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Frei luís de sousa

Frei Luís de Sousa é um drama romântico de Almeida Garrett que conta a tragédia da família de Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena de Vilhena. O retorno inesperado de D. João de Portugal, marido anterior de D. Madalena, desencadeia uma série de eventos trágicos que levam à morte da filha Maria e à entrada de Manuel e Madalena para ordens religiosas. A obra mistura elementos do drama clássico com o romantismo ao explorar temas como o destino,

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Almeida Garret: Frei Luís de Sousa
Breve Análise

1. Acção dramática

Frei Luís de Sousa contém o drama que se abate sobre a família de Manuel de Sousa
Coutinho e D. Madalena de Vilhena. As apreensões e pressentimentos de Madalena de
que a paz e a felicidade familiar possam estar em perigo tornam-se gradualmente numa
realidade. O incêndio no final do Acto I permite uma mutação dos acontecimentos e
precipita a tensão dramática. E no palácio que fora de D. João de Portugal, a acção
atinge o seu clímax, quer pelas recordações de imagens e de vivências, quer pela
possibilidade que dá ao Romeiro de reconhecer a sua antiga casa e de se identificar a
Frei Jorge.

O Acto I inicia-se com Madalena a repetir os versos d'Os Lusíadas:

       "Naquele engano d'alma ledo e cego,
       que a fortuna não deixa durar muito…"

As reflexões que se seguem transmitem, de forma explícita um presságio da desgraça
que irá acontecer. Obedecendo à lógica do teatro clássico desenvolve a intriga de forma
a que tudo culmine num desfecho dramático, cheio de intensidade: morte física de
Maria e a morte para o mundo de Manuel e Madalena.

2. Do drama clássico ao drama romântico

Se se pretender fazer uma aproximação entre esta obra e a tragédia clássica, poder-se-á
dizer que é possível encontrar quase todos os elementos da tragédia, embora nem
sempre obedeça à sua estruturação objectiva.

A hybris é o desafio, o crime do excesso e do ultraje. D. Madalena não comete um
crime propriamente na acção, mas sabemos que ele existiu pela confissão a Frei Jorge
de que ainda em vida de D. João de Portugal amou Manuel de Sousa, apesar de guardar
fidelidade ao marido. O crime estava no seu coração, na sua mente, embora não fosse
explícito como entre os clássicos.

Manuel de Sousa Coutinho também comete a sua hybris ao incendiar o palácio para não
receber os governadores. A hybris manifesta-se em muitas outras atitudes das
personagens.

O conflito que nasce da hybris desenvolve-se através da peripécia (súbita alteração dos
acontecimentos que modifica a acção e conduz ao desfecho), do reconhecimento
(agnórise) imprevisto que provoca a catástrofe. O desencadear da acção dá-nos conta
do sofrimento (páthos) que se intensifica (climax) e conduz ao desenlace. O sofrimento
age sobre os espectadores, através dos sentimentos de terror e de piedade, para purificar
as paixões (catarse). A reflexão catártica é também dada pelas palavras do Prior,
quando na última fala afirma: "Meus irmãos, Deus aflige neste mundo àqueles que ama.
A coroa da glória não se dá senão no céu".
Tal como na tragédia clássica, também o fatalismo é uma presença constante. O destino
acompanha todos os momentos da vida das personagens, apresentando-se como um
força que as arrasta de forma cega para a desgraça. É ele que não deixa que a felicidade
daquela família possa durar muito.

Garrett, recorrendo a muitos elementos da tragédia clássica, constrói um drama
romântico, definido pela valorização dos sentimentos humanos das personagens; pela
tentativa de racionalmente negar a crença no destino, mas psicologicamente deixar-se
afectar por pressentimentos e acreditar no sebastianismo; pelo uso da prosa em
substituição do verso e pela utilização de uma linguagem mais próxima da realidade
vivida pelas personagens; sem preocupações excessivas com algumas regras, como a
presença do coro ou a obediência perfeita à lei das três unidades (acção, tempo e
espaço).

3. Tempo

A acção dramática de Frei Luis de Sousa acontece em 1599, durante o domínio
filipino, 21 anos após a batalha de Alcácer-Quibir. Esta aconteceu a 4 de Agosto de
1578.

"A que se apega esta vossa credulidade de sete… e hoje mais catorze… vinte e un
anos?", pergunta D. Madalena a Telmo (Acto I, cena 11).

