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Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro
Felizmente Há Luar! de Sttau Monteiro recria em dois
actos a tentativa frustrada de revolta liberal de Outubro
de 1817, reprimida pelo poder absolutista do regime de
Beresford e Miguel Forjaz, com o apoio da Igreja. Ao
mesmo tempo, chama a atenção para as injustiças, a
repressão e as perseguições políticas no tempo de Sala-
zar. nos anos 60 do século XX (tempo da escrita).
A acção em Felizmente Há Luar! centra-se na figura
do general Gomes Freire de Andrade e sua execução,
mostrando, ao mesmo tempo, a resignação do povo,
dominado pela miséria, pelo medo e pela ignorância.
Gomes Freire "está sempre presentê embora nunca apa-
reça" (didascália inicial) e, mesmo ausente, condiciona a
estrutura interna da peça e o comportamento de todas
as outras personagens. O protagonista é construído
através da esperança do povo, das perseguições dos
governadores e da revolta impotente da sua mulher e
dos seus amigos. Amado por uns, é odiado pelos que
temem perder o poder.
Gomes Freire é acusado de chefe da revolta, de
estrangeirado e grão-mestre da Maçonaria, por ser um
soldado brilhante e idolatrado pelo povo. Os governan-
tes - Miguel Forjaz, Beresford e Principal Sousa - per-
seguem, prendem e mandam executar o general e os
restantes conspiradores através da morte na fogueira.
Para eles, aquela execução, à noite, constituía uma
forma de avisar, de dissuadir outros revoltosos; para
Matilde de Meio, a mulher do general, e para mais pes-
soas era uma luz a seguir na luta pela liberdade.
Dentro dos princípios do teatro épico, Felizmente Há
Luar! é um drama narrativo que analisa criticamente a
sociedade, apresentando a realidade com o objectivo de
levar o espectador a tomar uma posição. Graças ao
efeito de estranheza e à distanciação histórica, retrata a
trágica apoteose do movimento liberal oitocentista, em
Portugal, e interpreta as condições da sociedade portu-
guesa do início do século XIX. Com a denúncia do
ambiente político repressivo daquela época, tenta pro-
vocar a reflexão sobre a opressão e a censura que se
repete no século XX.
Luís Infante de Lacerda Sttau Mon ei
Lisboa - 23-07-1993, id.L dramaturgo e mfTtrlr·r<;~~
meu-se em Direito, mas optou pelo jorna .
passado em Inglaterra, durante a juvent "
-lhe o contacto com movimentos de va 9 ;: ~- -
tura anglo-saxónica e foram fundamenta"
ção intelectual. As suas sátiras sobre a ._-:_:0:: __ : a
colonial tornaram-no objecto de perse
levaram-no à prisão.
Felizmente Há Luar! recupera acornec
cio do século XIX, para servirem de de '
social e política do país dos anos 60, PC
replica a expressão do governador D.
jaz, que, numa carta ao intendente da
com "felizmente, havia luar" a morosi a ~ 'U~) ",_-=,,,-.~~~:,,,.
As personagens psicologicamente s
comentários irónicos e mordazes, a de ' _;:
da sociedade e a defesa intransige
são características marcantes da sua ra
A peça em dois actos Felizmente -2 _ -
em 1961 e com a qual Sttau Montei o _-
Prémio de Teatro da Associação Portu =:= s::
foi suprimida pela censura da ditadura. -s =::
primeira vez em 1969, em Paris, só c ,,_=
portugueses em 1978, no Teatro Naci
próprio autor.
85
Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de Luísde Sttau Monteiro
Carácter épico da peça
Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, é um drama narrativo, de carácter social, den-
tro dos princípios do teatro épico. Na linha do teatro de Bertolt Brecht'", exprime a revolta contra
o poder e a convicção de que é necessário mostrar o mundo e o homem em constante devir.
Defende as capacidades do ser humano que tem o direito e o dever de transformar o mundo em
que vive. Por isso, oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade
em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar posição.
Como drama narrativo pressupõe uma acção apresentada ao espectador e com possibilidade
de ser vivida por ele, mas, sobretudo, procura a sua conivência ou participação testemunhal.
O carácter narrativo é sinónimo de épico ao contar determinados acontecimentos que devem
ser interpretados, reflectidos e julgados pelo espectador, enquanto elemento de uma sociedade.
Ele deve, assim, analisar e julgar o homem no seu devir histórico, na sua situação social, que
pode modificar-se e modificar o curso da História.
Observando Felizmente Há Luar!, verificamos que são estes os objectivos de Luís de Sttau
Monteiro, que evoca situações e personagens do passado usando-as como pretexto para falar
do presente. Escrita em 1961, surge como máscara para que se possa tirar exemplo num pre-
sente ditatorial. Mas mais do que fazer a ligação entre dois momentos - o início do século XIX
e o século XX - a sua intemporalidade remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a
opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição. Diz Luís de Sttau Monteiro, no
Programa de estreia no Teatro Nacional D. Maria II (1978), "Vai haver sempre gente como a
Matilde, o Gomes Freire, o Sousa Falcão e o Manuel e o avançar para o futuro vai depender,
sempre, da existência de homens capazes de entender, em cada dia o dia seguinte. O presente -
<qualquer presente - é sempre uma batalha entre esses e aqueles que recusam o dia de amanhã
- aqueles que em 1817 desempenharam os papéis de D. Miguel Pereira Forjaz e do principal
Sousa, mas que dão por outros nomes em outros momentos históricos".
Observe-se, a propósito, o diálogo entre Matilde (a esposa do general Gomes Freire) e
Beresford, o representante do domínio britânico:
Matilde
Venhopedir-lhe que o liberte. É-me indiferente que o faça por favor, por clemência ou por qualquer outro motivo.
Às mulheres, senhor, pouco interessa a justiça das causas que levam os seus homens a afastar-se delas,
A injustiça e a tirania, só as sente quem anda na rua, que é homem ou quer ser homem.
(Pausa)
( ...)
Beresford
Eporque pensa que devo fazer o que pede 7
Matilde
Porque é o comandante do exército, governador do Reino e... porque sabe que ele não cometeu qualquer crime.
Beresford
A simples existência de certos homens é já um crime.
(Começam a ouvir-se sinos ao longe)
111 Bertolt Brecht (1898-1956)- poeta e dramaturgo alemão, exerceu uma grande influência no teatro contemporâneo, Perseguido, criticado e discutido den-
tro e fora do País. pelas suas ideias marxistas, só vê o seu nome reconhecido na terra natal dois anos antes de morrer, quando o seu grupo de teatro - o
8erliner Ensemble - faz a sua primeira grande viagem pela Europa. A sua obra, claramente social. coloca em palco a luta dos oprimidos. 8reviário do Tea-
tro, publicado em 1949. surge como uma espécie de tratado sobre os princípios do teatro épico, Da sua obra, merecem também realce Ópera dos Três Vin-
téns, Mãe Coragem ou O Círculo de Giz Caucasiano.
86
Sequência 3 Felizmente Há Luar'. de Luís de Sttau Monteiro
Neste excerto, o conflito interior de Matilde exprime-se na própria anulação das suas con-
vicções para conseguir a libertação do marido, que é vítima da injustiça. Mas note-se, princi-
palmente, a afirmação do general Beresford, para quem "a simples existência de certos homens
é já um crime".
O dramaturgo, através do cenário, dos gestos e das palavras, ou das informações das didas-
cálias, procura levar o público a entender de forma clara o sentido da mensagem. Neste frag-
mento da obra, o sarcasmo e a ironia ou a amargura e o desespero que opõem estas duas perso-
nagens, tal como sucede com outros sentimentos e comportamentos, são elementos
fundamentais para a análise da situação e para que o espectador tome posição.
Felizmente Há Luar! destaca a preocupação com o homem e o seu destino; realça a luta con-
tra a miséria e a alienação; denuncia a ausência de moral; alerta para a necessidade de uma
superação com o surgimento de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização
do Homem.
"Trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista
A nova ordem política trazida pela Revolução Francesa de 1789 e as invasões napoleónicas
abalam o Ocidente da Europa. Só a Inglaterra resiste ao imperador Napoleão Bonaparte, arras-
tando Portugal para uma posição de indecisão entre este aliado e a França. Por isso, em 29 de
Novembro de 1807, com as tropas de Junot às portas de Lisboa, D. João VI, com a família real
portuguesa e um imenso séquito de fidalgos, altos funcionários e militares, embarca apressada-
mente para o Brasil para evitar a capitulação. No ano seguinte, o governo, sediado no Brasil,
.invade a Guiana Francesa como represália, obrigando o seu governador a capitular e a retirar-
-se para a Europa.
Depois da primeira invasão, a Corte pede ao governo inglês um oficial para reorganizar o
exército. Surge, então, o general Beresford, que é nomeado generalíssimo do exército portu-
guês, quando o País sofre a invasão das forças comandadas pelo general Soult. Deve-se também
a ele o êxito contra a terceira invasão, chefiada por Massena.
Após as invasões, Beresford vê os seus poderes consolidados, mas começa a atrair inimigos
que ou se vêem discriminados em cargos militares e públicos ou defendem ideias liberais.
Começa então uma acção repressiva, nomeadamente contra conspiradores, agrupados em
sociedades secretas. Por isso, quando em 1815, o general Gomes Freire de Andrade chega a
Lisboa, o intendente da Polícia avisa Beresford da simpatia do povo e do ambiente de conspira-
ção que se respira. Mas o generalíssimo inglês, regressado do Brasil com poderes acima da
Junta de Regência, que D. João VI lhe conferira, decide descobrir os conspiradores, execu-
tando-os. É neste processo que Gomes Freire, considerado como chefe da conspiração, se vê
envolvido e condenado à morte, no dia 18 de Outubro de 1817, no campo de Alqueidão, junto
aS. Julião da Barra. Os outros condenados são enforcados nessa mesma manhã, no Campo de
Santana, que, em sua memória, se designa por Campo dos Mártires da Pátria.
Esta acção em vez de amedrontar o povo incentivou-o. O general Gomes Freire de Andrade
e os outros condenados tornam-se assim os pioneiros do movimento que em 1820 provoca a
revolução liberal no Porto e o levantamento em Lisboa. O já marechal-general Beresford, que
fora ao Brasil pedir mais poder a D. João VI, acaba por ser impedido de desembarcar por uma
Junta Provisional (24 de Agosto de 1820).
Felizmente Há Luar!, como afirma Luciana Stegagno Picchio, ao retratar a conspiração,
encabeçada pelo Gomes Freire de Andrade, que se manifestava contrária à presença inglesa e à
ausência da corte no Brasil, constitui uma "trágica apoteose" da história do movimento liberal
oitocentista em Portugal.
88
-------------------------------------------',"
o ambiente epocal é referido claramente na peça através das palavras de Manuel
"o mais consciente dos populares":
Manuel
Vê-se a gente livre dos Franceses e zás!, cai na mão dos Inglesesl
E agora? Se acabamos com os Ingleses, ficamos na mão dos reis do Rossio...
Entre os três o diabo que escolha ...
Numa única fala, coloca-se em destaque a situação do povo oprimido: as Invasões France-
sas; a "protecção" britânica, iniciada após a retirada do rei D. João VI para o Brasil.; a falta de
perspectivas de futuro, clarificada logo de seguida:
E enquanto eles andam para trás e para a frente, para a esquerda e para a direita, nós não pa s do
mesmo sítio!
Mas a conspiração não sufocou a história dos movimentos liberais, antes os imp sionou.
Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde, "companheira de todas as ho -- do
general Gomes Freire, são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania
dos governantes:
Matilde
Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensine.
Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim ...
(Pausa)
Felizmente - felizmente há luar!
Como se pode observar, o general Gomes Freire e mais onze companheiro . acusado de
conspirar contra Beresford e o governo vigente, tornaram-se, pela sua morte trázica, no QTaIl-
des precursores do liberalismo português. Em Felizmente Há Luar!, Luís de ttau _:onteiro
socorre-se da figura do general Gomes Freire de Andrade, que está presente embora se apare-
cer em cena, para debater a situação do povo que vive na miséria e dependente es
dominantes. Recorrendo ao teatro épico, coloca em palco essas primeiras manifestaçõ ciais
e políticas que levaram à revolução liberal, para que o espectador se posicione cri icamente,
mas estranho à acção, como sucedia no teatro clássico preocupado em despertar 0- - nrimen-
tos e as emoções no público.
"Trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista, Felizmente Há =-uar! inter-
preta as condições da sociedade portuguesa do início do século XIX e a revolta dos mais esclare-
cidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas, contra o poder absolutista e tirânico dos
governadores e do generalíssimo Beresford. Para que o movimento liberal se conere . e de:::.assete
anos depois, é necessária a morte de Gomes Freire de Andrade e dos seus companheiros. mas
também de muitos outros portugueses que em nome dos seus ideais são sacrificado pela Pátria.
Conspiradores e traidores para o poder e para as classes dominantes, que sentem os seus prívilé-
gios ameaçados, são os grandes heróis de que o povo necessita para reclamar justiça. díznídade e
pão. Por isso, as suas mortes, em vez de amedrontar, tornam-se estímulo. A fozueira acesa na
noite para queimar Gomes Freire de Andrade, que os governadores querem que seja dissuasora,
torna-se farol ou luz para que outros lutem pela liberdade. A consequência da morte do seneral
pode ser comparada à da crucificação de Cristo na medida em que há uma propagação da espe-
rança. Gomes Freire, aliás, é uma figura messiãnica, frequentemente relacionada com Cristo
como se observa nas palavras de Beresford, que afirma ser necessário alguém 'a quem valha a
pena crucificar", ou de Matilde, que apelida o Principal Sousa de ]udas, entregando-lhe a moeda.
