Artigo5

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Artigo5

  1. 1. SEXUALIDADE NA ESCOLA: DIRETO AO PONTO EM CONVERSAS COM ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO ANDRÉIA CARVALHO DA SILVA PACHECO DALVINHA MARTINS JANAÍNA DE MOURA JANICE CARVALHO DA SILVA RESUMO O presente texto apresenta os resultados do projeto de intervenção desenvolvido no programa “Gênero e Diversidade na Escola” da Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, que pretende identificar as construções culturais, as características socialmente atribuídas ao masculino e feminino e perceber as opiniões dos jovens sobre gênero e diversidade. Sabe-se que a discussão da sexualidade ainda não é realizada com muita facilidade no ambiente familiar, fazendo com que muitos adolescentes busquem orientação nos meios de comunicação ou com os amigos. É nesse momento que a orientação sexual na escola, através desse projeto, torna-se necessário e efetivo na busca de esclarecer diversos assuntos, promovendo assim, discussões sobre as relações afetivas e sexuais. Essas diversas formas de expressão são tidas como problemas e não como a vivência de sua sexualidade. Palavras-chave: Sexualidade. Tabus. Afetividade. Diversidade. ABSTRAC This paper presents the results of the intervention project developed on "Gender and Diversity at School" of Postgraduate Education at the Federal University of Mato Grosso, which aims to identify the cultural constructions, socially assigned characteristics to men and women and realize the opinions of young people on gender and diversity. It is known that the sexuality of the discussion is still not conducted very easily in the home environment, causing many teens seek guidance in the media or with friends. That's when sexual orientation at school, through this project, it is necessary and effective in seeking to clarify various issues, thus promoting discussions about the emotional and sexual relationships. These diverse forms of expression are seen as problems and not as the experience of their sexuality. Keywords: Sexuality. Taboos. Affectivity. Diversity.
  2. 2. INTRODUÇÃO Esse texto discute a sexualidade no âmbito escolar, levando em consideração que os adolescentes passam grande parte do dia na escola, local em que se socializam, tem os primeiros contatos sociais, o que integra parte do seu desenvolvimento como um todo. A escola passa, por vezes, a ser o lócus de sua maior interação com o mundo e com as pessoas que o cercam. No ambiente familiar se constrói a educação inicial, porém, é na escola que vários assuntos vem à tona; é na sua vida cotidiana que as curiosidades e interesses despertam, refletindo assim na escola, que tem a responsabilidade de formação afetiva e emocional dos seus alunos. 1 Professora na Escola Estadual 13 de Maio em Nova Guarita-MT, licenciada em Geografia pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul no ano de 2008. E quanto ao assunto sexo e sexualidade? Quem deve tomar a dianteira desse tema? É a família que deve educar de acordo com seus princípios e valores? Ou cabe a escola possibilitar essa aprendizagem? São muitas as dúvidas que atravessam também os educadores. Conforme Louro: Trata-se de uma tarefa educativa nada fácil, por isso a necessidade de ampliar a problematização na educação em torno das questões de gênero e sexualidade, pois a escola delimita espaços, utilizando-se de símbolos, e afirma o lugar dos grandes e dos pequenos, das meninas e dos meninos (LOURO, 1997, p. 58). A educação sexual é uma das funções que cabe a todos nós, educadores, que participamos ativamente no processo de ensino- aprendizagem, pois nossos adolescentes e jovens, sejam eles homens ou mulheres, possuem suas curiosidades, dúvidas, preocupações com o tipo físico, autoestima, prevenção, dentre tantos outros fatores que envolvem a sexualidade. O objetivo desse trabalho é identificar as construções culturais e as características socialmente atribuídas ao masculino e feminino; conhecer o significado afetivo e social da família, das diferentes relações de parentesco e da existência de vários modelos familiares; promover discussões sobre as relações afetivas e sexuais bem como entender e diferenciar gênero e sexo entre alunos e alunas do 3º Ano C do ensino médio da Escola Estadual 13 de Maio- Extensão Planalto. Ministro a disciplina de Geografia e Sociologia no Ensino Médio. Durante as aulas surgiam os mais diversos temas, principalmente voltados à sexualidade. O interesse maior em trabalhar esse tema no ambiente escolar, foi a partir do momento em que alguns alunos pediram para criarmos um grupo de conversa, no facebook ou whatsApp, na qual, pudéssemos falar dos mais variados assuntos. E sempre que tinham alguma dúvida ou mesmo os mais diversos conselhos, me procuravam para dialogar. As perguntas eram as mais variadas possíveis, algumas eram explícitas como, “fiquei com um cara e ele ejaculou nas minhas pernas, posso estar grávida?”, ou as mais frequentes, “Quando é o momento certo de perder a virgindade?”, “como tomar anticoncepcional?”