FILOSOFIA 11.º ano
FILOSOFIA 11.º ano
Luís Rodrigues
Da dúvida ao Cogito.
O exercício da dúvida e os
seus resultados
ANÁLISE COMPARATIVA DE DUAS
TEORIAS DO CONHECIMENTO
O RACIONALISMO DE DESCARTES
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
DA DÚVIDA AO COGITO
O EXERCÍCIO DA DÚVIDA E OS SEUS
RESULTADOS
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
O objetivo fundamental do pensamento de Descartes é uma profunda
reforma do conhecimento humano que o coloque à margem de
qualquer dúvida.
Trata-se de justificar ou fundamentar as nossas crenças de forma a
garantirmos, sem margem para dúvida, a sua verdade.
A DÚVIDA AO SERVIÇO DA VERDADE
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Como encontrar uma verdade absolutamente indubitável?
Como encontrar uma verdade sobre a qual não possa recair a mínima
suspeita de falsidade?
A QUESTÃO QUE ORIENTA O EXERCÍCIO DA
DÚVIDA
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
• Considerar falsa qualquer opinião ou crença em que detetarmos a
mínima fragilidade, isto é, sobre a qual possamos ter uma razão
para duvidar, por mais ténue que seja.
• Considerar que qualquer faculdade que usamos para conhecer não
merece confiança se alguma vez nos tiver enganado ou se tivermos
alguma razão para suspeitar de que nos pode enganar.
A RESPOSTA À QUESTÃO QUE ORIENTA O
EXERCÍCIO DA DÚVIDA
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Só o que for impossível considerar duvidoso merece o nome de
verdade.
A dúvida é o meio de examinar que crenças ou opiniões merecem o
nome de verdades indiscutíveis.
A RESPOSTA À QUESTÃO QUE ORIENTA O
EXERCÍCIO DA DÚVIDA
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As bases do sistema dos conhecimentos
estabelecidos:
1. A crença de que podemos confiar nos sentidos, sendo a experiência
a origem do conhecimento.
2. A crença imediata na existência de realidades físicas.
3. A crença de que o nosso entendimento (ou a nossa razão) não se
engana ou não pode estar enganado quando descobre verdades.
O QUE VAI SER EXAMINADO
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Temos de provar sem qualquer margem para dúvida que estas
crenças são verdadeiras.
Se não o conseguirmos, teremos de as rejeitar como falsas.
O QUE VAI SER EXAMINADO
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Descartes considerava que a confiança na perceção sensível ou
experiência era uma das bases do saber tradicional. Rejeita essa crença
usando a dúvida de forma hiperbólica. Como os sentidos algumas vezes
nos enganam, nunca devemos confiar nas suas informações sobre as
qualidades dos objetos sensíveis.
A sua teoria do conhecimento rejeita, por conseguinte, o
empirismo.
A opinião ou crença de que os sentidos são a
origem do conhecimento é falsa.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
«Quantas vezes me acontece que, durante o repouso noturno,
me deixo persuadir de coisas tão habituais como que estou aqui, com o
roupão vestido, sentado à lareira, quando, todavia, estou estendido na
cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com os
olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e
conscientemente estendo esta mão e sinto-a; o que acontece quando se
dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter
sido enganado em sonhos por pensamentos semelhantes! Por isso, se
reflito mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se
podem distinguir por sinais seguros […].»
Meditações sobre a Filosofia Primeira, p. 108.
A opinião ou crença de que o mundo físico existe
é falsa: o argumento das ilusões dos sonhos
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Não havendo um critério absolutamente claro e distinto para
distinguir o sonho da realidade, não podemos considerar verdadeira a
crença na existência de realidades físicas.
Aplicando o princípio que regula a aplicação da dúvida
hiperbólica, tenho de concluir que o facto de julgar que tenho um corpo
e de existirem coisas físicas é uma ilusão.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
A opinião ou crença de que o mundo físico existe
é falsa: o argumento das ilusões dos sonhos
O que foi posto em causa até agora
Considerámos como duvidosa – falsa – a crença de que os
sentidos são fiáveis pontos de partida do conhecimento.
Considerámos como duvidosa – falsa – a crença na existência
de objetos físicos, materiais ou sensíveis.
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
O que falta examinar
Não encontrámos qualquer verdade indubitável do lado dos objetos
sensíveis.
Será que examinando outro tipo de objetos encontraremos algo que
possamos considerar verdade de que não podemos duvidar de
modo algum?
