultados. A parceria é analisada por meio de três princípios: • Desenvolvimento de líderes comprometidos com o trabalho e afilosofi a : os lideres devem disseminar os princípios da organização e conhecer plenamente todas as atividades operacionais. Um plano de carreiras consistente e políticas de RH vinculadas aos objetivos estratégicos garantem que os líderes terão origem na base da organização e longa permanência nesta. • Desenvolvimento de pessoas e equipes : a cultura da organização deve ser entendida e compartilhada por todos. Os colaboradores e as equipes devem ter um conhecimento pleno de suas atividades específicas, mas também envolvimento e responsabilidade com todas as outras atividades da organização. A operacionalização pode ocorrer por meio de um programa de treinamento e da utilização de técnicas para o comprometimento dos colaboradores. • Cooperação e Respeito aos parceiros e fornecedores : a integração e o compartilhamento de conhecimento com os parceiros e
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 31 fornecedores devem ser um dos pilares da organização. Geralmente, essas relações devem ser de longo prazo, estabelecendo um clima de cooperação e estabilidade. Os problemas são analisados, também, por intermédio de três princípios: • Participação pessoal nos problemas e ações : isso deve fazer parte da cultura de cada executivo, líder ou colaborador, uma vez que conhecer pessoalmente a situação-problema tem sido uma forma de nivelar e unificar as informações. • Decisões lentas, implementação rápida: todos os envolvidos de alguma maneira no processo devem participar ou contribuir com dados ou informações para as decisões, que são definidas após a identificação das várias alternativas. Isso aumenta o tempo para a tomada de decisão, mas quando definido, já é do conhecimento e da concordância de todos, o que agiliza sua implementação. • Aprendizagem como foco : os processos de aprendizagem estão vinculados a aspetos da cultura da organização e às melhores práticas utilizadas nos processos já estabilizados. Outro aspecto importante é a proteção do conhecimento com a busca da manutenção do corpo funcional por longo prazo. A sistematização apresentada e descrita sobre os princípios da Toyota, com base nos ensinamentos de J. Liker, pode ser tomada co- mo um roteiro e objetivos para organizações que buscam o Sistema Lean. Como se viu, as ações, que partem de posições estratégicas, são operacionalizadas em todos os níveis da organização, com foco na mão de obra e em materiais, máquinas e métodos. O Relatório A3 da ToyotaO Relatório A3 (Figura 1.14) é um sistema eficaz de informação, operacionalizado por meio de uma folha de papel tamanho A3 (27,5 × 42,5 cm). Historicamente, a Toyota utiliza esse meio para concentrar, de maneira simples e de fácil acesso, todas as infor- mações relevantes, com o histórico, início, meio e fim da análise, e com a solução de problemas, status de um projeto, projetos de mudança, entre outros.
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    32 LEAN MANUFACTURING FIGURA 1.14 UmRelatório A3 de análise e solução de problema.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 33 Ohno atesta que a “folha de papel padrão” é um meio de con- trole visual e que as informações nela contidas são elementos importantes para a administração do STP. É por meio desse ins- trumento que devem se combinar e integrar materiais, colabo- radores, máquinas, com técnicas e ferramentas de melhoria. O Relatório A3 pode ter diversas apresentações e informações, de acordo com seu objetivo específico, e o Relatório A3 para solução de problemas é o utilizado com maior frequência. Neste, devem constar todas as etapas para análise e solução, desde a identificação do problema até definição da causa raiz e o consequente plano de ação para sua solução. Um relatório A3 de solução de problemas é a representação gráfica e resumida de todas as ações na execução de um ciclo PDCA. 1 2 Nesse relatório, uma folha de papel tamanho A3 é dividida em setores. Inicialmente em uma linha superior, coloca-se o título ou tema do relatório, seguidos da: • Definição e descrição do problema; • Análise e identificação do problema e causas; • Plano de ação; • Análise dos resultados; • Acompanhamento e Ações futuras. No final ou no início, abaixo do tema, devem ser inseridos a unidade, o departamento ou processo analisado, o nome do res- ponsável, a equipe (se for o caso) e data da concepção do relatório. Nas etapas de um Relatório A3 são utilizadas ferramentas analí- ticas, como lista de verificação, gráficos de controle, diagrama de Pareto, diagrama de causa e efeito, FMEA, gráficos box-plot, entre outros. Assim, o Relatório A3 é um excelente meio para viabilizar a gestão visual e nivelar e integrar as informações, entre os diversos setores. Sua simplicidade permite a utilização por qualquer orga- nização que busque melhoria nos seus resultados, em particular as que buscam o Sistema Lean. 12 Ciclo PDCA (Planejar, Fazer, Verificar e Agir Correticamente) será apresentado no Capítulo 2.
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    34 LEAN MANUFACTURING O Lean ManufacturingComojá mencionado, o Sistema Lean teve inicialmente a Toyota como seu maior operacionalizador com uma cultura e princípios próprios adaptados às especificidades da organização. O sucesso fez com que muitos autores, consultores e organizações procuras- sem utilizar seu modelo ou ações como referência, sem uma devida contextualização das diversas realidades geográficas, culturais, setoriais ou organizacionais. O Lean Manufacturing busca uma melhor qualidade para todo o sistema, com a redução do desperdício, do custo, do lead time e aumento da rentabilidade e da eficácia no atendimento ao valor do cliente, como mostra a Figura 1.15. A virtude para criação de novas maneiras de gerenciar a produ- ção e a coragem para a implantação de revolucionários e ousados métodos e sistemas faz com que a Toyota ocupe, em relação ao Lean Manufacturing, o mesmo papel que a Ford desempenhou FIGURA 1.15 Resultados do Lean Manufacturing.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 35 no início do século passado com relação ao sistema de produção em massa. Mas é preciso recordar a história. Logo após Henry Ford lançar seu modelo, diversas novas contribuições surgiram, agregando conhecimento e valores ao modelo original. Assim, é preciso que se considere o Lean Manufacturing como um norte dinâmico a ser atingido, no qual o caminho que cada organização deverá trilhar provavelmente não será o mesmo adotado por outras organizações. O Sistema Lean pode ser adotado por organizações de qualquer setor, e não somente do setor de manufatura, mas é preciso que sejam levados em consideração alguns aspectos vitais para o suces- so, como: • O total comprometimento da alta direção; • A disciplina e comprometimento do corpo funcional; • A flexibilidade para o realinhamento da cultura da organização; • O entendimento adequado do pensamento Lean. É necessário ainda que a organização entenda e aprenda, em toda sua plenitude, as diferenças e ações necessárias para a eficaz integração entre o sistema de consumo e o sistema de produção, em que, além da busca da satisfação do cliente, o lead time e a rentabilidade da organização são variáveis imperiosas. A operacionalização do Lean Manufacturing na busca de resul- tados tem muitos de seus meios e ações desenvolvidas ou criadas com foco na pensamento Lean e na busca da gestão da qualidade total, muitos concebidos no início ou meados do século XX, no mínimo há mais de 50 anos. Quanto à necessidade de as pessoas terem o comprometimen- to, motivação e conhecimento de seus processos, isso também não é novo. Já se tem uma base conceitual consistente concebida a partir do fim do século XIX e que foi sistematizada no início do século XX. Mas a neurose de “copiar” modelos de excelência de outras organizações sem uma contextualização adequada, muitas vezes sem verificar as reais necessidades, ou de utilizar instrumentos
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    36 LEAN MANUFACTURING gerenciais ultrapassadoscomo “novas ideias”, buscando “reinventar a roda”, tem, de maneira contrária, provocado desperdício. A todo momento surgem na literatura especializada “novos” e “revolucionários” modelos ou metodologias. Alguns se propõem a fazer “milagres” organizacionais. Outros, criados por empresas, consultores ou autores com o objetivo de personalizar seus modelos ou produtos com base em conhecimentos já existentes, na busca de uma maior inserção no mercado da consultoria, ou do conheci- mento da gestão das organizações. Esses modelos ou metodologias não têm apresentado resultados adequados. Assim, muitas das práticas que surgem hoje como as grandes novidades não são novas. O que hoje se poderia chamar de “novo” é ter uma visão ampla e seletiva do conhecimento e, a partir desse po- sicionamento, cada organização deve utilizar o que for necessário e próprio aos seus processos. É ainda “nova” a consciência dos profissionais de buscarem soluções no conhecimento já constituído e sedimentado, compatibilizando-o com as reais necessidades da organização, para o caminho da eficácia, em vez de adotar o “achis- mo” ou o “eu já sei” como modelo gerencial prioritário. O “novo” é um mercado global e competitivo, que não mais admite gestores amadores com conhecimento apenas prático ou superficial. É preciso ainda lembrar que o problema maior não é o que o profissional não sabe, mas sim o que ele sabe, mas que não é mais verdadeiro ou está ultrapassado. O Lean Manufacturing é um co- nhecimento já desenvolvido, com diversos métodos, sistemas ou programas, com histórico e experiência bem-sucedida em muitas organizações. Em outras, sua implantação não atingiu as metas pre- vistas, mas tudo isso é conhecimento a ser utilizado como suporte para as novas implantações. O Lean Seis SigmaO termo Lean Seis Sigma surgiu em uma tentativa de consulto-res de unir as boas práticas do Sistema Lean Manufacturing com as ferramentas, as técnicas e os métodos utilizados na Metodo- logia Seis Sigma, originada na Motorola no início dos anos 1980,
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 37 dinamizada no final dos anos 1990 na GE e hoje amplamente utilizada pelas organizações dos diversos setores. A Metodologia Seis Sigma busca associar ações de melhorias contínuas de processos com projetos de rupturas, denominados Projetos Seis Sigma, buscando resultados melhores e mais eficazes, como mostra a Figura 1.16. Um Projeto Seis Sigma, seguindo os ensinamentos do Guia PMBOK (Project Management Body of Knowledge) do PMI (Project Management Institute), é dividido em cinco fases: D (define — definir); M (measure — medir); A (analyze — analisar); I (improve — melhorar); e C (control — controlar). O Quadro 1.2 apresenta o significado de cada fase. A Metodologia Seis Sigma “trata a qualidade de maneira sis- têmica, considerando todas as ações e setores de uma organização, e não somente as não conformidades de processos isolados”. 1 3 FIGURA 1.16 A metodologia Seis Sigma. Fonte:Rodrigues (2012), p. 16. 13 Em Rodrigues (2012), na pagina 17, em obra citada nas Referencias Bibliograficas desse livro.
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    38 LEAN MANUFACTURING Já o“Projeto Seis Sigma, por meio do DMAIC, é o instrumento utilizado por essa metodologia para criar ou modificar os processos ou produtos na busca da melhoria”. 1 4 Nos Projetos Seis Sigma, os profissionais recebem treinamento próprio e ocupam funções específicas denominadas de: • Master Black Belt — instrutores e mentores das ações para viabilizar a metodologia. • Black Belt (faixa preta) — líder de equipes de projetos Seis Sigma .• Green Belt (faixa verde) — membros de equipes de projetos Seis Sigma.• Champion — facilitador ou patrocinador de projetos Seis Sigma ao realizar o elo entre o nível estratégico e o operacional. Diante da importância e ampla utilização pelo mercado, é preciso que o leitor busque um aprofundamento nos conceitos e técnicas específicas da Metodologia Seis Sigma. 1 5 15 Não é objetivo deste livro tratar da Metodologia Seis Sigma, mas se o leitor quiser se aprofundar nesse tema leia Entendendo, aprendendo e desenvolvendo qualidade padrão seis sigma, do mesmo autor deste livro e lançado pela mesma editora . Quadro 1.2 As fases de um projeto Seis Sigma GUIAPMBOK PROJETO SEIS SIGMA FASE S DMAI C Iniciação D Definir os processos críticos e os objetivos diante do negócio e das expectativas e necessidades dos clientes.Planejamento M Medir o desempenho do processo e identificar os problemas e a intensidade destes. Execuçã o A Analisar o desempenho e as causas dos problemas. Finalizaçã o I Melhorar o processo, eliminando os problemas, reduzindo custos e agregando valores para o cliente.Control e C Controlar o desempenho do processo. Font e : Rodrigues (2012), p.28. 14 Em Rodrigues (2012), na página 30, em obra citada nas Referências Bibliográficas deste livro.
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    Capítulo 1 •Entendendo Lean Manufacturing 39 O Lean ManagementO Lean Management vem sendo utilizado para denominar uma filosofia de gestão, com foco na gestão estratégica e integrada dos processos, que tem como base principal o pensamento Lean em toda a organização a partir do desdobramento das estratégias, de- limitação dos processos, definição de seus indicadores vinculados aos objetivos estratégicos e de suas consequentes metas. Tanto o Lean Seis Sigma, quanto o Lean Management, como ou- tros termos com menor utilização, como Lean Enterprise ou Lean Business System, são tentativas de utilizar o termo lean, que vem ganhando credibilidade no mundo organizacional, principalmente no setor da manufatura, para divulgação de conhecimento já exis- tente com outras denominações ou embalagens. São variações sobre o mesmo tema. É preciso atenção por parte das organizações para identificação de suas necessidades reais e busca dos caminhos consistentes, sem modismos.
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    41 Aprendendo o Suporte parao Lean Manufacturing O melhor tipo de administração usada atualmente pode ser definido como um sistema em que os trabalhadores dão os seus melhores esforços e recebem estímulos especiais dos seus patrões. Frederik TaylorO pai da produtividade Este capítulo tem por objetivo apresentar o principal suporte para um sistema produtivo, em particular para o Lean Manufac- turing: os processos. Inicialmente, serão trabalhados os conceitos básicos e as métricas para a medição de um processo com a apre- sentação dos principais e atuais modelos que buscam alinhar e analisar os indicadores de desempenho diante dos objetivos da organização. Seguindo o roteiro inicial apresentado de maneira com- pleta na Figura 1.7, no Capítulo 1, este capitulo dará sequência com a apresentação das ferramentas e técnicas para análi- se e melhoria dos processos, padronização e nivelamento dos processos, conforme a Figura 2.1, que apresenta o roteiro pa- ra a gestão dos processos organizacionais, desde a necessida- de de criação de um fluxo de valor, motivada pelo cliente do processo. 2
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    42 LEan ManuFaCturIng Gestãoe medição do desempenhodos processosa existência de uma organização tem início com a elaboração dos elementos, que devem nortear suas ações e sua cultura para viabilizar seus negócios. a missão, os valores e a visão são elemen- tos imperiosos, que devem dar uma identidade à organização e um caminho de acordo com sua realidade e seu estado desejado idealizado (veja a Figura 2.2). a caminhada na busca do estado desejado tem trajetória e etapas disciplinadas pelos objetivos estratégicos; já as estratégias buscam, nesse sentido, viabilizar as estruturas, as unidades de negócios ou operacionais e os colaboradores, para unificar, integrar e personalizar o valor ao qual a organização se propõe a atender, para um eficaz desempenho do fluxo de valor e alinhamento e harmonia da cadeia de valor em todo o ciclo de produção. a integração da cadeia de valor no sistema produtivo é feita por meio dos processos. um processo é um conjunto de atividades com início e fim bem delimitados, cujo objetivo é prestar atendimento FIGURA 2.1 A Busca de excelência dos processos diante de um ciclo produtivo.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 43 do valor e que busca, por meio de ações realizadas por máquinas e colaboradores, transformar elementos de entradas (insumos, peças, entre outros), agregando valor para elementos de saída (sistemas, produtos, entre outros). na Figura 2.3 é apresentado um processo padrão: na entrada, temos o elemento que deve ser processado e modificado, e, na saída, o produto desejado. Seguem alguns exemplos: • Em uma montadora, a entrada pode ser peças e a saída, um automóvel ;• Em um escritório de contabilidade, a entrada pode ser dados contábeis e a saída, um balanço financeiro; • Em uma escola, a entrada pode ser o aluno e a saída, esse aluno com conhecimento; • Em uma unidade interna de uma montadora, a entrada pode ser uma chapa e a saída, essa chapa perfurada destinada à estação de trabalho seguinte. FIGURA 2.2 Estágios e dinâmica de uma organização.
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    44 LEan ManuFaCturIng aindana entrada, encontra-se todo o suporte e a infraestrutura necessária para viabilizar o início das atividades: colaboradores, equipamentos, tecnologia, instalações, entre outros. Já a saída do processo é o resultado: o produto destinado ao cliente final, ou um componente, ou serviço destinado a um cliente interno. a metodologia de processamento ordena e disciplina as ativida- des, que têm início a partir de ações que podem utilizar conhecimen- tos e tecnologias específicas, máquinas e equipamentos próprios, e colaboradores capacitados para realização das atividades. um processo em qualquer organização ou qualquer área pode ter como subproduto indesejado os problemas socioambientais. Isso sempre ocorreu, mas só recentemente as organizações passaram a se preocupar com esse importante aspecto. assim, hoje o objetivo de um processo é, diante de uma mesma entrada, obter uma melhor saída, minimizando ou eliminando as possibilidades de problemas socioambientais . FIGURA 2.3 Etapas de um processo.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 45 O significado de melhor saída está relacionado ao desempenho e depende da especificidade e do objetivo do processo, e pode estar relacionado a diversas variáveis, entre elas: • Confiabilidade; • Crescimento; • Custo; • Flexibilidade; • Grau de inovação; • Grau de internacionalização; • Prazo; • Produtividade; • Qualidade ;• Rentabilidade ;• Velocidade ;• Volume . O desempenho tem origem e é viabilizado pelo processo, sendo que a medição dessas variáveis atestam o nível de desempenho de um processo e são denominadas indicadores de desempenho (ID). Eles estão diretamente associados à eficiência e eficácia da gestão, bem como ao controle dos processos e de toda a organização. É de vital importância para o gestor que os IDs sejam confiáveis, obtidos com a periodicidade necessária, no grau de precisão exigido pelo processo e na quantidade certa. Hoje, o desempenho organizacional e o alcance dos objetivos estratégicos são vistos como frutos dos resultados alinhados dos diversos processos, mas durante muito tempo o único ID considerado por uma organiza- ção para a medição de seu resultado era o financeiro, por meio dos processos tradicionais com informações apenas em aspectos financeiros e contábeis, não considerando os requisitos para atendimento dos valores da cadeia de clientes de um processo produtivo. Esses sistemas tradicionais de medição foram desenvolvidos no contexto do sistema de produção em massa e tinham como foco uma visão de curto prazo e setorial por meio da maximização da produtividade, da minimização dos custos, da eficiência na realização
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    46 LEan ManuFaCturIng dastarefas e da busca da maior padronização. Os pioneiros na utilização desses modelos, no início do século XX, foram a DuPont e a general Motors. Os sistemas de medição evoluíram, mas ainda é considerado como suporte o sistema de produção em massa. a partir dos anos 1980, muitas organizações passaram a utilizar diversas medidas, ainda focadas somente no desempenho contábil ou financeiro. as mais utilizadas como indicadores financeiros ainda são Return on Investment (rOI) 1 e a Economic Value Ad-ded (EVA) 2. Já como indicador contábil, a Earnings Before In- terest, Taxes, Depreciation and Amortiation (EBItDa) 3 tem sido a prioritária. atualmente, isso não é mais suficiente. Diante das tendências dos sistemas de produção e da busca cada vez maior do Lean Ma- nufacturing, as medidas de desempenho utilizadas até a década de 1990 deixaram de ser suficientes para uma medição do desem- penho pleno nas etapas de um ciclo de produção e no resultado final . a eficaz e integrada medida do desempenho é um dos aspectos de maior relevância no atual contexto organizacional e só se pode gerenciar, controlar e melhorar aquilo que se pode medir. a medida do desempenho é um feedback do próprio processo, que pode sugerir ajustes ou mudanças e que vai facilitar a gestão, o controle, a definição de responsabilidades, a identificação de falhas e de desperdício, e o consequente realinhamento dos processos e dos objetivos estratégicos. a medição do desempenho em uma organização deve ser feita em três dimensões: individual, por unidade e com foco no mercado, sempre considerando os aspectos organizacionais, culturais e de 1 rOI é a taxa de retorno, ou lucro, futuro a ser apurado em negócios ou aplicações financeiras. 2 EVA é o ganho final de capital, riqueza sob o foco econômico.3 EBItDa é um indicador contábil que apresenta o caixa operacional de uma organização, quanto a empresa gera de recursos apenas através de suas atividades operacionais, não são considerados os custos financeiros ou os impostos.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 47 mercado. um ID sempre deve estar alinhado ao objetivo da organi- zação e a especificidade de seu processo, e por essa razão é preciso também verificar sua viabilidade estratégica, organizacional e operacional. um “bom” ID deve ter em relação ao processo em que está medindo os seguintes aspectos: • Abrangência; • Acessibilidade ;• Confiabilidade; • Economicidade; • Estabilidade ;• Independência; • Praticidade ;• Relevância; • Representatividade; • Simplicidade; • Validade . O ID, com suas medidas, precisa contribuir com informações atualizadas para a realização do objetivo estratégico da organização (Figura 2.4) e, diante disso, é preciso sempre estar alinhado, ter harmonia e sinergia vertical e horizontal com os indicadores dos FIGURA 2.4 Da visão às metas dos indicadores.
