PSICOPATOLOGIA II: Aula 04 (CID-10 - F10 a F19)

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PSICOPATOLOGIA II: Aula 04 (CID-10 - F10 a F19)

  1. 1. Curso de Psicologia Disciplina: Psicopatologia II (72 hs/aula) Período: 6o Professor Alexandre Simões
  2. 2. Tema: NOSOGRAFIA PSICOPATOLÓGICA: CID-10 (F10 a F19): Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa
  3. 3. Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa (F10 a F19): Este agrupamento compreende numerosos transtornos que diferem entre si pela gravidade variável e por sintomatologia diversa, mas que têm em comum o fato de serem todos atribuídos ao uso de uma ou de várias substâncias psicoativas. O terceiro caractere do código identifica a substância implicada e o quarto caractere especifica o quadro clínico. Os códigos devem ser usados, como determinado, para cada substância especificada, mas deve-se notar que nem todos os códigos de quarto caractere podem ser aplicados a todas as substâncias. Inclui: intoxicação, dependência, abstinência e quadros mentais causados por várias substâncias: álcool, maconha, cocaína, cafeína, alucinógenos, fumo, “cola” etc.
  4. 4. Numerosos usuários de drogas consomem mais de um tipo de substância psicoativa. O diagnóstico principal deverá ser classificado, se possível, em função da substância tóxica ou da categoria de substâncias tóxicas que é a maior responsável pelo quadro clínico ou que lhe determina as características essenciais
  5. 5. Este agrupamento contém as seguintes categorias de três caracteres: F10 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool F11 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de opiáceos F12 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de canabinóides F13 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de sedativos e hipnóticos F14 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso da cocaína F15 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de outros estimulantes, inclusive a cafeína
  6. 6. F16 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de alucinógenos F17 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de fumo F18 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de solventes voláteis F19 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de múltiplas drogas e ao uso de outras substâncias psicoativas
  7. 7. As subdivisões seguintes de quarto caractere devem ser usadas com as categorias F10-F19: (F1x.0) Intoxicação aguda (F1x.1) Uso nocivo para a saúde (F1x.2) Síndrome de dependência (F1x.3) Síndrome [estado] de abstinência (F1x.4) Síndrome de abstinência com delirium (F1x.5) Transtorno psicótico (F1x.6) Síndrome amnésica (F1x.7) Transtorno psicótico residual ou de instalação tardia (F1x.8) Outros transtornos mentais ou comportamentais (F1x.9) Transtorno mental ou comportamental não especificado
  8. 8. Tabela de classificação das substâncias psicoativas: As substâncias psicotrópicas agem no sistema nervoso central, produzindo alterações de comportamento, humor e cognição. De acordo com a ação destas no organismo, temos a seguinte classificação tripla (proposta pelo pesquisador francês Chaloult): # Drogas estimulantes do sistema nervoso central; # Drogas depressoras do sistema nervoso central; # Drogas perturbadoras do sistema nervoso central;
  9. 9. Drogas estimulantes do sistema nervoso central: • Estas substâncias aumentam a atividade cerebral, uma vez que imitam ou cooperam com os neurotransmissores estimulantes do organismo (como a epinefrina e dopamina). Assim, dão sensação de alerta, força, autonomia, invulnerabilidade, disposição e resistência, mas que, ao fim de seus efeitos, conferem cansaço, indisposição e depressão, devido à sobrecarga que o organismo se expôs; • As drogas mais comuns deste grupo são: nicotina cafeína anoxerígenas (diminuem a fome. Ex.: anfetamina) cocaína (e seus derivados: merla, crack, pasta, cloridrato)
  10. 10. Drogas depressoras do sistema nervoso central: • Tais drogas apresentam uma diminuição das atividades cerebrais de seu usuário, deixando-o mais devagar, desligado e alheio; menos sensível aos estímulos externos e um tanto quanto anestesiado face ao se passa em seu entorno ou em seus pensamentos; • As drogas mais comuns deste grupo são: álcool inalantes/solventes (colas, tintas, removedores, tiners) barbitúricos (soníferos) ansiolíticos antidepressivos opiácios (heroína, morfina, ópio)
  11. 11. Drogas perturbadoras do sistema nervoso central: • São aquelas drogas cujos efeitos são relativos à distorção das atividades cerebrais, podendo causar perturbações quanto ao espaço e tempo; distorções nos cinco sentidos e até mesmo alucinações. Grande parte destas substâncias é proveniente de plantas, cujos efeitos foram descobertos por culturas primitivas, associando as experiências vivenciadas a um contato com o divino; • As drogas mais comuns deste grupo são: a) de origem vegetal: mescalina (do cacto mexicano), THC (da maconha) haxixe psilocibina (de certos cogumelos) lírio (ou trombeteira, zabumba, saia branca) b) de origem sintética: LSD -25 ecstasy anticolinérgicos
  12. 12. Fragmento clínico número 2: José, 19 anos, sexo masculino, encontra-se internado em uma instituição destinada à recuperação de toxicômanos. A entrevista foi realizada nesta instituição. Ele é usuário de múltiplas drogas. Nesta primeira entrevista, fala com certa vagarosidade, às vezes quase cochicha para o psicólogo, como se contasse um segredo. -Você brigou aqui ontem? -Eu briguei pra defender aquele senhor que saiu agora, porque outro cara queria roubar a carteira e os documentos dele. Aliás, ele não tem carteira, ele tem passaporte. Não é nem passaporte, tem 2... chips... parecidos com disquetes. Tem 2 disquetes. É mais fácil colocar a vida no disquete que em ação, ou no papel. Eu tinha que ter saído ontem, por isto fiquei bravo. -Por que tinha que sair ontem? -Porque eu sou marido da Maria das Graças... -Qual? -A Xuxa, “rainha dos baixinhos”. Eu sinto isto, pode até ser ilusão, mas a gente nunca teve relações... Sou muito poderoso. Trabalhei na ROTAM por 3 meses... Só não sei voar ainda. O Diabo continua interno. Cálcio interno. Pasta de dentes. A minha está acabando. (Tira a pasta do bolso e mostra) Se o senhor pudesse me arrumar uns 5, 10 contos pra quebrar o galho... -Pra quê? -Meus documentos ficaram em casa: identidade, CPF, certidão de nascimento, certidão de óbito. O que é atestado de óbito?