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
O que falta examinar
Examinados os objetos sensíveis e as informações dos sentidos, falta
ver se os objetos inteligíveis resistem ao severo exame da dúvida
metódica e hiperbólica.
O que são objetos inteligíveis?
São o resultado da atividade da razão ou do entendimento. Que 2 + 2
sejam igual a 4 é o resultado de uma operação do entendimento.
Parece impossível de falsificar. Mas será?
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
«Está gravada no meu espírito uma velha crença, segundo a qual existe
um Deus que pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas
quem me garante que ele não procedeu de modo que não houvesse
nem terra, nem céu, nem corpos extensos, nem figura, nem grandeza,
nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como
agora? E mais ainda, assim como concluo que os outros se enganam
algumas vezes naquilo que pensam saber com absoluta perfeição,
também eu me podia enganar todas as vezes que somasse dois e três
ou contasse os lados de um quadrado.»
Meditações sobre a Filosofia Primeira, pp. 110-111.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
O argumento pretende examinar se é justificável a confiança na
verdade indiscutível das nossas crenças racionais, em especial a crença
de que as verdades matemáticas são evidências acima de qualquer
suspeita.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
O argumento baseia-se em duas ideias:
1. Deus criou o nosso entendimento;
2. Deus é omnipotente.
O aspeto decisivo do argumento é a reflexão sobre o conceito de
omnipotência.
Um ser omnipotente não será uma entidade que tudo pode fazer,
mesmo o que eu acho incrível ou absurdo?
Descartes pensa que sim, apesar de considerar esta suspeita muito
frágil.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
Mas basta esta frágil suspeita para que não possamos declarar que a
crença nas verdades matemáticas mais elementares é indubitável.
As proposições com origem na razão, como as da Matemática, não
são verdades indubitáveis.
Porquê?
Porque Deus pode ter-nos criado de modo que nos enganemos
sempre que somamos dois mais três.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
Somos completamente incapazes de mostrar que não existe um
Deus que nos tenha criado destinados a confundir o verdadeiro com o
falso.
É suficiente supor que um tal Deus existe para que duvidemos
do que julgávamos impensável duvidar.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As crenças nas verdades racionais podem ser
falsas: o argumento do Deus enganador
Até agora parece que a dúvida metódica e hiperbólica não
cumpriu o seu objetivo. Denunciámos como falso aquilo de cuja
verdade não podemos estar certos. Mas não descobrimos nenhuma
verdade.
Será que nada é verdadeiro?
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Em nenhum tipo de objetos – nem nos sensíveis nem nos
inteligíveis – encontrámos verdades indiscutíveis.
Talvez o correto seja procurar a verdade do lado do sujeito.
Mas não foi este que tudo pôs em causa?
Não serviu a hipótese do Deus enganador para suspeitar da
fiabilidade da nossa razão ou do nosso entendimento quando julgam
descobrir verdades?
Parece que estamos num beco sem saída.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Será que nada é verdadeiro?
Parece que estamos num beco sem saída.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Será que nada é verdadeiro?
DA DÚVIDA AO COGITO
O EXERCÍCIO DA DÚVIDA E OS SEUS
RESULTADOS:
A PRIMEIRA VERDADE INDUBITÁVEL
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Duvido de tudo, mas poderei duvidar de que duvido de tudo? Não.
Duvido, logo, existo.
Como duvidar é um ato do pensamento, posso dizer:
Penso, logo, existo.
A condição de possibilidade da dúvida
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
O exercício da dúvida conduziu-nos a esta conclusão: Não
temos a certeza de nada.
Mas há algo que não podemos considerar duvidoso ou falso: o
sujeito que duvida existe.
A condição de possibilidade da dúvida
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
Por que razão o «Duvido – penso – logo existo» é uma verdade
indubitável?
Porque para que a dúvida seja possível tem de ser verdadeira a
existência do eu que duvida.
A condição de possibilidade da dúvida
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
1. Como primeira crença que resiste à dúvida, será o primeiro princípio
do novo sistema dos conhecimentos.
Nenhum conhecimento é anterior a este porque o descobrimos no
momento em que temos dúvidas sobre tudo (objetos sensíveis e
inteligíveis). Como primeira verdade indubitável, vai ser a partir dela
que a reconstrução do saber se vai fazer.
As caraterísticas da primeira verdade indubitável
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
2. É a afirmação da existência do eu como substância pensante.
