Este documento fornece noções básicas sobre argumentação, incluindo definições de argumento, premissa, conclusão e proposição. Explica como reconhecer esses elementos em um argumento e fornece indicadores comuns de premissa e conclusão.
O
ESSENCIAL
PARA
OS
EXAMES
DE
FILOSOFIA
TEMA
1
NOÇÕES
BÁSICAS
DE
ARGUMENTAÇÃO
Argumento
Um
conjunto
finito
de
proposições
formado
pela
conclusão
e
pelas
premissas
que
visam
apoiá-‐la.
Um
argumento
pode
ter
várias
premissas
mas
só
uma
conclusão.
Os
argumentos
podem
também
ser
chamados
raciocínios
ou
inferências.
Todos
os
minhotos
são
portugueses
Premissa
Estas
duas
frases
são
as
proposições
que
usamos
para
defender
ou
justificar
a
conclusão.
São
as
razões
que
se
apresentam
para
fazer
aceitar
a
ideia
de
que
todos
os
minhotos
são
europeus.
Todos
os
portugueses
são
europeus.
Premissa
Logo,
todos
os
minhotos
são
europeus.
Conclusão
Aquilo
que
se
pretende
justificar
ou
apoiar
mediante
as
premissas.
Proposição
2.
PROPOSIÇÕES
Ideias
expressas
por
frases
declarativas
com
valor
de
verdade
–
que
ou
são
verdadeiras
ou
falsas
–
mesmo
que
o
desconheçamos
e
ainda
não
o
tenhamos
descoberto.
Frases
que
exprimem
proposições.
Frases
que
não
exprimem
proposições.
1
–
Hoje
é
feriado.
2
–
Domingo
é
dia
de
descanso
para
toda
a
gente.
3
–
Se
tivessem
muito
dinheiro
todas
as
pessoas
seriam
felizes.
4
–
Todas
as
pessoas
têm
casa.
5
–
Os
animais
têm
direitos.
6
–
Nem
todas
as
pessoas
têm
os
mesmos
costumes.
7
-‐O
conhecimento
humano
tem
limites.
1
–
Frases
interrogativas:
Quem
foi
o
criador
da
vacina
contra
o
tétano?
Porque
são
pretos
os
pneus
dos
carros?
Os
cirurgiões
operam
com
batas
brancas
ou
verdes?
2
–
Frases
exclamativas:
Meu
Deus!
Cuidado!
3
–
Promessas:
Não
voltarei
a
magoar
–
te;
Não
aumentarei
os
impostos.
4
–
Ordens:
Cala-‐
te!
Senta
–
te!
5
–
Conselhos:
Se
conduzir
não
beba;
Tem
calma;
É
melhor
poupares
esse
dinheiro;
Pare,
escute
e
olhe!
6
–
Desejos
–
Quem
me
dera
que
chegue
o
Verão;
Como
eu
gostava
de
ser
rico.
Uma
proposição
é
todo
o
enunciado
que
pode
ser
verdadeiro
ou
falso,
isto
é,
que
declara
algo
que
tem
valor
de
verdade.
Ter
valor
de
verdade
significa
não
que
a
proposição
é
verdadeira
mas
sim
que
pode
ser
verdadeira
ou
falsa.
Todas
as
proposições
são
frases
declarativas
mas
nem
todas
as
frases
declarativas
são
proposições.
3.
Como
reconhecer
e
clarificar
um
argumento.
Indicadores
de
conclusão
Então…
O
que
mostra
(prova)
que…
Assim…
Consequentemente….
Daí
que…
Por
conseguinte…
Assim
sendo…
Por
isso…
Portanto…
Segue-‐se
que…
E
por
essa
razão…
Infere-‐se
que…
(…)
Qualquer
frase
colocada
a
seguir
a
estes
indicadores
é
a
conclusão.
Ex:
Todos
os
animais
que
ladram
são
cães
e
por
isso
o
animal
que
tenho
em
casa
é
um
cão.
A
proposição
antes
do
indicador
por
isso
é
uma
premissa.
A
proposição
a
seguir
é
a
conclusão.
Implícita
está
a
outra
premissa,
que
identificaríamos
como
omissa:
Tenho
em
casa
um
animal
que
ladra.
Argumento:
Todos
os
animais
que
ladram
são
cães.
Tenho
em
casa
um
animal
que
ladra.
Logo,
o
animal
que
tenho
em
casa
é
um
cão.
Indicadores
de
premissa
4.
Porque…
Uma
vez
que…
Pois…
Visto
que…
Em
virtude
de…
Como…
Assumindo
que…
Considerando
que…
Devido
a…
Por
causa
de…
Ora...
Admitindo
que…
Supondo
que…
(…)
Qualquer
frase
colocada
a
seguir
a
estes
indicadores
é
uma
premissa.
Ex:
O
animal
que
tenho
lá
em
casa
é
um
cão,
visto
que
é
um
animal
que
ladra.
A
proposição
antes
do
indicador
visto
que
é
a
conclusão.
Implícita
está
a
outra
premissa:
Todos
os
animais
que
ladram
são
cães.
Argumento
Todos
os
animais
que
ladram
são
cães.
Tenho
em
casa
um
animal
que
ladra.
Logo,
o
animal
que
tenho
em
casa
é
um
cão.
I
Explicite
a
premissa
omitida
ou
subentendida
em
cada
um
dos
argumentos.
1.O
assassinato
de
um
ser
humano
inocente
deve
ser
condenado.
Logo,
o
aborto
deve
ser
condenado.
R:
A
premissa
omitida
é
O
aborto
é
o
assassinato
de
um
ser
humano
inocente.
Argumento:
O
aborto
é
o
assassinato
de
um
ser
humano
inocente.
O
assassinato
de
um
ser
humano
inocente
deve
ser
condenado.
Logo,
o
aborto
deve
ser
condenado.
2.
Qual
é
o
melhor
clube
de
futebol
do
mundo?
O
que
tem
mais
títulos.
Como
podes
verificar
é
o
Real
Madrid.
5.
R:
A
premissa
omitida
é
O
Real
Madrid
é
o
clube
de
futebol
que
tem
mais
títulos.
Argumento:
O
clube
de
futebol
que
tem
mais
títulos
é
o
melhor
clube
de
futebol
do
mundo.
O
Real
Madrid
é
o
clube
de
futebol
que
tem
mais
títulos.
Logo,
o
Real
Madrid
é
o
melhor
clube
de
futebol
do
mundo.
3.
O
João
tem
os
dedos
manchados
de
nicotina;
logo,
o
João
é
fumador.
R:
A
premissa
omitida
é
Os
fumadores
têm
os
dedos
manchados
de
nicotina.
Argumento:
Os
fumadores
têm
os
dedos
manchados
de
nicotina.
O
João
tem
os
dedos
manchados
de
nicotina.
Logo,
o
João
é
fumador.
4.
Os
milagres
não
existem
e,
sem
eles,
Deus
é
algo
cuja
existência
são
se
pode
provar.
R:
A
premissa
subentendida
é
Os
milagres
são
a
única
prova
da
existência
de
Deus
.
Argumento:
Os
milagres
são
a
única
prova
da
existência
de
Deus.
Os
milagres
não
existem.
Logo,
Deus
é
algo
cuja
existência
são
se
pode
provar.
5.
O
melhor
detergente
é
o
que
lava
mais
branco
e
por
isso
XC
lava
mais
branco.
R:
A
premissa
omitida
é
XC
é
o
melhor
detergente.
Argumento:
O
melhor
detergente
é
o
que
lava
mais
branco.
XC
é
o
melhor
detergente.
6.
Logo,
XC
lava
mais
branco.
4.
Nenhum
entimema
é
completo
pelo
que
este
argumento
é
incompleto.
R:
A
premissa
omitida
é
Este
argumento
é
um
entimema.
Argumento:
Todos
os
entimemas
são
incompletos
(argumentos
incompletos).
Este
argumento
é
um
entimema.
Logo,
este
argumento
é
incompleto.
5.
“É
moralmente
errado
tratar
os
seres
humanos
como
meros
objetos.
Alguém
poderá
então
deixar
de
afirmar
que
a
engenharia
genética
é
moralmente
errada?”
R:
A
premissa
omitida
é
A
engenharia
genética
trata
os
seres
humanos
como
meros
objetos.
Argumento:
É
moralmente
errado
tratar
os
seres
humanos
como
meros
objetos.
A
engenharia
genética
trata
os
seres
humanos
como
meros
objetos.
Logo,
a
engenharia
genética
é
moralmente
errada.
VALIDADE
E
VERDADE
Os
argumentos
não
são
verdadeiros
nem
falsos.
As
proposições
que
os
constituem
é
que
podem
ser
verdadeiras
ou
falsas.
A
verdade
distingue-‐se
da
validade.
A
validade
é
uma
propriedade
da
conexão
entre
premissas
e
conclusão,
e
não
uma
propriedade
das
proposições,
seja
das
premissas,
seja
da
conclusão.
Validade
Dedutiva
Validade
não
-‐
dedutiva
7.
-‐
Exprime
uma
relação
de
implicação
entre
as
premissas
e
a
conclusão.
-‐
A
verdade
das
premissas
–
suposta
ou
factual
–
garante
absolutamente
a
verdade
da
conclusão.
-‐
A
validade
ou
invalidade
dos
argumentos
é
avaliada
em
função
da
forma
ou
estrutura
do
argumento.
-‐
Do
ponto
de
vista
dedutivo,
o
único
critério
da
validade
é
a
forma
lógica
dos
argumentos.
-‐
Não
exprime
uma
relação
de
implicação
entre
as
premissas
e
a
conclusão.
-‐
A
verdade
das
premissas
não
exclui
a
possibilidade
de
a
conclusão
ser
falsa.
-‐
A
forma
lógica
dos
argumentos
é
insuficiente
para
avaliar
a
sua
validade.
Temos
de
ter
em
conta
o
seu
conteúdo.
-‐
Do
ponto
de
vista
não
dedutivo,
os
critérios
de
validade
são
vários:
a
razoabilidade,
o
grau
de
probabilidade
e
a
relevância.
Exemplo
de
argumento
dedutivamente
válido.
Todos
os
cereais
são
plantas.
O
centeio
é
um
cereal.
Logo,
o
centeio
é
uma
planta.
Exemplo
de
argumento
que
não
é
dedutivamente
válido.
Até
agora
nunca
fomos
campeões
do
mundo
de
futebol.
Logo,
não
vamos
ganhar
o
Mundial
de
2016.
Considere
os
seguintes
argumentos:
1.Todos
os
futebolistas
que
jogam
em
grandes
clubes
são
atletas
muito
bem
pagos.
Ronaldo
joga
num
grande
clube.
Logo,
Ronaldo
é
um
atleta
muito
bem
pago.
2.
Cerca
de
90%
dos
futebolistas
que
jogam
em
grandes
clubes
são
atletas
muito
bem
pagos.
Mikael
joga
num
grande
clube.
Logo,
Mikael
é
um
atleta
muito
bem
pago.
Quanto
ao
primeiro
argumento,
se
aceitarmos
as
premissas
temos
de
aceitar
também
a
conclusão.
Também
se
pode
dizer
que
este
argumento
é
demonstrativo
porque
a
verdade
das
premissas
“obriga”
à
verdade
da
conclusão.
Esta
é
uma
consequência
lógica
das
premissas.
Existe
uma
relação
de
implicação
entre
as
premissas
e
a
conclusão.
Trata
–
se
de
um
argumento
dedutivamente
válido.
8.
Quanto
ao
segundo
argumento,
será
razoável,
admitindo
que
as
premissas
são
verdadeiras,
concluir
que
a
conclusão
é
verdadeira?
Sim,
porque
há
uma
forte
probabilidade
de
Mikael,
jogando
num
grande
clube,
ser
muito
bem
pago.
Por
outras
palavras,
as
premissas
são
relevantes
para
que
a
conclusão
seja
aceite
como
verdadeira.
Mas
atenção.
Só
como
provavelmente
verdadeira.
Neste
caso,
ao
contrário
do
argumento
1,
aceitar
as
premissas
não
significa
que
temos
de
aceitar
a
conclusão
(aceitar
a
verdade
das
premissas
não
exclui
a
possibilidade
de
a
conclusão
ser
falsa).
Mikael
pode
ser
um
dos
atletas
muito
bem
pagos
–
há
uma
alta
probabilidade
de
isso
acontecer
–
mas
também
pode
pertencer
aos
10%
que
não
são
muito
bem
pagos.
O
que
dizer
então
da
relação
que
no
argumento
2
se
estabelece
entre
as
premissas
e
a
conclusão?
Podemos
dizer
que
a
verdade
das
premissas
torna
provável
a
verdade
da
conclusão
mas
não
que
a
garante
necessariamente.
Deve
notar
que
se
no
caso
do
argumento
1
basta
analisar
a
forma
lógica
do
argumento
para
avaliar
se
é
válido
ou
não,
no
caso
do
argumento
2
esse
critério
não
é
suficiente.
Temos
de
dar
atenção
ao
seu
conteúdo.
Com
efeito,
se
na
primeira
premissa
se
afirmasse
que
30%
dos
futebolistas
que
jogam
em
grandes
clubes
são
muito
bem
pagos,
isso
mudaria
significativamente
a
relação
entre
as
premissas
e
a
conclusão.
E
teríamos
também
de
esclarecer
o
que
são
grandes
clubes.
Não
estamos
perante
um
argumento
em
que
as
premissas
garantem
absolutamente
a
conclusão.
O
argumento
2.
não
é
um
argumento
dedutivamente
válido.
Dizer
que
um
argumento
não
é
dedutivamente
válido
não
é
condená
–
lo
a
ser
um
mau
argumento.
É
um
mau
argumento
do
ponto
de
vista
dedutivo
mas
pode
ser
um
bom
argumento
de
um
outro
ponto
de
vista,
por
exemplo,
de
um
ponto
de
vista
indutivo.
É
o
caso
do
argumento
2.
TEMA
2
ANÁLISE
E
COMPREENSÃO
DO
AGIR:
A
REDE
CONCETUAL
DA
AÇÃO
1.
Uma
ação
é
um
acontecimento.
Porquê?
Uma
ação
é
e
tem
de
ser
um
acontecimento
porque
é
algo
que
acontece
num
dado
momento
e
num
certo
lugar.
Assim,
ir
à
praia
é
uma
ação
e
ao
mesmo
tempo
um
acontecimento
porque
vamos
à
uma
praia
num
determinado
local
–
Algarve
–
e
em
dado
momento
–
normalmente
no
verão,
de
manhã
ou
de
tarde.
2.
Todos
os
acontecimentos
são
ações?
Não.
Um
furacão
é
um
acontecimento,
mas
não
é
uma
ação.
9.
3.
O
que
se
infere
do
que
foi
dito
antes?
Infere-‐se
que,
embora
todas
as
ações
sejam
acontecimentos,
nem
todos
os
acontecimentos
são
ações.
Um
furacão
é
simplesmente
algo
que
acontece
4.
Qual
a
condição
necessária
para
que
um
acontecimento
seja
uma
ação?
Um
acontecimento,
para
ser
uma
ação,
tem
de
ser
realizado
por
um
agente.
5.
Esta
condição
indispensável
não
é
contudo
suficiente.
Porquê?
Toda
e
qualquer
ação
envolve
um
agente
e
tem
nele
a
sua
origem.
Esta
é
uma
condição
necessária
para
haver
ação.
Mas
não
é
uma
condição
suficiente.
Imaginemos
que
alguém
rouba
um
relógio
valioso
numa
ourivesaria.
Essa
pessoa
fez
algo,
fez
com
que
algo
acontecesse.
Mais
tarde
até
pode
arrepender-‐se
do
que
fez,
mas
na
altura
não
resistiu
a
uma
compulsão
patológica
para
o
roubo
a
que
se
dá
o
nome
de
cleptomania.
Fez
algo:
roubou.
É
a
causa
do
que
aconteceu.
Mas
não
se
trata
de
uma
ação
porque
o
que
o
agente
fez
não
derivou
da
sua
vontade,
mas
de
uma
força
interna
que
o
compeliu
a
fazer
o
que
fez.
Para
que
aquilo
que
um
agente
faz
seja
uma
ação,
tem
de
ter
origem
na
sua
vontade
e
intenção
consciente.
6.
O
que
é
então
uma
ação?
Uma
ação
é
algo
que
acontece
mediante
a
intervenção
da
vontade
e
intenção
consciente
de
um
agente.
Uma
ação
é
um
acontecimento
desencadeado
pela
vontade
e
intenção
de
um
agente.
Não
é
um
simples
acontecimento,
não
é
simplesmente
algo
que
um
agente
faz,
é
algo
que
um
agente
faz
acontecer
intencional
ou
propositadamente.
7.
O
que
se
entende
por
rede
concetual
da
ação?
A
rede
concetual
da
ação
é
o
conjunto
de
conceitos
que
usamos
para
caraterizar,
compreender
e
explicar
uma
ação.
8.
Que
conceitos
são
necessários
para
caraterizar
e
compreender
uma
ação?
Os
conceitos
que
usamos
para
caraterizar
e
compreender
uma
ação
são
os
seguintes:
deliberação,
decisão,
intenção,
motivo,
causa
e
consequência.
10.
9.
O
que
é
a
intenção?
A
intenção
é
o
propósito
ou
o
objetivo
da
ação.
Imagine
que
alguém
escorrega
e
deixa
cair
a
comida
do
tabuleiro
em
cima
dos
livros
de
um
colega,
danificando-‐os.
Quem
fez
isto
pode
alegar
que
não
tinha
a
intenção
–
que
não
era
seu
propósito
ou
objetivo
–
causar
esses
estragos.
Se
não
há
intenção,
então
não
há
ação.
10.
Que
relação
existe
entre
intenção
e
explicação
de
uma
ação?
Explicar
uma
ação
é
indicar
a
sua
causa.
A
causa
de
uma
ação
é
a
intenção
ou
o
propósito
do
agente
ao
realizá-‐la.
11.
Quais
são
os
estados
mentais
que
estão
associados
à
intenção
de
um
agente?
As
intenções
são
estados
mentais
frequentemente
associados
a
outros
estados
psicológicos
que
são
as
crenças
e
os
desejos
do
agente.
Eis
um
exemplo:
inscrevo
o
meu
filho
no
Instituto
Britânico.
Esta
é
a
minha
ação.
Com
que
intenção
a
realizo?
Para
que
é
que
a
realizo?
Para
que
aprenda
inglês.
Dito
de
outro
modo,
porque
tenho
o
desejo
de
que
o
meu
filho
aprenda
inglês
e
a
crença
de
que
o
Instituto
Britânico
é
o
melhor
instituto
para
o
fazer.
A
intenção
da
minha
ação
é,
portanto,
determinada
pelo
meu
desejo
e
pela
minha
crença.
Inscrevo
o
meu
filho
no
Instituto
Britânico
porque
desejo
que
aprenda
inglês
e
acredito
que
o
IB
é
o
local
certo
para
o
fazer.
12.
O
que
se
entende
por
motivo
de
uma
ação?
O
motivo
é
a
justificação,
o
porquê
ou
a
razão
de
ser
da
ação.
Exemplo:
Ação:
inscrevo
o
meu
filho
no
Instituto
Britânico.