. Sendo assim, percebi, que a maioria desses adolescentes não tinha um espaço de diálogo com os pais, havia medo e constrangimento da grande parte deles. Por isso, a partir dessa realidade, enxergamos esse tema como sendo crucial para esse momento formativo pessoal e para a própria relação profissional, pois auxiliará no processo de ensino-aprendizagem, identificando
  3. 3. tabus e preconceito referente à sexualidade, evitando comportamentos discriminatórios e intolerantes e analisando criticamente os estereótipos. REFERENCIAL TEÓRICO Nós queremos ser iguais ou diferentes? O que nos faz ser diferente do outro? O que nos faz ser igual ao outro? Existe igualdade? Existe diferença? Várias são nossas indagações a respeito da diversidade. Portanto, não podemos iniciar essa discussão sem o conceito de diversidade. Sacristán (2002) afirma que o conceito de diversidade está relacionado com as aspirações dos povos e das pessoas à liberdade para exercer sua autodeterminação. Está ligado à aspiração de democracia e à necessidade de administrar coletivamente realidades sociais que são plurais e de respeitar as liberdades básicas. Em todo o ambiente em que convivemos - educacional ou social - observamos as diferenças e semelhanças do outro. Mesmo que não falemos, nós pensamos nas suas qualidades, defeitos, valores, aparência física, entre outros. Entretanto, fica mais “aceitável” e menos “estranho” quando o outro se assemelha ao meu tipo de cultura, sendo assim, a diversidade é relacionada a cultura de cada individuo. Falar da diversidade cultural no Brasil significa levar em conta a origem das famílias e reconhecer as diferenças entre os referenciais culturais de uma família nordestina e de uma família gaúcha, por exemplo. Significa, também, reconhecer que, no interior dessas famílias e na relação de umas com as outras, encontramos indivíduos que não são iguais, que têm especificidades de gênero, raça/etnia, religião, orientação sexual, valores e outras diferenças definidas a partir de suas histórias pessoais. (BRASIL/MEC/SECAD, 2009, p.23). A diversidade também é uma cultura que foi – e ainda é - construída ao longo dos anos e representa uma forma de planejar e se organizar em sociedade. Para isso devemos ter claro o respeito aos direitos humanos, sendo um dos princípios fundamentais para o reconhecimento da diversidade e, a escola, passa a ser protagonista desse processo na forma da inclusão, porém a diversidade não se resume a isso a diversidade não busca migalhas, mas vinculada à justiça social. A diversidade e cidadania devem andar juntas para a construção de uma proposta (projeto) inclusiva que respeite (a diversidade) e garanta sua realização (implementação), pois se trata de uma política educacional para a diversidade,, concebido (gerada) pelas diferenças de classe social, capacidades, etnia, orientação sexual, identidade pessoal, a fim que definam a condição do ser humano na cultura e na sociedade. O desenvolvimento de atitudes de tolerância e respeito à diversidade tem a ver com o direito à educação, o direito à igualdade de oportunidades e o direito à participação na sociedade. Por isso mesmo, representa um grande desafio a ser enfrentado pelos sistemas de ensino na construção das suas bases político- pedagógicas (BERALDO, 2003). Aqueles sujeitos que fazem parte daqueles que formam a “norma” social, aqueles que compõe o vasto grupo que chamamos “Diversidade” são injustiçados, mas não uma injustiça individual, mas sim coletiva. Nesse cenário, a escola é um dos primeiros contatos com a diversidade, na construção