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    48 LEan ManuFaCturIng outrosprocessos. O alinhamento vertical entre indicadores busca evitar conflitos entre os indicadores dos diversos níveis hierárqui- cos. Já o alinhamento horizontal busca garantir a harmonia entre os indicadores de um mesmo nível hierárquico. Seguem algumas recomendações sobre os indicadores de de- sempenho: • Os indicadores são muito úteis, para apoiar e direcionar as decisões gerenciais, mas isolados não têm representatividade e podem induzir a erros; • Os resultados dos processos não podem ser garantidos apenas com base nos indicadores de maneira isolada; • Um processo comporta vários indicadores, mas sempre é aconselhável identificar os prioritários e trabalhar com poucos; • Todos os indicadores devem ter a mesma origem ou vertente, e não podem perder de foco os objetivos da organização; • É vital o alinhamento horizontal e vertical do sistema de indicadores tomando como norte os objetivos da organização. Métodos para alinhamento e medição do desempenhoCom o objetivo de agrupar, alinhar, controlar e gerenciar os indicadores de desempenho dos processos em todos os níveis organizacionais, diante das novas tendências dos sistemas de produção e da importância de relacioná-los e alinhá-los com os objetivos estratégicos, surgiram nos últimos 20 anos vários modelos para a medição do desempenho organizacional. Es- ses modelos facilitaram a gestão e o monitoramento pelo nível estratégico com informações mais confiáveis, algumas em tem- po real, para o melhor entendimento e controle do desempe- nho de toda a organização. Dentre os modelos mais conhecidos estão: • Balanced Scorecard (BSC);• Performance Pyramid;• Performance Prism.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 49 Balanced ScorecardO Balanced Scorecard (BSC) é um sistema de medição do de-sempenho organizacional, proposto por robert Kaplan e David norton, que busca, por meio de quatro perspectivas interligadas — financeira, cliente, processos internos e conhecimento — medir o desempenho da organização em relação ao seu mercado por meio de uma relação de causa e efeito nas diversas etapas e processos de uma organização (veja Figura 2.5). a relação de causa e efeito, como os autores do modelo mos- tram, é um dos pontos fortes para o balanceamento dos diversos processos e concepção de um mapa estratégico, tendo em vista as demandas do nível estratégico por retorno do capital investido ou sobre o valor econômico agregado. A Figura 2.6 apresenta um exemplo dessa relação de causa e efeito. O BSC inicialmente teve como objetivo utilizar medidas não financeiras para alinhar os indicadores dos processos críticos e, em um segundo momento, buscou-se um alinhamento desses in- dicadores com os objetivos estratégicos com foco no atendimento à perspectiva financeira. atualmente, o BSC é considerado um FIGURA 2.5 O balanced scorecard (BSC).
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    50 LEan ManuFaCturIng métodoque busca apoiar a organização na concepção e gestão da visão, buscando nivelar os objetivos de curto, médio e longo prazos, e na implementação e desdobramento das estratégias, com o balanceamento a partir dos indicadores de desempenho. as perspectivas do BSC são: • Perspectiva financeira: refere-se aos resultados finais das ações empreendidas e dos recursos necessários às outras dimensões. Essa perspectiva tem por função medir o crescimento da organização, a atratividade e confiabilidade perante o mercado e os parceiros. Esses indicadores financeiros indicam como foram os esforços das outras áreas em termos de rentabilidade e ganhos incrementais, permitindo à organização ligar seus objetivos financeiros com seus objetivos estratégicos. Essa perspectiva utiliza como indicadores o crescimento da receita, a redução de custos, a melhoria da produtividade, a utilização dos ativos, entre outros. FIGURA 2.6 Exemplo de Relação de Causa e Efeito no BSC. Fonte:Adaptado de Kaplane Norton (1997), p.31.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 51 • Perspectiva do cliente: refere-se à medição de como a organização está atendendo os valores de seus clientes. Essa perspectiva utiliza como indicadores a satisfação dos clientes, a retenção de clientes, a captação de clientes, a participação de mercado, entre outros. • Perspectiva dos processos internos: refere-se à medição dos processos de negócios, operacionais e administrativos, e suas capacidades comportamentais, estruturais, operacionais e tecnológicas, para o eficaz atendimento aos indicadores de perspectiva dos clientes e para dar suporte às perspectivas financeiras. Essa perspectiva foca em três processos principais, inovação, operações e serviço pós-venda, e utiliza como indicadores a qualidade, o tempo de resposta, custo, entre outros. • Perspectiva do conhecimento: refere-se à medição do aperfeiçoamento contínuo e da busca de habilidade de inovar e aprender, e tem relação direta com a capacidade de agregar valor aos processos e produtos. Essa perspectiva foca três processos principais, capacitação dos colaboradores, capacidades dos sistemas de informação e motivação, além de comprometimento dos colaboradores, e utiliza como indicadores a satisfação dos colaboradores, o grau de aprendizagem, o grau de inovação, entre outros. O BSC vem sendo muito utilizado no Brasil. Sua eficácia é com-provada, e o nível de praticidade, razoável, mas é preciso cuidado para entender que o BSC não é um modelo de gestão, como muitas organizações o consideram, mas sim apenas um eficaz sistema de suporte a medição. Performance PyramidO Performance Pyramid é um sistema de medição do desempenhoorganizacional, proposto por richard Lynch e Kelvin Cross, que foca na eficiência interna e externa da organização e que prioriza suas medidas de desempenho na busca da necessidade do consumidor a partir da medição estratégica e análise dos relatórios decorrentes dos desdobramentos das estratégias.
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    52 LEan ManuFaCturIng avisão é o ponto de partida e o norte a ser seguido por toda a organização, e deve definir onde a organização está, aonde quer chegar e com que meios ela vai atingir esse objetivo. as estratégias são definidas de acordo com o mercado e os aspectos financeiros, e desdobradas diante dos objetivos e dos aspectos culturais da organização, considerando, em primeiro plano, a satisfação dos clientes, a flexibilidade da organização e a produtividade. Para viabilizar esses objetivos, o modelo considera a qualidade, o tempo de entrega e de produção, além das perdas nos processos. Como mostra a Figura 2.7, a Performace Pyramid estabelece umalinha divisória entre as variáveis com foco interno e externo, ao pas- so que o mercado, a satisfação do cliente, a qualidade e o tempo de entrega têm um foco externo. Já as finanças, produtividade, tempo de produção e perdas no processo têm foco interno. Flexibilidade da organização apresenta no modelo foco interno e externo. O modelo também apresenta uma relação de causa e efeito, e mostra-se mais detalhista que o BSC, o que em alguns casos poderia ser eficaz. Mas, se comparado com o BSC, tem pouca utilização, principalmente nas organizações brasileiras. FIGURA 2.7 A Performance Pyramid. Fonte:Adaptado de Cross e Lynch (1990), p.56.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 53 Performance PrismO Performance Prism é um modelo tridimensional de medição de desempenho organizacional integrado proposto por andy neely e Cris adams, e que tem como foco principal todos os stakeholdersda organização. O modelo utiliza cinco etapas integradas com início no que os stakeholders querem, e com final no que os stake-holders podem favorecer a organização, como mostra a Figura 2.8. Entre essas duas etapas há três outras: estratégias, processos e capacidades. O Performance Prism possibilita uma comunicação estratégica, integração, gestão dos processos e a identificação das capacidades necessárias para o alcance do desempenho desejado. Segue um roteiro norteador, por meio de questionamentos, para um melhor entendimento do Performance Prism: 1. Quem são e o que querem os stakeholders?2. Quais as estratégias para atender o que os stakeholdersquerem? FIGURA 2.8 O Performance Prism. Fonte:Adaptado de Adams e Neely (2002), p.181.
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    54 LEan ManuFaCturIng 3.Quais os processos que podem viabilizar as estratégias? 4. Quais as capacidades necessárias para operacionalizar os processos? 5. Quais as contribuições que as organizações querem dos stakeholder s? Diante de sua estrutura, o Performance Prism dá uma atenção especial a todos os atores do processos, em particular aos clientes e acionistas. a relação de causa e efeito também é o suporte do modelo, que tem como grande virtude fechar o ciclo no mesmo foco: os stakeholders. a posição e amplitude dada as categorias “processos” e “capa- cidades” dota o modelo de maior flexibilidade, podendo ser uma alternativa eficaz para as organizações que utilizam o Sistema Lean. Esse também é um modelo pouco utilizado pelas organizações brasileiras. Ferramentas e técnicas para análisee melhoria dos processosas ferramentas e técnicas para análise e melhoria dos pro- cessos tiveram origens diversas, e muitas inicialmente foram destinadas a outros fins. Mas, em meados dos anos 1950, Kao- ru Ishikawa fez o agrupamento dessas ferramentas e técnicas com o objetivo de que qualquer operador tivesse condições de utilizá-las em uma sequência lógica e obter informações, que deveriam ser repassadas para que os gestores melhorassem os processos. Ishikawa organizou inicialmente estas sete ferra- mentas e técnicas: lista de verificação, fluxograma, histograma, gráfico de controle, diagrama de Pareto, diagrama de Ishikawa e gráficos de dispersão. O ciclo PDCA, que foi criado nos anos 1930 nos Estados Unidos pelo matemático Walter Shewhart e amplamente utilizado por W. Edwards Deming, serviu de base para agrupar e dar uma sequência lógica e eficaz às ferramentas. Já as técnicas estatísticas e o Con- trole Estatístico dos Processos (CEP), também criado por Shewhart,
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 55 deram o suporte para a medição e identificação dos desvios por meio de limites de aceitação predefinidos. FIGURA 2.9 Principais ferramentas e técnicas para análise e melhoria dos processos.
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    56 LEan ManuFaCturIng atualmente,muitas outras ferramentas e técnicas, algumas mais sofisticadas e com maior grau de precisão, vêm sendo utilizadas para análise e melhoria dos processos, muitas dessas vinculadas ou dando suporte a métodos, sistemas e programas que servem de base para o Lean Manufacturing. 4 a Figura 2.9 apresenta de forma resumida as principais ferramentas e técnicas aqui referenciadas. Padronização dos processosO conceito de padronização, como já foi apresentado na in- trodução deste livro, surge juntamente com o taylorismo, no início do século XX, e foi o suporte principal para o sistema de produção em massa. não é correto dizer que hoje o contexto de padronização FIGURA 2.9 (cont.) 4 não é objetivo deste livro tratar dessas ferramentas e técnicas. Caso o leitor queira se aprofundar nesse tema, consulte o livro Entendendo, aprendendo e desenvolvendo qualidade padrão Seis Sigma, deste mesmo autor e lançado pela mesma editora.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 57 é radicalmente diferente do apresentado no início do século XX, e como cita Harry Braverman: o taylorismo “como movimento distin-to desapareceu na grande depressão dos anos 1930, mas, naquele tempo, o conhecimento dele tinha se difundido na indústria e seus métodos e sua filosofia eram lugares comuns em muitas escolas de engenharia e administração”; ou seja, continua Braverman, “o taylorismo está obsoleto ou superado apenas no sentido em que uma seita, que tenha se difundido e se tornado amplamente aceita, venha a desaparecer como seita”.5 taylor propõe na época, de acordo com o contexto social, eco- nômico e tecnológico, quatro princípios: • Princípio de planejamento , em que pregava o desenvolvimento de uma ciência do trabalho com a substituição de métodos empíricos por métodos científicos com o objetivo de reduzir os movimentos e racionalizar a execução das tarefas; • Princípio de seleção e capacitação , que buscava selecionar e depois desenvolver cientificamente os colaboradores por meio do treinamento específico e destinado à tarefa; • Princípio de controle , que tinha como objetivo acompanhar e controlar a realização das tarefas por meio de supervisores; • Princípio da execução , que visava a uma racional distribuição de tarefas, definição de responsabilidades e a disciplina de todo o sistema para, assim, possibilitar melhores resultados de acordo com o que foi planejado. Esses princípios foram os responsáveis, entre outros aspectos, pela busca da produção padrão: da padronização de tarefas, de ferramentas, de movimentos e de métodos de execução. Eviden- temente, não é possível utilizar hoje esses conceitos sem uma contextualização adequada. as relações de trabalho, as funções e os papéis do colaborador tiveram mudanças radicais, mas a base dos conceitos de padronização utilizadas até hoje conti- nuam sendo as apresentadas no início do século passado, isto é, com nova roupagem, novos papéis para os colaboradores, com 5 Citação de Harry Braverman, nas páginas 83 e 84, em obra citada nas referências deste livro.
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    58 LEan ManuFaCturIng funçõesdiferentes para as máquinas e ferramentas, diante das novas tecnologias. O Lean Manufacturing prioriza a padronização, que é um aspec- to vital para o seu sucesso. Sem padronização não se pode analisar, propor melhorias ao sistema e, principalmente, possibilitar o fluxo eficaz da cadeia de valor. a padronização é uma das principais responsáveis pela estabilidade e pelo fluxo contínuo de uma linha de produção. Diante do atual contexto, a padronização no setor produtivo tem dado ênfase a quatro aspectos: • Padronização do takt-time, que é o tempo em que o produto completa o ciclo de produção; • Padronização dos processos; • Padronização da sequência das operações realizadas; • Padronização dos estoques nos processos. a padronização nas organizações que utilizam o Sistema Lean Manufacturing tem sido uma das responsáveis pelos seguintes fatores: • Redução de falhas; • Estabilidade da linha de produção; • Produção em pequenos lotes; • Regulação e melhorias nos processos das funções; • Valorização, participação e autocontrole dos colaboradores. Os ciclos PDCA e SDCAO ciclo PDCA tem como objetivo controlar e indicar oportunida-des de melhorias em um processo ao identificar os desvios diante de resultados esperados. É realizado da seguinte maneira: faz-se um planejamento (P), executa-se o planejamento (D), verifica-se o resultado (C) e, se este não estiver de acordo com o planejado, realiza-se uma ação corretiva (a). Deve-se “rodar” o PDCA no final de cada ciclo de produção ou ao identificar um desvio. A utilização contínua do PDCA em um processo leva o seu gestor a identificar a estabilização do processo, esse é o momento para a padronização.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 59 no nível operacional para o controle e a manutenção do padrão estabelecido, é utilizada uma variação do PDCA, na qual o P do planejamento é substituído pelo S de standard (padrão), e isso deve ser feito de maneira cíclica, ou seja, o padrão deve ser dinâmico. ao se atingir um padrão, deve-se buscar melhorias, alterando o padrão anterior e estabelecendo um padrão novo e mais eficaz, em um processo de melhoria contínua, como mostra a Figura 2.10. Massaaki Imai defende que as obrigações entre as melhorias (PDCA) e manutenção (SDCA) dos processos devem ser comparti- lhadas pela alta e média gerência e, em um segundo momento, com os supervisores e os operadores, conforme a distribuição sugerida na Figura 2.11. Imai sugere ainda que as inovações são de responsabilidade maior da alta gerência e em um segundo plano da média gerência. A organização precisa implantar a cultura do PDCA em todos os níveis hierárquicos. É preciso pensar, sentir e agir com foco no PDCA, mais formal ou menos formal, e essa é a maneira FIGURA 2.10 PDCA versu s SDCA.
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    60 LEan ManuFaCturIng maissimples e consistente de se criar uma cultura e processos dinâmicos para a busca de melhores resultados. Nivelamento dos processosa busca do Lean Manufacturing tem início com o entendimento do pensamento lean e o comprometimento do nível estratégico da organização, além da sensibilização de todo o corpo funcional. O entendimento do termo muda, de maneira correta, é de vital importância. O passo seguinte é preparar a organização, no nível comportamental, estrutural e técnico para a implantação dos prin- cipais programas e métodos que deverão viabilizar a filosofia JIt e, depois, vem a implantação desses programas e métodos. após combater as mudas e iniciar o processo de produção puxa-da, procurando seguir o ritmo dos pedidos dos clientes, espera-se a identificação de um problema: a não constância no funcionamento da linha. Isso provoca períodos de sobrecarga de trabalho e outros períodos de ociosidade, o que afeta os colaboradores, o equipa- mento e as estruturas, ou seja, o combate inicial à muda gera o des-nivelamento (mura) ou a sobrecarga da linha de produção (muri), que, consequentemente, geram novas muda. É preciso, portanto, buscar um ponto ótimo: com menor muda, menor mura e menor muri (Figura 2.12). a toyota identificou esse problema ainda nos anos 1950, quan- do passou a fornecer caminhões para que os norte-americanos FIGURA 2.11 Responsabilidades sobre a mudança e manutenção dos processos. Fonte: Adaptada de Imai (1994), p. 6.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 61 utilizassem na guerra da Coreia. Desde lá, busca-se uma solução eficaz para o nivelamento da produção em volume e mix (combi- nação) de produtos, que é conhecido em algumas organizações por heijunka. a solução foi não considerar a ordem dos pedidos de cada cliente, o que não pode ser controlado e pode ter significativas variabilidades, mas pode definir pequenos períodos e nestes considerar o total de pedidos e nivelá-los para obter um mesmo nível de produção a cada momento. Ohno já sugeria, nos anos 1950, que “deve rebaixar os picos e elevar os vales de produção tanto quanto possível, de modo que a superfície do fluxo seja suave”.6 Com isso, corre-se o risco do não atendimento imediato ao cliente, do aumento da quantidade de setup na linha e das necessidades de programação de pequenos lotes. Quanto à gestão dos setups, será preciso reduzir o seu tempo, o que será analisadono Capítulo 3 por meio da troca rápida de ferramentas (trF). Quanto à programação de pequenos lotes, os sistemas de abas- tecimento das unidades produtivas e das linhas de produção, Milk 6 OHnO, t. O sistema Toyota de produção: além da produção em larga escala. Porto Alegre: Bookman, 1997, p. 54. FIGURA 2.12 Os 3 Ms: muda, mura e muri . Fonte:Liker (2005), p.121.