Intenção:
Desejo:
quero
que
o
meu
filho
aprenda
inglês.
Crença:
o
Instituto
Britânico
é
o
melhor
instituto
para
aprender
inglês.
Motivo:
Crença:
dominar
a
língua
inglesa
é
um
requisito
essencial
no
atual
mundo
do
trabalho
e
da
investigação
científica.
Desejo:
quero
que
o
meu
filho
seja
bem-‐sucedido
profissionalmente.
11.
Este
desejo
e
esta
crença
acompanham
e
esclarecem
o
motivo
da
minha
ação,
explicam-‐na,
dão
a
conhecer
a
sua
razão
de
ser.
Como
se
vê,
as
crenças
e
os
desejos
do
sujeito
estão
associados
à
intenção
e
à
motivação
do
sujeito
que
age.
Que
relação
existe
entre
motivo
e
intenção?
A
relação
é
a
seguinte:
saber
qual
o
motivo
da
ação,
o
seu
porquê
ou
razão
de
ser,
clarifica
a
intenção
ou
o
para
quê
da
ação,
torna
possível
e
é
necessário
para
que
compreendamos
a
intencionalidade
da
ação.
Se
um
agente
tem
a
intenção
de
fazer
algo
–
inscrever
o
filho
no
Instituto
Britânico
–,
saber
o
que
o
motiva
torna
mais
claro
o
seu
propósito
e
esclarece-‐nos
quanto
a
opções
que
podia
tomar
e
não
tomou.
Teremos
por
outras
palavras
a
justificação
da
intenção.
As
noções
de
motivo
e
de
intenção
estão
extremamente
próximas
uma
da
outra
porque
só
falamos
de
ações
intencionais
se
elas
forem
determinadas
por
um
motivo
ou
razão
que
as
justifique:
uma
ação
é
realizada
intencionalmente
quando
é
realizada
por
algum
motivo.
14.
O
que
é
a
deliberação?
A
deliberação
é
um
processo
reflexivo
que,
em
princípio,
ou
seja,
em
muitos
casos,
antecede
a
decisão.
Orientados
por
determinadas
razões,
ponderamos
qual
a
melhor
opção
a
tomar
entre
várias
alternativas
possíveis.
15.
O
que
se
entende
por
decisão?
A
decisão
é
um
ato
que
resulta
frequentemente
de
um
processo
denominado
deliberação.
O
motivo
pelo
qual
agimos
ou
a
intenção
que
nos
orienta
para
um
determinado
fim
implica
também
a
decisão
de
o
alcançar.
Na
maior
parte
dos
casos,
decidir
supõe
escolher
entre
vários
rumos
possíveis
de
ação,
entre
várias
possibilidades
ou
alternativas.
TEMA3
LIBERDADE
E
DETERMINISMO
12.
I
NOÇÕES
INTRODUTÓRIAS
1.
O
que
é
o
determinismo?
O
determinismo
é
a
teoria
que
defende
que
tudo
é
determinado
por
acontecimentos
anteriores,
ou
que
o
estado
de
coisas
atual
no
mundo
resulta
necessária
ou
inevitavelmente
de
um
estado
de
coisas
anterior
que
é
a
sua
causa.
O
que
o
determinismo
afirma
é
que
um
acontecimento
resulta
de
uma
causa
ou
conjunto
de
causas
e
que
sempre
que
essa
causa
ou
conjunto
de
causas
ocorrer
dará
inevitavelmente
origem
ao
acontecimento.
Esta
é
a
crença
por
detrás
da
explicação
científica
da
natureza,
uma
vez
que
explicar
cientificamente
um
acontecimento
é
apresentar
a
causa
ou
o
conjunto
de
causas
que
dão
origem
ao
acontecimento
e
mostrar
como
a
relação
entre
essas
causas
—
expressas
sob
a
forma
daquilo
a
que
chamamos
leis
da
natureza
—
produz
esse
acontecimento.
2.
O
que
é
o
livre-‐arbítrio?
O
livre-‐arbítrio
consiste
em
poder
escolher
entre
várias
ações
possíveis.
As
ações
resultantes
de
escolhas
livres
não
são
inevitáveis.
Há
livre-‐arbítrio
se
pudermos
agir
de
modo
diferente
do
que
agimos,
se
tendo
feito
uma
coisa
poderíamos
ter
feito
outra.
3.
Em
que
consiste
o
problema
do
livre-‐arbítrio?
O
problema
do
livre-‐arbítrio
consiste
em
saber
se
é
possível
conciliar
duas
convicções
aparentemente
incompatíveis:
a
de
que
temos
livre-‐arbítrio
e
a
de
que
tudo
o
que
acontece
no
mundo
é
determinado.
O
problema
pode
formular-‐se
do
seguinte
modo:
o
livre-‐arbítrio
consiste
em
poder
escolher
entre
várias
ações
possíveis.
Mas,
para
podermos
escolher
entre
várias
ações
possíveis,
é
necessário
que
não
esteja
tudo
determinado,
caso
contrário
poderíamos
apenas
fazer
a
ação
que
estivéssemos
determinados
para
fazer
(não
só
não
haveria
várias
ações
possíveis
entre
as
quais
optar,
como,
mesmo
que
houvesse,
não
nos
seria
possível
escolher
entre
elas).
Portanto,
para
que
exista
livre-‐arbítrio
não
pode
haver
determinismo.
É
isto
que
está
na
origem
do
chamado
problema
do
livre-‐arbítrio.
13.
4.
Por
que
razão
o
problema
do
livre-‐arbítrio
é
um
problema
importante
do
ponto
de
vista
prático?
O
problema
do
livre-‐arbítrio
tem
importantes
implicações
práticas,
a
principal
das
quais
está
relacionada
com
a
responsabilidade
moral.
Tudo
parece
indicar
que,
se
não
houver
livre-‐arbítrio,
então
também
não
é
possível
responsabilizar
moralmente
um
agente
pelas
ações
que
pratica
e,
consequente,
puni-‐lo
ou
recompensá-‐lo.
Será
possível
construir
a
vida
social
sem
a
ideia
de
responsabilidade
moral?
Se
não
houver
livre-‐arbítrio,
não
estará
todo
o
nosso
sistema
penal
errado?
Não
será
que
o
criminoso,
de
modo
análogo
à
pessoa
que
sofre
de
asma
e
assim
vê
o
seu
organismo
prejudicado,
não
deve
ser
punido,
mas
sim
tratado
de
modo
a
deixar
de
ser
prejudicial
à
sociedade?
5.
Em
que
condições
uma
pessoa
pode
ser
considerada
moralmente
responsável
por
uma
ação?
Em
que
condições
atribuímos
responsabilidade
moral
a
um
agente?
Uma
pessoa
pode
ser
considerada
moralmente
responsável
por
uma
ação
quando
podia
não
ter
feito
o
que
fez.
Assim,
se
decido
invadir
o
quintal
do
vizinho
para
me
apropriar
de
algumas
laranjas
apetitosas,
posso
ser
responsabilizado
porque
podia
não
ter
feito
o
que
fiz.
Quando
alguém
me
censura
dizendo
«Não
devias
ter
feito
o
que
fizeste!»
está
precisamente
a
dizer-‐me
que
havia
outra
alternativa.
Mas,
se
o
que
aconteceu
se
verificou
em
estado
de
sonambulismo,
não
posso
ser
responsabilizado
porque
momentaneamente
perdi
o
controlo
dos
meus
atos
e
não
podia
não
ter
feito
o
que
fiz.
7.
Que
relação
há
entre
agir
livremente
e
ser
moralmente
responsabilizado
pelo
que
se
faz?
A
relação
é
esta:
a)
ser
responsável
implica
ser
livre.
Não
se
pode
responsabilizar
uma
pessoa
por
uma
ação
se
ela
não
agiu
livremente.
Que
um
agente
seja
responsabilizável
por
uma
ação
implica
que
podia
ter
agido
de
modo
diferente,
não
ter
feito
o
que
fez
ou
que
podia
ter
evitado
fazer
o
que
fez
(fosse
a
ação
boa
ou
má).
b)
Ser
livre
implica
ser
responsável.
Se
alguém
pratica
livremente
uma
ação,
então
faz
algo
que
podia
não
ter
feito.
Se
o
fez
nestas
condições,
é
o
autor
da
ação
e
por
ela
pode
responder.
Se
agiu
livremente,
não
pode
evitar
ter
de
enfrentar
e
responder
14.
pelas
consequências
dos
seus
atos.
Se
forem,
boas
pode
ser
elogiado.
Se
forem
más,
pode
ser
censurado
e
mesmo
sentir
remorso.
II
TRÊS
TEORIAS
SOBRE
O
PROBLEMA
DO
LIVRE-‐ARBÍTRIO
1.
Em
termos
gerais,
há
três
teorias
que
respondem
ao
problema
do
livre-‐arbítrio.
Quais
são?
As
três
teorias
são:
o
determinismo
radical,
o
libertismo
e
o
determinismo
moderado.
2.
O
que
é
o
determinismo
radical?
Chama-‐se
determinismo
radical
ao
ponto
de
vista
segundo
o
qual
só
o
determinismo
é
verdadeiro.
Para
o
determinista
radical,
a
crença
no
determinismo
significa
acreditar
que
é
verdade
que
todo
e
qualquer
acontecimento
é
o
desfecho
necessário
de
acontecimentos
anteriores.
Daqui
decorre
que
não
há
livre-‐arbítrio
(todas
as
nossas
ações
são
determinadas
pelos
nossos
genes
e
pelo
meio
no
qual
crescemos)
e
que,
assim
sendo,
não
podemos
ser
responsabilizados
pelas
nossas
ações.
Em
suma,
o
determinismo
radical
é
a
teoria
que
considera
que,
sendo
verdade
que
tudo
o
que
acontece
resulta
necessariamente
do
que
aconteceu
antes,
não
há
livre-‐arbítrio
nem
possibilidade
de
responsabilizar
alguém
pelo
que
fez.
3.
O
que
é
o
determinismo
moderado?
É
a
teoria
que
defende
que
as
nossas
ações
são
livres,
apesar
de
determinadas.
4.
O
que
é
o
libertismo?
O
libertismo
é
a
teoria
que
considera
que
há
ações
que
não
são
nem
causalmente
determinadas
nem
produto
do
acaso,
mas
livres,
e
que,
portanto,
as
pessoas
são
responsáveis
por
essas
ações.
As
ações
do
ser
humano
decorrem
das
suas
deliberações
decisões
e
não
de
acontecimentos
anteriores
que
escapem
ao
seu
controlo.
15.
O
libertista
pensa
que,
apesar
das
influências
hereditárias
e
das
influências
do
meio
(relativas
ao
modo
como
somos
educados
e
criados),
escolhemos
livremente
o
que
fazemos.
Não
é
o
passado
que
decide
por
nós.
5.
Acerca
do
problema
do
livre-‐arbítrio,
fala-‐se
de
teorias
incompatibilistas
e
compatibilistas.
O
que
significam
estes
conceitos?
Uma
teoria
é
compatibilista
quando
admite
que
o
determinismo
é
conciliável
ou
pode
coexistir
com
o
livre-‐arbítrio
e
a
responsabilidade
moral.
Uma
teoria
é
incompatibilista
quando
não
admite
a
possibilidade
de
conciliar
o
determinismo
com
o
livre-‐arbítrio
e
a
responsabilidade
moral.
6.
O
determinismo
radical
é
uma
forma
de
incompatibilismo.
Porquê?
O
incompatibilismo
defende
que
as
crenças
no
livre-‐arbítrio
e
no
determinismo
não
são
compatíveis,
ou
seja,
não
podem
ser
ambas
verdadeiras.
O
determinismo
radical
defende
que
só
a
crença
no
determinismo
é
verdadeira.
Se
liberdade
e
determinismo
fossem
compatíveis,
pensa
o
determinista
radical,
teríamos
acerca
de
uma
ação
de
dizer
que
o
agente
podia
não
ter
feito
o
que
fez
(caso
em
que
seria
livre)
e
que
não
podia
não
ter
feito
o
que
fez,
ou
seja,
tinha
de
fazer
o
que
fez,
a
ação
não
poderia
ter
sido
diferente
(caso
em
que
não
seria
livre).
Ora,
isto
é
contraditório.
7.
O
libertismo
é
uma
forma
de
incompatibilismo.
Porquê?
O
incompatibilismo
defende
que
as
crenças
no
livre-‐arbítrio
e
no
determinismo
não
são
compatíveis,
ou
seja,
não
podem
ser
ambas
verdadeiras.
O
libertismo
defende
que
só
a
crença
no
livre-‐arbítrio
é
verdadeira.
A
crença
no
determinismo
é
falsa
porque
este
defende
que
tudo
faz
parte
de
um
encadeamento
causal,
tese
que
o
libertista
nega
porque
as
nossas
deliberações
e
decisões
não
são
o
resultado
necessário
de
acontecimentos
anteriores.
Há
ações
que
têm
como
causa
as
nossas
deliberações.
Deliberar
implica
que
pudemos
escolher
agir
de
modo
diferente.
Podendo
ter
sido
outras,
as
nossas
escolhas
não
são
o
resultado
necessário
e
inevitável
de
acontecimentos
anteriores.
Não
são
o
desfecho
de
uma
longa
cadeia
causal
de
16.
acontecimentos
porque,
ao
escolher
fazer
A
em
vez
de
B,
suspendo
o
domínio
dos
acontecimentos
anteriores
sobre
as
minhas
decisões
e
desencadeio
por
minha
vontade
uma
nova
série
de
acontecimentos.
8.
Das
três
teorias
que
referimos,
somente
o
determinismo
moderado
é
uma
teoria
compatibilista.
Justifique.
O
determinismo
moderado
defende
que
são
compatíveis
as
proposições
«Um
agente
praticou
livremente
a
ação
A»
e
«A
ação
praticada
por
esse
agente
tem
uma
causa
e
deriva
necessariamente
dessa
causa».
Liberdade
e
determinismo
são
compatíveis,
para
esta
teoria.
9.
Que
distinção
permite
ao
determinista
moderado
defender
a
compatibilidade
entre
determinismo
e
liberdade?
Trata-‐se
da
distinção
entre
ação
causalmente
determinada
e
ação
constrangida.
Só
esta
última
não
é
livre.
10.
Como
é
caraterizada
a
liberdade
pelo
determinista
moderado?
O
determinista
moderado
define
a
liberdade
do
seguinte
modo:
É
livre
a
ação
em
que
o
agente
não
é
impedido
por
fatores
externos
de
a
realizar.
Na
ausência
destes
impedimentos,
o
agente
pode
fazer
o
que
tem
vontade
de
fazer.
Um
dos
mais
famosos
defensores
do
determinismo
moderado
foi
David
Hume.
Hume
chamou
a
atenção
para
o
facto
de
as
pessoas
tenderem
a
confundir
causalidade
–
o
facto
de
uma
ação
ser
causada
–
e
coação
ou
constrangimento
–
o
facto
de
uma
ação
ser
compelida.
Assim,
há
uma
grande
diferença
entre
estas
duas
ações:
Fazer
algo
porque
quero
fazê-‐
lo
e
fazer
algo
porque
alguém
me
aponta
uma
arma
à
cabeça
e
me
obriga
a
fazê-‐lo.
No
primeiro
caso,
a
ação
é
causada
e,
no
segundo
caso,
a
ação
é
compelida
ou
constrangida.
O
oposto
da
liberdade
é
a
coação
e
não
a
causalidade.
Ser
livre,
para
David
Hume,
significa
ser
livre
de
coação.
11.
Para
o
determinista
moderado,
uma
ação
livre
é
causada.
É
causada
pelo
quê?
É
causada
pelas
suas
crenças
e
desejos,
isto
é,
pela
sua
personalidade.
17.
12.
Por
que
razão
para
o
determinista
moderado
é
importante
que
a
ação
do
agente
seja
causada
ou
determinada
pelas
suas
crenças
e
desejos?
Se
as
ações
não
fossem
causadas
pelas
nossas
crenças
e
desejos,
não
poderíamos
ser
responsabilizados
pelas
nossas
ações.
Não
seriam
as
nossas
ações.
13.
Esclareça
através
de
um
exemplo
o
que
é
agir
livremente
para
um
determinista
moderado.
Para
os
deterministas
moderados,
uma
ação
é
livre
desde
que
o
sujeito,
caso
o
tivesse
desejado,
tivesse
agido
de
outra
forma.
Imagine,
por
exemplo,
que
tem
amanhã
um
teste
da
disciplina
de
Filosofia
para
o
qual
está
a
estudar
afincadamente
porque
acredita
que
assim
terá
boa
nota.
Uma
vez
que
a
sua
ação
resulta
dos
seus
desejos
e
crenças
e
não
lhe
foi
imposta
(por
exemplo,
pelos
seus
pais,
devido
a
maus
resultados
em
testes
anteriores),
ela
é
uma
ação
livre.
Mas,
se
a
sua
ação
de
estudar
resultasse
de
uma
imposição
paterna
que
não
lhe
deixasse
qualquer
alternativa,
então
ela
não
era
uma
ação
livre.
Repare
que
em
ambos
os
casos
a
sua
ação
tem
causas.
Contudo,
no
primeiro
caso
as
causas
são
os
seus
próprios
desejos
e
crenças,
ao
passo
que
no
segundo
caso
as
causas
são
os
desejos
e
crenças
dos
seus
pais.
É
essa
diferença
que
faz
com
que
num
caso
a
ação
seja
livre
e
no
outro
não.
No
primeiro
caso,
a
sua
ação
é
livre
porque
está
sob
o
controlo
das
suas
crenças
e
desejos
e,
se
tivesse
tido
outros
desejos,
poderia
ter
escolhido
e
realizado
uma
ação
diferente.
No
segundo
caso,
de
nada
lhe
valeria
ter
outros
desejos
e
crenças
porque
não
poderia
agir
de
acordo
com
eles.
14.
Esclareça,
através
de
exemplos,
que
fatores
podem
impedir
o
agente
de
fazer
o
que
tem
vontade
de
fazer.
Sirvam
estes
dois
exemplos:
quero
beber
água,
mas
estou
no
deserto
e
não
há
água
disponível;
quero
viajar,
mas
não
tenho
dinheiro.
15.
Segundo
o
determinismo
moderado,
para
que
uma
ação
seja
livre
ela,
tem
de
ser
causada
de
uma
certa
maneira.
O
que
significa
esta
afirmação?
Esta
afirmação
significa
que
a
distinção
entre
ações
livres
e
não
livres
implica
a
distinção
entre
causalidade
interna
e
causalidade
externa.
18.
Assim:
a)
Ações,
escolhas
e
decisões
cuja
causa
imediata
é
um
estado
de
coisas
interno
(desejos
e
crenças
do
agente
e
também
a
sua
personalidade)
são
livres.
b)
Ações,
escolhas
e
decisões
cuja
causa
imediata
é
um
estado
de
coisas
externo
não
são
livres.
16.
O
sentido
comum
de
liberdade
consiste
em
dizer
que
agir
livremente
é,
não
só
fazer
o
que
queremos
fazer,
como
também
poder
não
ter
feito
o
que
se
fez,
ou
seja,
a
ausência
de
coação
é
acompanhada
por
outra
condição
que
é
o
agente
possuir
alternativas
reais
de
ação.