89
Distanciação histórica (técnica realista - influência de Brecht)
Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro
Brecht, nos seus Estudos sobre Teatro, fala do efeito de estranheza e de distanciação que o
recurso à História ou a um processo de construção de parábolas permite reflectir sobre uma
realidade próxima. Brecht propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o
espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juí-
zos de valor sobre o que está a ser representado. O actor deve, lucidamente, saber utilizar o
"gesto social", examinando as contradições da personagem e as suas possíveis mudanças, que
lhe permitam acentuar o desfasamento entre o seu comportamento e o que representa. Isto
permite ao público espectador uma correspondente distanciação da história narrada e, conse-
quentemente, uma possível tomada de consciência crítica, aprendendo o prazer da compreen-
são do real, a sua situação na sociedade e as tarefas que pode realizar para ser ele próprio.
Este efeito de estranheza e de distanciação acaba por ter um efeito de aproximação entre o
actor e o espectador, na medida em que os dois se distanciam em relação à história narrada e
podem, como pessoas reais, discutir o que se passa em palco. Ao contrário do teatro clássico,
não há um efeito alucinatório ou hipnótico que permita tomar a representação pela própria
realidade. Afirma Bertolt Brecht (in Estudos sobre Teatro):
"O espectador do teatro dramático diz: - Sim, eu já senti isso. - Eu sou assim. - O sofrimento
deste homem comove-me, pois é irremediável. É uma coisa natural. - Será sempre assim. - Isto
é que é arte! Tudo ali é evidente. - Choro com os que choram e rio com os que riem.
O espectador do teatro épico diz: - Isso é que eu nunca pensaria. - Não é assim que se deve
fazer. - Que coisa extraordinária, quase inacreditável. - Isto tem de acabar. - O sofrimento
deste homem comove-me, porque seria remediável. - Isto é que é arte! Nada ali é evidente. -
Rio de quem chora e choro com os que riem."
O teatro épico proposto por Brecht contrapõe-se à tragédia clássica para melhor conseguir o
efeito social, tal como tentara no recurso à balada em vez do canto lírico. Enquanto o teatro
clássico conduz o público à ilusão e à emoção, levando-o a confundir o que é a arte com a vida
real, no teatro épico a "distanciação" deve permitir o envolvimento do espectador no julga-
mento da sociedade. Por isso, o teatro épico implica comprometimento, crítica contra o indivi-
dualismo, consciencialização perante o sofrimento dos outros e a realidade social. Deve, na sua
tarefa pedagógica, instruir os espectadores na verdade e incitá-los a actuar, alertando-os para a
condição humana. O espectador deve ter um olhar crítico para se aperceber melhor de todas as
formas de injustiças e de opressões.
Em Felizmente Há Luar!, o tempo, o espaço e as personagens são trabalhados de modo a que
a distanciação se concretize, recorrendo, muitas vezes, a um historiar dos acontecimentos
representados e ao acentuar da precisão do lugar cénico. É o que se nota, por exemplo, logo no
início:
Vicente
(Calça o sapato e levanta-se.)
las, ias. Ias perguntar-me se foi por dinheiro que eu me virei contra os
meus ... Era ou não era isso que me ias perguntar?
1.° Polícia
Na verdade ...
Vicente
Pois respondo-te, amigo. Respondo-te de boa vontade.
(Começa a passear em frente dos polícias.)
90
t
---------------~ ~',,,
-------------------------------------------"".
Felizmente Há Luar'
Sublinhe-se, de forma especial, a preocupação do dramaturgo com a distanciação quando
através da didascália nos informa que "Todos os seus gestos são estudados. Sente-se que passou
longas horas estudando os hábitos e os maneirismos dos membros da classe a que desejaria ter
pertencido. Ao falar, faz gestos com as mãos, gestos lentos, precisos, copiados de um fidalgo
qualquer que teve ocasião de observar de perto".
Ao dramaturgo interessa-lhe que o actor se revele lúcido e, sobretudo, que o espectador se con-
fronte e se esclareça, partindo da identificação inicial de dois tempos e dois mundos diferentes.
Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60: denúncia da violência
Felizmente Há Luar! tem como cenário o ambiente político dos inícios do século XIX: em
1817, uma conspiração, encabeçada pelo general Gomes Freire de Andrade, que pretendia o
regresso do Brasil do rei D. João VI e que se manifestava contrária à presença inglesa, foi desco-
berta e reprimida com muita severidade: os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram
queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir. ..
Luís de Sttau Monteiro marca uma posição, pelo conteúdo fortemente ideológico, e denuncia a
opressão vivida na época em que escreveu a obra (1961), precisamente sob a ditadura de Salazar.
o recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século
XIX em que decorre a acção permitiu-lhe, assim, colocar também em destaque as injustiças do
seu tempo e a necessidade de lutar pela liberdade.
Fala como um alucinado, com frequentes pau-
sas, que dão a entender não ser esta a primeira
vez que pensa no assunto.
Ao falar da cara, levanta-se, assumindo a posi-
ção de um senador romano.
Alarga os passos. Todos os seus gestos são
estudados. Sente-se que passou longas horas
estudando os hábitos e os maneirismos dos
membros da classe a que desejaria ter perten-
cido. Ao falar, faz gestos com as mãos, gestos
lentos, precisos, copiados de um fidalgo qual-
quer que teve ocasião de observar de perto.
De repente, olha para os polícias e compreende
que está a dizer coisas que não deveria ter dito.
Fecha as mãos. Domina-se. Adopta um tom de
voz ironicamente piedoso.
É verdade que nasci aqui e a fome desta gente é a minha fome, mas...
é igualmente verdade que os odeio, que sempre que olho para eles me
vejo a mim próprio: sujo, esfomeado, condenado à miséria por acidente de
nascimento.
(Estaca no palco e toma uma posição de pessoa importante, de fidalgo
retratado por um artista medíocre do paço.)
Que diferença há entre mim e um fidalgo qualquer?
Será que tenho uma cara diferente? Será que sou mais estúpido? Mais
baixo? Mais alto?
Serão as minhas pernas e os meus braços diferentes das pernas e dos
braços de um desses fidalgotes das touradas?
Não, meus amigos. A única coisa que me distingue de um fidalgo é
uma coisa que se passou há muitos anos e de que nem sequer tive a
culpa: o meu nascimento.
(Pausa)
Nasci a dois passos daqui, numa trapeira em que nenhum fidalgo
entraria. Quando passo lá à porta, só Deus sabe o que sinto ...
É por isso que odeio esta cambada a que pertenço, mas a que pertenço
sem querer e com quem não tenho nada de comum!
Mas vocês não podem perceber isto...
(Cai em si]
Tenho estado a brincar, amigos. Querem saber porque vendo os meus
irmãos? Pois vendo-os por amor a N. S. Jesus Cristo e a el-rei D. João VI,
que há tantos anos anda pelos Brasis cuidando dos nossos interesses ...
(Ri-se.)
91
Sequência 3 Felizmente Há Luar', de Luís de Sttau Monteiro
Em Felizmente Há Luar!, podemos, neste paralelismo entre duas épocas, observar:
Tempo da história - século XIX -1817 Tempo da escrita - século XX -1961
• Agitação social que levou à revolta liberal de 1820-
conspirações internas; revolta contra a presença da
Corte no Brasil e a influência do exército britânico;
• Agitação social dos anos 60 - conspirações internas;
principal irrupção da guerra colonial;
• Regime absolutista e tirânico; • Regime ditatorial de Salazar;
• Classes sociais fortemente hierarquizadas;
• Classes dominantes com medo de perder privilégios;
• Maior desigualdade entre abastados e pobres;
• Classes exploradoras, com reforço do seu poder;
• Povo oprimido e resignado;
• A "miséria, o medo e a ignorância";
• Obscurantismo, mas "felizmente há luar";
• Povo reprimido e explorado;
• Miséria, medo e analfabetismo;
• Obscurantismo, mas crença nas mudanças;
• Luta contra a opressão do regime absolutista;
• Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia
a opressão e a miséria;
• Perseguições dos agentes de Beresford;
• As denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais
Sarmento que, hipócritas e sem escrúpulos, denunciam;
• Censura à imprensa;
• Severa repressão dos conspiradores;
• Processos sumários e pena de morte;
• Luta contra o regime totalitário e ditatorial;
• Agitação social e política com militantes antifascistas
a protestarem;
• Perseguições da PIDE;
• Denúncias dos chamados "bufos", que surgem na
sombra e se disfarçam, para colher informações e
denunciar;
• Censura;
• Prisão e duras medidas de repressão e de tortura;
• Condenação em processos sem provas;
• Execução do general Gomes Freire, em 1817.
Em Felizmente Há Luar! percebe-se, facilmente, que a história serve de pretexto para uma
reflexão sobre os anos 60, do século XX. Sttau Monteiro, também ele perseguido pela PIDE,
denuncia assim a situação portuguesa, durante o regime de Salazar, interpretando as condições
históricas que anos mais tarde contribuiriam para a "Revolução dos Cravos", em 25 de Abril de
1974. Tal como a agitação e conspiração de 1817, em vez de desaparecer com medo dos opres-
sores, permitiu o triunfo do liberalismo em 1834, após uma guerra civil, também a oposição ao
regime vigente nos anos 60, em vez de ceder perante a ameaça e a mordaça, resistiu e levou à
implantação da democracia.
A acção
• Posterior a Felizmente Há Luar' - Execução do general
Humberto Delgado, em 1965.
Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, recria em dois actos a tentativa frustrada de revolta
liberal de Outubro de 1817, reprimida pelo poder absolutista do regime de Beresford e Miguel
Forjaz, com o apoio da Igreja. Ao mesmo tempo, chama a atenção para as injustiças, a repres-
são e as perseguições políticas no tempo de Salazar, nos anos 60 do século XX (tempo da
escrita).
A acção em Felizmente Há Luar! centra-se na figura do general Gomes Freire de Andrade e da
sua execução: da prisão à fogueira, com descrições da perseguição dos governadores do Reino,
da revolta desesperada e impotente da sua esposa e da resignação do povo que a "miséria, o
92
,~
--.-
Felizmente Há lusrt
-----------------------------------------'-..,
medo e a ignorância" dominam. Gomes Freire de Andrade "está sempre presente embora nunca
apareça" (didascália inicial) e, mesmo ausente, condiciona a estrutura interna da peça e o com-
portamento de todas as outras personagens.
A defesa da liberdade e da justiça, atitude de rebeldia, constitui a hybris (desafio) desta tra-
gédia. Como consequência, a prisão dos conspiradores provocará o sofrimento (páthos) das
personagens e despertará a compaixão do espectador.
O crescendo trágico, representado pelas diversas tentativas desesperadas para obter o perdão,
acabará, em clímax, com a execução pública do general Gomes Freire e dos restantes presos.
Este desfecho trágico conduz a uma reflexão purificadora (cathársis) que os opressores pre-
tendiam dissuasora, mas que despertou os oprimidos para os valores da liberdade e da justiça.
As personalidades (a História)
D. João VI, o Clemente (1767-1826) - filho de D. Maria I e de D. Pedro I1I, em 1785 contraiu
matrimónio com D. Carlota joaquina, que tinha apenas 10 anos. Assumiu a governação em 1792
por doença da rainha; em 1799 torna-se, de direito, regente do Reino; em 1816, ocupa o trono.
Devido às Invasões Francesas, e à vista das tropas de junot, em 1807, refugiou-se com a Corte no
Brasil, que vem a ser reconhecido como Reino em 1815. Regressou a Portugal devido à revolução
liberal do Porto, de 1820, assinando a Constituição em 1822. Nesse mesmo ano, em 7 de etem-
bro, o seu filho D. Pedro viria a proclamar a independência do Brasil, nas margens do rio Ipi-
ranga. Por causa da sublevação denominada Vila-Franca da (em 27 de Maio de 1823) e da Abri-
lada (em Abril de 1824), vê-se obrigado a desterrar a rainha e a exilar o filho D. Miguel.
Morre em 10 de Março de 1826, em Lisboa.
D. Carlota Joaquina (1775-1830) - filha de Carlos IV de Espanha, nasceu em Aranjuez. em
1775, e faleceu em Queluz, em 1830. Casada com o rei de Portugal D. João VI, torna- e rainha
de Portugal. Mãe do futuro rei D. Miguel, recusa-se a jurar a Constituição de 1822.
Rei D. Miguel (1802-1866) - filho de D. João VI e irmão de D. Pedro IV O Infante D. Miguel
nasceu em Queluz a 26 de Outubro de 1802 e morreu a 14 de Novembro de 1866. Foi o trigé-
simo rei de Portugal, mas o seu reinado foi efémero e atribulado. D. Miguel foi cognominado o
Usurpado r, por ter aceite a proposta do seu irmão D. Pedro IV de governar o País de acordo
com as leis liberais, mas, vendo-se em Lisboa, rapidamente esqueceu a promessa e decidiu tor-
nar-se rei absolutista. Esta atitude veio a causar a guerra civil. Já em Abril de 182 desenca-
deara uma sublevação militar que ficou conhecida por Abrilada. Visava a salvação do reino dos
possíveis perigos do liberalismo e pretendia reforçar o Absolutismo. O rei D. João 1, com o
apoio do corpo diplomático, desautorizou D. Miguel, retirando-lhe o cargo de comandante do
exército e obrigando-o a escolher o exílio.
Gomes Freire de Andrade (1757-1817) - General português, nascido em 1757 em Viena de
Áustria. Seguiu a vida militar depois de ter vindo para Portugal aos 24 anos. Combateu em
Argel (1784), na Rússia (1788), na Guerra das Laranjas (1801) e na Guerra Peninsular só dei-
xando a carreira das armas após a derrota de Napoleão em 1814, altura em que voltou a Portu-
gal e foi preso, acusado de ter participado na terceira invasão francesa; foi reabilitado dessa
acusação, mas obrigado a residência fixa em Lisboa.
