Os Maias: Cap. I e II

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Os Maias: Cap. I e II

  1. 1. Dois níveis de ACÇÃO:- a crónica de costumes – associa-se aosubtítulo “Episódios da Vida Romântica” – que engloba arepresentação de cenários e ambientes onde personagens(principais e figurantes) agem e interagem;- a intriga - constituída fundamentalmente pelosamores de Carlos e Mª Eduarda – intriga principal. (intrigasecundária: protagonizada por Pedro da Maia e MariaMonforte)- Feição TRÁGICA da acção d’ Os Maias advém dosseguintes aspectos: - do fatalismo e da temática do incesto; - da importância atribuída ao destino (enquantoforça de destruição); - dos presságios e símbolos de natureza trágica.
  2. 2. Capítulo I – Resumo por tópicos:• Apresentação do Ramalhete (casa de residência, em Lisboa, deAfonso da Maia e seu neto, Carlos da Maia).• Apresentação da família Maia com destaque para acaracterização física e psicológica de Afonso da Maia.• Exílio de Afonso da Maia por ser partidário das ideais liberais.• Casamento de Afonso da Maia com D. Maria EduardaRuna, uma mulher conservadora e com ideais opostos aos domarido.• Nascimento de Pedro da Maia.• Educação de Pedro da Maia (modelo educacional imposto pelamãe e contrário aos valores de Afonso da Maia).• Morte de Maria Eduarda Runa.• Casamento de Pedro da Maia com Maria Monforte (uma mulhermuito elegante e muito bela, com toilettes deslumbrantes).
  3. 3. Capítulo II – Resumo por tópicos:• Partida de Pedro e Maria para Itália, onde tencionam passar oInverno;• Maria, enfastiada de Roma, suspira por Paris e deseja “gozarem alium lindo Inverno de amor”;• Gravidez de Maria e regresso a Lisboa;• Pedro da Maia, antes de partir, escreve uma carta comovida ao pai,informando-o do seu regresso e dando-lhe a notícia de que iria terum neto;• Chegada a Lisboa. Ida de Pedro a Benfica (onde era supostoencontrar o pai – que entretanto partira para Santa Olávia);• Pedro e Maria fixam-se em Arroios;• Nascimento da filha; Pedro, magoado, não informa o pai;• Nascimento do filho, Carlos; tentativa de reconciliação com o pai;• Trancredo e Alencar começam a frequentar os serões da casa deArroios;• Fuga da Monforte com Tancredo, levando com ela a filha;• Ida de Pedro a casa do pai, em Benfica, levando o filho consigo;• Suicídio de Pedro da Maia;• Partida de Afonso com o neto para Santa Olávia. Todos os criadoso acompanham.
  4. 4. ESPAÇO (exterior e interior)O Ramalhete é o nome da casa onde se inicia e se desenrola grandeparte da acção da obra.…………“casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875“(pág. 5)“Este inútil pardieiro (como lhe chamava o Vilaça Júnior, agora pormorte de seu pai administrador dos Maias) só veio a servir, nos finsde 1870, para lá se arrecadarem as mobílias e as louças…” (pág. 6)"Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete,sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitasjanelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila dejanelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho deresidência eclesiástica que competia a uma edificação dos tempos daSra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas” (pág. 5)