Será
que
o
determinismo
moderado
salvaguarda
esta
ideia
de
liberdade?
Parece
que
sim
e
parece
que
não.
Vejamos:
Um
agente
dispõe
de
alternativas
reais
se
a
sua
ação
pudesse
ter
sido
diferente
da
que
realizou.
Assim,
ajo
livremente
se,
escolhendo
comer
um
bolo,
pudesse
não
o
ter
feito
e,
eventualmente,
tivesse
escolhido
uma
peça
de
fruta.
Vejamos
como
o
determinista
moderado
explica
a
mesma
ação.
Comi
uma
peça
de
fruta
e
agi
livremente
porque
o
fiz
de
acordo
com
as
minhas
crenças
–
fruta
é
mais
saudável,
assim
me
ensinaram
–
e
os
meus
desejos
–
quero
ser
saudável.
O
que
significa
dizer
que
podia
ter
agido
de
modo
diferente
e
comer
o
bolo
em
vez
da
fruta?
Que
os
meus
desejos
e
crenças
teriam
de
ser
diferentes.
Por
outras
palavras,
teria
de
ser
uma
pessoa
diferente
do
que
sou,
de
ter
outra
personalidade
(esta
é
constituída
pelas
nossas
crenças
e
desejos).
Mas,
se
somos
deterministas,
mesmo
moderados,
temos
de
reconhecer
que
não
temos
controlo
sobre
o
passado,
que
somos
o
resultado
necessário
da
educação
e
criação
que
tivemos.
Não
podemos
ser
uma
pessoa
diferente
da
que
somos.
Assim,
o
determinismo
moderado
não
salvaguarda
a
ideia
comum
de
liberdade
e
por
isso
tem
problemas
em
explicar
como
podemos
responsabilizar
alguém
pelas
suas
ações.
17.
Qual
é
uma
das
principais
críticas
de
que
o
determinismo
moderado
é
alvo?
19.
Uma
crítica
que
se
faz
ao
determinismo
moderado
é
a
de
não
explicar
o
comportamento
compulsivo.
Quando
alguém
age
compulsivamente,
age
de
acordo
com
os
seus
próprios
desejos
e
crenças.
Contudo,
dificilmente
se
pode
dizer
que
quem
o
faz
é
livre.
É
o
caso
do
cleptómano.
Parece
também
difícil
acreditar
que
uma
pessoa
que,
por
exemplo,
seja
uma
compradora
ou
jogadora
compulsiva
e
que,
por
causa
disso,
contraia
muitas
dívidas
e
destrua
o
casamento,
seja
livre.
No
entanto,
ela,
ao
agir
compulsivamente,
respeita
completamente
o
critério
do
determinismo
moderado,
segundo
o
qual
uma
ação
é
livre
se
resultar
dos
desejos
e
crenças
da
pessoa
que
a
realiza.
18.
Que
outra
crítica
podemos
dirigir
a
quem
defende
o
determinismo
moderado?
Segundo
o
determinismo
moderado,
somos
livres
quando
não
somos
impedidos
de
fazer
o
que
desejamos.
As
nossas
crenças
e
desejos
constituem
a
nossa
personalidade.
Ora,
a
nossa
personalidade
está
determinada
pelo
nosso
passado,
ou
seja,
pela
educação
e
pelo
meio
em
que
fomos
criados.
Não
será
isso
uma
forma
de
constrangimento,
uma
vez
que
não
controlamos
o
passado?
Não
será
que
somos
constrangidos
pelo
que
nos
aconteceu
e
julgamos
que
agimos
livremente
porque
não
temos
consciência
das
influências
que
nos
formaram
e
determinaram
a
nossa
maneira
de
ser?
19.
Qual
é
a
principal
crítica
que
se
faz
ao
determinismo
radical?
A
principal
crítica
é
esta:
Se
não
somos
responsabilizáveis
pelo
que
fazemos
–
porque
não
podemos
agir
de
modo
diferente
–,
então:
1.
Como
condenar
e
ilibar
alguém?
2.
Como
elogiar
e
censurar?
3.
Como
dizer
a
alguém
que
não
devia
ter
feito
o
que
fez?
4.
Como
explicar
sentimentos
de
remorso,
de
arrependimento
e
de
culpa?
Muitos
críticos
do
determinismo
radical
pensam
que
não
é
possível
construir
a
vida
social
sem
a
ideia
de
responsabilidade
moral.
Por
outro
lado,
os
nossos
juízos
morais
perderão
qualquer
fundamento.
Se
o
determinismo
implica
a
negação
da
liberdade
e
da
responsabilidade,
se
é
verdade
afirmar
que
as
nossas
ações
são
o
resultado
de
causas
que
de
modo
algum
podemos
20.
controlar,
que
diferença
moral
há
entre
um
criminoso
como
Hitler
e
Nelson
Mandela?
Faz
sentido
condenar
Hitler
e
admirar
Nelson
Mandela?
20.
Qual
é
a
principal
crítica
que
se
faz
ao
libertismo?
Segundo
o
determinismo
moderado,
a
minha
ação
é
livre
se
for
causada
por
desejos
ou
crenças
–
estados
internos
−
que
são
meus.
Segundo
o
libertismo,
a
minha
ação
é
livre
se
for
causada
por
mim
e
não
por
um
dos
meus
estados
internos.
O
que
é
este
eu
que
através
das
suas
deliberações
é,
segundo
os
libertistas,
a
causa
de
certas
ações?
Uma
entidade
física?
Então
não
escapa
ao
determinismo
universal,
ao
encadeamento
causal
necessário
que
rege
todas
as
coisas
físicas.
Uma
entidade
não
física?
Mas
as
ações
são
atos
físicos,
acontecem
num
dado
momento
e
lugar.
Será
que
este
eu
é
uma
entidade
puramente
mental?
Mas
como
é
que
uma
causa
puramente
mental
pode
produzir
efeitos
físicos?
Se
é
a
mente
que
causa
as
nossas
ações,
será
que
é
possível
que
ela
exista
independentemente
do
cérebro,
que
é
obviamente
uma
realidade
física?
Este
contra-‐argumento
parece
condenar
os
libertistas
a
reconhecerem
o
seguinte:
que
as
ações
de
uma
pessoa
só
são
livres
se
não
tiverem
nenhuma
causa,
nem
mesmo
as
suas
próprias
crenças
e
desejos.
Ora,
deste
modo,
o
libertismo
transforma-‐se
numa
espécie
de
indeterminismo,
algo
que
os
libertistas
sempre
rejeitaram.
QUADRO
ESQUEMÁTICO
1
Problema:
Qual
das
crenças
é
verdadeira,
o
determinismo
ou
o
livre-‐arbítrio?
A
resposta
do
determinismo
radical
21.
Crença
no
determinismo
Crença
no
livre-‐arbítrio
Crença
na
responsabilidade
moral
Verdadeira
1.
Todos
os
acontecimentos,
sem
exceção,
são
causalmente
determinados
por
acontecimentos
anteriores.
2.
As
escolhas
e
ações
humanas
são
acontecimentos.
3.
Logo,
todas
as
escolhas
e
ações
humanas
são
causalmente
determinadas
por
acontecimentos
anteriores.
Falsa
Se
todas
as
ações
são
o
desfecho
inevitável
de
causas
anteriores,
não
há
ações
livres.
Falsa
Se
não
há
ações
livres,
não
podemos
ser
responsabilizados
pelo
que
fazemos.
O
determinismo
radical
é
a
teoria
que
só
reconhece
como
verdadeira
a
crença
no
determinismo.
Todos
os
acontecimentos
são
o
resultado
inevitável
de
causas
anteriores.
QUADRO
ESQUEMÁTICO
2
Problema:
Qual
das
crenças
é
verdadeira,
o
determinismo
ou
o
livre-‐arbítrio?
A
resposta
do
libertismo
Crença
no
determinismo
Crença
no
livre-‐arbítrio
Crença
na
responsabilidade
moral
22.
Falsa
1.
Nem
todos
os
acontecimentos
são
causalmente
determinados
por
acontecimentos
anteriores
2.
As
ações
humanas
são
acontecimentos.
3.
Logo,
há
ações
humanas
desligadas
do
encadeamento
causal
e
que
dão
origem
a
uma
nova
série
de
acontecimentos.
Verdadeira
Se
nem
todos
os
acontecimentos
são
o
desfecho
inevitável
de
causas
anteriores,
então
há
ações
livres.
Verdadeira
Se
há
ações
livres,
então
podemos
ser
responsabilizados
pelo
que
fazemos.
O
libertismo
é
a
teoria
que
só
reconhece
como
verdadeira
a
crença
no
livre-‐arbítrio
porque
não
aceita
o
determinismo
universal
–
que
todo
o
acontecimento
seja
o
resultado
necessário
e
inevitável
de
causas
anteriores.
QUADRO
ESQUEMÁTICO
3
23.
Problema:
Qual
das
crenças
é
verdadeira,
o
determinismo
ou
o
livre-‐arbítrio?
A
resposta
do
determinismo
moderado
Crença
no
determinismo
Crença
no
livre-‐arbítrio
Crença
na
responsabilidade
moral
Verdadeira
1.
Todos
os
acontecimentos,
sem
exceção,
são
causalmente
determinados
por
acontecimentos
anteriores
2.
As
escolhas
e
ações
humanas
são
acontecimentos.
3.
Logo,
todas
as
escolhas
e
ações
humanas
são
causalmente
determinadas
por
acontecimentos
anteriores.
Verdadeira
1.
Todas
as
ações
são
determinadas
por
causas
anteriores.
2.
As
ações
cujas
causas
são
forças
externas
ao
sujeito
que
age
são
ações
compelidas
ou
constrangidas.
3.
Há
ações
cujas
causas
são
estados
internos
do
sujeito
(crenças
e
desejos).
4.
Ações
que
não
derivam
da
força
de
fatores
externos
são
ações
livres.
5.
Há
ações
unicamente
causadas
por
desejos,
motivos,
crenças
ou
outros
estados
internos
do
sujeito
que
age.
6.
Logo,
há
ações
livres.
Verdadeira
Se
há
ações
livres,
podemos
ser
responsabilizados
pelo
que
fazemos.
24.
TEMA
4
VALORES
E
VALORAÇÃO:
A
QUESTÃO
DOS
CRITÉRIOS
VALORATIVOS.
1.
O
que
são
os
valores?
Os
valores
são
termos
que
usamos
para
atribuir
muita,
pouca
ou
nenhuma
importância
às
coisas
que
avaliamos.
As
coisas
que
avaliamos
–
acerca
das
quais
emitimos
juízos
de
valor
–
podem
ser
objetos,
pessoas
e
atos.
Os
valores
são
padrões
ou
referências
em
função
das
quais
julgamos
as
coisas.
Os
valores
exprimem
aquilo
que
julgamos
que
é
importante
e
significativo
na
nossa
vida.
2.
Há
diversas
espécies
de
valores?
Sim.
Há
valores
religiosos
(sagrado,
profano),
valores
estéticos
(belo,
feio,
sublime,
dotado
de
harmonia),
valores
éticos
(bem,
mal,
justiça,
igualdade),
valores
monetários
e
utilitários,
entre
outros.
Utilizamos
a
palavra
valor
em
diversas
situações
e
com
diferentes
sentidos.
3.
Damos
o
mesmo
valor
a
todas
as
coisas?
Não.
Além
de
diversos,
os
valores
são
hierarquizados,
ou
seja,
uns
são
considerados
mais
importantes
do
que
outros.
Toda
e
qualquer
pessoa
dá
mais
importância
a
determinados
valores
em
relação
a
outros,
estabelecendo-‐se
assim
uma
espécie
de
hierarquia
de
valores.
Os
valores
a
que
cada
pessoa
confere
mais
importância
vão
refletir-‐se
nas
suas
ações
e
decisões,
vão
de
certa
forma
organizar
e
orientar
toda
a
sua
conduta.
Os
valores
podem,
por
sua
vez,
ser
agrupados
em
vários
tipos.
Assim,
e
destacando
apenas
os
principais
tipos,
podemos
falar
em
valores
religiosos,
estéticos,
éticos
(sendo
provavelmente
estes
três
domínios
aqueles
que
enquadram
os
valores
mais
importantes),
políticos,
teoréticos
(da
ordem
do
conhecimento),
sensíveis
(da
ordem
do
prazer
e
satisfação),
vitais
e
económicos.
4.
Qual
o
valor
que
costumamos
considerar
mais
importante?
Habitualmente,
o
valor
que
consideramos
mais
valioso
é
o
valor
da
vida
humana.
25.
5.
Qual
a
disciplina
que
estuda
a
natureza
dos
valores?
A
disciplina
que
estuda
a
natureza
dos
valores
é
a
axiologia
ou
teoria
dos
valores.
Coloca
questões
como:
O
que
é
um
valor?
Onde
e
como
existe?
Será
apenas
o
resultado
das
avaliações
que
fazemos
das
coisas?
Para
muitos
pensadores,
os
valores
não
são
coisas
que
existam
fora
da
nossa
mente,
mas
algo
que
apenas
existe
para
um
sujeito
que
avalia
as
coisas.
Para
outros,
os
valores
têm
uma
existência
própria,
independente
do
sujeito.
Pense
no
seguinte
caso:
Muitas
pessoas
julgam
determinadas
coisas
belas,
enquanto
outras
discordam.
Então
o
que
fazemos
quando
dizemos
que
algo
é
belo
ou
feio,
magnífico
ou
vulgar?
Estamos
somente
a
declarar
o
que
sentimos
(prazer
ou
desprazer)
quando
contemplamos
um
objeto
ou
estamos
a
referir
algo
que
são
propriedades
do
próprio
objeto,
que
são
independentes
do
que
sentimos?
No
primeiro
caso,
estamos
perante
uma
tese
ou
posição
filosófica
denominada
subjetivismo
estético.
No
segundo
caso,
a
posição
que
adotamos
é
conhecida
por
objetivismo
estético.
Para
os
defensores
do
subjetivismo
estético,
um
objeto
é
belo
ou
feio
em
virtude
de
sentirmos
prazer
ou
desprazer
ao
observá-‐lo.
A
beleza
ou
fealdade
dependem,
não
das
propriedades
intrínsecas
do
objeto,
mas
dos
sentimentos
que
em
nós
provoca
e
desperta.
Para
os
partidários
do
objetivismo
estético,
dizer
«A
catedral
de
Milão
é
bela»
é
muito
diferente
de
dizer
«Gosto
da
catedral
de
Milão».
Os
juízos
estéticos
não
são,
para
o
objetivista,
simples
juízos
de
gosto.
A
beleza
ou
a
fealdade
está
nos
próprios
objetos.
É
devido
a
determinadas
propriedades
intrínsecas
que
um
objeto
é
considerado
belo
ou
feio.
6.
Que
relação
existe
entre
valores
e
ações?
Os
valores
são
os
critérios
das
nossas
preferências
(são
os
motivos
fundamentais
das
nossas
decisões).
Ao
tomarmos
decisões,
agimos
segundo
valores
que
constituem
o
fundamento,
a
razão
de
ser
ou
o
porquê
(critério)
de
tais
decisões.
A
atitude
valorativa
é
uma
constante
da
nossa
existência:
em
nome
da
amizade,
preferimos
controlar
e
orientar
noutra
direção
uma
atração
física
pela
namorada
ou
26.
mulher
do
nosso
amigo;
em
nome
do
amor,
preferimos
desafiar
as
convenções
sociais
em
vez
de
perder
a
oportunidade
de
sermos
felizes;
por
uma
questão
de
saúde,
preferimos
o
exercício
físico,
a
dieta
e
o
fim
do
consumo
de
tabaco
aos
hábitos
prejudiciais
até
então
seguidos;
em
nome
da
liberdade,
preferimos
combater,
lutar
e
correr
riscos
a
aceitar
um
estado
de
coisas
que,
apesar
de
tudo,
satisfaz
os
interesses
económicos
da
família
a
que
pertencemos;
por
solidariedade,
preferimos
auxiliar
os
famintos
e
os
doentes
na
Somália
a
permanecer
em
Lisboa
dando
consultas;
por
paixão
pela
música,
decidimos
interromper
um
curso
que
não
corresponde
à
nossa
vocação
profunda;
em
nome
de
Deus,
renunciamos
a
certas
«ligações
terrenas»,
etc.
7.
O
que
são
juízos
de
fato?
Os
juízos
de
facto
são
juízos
sobre
o
modo
como
as
coisas
são.
Descrevem
um
estado
de
coisas
ou
uma
situação
podendo
essa
descrição
corresponder
ou
não
à
realidade,
ou
seja,
ser
verdadeira
ou
falsa.
São
juízos
totalmente
descritivos,
que
têm
valor
de
verdade
(podem
ser
verdadeiros
ou
falsos).
A
sua
verdade
ou
falsidade
depende
de
como
a
realidade
é
e
não
da
opinião
ou
ponto
de
vista
de
cada
pessoa:
são,
portanto,
objetivos.
Ex.:
O
gato
é
um
mamífero
que
mia.
8.
O
que
são
juízos
de
valor?
Os
juízos
de
valor
são
juízos
sobre
que
coisas
são
boas
ou
agradáveis
e
sobre
como
devemos
agir.
Os
juízos
de
valor
atribuem
um
valor
a
um
certo
estado
de
coisas
–
valor
esse
que
pode
ser
positivo
ou
negativo.
Ex.:
«Este
quadro
é
belo»
–
valor
positivo
–
ou
«Este
quadro
é
horrível»
–
juízo
negativo.
27.
QUADRO
ESQUEMÁTICO
A
FORMA
HABITUAL
DE
DISTINGUIR
JUÍZOS
DE
FACTO
DE
JUÍZOS
DE
VALOR
Juízos
de
facto
Juízos
de
valor
Descrevem
a
realidade
ou
informam-‐nos
acerca
de
factos,
coisas,
acontecimentos
ou
ações.
Durante
a
Segunda
Guerra
Mundial
seis
milhões
de
judeus
morreram
nos
campos
de
concentração
nazistas.
Avaliam
determinados
acontecimentos,
coisas
e
ações.
A
morte
de
seis
milhões
de
judeus
nas
mãos
dos
nazistas
foi
um
ato
criminoso
e
horrendo.
Os
juízos
de
facto
são
verdadeiros
ou
falsos,
isto
é,
referem-‐se
aos
factos,
podendo
ser
negados
ou
confirmados
pela
experiência.
Não
se
tem
a
certeza
sobre
o
número
de
judeus
que
morreram
nos
campos
de
concentração
nazis.
Só
se
sabe
que
o
número
de
vítimas
mortais
foi
elevado.
O
juízo
de
valor
refere-‐se,
de
forma
explícita
ou
implícita,
a
valores
ou
princípios
fundamentais
nos
quais
nos
baseamos
para
produzir
uma
avaliação.
A
morte
de
seis
milhões
de
judeus
foi
um
ato
criminoso
porque
(justificação
do
juízo)
o
respeito
pela
vida
e
digni-‐
dade
do
homem
é
valioso.
Os
juízos
de
facto
são
descritivos
ou
informativos:
não
prescrevem
ou
proíbem
o
que
deve
ou
não
fazer-‐
se.
Os
juízos
de
valor
são
normativos
ou
prescritivos.