  4. 4. do saber e do ser, sendo assim Georges Gusdorf(2003) aponta que: Na escola, no colégio, na universidade, em todas as instituições que têm por função ministrar o saber, a criança, o jovem, passa por experiências que serão decisivas em suas vidas. Esses locais não são, para eles, simplesmente o cenário de certos jogos de inteligência e da memória. É a personalidade inteira que aí faz seu aprendizado; sensibilidade, caráter, vontade aí são postos à prova e a aquisição de conhecimentos surge agregada à tomada de consciência dos valores (GUSDORF, 2003 p. 17). Essa abordagem nos leva a refletir sobre a importância da escola no processo educativo, que exige dos educadores atitudes pautadas na diversidade, a fim de instruir cidadãos que respeitem os direitos humanos, que não veja a diferença com discriminação e desrespeito. É no ambiente escolar que crianças e jovens podem se dar conta de que somos todos diferentes e que é a diferença, e não o temor ou a indiferença, que deve atiçar a nossa curiosidade. [...] é na escola que crianças e jovens podem ser, juntamente com os professores, promotoras e promotores da transformação do Brasil em um país mais respeitoso, orgulhoso e disseminador da sua diversidade.(BRASIL/MEC/SECAD, 2009, p. 35). Nesse sentido a escola não pode ficar omissa a esta responsabilidade em formar cidadãos também para a vida, pois as inúmeras dificuldades na atualidade são os inúmeros preconceitos, sejam eles étnicos, de gênero, de orientação, entre outros. Compreendemos que não se faz uma educação de qualidade sem uma educação cidadã, uma educação que valorize a diversidade. Reconhecemos, porém, que a escola tem uma antiga trajetória normatizadora e homogeinizadora que precisa ser revista. O ideal de homogeinização levava a crer que os/as estudantes negros/as, indígenas, transexuais, lésbicas, meninos e meninas deveriam se adaptar às normas e à normalidade. Com a repetição de imagens, linguagens, contos e repressão aos comportamentos “anormais” (ser canhoto, por exemplo) se levariam os “desviantes” à integração ao grupo, passando da minimização à eliminação das diferenças. (defeitos). E o que seria normal? Ser homem-macho? Ser mulher feminina? Ser negro quase branco? Ser gay sem gestos “afetados”? Espera-se que o discriminado se esforce e adapte-se às regras para que ele, o diferente, seja tratado como “igual”. Nessa visão, “se o aluno for eliminando suas singularidades indesejáveis, será aceito em sua plenitude” (Castro, 2006, p 217). Em nossas escolas ainda temos profissionais que preferem ocultar o assunto a ter que discutir sobre ele. O aluno “diferente” trás problemas. Como esclarece Louro (2003), “talvez seja mais produtivo para nós, educadoras e educadores, deixar de considerar toda diversidade de sujeitos e de práticas como um „problema‟ e passar a pensá-las como constituinte do nosso tempo” (LOURO, 2003, p. 51). Nesse caso a escola tem um instigante desafio, onde todos tenham o direito de se expressar e de se relacionar e, se tratando da espécie humana, devemos entender que é complexa e resta a nós, educadores, tentarmos sensibilizar os educandos quanto às ideias dogmáticas, preconceituosas, excludente e “normatrófica”. O estereótipo funciona como um carimbo que alimenta os preconceitos ao definir a priori quem são e como são as pessoas. Sendo assim, o etnocentrismo se aproxima também do preconceito, que, como diz a palavra, é algo que vem antes (pré) do conhecimento (conceito), ou seja, antes de conhecer já defino “o lugar” daquela pessoa ou grupo. Um outro significado da palavra “conceito” é juízo e, sendo assim, preconceito seria “prejuízo” para quem o sofre, mas também para quem o exerce, pois
  5. 5. não entra em contato com o outro e/ou a outra.(BRASIL/MEC/SECAD, 2009, p. 27). De acordo com o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. (Declaração dos Direitos Humanos Art. 1º). Quando falamos em sexualidade, diretamente ligamos ao tema gravidez na adolescência, métodos contraceptivos, puberdade, entre outros, porém nos esquecemos de que existem temas mais complexos e abrangentes, como, orientações sexuais, preconceitos, discriminações e as diversas dúvidas que rondam as cabeças de nossos adolescentes, antes mesmo dessa fase. Para falar desses assuntos os coordenadores pedagógicos pedem auxilio de uma enfermeira local ou a professores de Ciências biológicas que, muitas vezes, não correspondem aos anseios desses adolescentes, pois a sexualidade aguçada nos é exposta de diferentes formas. No cotidiano escolar, a sexualidade esta presente nas mais variadas formas: nos