  13. 13. -Você já viu a Xuxa? -Já, uma vez ela foi no meu barraco. A gente já conversou, beijou... (...) -Só que eu tenho o sobrenome de Clark. Clark Kent. Muitos me chamam de Clark. Já viu Superboy? Mas é bom aquele programa... [OBS.: fragmento de atendimento realizado 30 dias após o primeiro acolhimento]: -Falaram que você estava agressivo, em casa. -Não, eu tenho uma coisa que ninguém tem. -O quê? -Você não sabe, não? Tá fazendo de bobo, por quê? Você não escuta, não? Não escuta vozes, não? -O que só você tem? -Visão. Visão magnética. Não quero falar disso, não. Não vai ficar nada anotado aqui, não.
  14. 14. -Como é isso? -Se o senhor vai morrer o senhor vai. Ou acontecer alguma coisa com sua família, ter uma dificuldade financeira. -Você falou que escuta vozes... -Escuto. Televisão mesmo. Quando a gente fuma maconha escuta rádio. Vou vender maconha quando sair daqui.
  15. 15. -E a Xuxa? -Nós vamos casar. Vai ser a Princesa Diana, já ouviu falar dela? Só que não vai ser Príncipe Charles, vai ser o Príncipe Clark. Por que eu não saí este fim-de-semana? -Não sei, estava autorizado. Sua família não apareceu? -Eu quero trocar de psicólogo, você não está resolvendo meu problema, eu quero ir embora e você não está resolvendo! Quando eu vou embora? (O paciente começa a se exaltar) -Quando estiver melhor. (O entrevistador explica as razões da manutenção da internação) -E se eu mandar o senhor tomar conta de sua própria vida? (Enfermeiro entra no consultório, o psicólogo encerra a entrevista e solicita que o enfermeiro leve o paciente) (Alguns segundos depois, o paciente retorna, dá um murro na mesa, e se dirige em direção ao psicólogo. Enfermeiro entra e imobiliza o paciente, que é contido e medicado. O paciente permanece gritando) - Me desamarra, vamos brigar!
  16. 16. Análise do fragmento clínico número 2 (José): Sintomas: * fraco controle dos impulsos (o paciente se envolvendo em brigas), com baixa racionalização (oferece dois motivos diferentes para a briga); * associações frouxas do pensamento (carteira – passaporte; passaporte – disquetes; interno – cálcio; cálcio –pasta de dentes; certidão de nascimento - óbito); * lentidão da fala (e provável lentidão do pensamento); * ideação delirante erotomaníaca; * ideação deliróide de grandeza; * alucinações auditivas (?).
  17. 17. Comentários objetivando a elaboração de uma hipótese diagnóstica: • O paciente apresenta circunstâncias impulsivas, certos componentes maníacos e traços de megalomania e erotomania que podem, a princípio, sugerir um diagnóstico no campo das psicoses. Soma-se a isto circunstâncias de uma provável alucinação auditiva. • Todavia, vale também lançar a nossa atenção no histórico de abuso de drogas. • Quando há abuso de drogas, junto da sintomatalogia observada, sempre suge uma interrogação clínica de difícil resolução: ‘ele está psicótico por causa das drogas ou ficaria mesmo se não usasse?’; • O paciente mistura características de transtorno de humor e transtorno psicótico. Porém, o que prevalece é a sintomatologia do pensamento, pois está presente nas duas entrevistas;
  18. 18. • Um transtorno psicótico associado ao uso de drogas pode ser esquizofreniforme (quando predominam delírios e alucinações); delirante (apenas delírios); alucinatório (predomínio de alucinações); ou polimórfico (quando alternam-se delírios, alucinações, e discurso desconexo). • Hipótese diagnóstica: transtorno psicótico polimórfico por uso de múltiplas drogas (F 19.53).