Ao
julgar-‐se
que
a
morte
de
seis
milhões
de
judeus
foi
um
ato
criminoso
dos
nazis,
considera-‐se
que
esse
ato
não
devia
ter
sido
cometido.
O
respeito
pelo
valor
da
vida
e
da
dignidade
humanas
traduz-‐se
na
norma
«Não
matarás»,
que,
neste
caso,
foi
infringida.
28.
9.
Distinga
os
seguintes
juízos:
a)
«A
pena
de
morte
é
aplicada
na
Arábia
Saudita»
e
b)
«A
pena
de
morte
é
injusta».
O
juízo
a)
é
apenas
descritivo:
limita-‐se
a
dizer
como
é
que
as
coisas
são
na
Arábia
Saudita
no
que
respeita
à
pena
de
morte.
Não
avalia
nada.
O
juízo
b)
não
é
apenas
descritivo
porque
faz
uma
avaliação.
O
que
significa
dizer
que
a
pena
de
morte
é
injusta?
Significa
dizer
que
a
pena
de
morte
não
deveria
existir.
Assim,
este
juízo
diz-‐nos,
não
somente
como
as
coisas
são,
mas
como
deveriam
ser.
Ora,
ao
dizermos
como
as
coisas
deveriam
ser,
estamos
a
usar
um
critério
para
fazer
a
nossa
avaliação.
Neste
caso,
o
critério
valorativo
é
a
justiça.
Quando
há
avaliação,
têm
de
existir
critérios.
10.
A
distinção
juízos
de
facto/juízos
de
valor
é
consensual?
Não,
porque
há
filósofos
que
a
contestam
argumentando
em
defesa
da
ideia
de
que
todos
os
juízos
são
juízos
de
facto.
11.
O
que
são
critérios
valorativos?
Os
critérios
valorativos
são
as
justificações
em
que
nos
apoiamos
para
determinar
que
coisas
–
ações,
pessoas,
locais,
objetos
–
têm
valor
ou
importância.
Assim,
valorizamos
uma
ação
honesta
porque
damos
importância
à
honestidade,
porque
a
consideramos
um
elemento
importante
que
deve
estar
presente
nas
relações
humanas.
12.
Em
que
consiste
a
questão
dos
critérios
valorativos?
Um
juízo
de
valor
é
um
ato
mediante
o
qual
formulamos
uma
proposição
que
avalia
certos
aspetos
da
realidade,
não
se
limitando
a
descrever
como
as
coisas
são.
Uma
vez
que,
ao
avaliarmos
as
coisas,
utilizamos
critérios
ou
razões
que
se
baseiam
em
valores
(ao
dizer
«A
pena
de
morte
é
injusta»
julgo
como
a
realidade
devia
ser
baseando-‐me
num
valor,
em
algo
que
valorizo
e
a
que
dou
importância:
o
valor
da
justiça),
a
questão
dos
critérios
valorativos
pode
traduzir-‐se
assim:
«Será
que
existem
valores
objetivamente
verdadeiros?
Ou
será
que
a
sua
verdade
depende
daquilo
que
um
indivíduo
ou
uma
sociedade
consideram
verdadeiro?».
Este
problema
surge
porque
nos
apercebemos
de
que
há
pessoas
e
culturas
com
valores
muito
diferentes
dos
nossos,
que
preferem
aquilo
que
nós
rejeitamos
ou
que
29.
valorizam
aquilo
que
temos
dificuldade
em
considerar
importante.
Muitas
pessoas
julgam
que
os
valores
são
uma
questão
de
gosto
pessoal,
ou
que
variam
de
cultura
para
cultura.
Em
ambos
os
casos,
não
têm
qualquer
objetividade.
Trata-‐se
do
problema
da
verdade
e
da
objetividade
dos
juízos
de
valor.
Como
os
juízos
morais
são
os
que
mais
importância
têm
na
vida
humana,
a
questão
pode
enunciar-‐se
desta
dupla
forma:
a) Os
juízos
morais
têm
valor
de
verdade?
b) Se
têm
valor
de
verdade,
essa
verdade
é
objetiva,
ou
seja,
não
depende
dos
gostos
dos
indivíduos
ou
do
modo
de
pensar
da
sociedade
em
que
vivem?
TEMA
5
RELATIVISMO
MORAL,
OBJETIVISMO
MORAL
E
SUBJETIVISMO
MORAL
1.
Acerca
da
natureza
dos
valores,
o
que
distingue
a
posição
relativista
da
posição
objetivista?
O
objetivismo
defende
que
os
valores
são
propriedades,
qualidades
das
próprias
coisas,
pessoas,
objetos,
situações
e
instituições,
embora
sejam
propriedades
difíceis
de
conhecer
porque
não
existem
num
sentido
físico.
Nesta
perspetiva,
os
juízos
de
valor
são
uma
espécie
de
juízos
de
facto
com
a
diferença
de
que
sobre
o
seu
conteúdo
ainda
não
obtivemos
qualquer
certeza.
Isso
não
impede
que
haja
verdades
morais
universais
e
objetivas.
Nós
é
que,
provavelmente
por
causa
das
nossas
limitações,
ainda
não
os
descobrimos.
Para
o
relativismo,
os
valores
não
são
propriedades,
qualidades,
das
próprias
coisas,
pessoas,
objetos,
situações
e
instituições.
São
simplesmente
ideias
ou
crenças
que
existem
na
mente
dos
seres
humanos
e
dependem
do
modo
como
sentimos
e
somos
educados
pelo
meio
em
que
nascemos
e
vivemos.
2.
Caraterize
o
subjetivismo
moral.
O
que
é
moralmente
correto?
O
que
a
sociedade
considera
ser
moralmente
certo?
Ou
será
o
que
eu
acredito
ser
moralmente
correto?
Ou
nem
uma
coisa
nem
outra?
30.
O
subjetivismo
moral
responde
que
é
moralmente
verdadeiro
o
que
cada
indivíduo
sente
que
é
verdade.
O
subjetivismo
moral
ou
relativismo
individual
afirma
que
há
juízos
morais
verdadeiros,
mas
nega
que
essa
verdade
seja
objetiva.
A
cada
um
a
sua
verdade.
Os
juízos
morais
traduzem
sentimentos
de
aprovação
e
de
reprovação.
Se
genuinamente
uma
pessoa
sente
que
uma
determinada
ação
é
correta,
se
a
ação
está
de
acordo
com
o
que
ela
sente
ser
correto,
então
o
juízo
moral
que
sobre
ela
faz
é
verdadeiro.
Moralmente
verdadeiro
é
o
que
depende
dos
meus
sentimentos.
Cada
indivíduo
tem
um
código
moral
próprio
que
lhe
permite
distinguir
por
si
o
certo
do
errado
sem
precisar
de
consultar
os
outros
ou
submeter-‐se
ao
que
a
maioria
das
pessoas
pensa
sobre
o
assunto.
«Ninguém
pode
e
deve
dar
lições
de
moral
a
ninguém.
A
cada
qual
a
sua
verdade,
e
assim
deve
ser.
3.
Quais
são
as
objeções
mais
frequentemente
dirigidas
ao
subjetivismo
ético?
Podemos
destacar
três:
a)
O
subjetivismo
moral
torna
inviável
a
discussão
de
questões
morais.
O
subjetivismo
moral
parece
sugerir
que
não
podemos
dizer
que
as
opiniões
e
juízos
morais
dos
outros
estão
errados.
Se
as
verdades
morais
dependem
dos
sentimentos
de
aprovação
ou
de
desaprovação
de
cada
indivíduo,
basta
que
os
nossos
juízos
morais
estejam
de
acordo
com
os
nossos
sentimentos
para
serem
verdadeiros.
Um
genuíno
debate
moral
em
que
cada
interlocutor
tente
convencer
o
outro
das
suas
razões
acerca
de
algo
em
que
acredita
perde
qualquer
sentido.
Para
o
subjetivista,
será
mesmo
sinal
de
intolerância.
b)
O
subjetivismo
ético
acredita
que
não
há
juízos
morais
objetivos
porque
os
assuntos
morais
são
objeto
de
discórdia
generalizada,
mas
isso
não
prova
que
não
haja
uma
resposta
correta
ou
verdades
objetivas.
Será
que
o
facto
de
as
pessoas
discordarem
acerca
da
existência
de
Deus
prova
que
não
há
uma
resposta
à
questão
Será
que
Deus
existe?
Durante
muito
tempo
as
pessoas
pensaram
que
as
doenças
eram
causadas
por
demónios.
Sabemos
hoje
em
dia
que
na
maioria
dos
casos
são
causadas
por
microrganismos
como
bactérias
e
vírus.
31.
c)
O
facto
de
as
pessoas
terem
crenças
opostas
acerca
de
questões
morais
não
prova
que
essas
crenças
sejam
ambas
verdadeiras.
Se
dois
indivíduos
não
estão
de
acordo
acerca
de
um
dado
assunto,
então
têm
ambos
razão,
ou
seja,
as
suas
crenças
são
ambas
verdadeiras.
Mas
e
se
as
duas
crenças
se
negam
uma
à
outra,
se
contradizem?
Duas
crenças
que
se
contradizem
não
podem
ser
ambas
verdadeiras.
4.
«Matar
é
errado»,
«Roubar
é
incorreto»
e
«Mentir
é
imoral».
Será
que
estes
juízos
são
verdadeiros?
Será
que
são
objetivos
e
universais?
«Há
verdade
e
falsidade
em
assuntos
morais?»,
«Faz
sentido
dizer
que
uma
crença
moral
é
correta
e
que
outra
é
errada?».
Qual
é
a
resposta
que
o
relativismo
cultural
dá
a
estas
perguntas?
O
relativismo
cultural
afirma
que
aqueles
juízos
são
verdadeiros,
mas
não
em
todo
o
lado
e
para
todas
as
pessoas.
A
verdade
dos
juízos
morais
depende
do
que
cada
sociedade
aprova,
ou
seja,
as
afirmações
morais
só
são
verdadeiras
ou
falsas
em
determinadas
culturas.
Moralmente
correto
é
aquilo
que
a
maioria
das
pessoas
de
uma
sociedade
considera
correto.
Não
existe
nenhum
critério
objetivo
e
universal
para
determinar
quem
tem
razão.
Um
juízo
moral
é
falso
quando
os
membros
–
a
maioria
–
de
uma
sociedade
o
consideram
falso
e
verdadeiro
quando
o
consideram
verdadeiro.
Assim,
afirmar
que
«Matar
é
errado»
significa
dizer
«A
sociedade
X
considera
que
matar
é
moralmente
incorreto».
Afirmar
que
«Matar
é
moralmente
correto»
significa
dizer
«A
sociedade
X
considera
que
matar
é
moralmente
correto».
5.
Será
que
relativismo
cultural
e
ceticismo
moral
são
a
mesma
coisa?
Não.
Para
o
ceticismo
moral
nenhum
juízo
moral
tem
valor
de
verdade,
ou
seja,
os
juízos
morais
não
são
nem
verdadeiros
nem
falsos.
Não
há
práticas
moralmente
corretas
ou
incorretas.
Ora,
o
relativismo
cultural
afirma
que
os
juízos
morais
são
verdadeiros
ou
falsos
conforme
o
que
cada
cultura
julga
ser
verdadeiro
ou
falso.
29.
Quais
são
as
objeções
mais
frequentemente
dirigidas
ao
relativismo
moral?
São
as
seguintes:
A)
Há
uma
diferença
significativa
entre
o
que
uma
sociedade
acredita
ser
moralmente
correto
e
algo
ser
moralmente
correto.
32.
O
relativismo
cultural
transforma
a
diversidade
de
opiniões
e
de
crenças
morais
em
ausência
de
verdades
objetivas.
Mas
isso
pode
ser
sinal
de
que
há
pessoas
e
sociedades
que
estão
erradas
e
não
de
que
ninguém
está
errado.
Se
duas
sociedades
têm
diferentes
crenças
acerca
de
uma
questão
moral,
o
relativista
conclui
que
então
ambas
as
crenças
são
verdadeiras.
Os
adversários
do
relativismo
cultural
objetam
que
a
conclusão
não
deriva
necessariamente
da
premissa
porque
essa
discórdia
pode
ser
sinal
de
que
uma
sociedade
está
certa
e
a
outra
errada.
B)
O
relativismo
cultural
reduz
a
verdade
ao
que
a
maioria
julga
ser
verdadeiro.
Desde
quando
o
que
maioria
pensa
é
verdadeiro
e
moralmente
aceitável?
Os
nazis
acreditavam
e
fizeram
com
que
a
maioria
dos
alemães
acreditasse
que
os
judeus
eram
sub-‐humanos
e
que
exterminá-‐los
era
um
favor
que
faziam
à
humanidade.
Isso
é
claramente
falso.
C)
O
relativismo
cultural
parece
convidar-‐nos
ao
conformismo
moral,
a
seguir,
em
nome
da
coesão
social,
as
crenças
dominantes.
Algumas
pessoas
ao
longo
da
história
quiseram
e
conseguiram
mudar
a
nossa
maneira
de
pensar
acerca
de
certos
problemas
morais.
Estou
a
lembrar-‐me
de
quem
combateu
a
escravatura
em
nome
dos
ensinamentos
de
Cristo
–
embora
os
defensores
da
escravatura
dissessem
que
a
Bíblia
justificava
o
que
faziam
–,
de
quem
lutou
contra
o
apartheid
na
África
do
Sul
(Nelson
Mandela)
e
contra
a
segregação
racial
nos
EUA
(Martin
Luther
King).
Essas
pessoas
fizeram
bem
à
humanidade,
combateram
injustiças
e
devemos-‐lhes
grande
progresso
moral.
Ora,
o
relativismo
cultural
parece
implicar
que
a
ação
dos
reformadores
morais
é
sempre
incorreta.
D)
O
relativismo
cultural
torna
incompreensível
o
progresso
moral.
É
verdade,
ou
pelo
menos
parece,
que
não
há
acordo
entre
os
seres
humanos
sobre
muitas
questões
morais.
Mas
também
é
verdade
que
a
humanidade
tem
realizado
progressos
no
plano
moral.
A
abolição
da
escravatura,
o
reconhecimento
dos
direitos
das
mulheres,
a
condenação
e
a
luta
contra
a
discriminação
racial
são
exemplos.
Falar
de
progresso
moral
parece
implicar
que
haja
um
padrão
objetivo
com
o
qual
confrontamos
as
nossas
ações.
Se
esse
padrão
objetivo
não
existir,
não
temos
fundamento
para
dizer
que
em
termos
morais
estamos
melhor
agora
do
que
antes.
33.
E)
O
relativismo
cultural
torna
impossível
criticar
os
valores
dominantes
numa
cultura.
Como
explicar
as
mudanças
de
perspetiva
moral
em
relação
a
temas
como
os
direitos
dos
animais?
Como
denunciar
e
convencer
a
maioria
dos
membros
que
numa
cultura
consideram
a
pena
de
morte
justa
de
que
ela
afinal
é
injusta
se
justo
é
para
o
relativismo
cultural
o
que
é
socialmente
aprovado
pela
maioria?
Não
compreenderiam
como
alguém
pode
considerar
esse
castigo
injusto,
tal
como
um
japonês
não
compreenderia
que
o
correto
é
comer
de
faca
e
garfo.
F)
Torna
incompreensível
a
noção
de
direitos
humanos
universais.
Estes
direitos
são
próprios
dos
seres
humanos
por
serem
humanos
e
não
por
pertencerem
a
esta
ou
aquela
cultura.
Esta
ideia
é,
para
o
relativista,
produzida
por
uma
cultura
–
neste
caso,
a
ocidental,
e
por
isso
só
pode
valer
no
interior
desta.
Pode
haver
direitos
humanos,
mas
eles
não
são
universais.
6.
O
que
distingue
o
relativismo
cultural
do
subjetivismo
moral?
A
cada
cultura
a
sua
verdade,
defende
o
relativismo
cultural.
A
cada
indivíduo
a
sua
verdade,
defende
o
subjetivismo
moral.
Contrariamente
ao
relativismo
individual
ou
subjetivismo
moral,
o
relativismo
cultural
acerca
de
assuntos
morais
afirma
que
o
código
moral
de
cada
indivíduo
se
deve
subordinar
ao
código
moral
da
sociedade
em
que
vive
e
foi
educado.
Os
juízos
morais
de
cada
indivíduo
são
verdadeiros
se
estiverem
em
conformidade
com
o
que
a
sociedade
a
que
pertence
considera
verdadeiro.
SÍNTESE
QUESTÕES
O
relativismo
cultural
O
objetivismo
moral
O
subjetivismo
moral
34.
HÁ
VERDADES
MORAIS?
Sim.
O
relativismo
cultural
defende
que
cada
cultura
considera
verdadeiros
certos
juízos
de
valor
morais.
Há
uma
diversidade
de
verdades
morais.
Sim.
Há
verdades
morais
que
valem
por
si.
Sim.
Mas
essa
verdade
é
puramente
subjetiva.
Depende
do
modo
como
cada
pessoa
vê
ou
sente
as
coisas.
HÁ
VERDADES
MORAIS
OBJETIVAS
E
UNIVERSAIS?
Não.
Uma
proposição
como
«Matar
é
errado»
é
verdadeira
para
certas
sociedades
e
culturas
e
falsa
para
outras.
Em
si
mesma,
nenhuma
proposição
moral
–
nenhum
juízo
de
valor
moral
–
é
falsa
ou
verdadeira.
Verdadeiro
ou
correto
é
igual
a
aprovado
ou
valorizado
pela
maioria
dos
membros
de
uma
certa
sociedade.
Sim.
Há
verdades
morais
que
valem
por
si,
são
independentes
do
que
cada
cultura
pensa
e
do
que
cada
indivíduo
sente.
No
que
respeita
aos
valores
e
práticas
morais,
é
errado
pensar
que
ninguém
está
objetivamente
certo
ou
objetivamente
errado.
Não.
No
que
respeita
aos
valores
e
práticas
morais,
ninguém
está
objetivamente
certo
ou
objetivamente
errado.
É
tudo
uma
questão
de
gosto
ou
de
sensibilidade.
ALGUMA
SOCIEDADE
É
PROPRIETÁRIA
DA
VERDADE
EM
ASSUNTOS
MORAIS?
Não.
Nenhuma
sociedade
ou
cultura
tem
legitimidade
para
«dar
lições
de
moral»
a
outra.
Cada
uma
define
o
que
é
certo
ou
errado
de
forma
autónoma
e
soberana.
Não.
Havendo
verdades
objetivas,
podemos
considerar
como
certas
ou
erradas
certas
práticas
morais
de
certas
culturas
ou
de
indivíduos.
A
moral
é
a
mesma
para
todos
e
não
depende
de
crenças
Não.
Cada
pessoa
responde
às
questões
morais
com
base
no
seu
código
moral
pessoal
e
não
pode
estar
errado
se
for
sincero.
Não
admite
que
a
moral
seja
a
mesma
35.
culturais
ou
de
sentimentos.
para
todos.
É
moralmente
incorreto
que
alguém
–
outro
indivíduo
ou
uma
sociedade
–
tente
impor
as
suas
conceções
morais
porque
ninguém
possui
a
verdade
absoluta
sobre
estes
assuntos.
Não
há
princípios
e
normas
morais,
a
não
ser
os
que
cada
indivíduo
escolhe
para
si
mesmo.