Ligado aos ideais progressistas e membro da Maçonaria (grão-mestre a partir de 1816) foi
acusado de participar na conspiração de 1817, que punha em causa a ausência da corte de
D. João VI no Brasil, a presença militar inglesa no país e a grave situação económica que então
se vivia. A conjura foi descoberta e reprimida com muita severidade. Os conspiradores acusa-
dos de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir.
93
94
Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de luís de Sttau Monteiro
o general Gomes Freire de Andrade, o cabecilha, foi enforcado, no forte de S. julião da Barra, e
depois queimado. Mas o fermento da revolução estava lançado e iria dar fruto no dia 24 de
Agosto de 1820, com a revolução liberal..
Conselho de Regência - Dias antes de partir para o Brasil, devido às Invasões Francesas, o
príncipe regente D, João (futuro rei D. João VI) nomeara um Conselho de Regência, para
governar Portugal na sua ausência. Dissolvido em Fevereiro de 1808, o Conselho de Regência
foi restabelecido em Setembro. Para além do marechal Beresford (responsável pela reorganiza-
ção do exército), faziam parte deste Conselho de Regência D. Miguel Pereira Forjaz (represen-
tante da nobreza) e o Principal Sousa (representante do clero).
William Beresford (1768-1854) - General inglês, severo e disciplinador, enviado pela Grã-
-Bretanha para reorganizar o exército português (após a primeira invasão francesa), prepa-
rando-o para resistir às tropas napoleónicas. Fora governador e comandante-chefe, durante seis
meses, na Madeira, para evitar a ocupação da ilha pelos franceses.
A 7 de Março de 1809, foi nomeado generalíssimo do exército português e foi consolidando
e aumentando os seus poderes. Rejeitava as novas ideias liberais, imaginava conspirações e
reprimia-as severamente; para além disso, enquanto submetia o país a uma forte organização
militar, ia colocando os oficiais britânicos nos mais altos postos, preterindo os oficiais portu-
gueses; criou, pois, muitos inimigos.
Em 1817, após rumores de uma conspiração que pretendia o regresso do rei e que se mani-
festava contrária à presença inglesa, mandou matar os conspiradores (entre eles o general
Gomes Freire de Andrade).
Em 1820, deslocou-se, pela segunda vez, ao Brasil para pedir mais poder a D. João VI; ao
regressar, como marechal-general do exército português, já a revolução liberal (24 de Agosto
de 1820) estava nas ruas e foi obrigado a regressar directamente a Inglaterra.
D. Miguel Pereira Forjaz (1769-1827) - entrou para o exército em 1785. Promovido a alferes
em 1787, foi sucessivamente capitão, major e capitão-general. Apoiou Beresford na reorganiza-
ção do exército português, embora assumindo posições cada vez mais críticas sobre a influên-
cia do general britânico.
Com a revolução de 1820, abandonou o seu lugar na regência, mas recebeu o título de
Conde da Feira.
Representante da nobreza na regência, assume o papel principal na acusação do general
Gomes Freire pois receia que o prestígio, inteligência e capacidade deste lhe retirem a projec-
ção a que está habituado e coloquem em causa o seu lugar na regência.
Principal Sousa - D. José António de Meneses e Sousa Coutinho era irmão do Ministro do Rei,
D. Rodrigo de Sousa Coutinho, primeiro-conde de Unhares, e do conde do Funchal, Domin-
gos de Sousa Coutinho, embaixador em Londres, que negociou a ajuda inglesa contra os inva-
sores franceses.
Em Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, é ao primeiro destes irmãos que se refere,
quando afirma: "Agora me lembro de que há anos, em Campo d'Ourique, Gomes Freire preju-
dicou muito a meu irmão Rodrigo" (Acto 1).
Durante a ausência do Rei D. João VI, no Brasil, fez parte da Regência do Reino até ao pro-
nunciamento de 24 de Agosto de 1820.
Representante do clero na regência com D. Miguel Forjaz e com o general Beresford, o Prin-
cipal Sousa reconhece que Portugal necessitava do regresso do rei, como o demonstra em carta
de 1 de Junho de 1817, quando diz "só a Real Presença dará a felicidade a este povo e poderá
regenerar esta Nação que não aspira por outra fortuna que a de ver Vossa Majestade".
Felizmente Há Luar!
-------------------------------------------,"
As personagens (a ficção)
Gomes Freire - figura carismática, que preocupa os poderosos, acredita na justiça e luta pela
liberdade e arrasta os pequenos. Considerado um "estrangeirado", revela-se simpatizante das
novas ideias liberais, tornando-se para os governantes um elemento subversivo e perigoso.
O povo elege-o como símbolo da luta pela liberdade, o que é incómodo para os "reis do Ros-
sio". Daí a decisão dos governantes pelo enforcamento, seguido da queima, para servir de
exemplo a todos aqueles que tentem afrontar o poder político.
D. Miguel Forjaz - primo de Gomes Freire, prepotente, assustado com transformações que
não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio, desumano, calculista; nas palavras de Sousa
Falcão, D. Miguel "é a personificação da mediocridade consciente e rancorosa".
Principal Sousa - fanático, corrompido pelo poder eclesiástico, odeia os Franceses porque
"transformaram esta terra de gente pobre mas feliz num antro de revoltados!"; afirma, preocu-
pado, que "Por essas aldeias fora é cada vez menor o número dos que frequentam as igrejas e
cada vez maior o número dos que só pensam em aprender a ler ... ".
Beresford - poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico; a sua opinião
sobre Portugal fica claramente expressa na afirmação "Neste país de intrigas e de traições só se
entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum e eu posso transformar-me
nesse inimigo comum, se não tiver cuidado."
Vicente - demagogo, sarcástico, falso humanitarista, movido pelo interesse da recompensa
material, adulador no momento oportuno, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado
capaz de recorrer à traição para ser promovido socialmente ...
Autocaracteriza-se quando diz:
Só acredito em duas coisas: no dinheiro e na força. O general não tem uma nem outra e (...) Os degraus da
vida são logo esquecidos por quem sobe a escada... Pobre de quem lembre ao poderoso a sua origem Do alto
do poder, tudo o que ficou para trás é vago e nebuloso. (...) Nunca se fala de traição a quem sobe na vida .
Manuel- "O mais consciente dos populares", andrajosamente vestido; assume algum protago-
nismo por dar início aos dois actos, com as mesmas indicações cénicas: a mesma posição em
cena, como única personagem intensamente iluminada, os mesmos movimentos e a mesma
frase: "Que posso eu fazer? Sim, que posso eu fazer?"
Denuncia a opressão a que o povo tem estado sujeito (as Invasões Francesas; a protecção"
britânica, após a retirada do rei D. João VI para o Brasil) e a incapacidade de conseguir a liber-
tação e de sair da miséria em que se encontra:
Vê-se a gente livre dos Franceses e zésl, cai na mão dos Ingleses!
Eagora? Se acabamos com os Ingleses, ficamos na mão dos reis do Rossio...
Entre os três o diabo que escolha... (...)
E enquanto eles andam para trás e para a frente, para a esquerda e para a direita, nós não passamos do
mesmo sítio!
Sousa Falcão - "o inseparável amigo", sofre junto de Matilde perante a condenação do general;
assume as mesmas ideias de justiça e de liberdade, mas não teve a coragem do general. ..
95
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Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro
Matilde de Melo - "A companheira de todas as horas", corajosa:
- exprime romanticamente o amor; reage violentamente perante o ódio e as injustiças;
afirma o valor da sinceridade; desmascara o interesse, a hipocrisia:
Ensina-se-Ihes que sejam valentes para um dia virem a ser julgados por covardes! Ensina-se-Ihes que
sejam justos para viverem num mundo em que reina a injustiça! Ensine-se-lhes que sejam leais, para que a
lealdade, um dia, os leve à forca!;
- ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre:
Enquanto houver vida... força ... voz para grítar. .. Baterei a todas as portas, clamarei, por toda a parte,
mendigarei, se for preciso, a vida daquele a quem devo a minha!
Opiniões a propósito das novas ideias liberais que começavam a ganhar força
1. Dos elementos do Conselho de Regência
D. Miguel Pereira Forjaz, representante da nobreza na regência, afirma:
Trama-se uma conjura destinada a atacar a própria estrutura da sociedade em que vivemos. Se não tomarmos
as necessárias precauções, dentro em breve teremos a desordem nas ruas e a anarquia nas almas! (...)
Não lhes nego, Excelências, que não sou um homem do meu tempo.
Um mundo em que não se distinga, a olho nu, um prelado dum nobre, ou um nobre dum popular, não é mundo
em que eu deseje viver. Não concebo a vida, Excelências, desde que o taberneira da esquina possa discutir a opi-
nião d'ei-tei. nem me seria possível viver desde que a minha opinião valesse tanto como a de um arruaceiro.
o Principal Sousa, representante do clero no Governo, admite:
Senhor Governador, tenho medo. Há dois dias que quase não durmo e mesmo, quando passo pelo sono, perse-
guem-me imagens terríveis: imagino-me réu perante um tribunal que me não respeita.
Dedos imundos tocam-me as vestes. Sonhei já três vezes que estava no Campo de Sant'Ana, subindo ao
cadafalso, enquanto à minha volta os gritos do povo me não deixavam, sequer, ouvir a sentença ...
o marechal Beresford teme essencialmente perder os privilégios de que goza e realça a gra-
vidade do momento, impelindo os outros à acção:
oque interessa é saber qual é a melhor forma de sufocar a revolta que se prepara.
Tragam-nos a proclamação ... obtenham-na seja como for...
Não percam tempo, Senhores. O momento é grave e a causa éjusta. Vão.
Os chefes?! Quem são os chefes?;
Já que temos ocasião de crucificar alguém, que escolhamos a quem valha a pena crucificar ...
2. Do Povo
A classe explorada depositava nos movimentos liberais a grande esperança de alteração da
situação em que se encontrava:
- Manuel, a propósito do general Gomes Freire, formula um desejo: "Se ele quisesse ... lO;
- Manuel ao "deixar cair os braços num gesto de desânimo", após a prisão do general, afirma:
E ficamos pior do que estávamos ... Se tínhamos fome e esperança, ficamos só com fome ... Se, durante uns
tempos, acreditámos em nós próprios, voltamos a não acreditar em nada ...
Felizmente Há Luar!
Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde, "companheira de todas as horas" do
general Gomes Freire, são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania
dos governantes:
Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!
Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim ...
(Pausa)
Felizmente - felizmente há luar!
Os símbolos
1. A saia verde
- A felicidade - a prenda comprada em Paris (terra da liberdade), no Inverno. com o
dinheiro da venda de duas medalhas;
- Ao escolher aquela saia para esperar o companheiro após a morte, destaca a "alezria" do
reencontro ("agora que se acabaram as batalhas, vem apertar-me contra o peito").
Convém recordar, a propósito, que a saia é uma peça eminentemente feminina e que o verde
está habitualmente conotado com tranquilidade e esperança, traduzindo uma sensação repou-
sante, envolvente e refrescante. O Dicionário de Símbolosl11 diz-nos que:
Entre o azul e o amarelo, o verde resulta das suas interferências cromáticas. as entra com o
vermelho no jogo simbólico de alternâncias. A rosa floresce entre folhas verdes. Equidisr.ame do
azul-celeste e do vermelho infernal, ambos absolutos e inacessíveis, o verde, valor médio, m diador
entre o quente e ofrio, o alto e o baixo, é uma cor tranquilizadora, refrescante, humana..
2. O título/a luzia noite/o luar
O título surge por duas vezes ao longo da peça, inserido nas falas das personaue
1. D. Miguel salienta o efeito dissuasor que aquelas execuções poderão exercer bre [ os
os que discutem as ordens dos governadores:
Lisboa há-de cheirar toda a noite a carne assada, Excelência, e o cheiro há-de-Ihes tice: 'ria
durante muitos anos ... Sempre que pensarem em discutir as nossas ordens, lembrar-se-ão do _zsi
Logo de seguida, afirma:
É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar ...
Esta primeira referência ao título da peça, colocada na fala do Governador está relacionada
com o desejo expresso de garantir a eficácia desta execução pública: a noite é mais tadora.
as chamas seriam visíveis de vários pontos da cidade e o luar atrairia as pessoas à rua para
assistirem ao castigo, que se pretendia exemplar. Historicamente, esta frase foi mesmo profe-
rida por D. Miguel Forjaz, mas numa carta ao intendente da Polícia.
2. Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde, "companheira de todas as horas-
do general Gomes Freire, são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra
a tirania dos governantes:
Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!
Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim ...
(Pausa)
Felizmente - felizmente há luar!
111 Chevalier e Gheerbrant (1982). Dictionnaire des Symboles, Robert Laffont / Jupiter, Paris.
CAESP12 -07
,",,,'
97
Sequência 3 Felizmente Há lustl. de Luís de Sttau Monteiro
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A luz, simbolicamente, está associada à vida, à saúde, à felicidade, enquanto a noite e as tre-
vas se associam ao mal, à infelicidade, ao castigo, à perdição e à morte. Na linguagem e nos
ritos maçónicos, após ter participado de olhos vendados em alguns rituais, após prestar jura-
mento, o neófito poderia "receber a luz", o que significava ser admitido ...
A Lua, simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol, e por
atravessar fases, mudando de forma, representa a dependência, a periodicidade e a renovação.
A Lua é, pois, símbolo de transformação e de crescimento.
A Lua é ainda considerada como "o primeiro morto?», dado que durante três noites em cada
ciclo lunar ela está desaparecida, como morta; depois reaparece e vai crescendo em tamanho e
em luz ... Ao acreditar na vida para além da morte, o homem vê na Lua o símbolo desta passa-
gem da vida para a morte e da morte para a vida ...