"Vivemos seguros, em paz e felizes… há catorze anos" (1, cena 11).

"Faz hoje anos que… que casei a primeira vez, faz anos que se perdeu el-rei D.
Sebastião, e faz anos também que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa", afirma D.
Madalena (Il. cena X).

"Morei lá vinte anos cumpridos" (…) "faz hoje um ano… quando me libertaram", diz o
Romeiro (Il. cena XIV).

A acção reporta-se ao final do século XVI, embora a descrição do cenário do Acto I se
refira à "elegância" portuguesa dos princípios do século XVII.

O texto é, porém, escrito no século XIX, acontecendo a primeira representação em
1843.

4. Personagens

D. Madalena de Vilhena é a primeira personagem que aparece na obra, mas pode-se
afirmar que toda a familia tem um relevo significativo. São as relações entre esposos,
pais e filha, o criado e os seus amos ou mesmo o apoio de Frei Jorge que estão em
causa. Um drama abate-se sobre esta família e enquanto Manuel de Sousa Coutinho e D.
Madalena se refugiam na vida religiosa, Maria morre como vítima inocente.

D. Madalena tinha 17 anos quando D. João de Portugal desapareceu na batalha de
Alcácer-Quibir. Durante 7 anos procurou-o. Há catorze anos que vive com Manuel de
Sousa Coutinho. Tem agora 38 anos (17 + 21). Mulher bela, de carácter nobre, vive uma
felicidade efémera, pressentindo a desventura e a tragédia do seu amor. Racionalmente,
não acredita no mito sebastianista que Ihe pode trazer D. João de Portugal, mas teme a
possibilidade da sua vinda. E com medo que a encontramos a reflectir sobre os versos
de Camões e a sentir, como que em pesadelo, a ideia de que a sobrevivência de D. João
destrua a felicidade da sua família. No imaginário de D. Madalena, a apreensão torna-se
pressentimento, dor e angústia. É neste terror que se vê na necessidade de voltar para a
habitação onde com ele viveu.

Manuel de Sousa Coutinho (mais tarde Frei Luis de Sousa) é um nobre e honrado
fidalgo, que queima o seu próprio palácio, para não receber os governadores. Embora
apresente a razão a dominar os sentimentos, por vezes, estes sobrepõem-se quando se
preocupa com a doença da filha. É um bom pai e um bom marido.

Maria de Noronha tem 13 anos, é uma menina bela, mas frágil, com tuberculose, e
acredita com fervor que D. Sebastião regressará. Tem uma grande curiosidade e espírito
idealista. Ao pressentir a hipótese de ser filha ilegítima sofre moralmente. Será ela a
vítima sacrificada no drama.

Telmo Pais, o velho criado, confidente privilegiado, define-se pela lealdade e
fidelidade. Não quer magoar nem pretende a desgraça da família de D. Madalena e
Manuel. Mas como verdade recorrente no mito sebastianista, acredita que D. João de
Portugal há-de regressar. No fim, acaba por trair um pouco a lealdade de escudeiro pelo
amor que o une à filha daquele casal, D. Maria de Noronha. Representa um pouco o
papel de coro da tragédia grega, com os seus diálogos, os seus agoiros ou os seus
apartes.

O Romeiro apresenta-se como um peregrino, mas é o próprio D. João de Portugal. Os
vinte anos de cativeiro transformaram-no e já nem a mulher o reconhece. D. João, de
espectro invisível na imaginação das personagens, vai lentamente adquirindo contornos
até se tornar na figura do Romeiro que se identifica como "Ninguém". O seu fantasma
paira sobre a felicidade daquele lar como uma ameaça trágica. E o sonho torna-se
realidade.

Frei Jorge Coutinho, irmão de Manuel de Sousa, amigo da família e confidente nas
horas de angústia, ouve a confissão angustiada de D. Madalena. Vai ter um papel
importante na identificação do Romeiro, que na sua presença indicará o quadro de D.
João de Portugal.

5. Cenário

O Acto I passa-se numa "câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa
elegancia dos principios do século XVII", no palácio de Manuel de Sousa Coutinho, em
Almada. Neste espaço elegante parece brilhar uma felicidade, que será, apenas,
aparente.