TEMA
6
AS
ÉTICAS
DE
KANT
E
DE
MILL
1.
A
TEORIA
ÉTICA
DE
KANT
TIPOS
DE
AÇÕES
SEGUNDO
KANT
Ações
contrárias
ao
dever
Ações
em
conformidade
com
o
dever
Ações
feitas
por
dever
36.
Ações
que
violam
o
dever
Ex.:
Matar,
roubar,
mentir.
Ações
que
cumprem
o
dever
não
porque
é
correto
fazê-‐lo,
mas
porque
daí
resulta
um
benefício
ou
a
satisfação
de
um
interesse.
Ex.:
Não
roubar
por
receio
de
ser
castigado.
Ações
que
cumprem
o
dever
porque
é
correto
fazê-‐lo.
O
cumprimento
do
dever
é
o
único
motivo
em
que
a
ação
se
baseia.
A
intenção
de
cumprir
o
dever
não
está
associada
a
outras
intenções,
é
a
única
intenção.
Ex.:
Não
roubar
porque
esse
ato
é
errado.
AS
ÚNICAS
AÇÕES
MORALMENTE
BOAS
As
únicas
ações
moralmente
boas
são
as
ações
feitas
por
dever.
Agir
por
dever
significa
reconhecer
que
há
deveres
absolutos
como
não
roubar,
não
mentir
e
não
matar.
AGIR
POR
DEVER
É
CUMPRIR
O
QUE
A
LEI
MORAL
EXIGE
Quem
apresenta
este
princípio
«Age
por
dever!»
à
minha
vontade?
A
razão.
Que
nome
dá
Kant
ao
princípio
ético
fundamental
que
exige
que
eu
cumpra
o
dever
sempre
por
dever,
sem
qualquer
outra
intenção
ou
motivo?
Kant
dá-‐lhe
o
nome
de
lei
moral.
As
ações
feitas
por
dever
são
assim
ações
que
cumprem
o
que
a
lei
moral
exige.
REPEITAR
A
LEI
MORAL
É
CONSIDERAR
QUE
O
SEU
CUMPRIMENTO
É
UM
IMPERATIVO
CATEGÓRICO.
Ouvir
a
voz
da
lei
moral
é
ficar
a
saber
como
cumprir
de
forma
moralmente
correta
o
dever.
Essa
lei
diz-‐nos
de
forma
muito
geral
o
seguinte:
«Deves
em
qualquer
circunstância
cumprir
o
dever
pelo
dever,
sem
segundas
intenções».
O
cumprimento
do
dever
é
uma
ordem
incondicional,
não
depende
de
condições
ou
de
interesses.
Devemos
ser
honestos
porque
esse
é
o
nosso
dever
e
não
porque
é
do
nosso
interesse.
Pense
em
normas
morais
como
«Não
deves
mentir»,
«Não
deves
matar»,
«Não
deves
roubar».
A
lei
moral,
segundo
Kant,
diz-‐nos
como
cumprir
esses
deveres,
qual
a
forma
correta
de
os
cumprir.
Assim
sendo,
é
uma
lei
puramente
racional
e
puramente
formal.
Não
é
uma
regra
concreta
como
«Não
matarás!»,
mas
um
princípio
geral
que
deve
ser
seguido
quando
cumpro
essas
regras
concretas
que
proíbem
o
roubo,
o
assassinato,
a
mentira,
etc.
O
que
é
um
imperativo
categórico
O
que
é
um
imperativo
hipotético
37.
Um
imperativo
categórico
é
um
princípio
que:
–
Ordena
que
se
cumpra
o
dever
sempre
por
dever,
ou
seja,
ordena
que
a
vontade
cumpra
o
dever
exclusivamente
motivada
pelo
que
é
correto
fazer.
‒
Ordena
que
se
aja
por
dever.
‒
Ordena
que
sejamos
imparciais
e
desinteressados,
agindo
segundo
máximas
que
todos
podem
adotar.
‒
Ordena
que
respeitemos
o
valor
absoluto
de
cada
ser
racional
nunca
o
reduzindo
à
condição
de
meio
que
nos
é
útil.
«Deves
ser
honesto
porque
esse
é
o
teu
dever!»
Um
imperativo
hipotético
é
um
princípio
que:
‒
Transforma
o
cumprimento
do
dever
numa
ordem
condicionada
pelo
que
de
satisfatório
ou
proveitoso
pode
resultar
do
seu
cumprimento.
As
ações
baseadas
num
imperativo
hipotético
são:
‒
Ações
conformes
ao
dever,
feitas
a
pensar
nas
consequências
ou
resultados
de
fazer
o
que
é
devido.
‒
As
ações
que
cumprem
o
dever
com
base
em
interesses
e
por
isso
seguem
máximas
que
não
podem
ser
universalizadas.
‒
As
ações
que
não
respeitam
absolutamente
o
que
somos
enquanto
seres
humanos.
«Deves
ser
honesto
se
quiseres
ficar
bem
visto
perante
os
vizinhos
do
teu
bairro.»
AS
FORMULAÇÕES
MAIS
IMPORTANTES
DO
IMPERATIVO
CATEGÓRICO
Fórmula
da
lei
universal
Age
apenas
segundo
uma
máxima
tal
que
possas
querer
ao
mesmo
tempo
que
se
torne
lei
universal.
Fórmula
da
Humanidade
Age
de
tal
maneira
que
uses
a
humanidade,
tanto
na
tua
pessoa
como
na
pessoa
de
outrem,
sempre
e
simultaneamente
como
fim
e
nunca
apenas
como
meio.
38.
Imagine
que
uma
pessoa
com
problemas
financeiros
decide
pedir
dinheiro
emprestado.
Sabe
que
não
pode
devolver
o
dinheiro
que
lhe
for
emprestado,
mas
prometê-‐lo
–
mentir
–
é
a
única
forma
de
obter
aquilo
de
que
precisa.
A
máxima
da
ação
poderia
enunciar-‐se
assim
«Se
isso
servir
os
teus
interesses,
não
devolvas
dinheiro
emprestado
ao
seu
dono».
A
referida
pessoa
não
pode
querer
sem
contradição
universalizar
a
exceção
que
abriu
para
si
própria
porque
se
tornará
exceção
para
todos.
Se
todos
nós
fizéssemos
promessas
com
a
intenção
de
não
as
cumprir,
todos
desconfiaríamos
delas,
e
o
empréstimo
de
dinheiro
baseado
em
promessas
acabaria.
A
prática
de
fazer
e
de
aceitar
promessas
desapareceria.
A
máxima
referida
autodestrói-‐se
ao
ser
universalizada
porque
ninguém
poderá
agir
de
acordo
com
ela.
Quem
pede
dinheiro
emprestado
sem
intenção
de
o
devolver
está
a
tratar
a
pessoa
que
lhe
empresta
dinheiro
como
um
meio
para
resolver
um
problema
e
não
como
alguém
que
merece
respeito,
consideração.
Pensa
unicamente
em
utilizá-‐la
para
resolver
uma
situação
financeira
grave
sem
ter
qualquer
consideração
pelos
interesses
próprios
de
quem
se
dispõe
a
ajudá-‐lo.
Sempre
que
fazemos
da
satisfação
dos
nossos
interesses
a
finalidade
única
da
nossa
ação,
não
estamos
a
ser
imparciais,
e
a
máxima
que
seguimos
não
pode
ser
universalizada.
Assim
sendo,
estamos
a
usar
os
outros
apenas
como
meios,
simples
instrumentos
que
utilizamos
para
nosso
proveito.
Esta
fórmula
não
fala
só
de
respeitar
os
outros.
Diz
que
nenhum
ser
humano
se
deve
tratar
a
si
mesmo
apenas
como
um
meio.
A
prostituição,
o
masoquismo
são
exemplos
de
violação
desta
norma,
mas,
mesmo
quando
desrespeitamos
diretamente
os
direitos
dos
outros,
como
no
caso
da
escravatura,
da
violação,
do
roubo
e
da
mentira,
estamos
também
a
abdicar
da
nossa
dignidade.
39.
AUTONOMIA
HETERONOMIA
Caraterística
de
uma
vontade
que
cumpre
o
dever
pelo
dever.
Quando
o
cumprimento
do
dever
é
motivo
suficiente
para
agir,
a
vontade
não
se
submete
a
outra
autoridade
que
não
a
razão.
Quando
decido
independentemente
de
quaisquer
interesses,
isto
é,
quando
sou
imparcial
e
adoto
uma
perspetiva
universal,
obedeço
a
regras
que
criei
ao
mesmo
tempo
para
mim
e
para
todos
os
seres
racionais.
Uma
vontade
autónoma
é
uma
vontade
puramente
racional,
que
faz
sua
uma
lei
da
razão,
que
diz
a
si
mesma
«Eu
quero
o
que
a
lei
moral
exige».
Ao
agir
por
dever,
obedeço
à
voz
da
minha
razão
e
nada
mais.
Caraterística
de
uma
vontade
que
não
cumpre
o
dever
pelo
dever.
Quando
o
cumprimento
do
dever
não
é
motivo
suficiente
para
agir
tendo
de
se
invocar
razões
externas
como
o
receio
das
consequências,
o
temor
a
Deus,
etc.,
a
vontade
submete-‐se
a
autoridades
que
não
a
razão.
Por
isso,
a
sua
ação
é
heterónoma,
incapaz
de
respeitar
incondicionalmente
o
dever.
Todas
as
éticas
de
tipo
consequencialista
são,
para
Kant,
heterónomas,
reduzem
a
moralidade
a
um
conjunto
de
imperativos
hipotéticos.
O
QUE
É
UMA
BOA
VONTADE
É
uma
vontade
que
age
de
forma
moralmente
correta.
É
uma
vontade
que
cumpre
o
dever
respeitando
absolutamente
a
lei
moral,
ou
seja,
cuja
única
intenção
é
cumprir
o
dever.
É
uma
vontade
que
age
segundo
regras
ou
máximas
que
podem
ser
seguidas
por
todos
porque
não
violam
os
interesses
de
ninguém.
É
uma
vontade
que
respeita
todo
e
qualquer
ser
humano
considerando-‐o
uma
pessoa
e
não
uma
coisa
ou
um
meio
ao
serviço
deste
ou
daquele
interesse.
É
uma
vontade
autónoma
porque
decide
cumprir
o
dever
por
sua
iniciativa
e
não
por
receio
de
autoridades
externas
ou
da
opinião
dos
outros.
40.
UM
EXEMPLO
ILUSTRATIVO
DO
QUE
É
PARA
KANT
AGIR
CORRETAMENTE
Imagine
que
um
grupo
de
terroristas
se
apodera
de
um
avião
em
Berlim.
Os
seus
passageiros
e
tripulantes
ficam
reféns.
Contudo,
os
terroristas
propõem
libertá-‐los
se
um
cidadão
local
que
eles
consideram
envolvido
em
atividades
antiterroristas
lhes
for
entregue
para
ser
morto.
Se
as
autoridades
da
cidade
não
colaborarem
no
prazo
de
quatro
horas,
ameaçam
fazer
explodir
o
aparelho
com
todas
as
pessoas
lá
dentro.
As
autoridades
locais
sabem
que
o
cidadão
em
causa
não
cometeu
o
menor
crime
durante
a
sua
vida
e
que
os
terroristas
estão
enganados,
pois
não
participou
na
morte
de
membros
do
grupo
de
que
agora
dele
se
quer
vingar.
Não
obstante,
sabem
que
será
vã
a
tentativa
de
convencer
os
terroristas
de
que
estão
enganados.
Após
longa
deliberação,
decidem
entregar
o
referido
cidadão
aos
terroristas
que
libertam
os
reféns
e
matam
quem
queriam
matar.
Posição
de
Kant
A
ação
é
moralmente
incorreta
Justificação
1.
Há
atos
intrinsecamente
errados
(errados
em
si
mesmos,
apesar
de
poderem
ter
boas
consequências)
que
é
nosso
dever
evitar
e
atos
intrinsecamente
corretos
que
é
nosso
dever
realizar.
Certos
deveres
constituem
uma
obrigação
moral,
sejam
quais
forem
as
consequências.
Que
deveres
absolutos
são
esses?
Eis
alguns:
«Não
matar»,
«Não
roubar»,
«Não
mentir».
Por
insistir
em
que
há
deveres
absolutos,
a
ética
kantiana
é
considerada
deontológica.
2.
Viola-‐se
o
imperativo
categórico
de
respeitar
absolutamente
a
pessoa
humana.
Transforma-‐se
uma
vida
em
meio
para
atingir
um
fim
que
é
a
salvação
de
outras
vidas
humanas.
É
evidente
que
as
autoridades
que
decidem
entregar
o
cidadão
aos
terroristas
estão
a
tratá-‐la
como
um
meio
para
resolver
um
problema
e
não
como
alguém
que
merece
respeito,
consideração.
Pensam
unicamente
em
utilizá-‐lo
para
resolver
uma
situação
grave
sem
ter
qualquer
consideração
pelo
seu
interesse
próprio.
Para
Kant,
uma
vida
humana
não
é
mais
valiosa
do
que
outra,
nem
várias
vidas
humanas
valem
mais
do
que
uma.
Devido
a
esta
ideia,
a
ética
kantiana
é
frequentemente
denominada
ética
do
respeito
pelas
pessoas.
41.
2.
A
ÉTICA
UTILITARISTA
DE
MILL
TEORIA
ÉTICA
CONSEQUENCIALISTA
As
consequências
de
uma
ação
é
que
determinam
se
é
moralmente
correta
ou
incorreta.
TEORIA
ÉTICA
HEDONISTA
Todas
as
atividades
humanas
têm
um
objetivo
último,
isto
é,
são
meios
para
uma
finalidade
que
é
o
ponto
de
convergência
de
todas.
Esse
fim
é
a
felicidade
ou
bem-‐
estar.
Mais
propriamente,
procuramos
em
todas
as
atividades
a
que
nos
dedicamos
viver
experiências
aprazíveis
e
evitar
experiências
dolorosas
ou
desagradáveis.
Esta
perspetiva
que
identifica
a
felicidade
com
o
prazer
ou
o
bem-‐estar
tem
o
nome
de
hedonismo.
Mas
trata-‐se
da
felicidade
geral
e
não
da
individual.
O
CRITÉRIO
DA
MORALIDADE
DE
UMA
AÇÃO
Segundo
Mill,
a
utilidade
é
o
que
torna
uma
ação
moralmente
valiosa.
O
critério
da
moralidade
de
um
ato
é
o
princípio
de
utilidade.
Este
princípio
é
o
teste
da
moralidade
das
ações.
Uma
ação
deve
ser
realizada
se
e
só
se
dela
resultar
a
máxima
felicidade
possível
para
as
pessoas
ou
as
partes
que
por
ela
são
afetadas.
O
princípio
de
utilidade
é
por
isso
conhecido
também
como
princípio
da
maior
felicidade.
A
ideia
central
do
utilitarismo
é
a
de
que
devemos
agir
de
modo
a
que
da
nossa
ação
resulte
a
maior
felicidade
ou
bem-‐estar
possível
para
as
pessoas
por
ela
afetadas.
Uma
ação
boa
é
a
que
é
mais
útil,
ou
seja,
a
que
produz
mais
felicidade
global
ou,
dadas
as
circunstâncias,
menos
infelicidade.
Quando
não
é
possível
produzir
felicidade
ou
prazer,
devemos
tentar
reduzir
a
infelicidade.
Costuma-‐se
resumir
o
princípio
de
utilidade
mediante
a
fórmula
«A
maior
felicidade
para
o
maior
número».
Esta
fórmula
foi
cunhada
por
Francis
Hutchinson
e
não
aparece
tal
e
qual
nos
escritos
de
Mill.
MORALMENTE
INCORRETO/MORALMENTE
CORRETO
Ação
moralmente
correta
Ação
moralmente
incorreta
A
ação
que
tem
boas
consequências
ou,
dadas
as
circunstâncias,
melhores
consequências
do
que
ações
alternativas.
A
ação
que
tem
más
consequências
ou,
dadas
as
circunstâncias,
piores
consequências
do
que
ações
alternativas
42.
O
que
é
uma
ação
com
boas
consequências
O
que
é
uma
ação
com
más
consequências
‒
Ação
cujos
resultados
contribuem
para
um
aumento
da
felicidade
(bem-‐estar)
ou
diminuição
da
infelicidade
do
maior
número
possível
de
pessoas
por
ela
afetadas.
‒
Ação
subordinada
ao
princípio
de
utilidade.
‒
Ação
cujos
resultados
não
contribuem
para
um
aumento
da
felicidade
(bem-‐estar)
ou
diminuição
da
infelicidade
do
maior
número
possível
de
pessoas
por
ela
afetadas.
‒
Ação
egoísta
em
que
a
felicidade
do
maior
número
não
é
tida
em
conta
ou
em
que
só
o
meu
bem-‐estar
ou
satisfação
é
procurado.
‒
Ação
que
não
se
subordina
ao
princípio
de
utilidade.
NÃO
HÁ
DEVERES
ABSOLUTOS
Para
o
utilitarista,
as
ações
são
moralmente
corretas
ou
incorretas
conforme
as
consequências:
se
promovem
imparcialmente
o
bem-‐estar,
são
boas.
Isto
quer
dizer
que
não
há
ações
intrinsecamente
boas.
Só
as
consequências
as
tornam
boas
ou
más.
Assim
sendo,
não
há,
para
o
utilitarista,
deveres
que
devam
ser
respeitados
sempre
e
em
todas
as
circunstâncias.
Se,
para
a
ética
kantiana,
alguns
atos
como
matar,
roubar
ou
mentir
são
absolutamente
proibidos
mesmo
que
as
consequências
sejam
boas,
para
Mill
justifica-‐se,
por
vezes,
matar,
deixar
morrer,
roubar
ou
mentir.
O
PRINCÍPIO
DE
UTILIDADE
E
AS
NORMAS
MORAIS
VIGENTES
As
normas
morais
comuns
estão
em
vigor
em
muitas
sociedades
por
alguma
razão.
Resistiram
à
prova
do
tempo,
e
em
muitas
situações
fazemos
bem
em
segui-‐las
nas
nossas
decisões.
Contudo,
não
devem
ser
seguidas
cegamente.
Nas
nossas
decisões
morais,
devemos
ser
guiados
pelo
princípio
de
utilidade
e
não
pelas
normas
ou
convenções
socialmente
estabelecidas.
Dizer
a
verdade
é
um
ato
normalmente
mais
útil
do
que
prejudicial,
e
por
isso
a
norma
«Não
deves
mentir»
sobreviveu
ao
teste
do
tempo.
Segui-‐la
é
respeitar
a
experiência
de
séculos
da
humanidade.
Mas
há
situações
em
que
não
respeitar
absolutamente
uma
determinada
norma
moral
e
seguir
o
princípio
de
utilidade
terá
melhores
consequências
globais
do
que
respeitá-‐la.
FELICIDADE
GERAL
E
FELICIDADE
INDIVIDUAL
A
minha
felicidade
não
é
mais
importante
do
que
a
felicidade
dos
outros.
O
utilitarismo
de
Mill
não
defende
que
tenhamos
de
renunciar
à
nossa
felicidade,
a
uma
vida
pessoal
em
nome
da
felicidade
do
maior
número.