Como duvidar é um ato do pensamento, o sujeito descobre a sua
existência como sujeito pensante.
3. É uma verdade autoevidente porque é conhecida pela razão sem ser
justificada por uma verdade anterior.
Que o eu exista como substância pensante é uma verdade
autoevidente que não se baseia em nenhuma outra verdade.
As caraterísticas da primeira verdade indubitável
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
4. É uma verdade puramente racional conhecida por intuição (intuição
racional e existencial).
Corresponde à descoberta da existência do eu no ato de pensar e à
descoberta da sua essência nesse mesmo ato. O eu existe como ser
pensante. É puramente racional porque descoberta pela razão,
independentemente de qualquer contributo da experiência.
É descoberta por intuição. Não é deduzida de um conhecimento
anterior mais geral do tipo «Tudo o que pensa existe».
As caraterísticas da primeira verdade indubitável
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
5. É uma verdade inata.
O «Eu penso, logo, existo» ou a existência do eu pensante é uma
verdade que não deriva ou depende da experiência, dos sentidos.
Apresenta-se à razão como verdade de que ela não pode duvidar.
Está no nosso espírito desde sempre (ao nascer) e, mesmo que não
tenhamos desde logo consciência dela, a nossa razão descobre-a
quando dá atenção a si e não às coisas exteriores.
As caraterísticas da primeira verdade indubitável
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
6. É um modelo e um critério de verdade.
O Cogito é um modelo e um critério de verdade porque só é verdadeiro
o que apreendemos com clareza e distinção. Serão verdadeiras todas
as ideias que forem tão claras e distintas como este primeiro
conhecimento. É claro e distinto o que a razão, independentemente
dos sentidos, considera impossível ser falso.
As caraterísticas da primeira verdade indubitável
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito
As caraterísticas da primeira verdade indubitável
SÍNTESE
Conhecimento
indubitável e
autoevidente
obtido por
intuição, que
não depende
de nenhum
outro.
Conhecimento a
partir do qual se
vão deduzir
outros porque é
absolutamente
primeiro.
Modelo e
critério de
verdade.
Ideia inata
porque se
impõe como
verdade
absoluta à
razão sem
recurso à
experiência.
FILOSOFIA 11.º ano
Da dúvida ao cogito

Da dúvida ao cogito

  • 1.
    FILOSOFIA 11.º ano FILOSOFIA11.º ano Luís Rodrigues Da dúvida ao Cogito. O exercício da dúvida e os seus resultados
  • 2.
    ANÁLISE COMPARATIVA DEDUAS TEORIAS DO CONHECIMENTO O RACIONALISMO DE DESCARTES FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 3.
    DA DÚVIDA AOCOGITO O EXERCÍCIO DA DÚVIDA E OS SEUS RESULTADOS FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 4.
    O objetivo fundamentaldo pensamento de Descartes é uma profunda reforma do conhecimento humano que o coloque à margem de qualquer dúvida. Trata-se de justificar ou fundamentar as nossas crenças de forma a garantirmos, sem margem para dúvida, a sua verdade. A DÚVIDA AO SERVIÇO DA VERDADE FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 5.
    Como encontrar umaverdade absolutamente indubitável? Como encontrar uma verdade sobre a qual não possa recair a mínima suspeita de falsidade? A QUESTÃO QUE ORIENTA O EXERCÍCIO DA DÚVIDA FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 6.
    • Considerar falsaqualquer opinião ou crença em que detetarmos a mínima fragilidade, isto é, sobre a qual possamos ter uma razão para duvidar, por mais ténue que seja. • Considerar que qualquer faculdade que usamos para conhecer não merece confiança se alguma vez nos tiver enganado ou se tivermos alguma razão para suspeitar de que nos pode enganar. A RESPOSTA À QUESTÃO QUE ORIENTA O EXERCÍCIO DA DÚVIDA FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 7.
    Só o quefor impossível considerar duvidoso merece o nome de verdade. A dúvida é o meio de examinar que crenças ou opiniões merecem o nome de verdades indiscutíveis. A RESPOSTA À QUESTÃO QUE ORIENTA O EXERCÍCIO DA DÚVIDA FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 8.
    As bases dosistema dos conhecimentos estabelecidos: 1. A crença de que podemos confiar nos sentidos, sendo a experiência a origem do conhecimento. 2. A crença imediata na existência de realidades físicas. 3. A crença de que o nosso entendimento (ou a nossa razão) não se engana ou não pode estar enganado quando descobre verdades. O QUE VAI SER EXAMINADO FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 9.