Por isso, na peça, nestes dois momentos em que se faz referência directa ao título, a expres-
são "felizmente há luar" pode indiciar duas perspectivas de análise e de posicionamento das
personagens:
1. As forças das trevas, do obscurantismo, do anti-humanismo utilizam, paradoxalmente, o
lume (fonte de luz e de calor) para "purificar a sociedade" (a Inquisição considerava a
fogueira como fonte e forma de purificação);
2. Se a luz é redentora, o luar poderá simbolizar a caminhada da sociedade em direcção à
redenção, em busca da luz e da liberdade ...
Assim, dado que o luar permite que as pessoas possam sair de suas casas (ajudando a vencer
o medo e a insegurança na noite da cidade), quanto maior for a assistência, isso significará:
- para uns, que mais pessoas ficarão "avisadas" e o efeito dissuasor será maior. ..
- para outros, que mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade ...
3. A fogueira/o lume
Após a prisão do general, num diálogo de "tom profético" e com a "voz triste" (segundo a
didascalia), o Antigo Soldado, acabrunhado, afirma:
Prenderam o general ... Para nós, a noite ainda ficou mais escura ...
A resposta ambígua do 1.0
Popular pode assumir também um carácter de profecia e de
esperança:
É por pouco tempo, amigo. Espera pelo clarão das fogueiras ...
Matilde, ao afirmar que aquela fogueira de S. Julião da Barra ainda havia de "incendiar esta
terra!" mostra que a chama se mantém viva e que a liberdade há-de chegar ...
4. A moeda de cinco réis
Símbolo do desrespeito (dos mais poderosos em relação aos mais desfavorecidos) apresenta-se
como represália, quase vingança, quando Manuel manda Rita dar a moeda a Matilde.
5. Os tambores
Símbolo da repressão, provocam o medo e prenunciam a ambiência trágica da acção.
['I Chevalier e Gheerbrant (19821. Dictionnaire des Symbo/es, Robert Laffont / Jupiter. Paris.
------------------------------------------_",
Linguagem
• natural, viva e maleável, utilizada como marca caracterizadora e individualizadora de alzu-
mas das personagens;
• uso de frases em latim, com conotação irónica, por aparecerem aquando da condenação e
da execução;
• frases incompletas por hesitação ou interrupção;
• marcas características do discurso oral;
• recurso frequente à ironia e ao sarcasmo.
A didascália
As didascálias, ou indicações cénicas, constituem, no seu conjunto, um texto secundário
que serve de suporte do texto dramático. Elas servem não apenas para definir a po ição. movi-
mentação ou gestos das personagens em cena, mas também para explicitar os entimentos. as
emoções ou as atitudes que devem transparecer no seu comportamento e para marcar urna
alteração no tom de voz da personagem.
A peça é rica de marcações com referências concretas (sarcasmo, ironia, escárnio. indife-
rença, galhofa, adulação, desprezo, irritação - normalmente relacionadas com o opr res:
tristeza, esperança, medo, desânimo - relacionadas com as personagens oprimidas).
As marcações são abundantes: tons de voz, movimentos, posições, cenários zestos. estuá-
rio, sons (o som dos tambores, o silêncio, a voz que fala antes de entrar no palco. um - o que
toca a rebate, o murmúrio de vozes, o toque de uma campainha, o murmúrio da multidão) e
efeitos de luz (o contraste entre escuridão e luz; os dois actos terminam em sombra. de acordo,
aliás, com o desenlace trágico).
De realçar que a peça termina ao som de fanfarra (Ouve-se ao longe uma fanfarronada ue vai
num crescendo de intensidade até cair o pano.) em oposição à luz (Desaparece o c rão da
fogueira.); no entanto, a escuridão não é total, porque "felizmente há luar".
99
Síntese
,
FELIZMENTE HA LUAR!
• Felizmente Há Luar! é um drama narrativo, de carácter social, dentro dos princípios do teatro
épico; na linha de Brecht, analisa criticamente a sociedade, mostrando a realidade com o objectivo
de levar o espectador a tomar uma posição.
• Exprime a revolta contra o poder despótico e mostra o direito e o dever da mulher e do homem
de transformarem a sociedade.
• A obra Felizmente Há Luar! é entendida como uma alegoria política. Sttau Monteiro remete o Iei-
tor/espectador para os problemas sociais e políticos de Portugal não apenas do início do século
XIX e durante o regime ditatorial do século XX, mas para todos os regimes despótico e situaçõ -
repressivas.
• Existe um paralelismo entre a acção presente na peça (a trágica apoteose do movimento liberal
oitocentista) e os contextos ideológico e sociológico do país (durante a repressão salazarísta).
• Há um mergulhar no passado onde se revisitam os acontecimentos históricos para levar o
leitor/espectador a interpretar o presente e a reflectir sobre a necessidade de lutar contra qualquer
opressão.
• Graças à distanciação histórica, denuncia um ambiente político repressivo dos inícios do sé o
XIX, para provocar a reflexão sobre um tempo de opressão e de censura que se repete no século ~
• A figura central é o general Gomes Freire de Andrade, que, mesmo ausente, condiciona a estrutura
interna da peça e o comportamento de todas as outras personagens.
• O monólogo inicial de Manuel, "o mais consciente dos populares", coloca-nos no contexto hísiõ-
rico da obra: invasões napoleónicas e protecção de Inglaterra; situação de repressão do po,o pelo
"senhores do Rossio".
• Felizmente Há Luar! é uma obra intemporal que nos remete para a luta do ser humano contra a
tirania, a injustiça e todas as formas de perseguição.
• Matilde de Melo, "a companheira de todas as horas", possuidora de uma densidade p icolõ ica
notável, aparece na obra não apenas como sonhadora, que sabe amar de verdade, mas é a persona-
gem que, corajosamente, desmascara a hipocrisia e reage contra o ódio e as injustiças. Ela acredita
na transformação da situação de opressão em que o povo vive.
• Felizmente Há Luar! significa: para os opressores (nas palavras de D. Miguel), o efeito dissuasor
das execuções; para os oprimidos (na fala de Matilde), a coragem e o estímulo para a revo la
popular contra a tirania.
• Diversos símbolos favorecem a compreensão da situação vivida e da esperança de alcançar a liber-
dade: a saia verde, a luz, a noite, a lua, a fogueira, o lume, a moeda de cinco réis, os tambores ...
• Diferentes elementos cénicos contribuem para o aumento da tensão dramática:
- a iluminação (o jogo de luzes) - evidencia personagens, situações, reacções ...
- os sons de tambores - prenunciam o ambiente de tragédia;
- os gestos e movimentações - sublinham emoções, atitudes ...
• Felizmente Há Luar! narra a luta pela liberdade no início do século XIX e serve de pretexto para
uma reflexão sobre a ditadura em Portugal no século XX. Todos os regimes opressivos, e concreta-
mente o regime salazarista, entre o início dos anos trinta e 1974, foram denunciados e contestados
pelos artistas. A literatura, a música e outras artes foram o "veículo de protesto" contra a censura.
contra a miséria, contra "uma realidade iníqua que urgia denunciar e resgatar", como dizia Fer-
nando Namora, em Sentados na Relva.
• As canções de resistência surgem, em geral, na vanguarda dos movimentos de contestação e
exprimem o sentimento de um povo que busca a liberdade. A música e a literatura, em Portuzal e
no mundo, são, com frequência, artes interventoras e de protesto, que provocam a consciência
para aceitar a mudança.
II
103
I
J
Glossário
o conflito que nasce da hybris desenvolve-se
através da peripécia (súbita alteração dos acon-
tecimentos que modifica a acção e conduz ao
desfecho), do reconhecimento (agnórise) impre-
visto que provoca a catástrofe. O desencadear da
acção dá-nos conta do sofrimento (páthos) que
se intensifica (clímax) e conduz ao desenlace. O
sofrimento age sobre os espectadores, através
dos sentimentos de terror e de piedade, para
purificar as paixões (catarse).
Na obra Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro,
a defesa da liberdade e da justiça, atitude de
rebeldia, constitui a hybris (desafio) desta tragé-
dia. Como consequência, a prisão dos conspira-
dores provocará o sofrimento (páthos) das perso-
nagens e despertará a compaixão do espectador.
O crescendo trágico, representado pelas diversas
tentativas desesperadas para obter o perdão,
acabará, em clímax, com a execução pública do
general Gomes Freíre e áos restantes presos.
Este desfecho trágico conduz a uma reflexão
purificadora (cathársis) que os opressores pre-
tendiam dissuasora, mas que despertou os opri-
midos para os valores da liberdade e da justiça.
Censura instrumento usado por regimes totalitários
para impedir que a imprensa e outros meios de
difusão de mensagens, incluindo as criativas,
como as da arte (pintura, escultura, música, tea-
tro, cinema ... ), possam pôr em causa a ideolo-
gia vigente e fomentar a consciencialização para
qualquer revolta contra o regime.
A censura fez parte integrante da nossa História,
imperou em muitos períodos, constituiu uma
arma de defesa da Igreja e do Estado.
A luta contra a censura foi feita através da
Imprensa escrita, em suplementos literários ou
juvenis, nas tertúlias, na imprensa clandestina ...
mas só a revolução de Abril de 1974 pôs fim à
censura em Portugal.
Conselho de Regência a nova ordem política trazida
pela Revolução Francesa de 1789 e as invasões
napoleónicas abalam o Ocidente da Europa. Só
a Inglaterra resiste ao imperador Napoleão
Bonaparte, arrastando Portugal para uma posi-
ção de indecisão entre este aliado e a França.
Por isso, em 29 de Novembro de 1807, com as
tropas de Junot às portas de Lisboa, D. João VI,
com a família real portuguesa e um imenso
séquito de fidalgos, altos funcionários e milita-
res, embarca apressadamente para o Brasil para
evitar a capitulação.
Dias antes de partir para o Brasil, o Príncipe
Regente D. João nomeara um Conselho de Regên-
cia, para governar Portugal na sua ausência.
Didascália (do grego didashália = instrução, ensina-
mento) as didascálias eram, na Antiga Grécia, as
instruções que os poetas dramáticos davam aos
actores para a representação cénica; por vezes,
designavam as próprias representações teatrais
ou festivais trágicos. Actualmente, por extensão,
incluem diversas informações: a listagem inicial
de personagens; a indicação do nome da perso-
nagem antes de cada fala; anotações sobre a
estrutura externa da obra; referências aos adere-
ços que compõem o espaço cénico; informações
sobre tom de voz, gestos, atitudes; o momento
da entrada em cena e o percurso a realizar; indi-
cações sobre o guarda-roupa; (oo.).
Hybris termo grego que significa o desafio, o crime
do excesso e do ultraje. Traduz-se num compor-
tamento de provocação aos deuses e à ordem
estabelecida.
A hybris revela um sentimento de arrogância, de
soberba e de orgulho, que leva os heróis da tragé-
dia à insubmissão e à violaçâo das leis dos deu-
ses, da pólis (cidade), da família ou da natureza.
104
Inquisição também conhecida por Tribunal do Santo
Ofício, foi criada pelo Papa Gregório IX, no
século XIII, para combater as heresias religiosas
que apareciam pela Europa. Foi confiada aos
jesuítas e aos dominicanos, mas na dependência
da Santa Sé. Este tribunal instalou-se, no século
XIII, em Espanha, na Alemanha, em França e,
no século XVI, no reinado de D. João III, em
Portugal.
Com frequência, serviu o poder instituído,
embora a sua acção fosse orientada para o com-
bate às várias heresias e desvios religiosos,
incluindo a censura aos livros, às práticas de
adivinhação e feitiçaria, à bigamia. Com o
decorrer do tempo passou a ter influência em
todos os sectores da vida social, política e cultu-
ral, e desde que houvesse uma denúncia o acu-
sado estava sujeito a toda a sorte de torturas físi-
cas e mentais, incluindo a perda de bens e a
morte. Os judeus e os mouros foram o principal
alvo dos inquisidores, mas outras pessoas sofre-
ram igualmente a perseguição.
A força do Tribunal do Santo Ofício era enorme,
mas acabou por criar conflitos entre os reis e os
jesuítas, até que em 1821 foi extinto.
Jacobinismo diz respeito às doutrinas e ideias dos
jacobinos (do francês jacobin) da Revolução
Francesa e dos democratas radicais, simpatizan-
tes dos seus princípios.
Glossário
105
Os termos jacobino ejacobinismo adquirem, entre-
tanto, uma carga pejorativa quando surgem na
acepção de republicanismo revolucionário levado ao
extremo. Foi isso que sucedeu com a política de
terror, cujas principais figuras foram Robespierre,
Georges Danton, Saint-just e Georges Couthon.
Jacobino termo que surge durante a Revolução
Francesa atribuído aos membros de um grupo
político republicano com sede no antigo con-
vento de jacobinos (nome dado a religiosos
dominicanos de um convento da Rue de Saint-
-lacques, em Paris, que em latim se diz Sanctus
[acobus). Mais tarde, e por extensão, passa a sig-
nificar membro de um partido dito democrático,
frequentemente inimigo da religião.
Os jacobinos politicamente representavam os
sans-culottes (os pobres, assim chamados por
não usarem, como os nobres, os calções curtos
com meias), e pequena burguesia. Depois de
aceitarem a monarquia constitucional e após a
fuga do rei, tornaram-se ardorosos defensores
de uma república revolucionária.
Obscurantismo significa estado de quem se encontra
na escuridão, de quem vive na ignorãncia. É, a
nível social, político e cultural, o sistema que
nega a instrução e o conhecimento às pessoas
com a consequente ausência de progresso inte-
lectual ou material.
Os estados totalitários e as grandes religiões na
luta pelo poder recorreram, muitas vezes, a prá-
ticas obscurantistas, sacrificando os povos e o
progresso civilizacional. São muitos os exem-
plos que a História nos oferece e que levaram a
perseguições e outros crimes para preservar o
estado de ignorância e facilitar o poder das insti-
tuições. O fanatismo religioso ao longo dos tem-
pos, a Inquisição, as guerras étnicas, diversas
ditaduras e muitas outras práticas totalitárias
são exemplo do obscurantismo.