O Acto II acontece "no palácio que fora de D João de Portugal, em Almada, salão
antigo, de gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de familia…". As
evocações do passado e a melancolia prenunciam a desgraça fatal.
O Acto lll passa-se na capela, que se situa na "parte baixa do palácio de D. João de
Portugal". "É um casarão vasto sem ornato algum". O espaço denuncia o fim das
preocupações materiais. Os bens do mundo são abandonados.

6. A Atmosfera

Há ao longo da intriga dramática uma atmosfera psicológica do sebastianismo com a
crença no regresso do monarca desaparecido e a crença no regresso da liberdade. Telmo
Pais é quem melhor alimenta estas crenças, mas Maria mostra-se a sua melhor
seguidora.

Percebe-se também uma atmosfera de superstição, nomeadamente desenvolvida em
redor de D Madalena.

7. Simbologia

Vários elementos estão carregados de simbologia, muitas vezes a pressagiar o
desenrolar da acção e a desgraça das personagens. Apenas como referência, podemos
encontrar algumas situações e dados simbólicos:

       A leitura dos versos de Camões referem-se ao trágico fim dos amores de D.
       Inês de Castro que, como D. Madalena, também vivia uma felicidade aparente
       quando a desgraça se abateu.
       O tempo dos principais momentos da acção sugerem o dia aziago: sexta-feira,
       fim da tarde e noite (Acto I), sexta-feira, tarde (Acto II), sexta-feira, alta noite
       (Acto lll); e à sexta-feira D. Madalena casou-se pela primeira vez; à sexta-feira
       viu Manuel pela primeira vez; à sexta-feira dá-se o regresso de D. João de
       Portugal; à sexta-feira morreu D. Sebastião, vinte e um anos antes.
       A numerologia (1) parece ter sido escolhida intencionalmente. Madalena casou
       7 anos depois de D. João haver desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir; há 14
       anos que vive com Manuel de Sousa Coutinho; a desgraça, com o aparecimento
       do Romeiro, sucede 21 anos depois da batalha (21=3x7). 0 número 7 é um
       número primo que se liga ao ciclo lunar (cada fase da Lua dura cerca de sete
       dias) e ao ciclo vital (as células humanas renovam-se de sete em sete anos),
       representa o descanso no fim da criação e pode-se encontrar em muitas
       representações da vida, do universo, do homem ou da religião; o número 7
       indica o fim de um ciclo periódico. O número 3 é o número da criação e
       representa o círculo perfeito. Exprime o percurso da vida: nascimento,
       crescimento e morte. O número 21 corresponde a 3x7, ou seja, ao nascimento de
       uma nova realidade (7 anos foi o ciclo da busca de notícias sobre D. João de
       Portugal e o descanso após tanta procura); 14 anos foi o tempo de vida com
       Manuel de Sousa (2x7, o crescimento de uma dupla felicidade: como esposa de
       Manuel e como mãe de Maria; 14 é gerado por 1+4=5, apresentando-se como
       símbolo da relação sexual, do acto de amor); 21 anos completa a tríade de 7
       apresentando-se como a morte, como o encerrar do círculo dos 3 ciclos
       periódicos O número 7 aparece, por vezes, a significar destino, fatalidade
       (imagem do completar obrigatório do ciclo da vida), enquanto o 3 indica
       perfeição; o 21 significa, então, a fatalidade perfeita.
       Maria vive apenas 13 anos. Na crença popular o 13 indica azar. Embora como
       número ímpar deva apresentar uma conotação positiva, em numerologia é
gerado pelo 1+3=4, um número par, de influências negativas, que representa
      limites naturais. Maria vê limitados os seus momentos de vida.