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    62 LEan ManuFaCturIng rune Kanban, são dois dos responsáveis por essa gestão, também serão apresentados no Capítulo 3. Já quanto à primeira posição, o não atendimento imediato ao cliente, isso é verdadeiro no início da implantação do processo de nivelamento, mas, em um segundo momento, e consideran- do as unidades de produção, os ganhos para a organização e para o próprio cliente são significativos, bem maiores que os prováveis prejuízos identificados, já que o nivelamento tende a eliminar custos com a ociosidade ou a sobrecarga da linha, e estes são sig- nificativos. O nivelamento faz com que a linha de produção opere uniformemente e busque atender os clientes nos diversos compo- nentes ou produtos. assim, o nivelamento busca a otimização de todos os recursos da organização, como estrutura, equipamentos, colaboradores, entre outros. Ohno fez uma associação clássica esclarecedora entre uma tartaruga e uma lebre, para exemplificar a importância de um sis- tema nivelado, ao dizer que: “a lenta, porém consistente, tartaruga causa menos desperdício e é muito mais desejável que a lebre veloz que corre na frente e para de vez em quando para cochilar. O Sistema Toyota de Produção só pode funcionar quando todos os trabalhadores se tornarem tartarugas”. 7 Com o nivelamento, é possível minimizar os efeitos negativos da demanda puxada e não previsível do cliente, com a necessidade de uma produção previsível, com a distribuição e utilização dos recursos já existentes e da capacidade instalada, de maneira mais constante em períodos determinados (veja Figura 2.13). Para a organização atingir o nivelamento, é necessário tempo para amadurecimento dos processos produtivos e de relaciona- mento com os diversos clientes, internos e externos, além de um sistema de planejamento disciplinado e da utilização eficaz de programas ou sistemas vinculados ao Lean Manufacturing, prin- cipalmente a TRF, a TPM, a Kanban e Milk Run. O nivelamento é a busca, através de uma programação, de uma linha de produção com funcionamento e alimentação constante, 7 Idem, página 78.
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    Capítulo 2 •Aprendendo o Suporte para o Lean Manufacturing 63 com o objetivo de minimizar as variações provocadas pelos pedidos não constantes dos clientes. O nivelamento é um dos conceitos de maior importância para a manutenção de um Sistema Lean Manufacturing. nas Figuras 2.14 e 2.15 é apresentado um exemplo de uma linha que produz os produtos a, B, C e D. O total da produção semanal é de mil unidades, sendo 150 unidades do produto a; 300 do produto B; 50 do produto C; e 500 do produto D. a produção sequencial dos produtos, em uma semana, o que geralmente é feito em uma linha de produção tradicional, exige apenas três setups semanais, que é um dos pontos críticos em qual-quer linha de produção (Figura 2.14). Mas isso provocará muitas FIGURA 2.13 Busca do nivelamento da produção. FIGURA 2.14 Produção semanal dos produtos A, B, C e D não nivelada.
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    64 LEan ManuFaCturIng perdaspor estocagem, mobilização desnecessária de capital, entre outros desperdícios, já que, por exemplo, o produto a, que será produzido apenas na segunda-feira, poderá ficar muito tempo acabado e estocado esperando o cliente. Já no caso de um cliente que deseja um produto D na segunda-feira, ele teria de esperar até quarta-feira, quando esse produto será produzido. todos esses inconvenientes são solucionados pela programação da produção sugerida pela Figura 2.15, que apresenta o nivelamen- to da produção para uma semana, considerando como unidade para nivelamento o dia. Há, nesse caso, quinze setups semanais em vez dos três anteriores, mas os métodos e sistemas a serem utilizados buscarão minimizar de maneira eficaz e significativa o tempo dos setups, fazendo com que o nivelamento apresente no final condições bem mais vantajosas que a situação anterior. a busca do nivelamento eficaz deve ser uma das metas, não sim- plista, de uma organização que já tenha iniciado a implantação ou que deseje implantar o Sistema Lean Manufacturing, sendo que o fluxo de processos padronizados é um dos pré-requisitos funda- mentais, e os resultados de longe compensarão os investimentos e tempo dedicado ao nivelamento eficaz: heijunka. Diante das etapas dos processos, no que diz respeito à gestão, medição, melhoria, padronização e nivelamento, já vencida, o capitulo seguinte deverá apresentar os métodos, os sistemas e os programas utilizados para possibilitar a filosofia just in time (JIt), dando continuidade às variáveis do modelo apresentado na Figura 1.7, no Capítulo 1. FIGURA 2.15 Produção Semanal dos produtos A, B, C e D nivelada.
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    65 Desenvolvendo Lean Manufacturing Os gerentesresponsáveis pela produção devem reconhecer que a melhor estratégia é produzir aquilo que pode ser vendido... mas ... Se você não consegue imaginar como realizar alguma coisa, discuta com suas máquinas. Shigeo ShingoCriador de métodos e sistemas para o Lean Manufacturing Este capítulo tem como objetivo apresentar os sistemas, mé- todos e programas que alimentam a filosofia just in time (JIT), o suporte maior para o Lean Manufacturing. Inicialmente, será feita uma abordagem histórica e conceitual do JIT e, em seguida, para facilitar o entendimento, principalmente dos principiantes no tema, foi feita uma sistematização com quatro focos: estruturas, mão de obra, equipamentos e movimentos. Nesses quatro focos, serão apresentados os seguintes métodos, sistemas e programas recomendados e mais utilizados no Lean Manufacturing: 5S; Layout em celular; Poka-Yoke, Jidoca, Troca rápida de ferramenta (TRF), Manutenção produtiva total (TPM), Kanban e Milk Run. A filosofiajust in timeO just in time (JIT), cuja tradução significa “no momento exato”, teve como visionário Kiichiro Toyoda, mesmo antes do surgimento da Toyota, da qual foi o fundador. Após uma visita que fez à fábrica da Ford, em Detroit, foi inspirado a conceber um sistema para controlar os estoques em todas as estações de trabalho, reduzindo, assim, des- perdícios em toda a linha de produção. 3
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    66 LEAN MANuFAcTuRINg Os primeirospassos para a concepção do sistema JIT foram no início da década de 1950, quando Taiichi Ohno, por orientação de Eiji Toyoda, implantou, em uma oficina na unidade da Toyota em Nagoya, um sistema para gerenciar o suprimento, que só permitia adquirir as peças necessárias no momento certo e na quantidade desejada. Quase uma década depois o sistema seria implantado plena- mente em toda a organização. No primeiro momento, o termo JIT foi diretamente associado ao Kanban, mas já no final da década de 1960 JIT tinha uma amplitude bem maior, sendo o Kanban apenas um dos sistemas que buscavam viabilizar o JIT. O JIT só chega ao Ocidente após a crise do petróleo dos anos 1970, mas hoje, pelo fato de ter se tornado o objetivo de muitas organizações, dos diversos setores da economia, não pode ser con- siderado apenas um método ou técnica de produção. Na verdade, o JIT é tratado como uma filosofia, que norteia sistemas, métodos e programas para viabilizar o sistema Lean Manufacturing. Muitas são as definições e interpretações sobre o JIT encon- tradas na literatura especializada ou nas organizações, e o próprio Ohno, considerado o seu “criador”, diz que JIT “é um conceito único e de difícil compreensão”. uma forma de entender e conceber um conceito próprio para o JIT, customizado a cada organização, é buscar o entendimento de seus princípios e objetivos que perseguem a melhoria contínua dos processos a partir da busca de: • Ambiente de trabalho limpo e organizado;• Células de produção com base na tecnologia de grupo;• Sistema à prova de falhas humanas;• Sistemas e equipamentos controlados pelo operador;• Menor tempo de preparação da máquina; • Maior integração operador x máquina;• Sistema de produção puxada pelo cliente;• Zero estoque em todo o processo; • Um eficaz abastecimento e otimização da relaçãocom os fornecedores ou parceiros;
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 67 • Zero defeito; • Zero des perdício; • Qualidade total .O JIT tende a nortear a organização para um menor lead time, reduzir custos, eliminar os desperdícios, aumentar a flexibilidade, dar confiabilidade ao sistema e, principalmente, possibilitar uma integração eficaz entre o ciclo de produção e o ciclo de consu- mo, fazendo com que a produção atenda plenamente o valor do cliente . Métodos operacionais para o just in timecom o objetivo de criar as condições necessárias para operacio- nalizar a filosofia JIT, este livro sistematizou as principais ações, os sistemas, os métodos e os programas nos quatro focos já citados, como mostra a Figura 3.1. FIGURA 3.1 JIT e seus sistemas, métodos e programas.
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    68 LEAN MANuFAcTuRINg O foconas estruturas abordará as medidas relacionadas à orga- nização e ao layout de linha; o foco na mão de obra, a prevenção das falhas humanas e a automação com toque humano; o foco nos equipamentos, as técnicas para redução do tempo de setup e a prevenção de falhas nas máquinas; e o foco nos movimentos, o abastecimento da linha e das unidades produtivas. Foco nas estruturasO êxito do Lean Manufacturing em um primeiro momento está associado às condições estruturais adequadas. com esse objetivo, foram selecionadas duas ações eficazes: a organização da linha e a definição adequada do layout da linha (Veja Figura 3.2). A organização da linha pode ser realizada com eficácia por meio do programa 5s. criando com base nas características cul- turais japonesas, esse programa visa arrumar a “casa” a partir da otimização de espaços físicos, do descarte de utensílios, ar- quivos ou outros matériais não necessários ao processo produ- tivo; da organização e do adequado posicionamento de móveis e equipamentos, e da padronização de condições de trabalho disciplinados pelos órgãos reguladores e que venham garantir a integridade física dos equipamentos e a saúde e o bem-estar dos colaboradores. Já o layout da linha deve ser definido de acordo com as es- pecificações e natureza do processo, e a correta definição do layout otimiza recursos, espaço, tempo e movimentos, agilizando FIGURA 3.2 Foco nas estruturas e suas ações.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 69 e aumentando a eficácia do processo. Não existe genericamente layout melhor ou pior; existe, sim, layout que se adapta de maneira mais adequada e eficaz às necessidades e características de cada processo. A seguir, são apresentados os diversos tipos de layout para o se- tor produtivo com as características, vantagens e desvantagens de cada um. O layout em células, associado à tecnologia de grupo, tem se notabilizado nas unidades de manufatura que utilizam o Sis- tema Lean e, em muitos casos, tem se mostrado o mais adequado. Programa 5 S O Programa 5S — conhecido em algumas organizações como housekeeping, que significa “arrumando a casa” — teve origem no Japão, no início dos anos 1950, e foi motivado pela necessidade de reorganizar em todos os níveis esse país parcialmente des- truído pela Segunda guerra Mundial, isto é, nas organizações, na sociedade e nas residências. Kaoru Ishikawa foi um dos grandes incentivadores desse pro- grama simples e de baixo custo de implementação, que possibilita a participação de todos e que, se bem gerenciado, pode trazer resultados significativos para a organização. A denominação 5S está vinculada aos cinco sensos priorizados pelo programa: • Seiri: senso de utilização;• Seiton: senso de organização;• Seiso: senso de limpeza;• Seiketsu: senso de padronização;• Shitsuke: senso de disciplina. Conceituando os cinco sensos (5S) Em uma pesquisa na literatura e em manuais de empresas é pos-sível verificar que os cinco sensos muitas vezes são conceituados de maneira diferente, o que não configura um problema, já que se aconselha adequar e contextualizar cada um dos “S” à realidade e
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    70 LEAN MANuFAcTuRINg aos aspectosculturais da organização analisada. Na sequência, serão apresentados conceitos e objetivos para cada um dos cinco sensos: • Seiri — senso de utilização : tem como objetivo otimizar os espaços, a alocação e utilização de móveis, equipamentos e materiais de trabalho em geral. É aconselhável que nos locais de trabalho estejam alocados apenas o necessário e com layout adequado para a utilização eficaz.• Seiton — senso de organização : tem como objetivo ordenar racionalmente móveis, equipamentos, material de uso e documentos para facilitar o acesso e a utilização dos diversos recursos em um layout coerente. Busca ainda definir novas formas de armazenar materiais de consumo e definir novos fluxos de produção. • Seiso — senso de limpeza : tem como objetivo deixar sempre limpo ou em condições favoráveis para uso os recursos físicos, móveis e equipamentos utilizados. Procura criar a cultura de utilizar um calendário para limpeza e manutenção de equipamentos, ferramentas e estrutura. • Seiketsu — senso de padronização : tem como objetivo cumprir as recomendações técnicas e manter as condições de trabalho e dos colaboradores, favorecendo a saúde com relação às limitações físicas e mentais. Procura ainda a padronização dos bons hábitos das normas técnicas e dos procedimentos e ações eficazes. • Shitsuke — senso de disciplina: tem por objetivo criar uma cultura para educar, conscientizar e disciplinar o colaborador visando a um comportamento e a hábitos que motivem a melhoria contínua por meio da força física, mental e moral. Busca ainda a manutenção dos quatro sensos iniciais. Importância do Programa 5S O Programa 5S não pode ser considerado um programa de qualidade, mas é o passo inicial e a base para muitos processos de melhoria nas organizações por intermédio da busca e da introdução de boas e eficazes práticas, com o objetivo de criar e manter um ambiente limpo, organizado, com layout adaptado às necessidades e potencialmente gerenciável.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 71 O padrão do layout e as condições do ambiente de trabalho no que diz respeito à organização e limpeza poderá ser constatado visualmente e monitorado por qualquer operador que possa identifi- car anomalias, desvios e necessidades de alinhamento. um ambien- te organizado e limpo é condição básica para a operacionalização eficaz de muitas das ações utilizadas no Lean Manufacturing, dentre elas a preparação da manutenção produtiva total (TPM) e da troca rápida de ferramentas (TRF), o fluxo das células de produção, a pre- cisão da autonomação e a dinâmica do Kanban (veja a Figura 3.3). As dimensões do programa 5S O programa 5S contempla, conforme apresentado na Figura 3.4, três dimensões: física, intelectual e social. A dimensão física está relacionada à preparação do ambiente por meio da utilização dos sensos de utilização, organização e limpeza, com o objetivo de tor- nar o fluxo de trabalho mais eficaz, mais rápido e sem desperdício. A dimensão intelectual é motivada pelo aprendizado contínuo obtido com a aplicação dos cinco sensos e com a busca de novos valores e maneiras de atendê-los, visando obter padrões novos e mais eficazes. Os sensos de padronização e de disciplina são os mais atuantes nessa dimensão. FIGURA 3.3 O programa 5S e as ações do Sistema Lean.
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    72 LEAN MANuFAcTuRINg A dimensãosocial está disseminada em todo o programa 5S, e o trabalho em equipe, em todas as etapas e busca integrar todo o corpo funcional diante de um único objetivo. Em particular o “Dia do Descarte” ou “Dia D”, é um dos momentos mais ricos para gerar uma nova e eficaz dinâmica de relacionamentos den- tro das organizações. O Dia do Descarte, com data marcada com antecedência e divulgada em toda a organização, é o dia em que os colaboradores fazem uma arrumação total na organização, liberando áreas antes ocupadas por objetos ou equipamentos sem necessidade, enviando para o lixo papéis e documentos antigos, móveis velhos ou quebrados, equipamentos defeituosos ou sem utilização, e tudo isso com o objetivo de permanecer no local de trabalho somente o necessário para as atividades produtivas. Benefícios do programa 5S Muitos são os benefícios de um programa 5S implantado e gerenciado com eficácia, e entre os principais estão: FIGURA 3.4 As dimensões do programa 5S.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 73 • Aproveitamento eficaz dos espaços;• Otimização de materiais e mobiliário;• Redução do desperdício;• Motivação das equipes de trabalho;• Maior orga nização; • Maior limpeza; • Criação de novos valores na organização.Implantação e manutenção do programa 5S O sucesso do programa 5S está relacionado a dois momen- tos: a implantação e a manutenção. Alguns autores procuram dividir o programa em três momentos: 5S ativos, 5S eficazes e 5S preventivos. E todos eles utilizam a mesma sequência: senso de utilização, senso de organização, senso de limpeza, senso de padronização e senso de disciplina. Os 5S ativos estão relacionados com o início da implantação do programa; os 5S eficazes, com a consolidação; e os 5S preventivos buscam a manutenção através de ações preventivas. As principais etapas para a implantação do programa 5S são: • Buscar o comprometimento do nível estratégico;• Buscar o conhecimento do nível tático;• Buscar a sensibilização do nível operacional;• Formar equipes 5S para a implantação do programa;• Capacitar os facilitadores para o programa;• Registrar a situação atual das unidades da organização;• Divulgar o programa em toda a organização;• Promover o Dia do Descarte com foco na otimização dautilização, na ordenação física, operacional e na limpeza. Já as principais etapas para a consolidação e manutenção do Programa 5S são: • Manter o comprometimento do nível estratégico;• Criar ações para divulgação do programa 5S;• Criar ações de modo a motivar os colaboradores parao programa 5S;
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    74 LEAN MANuFAcTuRINg • Definircritérios de inspeção para a busca de um fluxoprodutivo eficaz e para integridade física e mentaldo trabalhador; • Capacitar a equipe para inspeção;• Criar e implantar programa de avaliação;• Criar e implantar o programa de reconhecimentoe recompensa associado ao programa 5S; • Reforçar o programa, buscando introduzir na organizaçãovalores para cristalizar os sensos de utilização, ordem, limpeza, padronização e disciplina. A seguir, leia o estudo de caso da WEg, relatado por um cola- borador da empresa. CASO ORGANIZACIONAL: WEG– O PROGRAMA MELHORIA CONTÍNUA WEG (PMC) Na WEg Equipamentos Elétricos, o Lean Manufacturing está inserido no programa de melhoria contínua (PMc), que é um dos pilares do Sistema de gestão WEg, conforme a Figura c1. Marcio Rui de Oliveira 1 FIGURA C1 Os programas de melhoria da WEG.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 75 Além do PMc, iniciado em 2008, a WEg mantém hoje mais três programas que buscam melhorias nos processos: • Comissões, iniciado em 1969;• CCQ, iniciado em 1982; • PWQP, iniciado em 1991. O PMc foi responsável pela disseminação da cultura de melhoria contínua por todas as áreas da organização e apresenta como principais metodologias: • Gemba Kaizen 2 • Mapeamento do fluxo de valor• 5S O PMc busca gerar: • Ganhos de produtividade e de espaço físico;• Maiores retornos sobre o investimento; • Eliminação de desperdícios e atividades que não agregam valor;• Redução de despesas;• Fortalecimento dos processos para aprendizagem e melhoria contínua.Para dar sustentação à implantação do PMc foi estruturado o “departamento de melhoria contínua e meio ambiente”, no qual se definiram coordenadores Kaizens para dar suporte metodológico acada uma das unidades de negócio: automação, motores elétricos, energia, tintas, transmissão e distribuição. O PROGRAMA 5S NA WEGO 5S é um programa utilizado na WEg desde 1994 e busca gerar um ambiente de trabalho mais organizado e agradável a todos os colaboradores ( Figura c2). Além disso, ajuda na educação, no treinamento e na prática efetiva do trabalho em equipe, levando a empresa a ganhos de qualidade e produtividade. A WEg trabalha o programa 5S com as seguintes interpretações: • Seiri (senso de utilização): separar o útil do inútil• Seiton (senso de ordenação): cada coisa em seu lugar• Seiso (senso de limpeza): manter o local limpo • Seiketsu (senso de padronização): padronizar as boas práticas• Shitsuke (senso de autodisciplina): práticar para se tornar hábitoDentro do PMc, os conceitos do 5S de utilização, ordenação, limpeza, padronização e autodisciplina são fortemente aplicados tanto (Continua )
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    76 LEAN MANuFAcTuRINg nos mapeamentosde fluxo de valor, quanto nos eventos Gemba Kaizensrealizados nos processos, e o principal objetivo é facilitar a atividade do operador em seu posto de trabalho, agregando valor aos produtos e serviços WEg com a implantação de práticas 5S que: • Reduzam ou eliminem a movimentação de pessoas e a procura pormatérias-primas, equipamentos, documentos e informações; • Reduzam o transporte de materiais e produto acabado entre asoperações; • Reduzam ou eliminem o excesso de estoque entre os processos(Work in Process/Progress — WIP);• Reduzam ou eliminem a possibilidade de retrabalho;• Reduzam ou eliminem o trabalho fisicamente extenuante com aliberação de espaços. A Figura c2 apresenta um quadro com os momentos antes e depois de uma aplicação do programa 5S. PROJETO WEG AUTOMAÇÃO No processo de produção de drives, elaborou-se o mapeamento de fluxo de valor, no qual foram evidenciadas oportunidades de ganhos de produtividade, gerando, assim, um conjunto de eventos Gemba Kaizens para alcançar tais resultados. No fluxo de materiais, realizaram-se melhorias de 5S para facilitar o acesso a insumos e equipamentos tanto para os operadores, quanto para os abastecedores das linhas de produção, aumentando, assim, o tempo de agregação de valor aos produtos e melhoria no lead time. Nas Figuras c3 e c4 FIGURA C2 O processo antes e depois do programa 5S. Font e : Kaizen Institute.