Real (moeda) e réis (moeda) (no plural réis ou reais) é
uma antiga moeda nominal ou de conta que foi
unidade do sistema monetário em Portuzal
desde o início da segunda Dinastia até à implan-
tação da República (em 1910), sendo então
substituído pelo escudo e este, a partir do ano
2002, pelo euro (= 200,482 escudo ). O termo
réis continuou a ser utilizado quando se desig-
nava, por exemplo, "dois contos de réís" em vez
de dois mil escudos (2000$00) cerca de 10
euros (lO €).
O real, desde a colonização, passou também. a
ser moeda do Brasil, embora tenha alternado
com cruzeiros e cruzados.
Era a seguinte a leitura do real: 001 - um real
$500 - quinhentos réis; 2$000 - dois mil réis:
20$000 - vinte mil réis; 2000 000 - dois conto
de réis.

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Felizmente há Luar

  • 1. ·,,, Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro Felizmente Há Luar! de Sttau Monteiro recria em dois actos a tentativa frustrada de revolta liberal de Outubro de 1817, reprimida pelo poder absolutista do regime de Beresford e Miguel Forjaz, com o apoio da Igreja. Ao mesmo tempo, chama a atenção para as injustiças, a repressão e as perseguições políticas no tempo de Sala- zar. nos anos 60 do século XX (tempo da escrita). A acção em Felizmente Há Luar! centra-se na figura do general Gomes Freire de Andrade e sua execução, mostrando, ao mesmo tempo, a resignação do povo, dominado pela miséria, pelo medo e pela ignorância. Gomes Freire "está sempre presentê embora nunca apa- reça" (didascália inicial) e, mesmo ausente, condiciona a estrutura interna da peça e o comportamento de todas as outras personagens. O protagonista é construído através da esperança do povo, das perseguições dos governadores e da revolta impotente da sua mulher e dos seus amigos. Amado por uns, é odiado pelos que temem perder o poder. Gomes Freire é acusado de chefe da revolta, de estrangeirado e grão-mestre da Maçonaria, por ser um soldado brilhante e idolatrado pelo povo. Os governan- tes - Miguel Forjaz, Beresford e Principal Sousa - per- seguem, prendem e mandam executar o general e os restantes conspiradores através da morte na fogueira. Para eles, aquela execução, à noite, constituía uma forma de avisar, de dissuadir outros revoltosos; para Matilde de Meio, a mulher do general, e para mais pes- soas era uma luz a seguir na luta pela liberdade. Dentro dos princípios do teatro épico, Felizmente Há Luar! é um drama narrativo que analisa criticamente a sociedade, apresentando a realidade com o objectivo de levar o espectador a tomar uma posição. Graças ao efeito de estranheza e à distanciação histórica, retrata a trágica apoteose do movimento liberal oitocentista, em Portugal, e interpreta as condições da sociedade portu- guesa do início do século XIX. Com a denúncia do ambiente político repressivo daquela época, tenta pro- vocar a reflexão sobre a opressão e a censura que se repete no século XX. Luís Infante de Lacerda Sttau Mon ei Lisboa - 23-07-1993, id.L dramaturgo e mfTtrlr·r<;~~ meu-se em Direito, mas optou pelo jorna . passado em Inglaterra, durante a juvent " -lhe o contacto com movimentos de va 9 ;: ~- - tura anglo-saxónica e foram fundamenta" ção intelectual. As suas sátiras sobre a ._-:_:0:: __ : a colonial tornaram-no objecto de perse levaram-no à prisão. Felizmente Há Luar! recupera acornec cio do século XIX, para servirem de de ' social e política do país dos anos 60, PC replica a expressão do governador D. jaz, que, numa carta ao intendente da com "felizmente, havia luar" a morosi a ~ 'U~) ",_-=,,,-.~~~:,,,. As personagens psicologicamente s comentários irónicos e mordazes, a de ' _;: da sociedade e a defesa intransige são características marcantes da sua ra A peça em dois actos Felizmente -2 _ - em 1961 e com a qual Sttau Montei o _- Prémio de Teatro da Associação Portu =:= s:: foi suprimida pela censura da ditadura. -s =:: primeira vez em 1969, em Paris, só c ,,_= portugueses em 1978, no Teatro Naci próprio autor. 85
  • 2. Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de Luísde Sttau Monteiro Carácter épico da peça Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, é um drama narrativo, de carácter social, den- tro dos princípios do teatro épico. Na linha do teatro de Bertolt Brecht'", exprime a revolta contra o poder e a convicção de que é necessário mostrar o mundo e o homem em constante devir. Defende as capacidades do ser humano que tem o direito e o dever de transformar o mundo em que vive. Por isso, oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. Como drama narrativo pressupõe uma acção apresentada ao espectador e com possibilidade de ser vivida por ele, mas, sobretudo, procura a sua conivência ou participação testemunhal. O carácter narrativo é sinónimo de épico ao contar determinados acontecimentos que devem ser interpretados, reflectidos e julgados pelo espectador, enquanto elemento de uma sociedade. Ele deve, assim, analisar e julgar o homem no seu devir histórico, na sua situação social, que pode modificar-se e modificar o curso da História. Observando Felizmente Há Luar!, verificamos que são estes os objectivos de Luís de Sttau Monteiro, que evoca situações e personagens do passado usando-as como pretexto para falar do presente. Escrita em 1961, surge como máscara para que se possa tirar exemplo num pre- sente ditatorial. Mas mais do que fazer a ligação entre dois momentos - o início do século XIX e o século XX - a sua intemporalidade remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição. Diz Luís de Sttau Monteiro, no Programa de estreia no Teatro Nacional D. Maria II (1978), "Vai haver sempre gente como a Matilde, o Gomes Freire, o Sousa Falcão e o Manuel e o avançar para o futuro vai depender, sempre, da existência de homens capazes de entender, em cada dia o dia seguinte. O presente - <qualquer presente - é sempre uma batalha entre esses e aqueles que recusam o dia de amanhã - aqueles que em 1817 desempenharam os papéis de D. Miguel Pereira Forjaz e do principal Sousa, mas que dão por outros nomes em outros momentos históricos". Observe-se, a propósito, o diálogo entre Matilde (a esposa do general Gomes Freire) e Beresford, o representante do domínio britânico: Matilde Venhopedir-lhe que o liberte. É-me indiferente que o faça por favor, por clemência ou por qualquer outro motivo. Às mulheres, senhor, pouco interessa a justiça das causas que levam os seus homens a afastar-se delas, A injustiça e a tirania, só as sente quem anda na rua, que é homem ou quer ser homem. (Pausa) ( ...) Beresford Eporque pensa que devo fazer o que pede 7 Matilde Porque é o comandante do exército, governador do Reino e... porque sabe que ele não cometeu qualquer crime. Beresford A simples existência de certos homens é já um crime. (Começam a ouvir-se sinos ao longe) 111 Bertolt Brecht (1898-1956)- poeta e dramaturgo alemão, exerceu uma grande influência no teatro contemporâneo, Perseguido, criticado e discutido den- tro e fora do País. pelas suas ideias marxistas, só vê o seu nome reconhecido na terra natal dois anos antes de morrer, quando o seu grupo de teatro - o 8erliner Ensemble - faz a sua primeira grande viagem pela Europa. A sua obra, claramente social. coloca em palco a luta dos oprimidos. 8reviário do Tea- tro, publicado em 1949. surge como uma espécie de tratado sobre os princípios do teatro épico, Da sua obra, merecem também realce Ópera dos Três Vin- téns, Mãe Coragem ou O Círculo de Giz Caucasiano. 86
  • 3. Sequência 3 Felizmente Há Luar'. de Luís de Sttau Monteiro Neste excerto, o conflito interior de Matilde exprime-se na própria anulação das suas con- vicções para conseguir a libertação do marido, que é vítima da injustiça. Mas note-se, princi- palmente, a afirmação do general Beresford, para quem "a simples existência de certos homens é já um crime". O dramaturgo, através do cenário, dos gestos e das palavras, ou das informações das didas- cálias, procura levar o público a entender de forma clara o sentido da mensagem. Neste frag- mento da obra, o sarcasmo e a ironia ou a amargura e o desespero que opõem estas duas perso- nagens, tal como sucede com outros sentimentos e comportamentos, são elementos fundamentais para a análise da situação e para que o espectador tome posição. Felizmente Há Luar! destaca a preocupação com o homem e o seu destino; realça a luta con- tra a miséria e a alienação; denuncia a ausência de moral; alerta para a necessidade de uma superação com o surgimento de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do Homem. "Trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista A nova ordem política trazida pela Revolução Francesa de 1789 e as invasões napoleónicas abalam o Ocidente da Europa. Só a Inglaterra resiste ao imperador Napoleão Bonaparte, arras- tando Portugal para uma posição de indecisão entre este aliado e a França. Por isso, em 29 de Novembro de 1807, com as tropas de Junot às portas de Lisboa, D. João VI, com a família real portuguesa e um imenso séquito de fidalgos, altos funcionários e militares, embarca apressada- mente para o Brasil para evitar a capitulação. No ano seguinte, o governo, sediado no Brasil, .invade a Guiana Francesa como represália, obrigando o seu governador a capitular e a retirar- -se para a Europa. Depois da primeira invasão, a Corte pede ao governo inglês um oficial para reorganizar o exército. Surge, então, o general Beresford, que é nomeado generalíssimo do exército portu- guês, quando o País sofre a invasão das forças comandadas pelo general Soult. Deve-se também a ele o êxito contra a terceira invasão, chefiada por Massena. Após as invasões, Beresford vê os seus poderes consolidados, mas começa a atrair inimigos que ou se vêem discriminados em cargos militares e públicos ou defendem ideias liberais. Começa então uma acção repressiva, nomeadamente contra conspiradores, agrupados em sociedades secretas. Por isso, quando em 1815, o general Gomes Freire de Andrade chega a Lisboa, o intendente da Polícia avisa Beresford da simpatia do povo e do ambiente de conspira- ção que se respira. Mas o generalíssimo inglês, regressado do Brasil com poderes acima da Junta de Regência, que D. João VI lhe conferira, decide descobrir os conspiradores, execu- tando-os. É neste processo que Gomes Freire, considerado como chefe da conspiração, se vê envolvido e condenado à morte, no dia 18 de Outubro de 1817, no campo de Alqueidão, junto aS. Julião da Barra. Os outros condenados são enforcados nessa mesma manhã, no Campo de Santana, que, em sua memória, se designa por Campo dos Mártires da Pátria. Esta acção em vez de amedrontar o povo incentivou-o. O general Gomes Freire de Andrade e os outros condenados tornam-se assim os pioneiros do movimento que em 1820 provoca a revolução liberal no Porto e o levantamento em Lisboa. O já marechal-general Beresford, que fora ao Brasil pedir mais poder a D. João VI, acaba por ser impedido de desembarcar por uma Junta Provisional (24 de Agosto de 1820). Felizmente Há Luar!, como afirma Luciana Stegagno Picchio, ao retratar a conspiração, encabeçada pelo Gomes Freire de Andrade, que se manifestava contrária à presença inglesa e à ausência da corte no Brasil, constitui uma "trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista em Portugal. 88
  • 4. -------------------------------------------'," o ambiente epocal é referido claramente na peça através das palavras de Manuel "o mais consciente dos populares": Manuel Vê-se a gente livre dos Franceses e zás!, cai na mão dos Inglesesl E agora? Se acabamos com os Ingleses, ficamos na mão dos reis do Rossio... Entre os três o diabo que escolha ... Numa única fala, coloca-se em destaque a situação do povo oprimido: as Invasões France- sas; a "protecção" britânica, iniciada após a retirada do rei D. João VI para o Brasil.; a falta de perspectivas de futuro, clarificada logo de seguida: E enquanto eles andam para trás e para a frente, para a esquerda e para a direita, nós não pa s do mesmo sítio! Mas a conspiração não sufocou a história dos movimentos liberais, antes os imp sionou. Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde, "companheira de todas as ho -- do general Gomes Freire, são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania dos governantes: Matilde Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensine. Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim ... (Pausa) Felizmente - felizmente há luar! Como se pode observar, o general Gomes Freire e mais onze companheiro . acusado de conspirar contra Beresford e o governo vigente, tornaram-se, pela sua morte trázica, no QTaIl- des precursores do liberalismo português. Em Felizmente Há Luar!, Luís de ttau _:onteiro socorre-se da figura do general Gomes Freire de Andrade, que está presente embora se apare- cer em cena, para debater a situação do povo que vive na miséria e dependente es dominantes. Recorrendo ao teatro épico, coloca em palco essas primeiras manifestaçõ ciais e políticas que levaram à revolução liberal, para que o espectador se posicione cri icamente, mas estranho à acção, como sucedia no teatro clássico preocupado em despertar 0- - nrimen- tos e as emoções no público. "Trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista, Felizmente Há =-uar! inter- preta as condições da sociedade portuguesa do início do século XIX e a revolta dos mais esclare- cidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas, contra o poder absolutista e tirânico dos governadores e do generalíssimo Beresford. Para que o movimento liberal se conere . e de:::.assete anos depois, é necessária a morte de Gomes Freire de Andrade e dos seus companheiros. mas também de muitos outros portugueses que em nome dos seus ideais são sacrificado pela Pátria. Conspiradores e traidores para o poder e para as classes dominantes, que sentem os seus prívilé- gios ameaçados, são os grandes heróis de que o povo necessita para reclamar justiça. díznídade e pão. Por isso, as suas mortes, em vez de amedrontar, tornam-se estímulo. A fozueira acesa na noite para queimar Gomes Freire de Andrade, que os governadores querem que seja dissuasora, torna-se farol ou luz para que outros lutem pela liberdade. A consequência da morte do seneral pode ser comparada à da crucificação de Cristo na medida em que há uma propagação da espe- rança. Gomes Freire, aliás, é uma figura messiãnica, frequentemente relacionada com Cristo como se observa nas palavras de Beresford, que afirma ser necessário alguém 'a quem valha a pena crucificar", ou de Matilde, que apelida o Principal Sousa de ]udas, entregando-lhe a moeda. 89