    Temos de provarsem qualquer margem para dúvida que estas crenças são verdadeiras. Se não o conseguirmos, teremos de as rejeitar como falsas. O QUE VAI SER EXAMINADO FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 10.
    Descartes considerava quea confiança na perceção sensível ou experiência era uma das bases do saber tradicional. Rejeita essa crença usando a dúvida de forma hiperbólica. Como os sentidos algumas vezes nos enganam, nunca devemos confiar nas suas informações sobre as qualidades dos objetos sensíveis. A sua teoria do conhecimento rejeita, por conseguinte, o empirismo. A opinião ou crença de que os sentidos são a origem do conhecimento é falsa. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 11.
    «Quantas vezes meacontece que, durante o repouso noturno, me deixo persuadir de coisas tão habituais como que estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando, todavia, estou estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e conscientemente estendo esta mão e sinto-a; o que acontece quando se dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter sido enganado em sonhos por pensamentos semelhantes! Por isso, se reflito mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem distinguir por sinais seguros […].» Meditações sobre a Filosofia Primeira, p. 108. A opinião ou crença de que o mundo físico existe é falsa: o argumento das ilusões dos sonhos FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 12.
    Não havendo umcritério absolutamente claro e distinto para distinguir o sonho da realidade, não podemos considerar verdadeira a crença na existência de realidades físicas. Aplicando o princípio que regula a aplicação da dúvida hiperbólica, tenho de concluir que o facto de julgar que tenho um corpo e de existirem coisas físicas é uma ilusão. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito A opinião ou crença de que o mundo físico existe é falsa: o argumento das ilusões dos sonhos
  • 13.
    O que foiposto em causa até agora Considerámos como duvidosa – falsa – a crença de que os sentidos são fiáveis pontos de partida do conhecimento. Considerámos como duvidosa – falsa – a crença na existência de objetos físicos, materiais ou sensíveis. As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 14.
    O que faltaexaminar Não encontrámos qualquer verdade indubitável do lado dos objetos sensíveis. Será que examinando outro tipo de objetos encontraremos algo que possamos considerar verdade de que não podemos duvidar de modo algum? FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador
  • 15.
    O que faltaexaminar Examinados os objetos sensíveis e as informações dos sentidos, falta ver se os objetos inteligíveis resistem ao severo exame da dúvida metódica e hiperbólica. O que são objetos inteligíveis? São o resultado da atividade da razão ou do entendimento. Que 2 + 2 sejam igual a 4 é o resultado de uma operação do entendimento. Parece impossível de falsificar. Mas será? FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador
  • 16.
    «Está gravada nomeu espírito uma velha crença, segundo a qual existe um Deus que pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas quem me garante que ele não procedeu de modo que não houvesse nem terra, nem céu, nem corpos extensos, nem figura, nem grandeza, nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como agora? E mais ainda, assim como concluo que os outros se enganam algumas vezes naquilo que pensam saber com absoluta perfeição, também eu me podia enganar todas as vezes que somasse dois e três ou contasse os lados de um quadrado.» Meditações sobre a Filosofia Primeira, pp. 110-111. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador
  • 17.
    O argumento pretendeexaminar se é justificável a confiança na verdade indiscutível das nossas crenças racionais, em especial a crença de que as verdades matemáticas são evidências acima de qualquer suspeita. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador
  • 18.
    O argumento baseia-seem duas ideias: 1. Deus criou o nosso entendimento; 2. Deus é omnipotente. O aspeto decisivo do argumento é a reflexão sobre o conceito de omnipotência. Um ser omnipotente não será uma entidade que tudo pode fazer, mesmo o que eu acho incrível ou absurdo? Descartes pensa que sim, apesar de considerar esta suspeita muito frágil. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador
  • 19.
    Mas basta estafrágil suspeita para que não possamos declarar que a crença nas verdades matemáticas mais elementares é indubitável. As proposições com origem na razão, como as da Matemática, não são verdades indubitáveis. Porquê? Porque Deus pode ter-nos criado de modo que nos enganemos sempre que somamos dois mais três. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador
  • 20.
    Somos completamente incapazesde mostrar que não existe um Deus que nos tenha criado destinados a confundir o verdadeiro com o falso. É suficiente supor que um tal Deus existe para que duvidemos do que julgávamos impensável duvidar. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito As crenças nas verdades racionais podem ser falsas: o argumento do Deus enganador
  • 21.