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    78 LEAN MANuFAcTuRINg FIGURA C4Fotos dos processos na WEG.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 79 Células de produçãoA definição do layout de uma unidade do setor produtivo é uma das etapas de maior importância na definição, no planejamento e na operação da produção. Mas, para a correta definição do layout do setor produtivo, é necessário analisar: • A especificação e especificidade dos produtos finais e parciais;• A localização da unidade industrial e a distância desta dosfornecedores e dos clientes; • O mercado potencial para o produto final;• A capacidade de produção;• O nível de automação e tecnologias a serem utilizadas; são apresentadas fotos dos processos operacionais da WEg com a utilização do Programa 5S. A busca e o acesso a informações importantes para realização das operações também foram otimizados e disponibilizados de maneira ordenada, respeitando o FIFO 3 por meio de caixas de nivelamento e sequenciadores posicionados próximos às células de produção. Essas ações de utilização, ordenação e padronização criaram uma melhor gestão visual das áreas produtivas e contribuíram para consolidação de um fluxo mais rápido e contínuo, com ganhos expressivos de produtividade e redução dos desperdícios de movimentação de pessoas, redução do estoque entre os processos e superprodução. 1 Marcio Rui de Oliveira é Engenheiro de alimentos, com pós-graduações em qualidade e produtividade e em Lean Manufacturing. Atualmente, é coordenador corporativo do programa de melhoria contínua na WEg Equipamentos Elétricos S.A. 2 gemba está associado ao “chão de fabrica” onde os processos de transformação ocorrem. O gemba Kaizen são as melhorias de forma contínua que devem ocorrer no local da produção.3 FIFO — First In, First Out, “primeiro a entrar, primeiro a sair” está associado a uma sequência em processo produtivo. utiliza-se ainda frequentemente o LIFO — que significa Last In, First Out.
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    80 LEAN MANuFAcTuRINg • Alógica sequencial para o setor produtivo;• A quantidade e o tipo de máquinas a serem utilizadas;• O ciclo entre duas máquinas ou estações de trabalho sucessivascom o objetivo de garantir o balanceamento da produção; • A dimensão e a infraestrutura necessárias para cada estação detrabalho e para o setor produtivo como um todo; • O método e as especificidades para o fluxo de materiais no setorprodutivo; • Os métodos e as relações entre máquinas e operadores. Para a definição do melhor layout do arranjo físico produtivo diante das posições citadas, é preciso, ainda, verificar a melhor relação entre a capacidade do sistema, os custos envolvidos, o eficaz balanceamento da produção e a velocidade de produção. Os principais tipos de layout são: • Layout por linha ; • Layout por processo ; • Layout por posição ; • Layout por células .Layout por linha O layout por linha caracteriza-se por ter as estações de trabalho na sequência previamente definida pelas operações e é utilizado com frequência em unidades produtivas com pouca diversificação, padronizada e contínua que necessitam de uma produção em grande escala e com baixo custo unitário. Quanto maior a pa- dronização, maior será o investimento inicial e menor será o custo final dos produtos (veja Figura 3.5). Esse layout tem como fatores positivos a facilitação dos métodos de controles, a gestão dos operadores e a previsão do fluxo de materiais. E como fatores negativos podem ser explicitados a neces- sidade de um alto investimento inicial nas estações de trabalho no que diz respeito a operadores e máquinas. As atividades repetitivas executadas pelos operadores nesse tipo layout podem causar problemas motivacionais e estresse nos operadores. Outro problema gerado em consequência do layout por
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 81 linha é a falta de condições de se estabelecerem planos individuais de produtividade e incentivos. Na Figura 3.6 é apresentado um modelo de layout por linha, e alguns exemplos desse tipo de layout são: FIGURA 3.5 Nível de padronização da produção diante do custo e volume. FIGURA 3.6 Layout por linha.
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    82 LEAN MANuFAcTuRINg • Linhade montagens de automóveis;• Programa de triagem em um serviço de saúde;• Sistema de verificação e emplacamento de veículos. Layout por processo O layout por processo caracteriza-se pelo agrupamento de ati- vidades ou operações similares em uma mesma área, com o des-locamento dos materiais ou produtos semiacabados. Os processos, ou grupo de processos, recebem os elementos a serem processados em uma ordem predefinida para cada tipo de produto. comparando com o layout por linha, a produção no layout por processo tem uma velocidade menor com custos fixos menores, mas os custos unitários tendem a ser maiores. As principais vantagens do layout por processo são: flexibilidade para produtos diferentes; flexibilidade para a produção de pequenos lotes; infraestrutura e equipamentos mais baratos, se comparados com os utilizados no layout por linha; identificação de falhas de maneira mais eficaz e com maior precisão; possibilidade de medição da produtividade individual e a decorrente utilização de uma polí- tica com salários variáveis e incentivos vinculados aos resultados. Pode-se considerar desvantagens do layout por processo: a pos- sibilidade de maior estoque de materiais e produtos semiacabados entre os processos; o planejamento e controle são mais complexos; e a produção geralmente apresenta uma velocidade menor do que a tratada na produção no layout por linha. Na Figura 3.7 é apresentado um modelo de layout por processo. Seguem alguns exemplos: • Serviços em um hospital;• Atividades em uma agência bancária;• Vendas em um supermercado. Layout por posição O layout por posição, também conhecido por layout por posi- ção fixa, caracteriza-se pela concepção de produtos que tendem a
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 83 permanecer fixos durante todo o processamento, ou seja, quem se desloca são as estações de trabalho em torno dele. Esse layout é utilizado para concepção de produtos únicos, muitas vezes apenas uma unidade, por isso com baixa ou ne- nhuma padronização, o que exige, no processamento, um alto nível de habilidades diferenciadas dos operadores e dos equi- pamentos. A Figura 3.8 apresenta um modelo de layout por posição, e a seguir estão alguns exemplos: • Construção de um edifício;• Construção de um navio;• Construção de uma rodovia. Layout por células O layout por células (Figura 3.9) caracteriza-se por ter como suporte o agrupamento de peças, componentes ou ações similares em grupos ou família que são denominadas “tecnologia de grupo”, que é a concepção ou o processamento de peças e componentes FIGURA 3.7 Layout por processo.
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    84 LEAN MANuFAcTuRINg com característicassemelhantes em unidades que tenham equipa- mentos ou para as quais sejam executadas ações para essa mesma finalidade. O objetivo, a partir do agrupamento de diversas peças ou componentes, por meio da forma, do tamanho ou de ações do FIGURA 3.8 Layout por posição. FIGURA 3.9 Layout por células.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 85 processo, é o de aumentar a eficácia da produção com a otimização dos recursos já disponíveis. O conceito de tecnologia de grupo foi originalmente utiliza- do pela Toyota, mas o pioneiro dos estudos e desenvolvimen- tos de técnicas é o russo S. P. Mitofanov. Outras contribuições significativas ao estudo da tecnologia de grupo surgiram com H. Opitz, na Alemanha, e com J. Burbidge, na Inglaterra, ambas no início dos anos 1960: Opitz desenvolveu o sistema de codi- ficação e classificação (Scc), com foco no agrupamento diante das características geométricas das peças; já Burbidge buscou um agrupamento com base nas ações similares no fluxo de um sis- tema produtivo e dos consequentes grupos por meio da análise de fluxo de produção (AFP). Esses sistemas e essa metodologia criaram a base e alimentam os novos sistemas e métodos de controle, como os sistemas flexíveis de manufatura (FMS) e a manufatura integrada por computador (cIM). Além dos sistemas já citados de tecnologia de grupo, sistema de codificação e classificação (Scc) e análise de fluxo de produção (AFP), outros sistemas com menor ou maior complexidade também são utilizados, entre eles: • Inspeção ou agrupamento visual : agrupamento de peças pela análise visual ou experiência dos operadores; • Análise de agrupamento : método de maior complexidade, que utiliza o conceito matemático de matriz, denominada matriz de incidência peça/máquina, para o estudo das diversas possibilidades de agrupamentos. • Algoritmo s : o desenvolvimento e a aplicação de algoritmos para o agrupamento eficaz vêm sendo realizados por meio deprogramação matemática e técnicas heurísticas. • Metodologias com base na inteligência artificial : este método utiliza a inteligência artificial e leva em consideraçãoprincipalmente as características geométricas das peças e as características e especificidade do processo ou do fluxo. A orientação para a eficaz definição dos grupos e, consequen- temente, a formação das células pode tomar como base o projeto,
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    86 LEAN MANuFAcTuRINg os processosou o fluxo de produção. Várias são as vantagens ao utilizar o conceito de tecnologia de grupo para a formação do layout por células: • Otimização do tempo de setup, de operação e de produção;• Redução de custo com maquinário, com estoqueintermediário, espaço e mão de obra; • Aumento do nível de automação, da autonomiae da responsabilidade do operador, da motivação dos trabalhadores, da qualidade das peças ou dos componentes e da satisfação dos clientes. O layout por célula geralmente tem formato em “u” (Figura 3.10) e busca flexibilidade e uma ação produtiva completa nas peças ou nos componentes. Para definir o número de máquinas e operadores, é levado em consideração o balanceamento da linha, o tamanho dos lotes, o espaço físico disponível e as especificidades do processo. FIGURA 3.10 Uma célula de produção.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 87 uma célula pode ser concebida, de maneira semelhante aos tipos clássicos de layout aqui já apresentados, em: • Células de manufatura por linha: com foco na máquinaou com foco no operador. • Células de manufatura por processo.• Células de manufatura por posição fixa do produto.Segue, exemplificando a utilização de celulas de produção, um caso relatado por colaborador da EMBRAER. CASO ORGANIZACIONAL: EMBRAER– O PROGRAMA DE EXCELÊNCIA EMPRESARIAL EMBRAER (P3E) No segundo semestre de 2007 foi lançado na Embraer o Programa de Excelência Empresarial Embraer (P3E), com o objetivo de melhorar os resultados da empresa, aumentando sua competitividade e eficiênciaoperacional. O P3E possui as frentes pessoas, cultura, liderança e eficiência empresarial. Todas as frentes estão baseadas nos princípiosda filosofia lean. A partir de 2011, foram incorporados também algunsrequisitos baseados nos critérios do Prêmio Nacional da Qualidade, o PNQ. AS CÉLULAS DE MELHORIA CONTÍNUA De modo a operacionalizar o P3E, todos os fluxos de valor na Embraer foram mapeados e estruturados em forma de células, as quais são formadas por pessoas, podendo ser de diferentes áreas, que trabalham no mesmo fluxo de valor e compartilham os mesmos resultados. As células trabalham em um sistema cliente-fornecedor, sendo que cada bem ou serviço processado e produzido compõe parte do resultado de todo o negócio. A estruturação da empresa em células busca organizar as áreas de acordo com cada fluxo de valor, independente da estrutura hierárquica ou da localização física dos membros e processos. Todas as células da Embraer, desde o projeto, passando pela produção, pelas áreas de apoio e chegando ao contato com cliente e suporte, aplicam as mesmas ferramentas e devem mostrar melhoria em seus resultados. Vitor Eduardo Nogueira Lourenço 4 (Continua )
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    88 LEAN MANuFAcTuRINg cada célulade melhoria contínua possui um líder, responsável pelos resultados da célula, e um agente de melhoria contínua, que auxilia nas atividades de melhoria contínua, kaizens, treinamentos e aplicação de ferramentas no dia a dia. As células são apoiadas pelo Time P3E, conforme Figura c5 dos KPOs5 , que auxiliam na identificação e condução de eventoskaizen e dos consultores Lean, que ajudam as células na aplicação das ferramentas do P3E e de treinamentos. EVOLUÇÃO DAS CÉLULASAs células demonstram sua evolução por meio de etapas: passam pela qualificação e pelas certificações bronze, prata e ouro, e para issodevem demonstrar a correta aplicação das ferramentas e obtenção de resultados. Na Embraer, células qualificadas são aquelas que se estruturaram e iniciaram a aplicação das ferramentas P3E. As células bronze mostraram melhoria e atingiram bons resultados em alguns processos; as células prata apresentam melhoria considerável diante dos resultados bronze e já possuem seus principais indicadores estabilizados há determinado período de tempo. As células ouro devem apresentar resultados estáveis e equivalentes a referenciais comparativos adequados, podendo ser consideradas best in class.AS FERRAMENTAS DO P3EO dia a dia das células está baseado na prática de ferramentas que se relacionam e estimulam a aproximação entre células distintas. Algumas das principais ferramentas são: FIGURA C5 Atores dos processos de melhoria da EMBRAER.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 89 • SIPOC : ferramenta que mostra a identidade da célula e suas interfaces por meio da identificação de fornecedores (suppliers), entradas (inputs), processos (process), saídas (outputs) e clientes (clients). Também são levantados requisitos com relação às entradas, bem como pesquisadas as expectativas dos clientes em relação às saídas. • Torre de controle: painel com os principais resultados de negócio da célula, com indicadores relativos a meio ambiente, saúde e segurança, clientes, qualidade, entregas, financeiro e pessoas. • MFA: pesquisa de satisfação de clientes (market feedback analisys)internos ou externos com relação ao atendimento de requisitos de produtos e definição de planos de ação de modo a aumentar o atendimento a esses requisitos. • Clínica da qualidade: ferramenta utilizada para a resolução de problemas por meio da análise destes por pessoas de áreas relacionadas, com a identificação de causa raiz e definição de ações eficazes. Também é utilizada para o acompanhamento de ações de melhoria provenientes de desperdícios identificados. • DMAIC: as células aplicam a Metodologia Seis Sigma, através do DMAIc 6 como forma de gestão de seus processos e projetos. com base nas expectativas dos clientes, são definidas características críticas para a qualidade (cTQs), que geram indicadores de processos. São mapeadas as principais variáveis que afetam esses indicadores e criam-se planos de ação e de controle para manter os mesmos em níveis ótimos, sempre mantendo o foco nas necessidades ou nos requisitos dos clientes. • Mapa de fluxo de valor (VSM): ferramenta utilizada para mapear os fluxos de materiais e informações, e para identificar atividades que, sob a ótica do cliente, agregam valor aos produtos. Mapeia-se a situação atual e planeja-se a situação futura por meio da identificação de melhorias e de desperdícios que precisam ser eliminados. AGRUPAMENTOS E FLUXO DE VALOR Em 2011, a Embraer começou a organizar suas células em “agrupamentos”, ou seja, conjuntos de células que processam os mesmos produtos (valores). Esses agrupamentos serão novamente unidos em “fluxos de valor” ou cadeias maiores, interligando todas as áreas da empresa, desde o início de seu fluxo até a entrega de cada produto ao cliente, de modo que cada célula entenderá seu impacto (Continua )
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    90 LEAN MANuFAcTuRINg em todaa cadeia e no cliente final. A Figura c6 apresenta um fluxooperacional do P3E. RESULTADOS DO P3E — CÉLULAS E KAIZENSSeguem alguns resultados obtidos pela Embraer durante a aplicação do P3E, de 2007 a 2010: • Horas extra — redução de 68,8%. • Estoques — redução de 13,5%.• Inventory Turnover (ITO) (giro/ano) — aumento de 25,0%.• Lead time (Ejets — 170/190) — redução de 24,6%.• Custo de não qualidade — redução de 44,0%.• Pesquisa de clima — melhoria de 27,1%. 4 Vitor Eduardo Nogueira Lourenço , colaborador da Embraer, é engenheiro de produção mecânica graduado pela Escola de Engenharia de São carlos da uSP, tem MBA em gestão empresarial pela FgV. É green Belt e foi examinador do Prêmio Nacional da Qualidade em 2011. Possui cinco anos de experiência com Lean Production em indústrias. 5 KPO (Kaizen Promotion Officer) é o profissional especialista em orientar oseventos kaizen. Na Embraer, as células são apoiadas pelo Time P3E, do qual fazem parte os KPOs, que auxiliam na identificação e condução de eventos kai-zen, e os consultores Lean, que ajudam as células na aplicação das ferramentas do P3E e de treinamentos.6 DMAIc são as etapas de um projeto Seis Sigma: D (define) — definir; M (measure)— medir; A (analyze) — analisar; I (improve) — melhorar; c (control) — controlar. FIGURA C6 Processos na EMBRAER.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 91 Foco na mão de obraAs pessoas representam o maior capital de qualquer organiza- ção. A WEg foi feliz quando um de seus fundadores, Eggon João da Silva, disse que: “Se faltam máquinas, você pode comprá-las. Se não há dinheiro, você toma emprestado. Mas homens, você não pode comprar nem pedir emprestado. E homens motivados por uma ideia são a base do êxito”. cada um a seu modo, e diante das crenças de suas épocas, muitas foram as contribuições conceituais e práticas que respaldam tal posicionamento. As pessoas são consideradas pontos importantes e integrados às ações produtivas, não diante de suas lideranças ou comprometimento, que também são vitais, mas como parte integrante do mecanismo de produção (Figura 3.11). A princípio, diante de suas prováveis e inevitá- veis falhas. Surge assim o Poka-Yoke, que são sistemas simples e muitas vezes de baixo custo, como uma alternativa eficaz para prevenção de falhas humanas, evitando falhas e desperdício nos processos. Em seguida, o Jidoca, que é o responsável pela autonomia do co- laborador diante de um sistema automatizado. O Jidoca possibilita um controle em tempo real dos equipamentos pelos operadores, possibilitando que estes paralizem toda a linha de produção na menor manifestação de uma anomalia. Poka- YokeNo início do século XX, Sakichi Toyoda desenvolveu um tear a prova de erros, dotado de dispositivos que identificavam automa- ticamente os desvios ou erros de operações e, consequentemente, FIGURA 3.11 Foco na mão de obra e suas ações.