pressupostos acerca da conformação das famílias, dos papéis e do comportamento de homens e mulheres; nos textos dos manuais e nas práticas pedagógicas; em inscrições e pichações nos banheiros e nas carteiras; em olhares insinuantes que buscam decotes pernas, braguilhas e traseiros; em bilhetes apaixonados e recadinhos maliciosos; em brincadeiras, piadas e apelidos que estigmatizam os rapazes mais “delicados” e as garotas mais “atiradas”, etc. (BRASIL/MEC/SECAD, 2009, p. 116). Porém, essas diversas formas de expressão são tidas como problemas e não como a vivência de sua sexualidade. Diante desses casos é muito importante que o/a educador/a compreenda o significado da sexualidade como processo histórico e cultural, combatendo as ideias dogmáticas e preconceituosas. [...] “a vivência da sexualidade faz parte da identidade da pessoa e deve ser compreendida em sua totalidade. [...] homossexuais, bissexuais e pessoas “trans”, têm as mesmas possibilidades e capacidades que heterossexuais para amar, estabelecer relações afetivas a criar filhos – o que equivale a dizer que essas práticas não podem ser questionadas em razão de sua homoafetividade ou da sua identidade de gênero” (BRASIL/MEC/SECAD, 2009, p. 127). Muitas dessas observações preconceituosas são decorrentes do século XIX, quando a sexualidade diferente da normalidade (o heterossexual) passou a ser vista como doença e a imagem do sexo para procriação, pregada no século XVII, volta a ser uma regra e tudo que fosse ao contrário dela era vista como sem-vergonhice, perversão e eram tratados como se tivessem problemas e desvios. Sendo assim, “A sexualidade é mais do que uma função procriativa, e sim, um depositório de anseios, frustrações e poder ou fonte máxima de prazer” (VASCONCELOS, 1994, p.20). A sociedade, ainda pensando de maneira machista, cristã e heterossexual, impõe regras que julga adequadas normatizando os comportamentos ou orientações sexuais. [...] A sociedade envolve um processo contínuo, e não linear, de aprendizado e reflexão por meio do qual, entre outras coisas, elaboramos a percepção de quem somos. Esse é um processo que se desdobra em meio a condições históricas, sociais, culturais específicas. Nascemos dotadas e dotados de determinadas capacidades biológicas. Todo o resto se constrói e vai se formando ao longo da vida. Por isso, as expressões da sexualidade humana são tão diversas” ( BRASIL/MEC/SECAD, 2009, p. 115). Portanto, não cabe a ninguém julgar, criticar, nem ao menos condenar uma pessoa por ter um comportamento ou uma orientação fora
  6. 6. dos padrões impostos pela sociedade. [...] o termo orientação sexual veio substituir a noção de opção sexual, pois o objeto de desejo sexual não é uma opção ou escolha consciente da pessoa, uma vez que é resultado de um processo profundo, contraditório e extremamente complexo de constituição, no decorrer do qual cada indivíduo é levado a lidar como uma infinidade de fatores sociais, vivenciando-os, interpretando-os, (re) produzindo e alterando significados e representações, a partir de sua inserção e trajetória social específica (BRASIL/MEC/SECAD, 2009, p. 40). Assim como não escolhemos preferir um alimento salgado ou doce, amargo, seco, úmido, assim é a orientação sexual, ninguém escolhe ter desejo, apenas se tem, porque o desejo atravessa, por isso devemos respeitar as pessoas com interesses diferentes das ditas “normais”, baseando nos princípios de respeito à dignidade combatendo o preconceito e discriminação. Quanto a nós, educadores: Teríamos que nos perguntar como nós que clamamos por justiça, pelo fim de preconceitos e violência estamos, mesmo sem saber, envolvidos com aquilo contra o que procuramos lutar. Não podemos perder de vista que intervenções centradas, única ou principalmente, em nossas boas intenções pedagógicas ou no poder genericamente redentor da educação costumam contribuir para reproduzir o quadro de opressão contra o qual nos batemos. Em outras palavras, com frequência, colocamos nossas boas intenções e nossa confiança em uma educação (Diversidade Sexual na Educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas, p. 12-13, 2009). Embora identifiquemos onde está o problema, ainda somos uma mínima parcela de educadores que se sentem preparados a lidar com o assunto em sala de aula, pois, nos deparamos todos os dias com atitudes de preconceito, entretanto, através de algumas ações diárias