  5. 5. "o Ramalhete possuia apenas, ao fundo de um terraço de tijolo,um pobre quintal inculto, abandonado às ervas bravas, com umcipestre, um cedro, uma cascatazinha seca, um tanque entulhado,e uma estátua de mármore...enegrecendo a um canto na lentahumanidade das ramagens silvestres." (pág. 6)“O procurador compôs logo um relatório a enumerar osinconvenientes do casarão: o maior era necessitar tantas obras etantas despesas; depois a falta de um jardim, devia ser muitosensível a quem saía dos arvoredos de Santa Olávia; e por fimaludia mesmo a uma lenda, segundo a qual eram sempre fataisaos Maias as paredes do Ramalhete…” (pág. 7) (indício de fatalidade)“Ao fim de ano… do antigo Ramalhete só restava a fachadatristonha… O que surpreendia logo era o pátio, outrora tãolôbrego, nu lajeado de pedregulhos – agora resplandecente, comum pavimento quadrilhado e mármores brancos e vermelhos…”(pág. 8 e 9)
  6. 6. O Ramalhete situava-se na Rua de São Francisco de Paula(actualmente: Rua Presidente Manuel de Arriaga), Janelas Verdes, Lisboa. Oseu nome deriva do painel de azulejos com um ramo de girassóispintados que se encontrava no lugar heráldio, ao invés do brasãode família. Estes girassóis simbolizam a ligação da família à terra,à agricultura bem como a efemeridade da vida. Imagem: google maps.com – R. Presidente Manuel de Arriaga (antiga R. S. Francisco de Paula
  7. 7. Em Os Maias, o Ramalhete é visto em três perspectivas diferentes: 1ª - Posto ao abandono (cap. I, pág. 6); 2ª - Habitada por Carlos da Maia e o avô, depois de decorada por um inglês; 3ª - Dez anos depois do desfecho da intriga principal, posta novamente ao abandono, depois de ser habitada dois anos.Quatro elementos:• o cipreste e o cedro [simbolizam a morte, porassociação destas árvores aos cemitérios]; Imagem 1: http://www.fotosearch.c om.br/CSP005/k005029 5/• a cascatazinha (seca) [este adjectivo simboliza a ausência Imagem 2: de vida. O uso do diminutivo inclui na obra queiroziana, http://images.google.com/im gres?imgurl=http://www.diaa geralmente, uma caracterização depreciativa e irónica. dia.pr.gov.br/tvpendrive/arqu ivos/File/imagens/4geografia No entanto, aqui o objectivo de Eça é dar a impressão /7cedro_libano_2. de que é algo simples, singelo];
  8. 8. • a estátua da Vénus (enegrecendo a um canto na lentahumindade) [Enegrecendo - O uso do gerúndio confere umaideia de continuidade que já vem do passado.Canto - Esta expressão reforça a ideia de abandono do local.Geralmente um canto é um local solitário e esquecido, ao passoque a estátua de Vénus acompanha o estado de abandono doedifício.Lenta humidade - Esta expressão é uma marca do estilo pessoaldo autor. O objectivo, ao trocar muito por lento, é realçar o passardos anos, e não a quantidade de humidade]. Imagem: in http://www.lithis.net/36
  9. 9. PersonagensAfonso da Maia era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes: e coma sua face larga e nariz aquilino, a pele corada, qause vermelha, o cabelobranco todo cortado à escovinha, e a barba de neve aguda e longa – lembravacomo dizia Carlos, um varão esforçado das idades heróicas, um D. Duarte deMeneses ou um Afonso Albuquerque. E isto fazia sorrir o velho… [era] apenasuma antepassado bonacheirão que amava os seus livros, o conchego da suapoltrona, o seu whist ao canto do fogão… Parte do seu rendimento ia-se-lhepor entre os dedos, esparsamente, numa caridade enternecida. Cada vezamava mais o que é pobre e o que é fraco.” (pág. 12) Enquanto jovem adere aos ideais do Liberalismo e é obrigado, porseu pai (Caetano da Maia) (13), a sair de casa; instalando-se em Inglaterra(14) mas, falecido o pai, regressa a Lisboa para casar com Maria EduardaRuna (15). Mais tarde, dedica a sua vida ao neto Carlos e já velho passa otempo em conversas com os amigos, lendo com o seu gato – ReverendoBonifácio – aos pés, opinando sobre a necessidade de renovação do país.