8. Acção Trágica

Elementos    Hybris                 Agón            Pathos                Katastrophé
trágicos     (o desafio)            (o conflito)    (o sofrimento)        (a catástrofe)
D.           contra as leis e os    interior, de    por causa do          causada pelo
Madalena     direitos da família:   consciência     adultério             regresso de
de Vilhena                                                                D. João -
             adultério no           contínuo        pela incerteza da     morte
             coração                                sorte do primeiro     psicológica:
                                    crescente       marido
             consumação pelo                                              separação do
             casamento com          gerador de      violento pela volta   marido
             Manuel                 conflitos:      ao palácio do
                                    com D.          primeiro marido       profissão
             profanação de um       Manuel                                religiosa
             sacramento             com D. João     cruel após
                                    com Maria       conhecimento da       salvação pela
             bigamia                com Telmo       existência do         purificação:
                                                    primeiro marido:
                                                    pela perda do         irmã Sóror
                                                    marido                Madalena das
                                                    pela perda de         Chagas
                                                    Maria
Manuel S.    revolta contra as      não tem         sofre a angústia      morte
Coutinho     autoridades de         conflito de     pela situação da      psicológica:
             Lisboa                 consciência     sua mulher
                                                                         separação da
             desafia o destino      não entra em    sofre a angústia     esposa
             ao incendiar o         conflito com    pela situação        separação do
             palácio                as outras       presente e futura da mundo
                                    personagens     filha                profissão
             recusa o perdão                                             religiosa
                                    a sua hybris
             inconscientemente      desencadeia e                         glória futura
             participante da        agudiza os                            de escritor:
             hybris de sua          conflitos das
             esposa                 outras                             Frei Luís de
                                    personagens                        Sousa: glória
                                                                       de santo
D. João de   abandona a família     não tem         sofre o            morte
Portugal                            conflito        esquecimento a que psicológica:
             não dá notícias da                     foi votado
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                                    conflitos dos   sofre pelo         mulher
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             morto                  agudiza todos                      irremediável
os conflitos    sofre por não poder    do anonimato
                                   com o seu       travar a marcha do
                                   regresso        destino
D. Maria     revolta contra a      não tem         sofre fisicamente:     morre
de           profissão religiosa   conflito        tuberculose            fisicamente
Noronha      dos pais
                                   entra em        sofre                  vai para o céu
             revolta contra D.     conflito com:   psicologicamente:
             João de Portugal      sua mãe         não obtém resposta
                                   seu pai         a muitos agoiros
             convida os pais a     Telmo           vergonha da
             mentir                D. João de      ilegitimidade
                                   Portugal
Telmo        afeiçoa-se a Maria    conflito de     sofre pela dúvida      não poderá
Pais                               consciência     constante que o        resistir a
             deseja que D. João                    assalta acerca da      tantos
             de Portugal tivesse   conflito com    morte de D. João       desgostos
             morrido               outras          de Portugal
                                   personagens:
                                   com D.          sofre hesitando
                                   Madalena        entre a fidelidade a
                                   com D.          D. João e a D.
                                   Manuel          Manuel
                                   com Maria
                                   com D. João     sofre a situação de
                                   de Portugal     Maria

9. Estrutura dramática

Estrutura Interna Estrutura Externa
Exposição         Acto I - cenas I, II, III e IV
Conflito          Acto I - cenas V-XII

                     Acto II

                     Acto III - cenas I-IX
Desenlace            Acto III - cenas X-XII
Acto I    cenas I-IV      Informações sobre o passado das personagens Preparação da
                          acção - decisão dos governadores e decisão de incendiar o
          cenas V-VIII palácio

           cenas IX-XII   Acção: incêndio do palácio
Acto II    cenas I-III    Informações sobre o que se passou depois do incêndio

         cenas IV-VIII Preparação da acção: ida de Manuel de Sousa Coutinho a
                       Lisboa
         cenas IX-XV
                       Acção: chegada do Romeiro
Acto III cena I        Informações sobre a solução adoptada