podemos – e devemos - sensibilizar os educandos e mostrar que ser diferente é normal. De acordo com as abordagens aqui pré-definidas, acredito que, respeitar a diversidade de valores, crenças e comportamentos relativos à sexualidade, reconhecendo as diferentes formas de orientação sexual, o direito à expressão e garantir a dignidade do ser humano independentemente de seu estereótipo é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa. REFERENCIAL METODOLÓGICO O projeto de intervenção Sexualidade na Escola: Direto ao ponto foi realizado nas dependências da Escola Estadual 13 de Maio- Extensão Planalto, no município de Nova Guarita-MT, com alunos do 3º Ano C do ensino Médio, que é constituído por 13 meninas e 08 meninos, com idade de 16 a 20 anos. A duração desse projeto de intervenção foi de aproximadamente 4 horas, iniciou-se com a explanação do projeto de intervenção, posteriormente foi feito a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e assinado por todos os envolvidos. A metodologia utilizada foi exposição de imagens pré-selecionadas na rede mundial de computadores sobre a sexualidade e a diversidade. Na sala de aula é comum ouvir: “esse é mulherzinha”, “ que gay”, “meninas não podem brincar, é brincadeira de menino”, “o castigo é entrar no banheiro
  7. 7. das meninas”, esses comentários refletem a realidade local, por isso, esse projeto, explorou essas falas e as ideias pré-concebidas que os tangenciam. Ao longo da exposição os e as estudantes foram estimulados a escreverem a respeito das imagens em um papel enumerado de acordo com a ilustração das mesmas. Após os registros das imagens, conclui-se a atividade com a reflexão e discussão das mesmas associando a realidade vivenciada pelos alunos e alunas. Os recursos utilizados foram papéis e canetas (para os relatos), data show e notebook (para ilustração das imagens) e caixa de som (vídeo). RELATOS DA INTERVENÇÃO A intervenção teve início com entrega de nove papéis em branco para cada aluno, enumerados de 1 a 9. Na sequência foi utilizado o projetor para ilustrar 8 imagens e 1 vídeo, na qual os alunos fizeram a análise e escreveram o que entenderam, se concordavam, discordavam e suas contribuições. O tempo determinado era de 8 minutos para cada imagem, sendo 3 minutos de observação e 5 minutos para as anotações. A primeira imagem (abaixo) é de três banheiros identificados como: boy (menino), girl (menina) e other (outro). Eu escolhi devido a alguns problemas na escola, como o fato de um menino em um banheiro identificado como para mulheres tornar-se motivo de piadas e nas brincadeiras, frequentemente um empurra o outro para dentro. A maioria dos alunos, não concordam com três banheiros diferentes, pois, o gênero é feminino e masculino, independente de sua orientação sexual. Esse assunto tem sido recorrente nos debates sobre gênero e sexualidade na escola e cada vez mais está presente no âmbito escolar. Alguns dias antes da aplicação desse projeto de intervenção um garoto com sua orientação sexual “assumida” foi ao banheiro masculino e alguns meninos não o deixaram entrar, quando o mesmo se dirigiu ao banheiro feminino o fato se repetiu. Esse acontecimento foi motivo de grande discussão no âmbito docente da escola, fato que repercutiu em toda comunidade escolar. Imagem 1- Banheiros para meninas, meninos e outros.
  8. 8. Fonte: http://4.bp.blogspot.com/- xj21bwgRZg/VQ9mUL4zG8I/AAAAAAAANJ8/Ta3JhPyWJ4k/s1600/TheCissy- 00048.png. Acesso em Agosto de 2015. Já a minoria dos estudantes relatou que sentiria mal em entrar no banheiro masculino, e ser surpreendido por um travesti. Os demais disseram que concordam com um terceiro banheiro, pois, quem tem orientação sexual “diferente”, pode utilizá-lo mais a vontade e sem preconceitos. A imagem 2, (abaixo) refere-se ao uniforme escolar, onde a cor do uniforme identifica os meninos e meninas. O uniforme de cor azul é usado pela maioria dos meninos (exceto duas meninas) e o uniforme rosa usado somente pelas meninas. Escolhi essa imagem com intenção de mostrar uma realidade da escola, que foi adotada alguns anos e, mesmo que alguns meninos utilizem também o uniforme rosa, a cor para diferenciação de gênero ainda é muito utilizada. Em relação aos relatos, todos os alunos discordam com essa divisão de “sexos” pelas cores, acharam ainda que “essa ideia é antiga, ultrapassada” e “cor não define sexo”, cada um utiliza a cor que quiser, pois