  19. 19. Recomendações sobre os primeiros contatos com um paciente na situação de entrevista/acolhimento: Pensemos que o diagnóstico de um paciente pode vir a ser definido, de maneira bem ampla, a partir de três grandes situações: quadros com organicidade evidente em suas causalidades, neuroses ou psicoses. a) A primeira pergunta que nos devemos fazer é: este paciente apresenta ou não alterações de memória e/ou de nível de consciência, derivadas de um quadro orgânico – seja neurológico, tóxico, infeccioso, etc? Em caso afirmativo, o paciente apresenta um quadro orgânico.
  20. 20. Em caso negativo – ou seja, os sintomas psíquicos se instalam sobre um fundo de preservação da memória e do nível de consciência, nem há doença orgânica que possa determinar os sintomas psíquicos – o paciente se inclui num dos outros grupos: ou o das psicoses, ou o das neuroses.
  21. 21. Estando eliminada a evidência de uma organicidade que explicaria o quadro clínico do paciente: Surge uma segunda perspectiva de investigação fundamental no diagnóstico: ele apresenta vivências bizarras? (ex.: acredita-se teleguiado pela Internet? Afirma que lêem ou adivinham seus pensamentos? Escuta vozes que comentam seu comportamento? Apresenta uma exaltação ou uma inibição psicomotora muito intensa, e de matiz peculiar? ). Neste caso, tenderemos a situar o paciente no grupo das psicoses, – que costuma apresentar-se classicamente sob uma das três formas (esquizofrenias, paranóias, transtornos severos do humor), ou sob formas mistas entre estas.
  22. 22. Enfim, há uma terceira possibilidade: o paciente não apresenta estas vivências de forma anômala exemplificadas no slide anterior, mas encontra-se intensamente ansioso, ou deprimido? Ou traz uma série de queixas físicas vagas e incaracterísticas como forma de expressar um mal estar ou insatisfação de ordem psíquica? Ou fica uma boa parte do tempo ruminando idéias obsessivas e executando rituais para livrar-se delas? Se este tipo de sintomas apresenta-se com intensidade e freqüência suficientes para prejudicar seriamente a vida do paciente, começamos a pensar, então, no amplo quadro das neuroses.
  23. 23. Fragmento clínico número 3: Senhor M., 46 anos, sexo masculino Seu quadro clínico iniciou-se há cerca de 2 anos. Faz uso abusivo de álcool há 30 anos (já chegou, em certas épocas, a beber mais de 2 garrafas de aguardente por dia). Na entrevista, mostrou-se calmo, sem a manifestação de nenhum sofrimento evidente. Foi levado pela filha a um serviço de saúde pública. O paciente respondeu corretamente a todos os dados de identificação; - Sabe que dia é hoje? - Estamos em abril? (...) 2005, né? [OBS.: data da entrevista junho de 2005]. O dia do mês não sei, não... Não sei nem como tô vivendo ainda, é por Deus! Eu passei 3 noites olhando pro telhado, o coração disparado, esperando a morte. Não tinha recurso, nem minha mãe, ela quer a morte pra mim, sendo que eu nunca judiei dela, nunca bati nela. - Por que você diz que sua mãe quer sua morte? - Minha família fica aqui rodeando a clínica, não dão sossego nem na hora de comer, ficam me xingando. - De quê? - Tudo quanto é nome, “viado”, “estuprador”, “tarado”... - Mais alguém escuta? - Escuta, agora mesmo eles estão falando que eu tenho que morrer.
  24. 24. - Eles estão aqui em volta da clínica, então? - Estão. - Eles não vão embora? - Não, eles acamparam aí!
  25. 25. Análise do fragmento clínico número 3 (Sr. M.): • Sintomas: # idéias delirantes de conteúdo persecutório, causando insônia e angústia; # alucinações auditivas, com interpretação delirante das mesmas (como escuta freqüentemente, acredita que a família acampou em volta da clínica);
  26. 26. Comentários objetivando a elaboração de uma hipótese diagnóstica: • Se não fosse a história do uso intenso de álcool, facilmente, e com razão, tenderíamos a diagnosticar este paciente como esquizofrênico (ou, ao menos, dentro da família F20 a F29); • Entretanto, a presença de um longo (e intenso) uso de álcool nos conduz a uma atitude mais cautelosa; • Hipótese diagnóstica: transtorno psicótico esquizofreniforme decorrente do uso de álcool (F 10.50).
  27. 27. Prosseguiremos na próxima aula! Prof. Alexandre Simões Contatos: alexandresimoes@terra.com.br http://www.alexandresimoes.com.br

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