Trata-‐se
através
da
educação
segundo
o
princípio
de
utilidade
de
abrir
um
espaço
amplo
para
que
a
inclinação
para
o
bem
geral
se
sobreponha
com
frequência
cada
vez
maior
ao
egoísmo.
O
princípio
da
maior
felicidade
em
Mill
exige
que
cada
indivíduo
se
habitue
a
não
separar
a
sua
felicidade
da
felicidade
geral
sem
deixar
de
ter
projetos,
interesses
e
vida
pessoal.
43.
COMPARAÇÃO
ENTRE
AS
ÉTICAS
DE
KANT
E
DE
MILL
QUESTÕES
RESPOSTA
DE
KANT
RESPOSTA
DE
MILL
As
consequências
são
o
que
mais
conta
para
decidir
se
uma
ação
é
ou
não
moralmente
boa?
Não.
A
minha
ética
não
é
consequencialista.
Sim.
A
minha
ética
é
consequencialista.
UM
EXEMPLO
ILUSTRATIVO
DA
TEORIA
ÉTICA
DE
MILL
Imagine
que
um
grupo
de
terroristas
se
apodera
de
um
avião
em
Berlim.
Os
seus
passageiros
e
tripulantes
ficam
reféns.
Contudo,
os
terroristas
propõem
libertá-‐los
se
um
cidadão
local
que
eles
consideram
envolvido
em
atividades
antiterroristas
lhes
for
entregue
para
ser
morto.
Se
as
autoridades
da
cidade
não
colaborarem
no
prazo
de
quatro
horas,
ameaçam
fazer
explodir
o
aparelho
com
todas
as
pessoas
lá
dentro.
As
autoridades
locais
sabem
que
o
cidadão
em
causa
não
cometeu
o
menor
crime
durante
a
sua
vida
e
que
os
terroristas
estão
enganados,
pois
não
participou
na
morte
de
membros
do
grupo
que
agora
dele
se
quer
vingar.
Não
obstante,
sabem
que
será
vã
a
tentativa
de
convencer
os
terroristas
de
que
estão
enganados.
Após
longa
deliberação,
decidem
entregar
o
referido
cidadão
aos
terroristas,
que
libertam
os
reféns
e
matam
quem
queriam
matar.
Posição
de
Mill
Ação
moralmente
correta
Justificação
Há
que
ter
em
conta
a
ação
que
produziria
mais
felicidade
global.
O
que
produz
mais
infelicidade?
Deixar
morrer
um
inocente
ou
deixar
eventualmente
morrer
dezenas
de
inocentes?
Quantas
famílias
não
ficariam
enlutadas
caso
não
se
cedesse
às
pretensões
dos
terroristas?
Para
Mill,
justifica-‐se,
por
vezes,
matar,
deixar
morrer,
roubar
ou
mentir.
Nenhum
desses
atos
é
intrinsecamente
errado
e,
por
isso,
os
deveres
que
proíbem
a
sua
realização
não
devem
ser
considerados
absolutos.
Deve
notar-‐se
que
estamos
a
referir-‐nos
a
um
caso
dramático
em
que
as
alternativas
–
permitir
a
morte
de
um
ou
permitir
a
morte
de
muitos
–
são
ambas
repugnantes.
Mas
há
que
optar
e,
segundo
Mill,
seguir
um
princípio
como
«Cumpre
o
dever
por
dever»
é
vago.
44.
A
intenção
é
o
critério
ou
fator
decisivo
para
avaliar
se
uma
ação
é
moralmente
boa?
Sim.
A
minha
ética
considera
boa
a
ação
cuja
máxima
exprime
a
intenção
de
cumprir
o
dever
pelo
dever.
A
intenção
de
fazer
o
que
é
devido
sem
outro
motivo
que
não
o
do
cumprimento
do
dever
é
a
única
coisa
que
torna
uma
ação
boa.
A
moralidade
consiste
em
cumprir
o
dever
pelo
dever.
A
minha
ética
é
deontológica.
Não.
O
fator
que
decide
se
uma
ação
é
boa
ou
não
é
o
que
dela
resulta.
As
consequências
são
o
critério
decisivo
da
moralidade
de
um
ato.
A
intenção
diz
respeito
ao
caráter
do
agente
e
não
à
qualidade
moral
da
ação.
Se
uma
ação
é
motivada
pela
vontade
de
obter
o
melhor
resultado
possível
mas
tem
más
consequências,
diremos
que,
apesar
de
o
agente
ser
bom,
a
ação
não
é
boa.
Há
ações
boas
em
si
mesmas,
isto
é,
que
tenham
um
valor
intrínseco?
Sim.
O
valor
moral
de
uma
ação
depende
da
máxima
que
o
agente
adota,
sendo
independente
das
consequências,
efeitos
ou
resultados
do
que
fazemos.
Não.
Não
podemos
dizer
que
uma
ação
é
boa
ou
má
antes
de
olharmos
para
as
suas
consequências.
Há
deveres
absolutos?
Há
normas
morais
que
não
devemos
nunca
desrespeitar?
Sim.
Mentir,
roubar
e
matar,
por
exemplo,
são
atos
sempre
errados.
Há
normas
morais
absolutas
que
proíbem
o
assassínio,
o
roubo,
a
mentira
e
que
devem
ser
incondicionalmente
respeitadas
em
todas
as
circunstâncias.
Não,
exceto
o
dever
de
promover
a
felicidade
geral.
Há
situações
em
que
não
cumprir
certo
dever
tem
como
consequência
um
melhor
estado
de
coisas.
Há
normas
morais
que
se
tem
revelado
úteis
para
organizar
a
vida
dos
seres
humanos,
mas
devemos
ter
em
conta
que
nem
sempre
o
seu
cumprimento
produz
bons
resultados.
Qual
é
o
princípio
moral
fundamental
que
temos
de
O
princípio
moral
fundamental
a
respeitar
é
o
que
exige
que
nunca
O
princípio
moral
fundamental
a
respeitar
é
o
princípio
de
utilidade.
45.
respeitar
para
que
a
nossa
ação
seja
moralmente
boa?
trate
os
outros
–
nem
a
minha
pessoa
–
como
meio
ou
instrumento
útil
para
um
certo
fim.
Respeitar
a
nossa
humanidade
eis
o
princípio
incondicional.
Para
isso
ser
possível,
devo
agir
segundo
máximas
que
possam
ser
seguidas
pelos
outros,
isto
é,
que
possam
ser
universalizadas.
Exige
que
das
nossas
ações
resulte
a
maior
felicidade
possível
para
o
maior
número
possível
de
pessoas.
É
também
conhecido
como
princípio
da
maior
felicidade
possível.
A
minha
ética
é
consequencialista
e
utilitarista.
Há
valores
absolutos?
Sim.
A
dignidade
da
pessoa
humana
é
um
valor
absoluto.
Nenhuma
ação
pode
ser
boa
se
desrespeita
esse
valor
absoluto.
A
boa
vontade
é
a
vontade
de
nunca
violar
a
dignidade
absoluta
e
incondicional
da
pessoa
humana.
Sim.
O
único
valor
absoluto
é
a
felicidade
entendida
como
prazer.
Todas
as
outras
coisas
só
têm
valor
se
produzirem
felicidade.
Maximizar
o
bem-‐estar
ou
a
felicidade
é
obrigatório?
Não.
Não
é
obrigatório
e
muitas
vezes
não
é
permissível.
Porquê?
Porque
há
direitos
das
pessoas
que
são
absolutos.
Os
deveres
absolutos
de
que
falo
são
restrições
que
impõem
limites
à
instrumentalização
dos
indivíduos
em
nome
do
bem-‐estar
geral.
A
minha
ética
é
deontológica
porque
o
respeito
absoluto
pelos
direitos
da
pessoa
humana
implica
que
haja
deveres
absolutos
ou
coisas
que
é
absolutamente
proibido
fazer.
Sim.
Se
o
valor
moral
das
ações
depende
da
sua
capacidade
para
maximizar
o
bem-‐estar
dos
agentes
afetados
pelas
consequências
de
uma
ação,
então
obter
esse
resultado
é
obrigatório,
mesmo
que
por
vezes
isso
implique
a
violação
de
algum
direito.
A
minha
ética
não
é
deontológica
porque
não
admite
que
haja
deveres
absolutos
que
impõem
restrições
ao
que
é
possível
fazer.
A
minha
ética
centra-‐se
no
bem-‐estar
geral
que
das
ações
pode
resultar,
e
maximizar
esse
bem-‐estar
é
a
única
obrigação
moral.
46.
O
que
é
a
felicidade?
É
o
fim
ou
objetivo
último
das
ações
humanas?
A
felicidade
é
um
bem,
mas
não
deve
influenciar
as
nossas
escolhas
morais.
O
fim
último
da
ação
moral
é
o
respeito
pela
pessoa
humana,
pelo
valor
absoluto
que
a
sua
racionalidade
lhe
confere.
A
felicidade
é
o
objetivo
fundamental
da
ação
moral,
embora
não
se
trate
da
felicidade
individual
nem
da
felicidade
que
se
traduza
na
redução
do
bem-‐estar
da
maioria
das
pessoas
a
quem
a
ação
diz
respeito.
O
que
é
o
egoísmo?
O
egoísmo,
impedindo
ações
desinteressadas
e
imparciais,
é
o
grande
inimigo
da
moralidade.
O
egoísmo
é
condenável
porque
impede
que
se
tenha
em
vista
um
fim
objetivo,
que
é
a
maior
felicidade
para
o
maior
número
possível
de
pessoas.
TEMA
7
O
PROBLEMA
DA
JUSTIFICAÇÃO
DO
ESTADO
COMPARAÇÃO
ENTRE
HOBBES
E
LOCKE
QUESTÕES
HOBBES
LOCKE
O
Estado
é
uma
instituição
natural?
Não.
Apesar
de
se
poder
reconhecer
nos
seres
humanos
a
aptidão
para
viverem
em
sociedade,
o
Estado
é
uma
construção
humana,
algo
que
impomos
à
nossa
natureza.
Não.
Apesar
de
se
poder
reconhecer
nos
seres
humanos
a
aptidão
para
viverem
em
sociedade,
o
Estado
é
uma
construção
humana,
algo
que
impomos
à
nossa
natureza.
O
que
é
o
estado
de
natureza?
É
uma
condição
da
vida
humana
marcada
pela
possibilidade
que
cada
um
tem
de
fazer
justiça
por
suas
mãos.
É
uma
condição
da
vida
humana
marcada
pela
possibilidade
que
cada
um
tem
de
fazer
justiça
pelas
suas
mãos.
47.
O
estado
de
natureza
é
uma
condição
satisfatória?
Porquê?
Não
porque
é
a
guerra
de
todos
contra
todos.
É
um
estado
calamitoso,
anárquico,
em
que,
ameaçada
pela
possibilidade
que
cada
um
tem
de
fazer
justiça
por
suas
mãos,
a
vida
humana
é
curta
e
incerta.
O
profundo
egoísmo
da
natureza
humana
é
a
raiz
de
todos
os
males
e
tem
de
ser
controlado.
Não
porque
tende
a
ser
a
guerra
de
alguns
contra
alguns.
No
estado
de
natureza,
não
há
leis
escritas
ou
órgãos
–
tribunais,
forças
da
ordem
–
que
controlem
e
resolvam
os
conflitos
entre
os
seres
humanos.
Há
direitos
individuais,
mas
cada
qual
interpreta-‐os
e
defende-‐os
à
sua
maneira.
Assim,
a
justiça
privada
–
cada
qual
fazer
justiça
por
suas
mãos
ou
fazer
o
que
bem
entende
–
conduz
à
insegurança
e
à
injustiça.
O
Estado
é
um
bem
ou
um
mal?
O
Estado
é
um
bem
necessário
porque
garante,
em
princípio,
a
segurança
e
protege
a
vida
dos
cidadãos.
O
Estado
é
um
bem
necessário
porque
garante,
em
princípio,
a
proteção
da
vida,
da
liberdade
e
da
propriedade.
Como
se
dá
a
passagem
do
estado
de
natureza
à
sociedade
política?
Os
indivíduos
transferem
para
o
poder
político
todos
os
seus
direitos
de
forma
ilimitada
e
renunciam
à
liberdade
em
nome
da
segurança
e
proteção
das
suas
vidas
e
dos
seus
bens.
Isto
porque
nenhum
mal
é
comparável
a
viver
no
estado
de
natureza.
Os
indivíduos
não
abdicam
de
nenhum
dos
seus
direitos
naturais
mas
transferem
para
o
Estado
e
seus
órgãos
o
poder
de
legislar,
de
executar
as
leis
e
de
julgar.
Em
vez
de
cada
indivíduo
defender
perante
os
outros
os
seus
direitos
naturais,
delega
no
Estado
esse
poder
atribuindo-‐lhe
a
responsabilidade
de
os
proteger.
A
autoridade
do
Estado
tem
limites?
Em
princípio
não.
Os
cidadãos
renunciam
ao
seu
direito
a
todas
as
coisas,
à
sua
liberdade
natural,
e
deixam
de
poder
contestar
as
decisões
de
quem
governa,
desde
que
o
poder
absoluto
assim
criado
garanta
a
paz
e
a
segurança.
Este
é
o
Sim.
O
contrato
social
não
garante
ao
governante
poder
absoluto
para
fazer
o
que
bem
entender
em
nome
da
paz
e
da
segurança.
Há,
para
Locke,
valores
mais
importantes
do
que
a
segurança
e
a
ordem.
O
direito
à
liberdade
é
um
deles.
Os
cidadãos
não
renunciam
aos
direitos
48.
único
dever
estrito
do
Estado:
manter
a
ordem
e
proteger
as
vidas
que
possam
ser
ameaçadas
por
forças
internas
ou
externas.
A
segurança
e
a
ordem
são
os
valores
mais
importantes.
Como
Hobbes
pensa
que
a
função
do
Estado
se
deve
concentrar
na
defesa
da
nação
e
na
segurança
interna.
A
sua
conceção
de
Estado
deixa
aos
cidadãos
uma
relativa
liberdade
na
esfera
económica,
havendo
assim
direito
à
propriedade
e
à
iniciativa
privada.
O
contrato
social
garante
ao
governante
poder
absoluto
para
fazer
o
que
bem
entender
com
vista
a
assegurar
a
paz
e
a
ordem
sociais.
Só
a
sua
incapacidade
em
manter
a
segurança
e
eliminar
os
conflitos
justifica
que
seja
contestado
e
deposto.
individuais
naturais
como
a
liberdade.
Só
renunciam
ao
direito
de
aplicarem
por
si
mesmos
o
direito
natural
de
punirem
quem
desrespeita
e
viola
esses
direitos
básicos.
Os
titulares
da
soberania
continuam
a
ser
os
cidadãos
–
o
povo.
Este
delega
o
exercício
do
poder
nos
governantes,
mas,
se
estes
não
governarem
bem,
se
não
respeitarem
e
garantirem
os
direitos
básicos
dos
indivíduos,
serão
depostos
das
suas
funções.
49.
TEMA
8
O
PROBLEMA
DA
JUSTIÇA
SOCIAL
1.
Qual
é
o
objetivo
da
teoria
da
justiça
de
Rawls?
O
objetivo
da
teoria
política
de
Rawls
é
o
de
conciliar,
na
medida
do
possível,
igualdade
e
liberdade.
Porquê
ambas?
Porque,
se
apenas
houver
liberdade,
põe-‐se
em
causa
a
igualdade
(uns
indivíduos
possuirão
sempre
mais
bens
do
que
outros
e
os
que
possuem
mais
possuirão
sempre
mais
–
a
riqueza
gera
mais
riqueza).
Se
apenas
houver
igualdade,
põe-‐se
em
causa
a
liberdade
(limita-‐se
a
liberdade
de
os
indivíduos
possuírem
mais
bens
do
que
a
quantidade
de
bens
que
possuem).
2.
O
que
é
uma
sociedade
justa?
É
uma
sociedade
em
que:
1. As
pessoas
são
igualmente
livres;
2. Não
há
desigualdades
excessivas
na
distribuição
de
bens
e
de
riqueza;
3. A
posição
que
cada
qual
ocupa
no
que
respeita
a
bens
e
cargos
mais
desejados
deriva
do
seu
trabalho,
esforço
e
empenho,
ou
seja,
cada
um
de
nós
é
por
ela
responsável.
3.
A
posição
que
uma
pessoa
ocupa
na
sociedade
–
se
é
rico,
se
é
pobre,
por
exemplo
‒
deve
depender
das
suas
escolhas
e
do
seu
empenho
e
do
seu
mérito.
Mas
não
há
obstáculos
que
podem
impedir
a
realização
deste
ideal?
Há,
sem
dúvida.
Quando
começamos
a
nossa
vida,
nem
todos
estamos
em
iguais
condições.
Uns
nascem
em
meios
socioeconómicos
mais
favoráveis
do
que
outros.
Isto
significa
que,
se
a
nossa
vida
social
fosse
uma
corrida,
uns
partiriam
mais
à
frente
do
que
outros.
As
circunstâncias
sociais
e
económicas
em
que
nasci
e
que
eventualmente
me
favorecem
não
são
mérito
meu.
São
obra
do
acaso.
Mas
prejudicam
uns
e
beneficiam
outros.
50.
4.
O
que
defende
Rawls
para
evitar
que
as
circunstâncias
sociais
impeçam
que
o
esforço
e
o
mérito
tenham
a
última
palavra?
Como
combater
as
desigualdades
devidas
a
fatores
ambientais,
como
a
posição
social
que
detemos
em
virtude
do
nascimento?
Defende
o
princípio
da
igualdade
de
oportunidades.
O
acesso
às
profissões
mais
valorizadas
deve
estar
ao
alcance
de
todos.
Não
é
justo
que,
devido
a
uma
condição
económica
desfavorável,
não
possa
estudar
e
realizar
o
projeto
de
ser
engenheiro,
arquiteto,
médico
ou
outras
profissões
socialmente
mais
reconhecidas.
Mediante
ajustes
institucionais
como
bolsas
de
estudo,
o
Estado
deve
garantir
uma
relativa
igualdade
na
«corrida»
às
posições
sociais
mais
favoráveis.
Assim,
procura
neutralizar
fatores
que
impedem
que
só
o
mérito,
o
empenho
e
a
responsabilidade
pessoal
sejam
decisivos
para
que
alguém
atinja
os
seus
objetivos
no
plano
social.
5.
Esclareça
em
que
consiste
o
princípio
da
igualdade
de
oportunidades.
O
«princípio
da
igualdade
de
oportunidades»
significa
que
cada
um
deve
ter
as
mesmas
oportunidades
de
acesso
às
várias
funções
e
posições
sociais.
De
que
igualdade
se
trata?
De
uma
igualdade
semelhante
à
que
acontece
nas
corridas
de
atletismo.
Numa
corrida
de
400
metros
planos,
as
posições
de
saída
dos
atletas
são
diferentes.
Esta
medida
tem
como
objetivo
compensar
as
desigualdades
geradas
pela
forma
da
pista,
tornando
possível
a
igualdade
de
condições
de
saída.
Imaginemos
a
seleção
para
postos
de
trabalho
numa
empresa.
É
justo
que
as
posições
mais
vantajosas
e
que
os
restantes
lugares
sejam
dados
aos
mais
qualificados.