nem a roupa e nem a cor definem sua personalidade. Outro relato preocupante diz: “provavelmente essas meninas que usam o uniforme azul serão lésbicas”. O filme “Minha vida cor de rosa”, relata a história de um garoto que chega a uma festa que seus pais oferecem aos vizinhos do bairro para onde mudaram recentemente, na qual, aparece maquiado e com um vestido de princesa. Para disfarçar o constrangimento, seus pais alegam tratar-se de uma brincadeira e dizem que o menino é "ótimo em disfarces". Quando questionado por eles, em separado das visitas, sobre o motivo de ter se vestido daquela maneira ele responde que era para "ficar bonita", se expressando também verbalmente no gênero feminino, sendo duramente criticado pelos pais, que o obrigam a mudar de roupa. Nesse caso a intolerância ao comportamento, considerado inadequado, inicia em sua própria família, que tem problemas para lidar com aquele filho que é tão diferente dos demais. Nossa sociedade tem grandes dificuldades em aceitar e conviver diretamente com tudo aquilo que é diferente dos padrões estabelecidos. Imagem 2- Uniforme escolar para meninos e meninas
  9. 9. Fonte: http://f.i.uol.com.br/folha/folhinha/images/12319404.jpeg. Acesso em Agosto de 2015. A imagem 3, refere-se a um beijo homossexual (entre dois homens), a mesma causou impactos e espanto, as palavras mais pronunciadas foram: “que nojo”, “nossa que desperdício”, “meu Deus”, “que pecado”. A escolha desta imagem é porque se trata de assunto atual, polêmico e presente na mídia. A maioria dos relatos mostraram-se favoráveis ao relacionamento com pessoas do mesmo sexo, além de mostrarem respeito e uma crença numa união de respeito e amor, porém três relatos me chamaram a atenção: “Não concordo. Não interfiro, mas não é natural, é coisa SOBRENATURAL e contra os princípios de Deus. Penso que o mundo esta acabando e os demônios estão reinando no mundo”, “diante da lei de Deus é errado homem com homem ou mulher com mulher, mas no nosso dia-a-dia é comum imagens como essa. Então ninguém respeita mais as leis de Deus”, “os homens travesti, perdem a vergonha, pois são contra a Deus, Deus fez o homem para mulher e a mulher para o homem e o casamento”. [...]a melhor forma de respeitar a diversidade de credos religiosos. De forma alguma a educação pretende interferir com as crenças de sujeitos ou grupos, mas evitar que elas se transformem em ações anti-democráticas, anti-direitos humanos, antiliberdade de pensamento e de ação, e, enfim, anti-espiritual, já que o espírito se perde no meio de tantas normas de comportamento, arrecadação de dinheiro e shows coletivos de lavagem cerebral. (BARBERO, 20015, p. 05). Podemos perceber então que a religião ainda domina a mente de algumas pessoas e que a ideia de casamento ideal é o heterossexual. Imagem 3- Beijo Homossexual
  10. 10. Fonte: http://cdn.revistadonna.clicrbs.com.br/wpcontent/uploads/sites/5/2015/08/20150320172 228519382e.jpeg. Acesso em Agosto de 2015. A imagem 4 (abaixo) refere-se às brincadeiras, roupas e dança de meninos e meninas. Escolhi essas imagens por se tratarem de uma realidade presente em casa, na qual, desde pequenos, os pais delimitam os brinquedos de meninas e de meninos. Um fato que está cada vez mais natural e alvo dos meios de comunicação é a escolha do brinquedo. Uma das matérias que me chamaram atenção foi a de um pai que leva o seu filho para comprar um brinquedo e o mesmo escolhe uma boneca. A princípio o pai estranhou a escolha do filho, porém adquiriu o brinquedo e respeitou sua escolha, contudo, se essa criança chega na escola com esse brinquedo pode repercutir em preconceito, pois é no ambiente escolar que a distinção de sexo é bem aparente, e o olhar preconceituoso não permite fazer diferentes análises, como, “o menino que esta brincando de boneca, pode ser um ótimo pai que ajudará sua esposa nas tarefas de casa e no cuidado com os filhos”, e a menina brincando de carrinho, sempre ouvimos dizer que lugar de mulher pilotar é no fogão, “porque as mulheres não podem optar a ser motorista?” Imagem 4- Crianças brincando (meninos com bonecas e meninas com carrinhos)