  10. 10. Maria Eduarda Runa é a mulher de Afonso da Maia (que grande parte do romancejá é viúvo). É uma personagem bastante doente, fraca e religiosa. “umalinda morena, mimosa e um pouco adoentada” (15), “Pensativa e triste,tossia sempre pelas salas… Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira,… tinha vivido desde que chegara num ódio surdo àquela terra dehereges e ao seu idioma bárbaro… indo refugiar-se no sótão com ascriadas portuguesas, para rezar o terço...” (17) Insiste em dar uma educação típica portuguesa ao seu filho,Pedro da Maia, e Afonso da Maia, seu marido, não concorda masacaba por ceder. “Odiando tudo o que era inglês, não consentira queseu filho, o Pedrinho, fosse estudar ao colégio de Richmond.” (17) Umtio desta personagem, um dia, julgando-se Judas, enforcou-se numafigueira. Afonso preocupa-se ao descobrir uma parecença entre seufilho, Pedro, e um retrato deste tio (22). Maria “morreu, numa agonia terrível de devota, debatendo-sedias nos pavores do Inferno” (21)
  11. 11. Pedro da Maia…ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco daraça e da força dos Maias; a sua linda face oval de um trigueirocálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis… Desenvolvera-selentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, aflores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquelaalma meio adormecida e passiva… Tomara birra ao padreVasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo fraco; e esseabatimento contínuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em crisesde melancolia negra, que o traziam dias e diasmudo, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e já velho. (20)Pedro é vítima de uma educação retrógrada. O seu único sentimentovivo e intenso fora a paixão pela mãe, até se apaixonar por MariaMonforte (22), paixão que lhe dá até força para contrariar o pai (30).Apresenta uma enorme cobardia moral (como demonstra a reacção dosuicídio face à fuga da sua mulher) (cap. II, 52). É o protótipo do herói romântico.
  12. 12. Educação Portuguesa Retrógada: breve crítica socialA alma do seu Pedrinho não abandonaria ela (Maria Runa) à heresia;- e para o educar mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capelão doconde Runa. O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo acartilha… - Quantos são os inimigos da alma? E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando: - Três. Mundo, Diabo e Carne… Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia ali o reverendoVasques, obeso e sórdido, arrotando do fundo da sua poltrona, como lenço do rapé sobre o joelho… Quando Afonso o queria levar, correr com ele sob as árvoresdo Tamisa… a mamã acudia de dentro, em terror, a abafá-lo numagrande manta: depois lá fora, o menino, acostumado ao colo dascriadas e aos recantos estofados, tinha medo do vento e dasárvores… todo acobardado das sombras do bosque vivo, o paivergando os ombros, pensativo, triste daquela fraqueza do filho…(18)
  13. 13. A personagem Pedro da Maia é…-Fruto das características hereditárias da família Runae-Do meio socio-cultural em que é educado,portanto…verifica-se na concepção desta personagem algumascaracterísticas do Realismo – neste caso, o apreço peloDeterminismo (o meio e as características hereditáriasprovocam determinados comportamentos).
  14. 14. Maria Monforte Sob as rosinhas que ornavam o seu chapéu preto, os cabelosloiros, de um oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta eclássica: os olhos maravilhosos iluminavam-na toda; a friagem fazia-lhe mais pálida a carnação de mármore: e com o seu perfil grave deestátua, o modelado nobre dos ombros e dos braços que o xale cingia –pareceu a Pedro nesse instante alguma coisa de imortal e superior àTerra. (22) Ela oferecia verdadeiramente a encarnação de um ideal daRenascença, um modelo Ticiano… (24) Nunca Maria Monforte aparecera mais bela: tinha uma dessastoilettes excessivas e teatrais que ofendiam Lisboa, e faziam dizer àssenhoras que ela se vestia “como uma cómica”. (26) Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia umvestido cor-de-rosa cuja roda, toda em folhos, quase cobria os joelhosde Pedro, sentado a seu lado… E a sua face, grave e pura, como ummármore grego aparecia realmente adorável, iluminada pelos olhos deum azul sombrio, entre aqueles tons rosados. (29) É o protótipo da mulher anjo/demónio tipicamente romântica.