Contudo,
a
igualdade
de
oportunidades
é
mais
do
que
isso.
Exige
que
todos
os
concorrentes
aos
lugares
tenham
tido
a
possibilidade
de
obter
qualificação
apropriada
na
escola
ou
em
qualquer
outra
instituição
e
não
sejam
discriminados
pelas
circunstâncias
sociais
(não
sejam
prejudicados
por
fatores
como
o
género,
origem
cultural
ou
étnica
ou
as
condições
socioeconómicas).
51.
6.
Mas
será
que
a
igualdade
de
oportunidades
é
suficiente
para
que
se
construa
uma
sociedade
justa?
Supondo
que
há
efetiva
igualdade
de
oportunidades,
será
que
isso
resolve
o
problema
da
justiça
social?
Rawls
pensa
que
não.
Não.
Porquê?
Porque
só
é
justo
o
resultado
que
decorre
das
escolhas
pelas
quais
somos
responsáveis.
Se
estudamos
pouco
ou
trabalhamos
com
pouco
empenho,
não
temos
legitimidade
para
argumentar
que
não
é
justa
a
posição
social
em
que
nos
encontramos,
dada
a
igualdade
de
oportunidades
que
tivemos.
Não
aproveitámos
as
oportunidades.
Mas
há
outro
fator
que
pode
desequilibrar.
Qual?
Os
dons
da
natureza.
O
que
há
de
insuficiente
na
ideia
de
justiça
social
como
igualdade
de
oportunidades
é
que
se
esquece
que
o
sucesso
também
depende
do
talento
natural
ou
dos
dons
da
natureza.
As
diferenças
socioeconómicas
devem
derivar
do
exercício
da
liberdade
individual
em
condições
de
igualdade.
Ora,
o
talento
natural
é
um
dom
que
não
decorre
da
liberdade
de
escolha.
Não
somos
responsáveis
pelos
nossos
talentos
naturais
–
grau
de
inteligência,
aptidões
musicais,
físicas
‒
ou
por
limitações
físicas
e
intelectuais
herdadas.
Sendo
assim,
na
corrida
pelas
melhores
posições
sociais,
o
talento
natural
é
um
elemento
perturbador
na
chegada
à
«meta».
7.
O
sucesso
social
de
alguém
favorecido
pela
natureza
–
elevado
QI,
força,
destreza
–
não
é
merecido,
no
sentido
em
que
estes
dons
não
são
adquiridos,
mas
oferecidos
pela
natureza.
Os
talentos
naturais
não
foram
escolha
sua.
Foram
dons
da
natureza.
A
este
respeito,
o
insucesso
dos
desfavorecidos
pela
natureza
também
não
é
merecido.
Foi
obra
do
acaso
natural
e
não
responsabilidade
sua.
O
que
fazer
para
que
este
obstáculo
impeça
uma
injusta
desigualdade?
A
solução
de
Rawls
é
esta:
os
mais
favorecidos
têm
o
direito
de
usufruir
dos
bens
cuja
aquisição
foi
favorecida
pelo
talento
natural,
desde
que
compensem
os
menos
favorecidos
por
desigualdades
que
não
têm
origem
no
mérito,
ou
seja,
que
foram
condicionadas
por
fatores
que
não
são
da
sua
responsabilidade.
Por
outras
palavras,
posso,
em
virtude
de
dons
que
ninguém
me
pode
subtrair,
ganhar
mais
do
que
os
outros,
ter
melhor
emprego
e
melhor
estatuto
social
desde
que
isso
reverta
a
favor
dos
mais
desfavorecidos.
As
pessoas
que,
em
boa
parte,
devido
ao
seu
talento
natural,
acederam
às
profissões
socialmente
mais
valorizadas
e
mais
bem
pagas
não
devem
ser
52.
as
únicas
a
beneficiar
com
a
sua
situação.
Ronaldo
não
deve
ser
o
único
a
beneficiar
do
talento
e
da
capacidade
que,
em
grande
parte,
deriva
de
a
natureza
ter
sido
generosa
com
ele.
A
solução
é
proceder
à
redistribuição
da
riqueza.
Os
mais
favorecidos
pela
natureza
devem
contribuir
–
impostos
‒
para
a
melhoria
da
situação
económica
dos
que
a
natureza
não
beneficiou.
8.
O
que
é
o
princípio
da
diferença?
É
o
princípio
que
responde
à
pergunta:
«Como
combater
as
desigualdades
decorrentes
da
sorte
e
da
fortuna
genética
dos
indivíduos?».
Os
princípios
da
liberdade
igual
e
da
igualdade
de
oportunidades
são
insuficientes
para
fundar
uma
sociedade
justa.
O
princípio
da
diferença
pretende
reduzir
a
amplitude
da
diferença
de
rendimentos
e
de
bens
entre
indivíduos
que
esteja
fundada
na
lotaria
da
natureza:
uns
favorecidos
em
talentos
preciosos
para
triunfar
num
mundo
competitivo
e
outros
desfavorecidos
ou
pouco
favorecidos
nesse
aspeto.
O
princípio
da
diferença
consiste
em
admitir
na
sociedade
algumas
desigualdades
ou
diferenças
económicas
e
sociais,
desde
que
essas
mesmas
desigualdades
possam
também
beneficiar
os
mais
desfavorecidos.
Se
a
minha
fortuna
aumentar
e
os
indivíduos
com
mais
dificuldades
económicas
receberem
cada
um
em
troca
X
euros
com
esta
minha
ação,
então
a
ação
que
possibilitou
o
aumento
da
minha
fortuna
será
justa
para
Rawls.
Porquê?
Porque
também
os
mais
desfavorecidos
beneficiaram
com
esta
minha
ação.
9.
Será
que
o
princípio
da
diferença
defende
o
igualitarismo
ou
a
igualdade
estrita?
Não.
O
princípio
da
diferença
não
defende
o
igualitarismo
ou
a
igualdade
estrita.
Estipula
que
os
rendimentos
e
a
riqueza
devem
ser
igualmente
distribuídos,
a
não
ser
que
a
desigualdade
seja
vantajosa
para
todos
os
membros
da
sociedade.
Rawls
acrescenta
que
deve
ser
vantajosa
sobretudo
para
os
menos
favorecidos.
53.
10.
Vemos
que,
apesar
de
querer
conciliar
liberdade
e
igualdade,
Rawls
admite
a
desigualdade
económica.
Porquê?
A
desigualdade
económica
será
vantajosa
pelas
seguintes
razões:
1.
As
pessoas
mais
talentosas
sentirão
menos
estímulo
para
trabalhar
e
produzir
se
houver
uma
distribuição
igualitária
da
riqueza.
2.
Menos
produção
de
riqueza
implica
menos
recursos
para
distribuir
e
prestar
assistência
através
de
taxas
e
impostos
aos
menos
favorecidos.
3.
As
oportunidades
dos
que
têm
menos
são
mais
amplas
num
sistema
de
distribuição
da
riqueza
que
não
é
estritamente
igualitário
–
todos
a
ganhar
o
mesmo
ou
aproximadamente
–
porque
haverá
mais
recursos
disponíveis
para
que
os
desfavorecidos
invistam
na
educação
e
na
formação
profissional.
Assim,
a
desigualdade
funciona
a
favor
da
redução
das
desigualdades.
11.
O
princípio
da
igual
liberdade,
da
igualdade
de
oportunidades
e
da
diferença
são
os
princípios
que
devem
ser
seguidos
por
uma
sociedade
que
queira
ser
justa.
Será
que
este
modelo
de
sociedade
é,
para
Rawls,
justo?
Sim,
Rawls
pensa
que
este
modelo
económico,
social
e
político
é
condição
necessária
para
que
se
possa
falar
de
sociedade
justa
ou
de
justiça
social.
12.
Como
justifica
ou
defende
Rawls
a
sua
tese?
Rawls
pensa
que
este
seria
o
tipo
de
sociedade
que
escolheriam
pessoas
que
não
soubessem,
no
momento
de
criar
uma
sociedade,
o
seguinte:
1.
O
que
seriam
(se
seriam
homens
ou
mulheres,
se
pertenceriam
a
esta
ou
àquela
etnia,
se
seriam
muito
ou
pouco
inteligentes,
dotados
de
muita
força
ou
fracos,
com
muita
destreza
e
habilidade
física
ou
não).
2.
Em
que
meio
económico-‐social
iriam
nascer
(se
pobres
ou
ricos
ou
pertencentes
à
classe
média).
3.
Que
profissão
ou
estatuto
social
iriam
ter.
54.
Se
as
pessoas
se
encontrassem
nesta
posição
original
e
cobertas
por
este
véu
de
ignorância
acerca
dos
seus
dotes
naturais,
da
sua
condição
económica
e
social
futura,
escolheriam
os
princípios
de
justiça
que
Rawls
apresentou.
Não
iriam
escolher
uma
sociedade
em
que,
por
exemplo,
um
certo
grupo
racial,
uma
certa
etnia
ou
um
dado
género
fossem
discriminados.
Porquê?
Porque,
não
sabendo
qual
vai
ser
a
sua
condição,
é
razoável
que
queiram
uma
sociedade
em
que
há
liberdade
igual.
Não
iriam
escolher
uma
sociedade
em
que
não
se
defende
a
igualdade
de
oportunidades
porque
poderiam
vir
a
pertencer
a
classes
desfavorecidas
no
acesso
às
melhores
profissões.
Não
iriam
escolher
uma
sociedade
em
que
os
mais
desfavorecidos
quer
em
dotes
naturais
quer
em
meios
económicos
seriam
a
bem
dizer
abandonados
à
sua
sorte
ou
ficariam
dependentes
da
compaixão
ou
boa
vontade
dos
mais
favorecidos.
Nesta
situação,
optaríamos
por
uma
sociedade
que
assegurasse
as
liberdades
básicas,
nos
desse
a
oportunidade
de
melhorar
a
nossa
condição
social
e
que
impedisse
um
fosso
gigantesco
entre
favorecidos
e
desfavorecidos.
13.
O
que
a
posição
original?
A
posição
original
é
uma
situação
imaginária
ou
hipotética
de
total
imparcialidade
–
as
pessoas
pensam
no
que
é
justo
e
não
simplesmente
no
que
é
pessoalmente
vantajoso
–
em
que
pessoas
racionais,
livres
e
iguais
criam
uma
sociedade
regida
por
princípios
de
justiça.
Para
que
tal
imparcialidade
se
verifique,
essas
pessoas
devem
estar
«cobertas»
por
um
«véu
de
ignorância».
14.
O
que
é
o
véu
de
ignorância?
O
«véu
de
ignorância»
é
o
desconhecimento
por
parte
de
cada
indivíduo
da
sua
condição
social
e
económica
no
momento
do
estabelecimento
do
contrato
social,
no
momento
em
que
dão
origem
a
uma
determinada
forma
de
sociedade.
55.
15.
Qual
é
a
vantagem
do
«véu
da
ignorância»?
Vai
possibilitar
que,
devido
ao
desconhecimento
da
sua
situação
social
e
económica,
os
indivíduos
exijam
uma
organização
da
sociedade
que
seja
dentro
dos
possíveis
a
mais
vantajosa
e
melhor
para
todos,
não
inferiorizando
qualquer
grupo
de
indivíduos.
Neste
sentido,
vão
exigir
que
a
sociedade
promova
os
valores
básicos
que
permitam
a
todos
ter
uma
vida
aceitável,
designadamente
a
mesma
liberdade
para
todos
e
o
mínimo
de
desigualdades
sociais
e
económicas.
16.
O
que
entende
Rawls
pelo
princípio
maximin?
O
princípio
maximin
é
uma
estratégia
de
decisão
que
pessoas
razoáveis
seguem,
numa
situação
de
incerteza
–
o
véu
de
ignorância.
É
a
estratégia
do
menor
mal.
São
preferíveis
princípios
de
justiça
que
estejam
na
base
de
uma
sociedade
em
que
o
pior
não
será
muito
inferior
a
uma
sociedade
em
que,
por
exemplo,
haja
muita
pobreza
e
muita
riqueza.
A
sociedade
preferível
é
aquela
em
que
a
pobreza
e
a
riqueza
sejam
moderadas.
Se
escolher
uma
sociedade
em
que
a
pobreza
extrema
convive
com
a
riqueza
extrema,
corro
o
risco
de
fazer
parte
do
grupo
de
pessoas
que
serão
extremamente
pobres.
17.
Explicite
uma
das
principais
críticas
que
se
faz
à
teoria
de
Rawls?
Uma
das
principais
críticas
a
Rawls
é
a
difícil
harmonização
entre
os
princípios
da
igual
liberdade
e
da
diferença.
Em
primeiro
lugar,
pode
haver
igual
liberdade
se
não
houver
igual
riqueza?
Quem
mais
bens
possui
não
tem
mais
liberdade?
Maior
poder
económico
não
significa
poder
fazer
mais
coisas,
sobretudo
influenciar
as
decisões
de
quem
governa
a
seu
favor?
Se
isto
for
verdade,
o
princípio
de
diferença,
admitindo
as
desigualdades
económicas,
restringe
indevidamente
o
princípio
de
igual
liberdade.
Em
segundo
lugar,
se
as
pessoas
têm
igual
liberdade
de
adquirir
bens
e
riqueza,
limitar
a
quantidade
de
bens
que
uma
pessoa
pode
adquirir
ou
receber
restringe
a
liberdade
de
56.
cada
indivíduo.
Neste
caso,
uma
correta
aplicação
do
princípio
da
liberdade
igual
negaria
o
princípio
de
diferença.
OS
PRINCÍPIOS
DA
JUSTIÇA
OU
DE
UMA
SOCIEDADE
JUSTA
Princípio
da
igual
liberdade
Princípio
da
igualdade
de
oportunidades
Princípio
da
diferença
Todos
temos
direito
a
conduzir
as
nossas
vidas
de
acordo
com
a
nossa
vontade.
Mas
a
minha
liberdade
tem
de
ser
compatível
com
a
dos
outros.
É
injusto
que
umas
pessoas
tenham
mais
liberdade
do
que
outras.
Por
isso,
cada
pessoa
deve
ter
um
máximo
de
liberdade
que
seja
compatível
com
idêntico
grau
de
liberdade
de
todos
os
outros.
O
princípio
da
igual
liberdade
para
todos
refere-‐se
a
liberdades
básicas
como
a
liberdade
de
voto,
de
associação,
de
religião,
de
expressão
e
a
direitos
como
o
direito
à
integridade
física,
à
propriedade
e
a
um
tratamento
legal
justo.
O
princípio
da
liberdade
igual
ou
do
direito
a
iguais
liberdades
básicas
é
o
mais
importante.
A
promoção
da
igualdade
de
oportunidades
e
a
redução
da
desigualdade
económica
não
são
legítimas
se
violarem
o
direito
à
igual
liberdade.
Muitas
pessoas
tiveram
a
sorte
de
encontrar
boas
condições
sociais
e
económicas
para
conquistarem
um
lugar
confortável
ou
de
destaque
na
sociedade.
Outras
são
desfavorecidas
ou
pouco
favorecidas
por
nascerem
em
meios
sociais
e
económicos
que
impedem
o
acesso
a
uma
razoável
ou
boa
posição
social.
O
princípio
da
igualdade
de
oportunidades
pretende
garantir
que
apenas
o
mérito
e
o
esforço
pessoal,
e
não
outros
fatores,
são
decisivos
para
alguém
realizar
as
suas
ambições
no
plano
social.
No
acesso
às
profissões
mais
valorizadas,
todos
os
cidadãos
devem,
à
partida,
estar
em
igualdade
de
condições.
É
injusto
que
muitos
membros
de
uma
sociedade
sejam
impedidos,
por
fatores
pelos
quais
não
são
responsáveis,
de
alcançar
os
seus
objetivos.
O
principal
obstáculo
é
a
desigualdade
económica,
ou
seja,
condições
económicas
desfavoráveis.
Devemos
tentar
corrigir
essa
desigualdade.
Como?
Os
que
tiveram
sorte
na
lotaria
natural
e
social
e
ascenderam
a
uma
boa
posição
social
e
económica
devem
contribuir
para
benefício
dos
que
não
foram
favorecidos.
Qual
o
meio?
Os
impostos,
que
permitem
indiretamente
assistir
e
subsidiar
quem
precisa
de
ajuda
para
tentar
melhorar
a
sua
condição
social.
Haverá
sempre
pessoas
em
melhor
situação
social
do
que
outras,
mas
a
todos
deve
ser
dada
a
oportunidade
de
melhorar
a
sua
vida.
O
princípio
da
diferença
defende
que
a
distribuição
da
riqueza
se
deve
fazer
de
forma
igualitária,
exceto
se
as
desigualdades
beneficiarem
os
menos
favorecidos
e
lhes
derem
a
oportunidade
de
melhorar
a
sua
situação.
É
injusta
a
sociedade
em
que
as
vantagens
dos
mais
favorecidos
não
são
benéficas
para
mais
ninguém.
57.
COMPARAÇÃO
ENTRE
RAWLS
E
NOZICK
Questões
Rawls
Nozick
O
que
é
uma
sociedade
justa?
É
uma
sociedade
que
não
põe
em
causa
as
liberdades
básicas
iguais
para
todos
nem
a
igualdade
de
oportunidades.
Para
que
isto
seja
possível,
a
desigualdade
económica
terá
de
ser
controlada
para
que
possa
reverter
também
a
favor
dos
mais
carenciados.
É
uma
sociedade
que
respeita
de
forma
absoluta
os
direitos
individuais
–
direito
à
liberdade
e
à
propriedade
do
que
se
recebe
e
adquire
–
e
permite
que
os
bens
de
que
sou
proprietário
legítimo
permaneçam
em
meu
poder,
dispondo
deles
conforme
entendo.
Uma
sociedade
justa
é
a
que
não
impõe
qualquer
limite
legal
aos
níveis
de
desigualdade
económica
nela
presentes.
Deve
o
Estado
ter
algum
papel
a
desempenhar
na
promoção
e
construção
de
uma
sociedade
justa?
Será
que
é
sua
função
legítima
corrigir
as
desigualdades
económicas
através
da
redistribuição
da
riqueza
que
a
sociedade
produz?
Sim.
O
Estado
tem
o
direito
e
o
dever
de
tirar
a
uns
para
dar
a
outros
ou,
por
outras
palavras,
de
forçar
alguns
a
contribuírem
para
a
melhoria
do
nível
de
vida
de
outros.
Não.
O
Estado
não
tem
o
direito
de
tirar
a
uns
para
dar
a
outros,
de
forçar
alguns
a
contribuírem
para
a
melhoria
do
nível
de
vida
de
outros.
A
redistribuição
da
riqueza
é
uma
violação
da
liberdade
individual.
Não
é
correto
que
sejamos
obrigados
pelo
Estado
a
contribuir
para
ajudar
as
pessoas
menos
favorecidas.
Se
deve
e
é
indispensável
que
tenha
esse
papel,
como
deve
proceder
para
realizar
a
justiça
social?
O
Estado
deve
promover
o
princípio
da
diferença
e
o
princípio
da
igualdade
de
oportunidades.
O
princípio
da
diferença
consiste
em
admitir
na
sociedade
algumas
desigualdades
económicas
e
sociais,
A
justiça
social
é
incompatível
com
a
redistribuição
da
riqueza,
seja
qual
for
o
critério,
por
parte
de
Estado.