  • 5. Distanciação histórica (técnica realista - influência de Brecht) Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro Brecht, nos seus Estudos sobre Teatro, fala do efeito de estranheza e de distanciação que o recurso à História ou a um processo de construção de parábolas permite reflectir sobre uma realidade próxima. Brecht propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juí- zos de valor sobre o que está a ser representado. O actor deve, lucidamente, saber utilizar o "gesto social", examinando as contradições da personagem e as suas possíveis mudanças, que lhe permitam acentuar o desfasamento entre o seu comportamento e o que representa. Isto permite ao público espectador uma correspondente distanciação da história narrada e, conse- quentemente, uma possível tomada de consciência crítica, aprendendo o prazer da compreen- são do real, a sua situação na sociedade e as tarefas que pode realizar para ser ele próprio. Este efeito de estranheza e de distanciação acaba por ter um efeito de aproximação entre o actor e o espectador, na medida em que os dois se distanciam em relação à história narrada e podem, como pessoas reais, discutir o que se passa em palco. Ao contrário do teatro clássico, não há um efeito alucinatório ou hipnótico que permita tomar a representação pela própria realidade. Afirma Bertolt Brecht (in Estudos sobre Teatro): "O espectador do teatro dramático diz: - Sim, eu já senti isso. - Eu sou assim. - O sofrimento deste homem comove-me, pois é irremediável. É uma coisa natural. - Será sempre assim. - Isto é que é arte! Tudo ali é evidente. - Choro com os que choram e rio com os que riem. O espectador do teatro épico diz: - Isso é que eu nunca pensaria. - Não é assim que se deve fazer. - Que coisa extraordinária, quase inacreditável. - Isto tem de acabar. - O sofrimento deste homem comove-me, porque seria remediável. - Isto é que é arte! Nada ali é evidente. - Rio de quem chora e choro com os que riem." O teatro épico proposto por Brecht contrapõe-se à tragédia clássica para melhor conseguir o efeito social, tal como tentara no recurso à balada em vez do canto lírico. Enquanto o teatro clássico conduz o público à ilusão e à emoção, levando-o a confundir o que é a arte com a vida real, no teatro épico a "distanciação" deve permitir o envolvimento do espectador no julga- mento da sociedade. Por isso, o teatro épico implica comprometimento, crítica contra o indivi- dualismo, consciencialização perante o sofrimento dos outros e a realidade social. Deve, na sua tarefa pedagógica, instruir os espectadores na verdade e incitá-los a actuar, alertando-os para a condição humana. O espectador deve ter um olhar crítico para se aperceber melhor de todas as formas de injustiças e de opressões. Em Felizmente Há Luar!, o tempo, o espaço e as personagens são trabalhados de modo a que a distanciação se concretize, recorrendo, muitas vezes, a um historiar dos acontecimentos representados e ao acentuar da precisão do lugar cénico. É o que se nota, por exemplo, logo no início: Vicente (Calça o sapato e levanta-se.) las, ias. Ias perguntar-me se foi por dinheiro que eu me virei contra os meus ... Era ou não era isso que me ias perguntar? 1.° Polícia Na verdade ... Vicente Pois respondo-te, amigo. Respondo-te de boa vontade. (Começa a passear em frente dos polícias.) 90
  • 6. t ---------------~ ~',,, -------------------------------------------"". Felizmente Há Luar' Sublinhe-se, de forma especial, a preocupação do dramaturgo com a distanciação quando através da didascália nos informa que "Todos os seus gestos são estudados. Sente-se que passou longas horas estudando os hábitos e os maneirismos dos membros da classe a que desejaria ter pertencido. Ao falar, faz gestos com as mãos, gestos lentos, precisos, copiados de um fidalgo qualquer que teve ocasião de observar de perto". Ao dramaturgo interessa-lhe que o actor se revele lúcido e, sobretudo, que o espectador se con- fronte e se esclareça, partindo da identificação inicial de dois tempos e dois mundos diferentes. Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60: denúncia da violência Felizmente Há Luar! tem como cenário o ambiente político dos inícios do século XIX: em 1817, uma conspiração, encabeçada pelo general Gomes Freire de Andrade, que pretendia o regresso do Brasil do rei D. João VI e que se manifestava contrária à presença inglesa, foi desco- berta e reprimida com muita severidade: os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir. .. Luís de Sttau Monteiro marca uma posição, pelo conteúdo fortemente ideológico, e denuncia a opressão vivida na época em que escreveu a obra (1961), precisamente sob a ditadura de Salazar. o recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX em que decorre a acção permitiu-lhe, assim, colocar também em destaque as injustiças do seu tempo e a necessidade de lutar pela liberdade. Fala como um alucinado, com frequentes pau- sas, que dão a entender não ser esta a primeira vez que pensa no assunto. Ao falar da cara, levanta-se, assumindo a posi- ção de um senador romano. Alarga os passos. Todos os seus gestos são estudados. Sente-se que passou longas horas estudando os hábitos e os maneirismos dos membros da classe a que desejaria ter perten- cido. Ao falar, faz gestos com as mãos, gestos lentos, precisos, copiados de um fidalgo qual- quer que teve ocasião de observar de perto. De repente, olha para os polícias e compreende que está a dizer coisas que não deveria ter dito. Fecha as mãos. Domina-se. Adopta um tom de voz ironicamente piedoso. É verdade que nasci aqui e a fome desta gente é a minha fome, mas... é igualmente verdade que os odeio, que sempre que olho para eles me vejo a mim próprio: sujo, esfomeado, condenado à miséria por acidente de nascimento. (Estaca no palco e toma uma posição de pessoa importante, de fidalgo retratado por um artista medíocre do paço.) Que diferença há entre mim e um fidalgo qualquer? Será que tenho uma cara diferente? Será que sou mais estúpido? Mais baixo? Mais alto? Serão as minhas pernas e os meus braços diferentes das pernas e dos braços de um desses fidalgotes das touradas? Não, meus amigos. A única coisa que me distingue de um fidalgo é uma coisa que se passou há muitos anos e de que nem sequer tive a culpa: o meu nascimento. (Pausa) Nasci a dois passos daqui, numa trapeira em que nenhum fidalgo entraria. Quando passo lá à porta, só Deus sabe o que sinto ... É por isso que odeio esta cambada a que pertenço, mas a que pertenço sem querer e com quem não tenho nada de comum! Mas vocês não podem perceber isto... (Cai em si] Tenho estado a brincar, amigos. Querem saber porque vendo os meus irmãos? Pois vendo-os por amor a N. S. Jesus Cristo e a el-rei D. João VI, que há tantos anos anda pelos Brasis cuidando dos nossos interesses ... (Ri-se.) 91
  • 7. Sequência 3 Felizmente Há Luar', de Luís de Sttau Monteiro Em Felizmente Há Luar!, podemos, neste paralelismo entre duas épocas, observar: Tempo da história - século XIX -1817 Tempo da escrita - século XX -1961 • Agitação social que levou à revolta liberal de 1820- conspirações internas; revolta contra a presença da Corte no Brasil e a influência do exército britânico; • Agitação social dos anos 60 - conspirações internas; principal irrupção da guerra colonial; • Regime absolutista e tirânico; • Regime ditatorial de Salazar; • Classes sociais fortemente hierarquizadas; • Classes dominantes com medo de perder privilégios; • Maior desigualdade entre abastados e pobres; • Classes exploradoras, com reforço do seu poder; • Povo oprimido e resignado; • A "miséria, o medo e a ignorância"; • Obscurantismo, mas "felizmente há luar"; • Povo reprimido e explorado; • Miséria, medo e analfabetismo; • Obscurantismo, mas crença nas mudanças; • Luta contra a opressão do regime absolutista; • Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia a opressão e a miséria; • Perseguições dos agentes de Beresford; • As denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento que, hipócritas e sem escrúpulos, denunciam; • Censura à imprensa; • Severa repressão dos conspiradores; • Processos sumários e pena de morte; • Luta contra o regime totalitário e ditatorial; • Agitação social e política com militantes antifascistas a protestarem; • Perseguições da PIDE; • Denúncias dos chamados "bufos", que surgem na sombra e se disfarçam, para colher informações e denunciar; • Censura; • Prisão e duras medidas de repressão e de tortura; • Condenação em processos sem provas; • Execução do general Gomes Freire, em 1817. Em Felizmente Há Luar! percebe-se, facilmente, que a história serve de pretexto para uma reflexão sobre os anos 60, do século XX. Sttau Monteiro, também ele perseguido pela PIDE, denuncia assim a situação portuguesa, durante o regime de Salazar, interpretando as condições históricas que anos mais tarde contribuiriam para a "Revolução dos Cravos", em 25 de Abril de 1974. Tal como a agitação e conspiração de 1817, em vez de desaparecer com medo dos opres- sores, permitiu o triunfo do liberalismo em 1834, após uma guerra civil, também a oposição ao regime vigente nos anos 60, em vez de ceder perante a ameaça e a mordaça, resistiu e levou à implantação da democracia. A acção • Posterior a Felizmente Há Luar' - Execução do general Humberto Delgado, em 1965. Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, recria em dois actos a tentativa frustrada de revolta liberal de Outubro de 1817, reprimida pelo poder absolutista do regime de Beresford e Miguel Forjaz, com o apoio da Igreja. Ao mesmo tempo, chama a atenção para as injustiças, a repres- são e as perseguições políticas no tempo de Salazar, nos anos 60 do século XX (tempo da escrita). A acção em Felizmente Há Luar! centra-se na figura do general Gomes Freire de Andrade e da sua execução: da prisão à fogueira, com descrições da perseguição dos governadores do Reino, da revolta desesperada e impotente da sua esposa e da resignação do povo que a "miséria, o 92
  • 8. ,~ --.- Felizmente Há lusrt -----------------------------------------'-.., medo e a ignorância" dominam. Gomes Freire de Andrade "está sempre presente embora nunca apareça" (didascália inicial) e, mesmo ausente, condiciona a estrutura interna da peça e o com- portamento de todas as outras personagens. A defesa da liberdade e da justiça, atitude de rebeldia, constitui a hybris (desafio) desta tra- gédia. Como consequência, a prisão dos conspiradores provocará o sofrimento (páthos) das personagens e despertará a compaixão do espectador. O crescendo trágico, representado pelas diversas tentativas desesperadas para obter o perdão, acabará, em clímax, com a execução pública do general Gomes Freire e dos restantes presos. Este desfecho trágico conduz a uma reflexão purificadora (cathársis) que os opressores pre- tendiam dissuasora, mas que despertou os oprimidos para os valores da liberdade e da justiça. As personalidades (a História) D. João VI, o Clemente (1767-1826) - filho de D. Maria I e de D. Pedro I1I, em 1785 contraiu matrimónio com D. Carlota joaquina, que tinha apenas 10 anos. Assumiu a governação em 1792 por doença da rainha; em 1799 torna-se, de direito, regente do Reino; em 1816, ocupa o trono. Devido às Invasões Francesas, e à vista das tropas de junot, em 1807, refugiou-se com a Corte no Brasil, que vem a ser reconhecido como Reino em 1815. Regressou a Portugal devido à revolução liberal do Porto, de 1820, assinando a Constituição em 1822. Nesse mesmo ano, em 7 de etem- bro, o seu filho D. Pedro viria a proclamar a independência do Brasil, nas margens do rio Ipi- ranga. Por causa da sublevação denominada Vila-Franca da (em 27 de Maio de 1823) e da Abri- lada (em Abril de 1824), vê-se obrigado a desterrar a rainha e a exilar o filho D. Miguel. Morre em 10 de Março de 1826, em Lisboa. D. Carlota Joaquina (1775-1830) - filha de Carlos IV de Espanha, nasceu em Aranjuez. em 1775, e faleceu em Queluz, em 1830. Casada com o rei de Portugal D. João VI, torna- e rainha de Portugal. Mãe do futuro rei D. Miguel, recusa-se a jurar a Constituição de 1822. Rei D. Miguel (1802-1866) - filho de D. João VI e irmão de D. Pedro IV O Infante D. Miguel nasceu em Queluz a 26 de Outubro de 1802 e morreu a 14 de Novembro de 1866. Foi o trigé- simo rei de Portugal, mas o seu reinado foi efémero e atribulado. D. Miguel foi cognominado o Usurpado r, por ter aceite a proposta do seu irmão D. Pedro IV de governar o País de acordo com as leis liberais, mas, vendo-se em Lisboa, rapidamente esqueceu a promessa e decidiu tor- nar-se rei absolutista. Esta atitude veio a causar a guerra civil. Já em Abril de 182 desenca- deara uma sublevação militar que ficou conhecida por Abrilada. Visava a salvação do reino dos possíveis perigos do liberalismo e pretendia reforçar o Absolutismo. O rei D. João 1, com o apoio do corpo diplomático, desautorizou D. Miguel, retirando-lhe o cargo de comandante do exército e obrigando-o a escolher o exílio. Gomes Freire de Andrade (1757-1817) - General português, nascido em 1757 em Viena de Áustria. Seguiu a vida militar depois de ter vindo para Portugal aos 24 anos. Combateu em Argel (1784), na Rússia (1788), na Guerra das Laranjas (1801) e na Guerra Peninsular só dei- xando a carreira das armas após a derrota de Napoleão em 1814, altura em que voltou a Portu- gal e foi preso, acusado de ter participado na terceira invasão francesa; foi reabilitado dessa acusação, mas obrigado a residência fixa em Lisboa. Ligado aos ideais progressistas e membro da Maçonaria (grão-mestre a partir de 1816) foi acusado de participar na conspiração de 1817, que punha em causa a ausência da corte de D. João VI no Brasil, a presença militar inglesa no país e a grave situação económica que então se vivia. A conjura foi descoberta e reprimida com muita severidade. Os conspiradores acusa- dos de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir. 93
  • 9. 94 Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de luís de Sttau Monteiro o general Gomes Freire de Andrade, o cabecilha, foi enforcado, no forte de S. julião da Barra, e depois queimado. Mas o fermento da revolução estava lançado e iria dar fruto no dia 24 de Agosto de 1820, com a revolução liberal.. Conselho de Regência - Dias antes de partir para o Brasil, devido às Invasões Francesas, o príncipe regente D, João (futuro rei D. João VI) nomeara um Conselho de Regência, para governar Portugal na sua ausência. Dissolvido em Fevereiro de 1808, o Conselho de Regência foi restabelecido em Setembro. Para além do marechal Beresford (responsável pela reorganiza- ção do exército), faziam parte deste Conselho de Regência D. Miguel Pereira Forjaz (represen- tante da nobreza) e o Principal Sousa (representante do clero). William Beresford (1768-1854) - General inglês, severo e disciplinador, enviado pela Grã- -Bretanha para reorganizar o exército português (após a primeira invasão francesa), prepa- rando-o para resistir às tropas napoleónicas. Fora governador e comandante-chefe, durante seis meses, na Madeira, para evitar a ocupação da ilha pelos franceses. A 7 de Março de 1809, foi nomeado generalíssimo do exército português e foi consolidando e aumentando os seus poderes. Rejeitava as novas ideias liberais, imaginava conspirações e reprimia-as severamente; para além disso, enquanto submetia o país a uma forte organização militar, ia colocando os oficiais britânicos nos mais altos postos, preterindo os oficiais portu- gueses; criou, pois, muitos inimigos. Em 1817, após rumores de uma conspiração que pretendia o regresso do rei e que se mani- festava contrária à presença inglesa, mandou matar os conspiradores (entre eles o general Gomes Freire de Andrade). Em 1820, deslocou-se, pela segunda vez, ao Brasil para pedir mais poder a D. João VI; ao regressar, como marechal-general do exército português, já a revolução liberal (24 de Agosto de 1820) estava nas ruas e foi obrigado a regressar directamente a Inglaterra. D. Miguel Pereira Forjaz (1769-1827) - entrou para o exército em 1785. Promovido a alferes em 1787, foi sucessivamente capitão, major e capitão-general. Apoiou Beresford na reorganiza- ção do exército português, embora assumindo posições cada vez mais críticas sobre a influên- cia do general britânico. Com a revolução de 1820, abandonou o seu lugar na regência, mas recebeu o título de Conde da Feira. Representante da nobreza na regência, assume o papel principal na acusação do general Gomes Freire pois receia que o prestígio, inteligência e capacidade deste lhe retirem a projec- ção a que está habituado e coloquem em causa o seu lugar na regência. Principal Sousa - D. José António de Meneses e Sousa Coutinho era irmão do Ministro do Rei, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, primeiro-conde de Unhares, e do conde do Funchal, Domin- gos de Sousa Coutinho, embaixador em Londres, que negociou a ajuda inglesa contra os inva- sores franceses. Em Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, é ao primeiro destes irmãos que se refere, quando afirma: "Agora me lembro de que há anos, em Campo d'Ourique, Gomes Freire preju- dicou muito a meu irmão Rodrigo" (Acto 1). Durante a ausência do Rei D. João VI, no Brasil, fez parte da Regência do Reino até ao pro- nunciamento de 24 de Agosto de 1820. Representante do clero na regência com D. Miguel Forjaz e com o general Beresford, o Prin- cipal Sousa reconhece que Portugal necessitava do regresso do rei, como o demonstra em carta de 1 de Junho de 1817, quando diz "só a Real Presença dará a felicidade a este povo e poderá regenerar esta Nação que não aspira por outra fortuna que a de ver Vossa Majestade".