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Frei luís de sousa

  • 1. Almeida Garret: Frei Luís de Sousa Breve Análise 1. Acção dramática Frei Luís de Sousa contém o drama que se abate sobre a família de Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena de Vilhena. As apreensões e pressentimentos de Madalena de que a paz e a felicidade familiar possam estar em perigo tornam-se gradualmente numa realidade. O incêndio no final do Acto I permite uma mutação dos acontecimentos e precipita a tensão dramática. E no palácio que fora de D. João de Portugal, a acção atinge o seu clímax, quer pelas recordações de imagens e de vivências, quer pela possibilidade que dá ao Romeiro de reconhecer a sua antiga casa e de se identificar a Frei Jorge. O Acto I inicia-se com Madalena a repetir os versos d'Os Lusíadas: "Naquele engano d'alma ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito…" As reflexões que se seguem transmitem, de forma explícita um presságio da desgraça que irá acontecer. Obedecendo à lógica do teatro clássico desenvolve a intriga de forma a que tudo culmine num desfecho dramático, cheio de intensidade: morte física de Maria e a morte para o mundo de Manuel e Madalena. 2. Do drama clássico ao drama romântico Se se pretender fazer uma aproximação entre esta obra e a tragédia clássica, poder-se-á dizer que é possível encontrar quase todos os elementos da tragédia, embora nem sempre obedeça à sua estruturação objectiva. A hybris é o desafio, o crime do excesso e do ultraje. D. Madalena não comete um crime propriamente na acção, mas sabemos que ele existiu pela confissão a Frei Jorge de que ainda em vida de D. João de Portugal amou Manuel de Sousa, apesar de guardar fidelidade ao marido. O crime estava no seu coração, na sua mente, embora não fosse explícito como entre os clássicos. Manuel de Sousa Coutinho também comete a sua hybris ao incendiar o palácio para não receber os governadores. A hybris manifesta-se em muitas outras atitudes das personagens. O conflito que nasce da hybris desenvolve-se através da peripécia (súbita alteração dos acontecimentos que modifica a acção e conduz ao desfecho), do reconhecimento (agnórise) imprevisto que provoca a catástrofe. O desencadear da acção dá-nos conta do sofrimento (páthos) que se intensifica (climax) e conduz ao desenlace. O sofrimento age sobre os espectadores, através dos sentimentos de terror e de piedade, para purificar as paixões (catarse). A reflexão catártica é também dada pelas palavras do Prior, quando na última fala afirma: "Meus irmãos, Deus aflige neste mundo àqueles que ama. A coroa da glória não se dá senão no céu".
  • 2. Tal como na tragédia clássica, também o fatalismo é uma presença constante. O destino acompanha todos os momentos da vida das personagens, apresentando-se como um força que as arrasta de forma cega para a desgraça. É ele que não deixa que a felicidade daquela família possa durar muito. Garrett, recorrendo a muitos elementos da tragédia clássica, constrói um drama romântico, definido pela valorização dos sentimentos humanos das personagens; pela tentativa de racionalmente negar a crença no destino, mas psicologicamente deixar-se afectar por pressentimentos e acreditar no sebastianismo; pelo uso da prosa em substituição do verso e pela utilização de uma linguagem mais próxima da realidade vivida pelas personagens; sem preocupações excessivas com algumas regras, como a presença do coro ou a obediência perfeita à lei das três unidades (acção, tempo e espaço). 3. Tempo A acção dramática de Frei Luis de Sousa acontece em 1599, durante o domínio filipino, 21 anos após a batalha de Alcácer-Quibir. Esta aconteceu a 4 de Agosto de 1578. "A que se apega esta vossa credulidade de sete… e hoje mais catorze… vinte e un anos?", pergunta D. Madalena a Telmo (Acto I, cena 11). "Vivemos seguros, em paz e felizes… há catorze anos" (1, cena 11). "Faz hoje anos que… que casei a primeira vez, faz anos que se perdeu el-rei D. Sebastião, e faz anos também que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa", afirma D. Madalena (Il. cena X). "Morei lá vinte anos cumpridos" (…) "faz hoje um ano… quando me libertaram", diz o Romeiro (Il. cena XIV). A acção reporta-se ao final do século XVI, embora a descrição do cenário do Acto I se refira à "elegância" portuguesa dos princípios do século XVII. O texto é, porém, escrito no século XIX, acontecendo a primeira representação em 1843. 4. Personagens D. Madalena de Vilhena é a primeira personagem que aparece na obra, mas pode-se afirmar que toda a familia tem um relevo significativo. São as relações entre esposos, pais e filha, o criado e os seus amos ou mesmo o apoio de Frei Jorge que estão em causa. Um drama abate-se sobre esta família e enquanto Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena se refugiam na vida religiosa, Maria morre como vítima inocente. D. Madalena tinha 17 anos quando D. João de Portugal desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir. Durante 7 anos procurou-o. Há catorze anos que vive com Manuel de Sousa Coutinho. Tem agora 38 anos (17 + 21). Mulher bela, de carácter nobre, vive uma felicidade efémera, pressentindo a desventura e a tragédia do seu amor. Racionalmente,