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    92 LEAN MANuFAcTuRINg desligava amáquina. Essa tecnologia, na época revolucionária, foi vendida à empresa inglesa Platt Brothers. O negociador foi o filho de Toyoda, Kiichiro Toyoda, e foi com esses recursos financeiros que Kiichiro criou, em 1933, a Toyota Motors corporation. O conceito de tecnologia negociada com a Platt Brothers foi disseminado nas indústrias japonesas e denominado Baka Yoke, que significa “à prova de tolos”, denominação que constrangia os operadores. No início dos anos 1960, Shigeo Shingo sistematizou o conceito e o redenominou para Poka-Yoke: yoke, que tem origem em yoker esignifica prevenir; e poka, que significa erros de desatenção motiva-dos por ações não adequadas de operadores. Várias são as naturezas ou tipos de erros em um processo produtivo, motivado por ações não adequadas do operador. Os erros de montagem, manutenção, instalação e operação são os de maior importância. As falhas humanas (Figura 3.12), além de inevitáveis, são signi-ficativas, e podem ser divididas em: • Falhas por inadvertência : aquelas não percebidas no momento em que são cometidas, que podem ser classificadas em intencionais, inconsequentes ou imprevisíveis. FIGURA 3.12 Poka Yoke : evitando as consequências das falhas humanas.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 93 • Falhas técnicas: motivadas por falta de aptidão, habilidade ou conhecimento, que podem ser classificadas em intencionais,específicas, conscientes ou inevitáveis.• Falhas premeditadas: decorrentes de questões vinculadas à responsabilidade ou comunicação confusa, que podem ser classificadas em consciente, intencionais ou persistentes. O conceito de Poka-Yoke surge com base no lema de que “a falha humana é inevitável”. Logo, a confiabilidade de um sistema produtivo está diretamente condicionada à interferência dessas fa- lhas humanas na operação, o que atesta a importância na utilização eficaz do Poka Yoke. Este não é um sistema de inspeção, e sim um método que auxilia nas atividades de inspeção ao indicar ao ope- rador ou à máquina o modo adequado de realizar uma operação. A operacionalização do Poka-Yoke ocorre por meio de disposi- tivos ou de ações para prevenir as prováveis falhas dos operadores que trariam como consequência defeitos nas peças, nos produtos ou causariam acidentes de diversas naturezas. Tipos de Poka-Yoke Os Poka-Yoke podem ser divididos quanto à função de regula- gem ou de detecção (Figura 3.13.) FIGURA 3.13 Poka Yoke : funções e métodos.
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    94 LEAN MANuFAcTuRINg A funçãoregulagem pode utilizar dois métodos: o de controle e o de advertência. O método de controle tem como tarefa parar a máquina ou o processo quando o Poka-Yoke for ativado. Ele atua com eficácia e precisão, interrompendo imediatamente um proces-so com defeito. Já o método de advertência, quando o Poka-Yoke é ativado, aciona um alarme por intermédio de um efeito sonoro ou visual, porém esse método não para o funcionamento da máquina e não interrompe o processo. A efetiva ação vai depender da percepção do operador quanto ao alarme. caso o alarme não seja percebido o processo continuará produzido com defeito. Quanto à função detecção, esta pode utilizar três métodos: o de contato, o de conjunto e o de etapas. O método de contato busca identificar falhas diante do contato, ou não, entre dispositivos, peças ou de características relacionadas à forma, ao peso ou às dimensões. O método de conjunto busca verificar se todas as ações previstas foram executadas, em uma unidade, e o método de etapas busca garantir que as ações estão seguindo a sequência prevista originalmente no projeto. CASOS DE UTILIZAÇÃO DO POKA- YOKE O Poka-Yoke pode ser utilizado em todas as atividades e setores, seguem alguns exemplos: Caso 1: o motorista pode esquecer e deixar os faróis de seu automóvel ligado, o que implica o descarregamento da bateria. Poka Yoke: com a retirada da chave da ignição do automóvel a energia é cortada para os faróis, desligando-os e evitando falhas na bateria.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 95 Caso 2: o operador de um computador poderia trocar os cabos dos diversos periféricos, causando problemas ao funcionamento do equipamento ou quebra deste. Poka Yoke: os cabos dos periféricos de um computador passaram a ter formatos de entrada e saída de acordo com suas funções específicas,impedindo que o operador cometa erros. Caso 3: o operador, por distração ou falha, poderia não executar todas as tarefas em uma estação de trabalho. Poka Yoke: contadores digitais indicam o número de operações realizadas em uma estação de trabalho, e caso estas não sejam todas realizadas, a máquina não libera a peça, evitando que um componente com desvio vá para outra estação de trabalho. (Continua )
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    96 LEAN MANuFAcTuRINg Caso 4: o operadorpoderia cortar uma peça fora das especificações.Poka Yoke: gabarito instalado nas máquinas com a forma padrão para referenciar o corte de peças evita o erro. Caso 5: o operador poderia executar uma operação fora das normas, causando acidentes diversos. Poka Yoke: sensores instalados nas máquinas evitam acidentes de trabalho ou erros nas operações.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 97 Jidoc a O termo Jidoca, utilizado com frequência em outros países, vem sendo substituído no Brasil por autonomação, o qual será adota- do também por este livro. O significado real de Jidoka é somente o de automação, mas, historicamente, de forma isolada, tem sido utilizado para substituir “ninben no aru jidoka” que representa au- tonomação. Autonomação é também conhecida como “automação com máquina dotada de inteligência humana” ou “automação com toque humano”. Autonomação são sistemas projetados ou instalados em linhas de produção ou máquinas que possibilitam que o operador ou a própria máquina pare o processo diante da detecção de falhas ou anormalidades (Figura 3.14). As paradas são sinalizadas por um sistema de informação visual chamado andon, que significa “sinal Caso 6: o operador poderia deixar de executar por esquecimento uma etapa de uma atividade. Poka Yoke: O cheklist pode ser utilizado para controlar e verificar se todas as etapas foram realizadas antes da conclusãodo processo.
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    98 LEAN MANuFAcTuRINg de luzpara pedir ajuda”, e o operador ou a máquina deve parar o sistema sempre que detectar qualquer anormalidade. O conceito de autonomação está assim vinculado a autonomia e automação, apesar de esse conceito ser também utilizado em processos ma- nuais, sem a presença de máquinas. Inicialmente, o conceito de autonomação surgiu com Taiichi Ohno e tinha como foco aumentar a produtividade. como as máquinas passaram a ter dispositivos que as fazia parar quando ocorressem falhas, o operador poderia, assim, ser liberado e operar outro equipamento ou posto de trabalho enquanto sua máquina não estivesse em operação. Todavia, essa visão vai de encontro ao paradigma taylorista que pregava: “um homem versus um posto de trabalho”. Assim, o operador passou a ter possibilidade de trabalhar simultaneamente em diversas máquinas ou postos de trabalho, o que tende a reduzir o número de operadores envolvidos no pro- cesso, aumentando, consequentemente, a produtividade deste, o que pode ocorrer por meio de operações em múltiplas máquinas ou de operações em múltiplos processos. Em suma, a autonoma- ção cria condições operacionais para a multifuncionalidade ou variedade de tarefas. Em um segundo momento, a autonomação FIGURA 3.14 Linha de produção com sistema de autonomação.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 99 passou a ser relacionada a qualidade e a busca do zero defeito e hoje é considerada um sistema eficaz de apoio à gestão da produção. As posições conceituais de dois dos principais estudiosos do assunto, Shingo — que prefere utilizar o termo pré-automação em vez de autonomação — e Ohno apresentam algumas divergências, mas que são irrelevantes diante do escopo deste livro. O objetivo maior da autonomação tem sido evitar que uma peça ou um produto que apresente alguma falha durante o seu processamento continue a ser produzido, reduzindo a produ- tividade e aumentando o custo do processo diante do retraba- lho ou do refugo que decorrem dos consequentes defeitos. O procedimento-chave para a eliminação dos defeitos é a imediata identificação e correção das causas quando da paralização da máquina ou linha. Implantação do sistema de autonomação A exigência cada vez maior do mercado por produtos à medi- da que aumenta a concorrência enfrentada pelas empresas tem motivado a busca de meios que garantam a confiabilidade a baixo custo, e uma das alternativas que vem apresentando sucesso são os sistemas de autonomação. No planejamento para a implantação de sistemas de auto- nomação, é preciso levar em consideração alguns importantes aspectos: • Definir com clareza todas as condições de falhas;• Buscar sistemas de autonomação simples e de baixo custo,sempre com o foco na relação custo-benefício; • Alinhar o sistema autonomatizadocom a sequência e o fluxo deoperações dos processos; • Conscientizar e capacitar os operadores e a supervisão acerca dosconceitos, da filosofia e dos ganhos obtidos com os sistemas deautonomação; • Criar uma equipe para análise e melhoria contínua dos sistemasde autonomação;
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    100 LEAN MANuFAcTuRINg • Definiras linhas, os processos ou as máquinas em que se faznecessário e é viável técnica, operacional e economicamente a implantação de sistemas de autonomação. A autonomatização, uma das principais bases para a busca do Lean Manufacturing, além de ser responsável pela confiabilidade dos produtos e evitar custos desnecessários com produtos com falhas, tem sido também um elemento de valorização e motivação dos operadores, dando a estes maior autonomia, poder e integração com o sistema produtivo. A Figura 3.15 apresenta a relação entre autonomação e as outras ações para a eficácia do Sistema Lean Manufacturing. Entre os principais benefícios na utilização de sistemas de au- tonomação, estão: • A redução de custos com a eliminação da peça defeituosa;• A qualidade assegurada;• O aumento da segurança do operador;• A otimização e flexibilidade da força de trabalho. FIGURA 3.15 A autonomação e o sistema Lean Manufacturing.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 101 Entretanto, é preciso que a organização tome medidas com o objetivo de preparar ou criar as condições necessárias para a adaptação eficaz do operador ao sistema. Entre as principais re- comendações estão: • Implantação de uma nova política de recursos humanos;• Capacitação dos operadores para a multifuncionalidade;• Redefinição das responsabilidades;• Redistribuição de atividades ao longo do tempo;• Redefinição da política salarial associada à multifuncionalidade. Segue, exemplificando a utilização da autonomação, um caso relatado por colaborador da Alumar. CASO ORGANIZACIONAL: ALUMAR — MÉTODO DE AUTOMAÇÃO COM INTELIGÊNCIA HUMANA O consórcio de Alumínio do Maranhão (ALuMAR) é uma empresa do setor industrial que vem atuando no mercado de alumínio desde a década de 1980 e é responsável pela produção anual de 430 mil toneladas de alumínio, comercializados tanto no mercado nacional quanto internacional. A ALuMAR é um consórcio formado por três multinacionais (Alcoa, Rio Tinto Alcan e BHP Billinton) e tem como base de seus negócios a tríade sustentabilidade, preservação ambiental e responsabilidade social. Situada na cidade de São Luís, a ALUMAR é composta por 90%de mão de obra maranhense e vem se destacando tanto pelos seus recordes de produção, quanto pela preservação do meio ambiente e da qualidade de vida de seus funcionários. A estrutura de negócios da ALuMAR, baseada na sustentabilidade, preservação ambiental e responsabilidade social, tem no Alcoa Business System (ABS) seu principal modelo, buscando a melhoria contínua de seus processos produtivos e com foco em redução de custos, otimização do tempo de produção e melhoria das condições de saúde, segurança e meio ambiente. As pessoas sempre estão em primeiro lugar para o sistema ABS, e com esse intuito a ALuMAR Therige Logrado Vanni 7 (Continua )
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    102 LEAN MANuFAcTuRINg vem desenvolvendométodos e sistemas que contribuam para que as atividades de seus colaboradores sejam otimizadas e reduzam gastos e falhas na produção. O Sistema ABS, apoiado inicialmente na filosofia do Sistema Toyota de Produção, vem utilizando também a ferramenta Jidoca, conceito criado na Toyota que busca fornecer a máquinas/operadores autonomia para detectar o problema durante o processo produtivo e interromper o trabalho, sinalizando a falha ocorrida. Sabe-se que o Sistema Toyota de Produção é referência de produção no mercado mundial e influencia sobremaneira as produções mais diversas no cenário industrial. Trata-se de uma filosofia de gerenciamento que busca otimizar a organização, preocupando-se em atender às necessidades de seus clientes no menor tempo possível, com a maior qualidade e os mais baixos custos, além de proporcionar segurança a seus colaboradores. Não tem sido diferente com a ALuMAR, que tem buscado alternativas para alcançar a qualidade de seus serviços e, consequentemente, a satisfação de seus clientes. Pensando dessa maneira, a empresa passou a utilizar a ferramenta Jidoca, que busca detectar falhas ou problemas no processo de produção dos lingotes de alumínio por meio da automação inteligente de máquinas. A ALuMAR passou a utilizar a automação inteligente por meio da criação de dois sensores, sendo que um identifica a altura dos lingotes de alumínio (111 mm) e o outro, o peso dos amarrados, que é composto por 44 lingotes sobrepostos e deve atingir o valor de 1.025 kg (Figura c7), buscando atender aos padrões determinados para a linha de produção. caso esses padrões não sejam atingidos, tanto os lingotes de alumínio, quanto os amarrados são automaticamente rejeitados da esteira de produção. Num primeiro momento, os lingotes retirados dos moldes são transportados pela esteira de produção até chegarem ao sensor que identifica a altura a ser alcançada. Obtendo a altura correspondente,esses lingotes continuam pela esteira até a linha de empilhamento, para formar os amarrados de alumínio ( Figura c8). Inicia-se, então, o segundo momento, em que esses amarrados passam por outro sensor, o qual é responsável por identificar seu peso padronizado. Estando osresultados de altura dos lingotes e o peso dos amarrados dentro dos padrões estabelecidos, o produto final é encaminhado para o processode estocagem e posterior comercialização pelos membros do consórcio de Alumínio.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 103 com a utilização dessa automação de máquinas por intermédio dos sensores e baseado na ferramenta Jidoca, a ALuMAR reduziu o seu percentual de rejeitos e proporcionou a entrega de produtos com a garantia de 0% de erros oriundos de altura e peso dos alumínios,favorecendo o processo de qualidade e melhoria contínua de seus produtos. Verifica-se, dessa maneira, que a automação inteligente demáquinas vem proporcionar um novo modelo de gestão de qualidade que está sendo amplamente utilizado por várias empresas e vem contribuir com a otimização de todo processo produtivo. 7 Therige Logrado Vanni possui graduação em administração de empresas e em ciências contábeis, com MBA em engenharia da produção e MBA em ges- tão empresarial pela FGV. Profissionalmente, ocupa o cargo de planejador deprodução e analista de contratos e serviços na ALuMAR, além de ser professor universitário. FIGURA C7 Amarrado e lingotes de alumínio. FIGURA C8 Sensor de altura/dimensional.
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    104 LEAN MANuFAcTuRINg Foco nos equipamentosSejampequenos equipamentos utilizados no setor de serviço, sejam equipamentos pesados utilizados em alguns processos de manufatura, as máquinas certamente viabilizam a produção. um dos maiores investimentos de uma organização é a mecanização ou automação de seus processos por intermédio dos equipamentos, os quais só apresentam retorno do capital investido quando estão produzindo de maneira eficaz. Máquinas paradas involuntaria- mente é desperdício. com o objetivo de minimizar os desperdícios, otimizando a utilização dos equipamentos, o Lean Manufacturing tem utili- zado os conceitos e métodos sugeridos pela TRF - Troca Rápida de Ferramenta (Single-Minute Exchange of Die – SMED) e TPM – Manutenção Produtiva Total (Total Productive Maintenance – TPM) (Figura 3.16). A TRF é um método utilizado para minimizar o tempo de setup, historicamente um dos maiores responsáveis pelos des- perdícios nos processos de manufatura, ao passo que a TPM é uma maneira de tratar o processo de manutenção com a inserção do operador no processo e com a integração de toda a organi- zação, buscando combater as perdas e eliminar os desperdícios. Trata-se de um processo integrado e eficaz de prevenção de falhas nas máquinas. FIGURA 3.16 Foco nos equipamentos e em suas ações.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 105 Troca rápida de ferramentaA troca rápida de ferramentas (TRF) é um método fundamental para auxiliar na redução do tempo de setup. O termo setup é utili- zado para identificar o tempo de preparação de uma máquina ou equipamento, ou seja, o tempo que a máquina ou equipamento fica parado ou deixa de produzir plenamente, para que sejam realizadas trocas de ferramentas ou para uma nova programação, com o obje- tivo de executar uma nova atividade, ou fabricar uma nova peça ou produto. O tempo de setup tem início na produção da última peça de um lote ou na última ação, dentro das especificações definidas, e vai até o momento em que primeira peça do novo lote, ou nova ação, é produzida ou realizada dentro das especificações definidas. um bom exemplo é o pit-stop em uma corrida de Fórmula 1 (veja Figura 3.17). cada vez mais o mercado exige produtos diversificados ou únicos e isso tem exigido das organizações uma produção flexível FIGURA 3.17 Fórmula 1 e os tempos de setu p .