  • 10. Felizmente Há Luar! -------------------------------------------," As personagens (a ficção) Gomes Freire - figura carismática, que preocupa os poderosos, acredita na justiça e luta pela liberdade e arrasta os pequenos. Considerado um "estrangeirado", revela-se simpatizante das novas ideias liberais, tornando-se para os governantes um elemento subversivo e perigoso. O povo elege-o como símbolo da luta pela liberdade, o que é incómodo para os "reis do Ros- sio". Daí a decisão dos governantes pelo enforcamento, seguido da queima, para servir de exemplo a todos aqueles que tentem afrontar o poder político. D. Miguel Forjaz - primo de Gomes Freire, prepotente, assustado com transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio, desumano, calculista; nas palavras de Sousa Falcão, D. Miguel "é a personificação da mediocridade consciente e rancorosa". Principal Sousa - fanático, corrompido pelo poder eclesiástico, odeia os Franceses porque "transformaram esta terra de gente pobre mas feliz num antro de revoltados!"; afirma, preocu- pado, que "Por essas aldeias fora é cada vez menor o número dos que frequentam as igrejas e cada vez maior o número dos que só pensam em aprender a ler ... ". Beresford - poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico; a sua opinião sobre Portugal fica claramente expressa na afirmação "Neste país de intrigas e de traições só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum e eu posso transformar-me nesse inimigo comum, se não tiver cuidado." Vicente - demagogo, sarcástico, falso humanitarista, movido pelo interesse da recompensa material, adulador no momento oportuno, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado capaz de recorrer à traição para ser promovido socialmente ... Autocaracteriza-se quando diz: Só acredito em duas coisas: no dinheiro e na força. O general não tem uma nem outra e (...) Os degraus da vida são logo esquecidos por quem sobe a escada... Pobre de quem lembre ao poderoso a sua origem Do alto do poder, tudo o que ficou para trás é vago e nebuloso. (...) Nunca se fala de traição a quem sobe na vida . Manuel- "O mais consciente dos populares", andrajosamente vestido; assume algum protago- nismo por dar início aos dois actos, com as mesmas indicações cénicas: a mesma posição em cena, como única personagem intensamente iluminada, os mesmos movimentos e a mesma frase: "Que posso eu fazer? Sim, que posso eu fazer?" Denuncia a opressão a que o povo tem estado sujeito (as Invasões Francesas; a protecção" britânica, após a retirada do rei D. João VI para o Brasil) e a incapacidade de conseguir a liber- tação e de sair da miséria em que se encontra: Vê-se a gente livre dos Franceses e zésl, cai na mão dos Ingleses! Eagora? Se acabamos com os Ingleses, ficamos na mão dos reis do Rossio... Entre os três o diabo que escolha... (...) E enquanto eles andam para trás e para a frente, para a esquerda e para a direita, nós não passamos do mesmo sítio! Sousa Falcão - "o inseparável amigo", sofre junto de Matilde perante a condenação do general; assume as mesmas ideias de justiça e de liberdade, mas não teve a coragem do general. .. 95
  • 11. 96 Sequência 3 Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro Matilde de Melo - "A companheira de todas as horas", corajosa: - exprime romanticamente o amor; reage violentamente perante o ódio e as injustiças; afirma o valor da sinceridade; desmascara o interesse, a hipocrisia: Ensina-se-Ihes que sejam valentes para um dia virem a ser julgados por covardes! Ensina-se-Ihes que sejam justos para viverem num mundo em que reina a injustiça! Ensine-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia, os leve à forca!; - ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre: Enquanto houver vida... força ... voz para grítar. .. Baterei a todas as portas, clamarei, por toda a parte, mendigarei, se for preciso, a vida daquele a quem devo a minha! Opiniões a propósito das novas ideias liberais que começavam a ganhar força 1. Dos elementos do Conselho de Regência D. Miguel Pereira Forjaz, representante da nobreza na regência, afirma: Trama-se uma conjura destinada a atacar a própria estrutura da sociedade em que vivemos. Se não tomarmos as necessárias precauções, dentro em breve teremos a desordem nas ruas e a anarquia nas almas! (...) Não lhes nego, Excelências, que não sou um homem do meu tempo. Um mundo em que não se distinga, a olho nu, um prelado dum nobre, ou um nobre dum popular, não é mundo em que eu deseje viver. Não concebo a vida, Excelências, desde que o taberneira da esquina possa discutir a opi- nião d'ei-tei. nem me seria possível viver desde que a minha opinião valesse tanto como a de um arruaceiro. o Principal Sousa, representante do clero no Governo, admite: Senhor Governador, tenho medo. Há dois dias que quase não durmo e mesmo, quando passo pelo sono, perse- guem-me imagens terríveis: imagino-me réu perante um tribunal que me não respeita. Dedos imundos tocam-me as vestes. Sonhei já três vezes que estava no Campo de Sant'Ana, subindo ao cadafalso, enquanto à minha volta os gritos do povo me não deixavam, sequer, ouvir a sentença ... o marechal Beresford teme essencialmente perder os privilégios de que goza e realça a gra- vidade do momento, impelindo os outros à acção: oque interessa é saber qual é a melhor forma de sufocar a revolta que se prepara. Tragam-nos a proclamação ... obtenham-na seja como for... Não percam tempo, Senhores. O momento é grave e a causa éjusta. Vão. Os chefes?! Quem são os chefes?; Já que temos ocasião de crucificar alguém, que escolhamos a quem valha a pena crucificar ... 2. Do Povo A classe explorada depositava nos movimentos liberais a grande esperança de alteração da situação em que se encontrava: - Manuel, a propósito do general Gomes Freire, formula um desejo: "Se ele quisesse ... lO; - Manuel ao "deixar cair os braços num gesto de desânimo", após a prisão do general, afirma: E ficamos pior do que estávamos ... Se tínhamos fome e esperança, ficamos só com fome ... Se, durante uns tempos, acreditámos em nós próprios, voltamos a não acreditar em nada ...
  • 12. Felizmente Há Luar! Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde, "companheira de todas as horas" do general Gomes Freire, são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania dos governantes: Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim ... (Pausa) Felizmente - felizmente há luar! Os símbolos 1. A saia verde - A felicidade - a prenda comprada em Paris (terra da liberdade), no Inverno. com o dinheiro da venda de duas medalhas; - Ao escolher aquela saia para esperar o companheiro após a morte, destaca a "alezria" do reencontro ("agora que se acabaram as batalhas, vem apertar-me contra o peito"). Convém recordar, a propósito, que a saia é uma peça eminentemente feminina e que o verde está habitualmente conotado com tranquilidade e esperança, traduzindo uma sensação repou- sante, envolvente e refrescante. O Dicionário de Símbolosl11 diz-nos que: Entre o azul e o amarelo, o verde resulta das suas interferências cromáticas. as entra com o vermelho no jogo simbólico de alternâncias. A rosa floresce entre folhas verdes. Equidisr.ame do azul-celeste e do vermelho infernal, ambos absolutos e inacessíveis, o verde, valor médio, m diador entre o quente e ofrio, o alto e o baixo, é uma cor tranquilizadora, refrescante, humana.. 2. O título/a luzia noite/o luar O título surge por duas vezes ao longo da peça, inserido nas falas das personaue 1. D. Miguel salienta o efeito dissuasor que aquelas execuções poderão exercer bre [ os os que discutem as ordens dos governadores: Lisboa há-de cheirar toda a noite a carne assada, Excelência, e o cheiro há-de-Ihes tice: 'ria durante muitos anos ... Sempre que pensarem em discutir as nossas ordens, lembrar-se-ão do _zsi Logo de seguida, afirma: É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar ... Esta primeira referência ao título da peça, colocada na fala do Governador está relacionada com o desejo expresso de garantir a eficácia desta execução pública: a noite é mais tadora. as chamas seriam visíveis de vários pontos da cidade e o luar atrairia as pessoas à rua para assistirem ao castigo, que se pretendia exemplar. Historicamente, esta frase foi mesmo profe- rida por D. Miguel Forjaz, mas numa carta ao intendente da Polícia. 2. Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde, "companheira de todas as horas- do general Gomes Freire, são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania dos governantes: Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim ... (Pausa) Felizmente - felizmente há luar! 111 Chevalier e Gheerbrant (1982). Dictionnaire des Symboles, Robert Laffont / Jupiter, Paris. CAESP12 -07 ,",,,' 97
  • 13. Sequência 3 Felizmente Há lustl. de Luís de Sttau Monteiro 98 A luz, simbolicamente, está associada à vida, à saúde, à felicidade, enquanto a noite e as tre- vas se associam ao mal, à infelicidade, ao castigo, à perdição e à morte. Na linguagem e nos ritos maçónicos, após ter participado de olhos vendados em alguns rituais, após prestar jura- mento, o neófito poderia "receber a luz", o que significava ser admitido ... A Lua, simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol, e por atravessar fases, mudando de forma, representa a dependência, a periodicidade e a renovação. A Lua é, pois, símbolo de transformação e de crescimento. A Lua é ainda considerada como "o primeiro morto?», dado que durante três noites em cada ciclo lunar ela está desaparecida, como morta; depois reaparece e vai crescendo em tamanho e em luz ... Ao acreditar na vida para além da morte, o homem vê na Lua o símbolo desta passa- gem da vida para a morte e da morte para a vida ... Por isso, na peça, nestes dois momentos em que se faz referência directa ao título, a expres- são "felizmente há luar" pode indiciar duas perspectivas de análise e de posicionamento das personagens: 1. As forças das trevas, do obscurantismo, do anti-humanismo utilizam, paradoxalmente, o lume (fonte de luz e de calor) para "purificar a sociedade" (a Inquisição considerava a fogueira como fonte e forma de purificação); 2. Se a luz é redentora, o luar poderá simbolizar a caminhada da sociedade em direcção à redenção, em busca da luz e da liberdade ... Assim, dado que o luar permite que as pessoas possam sair de suas casas (ajudando a vencer o medo e a insegurança na noite da cidade), quanto maior for a assistência, isso significará: - para uns, que mais pessoas ficarão "avisadas" e o efeito dissuasor será maior. .. - para outros, que mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade ... 3. A fogueira/o lume Após a prisão do general, num diálogo de "tom profético" e com a "voz triste" (segundo a didascalia), o Antigo Soldado, acabrunhado, afirma: Prenderam o general ... Para nós, a noite ainda ficou mais escura ... A resposta ambígua do 1.0 Popular pode assumir também um carácter de profecia e de esperança: É por pouco tempo, amigo. Espera pelo clarão das fogueiras ... Matilde, ao afirmar que aquela fogueira de S. Julião da Barra ainda havia de "incendiar esta terra!" mostra que a chama se mantém viva e que a liberdade há-de chegar ... 4. A moeda de cinco réis Símbolo do desrespeito (dos mais poderosos em relação aos mais desfavorecidos) apresenta-se como represália, quase vingança, quando Manuel manda Rita dar a moeda a Matilde. 5. Os tambores Símbolo da repressão, provocam o medo e prenunciam a ambiência trágica da acção. ['I Chevalier e Gheerbrant (19821. Dictionnaire des Symbo/es, Robert Laffont / Jupiter. Paris.