  • 3. não acredita no mito sebastianista que Ihe pode trazer D. João de Portugal, mas teme a possibilidade da sua vinda. E com medo que a encontramos a reflectir sobre os versos de Camões e a sentir, como que em pesadelo, a ideia de que a sobrevivência de D. João destrua a felicidade da sua família. No imaginário de D. Madalena, a apreensão torna-se pressentimento, dor e angústia. É neste terror que se vê na necessidade de voltar para a habitação onde com ele viveu. Manuel de Sousa Coutinho (mais tarde Frei Luis de Sousa) é um nobre e honrado fidalgo, que queima o seu próprio palácio, para não receber os governadores. Embora apresente a razão a dominar os sentimentos, por vezes, estes sobrepõem-se quando se preocupa com a doença da filha. É um bom pai e um bom marido. Maria de Noronha tem 13 anos, é uma menina bela, mas frágil, com tuberculose, e acredita com fervor que D. Sebastião regressará. Tem uma grande curiosidade e espírito idealista. Ao pressentir a hipótese de ser filha ilegítima sofre moralmente. Será ela a vítima sacrificada no drama. Telmo Pais, o velho criado, confidente privilegiado, define-se pela lealdade e fidelidade. Não quer magoar nem pretende a desgraça da família de D. Madalena e Manuel. Mas como verdade recorrente no mito sebastianista, acredita que D. João de Portugal há-de regressar. No fim, acaba por trair um pouco a lealdade de escudeiro pelo amor que o une à filha daquele casal, D. Maria de Noronha. Representa um pouco o papel de coro da tragédia grega, com os seus diálogos, os seus agoiros ou os seus apartes. O Romeiro apresenta-se como um peregrino, mas é o próprio D. João de Portugal. Os vinte anos de cativeiro transformaram-no e já nem a mulher o reconhece. D. João, de espectro invisível na imaginação das personagens, vai lentamente adquirindo contornos até se tornar na figura do Romeiro que se identifica como "Ninguém". O seu fantasma paira sobre a felicidade daquele lar como uma ameaça trágica. E o sonho torna-se realidade. Frei Jorge Coutinho, irmão de Manuel de Sousa, amigo da família e confidente nas horas de angústia, ouve a confissão angustiada de D. Madalena. Vai ter um papel importante na identificação do Romeiro, que na sua presença indicará o quadro de D. João de Portugal. 5. Cenário O Acto I passa-se numa "câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegancia dos principios do século XVII", no palácio de Manuel de Sousa Coutinho, em Almada. Neste espaço elegante parece brilhar uma felicidade, que será, apenas, aparente. O Acto II acontece "no palácio que fora de D João de Portugal, em Almada, salão antigo, de gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de familia…". As evocações do passado e a melancolia prenunciam a desgraça fatal.
  • 4. O Acto lll passa-se na capela, que se situa na "parte baixa do palácio de D. João de Portugal". "É um casarão vasto sem ornato algum". O espaço denuncia o fim das preocupações materiais. Os bens do mundo são abandonados. 6. A Atmosfera Há ao longo da intriga dramática uma atmosfera psicológica do sebastianismo com a crença no regresso do monarca desaparecido e a crença no regresso da liberdade. Telmo Pais é quem melhor alimenta estas crenças, mas Maria mostra-se a sua melhor seguidora. Percebe-se também uma atmosfera de superstição, nomeadamente desenvolvida em redor de D Madalena. 7. Simbologia Vários elementos estão carregados de simbologia, muitas vezes a pressagiar o desenrolar da acção e a desgraça das personagens. Apenas como referência, podemos encontrar algumas situações e dados simbólicos: A leitura dos versos de Camões referem-se ao trágico fim dos amores de D. Inês de Castro que, como D. Madalena, também vivia uma felicidade aparente quando a desgraça se abateu. O tempo dos principais momentos da acção sugerem o dia aziago: sexta-feira, fim da tarde e noite (Acto I), sexta-feira, tarde (Acto II), sexta-feira, alta noite (Acto lll); e à sexta-feira D. Madalena casou-se pela primeira vez; à sexta-feira viu Manuel pela primeira vez; à sexta-feira dá-se o regresso de D. João de Portugal; à sexta-feira morreu D. Sebastião, vinte e um anos antes. A numerologia (1) parece ter sido escolhida intencionalmente. Madalena casou 7 anos depois de D. João haver desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir; há 14 anos que vive com Manuel de Sousa Coutinho; a desgraça, com o aparecimento do Romeiro, sucede 21 anos depois da batalha (21=3x7). 