  11. 11. Fonte:http://naescola.eduqa.me/wp-content/uploads/2015/05/igualdade-genero-escolas- 4.jpg; Acesso em Agosto de 2015. Os relatos em sua maioria apoiam a ideia de que, “quando criança o que vale é a diversão, os brinquedos não definem o sexo”, “o menino brincando de boneca poderá ser um ótimo pai e a menina uma ótima taxista”, “as crianças são inocentes e não veem maldade nos brinquedos, os adultos que impõem o que é de menino e de menina”. Essa imagem causou espanto aos meninos, gerando comentários como, “ih esse vai ser boiola”, “gayzinho”, “frutinha”, porém às meninas não causou estranhamento. A imagem5, é relacionada a um casal heterossexual, escolhido por se tratarem de um casal dito “normal” e pela afetividade. A maioria dos comentários foram: “ai que fofo”, “ai sim”, “agora esta certo”, “assim que Deus fez”, “ai que romântico”. Todos os relatos foram unânimes: “Normal, é assim que deve ser, homem e mulher, apaixonados, prontos para formar uma família e serem felizes”. Imagem 5- Casal heterossexual Fonte: http://007blog.net/wp-content/uploads/2013/01/Casal-apaixonado1.jpg; Acesso em Agosto de 2015. A imagem 6 (abaixo) refere-se a uma propaganda de cerveja, que assim como a maioria, trás consigo a mulher. Essa imagem foi escolhida pelo duplo sentido, o primeiro pela apologia ao uso do álcool e, depois, ao sexo, trazendo igualdade e normatividade entre ambos. Os relatos sobre a imagem pela maioria dos alunos teve triplo sentido, “o primeiro de consumir álcool, o segundo de atrair as vendas pela linda mulher e o terceiro pela perca da virgindade, denigrindo assim a imagem da mulher e estimulando o sexo”. Imagem 6- Propaganda de cerveja
  12. 12. Fonte: http://paginadoenock.com.br/wp-content/uploads/2013/08/aline-moraes- devassa.jpg; Acesso em Agosto de 2015. A imagem 7 (abaixo), representa as diferentes formações familiares e foi escolhida especialmente por demonstrar que a formação familiar pode existir independente de raça/etnia ou sexo. Os relatos esclarecem que a formação familiar pode ocorrer independentemente do sexo entre os pais, “muitas famílias heterossexuais deixam a desejar na atenção e carinho que uma criança precisa, assim como um casal homossexual também pode fazer. Porém a casais homossexuais que podem fazer muito mais por um filho do que um casal heterossexual”. Alguns relatos foram preocupantes, alguns dizem: “não concordo, pois um casal homossexual adota um filho para dizer que constrói uma família, para não admitir que são errados, para dizer que tem, família constituída e permanecerem no erro”, “não concordo família tem que ser formada por pai, mãe e filhos, que mente essa criança vai ter? Vai virar chacota na escola e nas ruas”, “ errado, filho tem que ser de sangue”. Imagem 7- Constituição familiar homossexual e heterossexual
  13. 13. Fonte: http://blog.wp8.com.br/img/fotos/131/131_principal.jpg; Acesso em Agosto de 2015. A Imagem 8 relata o casamento homossexual (abaixo), escolhida por ser um tema muito complexo e gerador de polêmicas. Somos frutos de uma sociedade machista, na qual, o casal heterossexual é o modelo “normal”' de um casamento perante a lei. Ao pesquisar a respeito da violência contra a mulher, me deparei com números de casos assustadores, se o ''normal'' é ser heterossexual por que não se respeitam? Porque há tantos casos de violência entre casais? Os relatos foram semelhantes, porém com algumas ressalvas, alguns disseram que “se o casamento heterossexual existe o homossexual também deve existir, os direitos são iguais”, “outros acreditam que a felicidade esta em primeiro lugar que é isso que eles querem todos devem respeitá-los”, “sou a favor no cartório na igreja não”, “Não concordo, o primeiro casamento que Deus fez, foi entre Adão (homem) e Eva (mulher) é assim que tem que ser”, “certo não é, mas cada um tem um gosto”. Imagem 8- Casamento Homossexual Fonte: http://br.jetss.com/wp-content/uploads/2015/05/daniela1.jpg. Acesso em Agosto de 2015. Ao final das imagens, foi passado um vídeo “O amor não tem rótulos” (https://www.youtube.com/watch?v=pgqvgXA-pV8) com duração de 3:18 (três minutos e dezoito segundos). Cada participante do projeto pode fazer relatos sobre o que o vídeo dizia. Eu o escolhi principalmente pelo nome, pois chama muito a atenção e, em segundo, por demonstrar que independente da raça/etnia, religião, sexo, todos nós podemos viver em paz e respeitar as diferenças. Em relação ao vídeo, prevalece o “AMOR”, as mesmas pessoas que antes julgavam as imagens e atitudes, ao assistirem o vídeo perceberam que para o amor não há limites e sim respeito, segue alguns relatos: “O vídeo mostra que o amor existe de diferentes formas, no casal heterossexual e homossexual, nos amigos, família, que não há distinção de raça e nem religião, mostra o amor e a felicidade no outro”, “Não gostei, diante da mídia tudo é normal, a mídia sempre impõe o novo como normal, mas os religiosos não aceitam”, “o vídeo mostra