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    106 LEAN MANuFAcTuRINg em pequenoslotes, o que reduz o custo de estoque, mas aumen- ta, em muito, a frequência nas mudanças ou preparação das má- quinas e das linhas de produção para atender a essa dinâmica (Figura 3.18). consequentemente, as operações de setup, um dos pontos críticos no processo produtivo, aumentam em frequência e em especificidade. uma das principais motivações para redução de setup tem sido a busca para a otimização da capacidade instalada ou para a in- trodução das técnicas para o Lean Manufacturing. FIGURA 3.18 Lote econômico: custo versu s tamanho do lote.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 107 A otimização da capacidade está diretamente vinculada a uma utilização mais eficaz das máquinas e dos equipamentos pelo tempo efetivo de trabalho dos operadores, que são consequência de redução de setup. Já a redução de setup como uma etapa para a implantação do Lean Manufacturing tem uma amplitude bem maior em termos de ganho. Os efeitos colaterais positivos são muitos, dentre eles: • Maior flexibilidade da linha;• Redução do lead time;• Redução do estoque;• Torna economicamente possíveis pequenos lotes;• Reduz tempos improdutivos das máquinas e operadores;• Aumenta a produtividade da linha. As eficazes operações de setup são imperiosas para o sistema Lean Manufacturing, em particular para o nivelamento do fluxo produtivo, e essas operações geralmente são complexas e os resul- tados, de médio ou longo prazo. Tradicionalmente, as organizações buscavam produzir gran- des lotes para fugir dos possíveis problemas de produção que poderiam ser criados pelo setup. Atualmente, isso não é mais possível, pois a acirrada concorrência tem feito com que as organizações otimizem seus processos por meio da redução de custos em um mercado cada vez mais exigente, o que obriga uma maior flexibilidade e um menor lead time, tornando inevitável a frequente utilização de setup. uma das principais contribuições para o estudo dos setups veio com o japonês Shigeo Shingo e será apresentada na sequência deste livro. Shigeo Shingo e as primeiras ações para o estudo do setup Shigeo Singo iniciou seus estudos com o objetivo de reduzir o tempo de setup ainda nos anos 1950. Seus estudos e suas ex- periências foram marcados por três importantes eventos, todos
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    108 LEAN MANuFAcTuRINg no Japão:o primeiro em 1950, na Madza Toyo Kogyo; o segundo em 1957, na Mitsubishi Heavy; e o terceiro em 1969, na Toyota Motor company. Na Madza, Shingo teve como atividade agilizar a troca de ma- trizes em uma prensa de 800 toneladas, com o objetivo de eliminar gargalos. Após análise do funcionamento do processo surgiu a primeira grande contribuição para o estudo do setup: as atividades deste foram divididas pela primeira vez em internas e externas. O setup interno, que passou a ser chamado “tempo de preparação interna” (TPI), é aquele realizado com a máquina parada; já o setupexterno, “tempo de preparação externo” (TPE), é o que pode ser realizado com a máquina em funcionamento. Nesse caso na Madza, Shingo sugeriu identificar as operações para o TPE e criar condições antecipadas e favoráveis para aumen- tar a eficiência do processo. O resultado foi aumento de 50% deeficiência na troca das citadas matrizes. Na Mitsubishi, Shingo tinha como missão otimizar a utilização de uma plaina utilizada para usinar a base de um motor. Suas observações o levaram a sugerir a conversão de atividades de setup, antes consideradas internas (TPI) em externas (TPE). Para isso, foi necessário criar uma estrutura de suporte ao lado do equipamento a ser trabalhado, onde essas atividades seriam realizadas sem alte- rar o funcionamento do processo. O ganho de produtividade com essa medida chegou a 40%. TRF — LIÇÃO 1 DE SHINGO: Importância da separação dos setups internos dos externos e definiçõesde ações eficazes para os setups externos. TRF — LIÇÃO 2 DE SHINGO: Importância da conversão de setup interno em setup externo e criaçãode suporte para a eficiência dessas mudanças.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 109 Na Toyota, Shingo teve como objetivo reduzir o tempo de operação de setup de uma prensa de mil toneladas que era de 4 horas. No primeiro momento, com a separação dos setups internos e externos(Lição 1) e com a conversão de setup internos em externos (Lição 2), o tempo final setup chegou a 90 minutos, uma redução de 62% dotempo inicial. No segundo momento buscou-se uma racionalização de cada operação de setup interno e externo, e vários procedimentos foramadotados, entre os quais: • Documentação das ações do processo de setup como modo debuscar melhores resultados e um tempo padrão; • Execução de tarefas de setup paralelas, ou seja, execução demais de uma tarefa ao mesmo tempo e utilização de mais operadores; • Utilização de fixadores funcionais para minimizar os esforçosdos operadores e auxiliar na eficácia das operações de setup;• Busca de técnicas para eliminar ajustes a partir de ferramentaspadronizadas e com dispositivos próprios, como guias, pinos pilotos, batentes, entre outros; • Redistribuição das ações para agrupar as que apresentamsimilaridades . Essas medidas lavaram o setup da prensa aqui tratada a ser realizado em 3 minutos, e, considerando o momento inicial, a redução foi de 4 horas para 3 minutos. Foi isso que levou Shingo a usar o termo “Single Minute Exchange of Die (SMED)”, ou seja, atroca de ferramentas em um tempo inferior a dez minutos. TRF — LIÇÃO 3 DE SHINGO: Após a separação dos setups internos dos externos, da conversão de setu p interno em externo e da criação de métodos para a maior efi- ciência de setups internos, deve-se racionalizar cada operação de setuppor meio da padronização, paralelização de operações e eliminação dos ajustes.
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    110 LEAN MANuFAcTuRINg Etapas paraa TRF Para operacionalização da TRF, Shingo sugeriu quatro estágios, de acordo com a Figura 3.19 e como exposto a seguir: • Estágio inicial — análise das condições de setup;• Estágio 1 — separação dos setups interno e externo;• Estágio 2 — conversões de setups interno e externo;• Estágio 3 — racionalização das ações e operações dos setupsinterno e externo. No estágio inicial, deve-se fazer uma análise da linha de produ-ção por meio de filmagens e cronômetros. Além disso, as entrevistas aos operadores e supervisores também são importantes para ter informações do processo. No estágio 1 busca-se separar os setups interno e externo, e uma primeira ação é a utilização de um checklist incluindo todas FIGURA 3.19 Fases para a TRF.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 111 as peças, as condições operacionais e os passos a serem realizados. Nessa etapa, também são verificadas as condições de funciona- mento de toda a estrutura e dos equipamentos a serem utilizados nas operações de setup. Além disso, outra preocupação que se deve ter é com a eficácia dos transportes dos equipamentos citados anteriormente. No estágio 2 busca-se a conversão dos setups internos em ex-ternos com o objetivo de reduzir os internos e, consequentemente, o tempo de máquina parada. Nesse estágio, uma das principais ações é a preparação antecipada das condições operacionais e a pa- dronização das atividades. A utilização de guias padronizados para o auxílio também é uma ação recomendável de modo a preparar as condições favoráveis para uma eficaz operação de setup. O Estágio 3 é destinado à racionalização de todas as opera- ções de setup tanto interno quanto externo e tem como objetivo o single-minute, ou seja, um tempo inferior a 10 minutos, e é destinadoa melhorias radicais nas operações de setup externo e de setup interno. No setup externo, têm-se como principais ações para a busca do single-minute as melhorias das condições de estocagem e trans-porte dos equipamentos a serem utilizados nas operações; e quanto ao setup interno, as buscas das melhorias radicais têm como focosprincipais: • A implantação de operações paralelas;• A utilização de fixadores;• A eliminação de ajustes;• A meca nização.A Figura 3.20 apresenta, por meio de um fluxograma, um roteiro padrão para operacionalização da TRF Atualmente, algumas ações não consideradas por Shingo es- tão sendo adotadas por diversas organizações com o objetivo de reforçar o Estágio 3, proposto pelo autor ou criação de novo estágio. Entre essas ações principais, estão: • Busca de uma sequência eficaz com foco na similaridade eutilização do mesmo equipamento;
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    112 LEAN MANuFAcTuRINg • Buscade métodos para minimizar as perdas do processode tempo antes e depois da parada total para troca de ferramentas. Essas perdas estão associadas à desaceleração para a parada e ao período de aceleração para atingir o padrão do processo; • Estudo ergonômico do local e equipamentos utilizados noprocesso de setup;• Adaptação do layout do local onde serão executadas as ações;• Implantação de programa de treinamentos das equipesenvolvidas nas operações de setup;• Identificação de mudanças necessárias aos projetos dasmáquinas para adaptação que visem à realização de setup mais simples, eliminação de ajustes ou mesmo eliminação da necessidade de setup. FIGURA 3.20 Fluxograma para a TRF.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 113 Roteiro para operacionalização da TRF uma contribuição dividida em três momentos, apresentadas por J. Black, tem sido muito útil para o planejamento das opera- ções de setup. Os três momentos são: estratégico, preparatório e operacional . O estratégico é composto pela definição do escopo, dos obje- tivos e das metas a serem atingidas, capacitação da equipe que deverá atuar no processo e definição das estratégias. O prepa- ratorio é composto pelas definições do resultado esperado, do detalhamento do processo e das ações operacionais. O operacional é composto pela análise inicial da operação, identificação das operações de setup internas e externas, conversão de setup internoem externo, padronização, eliminação de ajustes e finalmente eliminação de setup. A utilização da TRF é exemplificada no caso a seguir, sobre a ZF do Brasil . CASO ORGANIZACIONAL: ZF DO BRASIL– OTIMIZAÇÃO DO TEMPO DESETUPNA PLANTA SOROCABA Em um acompanhamento de tomada de decisões para o aumento da demanda de um produto a ser fabricad na ZF do Brasil Planta deSorocaba, verificou-se a necessidade de comprar três retíficas internaspara atender à nova demanda, cada uma com custo médio de R$2,5 milhões. Inicialmente, a demanda era composta por 250 transmissões, em que cada uma teria nove peças. O cliente exigia receber todas as peças todos os dias, portanto, seria necessário produzir as três peças em cada máquina. Para produção das nove peças, seriam necessárias três máquinas. Anderson Loureiro Botas 8 Marco Antonio dos Santos Junior 9 Marcos Aguilera Padilha 1 0 (Continua )
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    114 LEAN MANuFAcTuRINg como aempresa trabalha em regime de 24 horas, dividido em três turnos diários na premissa, planejava-se trabalhar, em cada máquina, com uma peça por turno, ou seja, todo começo de turno começaria com um setup e produziria o montante necessário daquele item no turno. No desenvolvimento dos produtos, o tempo era suficiente, mas,ao aumentar a demanda de 250 para 379 transmissões, identificou-sea necessidade de comprar mais uma máquina, ou seja, R$2,5 milhões em investimento para atender à demanda. Então, foi questionado: qual a capacidade das máquinas e como seria possível melhorar a produtividade e a flexibilidade do processo? cada máquina pode produzir em média 60 peças/hora, e o tempo de setup para preparação da máquina, de um componente para outro, é de 3 horas por causa da complexidade das máquinas e da espera para suas avaliações dimensionais (veja Figura c9). como cada turno é de 8 horas, seria possível produzir no máximo 300 peças nos três turnos por máquina. Para produzir 379 peças seria necessário um turno de 9,31 horas, o que, evidentemente não seria possível. A solução foi aplicar o SMED (TRF) para identificar as possíveismelhorias. Após uma semana de trabalho utilizando muitos dos FIGURA C9 Situação por máquina antes da aplicação do SMED.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 115 métodos aqui já apresentados para a busca de melhorias no sistema, atingiram-se os seguintes resultados: • 45% do setup interno foi transformado em setup externo;• Foi reduzido o percurso do operador que faz o setup externo em72%, de 1.180 metros para 494 metros, por setup; • Foram centralizadas todas as informações e os dispositivos em umasala de setup única, com fluxo, análise dos desgastes dos dispositivos e ferramentas, armazenagem de informações das aprovações etc.; • Foi melhorado o fluxo de entrega de material programadojuntamente com o setup chegando ao máximo em meia hora de antecedência e parada do equipamento para fazer a troca; • Foram eliminadas cinco tipos de chave Allen para sistema deparafuso com pino borboleta, reduzindo em 25% o tempo emmanuseio com os dispositivos; • Foi padronizada a forma de setup e colocadas nos postos de trabalhonormas operacionais. com essas melhorias, conseguiu-se reduzir o tempo de setup em 2 horas e 5 minutos, ou seja, o setup de três horas passou a ser de 55 minutos, conseguindo, assim, atender à demanda sem aquisição de um novo equipamento e com o investimento de apenas R$15 mil, não precisando fazer um investimento de 2,5 milhões de reais em uma nova máquina (veja Figura c10). Juntamente com o trabalho, os operadores e preparadores dos três horários foram envolvidos e participaram das decisões e trabalhos, e todos foram treinados no conceito e com proposta de abrangências para outros equipamentos da fábrica. As mudanças e melhorias em tempo de setups foram importantes para atingir a flexibilidade no sistema produtivo, uma vez que, com as melhorias nesse sistema, pode-se ganhar em flexibilidade e produtividade em caso de aumento de demandas. O desenvolvimento do presente trabalho na planta de Sorocaba da ZF do Brasil evidencia a importância da utilização do setup nas FIGURA C10 Situação por máquina depois da aplicação do SMED. (Continua )
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    116 LEAN MANuFAcTuRINg grandes epequenas empresas como uma ferramenta indispensável para reduzir o tempo de parada e, assim, aumentar o índice de funcionamento dos equipamentos. Isso auxilia nas tomadas de decisões, tornando-as mais objetivas e precisas, e proporcionando, assim, a possibilidade de aumentar a flexibilidade com ganho de qualidade, pois um setup bem feito é a garantia da produção com qualidade e maior aproveitamento dos recursos produtivos. Isso consequentemente traz à empresa maior destaque no mercado, graças à redução dos custos, melhor capacitação de seus funcionários, maior atenção ao meio ambiente, aumento da satisfação de seus clientes e de seu patrimônio. Todas as melhorias são bem-vindas, mas é preciso torná-las sustentáveis por meio de um sistema de monitoramento, definindopadrões, e estar sempre tentando melhorar os padrões, pois, como citado, se não pensar em melhoria todos os dias, o progresso é interrompido e corre-se um sério risco de se perderem as melhorias conquistadas, tornando-se, assim, menos competitivo. Muitas melhorias estão nas coisas simples e, como visto na análise do caso apresentado, não necessariamente precisa-se de grandes investimentos para conseguir grandes resultados. Muitas vezes pode-se ter o efeito inverso, pois é possível dificultar ainda mais o sistema por conta dos altos investimentos irreversíveis. com o SMED, pode-se obter grandes resultados. 8 Anderson Loureiro Botas é tecnólogo em processos de produção pela FA- TEc-Sorocaba, pós-graduado em gestão estratégica de negócios, com MBA em gestão empresarial pela FGV. Profissionalmente, atua há 11 anos em umaempresa multinacional do segmento automobilístico, adquirindo experiência em coordenação de equipes, gerenciamento de projetos e consultoria em ferramentas Lean Manufacturing. 9 Marco Antonio dos Santos Junior tem graduação em engenharia de produção mecânica pela universidade do grande ABc, com MBA em gestão empresarial pela FgV. Sua experiência inclui cargos nas áreas de manutenção, engenharia de processos, qualidade e gestão da produção. Atualmente, é engenheiro de qualidade do escritório de gerenciamento de projeto (PMO) da empresa ZFdo Brasil Ltda. 10 Marcos Aguilera Padilha tem graduação em administração de empresas pela universidade de Sorocaba (uNISO), com MBA em gestão empresarial pela FgV. Possui experiência profissional de 22 anos na área industrial em empresas multina-cionais na área técnica de processos de produção, gestão de pessoas e planejamento. Atualmente é supervisor de produção da empresa ZF do Brasil Ltda.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 117 Manutenção produtiva totalManutenção são as ações para recuperar, monitorar e geren- ciar um equipamento a fim de mantê-lo em condições normais de funcionamento, e a sistematização desse conceito e de suas técnicas associadas teve início no século XVI. A primeira mani- festação formal surgiu a partir da construção dos relógios mecâ- nicos, em que os fabricantes capacitavam os profissionais para a montagem, operação e, também, para os prováveis concertos. com o início da Revolução Industrial, os processos de manu- tenção tiveram grande evolução e passaram a fazer parte das ações produtivas. Na época, os processos de manutenção eram, em gran- de parte, executados pelos próprios operadores dos equipamentos. Em casos de maior gravidade e complexidade, o fabricante do equipamento era convocado. Até o início da década de 1940, os processos de manutenção basicamente buscavam a disponibilidade e o pleno funcionamento do equipamento depois da falha ocorrida, processo este que ficou conhecido como manutenção corretiva. A partir dos anos 1940, diante da Segunda guerra Mundial e motivados pelas necessidades de maior eficiência nos equipamentos bélicos, as organizações do setor introduziram um novo conceito: a manutenção preventiva. Esse tipo de manutenção caracteriza-se por intervenções perió- dicas nos equipamentos com o objetivo de mantê-los em pleno funcionamento, e entre as principais ações estão a limpeza, a lu- brificação, a substituição programada de peças ou componentes, entre outras. Nos anos 1960, surge a manutenção preditiva, que visa prever falhas pelo monitoramento e pela medição das condições ple- nas do equipamento, sem interromper as operações deste. Nos anos 1970, o Japan Institute of Plant Maintenance (JIPM), com o objetivo de integrar novamente o operador nos processos de manutenção, reduzindo custos e otimizando o gerenciamento das unidades produtivas, desenvolveu a manutenção produtiva total (TPM), que tem sido uma grande aliada nos sistemas Lean Manufacturing.
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    118 LEAN MANuFAcTuRINg Tipos demanutenção Os tipos de manutenção podem ser classificados quanto ao nível de centralização e quanto ao nível de planejamento. No nível centralização, a classificação é feita em: • Processo de manutenção centralizado, que tem toda a estruturae os recursos de manutenção situados em um único local; • Processo de manutenção descentralizada, que tem a estruturae os recursos de manutenção divididos e localizados por setor ou por equipamentos. Já quanto ao nível de planejamento, temos: • Processo de manutenção não planejada: é quando, diantedas características do equipamento e do processo, é economicamente mais viável deixar o equipamento trabalhar até a quebra. Esse processo é também conhecido como manutenção corretiva emergencial; • Processo de manutenção planejada: nesse caso, é possívelinserir as ações de manutenção citadas anteriormente — preventiva, preditiva, corretiva e a produtiva total. Existem ainda outros processos de manutenção menos utili- zados, alguns destinados a setores ou equipamentos específicos, entre eles: • Manutenção de melhoria — busca corrigir, de maneira programada, prováveis desvios do equipamento identificadosnas manutenções produtivas e preventivas; • Manutenção centrada na confiabilidade — busca, por meio da utilização dos demais tipos de manutenção, garantir a confiabilidade do desempenho do equipamento de acordo com o previsto no projeto; • Prevenção de manutenção — busca melhorar as condições de funcionamento, disponibilidade, manutenabilidade e confiabilidade do equipamento durante o seu projeto;• Manutenção detectiva — busca criar condições para a manutenção de equipamentos em que as falhas só podem ser identificadas no momento de utilização deste;
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 119 • Terotecnolog ia — busca métodos para minimizar os recursos financeiros na utilização dos equipamentos por meio da otimização das condições técnico-econômicas, da confiabilidadedo planejamento e do modelo de gestão. A manutenção produtiva total Logo após a sua criação, na década de 1970, a Total ProductiveMaintenance (TPM) foi utilizada para a busca da eficiência dos equipamentos focada nas perdas por quebra, conceito este que evoluiu (Figura 3.21). Na década de 1980, a TPM passa a focar a bus- ca da eficácia, combatendo seis tipos de perdas nos equipamentos: • Perda por quebra de equipamento; • Perda por troca de ferramenta; • Perda por falhas no processo; • Perda por espera ; • Perda por velocidade de equipamento;• Perda por rendimento do equipamento. FIGURA 3.21 Evolução do conceito de perda na TPM.