    Até agora pareceque a dúvida metódica e hiperbólica não cumpriu o seu objetivo. Denunciámos como falso aquilo de cuja verdade não podemos estar certos. Mas não descobrimos nenhuma verdade. Será que nada é verdadeiro? FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 22.
    Em nenhum tipode objetos – nem nos sensíveis nem nos inteligíveis – encontrámos verdades indiscutíveis. Talvez o correto seja procurar a verdade do lado do sujeito. Mas não foi este que tudo pôs em causa? Não serviu a hipótese do Deus enganador para suspeitar da fiabilidade da nossa razão ou do nosso entendimento quando julgam descobrir verdades? Parece que estamos num beco sem saída. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito Será que nada é verdadeiro?
  • 23.
    Parece que estamosnum beco sem saída. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito Será que nada é verdadeiro?
  • 24.
    DA DÚVIDA AOCOGITO O EXERCÍCIO DA DÚVIDA E OS SEUS RESULTADOS: A PRIMEIRA VERDADE INDUBITÁVEL FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 25.
    Duvido de tudo,mas poderei duvidar de que duvido de tudo? Não. Duvido, logo, existo. Como duvidar é um ato do pensamento, posso dizer: Penso, logo, existo. A condição de possibilidade da dúvida FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 26.
    O exercício dadúvida conduziu-nos a esta conclusão: Não temos a certeza de nada. Mas há algo que não podemos considerar duvidoso ou falso: o sujeito que duvida existe. A condição de possibilidade da dúvida FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 27.
    Por que razãoo «Duvido – penso – logo existo» é uma verdade indubitável? Porque para que a dúvida seja possível tem de ser verdadeira a existência do eu que duvida. A condição de possibilidade da dúvida FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 28.
    1. Como primeiracrença que resiste à dúvida, será o primeiro princípio do novo sistema dos conhecimentos. Nenhum conhecimento é anterior a este porque o descobrimos no momento em que temos dúvidas sobre tudo (objetos sensíveis e inteligíveis). Como primeira verdade indubitável, vai ser a partir dela que a reconstrução do saber se vai fazer. As caraterísticas da primeira verdade indubitável FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 29.
    2. É aafirmação da existência do eu como substância pensante. Como duvidar é um ato do pensamento, o sujeito descobre a sua existência como sujeito pensante. 3. É uma verdade autoevidente porque é conhecida pela razão sem ser justificada por uma verdade anterior. Que o eu exista como substância pensante é uma verdade autoevidente que não se baseia em nenhuma outra verdade. As caraterísticas da primeira verdade indubitável FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 30.
    4. É umaverdade puramente racional conhecida por intuição (intuição racional e existencial). Corresponde à descoberta da existência do eu no ato de pensar e à descoberta da sua essência nesse mesmo ato. O eu existe como ser pensante. É puramente racional porque descoberta pela razão, independentemente de qualquer contributo da experiência. É descoberta por intuição. Não é deduzida de um conhecimento anterior mais geral do tipo «Tudo o que pensa existe». As caraterísticas da primeira verdade indubitável FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 31.
    5. É umaverdade inata. O «Eu penso, logo, existo» ou a existência do eu pensante é uma verdade que não deriva ou depende da experiência, dos sentidos. Apresenta-se à razão como verdade de que ela não pode duvidar. Está no nosso espírito desde sempre (ao nascer) e, mesmo que não tenhamos desde logo consciência dela, a nossa razão descobre-a quando dá atenção a si e não às coisas exteriores. As caraterísticas da primeira verdade indubitável FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 32.
    6. É ummodelo e um critério de verdade. O Cogito é um modelo e um critério de verdade porque só é verdadeiro o que apreendemos com clareza e distinção. Serão verdadeiras todas as ideias que forem tão claras e distintas como este primeiro conhecimento. É claro e distinto o que a razão, independentemente dos sentidos, considera impossível ser falso. As caraterísticas da primeira verdade indubitável FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito
  • 33.
    As caraterísticas daprimeira verdade indubitável SÍNTESE Conhecimento indubitável e autoevidente obtido por intuição, que não depende de nenhum outro. Conhecimento a partir do qual se vão deduzir outros porque é absolutamente primeiro. Modelo e critério de verdade. Ideia inata porque se impõe como verdade absoluta à razão sem recurso à experiência. FILOSOFIA 11.º ano Da dúvida ao cogito