  15. 15. INTRIGA SECUNDÁRIA:• Amores de Pedro e Maria Monforte (I, 22);• Casamento de Pedro e Maria Monforte (contrariando a posição deAfonso) (I, 30);• Viagem por Itália e França, vivendo uma felicidade de novela (II, 32);• Nascimento de Maria Eduarda (34);•Afonso recusa reconciliação com o filho;• Existência festiva e luxuosa em Arroios (Maria detesta Afonso,apelidando-o de D. Fuas ou Barbatanas) (II, 35);•Nascimento de Carlos Eduardo [nome inspirado numa novela de queera herói o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo; enamorada dela, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nomea seu filho… Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe contertodo um destino de amores e façanhas. (38)
  16. 16. • Fuga de Maria Monforte com Tancredo, levando Maria e deixandoCarlos com Pedro (46) “É uma fatalidade, parto para sempre comTancredo, esquece-me que não sou digna de ti, e levo Maria, que me nãoposso separar dela” ;• Suicídio de Pedro em casa do pai em Benfica (52) Uma brasa morria nofogão. A noite parecia mais áspera. Eram de repente vergastadas de águacontra a vidraça… depois havia uma calma tenebrosa… nesse silêncio asgoteiras punham um pranto lento… - Está uma noite de Inglaterra – disse Afonso…Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. Decerto o ferira aideia de Maria, longe, num quarto alheio agasalhando-se no leito doadultério entre os braços do outro… - Estou realmente cansado, meu pai, vou-me deitar. Boa noite…amanhã conversaremos mais. Beijou-lhe a mão e saiu devagar… Afonso demorou-se aindaali… Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizeraa cama da ama… No vasto leito o pequeno (Carlos) dormia como umMenino Jesus cansado com o seu guizo apertado na mão… A madrugadaclareava, Afonso ia adormecendo – quando de repente um tiro atroou acasa… Pedro… caído de bruços, numa poça de sangue que ensopava otapete, Afonso encontrou seu filho morto.
  17. 17. Tratamento do Tempo:-Introdução: 1875 (cerca de 5 páginas) – descrição do Ramalhete.-ANALEPSE: de 1820 a 1875 (cerca de 85 páginas – inicia-sena pág. 13 (cap. I) e prolonga-se até à pág. 95 (cap. IV). • nesta grande analepse inclui-se a intriga secundária: os amores de Pedro e Mª Monforte a um ritmo de novela – narração rápida, típica da escola literária Romântica. (Juventude de Afonso da Maia / Exílio de Afonso / Casamento de Afonso com Mª Eduarda Runa / Infância de Pedro / Juventude, amores e casamento de Pedro / Suicídio de Pedro / Infância e educação de Carlos em Santa Olávia / Carlos cursa Medicina em Coimbra / Primeira viagem de Carlos pela Europa)
  18. 18. Narrador: Cap. I e II Focalização OMNISCIENTE Atenção: esta focalização altera-se nos capítulos subsequentes focalização interna(isto é, a narração é feita sob o ponto de vista de determinadas personagens – primordialmente… Carlos e Ega – mas há excepções a identificar…)
  19. 19. Linguagem e estilo – Cap I e II:-Discurso indirecto livre;- Adjectivação expressiva (dupla e tripla adjectivação);- Acumulação de sensações;- Diminutivo;- Gerúndio;- Advérbio de modo;- Estrangeirismo;- Hipálage;- Ironia;- Comparação;-Metáfora. (NOTA: nos excertos anteriormente apresentados foram destadas a cor os respectivos recuros estilísticos aqui mencionados.)
  20. 20. Bibliografia:- QUEIRÓS, Eça de, Os Maias, Edição Livros do Brasil, Lisboa;- REIS, Fernando Egídio et al, Análise da obra – Os Maias de Eça deQueirós –, Texto Editores, 28, 1998;- http://www.lithis.net/36- http://portuguesonline2.no.sapo.pt/webqeca.htm- google.maps;- material compilado e fornecido na aula.

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