0 número 7 é um número primo que se liga ao ciclo lunar (cada fase da Lua dura cerca de sete dias) e ao ciclo vital (as células humanas renovam-se de sete em sete anos), representa o descanso no fim da criação e pode-se encontrar em muitas representações da vida, do universo, do homem ou da religião; o número 7 indica o fim de um ciclo periódico. O número 3 é o número da criação e representa o círculo perfeito. Exprime o percurso da vida: nascimento, crescimento e morte. O número 21 corresponde a 3x7, ou seja, ao nascimento de uma nova realidade (7 anos foi o ciclo da busca de notícias sobre D. João de Portugal e o descanso após tanta procura); 14 anos foi o tempo de vida com Manuel de Sousa (2x7, o crescimento de uma dupla felicidade: como esposa de Manuel e como mãe de Maria; 14 é gerado por 1+4=5, apresentando-se como símbolo da relação sexual, do acto de amor); 21 anos completa a tríade de 7 apresentando-se como a morte, como o encerrar do círculo dos 3 ciclos periódicos O número 7 aparece, por vezes, a significar destino, fatalidade (imagem do completar obrigatório do ciclo da vida), enquanto o 3 indica perfeição; o 21 significa, então, a fatalidade perfeita. Maria vive apenas 13 anos. Na crença popular o 13 indica azar. Embora como número ímpar deva apresentar uma conotação positiva, em numerologia é
  • 5. gerado pelo 1+3=4, um número par, de influências negativas, que representa limites naturais. Maria vê limitados os seus momentos de vida. 8. Acção Trágica Elementos Hybris Agón Pathos Katastrophé trágicos (o desafio) (o conflito) (o sofrimento) (a catástrofe) D. contra as leis e os interior, de por causa do causada pelo Madalena direitos da família: consciência adultério regresso de de Vilhena D. João - adultério no contínuo pela incerteza da morte coração sorte do primeiro psicológica: crescente marido consumação pelo separação do casamento com gerador de violento pela volta marido Manuel conflitos: ao palácio do com D. primeiro marido profissão profanação de um Manuel religiosa sacramento com D. João cruel após com Maria conhecimento da salvação pela bigamia com Telmo existência do purificação: primeiro marido: pela perda do irmã Sóror marido Madalena das pela perda de Chagas Maria Manuel S. revolta contra as não tem sofre a angústia morte Coutinho autoridades de conflito de pela situação da psicológica: Lisboa consciência sua mulher separação da desafia o destino não entra em sofre a angústia esposa ao incendiar o conflito com pela situação separação do palácio as outras presente e futura da mundo personagens filha profissão recusa o perdão religiosa a sua hybris inconscientemente desencadeia e glória futura participante da agudiza os de escritor: hybris de sua conflitos das esposa outras Frei Luís de personagens Sousa: glória de santo D. João de abandona a família não tem sofre o morte Portugal conflito esquecimento a que psicológica: não dá notícias da foi votado sua existência alimenta os separação da conflitos dos sofre pelo mulher aparece quando outros casamento da sua todos o julgavam mulher a situação morto agudiza todos irremediável
  • 6. os conflitos sofre por não poder do anonimato com o seu travar a marcha do regresso destino D. Maria revolta contra a não tem sofre fisicamente: morre de profissão religiosa conflito tuberculose fisicamente Noronha dos pais entra em sofre vai para o céu revolta contra D. conflito com: psicologicamente: João de Portugal sua mãe não obtém resposta seu pai a muitos agoiros convida os pais a Telmo vergonha da mentir D. João de ilegitimidade Portugal Telmo afeiçoa-se a Maria conflito de sofre pela dúvida não poderá Pais consciência constante que o resistir a deseja que D. João assalta acerca da tantos de Portugal tivesse conflito com morte de D. João desgostos morrido outras de Portugal personagens: com D. sofre hesitando Madalena entre a fidelidade a com D. D. João e a D. Manuel Manuel com Maria com D. João sofre a situação de de Portugal Maria 9. Estrutura dramática Estrutura Interna Estrutura Externa Exposição Acto I - cenas I, II, III e IV Conflito Acto I - cenas V-XII Acto II Acto III - cenas I-IX Desenlace Acto III - cenas X-XII Acto I cenas I-IV Informações sobre o passado das personagens Preparação da acção - decisão dos governadores e decisão de incendiar o cenas V-VIII palácio cenas IX-XII Acção: incêndio do palácio Acto II cenas I-III Informações sobre o que se passou depois do incêndio cenas IV-VIII Preparação da acção: ida de Manuel de Sousa Coutinho a Lisboa cenas IX-XV Acção: chegada do Romeiro Acto III cena I Informações sobre a solução adoptada
  • 7. cenas II-IX Preparação do desenlace cenas X-XII Desenlace