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    120 LEAN MANuFAcTuRINg Já nadécada de 1990, o TPM passa a focar não só nos equi- pamentos, mas todo o sistema de produção por meio de oito perdas vinculadas aos equipamentos, cinco perdas vinculadas aos colaboradores e três perdas vinculadas aos recursos de pro- dução. com relação às perdas vinculadas aos equipamentos, além das já consideradas no momento anterior, passaram a ser prioridades aquelas com a mudança de dispositivo de controle e as por re- trabalho. Quanto às perdas vinculadas aos colaboradores, estas são focadas em: • Perdas na administração ; • Perdas na mobilidade operacional;• Perdas na organização da linha;• Perdas na logística ; • Perdas na medição .Já quanto às perdas vinculadas aos recursos, estas são focadas em : • Perdas relativas à energia;• Perdas relativas ao material;• Perdas relativas a ferramentas. A TPM vem sendo utilizada por muitas organizações com uma visão estratégica e com participação de toda a organização, sendo um procedimento vital para o Lean Manufacturing e que tem como principais objetivos: • Integrar todo o setor produtivo e administrativo no processo demanutenção; • Otimizar o equipamento quanto ao seu desempenho e ciclo devida ;• Diluir a responsabilidade da manutenção com o operadorde cada equipamento e com todos os outros setores da organização; • Motivar e capacitar o operador diante de detalhes técnicos ouoperacionais do equipamento que utiliza; • Reduzir custos de manutenção e operação.
  • 116.
    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 121 Os pilares da TPM Para a implantação da TPM, devem-se utilizar alguns princípios denominados de pilares (Figura 3.22). Ao todo, são considerados oito pilares: • Manutenção planejada : consiste em elaborar um plano de manutenção preventiva e preditiva para maximizar a utilização do equipamento. • Processo de treinamento : consiste em capacitar todos os atores envolvidos em técnicas, liderança de equipes e modelo de gestão, para melhor compreensão e melhor desempenho diante do projeto TPM. • Manutenção autônoma : consiste na capacitação do operador de revisar seu equipamento e na integração e no comprometimento de toda a equipe. • Gestão da melhoria focada : consiste nas ações para a eliminação de perdas crônicas a fim de aumentar a eficiência,a disponibilidade e o tempo de vida do equipamento. FIGURA 3.22 Pilares da TPM.
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    122 LEAN MANuFAcTuRINg • Gestãodos equipamentos : consiste em garantir, por meio da eficiência dos equipamentos, os produtos finais com as características e especificações planejadas.• Gestão da manutenção da qualidade : consiste na interação quanto à confiabilidade dos equipamentos com a qualidadedos produtos e a capacidade de produção. • Gestão do processo administrativo : consiste em garantir o pleno funcionamento, sem desperdício, das áreas de apoio administrativo, minimizando ou eliminando sua interferência na funcionalidade dos equipamentos. • Gestão da segurança, saúde e meio ambiente : consiste na utilização e integração dos sete pilares anteriores para as melhorias das condições de trabalho, minimizando os riscos e otimizando a efetividade. Implementação da TPM A implementação da TPM pode ser divida em quatro momen- tos: preparação, introdução, implantação e consolidação. Na pre- paração, é necessário o total comprometimento da autodireção, a concepção de um plano diretor com políticas, metas e um pro- grama de capacitação, e a divulgação dos princípios da TPM. Já a introdução é o momento do lançamento do programa, no qual devem estar todos os atores estratégicos da organização. Deve ser dado a esse momento um grau da importância e a visibilidade adequada. Na implantação, devem-se iniciar as ações para tornar possíveis os pilares da manutenção focada, da gestão dos equipamentos, da gestão dos processos administrativos e da gestão da segurança, da saúde e do meio ambiente. Por fim, a consolidação da TPM consiste na continuidade desta com a introdução dos programas que alimentam o processo estabelecendo ações, indicadores de desempenho e metas. A utilização da TPM, em particular pelas organizações que bus- cam o Sistema Lean, tem levado às melhorias significativas de seus indicadores; com bases em divulgações de entidades vinculadas ao setor e em publicações científicas, pode-se citar:
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 123 • Aumento de produtividade;• Redução dos custos de produção;• Redução de estoque;• Diminuição dos acidentes e trabalho;• Maior participação dos colaboradores e comprometimento. Para ilustrar esse conceito, vamos verificar a utilização da TPM no caso relatado pelo colaborador da Eletrobras Amazonas Energia. CASO ORGANIZACIONAL: ELETROBRÁS AMAZONAS ENERGIA — PROGRAMA DE GESTÃO DE MANUTENÇÃO COM IMPLANTAÇÃO DA TPM Milton Fonseca Junior 1 1 O Programa de gestão de Manutenção (PgM) da Eletrobras Amazonas Energia apresentou ganhos significativos de confiabilidade nos equipamentos das usinas termelétricas a diesel, motores de combustão interna, como resultado da implantação da TPM. Diante das características da organização, foram priorizados quatro pilares nessa implantação: manutenção autônoma, manutenção planejada, processo de treinamento e melhorias focadas. Assim, foram utilizadas as técnicas referentes a esses pilares para busca das melhorias e confiabilidade naprodução de energia na usina citada. FASES PARA IMPLANTAÇÃO DO TPM NA USINAA implantação foi realizada em quatro fases. A fase 1, o diagnóstico, teve como objetivo o levantamento de dados das operações e a análise de documentos para servirem de base ao plano mestre estratégico da Fase 2. Após a realização do diagnóstico, os dados levantados e as oportunidades e recomendações foram apresentados à diretoria e à gerência da organização para análise, discussão, prováveis adaptações e aprovação. Na fase 2, foi concebido o “plano mestre estratégico”, que contemplou as oportunidades e os objetivos definidos e aprovados norelatório do diagnóstico. O plano citado foi apresentado, analisado, adaptado e aprovado pela diretoria e pela gerência da empresa, e também pelas pessoas indicadas envolvidas no programa, visando (Continua )
  • 119.
    124 LEAN MANuFAcTuRINg determinar asnecessidades específicas e os objetivos das áreas em queo programa seria implantado. A fase 3 foi a responsável pelo treinamento. Foi necessário nivelar o conhecimento dos participantes que seriam os responsáveis por desenvolver internamente o programa nas funções de líderes, coordenadores de pilar e membros do comitê diretivo. O acompanhamento foi sistematizado pela fase 4, que incluiu reuniões com os coordenadores de pilar, auditorias durante a fase de implantação e orientação das atividades, definição de conceitos e premissas novase necessárias, e utilização de metodologia para operacionalização do plano mestre estratégico. AÇÕES, RESULTADOS E OBJETIVOS ALCANÇADOS COM A IMPLANTAÇÃO DO TPM O acompanhamento dos indicadores foi realizado por um período de 12 meses, o que permitiu analisar as implicações da aplicação das ferramentas da TPM na organização. A análise dos resultados obtidos de cada pilar, descritos na metodologia, indicou de maneira incontestável os expressivos ganhos obtidos com a adoção da TPM na Eletrobras Amazonas Energia. PILAR DE MANUTENÇÃO AUTÔNOMA No momento inicial, os operadores envolvidos foram capacitados para identificar anormalidades nos motores, nos equipamentos auxiliares,nas instalações e no local de trabalho, utilizando a colocação de etiquetas como meio de registro das anormalidades. um dos princípios adotados no início era que as áreas, os motores, os equipamentos auxiliares e as instalações estivessem sempre limpos e fossem mantidas nessas condições, não sendo tolerado qualquer sinal de desorganização ou locais sujos. um dos programas adotados inicialmente, com esse objetivo, foi o 5S. Os locais que não estivessem atendendo aos requisitos eram sinalizados por meio de etiquetas, e o reparo destes era realizado pelo plano de ação, com prazo definido e responsável. Foi criado ainda um painel de controle que indicava os tipos de problemas identificados, a quantidade de etiquetas colocadas e retiradas, e as áreas envolvidas nas anormalidades: manutenção, operação, segurança e meio ambiente. Os operadores tinham o dever de verificar sempre as condiçõesideais dos motores e dos equipamentos auxiliares. A equipe deveria continuamente inspecionar se as instalações e áreas de trabalho
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 125 estavam sinalizadas, com as cores de segurança industrial, placas de identificação, iluminação e limpeza. Os painéis de controles dasetiquetas deveriam sempre estar atualizados, indicando o volume de etiquetas colocadas e retiradas no mês. PILAR DE MANUTENÇÃO PLANEJADA Foi elaborada uma planilha de priorização contendo as perguntas pertinentes das áreas envolvidas com os processos da organização: operação, manutenção, engenharia, segurança e meio ambiente. A equipe de manutenção e operação passou a realizar o planejamento de inspeção em todos os motores, equipamentos auxiliares e instalações para atender às normas de manutenção, conforme descritas pelo fabricante, ou para resgatar as condições desejadas de funcionamento. O plano de ação definido tomou como foco as atividades, os materiais,os prazos, o tempo previsto em cada atividade de reparo e a equipe de manutenção nos equipamentos classificados. com isso, foi possível elaborar os relatórios das atividades concluídas e iniciadas das manutenções, o que possibilitou a realização da análise crítica dos gráficos produzidos, indicando o MTBF 1 2 (Mean Time Between Failures)e MTTR1 3 (Mean Time to Recover) por motor. PILAR DE MELHORIAS FOCADAS Nesse Pilar foram realizadas algumas ações, porém as de maior importância foram: a formação dos grupos de trabalho, a definição do fluxo operacionalde maneira clara e didática, a preparação dos equipamentos, definindoas prioridades e os principais riscos, a identificação das respectivas capacidades nominais e reais dos motores, dos equipamentos auxiliares e das operações, e a definição de critérios para analisar, identificar e estratificar as principais perdas nas operações.Tudo isso ocorreu com o conhecimento e a participação dos colaboradores envolvidos no processo, e as principais ferramentas utilizadas para investigar e eliminar as perdas foram o ciclo PDcA e o diagrama de causa e efeito. Já o “plano de ação” foi elaborado pelo grupo de trabalho com ações focadas, responsáveis, com prazos definidos e controle sobreo andamento das atividades. O acompanhamento desse plano foi realizado com a comparação dos resultados antes e depois. Foi concebido um padrão operacional provisório, que passou a ser utilizado pelos operadores em cada motor e equipamento auxiliar, sendo avaliados por meio de indicadores e objetivos definidos paracada motor ou ação operacional da usina. (Continua )
  • 121.
    126 LEAN MANuFAcTuRINg PILAR DEEDUCAÇÃO & TREINAMENTO Todos os funcionários participantes do programa TPM receberam o treinamento básico ministrado pelos coordenadores de pilares, e o material didático para a realização do treinamento básico foi aprovado pelo comitê diretivo e disponibilizado para os coordenadores de pilares. Com isso, verificou-se um planejamento mais rigoroso, comum cronograma dos treinamentos e instrutores capacitados. Foi ainda elaborada uma versão do treinamento de TPM para integração de novos funcionários. Os indicadores relacionados aos funcionários treinados e horas de treinamento realizadas foram colocados à disposição de todo o corpo funcional da organização. RESULTADOS DO PGM COM A IMPLANTAÇÃO DO TPM Com as análises dos resultados e discussão dos fatos, verificamos quefoi economicamente viável a implantação do TPM como melhoria contínua e para gestão de manutenção como mostra o aumento de MTBF de 279 h para 332 h e a diminuição do MTTR de 5,66 h para 1,99 h, como mostra a Figura c11. Verificou-se ainda um aumento damanutenção autônoma realizada pelos operadores, um aumento da manutenção preditiva e a diminuição da manutenção corretiva. 11 Milton Fonseca Junior é engenheiro eletricista e possui mestrado pelo Ins- tituto de Tecnologia (ITEc) do programa de pós-gradução em engenharia elétrica da uFPA. Atualmente, é engenheiro da Eletrobras Amazonas Energia.12 MTBF — Mean Time Between Failures, que significa o período médio entrefalhas e é um valor atribuído a determinado dispositivo ou aparelho para des- crever a sua confiabilidade.13 MTTR — Mean Time to Recovery, que significa tempo médio de recuperaçãoou tempo médio de reparo. FIGURA C11 Ganhos coma a TPM na Eletrobras Amazonas Energia.
  • 122.
    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 127 Foco nos movimentosA movimentação de materiais, interna ou externa (Figura 3.23) que pode provocar estoques desnecessários, é outro fator crítico no Lean Manufacturing. A movimentação interna de materiais é aqui tratada por meio do Kanban, um sistema de informação que orienta o fluxo ao acionar as unidades produtivas de acordo com as necessidades do cliente. O Kanban é um dos principais sistemas operacionais que viabiliza o just in time. Quanto à movimentação externa de materiais, a partir dos fornecedores não se tem, no setor produtivo, uma única tendên- cia. Além do modo tradicional de operação nos fornecimentos de insumos e peças, várias outras ações vêm sendo adotadas, como : • Sistemas de consórcio ou condomínios nos quais os fornecedoreslocalizam-se “dentro” da planta do cliente; • Fornecedores localizados próximos aos clientes realizandoa entrega de seus materiais a partir de um comando deste último; • Fornecedores que participam da concepção dos produtos aoentregar sistemas já instalados ao produto final;• Instalação de esteira ou caminhos exclusivos para que ofornecedor entregue materiais já na estação de trabalho em que serão utilizados. FIGURA 3.23 Foco nos movimentos e suas ações.
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    128 LEAN MANuFAcTuRINg Este livrooptou por apresentar o Milk Run, uma alternativa que vem sendo utilizada de maneira eficaz pelo setor automotivo, prin-cipalmente as montadoras que já utilizam o Lean Manufacturing. Sistema KanbanO termo Kanban surgiu no Japão e foi utilizado inicialmente com significado de “cartão”/“etiqueta”. Nas organizações atuais, o termo Kanban é utilizado para identificar um eficaz sistema de informação para o gerenciamento e a otimização do fluxo de materiais em um processo produtivo. Hoje em dia, o “cartão” vem sendo substituído em algumas organizações por outros sistemas de informação visual, como sinais luminosos, bolas coloridas, caixas vazias, locais demarcados e vazios, entre outros. A operacionalização do sistema Kanban foi realizada por Taiichi Ohno nos anos 1950, e esse sistema, no contexto da filosofia JIT, busca dar informações ao fornecedor da estação de trabalho de um processo produtivo sobre o que produzir, quando produzir, em que quantidade produzir e para quem produzir. Já no início dos anos 1970, a Mitsubishi Eletric company, ao co- nhecer e questionar o sistema Kanban, criou o Programa do Mínimo Inventário em Processo, que estabelece uma sequência de ações a serem executadas para dar suporte ao sistema Kanban, entre elas: • O programa 5S;• A manutenção produtiva total;• O controle e gestão dos processos; • A troca rápida de ferramentas; • Programa de capacitação de operadores polivalentes;• Técnicas para automatização;• Planejamento do fluxo para produção em pequenos lotes. O Kanban, que é a base da filosofia JIT, tem como objetivo maior não somente o controle de estoque das unidades envolvidas, mas o de gerenciar e controlar o fluxo de materiais entre as estações de trabalho ou unidades. Para isso, o controle dos lotes de produção é disciplinado pelos operadores.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 129 A aplicação do Kanban é eficaz nas linhas em que a demanda possui pequenas oscilações, promovendo a autorregulação. O mes- mo item de uma família só deverá ser produzido novamente após todos os outros itens terem sido produzidos, e esse nivelamento é um fator decisivo para o sucesso do processo, servindo de motiva- dor para a identificação de gargalos, desvios e situações críticas. Operacionalização do sistema Kanban A operacionalização do sistema Kanban ocorre por meio de uma sequência de ações apresentadas na Figura 3.24 e descritas a seguir: 1. A estação de trabalho 1 (ET1) recebe Kanbans da estação de trabalho 2 (ET2) e deve produzir somente o solicitado por meio dos Kanbans (A e B). 2. Ao chegar a ET1, o Kanban enviado por ET2 é armazenado no “painel de planejamento”, que delimita os limites de prioridade para a produção do item solicitado. 3. Ao concluir a produção do item solicitado, estes são colocados pela ET1 em um contêiner juntamente com o cartão que norteou a produção e encaminhados a ET2; FIGURA 3.24 Etapas do fluxo do sistema Kanban .
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    130 LEAN MANuFAcTuRINg 4. Quandoa ET2 recebe e utiliza os itens aqui tratados, o cartão é retirado do contêiner e encaminhando a uma “caixa de recolhimento de Kanbans”, para ser enviado novamente a ET1, reiniciando, assim, todo processo. O “cartão” Kanban deve ser feito de material resistente para suportar o contínuo deslocamento, ter informações precisas e ser de fácil visualização. Em um Kanban, é preciso especificar: • O nome do componente;• Descrição do componente;• Fornecedor e cliente;• Nível de reposição e de urgência;• Tempo de reposição ; • Número total de Kanbans em circulação;• Número de componentes a serem produzidos. O “painel de planejamento” tem como objetivo armazenar na ET1, em local visível, os Kanbans recebidos da ET2. cada item deve ter seus Kanbans alocados em uma única coluna, e o pai- nel deve indicar três níveis de prioridade para a produção, que são muitas vezes apresentados por cores: • Limite de normalidade (nível verde);• Limite de atenção (nível amarelo); • Limite de urgência (nível vermelho). O contêiner é o local onde os componentes são alocados e des- locados da posição fornecedor (ET1) para o cliente (ET2) e sua capacidade não pode ser elevada e precisa ser definida sempre com foco no nivelamento do fluxo de produção. A caixa de reco- lhimento de Kanbans é o local onde a ET2 deposita os Kanbans dos contêineres cujos itens foram utilizados. Essa caixa é esvaziada por um responsável, que encaminha os Kanbans para a ET1. Tipos de Kanban O sistema Kanban pode ser utilizado em vários estágios de um sis- tema produtivo, mas sempre utilizando a mesma base metodológica.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 131 Os mais conhecidos são os Kanbans de produção, de fornecedor e de transporte: • O Kanban de produção (Kp) é utilizado entre os processosprodutivos em um mesmo sistema; • O Kanban de fornecedor (Kf) é utilizado entre um fornecedorexterno e uma posição de estoque central; • O Kanban de transporte (Kt) é utilizado entre uma posição deestoque e uma linha de produção. Algumas organizações têm buscado na tecnologia meios para agilizar o sistema Kanban por meio de painéis e dispositivos au- tomatizados e monitorados por sistemas integrados apoiados por códigos de barras. Essa nova abordagem, em qualquer um dos tipos de Kanbans, vem sendo denominada Kanban Eletrônico. Objetivos do Kanban Além de ser um dos suportes principais para a filosofia JIT e estar associado à eficácia dos diversos outros sistemas ou métodos para a operacionalização do Lean Manufacturing (Figura 3.25), a FIGURA 3.25 Kanban e outras ações para Lean Manufacturing.