  14. 14. que nós julgamos as pessoas porque as conhecemos, quando todos se abraçavam atrás do telão era tudo normal, quando você passou a ver a realidade, olhares preconceituosos reinaram”. Depois dos relatos fizemos uma mesa redonda, onde, foi esclarecido o conceito de gênero e sexo. Conceituar Gênero e sexo, o significado afetivo e social da família, das diferentes relações de parentesco e da existência de vários modelos familiares. Cada aluno pôde expressar novamente seus anseios, dúvidas e opiniões diante das imagens e de demais assuntos considerados “Tabus”. Alguns alunos se confundiam nas respostas, outros acreditavam no erro e outros manifestaram-se tendo a religião como embasamento “científico”. Entretanto todos entenderam a essência da diversidade e do respeito ao próximo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com esse projeto de intervenção percebi que a “não aceitação” do outro, relacionado à diversidade sexual e os tabus sexuais, está mais voltado a falta de informação do que o um pré-conceito formado a partir de relatos de “rua”. Constatei a necessidade que os educandos tem de falar do “eu”, das necessidades, anseios e dúvidas sobre a sexualidade. A partir desse projeto iniciamos com um grupo no WhatsApp formado somente por meninas de 15 a 17 anos, chamado “Papo calcinha”, solicitado por elas, em que se conversa sobre as experiências do dia a dia, uso de métodos contraceptivos, virgindade, namoro, amizade, preconceito, enfim, são tratados não só assuntos sobre sexualidade, mas também sobre as dúvidas e preocupações mais simples, como se portar diante novas amizades e até em relacionamentos com a família, trocas de experiências. Nesse grupo um ajuda o outro a solucionar os mais diversos problemas. Sinto-me lisonjeada por ter sido escolhida dentre tantos profissionais para contribuir em ações significativas, pois falar do “eu”, anseios, desejos, curiosidades não é comum, ainda mais para uma professora, que para maioria dos alunos, é aquela que vai repreender e corrigir o tempo todo e não contribuir para sua vida pessoal. O grupo teve uma repercussão excelente, tanto é que até mesmo os meninos nos procuraram para participar do grupo. Nesse caso percebi que as dúvidas, sejam elas das mais simples até as mais complexas, os preocupava diariamente. Esse trabalho foi apresentado em Sala de Educador (Projeto elaborado pela SEDUC/MT- Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso que visa a formação da/na unidade escolar que objetivando fortalecer a escola como lócus de formação continuada) e possibilitou muito debate, participação e interação entre os demais profissionais da escola, surgindo assim a ideia de dar continuidade ao grupo de forma presencial, uma vez por mês nas dependências da escola, a fim de fortalecer o diálogo, convivência e participação dos alunos.
  15. 15. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL/MEC/SECAD- Gênero e Diversidade na escola- Formação de professoras/es em Gênero, Sexualidade, Orientação Sexual e Relações Étnico-raciais pág. 2009. BERALDO, Flávia Nunes de Moraes. Sexualidade e escola: espaço de intervenção.Psicol. Esc. Educ. (Impr.), Campinas , v. 7, n. 1, p. 103-104, June 2003 . Available from . Acesso em 09 Sept. 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S1413- 85572003000100012. CASTRO, M.G., Gênero e Raça: desafios à escola. In: SANTANA, M.O. (Org) Lei 10.639/03 – educação das relações étnico-raciais e para o ensino da história e cultura afrobrasileira e africana na educação fundamental. Pasta de Texto da Professora e do Professor. Salvador: Prefeitura Municipal de Salvador, 2006. GUSDORF, Georges. Professores para quê? São Paulo: Martins Fontes, 2003. JUNQUEIRA, Rogério Diniz (org.). Diversidade Sexual na Educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO, 2009. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, Sexualidade e Educação: Uma perspectiva pósestruturalista. 2ª edição. Rio de Janeiro: Vozes, 1997. MATO GROSSO. Secretaria de Estado de Educação. Orientações Curriculares: Diversidades Educacionais. Cuiabá: Gráfica Print, 2012.

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