  • 14. ------------------------------------------_", Linguagem • natural, viva e maleável, utilizada como marca caracterizadora e individualizadora de alzu- mas das personagens; • uso de frases em latim, com conotação irónica, por aparecerem aquando da condenação e da execução; • frases incompletas por hesitação ou interrupção; • marcas características do discurso oral; • recurso frequente à ironia e ao sarcasmo. A didascália As didascálias, ou indicações cénicas, constituem, no seu conjunto, um texto secundário que serve de suporte do texto dramático. Elas servem não apenas para definir a po ição. movi- mentação ou gestos das personagens em cena, mas também para explicitar os entimentos. as emoções ou as atitudes que devem transparecer no seu comportamento e para marcar urna alteração no tom de voz da personagem. A peça é rica de marcações com referências concretas (sarcasmo, ironia, escárnio. indife- rença, galhofa, adulação, desprezo, irritação - normalmente relacionadas com o opr res: tristeza, esperança, medo, desânimo - relacionadas com as personagens oprimidas). As marcações são abundantes: tons de voz, movimentos, posições, cenários zestos. estuá- rio, sons (o som dos tambores, o silêncio, a voz que fala antes de entrar no palco. um - o que toca a rebate, o murmúrio de vozes, o toque de uma campainha, o murmúrio da multidão) e efeitos de luz (o contraste entre escuridão e luz; os dois actos terminam em sombra. de acordo, aliás, com o desenlace trágico). De realçar que a peça termina ao som de fanfarra (Ouve-se ao longe uma fanfarronada ue vai num crescendo de intensidade até cair o pano.) em oposição à luz (Desaparece o c rão da fogueira.); no entanto, a escuridão não é total, porque "felizmente há luar". 99
  • 15. Síntese , FELIZMENTE HA LUAR! • Felizmente Há Luar! é um drama narrativo, de carácter social, dentro dos princípios do teatro épico; na linha de Brecht, analisa criticamente a sociedade, mostrando a realidade com o objectivo de levar o espectador a tomar uma posição. • Exprime a revolta contra o poder despótico e mostra o direito e o dever da mulher e do homem de transformarem a sociedade. • A obra Felizmente Há Luar! é entendida como uma alegoria política. Sttau Monteiro remete o Iei- tor/espectador para os problemas sociais e políticos de Portugal não apenas do início do século XIX e durante o regime ditatorial do século XX, mas para todos os regimes despótico e situaçõ - repressivas. • Existe um paralelismo entre a acção presente na peça (a trágica apoteose do movimento liberal oitocentista) e os contextos ideológico e sociológico do país (durante a repressão salazarísta). • Há um mergulhar no passado onde se revisitam os acontecimentos históricos para levar o leitor/espectador a interpretar o presente e a reflectir sobre a necessidade de lutar contra qualquer opressão. • Graças à distanciação histórica, denuncia um ambiente político repressivo dos inícios do sé o XIX, para provocar a reflexão sobre um tempo de opressão e de censura que se repete no século ~ • A figura central é o general Gomes Freire de Andrade, que, mesmo ausente, condiciona a estrutura interna da peça e o comportamento de todas as outras personagens. • O monólogo inicial de Manuel, "o mais consciente dos populares", coloca-nos no contexto hísiõ- rico da obra: invasões napoleónicas e protecção de Inglaterra; situação de repressão do po,o pelo "senhores do Rossio". • Felizmente Há Luar! é uma obra intemporal que nos remete para a luta do ser humano contra a tirania, a injustiça e todas as formas de perseguição. • Matilde de Melo, "a companheira de todas as horas", possuidora de uma densidade p icolõ ica notável, aparece na obra não apenas como sonhadora, que sabe amar de verdade, mas é a persona- gem que, corajosamente, desmascara a hipocrisia e reage contra o ódio e as injustiças. Ela acredita na transformação da situação de opressão em que o povo vive. • Felizmente Há Luar! significa: para os opressores (nas palavras de D. Miguel), o efeito dissuasor das execuções; para os oprimidos (na fala de Matilde), a coragem e o estímulo para a revo la popular contra a tirania. • Diversos símbolos favorecem a compreensão da situação vivida e da esperança de alcançar a liber- dade: a saia verde, a luz, a noite, a lua, a fogueira, o lume, a moeda de cinco réis, os tambores ... • Diferentes elementos cénicos contribuem para o aumento da tensão dramática: - a iluminação (o jogo de luzes) - evidencia personagens, situações, reacções ... - os sons de tambores - prenunciam o ambiente de tragédia; - os gestos e movimentações - sublinham emoções, atitudes ... • Felizmente Há Luar! narra a luta pela liberdade no início do século XIX e serve de pretexto para uma reflexão sobre a ditadura em Portugal no século XX. Todos os regimes opressivos, e concreta- mente o regime salazarista, entre o início dos anos trinta e 1974, foram denunciados e contestados pelos artistas. A literatura, a música e outras artes foram o "veículo de protesto" contra a censura. contra a miséria, contra "uma realidade iníqua que urgia denunciar e resgatar", como dizia Fer- nando Namora, em Sentados na Relva. • As canções de resistência surgem, em geral, na vanguarda dos movimentos de contestação e exprimem o sentimento de um povo que busca a liberdade. A música e a literatura, em Portuzal e no mundo, são, com frequência, artes interventoras e de protesto, que provocam a consciência para aceitar a mudança. II 103
  • 16. I J Glossário o conflito que nasce da hybris desenvolve-se através da peripécia (súbita alteração dos acon- tecimentos que modifica a acção e conduz ao desfecho), do reconhecimento (agnórise) impre- visto que provoca a catástrofe. O desencadear da acção dá-nos conta do sofrimento (páthos) que se intensifica (clímax) e conduz ao desenlace. O sofrimento age sobre os espectadores, através dos sentimentos de terror e de piedade, para purificar as paixões (catarse). Na obra Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, a defesa da liberdade e da justiça, atitude de rebeldia, constitui a hybris (desafio) desta tragé- dia. Como consequência, a prisão dos conspira- dores provocará o sofrimento (páthos) das perso- nagens e despertará a compaixão do espectador. O crescendo trágico, representado pelas diversas tentativas desesperadas para obter o perdão, acabará, em clímax, com a execução pública do general Gomes Freíre e áos restantes presos. Este desfecho trágico conduz a uma reflexão purificadora (cathársis) que os opressores pre- tendiam dissuasora, mas que despertou os opri- midos para os valores da liberdade e da justiça. Censura instrumento usado por regimes totalitários para impedir que a imprensa e outros meios de difusão de mensagens, incluindo as criativas, como as da arte (pintura, escultura, música, tea- tro, cinema ... ), possam pôr em causa a ideolo- gia vigente e fomentar a consciencialização para qualquer revolta contra o regime. A censura fez parte integrante da nossa História, imperou em muitos períodos, constituiu uma arma de defesa da Igreja e do Estado. A luta contra a censura foi feita através da Imprensa escrita, em suplementos literários ou juvenis, nas tertúlias, na imprensa clandestina ... mas só a revolução de Abril de 1974 pôs fim à censura em Portugal. Conselho de Regência a nova ordem política trazida pela Revolução Francesa de 1789 e as invasões napoleónicas abalam o Ocidente da Europa. Só a Inglaterra resiste ao imperador Napoleão Bonaparte, arrastando Portugal para uma posi- ção de indecisão entre este aliado e a França. Por isso, em 29 de Novembro de 1807, com as tropas de Junot às portas de Lisboa, D. João VI, com a família real portuguesa e um imenso séquito de fidalgos, altos funcionários e milita- res, embarca apressadamente para o Brasil para evitar a capitulação. Dias antes de partir para o Brasil, o Príncipe Regente D. João nomeara um Conselho de Regên- cia, para governar Portugal na sua ausência. Didascália (do grego didashália = instrução, ensina- mento) as didascálias eram, na Antiga Grécia, as instruções que os poetas dramáticos davam aos actores para a representação cénica; por vezes, designavam as próprias representações teatrais ou festivais trágicos. Actualmente, por extensão, incluem diversas informações: a listagem inicial de personagens; a indicação do nome da perso- nagem antes de cada fala; anotações sobre a estrutura externa da obra; referências aos adere- ços que compõem o espaço cénico; informações sobre tom de voz, gestos, atitudes; o momento da entrada em cena e o percurso a realizar; indi- cações sobre o guarda-roupa; (oo.). Hybris termo grego que significa o desafio, o crime do excesso e do ultraje. Traduz-se num compor- tamento de provocação aos deuses e à ordem estabelecida. A hybris revela um sentimento de arrogância, de soberba e de orgulho, que leva os heróis da tragé- dia à insubmissão e à violaçâo das leis dos deu- ses, da pólis (cidade), da família ou da natureza. 104 Inquisição também conhecida por Tribunal do Santo Ofício, foi criada pelo Papa Gregório IX, no século XIII, para combater as heresias religiosas que apareciam pela Europa. Foi confiada aos jesuítas e aos dominicanos, mas na dependência da Santa Sé. Este tribunal instalou-se, no século XIII, em Espanha, na Alemanha, em França e, no século XVI, no reinado de D. João III, em Portugal. Com frequência, serviu o poder instituído, embora a sua acção fosse orientada para o com- bate às várias heresias e desvios religiosos, incluindo a censura aos livros, às práticas de adivinhação e feitiçaria, à bigamia. Com o decorrer do tempo passou a ter influência em todos os sectores da vida social, política e cultu- ral, e desde que houvesse uma denúncia o acu- sado estava sujeito a toda a sorte de torturas físi- cas e mentais, incluindo a perda de bens e a morte. Os judeus e os mouros foram o principal alvo dos inquisidores, mas outras pessoas sofre- ram igualmente a perseguição. A força do Tribunal do Santo Ofício era enorme, mas acabou por criar conflitos entre os reis e os jesuítas, até que em 1821 foi extinto. Jacobinismo diz respeito às doutrinas e ideias dos jacobinos (do francês jacobin) da Revolução Francesa e dos democratas radicais, simpatizan- tes dos seus princípios.
  • 17. Glossário 105 Os termos jacobino ejacobinismo adquirem, entre- tanto, uma carga pejorativa quando surgem na acepção de republicanismo revolucionário levado ao extremo. Foi isso que sucedeu com a política de terror, cujas principais figuras foram Robespierre, Georges Danton, Saint-just e Georges Couthon. Jacobino termo que surge durante a Revolução Francesa atribuído aos membros de um grupo político republicano com sede no antigo con- vento de jacobinos (nome dado a religiosos dominicanos de um convento da Rue de Saint- -lacques, em Paris, que em latim se diz Sanctus [acobus). Mais tarde, e por extensão, passa a sig- nificar membro de um partido dito democrático, frequentemente inimigo da religião. Os jacobinos politicamente representavam os sans-culottes (os pobres, assim chamados por não usarem, como os nobres, os calções curtos com meias), e pequena burguesia. Depois de aceitarem a monarquia constitucional e após a fuga do rei, tornaram-se ardorosos defensores de uma república revolucionária. Obscurantismo significa estado de quem se encontra na escuridão, de quem vive na ignorãncia. É, a nível social, político e cultural, o sistema que nega a instrução e o conhecimento às pessoas com a consequente ausência de progresso inte- lectual ou material. Os estados totalitários e as grandes religiões na luta pelo poder recorreram, muitas vezes, a prá- ticas obscurantistas, sacrificando os povos e o progresso civilizacional. São muitos os exem- plos que a História nos oferece e que levaram a perseguições e outros crimes para preservar o estado de ignorância e facilitar o poder das insti- tuições. O fanatismo religioso ao longo dos tem- pos, a Inquisição, as guerras étnicas, diversas ditaduras e muitas outras práticas totalitárias são exemplo do obscurantismo. Real (moeda) e réis (moeda) (no plural réis ou reais) é uma antiga moeda nominal ou de conta que foi unidade do sistema monetário em Portuzal desde o início da segunda Dinastia até à implan- tação da República (em 1910), sendo então substituído pelo escudo e este, a partir do ano 2002, pelo euro (= 200,482 escudo ). O termo réis continuou a ser utilizado quando se desig- nava, por exemplo, "dois contos de réís" em vez de dois mil escudos (2000$00) cerca de 10 euros (lO €). O real, desde a colonização, passou também. a ser moeda do Brasil, embora tenha alternado com cruzeiros e cruzados. Era a seguinte a leitura do real: 001 - um real $500 - quinhentos réis; 2$000 - dois mil réis: 20$000 - vinte mil réis; 2000 000 - dois conto de réis.