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    132 LEAN MANuFAcTuRINg aplicação eficazdo sistema Kanban tem vários objetivos específi- cos, entre eles: • O controle e nivelamento do estoque entre as estações detrabalho com a consequente redução de custos; • A redução dos lotes de produção;• A descentralização do controle da produção, dando maiorautonomia aos supervisores de linha e operadores; • A explicitação de problemas no fluxo de produção;• A possibilidade de um controle visual do fluxo produtivo. Dimensionamento do Kanban O dimensionamento do Kanban passa por três ações: • Definição da quantidade de Kanbans;• Definição da capacidade dos contêineres;• Identificação dos tempos envolvidos no processo. Esse dimensionamento está associado às características e especificidades do processo e ao objetivo da organização. O di- mensionamento não adequado pode ser responsável por diversos problemas: se em excesso, gera inventário; se abaixo do neces- sário, gera o desabastecimento, o que pode provocar a parada de linha. O número de Kanbans deve ser fixado a partir das ex- pectativas do cliente, das potencialidades do fornecedor e do ritmo de produção. A capacidade de um contêiner de determinado componente deve ser sempre a mesma e definida com o objetivo de garantir o nivelamento e a eficácia da produção, e os tempos envolvi- dos no processo do sistema Kanban podem ser identificados como : • Tempo de espera (Te); • Tempo de preparação (Tp); • Tempo de operação (To); • Tempo de movimento (Tm); • Tempo de resposta do sistema (Tr), ondeTr = Te + Tp + To + Tm.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 133 Apesar do empirismo utilizado com frequência para definição da capacidade dos contêineres e do número de Kanbans, algumas organizações utilizam uma lei de formação relacionando todas as variáveis envolvidas, ou seja: N(D/Q) Tr (1 Fs)=⋅ ⋅+ onde: N = Número de Kanbans D = Demanda do cliente Q = Quantidade de unidades por contêiner Tr = Tempo de resposta do sistema Fs = Fator de segurança do sistema O Sistema Kanban e o MRP O Material Requirents Planning (MRP) é um sistema de apoio à produção que possibilita determinar a quantidade, os tipos e em que momento os itens necessários devem estar à disposição da estação de trabalho. Para isso, o MRP utiliza os pedidos já realizados e uma previsão de pedidos que deverá receber, e seu foco é o gerenciamento e controle de todo o sis- tema produtivo. uma das limitações do Kanban é que ele deve ser utilizado em linha que tenham como característica a produção repetitiva e com baixa oscilação quanto à demanda. caso contrário, o MRP é o sistema mais adequado. Porém, a convivência conjunta de MRP e Kanban tem se mostrado eficaz, uma vez que aquele monitora o planejamento e controle da produção (PcP) em nível macro e este atua de maneira dominante nos processos de manufatura, gerenciando item por item, como mostra a Figura 3.26. N=(D/Q) × T
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    134 LEAN MANuFAcTuRINg Para verum exemplo da utilização do Kanbam, leia o caso or- ganizacional a seguir: FIGURA 3.26 Convivência entre os sistemas Kanban e MRP. CASO ORGANIZACIONAL: VOTORANTIM METAIS — CIA BRASILEIRA DE ALUMÍNIO: O MÉTODO KANBAN APLICADO À MANUTENÇÃO INDUSTRIAL Em meados de janeiro de 2009, o sistema Kanban foi implementado na fábrica da companhia Brasileira de Alumínio/Votorantim Metais na área de manutenção industrial, tendo como objetivo principal a melhoria dos resultados do processo de manutenção, auxiliando o planejamento e controle da manutenção (PcM) para aumentar a assertividade com relação à realização dos serviços programados. Originalmente desenvolvido na Toyota Motors, no Japão, e logo divulgado para seus fornecedores e para a indústria em geral, ele é para Votorantim Metais, acima de tudo, uma ferramenta de programação de compras e produção, e de controle de estoques, que permite Rodrigo Rocha Lourenço Sobrinho 1 4
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 135 implantar a filosofia JIT de produção em tempo hábil, sem estoquesdesnecessarios. Para aplicação na Votorantim Metais, o método Kanban foi adaptado à realidade da manutenção e aplicado nos centros de trabalho de manutenção onde existem as oficinas de manutenção, comespecialistas mecânicos e eletricistas. cada centro de trabalho possui um planejador, cuja função é elaborar um plano de trabalho semanal no sistema informatizado de manutenção, plano este que possui todas as ordens de serviços que os mecânicos/eletricistas deverão executar ao longo da semana. Para que todas essas necessidades planejadas fossem transmitidas às equipes de execução, foi utilizado o quadro Kanban de planejamento da manutenção. A Figura c12 apresenta o quadro em uma das áreas de manutenção na Votorantim Metais — cBA. O quadro possui a foto de todos os colaboradores mecânicos/ eletricistas que executam as atividades na referida área, e, como uma agenda, possui os dias da semana em que os serviços são programados. Após a elaboração do plano semanal de manutenção, o planejador, no dia anterior ao início da próxima semana, alimenta o quadro com FIGURA C12 Operacionalização do quadro Kanban de manutenção planejada. (Continua )
  • 131.
    136 LEAN MANuFAcTuRINg as ordensde manutenção. cada ordem de serviço é representada por um cartão no quadro, ou seja, o programador utiliza um pincel atômico para marcar em um cartão de acrílico o número da ordem a ser executada no referido dia. Os cartões seguem o padrão de três cores, as quais têm a função de sinalizar se os serviços estão no prazo ou se já estão em atraso conforme as cores: • Verde: o serviço foi programado dentro da semana vigente;• Amarelo: o serviço está atrasado em uma semana, ou seja, foiproveniente do plano da semana anterior; • Vermelho: o serviço está atrasado em duas semanas ou mais, ouseja, foi proveniente do plano da semana retrasada ou anteriores. Os mecânicos/eletricistas, por sua vez, retiram os cartões do quadro à medida que o serviço for concluído, registrando as observações e outras necessidades no sistema informatizado de manutenção. ESTRATÉGIA DO KANBAN DE PLANEJAMENTO NA MANUTENÇÃO Entre as estratégias do Kanban de planenjamento e manutenção, estão: • Envolver as áreas de manutenção, PCM e execução, na elaboraçãodos planos de trabalhos semanais; • Criar rotinas no planejamento a fim de alimentar o quadrosemanalmente; • Fornecer uma visão clara do plano e agenda de trabalho semanalpara a equipe de execução dos serviços; • Aproveitar ao máximo o número de homem-hora disponível paraexecução das tarefas durante a semana; • Aumentar o comprometimento das equipes de manutenção de área(minha foto, minha cara, meu trabalho); • Evidenciar possíveis pendências (cartões vermelhos que indicamproblemas para a execução) para garantir a execução de todas as tarefas programadas (rotinas de manutenção); • Identificar gargalos e necessidades de treinamento/capacitação daequipe. MELHORIAS OBTIDAS APÓS A IMPLEMENTAÇÃO DO KANBAN DE PLANEJAMENTO NA MANUTENÇÃO Entre as melhorias obtidas após a implementação, podemos destacar: • Aumento da quantidade de horas investidas em manutençãopreventiva em comparação a manutenção corretiva;
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 137 Milk RunO gerenciamento da cadeia de suprimento no que diz res- peito principalmente ao abastecimento das unidades de pro- dução, nos últimos 20 anos, vem sofrendo profundas mudanças quanto a conceitos, técnicas e métodos operacionais ou de gestão. um dos motivadores dessas mudanças tem sido a dinâmica evolução das tecnologias aplicadas ao setor e a globalização da produção, que têm possibilitado que um produto venha a ser con- cebido com peças ou componentes de diversas origens, cidades ou países, promovendo, assim, novos arranjos setoriais dinâmicos, o que exige novos métodos para o eficaz e ágil abastecimento das linhas de produção por meio dos deslocamentos de materiais, peças e componentes. Parcerias estratégicas e relações interfuncionais e interem- presariais — como redução e seleção criteriosa da cadeia de fornecedores, maior integração entre fornecedores e clientes, definição de indicadores de desempenho e metas comuns ou alinhados aos atores da cadeia de suprimento — são algumas das posições hoje adotadas para um mercado cada vez mais seletivo e competitivo. • Maior comprometimento das equipes com relação ao cumprimentodas rotinas de manutenção (planos e rotas de manutenção); • Maior comprometimento das pessoas com o processo manutenção;• Maior estímulo com relação ao trabalho em equipe; • Facilidade por parte dos gestores para supervisionar o trabalho dasequipes; • Maior comprometimento de todos os envolvidos na cadeia demanutenção. 14 Rodrigo Rocha L. Sobrinho é engenheiro mecânico pela universidade Federal de uberlândia (uFu) com MBA em gestão empresarial pela FgV. Atualmente, é coordenador de manutenção na Votorantim Metais.
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    138 LEAN MANuFAcTuRINg Henry Forde o abastecimento da linha de produção do Modelo T A primeira preocupação sistêmica com a gestão de suprimen- tos surgiu ainda no início do século XX, com o norte-americano Henry Ford, cujo método utilizado para a produção do Modelo T tinha como suporte o conceito de linha de montagem por meio de estações de trabalho. Para viabilizar economicamente e ope- racionalmente o seu método, Ford, além dos métodos e das ações para a movimentação dos produtos semiacabados e da busca da padronização dos produtos, criou novos conceitos para os fluxos in- ternos e externos de ferramentas, materiais, peças e componentes (veja a Figura 3.27). Para padronizar os produtos, Ford precisou criar um sistema de padronização de materiais, peças e componentes. Até então, no sistema de produção artesanal, em que a padronização do pro- duto final não era considerada, as peças e os componentes eram customizados e adquiridos de diversos fornecedores. A definição FIGURA 3.27 Cadeia de suprimento nos sistemas de produção artesanal e em massa.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 139 do formato da peça e de quem seria o fornecedor era feita caso a caso. com Ford, em sua linha de montagem padronizada, cada projeto passou a ter suas próprias peças, as quais passaram a ser adquiridas de fornecedores únicos e específicos. Essa ação foi determinante para a definição de várias características relativas ao transporte para o abastecimento eficaz da linha de produção do Modelo T, entre elas: • Melhor planejamento do abastecimento da linha;• Melhor seleção dos fornecedores;• Maior comprometimento do fornecedor;• Maior segurança da eficácia das peças e componente;• Melhor administração dos contratos. Assim, a padronização de peças e componentes, além de facilitar o gerenciamento do abastecimento, reduziu custos e facilitou o ajuste entre os diversos componentes do automóvel, aumentando a velocidade e a confiabilidade do processo. Muitas outras inovações para o eficaz abastecimento das linhas de produção seguiram as ideias introduzidas por Ford, e muitas — as mais notáveis — no setor automobilístico. Provavelmente, pelo fato de esse ser um setor de crescente competitividade, as indústrias são obrigadas a bus- car constantes inovações tecnológicas, operacionais e gerenciais, visando baixar custos, agregar valores ao produto final, aumentar rentabilidade e obter uma maior participação no mercado. Toyota e Cadeia de Fornecedores A Toyota, ainda nos anos 1960, inovou a relação com sua cadeia de fornecedores, e uma das primeiras ações foi trazer os forne- cedores fisicamente para próximos da sua linha de produção: os fornecedores satélites. Isso facilitou a movimentação das peças para o abastecimento da linha ou das unidades produtivas. Outra prática notável da Toyota, iniciada também nos anos 1960 e que vem, até hoje, apresentando excelentes resultados, tem sido a crescente integração com a rede de fornecedores no nível de infor- mações e conhecimento (Figura 3.28). Essa integração vem sendo alimentada pela Associação de Fornecedores (que tem o objetivo
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    140 LEAN MANuFAcTuRINg de trocade informações e benchmark), pelo grupo de consultoria (que é responsável por assessorias técnicas aos fornecedores por meio de consultores especializados vinculados à Toyota) e pelas Equipes de Aprendizado (que buscam repassar informações aos fornecedores por meio de seminários ou workshops). Novos arranjos produtivos e abastecimentos da linha de produção No final dos anos 1990, é implantado no Brasil um arranjo pro- dutivo pioneiro e inovador: o consórcio modular. Esse arranjo foi utilizado pela Volkswagen caminhões na cidade de Resende, no Rio de Janeiro, e fez um papel inicial de grande laboratório para o setor produtivo de todo o mundo. Esse conceito já havia sido utilizado parcialmente em uma montadora da VW em Skoda, na República Tcheca, para a produção do modelo Fenícia. O consórcio modular utiliza como conceito o outsourcing, 1 5 ao transferir de forma radical diversas ações que tradicionalmente deveriam ser realizadas pela VW para seus parceiros, que é o termo FIGURA 3.28 Relação da Toyota com seus fornecedores. 15 Outsourcing é a utilização por parte de uma organização, em atividades meios,de mão de obra fornecida por ortra organização, ou seja, uma subcontratação.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 141 usual quando se trata do tema. Inicialmente, a planta da VW cami- nhões em Resende (Figura 3.29) foi dividida em sete módulos ou subsistemas, cada um dirigido por uma empresa parceira, deno- minados de modulistas. Hoje, a citada planta, diante de mudanças realizadas, comporta outros módulos. No que diz respeito ao abastecimento da unidade de produção, há diversas inovações, motivadas pelo fato de os fornecedores, agora parceiros, modulistas, serem os responsáveis pela montagem do produto final, caminhões ou ônibus, e pelo abastecimento da unidade e linha de produção. Esse abastecimento, que antes no modelo fordista tinha como base uma relação com fornecedor baseada em contratos de curto ou médio prazo, passa a ser por uma parceria estratégica, exclusiva, que inclui ações operacionais na linha de montagem, de longo prazo entre a VW e seus modulistas; o método centralizado, e muitas vezes único, para o abastecimento dá espaço, a partir da autonomia dos modulistas, a métodos pró- prios e diversos, de acordo com as conveniências de cada parceiro. FIGURA 3.29 Layout inicial do consórcio modular da VW Caminhões.
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    142 LEAN MANuFAcTuRINg Assim, ométodo introduzido pela VW caminhões traz como resultado uma maior racionalização e diminuição da base de fornecedores diretos e, consequentemente, de um menor e mais confiável fluxo de abastecimento da produção e, também, um novo conceito de abastecimento da linha de produção com obrigações ampliadas, de montagem e fornecimento de módulos completos. Na trajetória da VW caminhões duas outras plantas, localizadas no Brasil, merecem ser referenciadas. A planta da gM em gravataí/ RS (condomínio industrial) e a planta da Ford em camaçari (con- domínio modular) (Figura 3.30). As observações sobre os abas- tecimentos das linhas de produção seguem as aqui já feitas ao modelo consórcio modular. Os novos arranjos produtivos motivaram a busca de métodos mais ágeis e confiáveis para o abastecimento das linhas de pro- dução. Tradicionalmente, os fornecedores eram os únicos res- ponsáveis pela entrega de peças e componentes à organização cliente, mas muitos foram os métodos que surgiram para fazer os FIGURA 3.30 Tipos de plantas dos sistemas de produção.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 143 insumos necessários chegarem à linha de produção com rapidez, confiabilidade e baixo custo. Principalmente nas organizações que vêm buscando a implantação do Lean Manufacturing, um dos principais tem sido o Milk Run, que será apresentado na sequência. Milk Run — um um sistema para abastecimento da linha de produção O Milk Run é um método que busca operacionalizar de maneira eficaz o suprimento de materiais em uma linha de produção. Esse método tomou por base a experiência das leiterias no recolhi- mento das “latas de leite” nas fazendas ou sítios todas as manhãs, onde os produtores colocavam “na porta da propriedade”, em local prederminado, em horário definido e em tipo de embalagens acordadas, a sua produção de leite diária destinada ao proces- samento pela indústria. um transporte da indústria de proces- samento passava nas diversas propriedades e recolhia a quantidade de leite previamente definida e o levava até a “linha de produção”. A Figura 3.31 compara o sistema tradicional de suprimento com o Milk Run. O sistema Milk Run chegou às indústrias e passou a ser uma opção para o melhor controle e eficácia no abastecimento de peças e componentes nas linhas de produção de muitas organizações de vários setores, e o setor automobilístico é hoje quem mais utiliza o citado método. com esse sistema, as organizações passam a ge- renciar e controlar todo o fluxo de materiais, peças e componentes com origem nos fornecedores, contribuindo de maneira eficaz para a filosofia JIT. As vantagens do sistema Milk Run são muitas, dentre elas: • Redução do custo de transporte ao otimizar a capacidade deveículo, controlar o tempo de carregamento e descarregamento do veículo e definir um roteiro adequado para buscar as peças nos fornecedores de acordo com as necessidades da organização; • Criação de condições para uma melhor gestão de estoque,com o aumento na frequência do abastecimento, com fluxo de abastecimento programado, com pequenos lotes e na
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    144 LEAN MANuFAcTuRINg quantidade necessáriaao consumo da linha de produção e com embalagens apropriadas (padronizadas e reutilizáveis); • Controle do fluxo de recebimento de peças e componentesno que diz respeito à hora e quantidade; FIGURA 3.31 Sistema de abastecimento tradicional e o Milk Run.
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    Capítulo 3 •Desenvolvendo Lean Manufacturing 145 • Redução do movimento de veículos externos dentro dasinstalações da organização. O sistema Milk Run (Figura 3.32), além de poder ser controlado pela organização, pode ser operacionalizado por um operador logís- tico a partir de um plano de produção definido pela indústria ou por uma transportadora, com roteiro e ações disciplinados pela indústria. A implantação do sistema Milk Run requer alguns cuidados, e, entre eles, alguns são prioritários: • Fluxo eficaz de informações entre organização focal efornecedores quanto aos períodos e quantidades de peças a serem fornecidas; • Disciplina e capacidade de gestão, operação e produçãodos fornecedores para o pleno atendimento nas entregas de materiais e peças de acordo com o planejado; • Localização dos fornecedores próximos a indústrias e roteiro defácil acesso; • Conhecimento, conscientizaçãoe concordância quanto ao novosistema por parte de todos os atores envolvidos no processo, seja da organização focal ou do fornecedor; FIGURA 3.32 Sistema Milk Run .
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    146 LEAN MANuFAcTuRINg • Existênciade plano para gerenciar imprevistos diante decondições externas alheias a indústria e aos fornecedores. Considerações finaisO sistema Lean, hoje amplamente utilizado no setor da manu- fatura, tem se apresentado como uma excelente alternativa para a melhoria da competitividade das organizações ao reduzir ou eliminar o que consome recursos, mas não agrega valor ao produto final em todas as etapas do fluxo produtivo. O modelo apresentado pelo autor para o entendimento do Lean Manufacturing e contem- plando oito ações para viabilizar o JIT, após a gestão e o tratamento dos processos, pode ser utilizado em sua totalidade ou de maneira parcial diante das características da organização e da especificidade de seus processos. Essa ações, bem como a filosofia Lean, pode ser levada para outros setores da economia, em particular a área de serviços, mas é preciso que setores como o de serviços, saúde, educação, entre outros deixem de lado o mito de que “suas áreas são diferentes” e que não podem aplicar técnicas utilizadas no setor industrial; é necessário que eles iniciem o processo de mudança buscando resultados competitivos a partir de indicadores globais. Em todos os setores organizacionais vivemos hoje a “Lei de Dar- win”, ou seja, somente as organizações mais aptas vão sobreviver no futuro próximo, e o conhecimento e a utilização, com as devidas contextualizações, dos métodos, sistemas e programas já testados por outras organizações são os meios que podem ajudar na busca da sobrevivência organizacional, com saúde, produtividade, com- petitividade e rentabilidade. E o sistema Lean, com seus princípios e suas ações, é um caminho seguro e com retorno garantido.
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