Este
não
deve
interferir
na
vida
económica.
Deve
deixar
que
a
distribuição
da
riqueza
se
faça
de
acordo
com
a
sorte
e
o
mérito
58.
desde
que
essas
mesmas
desigualdades
beneficiar
os
mais
desfavorecidos.
O
princípio
da
igualdade
de
oportunidades
consiste
em
garantir
a
todos
os
indivíduos
as
mesmas
oportunidades
de
acesso
aos
vários
lugares
na
sociedade,
independentemente
de
ser
de
raça
branca
ou
negra,
rico
ou
pobre,
homem
ou
mulher.
Desde
que
os
indivíduos
possuam
as
mesmas
capacidades
e
competências,
têm
as
mesmas
possibilidades
de
acesso
a
um
emprego.
Estes
dois
princípios
implicam
que
o
direito
à
propriedade
não
é
absoluto.
Os
mais
ricos
devem
contribuir
para
beneficiar
todos
os
outros,
assegurando-‐lhes,
no
grau
máximo
possível,
um
nível
de
vida
com
um
mínimo
razoável
de
bens
básicos
(princípio
maximin).
individual.
Cada
indivíduo
é
titular
absoluto
do
que
ganha
e
adquire.
O
direito
à
propriedade
é
absoluto,
e
o
Estado
não
tem
o
direito
de
cobrar
impostos
para
assistir
os
desfavorecidos.
Essa
cobrança
é
uma
violação
desse
direito.
TEMA
9
Uma
das
críticas
à
perspetiva
religiosa:
Freud
e
a
religião
como
ilusão
prejudicial
Para
Freud,
a
religião
é
uma
ilusão
que
tem
as
suas
raízes
profundas
na
mente
humana.
Uma
das
experiências
fundamentais
do
ser
humano
é
a
sensação
de
59.
insegurança
e
a
necessidade
de
proteção
e
de
amparo.
A
religião
surge
como
mecanismo
de
defesa
perante
as
ameaças
da
natureza
e
a
dureza
das
relações
sociais.
Deus
será
assim
concebido
como
o
Protetor
supremo,
o
ser
todo-‐poderoso
que
alivia
a
angústia
e
o
medo
do
homem
perante
a
realidade,
que
consola
e
ampara.
Tal
como
o
pai
está
para
o
filho,
assim
Deus
está
para
o
homem.
Para
a
criança,
o
pai
é
um
ser
poderoso
(logo,
protetor)
e
exigente
(que
o
pode
castigar
e
punir).
A
sensação
de
impotência,
de
fragilidade
e
debilidade
que
leva
a
criança
a
sentir
a
necessidade
de
proteção
e
amparo
(satisfeita
pela
figura
paterna)
persiste
ao
longo
da
vida
e
conduz
o
homem
«a
forjar»
a
existência
de
um
pai
imortal
muito
mais
poderoso
(Deus).
A
religião
corresponde,
assim,
a
um
estádio
infantil
da
humanidade,
à
constante
necessidade
de
ter
um
pai
na
relação
com
o
qual
se
vive
um
sentimento
ambivalente:
amor
e
medo.
Nasce
dos
desejos
mais
intensos
do
ser
humano,
mas
não
passa
de
uma
ilusão,
de
uma
projeção
ilusória
da
situação
do
filho
perante
o
pai.
Recorre-‐se
a
ela
para
acalmar
a
angústia,
o
medo
perante
a
imensidade
desconcertante
do
universo
e
a
imprevisibilidade
da
vida.
A
religião
é
um
remédio
ilusório
para
as
dores
e
a
frustração
do
ser
humano.
Qual
o
futuro
desta
ilusão?
Poderá
prescindir-‐se
da
ilusão
religiosa?
Freud
afirma
que
é
dever
do
homem
aceitar
a
sua
dura
condição
e
enfrentar
a
realidade
sem
recorrer
a
consolações
celestes.
Mas
como
suportar
o
peso
da
vida
e
a
crueldade
da
realidade?
Através
de
uma
educação
«em
vista
da
realidade»,
que
não
fabrique
doentes
que
depois
precisem
do
narcótico
religioso
para
entorpecer
e
anestesiar
a
angústia
e
a
ansiedade.
Só
uma
educação
fundada
na
verdade
pode
encaminhar
o
homem
para
a
maturidade
e
superar
a
necessidade
da
religião.
Esta,
enquanto
ilusória
realização
do
desejo
de
ser
amado
e
protegido
perante
um
meio
hostil,
não
nos
ensina
a
enfrentar
a
realidade,
é
uma
fuga
para
um
além
imaginário,
uma
constante
e
sempre
frustrada
necessidade
de
paz
e
tranquilidade.
Por
isso
é
a
neurose
obsessiva
da
humanidade.
60.
TEMA
10
O
problema
da
existência
de
Deus
1.O
argumento
ontológico
de
Santo
Anselmo
«Portanto,
Senhor,
Tu
que
dás
o
entendimento
da
fé,
concede-‐me
que,
quanto
sabes
ser-‐me
conveniente,
entenda
que
existes
como
acreditamos
e
que
és
o
que
acreditamos
[seres].
E
na
verdade
acreditamos
que
Tu
és
algo
maior
do
que
o
qual
nada
pode
ser
pensado.
Acaso
não
existe
uma
tal
natureza
pois
o
insensato
disse
no
seu
coração:
«não
há
Deus»?
Mas
com
certeza
esse
mesmo
insensato,
quando
ouvir
isto
mesmo
que
digo,
algo
maior
do
que
o
qual
nada
pode
ser
pensado,
entende
o
que
ouve
e
o
que
entende
está
no
seu
intelecto
ainda
que
não
entenda
que
isso
exista.
Com
efeito,
uma
coisa
é
algo
estar
no
intelecto,
outra
é
entender
que
esse
algo
existe.
Com
efeito,
quando
o
pintor
concebe
previamente
o
que
vai
fazer,
tem
isso
mesmo
no
intelecto,
mas
ainda
não
entende
que
exista
o
que
não
fez.
Mas
quando
já
pintou,
não
só
o
tem
no
intelecto
como
entende
que
existe
aquilo
que
já
fez.
E,
de
facto,
aquilo
maior
do
que
o
qual
nada
pode
ser
pensado
não
pode
existir
apenas
no
intelecto.
Se
está
apenas
no
intelecto
pode
pensar-‐se
que
existe
na
realidade,
o
que
é
ser
maior.
Se,
portanto,
aquilo
maior
do
que
o
qual
nada
pode
ser
pensado
está
apenas
no
intelecto,
aquilo
mesmo
maior
do
que
o
qual
nada
pode
ser
pensado
é
aquilo
relativamente
ao
qual
pode
pensar-‐se
algo
maior.
Existe,
portanto,
sem
dúvida,
algo
maior
do
que
o
qual
nada
é
possível
pensar
não
apenas
no
intelecto
mas
também
na
realidade.»
Santo
Anselmo,
Proslogion
Explicitação
do
argumento
61.
1
–
Tenho
no
meu
entendimento
a
ideia
de
Deus
(como
mesmo
aqueles
que
negam
a
existência
de
Deus
têm
a
ideia
de
Deus
na
sua
mente,
então
todos
temos
no
nosso
entendimento
a
ideia
de
Deus).
2
–A
ideia
de
Deus
é
a
ideia
de
«alguma
coisa
maior
do
que
a
qual
nada
se
pode
pensar».
3
-‐
Aquilo
que
existe
na
mente
(entendimento)
e
na
realidade
é
maior
do
que
aquilo
que
existe
apenas
na
mente.
4
–
Se
Deus,
o
maior
ser
concebível)
existir
somente
no
entendimento
então
podemos
conceber
algo
maior
do
que
Deus
(Se
Deus
for
uma
simples
ideia,
algo
que
só
existe
na
nossa
mente,
então
tudo
o
que
existe
na
realidade
é
maior
do
que
Deus)
5
–
Ora
é
contraditório
dizer
que
há
algo
maior
do
que
o
ser
maior
do
que
o
qual
nada
se
pode
pensar.
6
-‐
Portanto,
«aquilo
maior
do
que
o
qual
nada
se
pode
pensar»
existe
tanto
na
mente
como
na
realidade,
ou
seja,
Deus
não
pode
não
existir
(existe
necessariamente).
COMENTÁRIO
O
argumento
é
dirigido
contra
pessoas
como
o
insensato
(o
ateu)
do
Salmo,
14,
1
da
Bíblia,
que
dizem
que
Deus
não
existe.
A
estratégia
de
Santo
Anselmo
consiste
em
mostrar
que
as
pessoas
que
negam
a
existência
de
Deus
na
realidade
(fora
da
mente)
não
podem
negar
que
ele
exista
nas
suas
mentes.
Mesmo
os
insensatos
compreendem
a
definição
que
é
dada
de
Deus
porque
negar
Deus
exige
que
se
compreenda
ou
tenha
a
ideia
daquilo
que
se
está
a
negar.
Assim
Deus
existe
pelo
menos
como
uma
ideia
na
nossa
mente
ou
no
nosso
entendimento,
isto
é
quer
na
mente
do
crente
quer
na
mente
do
ateu.
A
questão
é
saber
se
é
logicamente
admissível
dizer
Deus
só
existe
na
nossa
mente.
Anselmo
pede-‐nos
para
imaginar
que
sim
e
para
retirarmos
as
consequências
lógicas
de
uma
tal
afirmação.
Então
suponhamos
que
Deus,
«aquilo
maior
do
que
o
qual
nada
pode
ser
pensado»
tem
uma
mera
existência
mental.
Será
que
esta
afirmação
é
logicamente
compatível
com
a
ideia
de
que
não
podemos
conceber
nada
maior
ou
mais
perfeito
do
que
Deus?
Anselmo
conclui
que
não
porque
se
Deus
fosse
uma
simples
ideia
-‐
se
só
tivesse
existência
mental
-‐
poderíamos
pensar
em
algo
maior
do
que
Deus
(ou
em
um
Deus
ainda
maior).
Como
existir
na
realidade
é
superior
a
existir
só
no
pensamento
e
não
posso
conceber
um
ser
maior
do
que
Deus,
Deus
tem
de
existir
quer
no
pensamento
quer
na
realidade.
Críticas
1.O
argumento
assume
como
pressuposto
que
a
existência
é
um
predicado,
uma
propriedade
que
não
pode
faltar
a
um
ser
perfeito.
Immanuel
Kant
dirigiu
uma
célebre
crítica
a
esta
versão
do
“argumento
ontológico”.
Kant
interpreta
o
62.
argumento
do
seguinte
modo:
Deus
é
um
ser
absolutamente
perfeito.
Se
Deus
não
existisse
não
seria
perfeito
(faltar-‐lhe-‐ia
uma
perfeição
ou
propriedade
fundamental).
Logo,
Deus
tem
de
existir.
A
crítica
de
Kant:
A
existência
não
é
um
predicado
Os
predicados
são
geralmente
usados
para
definir
e
caracterizar
coisas.
Quando,
por
exemplo,
dizemos
«o
quadrado
é
a
figura
geométrica
com
quatro
lados
e
quatro
ângulos
iguais»
estamos
a
usar
os
predicados
«figura
geométrica»,
«quatro
lados
iguais»
e
«quatro
ângulos
iguais»
para
definir
quadrado.
Do
mesmo
modo,
quando
dizemos
que
Deus
é
omnipotente,
omnisciente,
etc.,
estamos
a
usar
os
predicados
«é
omnipotente»,
«é
omnisciente»,
etc,
para
definir
Deus.
Mas
será
a
existência
um
predicado?
Kant,
um
dos
grandes
críticos
do
argumento
ontológico,
diz
que
não.
Quando
digo
que
George
Bush
existe
não
estou,
segundo
Kant,
a
atribuir
um
predicado
ou
qualidade
a
esse
indivíduo
mas
simplesmente
a
dizer
que
um
sujeito
possuidor
de
certos
predicados
é
uma
realidade
efetiva
e
não
um
simples
conceito
na
minha
cabeça.
Anselmo
parte
do
pressuposto
de
que
a
existência
é
uma
propriedade
ou
predicado
que
uma
coisa
pode
ter
ou
não
ter.
Declara
que
ter
essa
propriedade
é
melhor
do
que
não
a
ter
e
conclui
que
Deus,
ser
maior
do
que
o
qual
nada
é
possível
(perfeito)
tem
de
possuir
esse
predicado
sob
pena
de
ser
imperfeito
e
inferior
a
outros
seres.
Segundo
Kant
todo
este
elaborado
raciocínio
perde
o
seu
carácter
persuasivo
porque
a
existência
não
é
um
predicado
mas
a
condição
da
realidade
efetiva
de
qualquer
predicado.
63.
2.O
argumento
cosmológico
de
São
Tomás
de
Aquino
A
existência
de
Deus
pode
ser
provada
por
cinco
vias.
A
segunda
via
resulta
da
natureza
da
causa
eficiente.
Vemos
que
no
mundo
dos
sentidos
existe
uma
ordem
das
causas
eficientes.
Não
há
nenhum
caso
conhecido
(nem,
na
verdade,
é
possível)
no
qual
se
verifique
que
uma
coisa
é
a
causa
eficiente
de
si
mesma;
pois,
desse
modo,
seria
anterior
a
si
mesma,
o
que
é
impossível.
Ora,
não
é
possível
regredir
infinitamente
nas
causas
eficientes,
porque
em
todas
as
causas
eficientes
ordenadas,
a
primeira
é
a
causa
da
causa
intermédia,
e
esta,
quer
seja
várias
ou
apenas
uma,
é
a
causa
da
causa
última.
Ora,
retirar
a
causa
é
retirar
o
efeito.
Portanto,
se
não
existisse
uma
causa
primeira
entre
as
causas
eficientes,
não
existiria
uma
causa
última
nem
nenhuma
causa
intermédia.
Mas
se
for
possível
regredir
infinitamente
nas
causas
eficientes,
não
existirá
uma
primeira
causa
eficiente,
nem
existirá
um
último
efeito,
nem
quaisquer
causas
eficientes
intermédias;
e
tudo
isto
é
completamente
falso.
Portanto,
é
necessário
admitir
uma
primeira
causa
eficiente,
à
qual
todos
dão
o
nome
de
Deus.
São
Tomás
de
Aquino,
Suma
Teológica,
Parte
a,
2,
3.
Explicitação
1
–
Algumas
coisas
são
causadas
2
–
Nenhuma
coisa
é
causa
de
si
mesma.
3
–
Tudo
o
que
é
causado
é
causado
por
outra
coisa,
por
algo
diferente
de
si.
4
-‐
Não
pode
haver
uma
regressão
infinita
nas
cadeias
de
causas.
5
–
Se
não
pode
haver
uma
regressão
infinita
nas
cadeias
de
causas,
então
tem
de
existir
uma
causa
primeira
que
tudo
causa
e
por
nada
é
causada
6
–
A
essa
causa
primeira
dá-‐se
o
nome
de
Deus.
7
–
Logo,
Deus
existe.
Cada
coisa
na
natureza
tem
uma
causa,
esta
por
sua
vez
tem
outra
e
esta
outra
ainda,
mas
temos
de
parar
em
algum
lado
para
que
realmente
encontremos
a
explicação
da
coisa
de
que
partimos
e
também
para
que
faça
sentido
falar
de
uma
série
de
causas.
Na
verdade,
se
não
houver
uma
causa
primeira
(Deus)
não
há
segunda,
terceira
ou
quarta.
Comentário
64.
O
argumento
não
parte
da
premissa
de
que
tudo
o
que
existe
tem
uma
causa.
Isso
evita
que
faça
sentido
perguntar
no
final
do
argumento
se
Deus
também
não
tem
uma
causa.
A
segunda
e
terceira
premissas
afirmam
que
na
natureza
um
acontecimento
é
causado
por
outro
que
por
sua
vez
depende
de
outro
e
assim
sucessivamente.
O
seu
nascimento
não
foi
causado
por
si,
nem
o
do
seu
pai
ou
da
sua
mãe
foi
causado
por
eles,
etc.
Mas
se
A
é
causado
por
B,
B
por
C,
C
por
D,
D
por
E,
e
assim
sucessivamente,
será
que
a
cadeia
causal
é
infinita?
São
Tomás
não
o
admite
e
nega
tal
hipótese
mediante
um
argumento
intermédio
que
é
uma
redução
ou
refutação
ao
absurdo.
Eis
o
argumento:
-‐
Suponhamos
que
há
uma
cadeia
infinita
de
causas
ou
uma
regressão
infinita
na
cadeia
de
causas
(popularizada
na
questão
do
ovo
e
da
galinha).
Que
consequências
tem
esta
hipótese?
São
logicamente
aceitáveis?
Se
as
cadeias
causais
(as
ligações
causa
-‐efeito)
regridem
infinitamente
não
há
um
primeiro
membro
da
cadeia
causal
e
faltando
um
primeiro
membro
também
falta
uma
primeira
causa.
Mas
faltando
uma
primeira
causa
falta
também
um
primeiro
efeito
e
outros
efeitos
intermédios.
Como
os
efeitos
intermédios
são,
por
sua
vez,
causa
dos
efeitos
mais
próximos
e
recentes,
segue-‐se
que
numa
cadeia
causal
sem
primeiro
membro
não
há
causas
nem
efeitos,
ou
seja,
não
há
realmente
membro
nenhum.
Se
as
ligações
causa
-‐
efeito
regredissem
infinitamente
nada
haveria
no
início
para
desencadear
a
sua
sequência.
Como
isso
é
absurdo
prova-‐se
que
na
natureza
as
cadeias
causais
não
podem
regredir
infinitamente.
Assim
sendo,
tem
de
haver
uma
causa
primeira
que
esteja
na
origem
de
toda
a
sequência
causal.
A
essa
causa
primeira
e
necessária
dá-‐se
o
nome
de
Deus.
Logo
Deus
existe.
Críticas
1.Não
se
prova
a
existência
de
um
Deus
que
tenha
as
características
do
deus
das
religiões
monoteístas.
A
primeira
causa
pode
ter
sido
não
Deus
mas
um
conjunto
de
agentes
ou
de
deuses.
Isto
invalida
a
conclusão
de
que
o
Deus
monoteísta
seria
a
origem
do
acontecimento
a
que
chamamos
causa
primeira.
2.O
argumento
não
é
sólido
porque
podemos
pensar
que
o
universo
existe
desde
sempre
e
que
não
teve
um
início.
O
processo
de
geração
e
de
destruição
pode
ser
infinito.
3.Dizer
que
todos
os
acontecimentos
naturais
têm
uma
causa
não
implica
dizer
que
há
uma
só
causa
de
tudo.
Se
todas
as
coisas
naturais
têm
uma
só
causa
-‐
que
não
está
na
natureza,
que
é
sobrenatural
-‐
podemos
65.
objectar
que
se
todos
os
filhos
têm
uma
mãe
então
há
uma
mãe
de
todos
os
que
são
filhos,
o
que
é
absurdo.
4.Afirmar
que
cada
um
dos
acontecimentos
ou
fenómenos
naturais
deriva
de
um
acontecimento
–
o
poder
causal
de
um
ser
sobrenatural
–
que
está
fora
do
mundo
natural
não
implica
necessariamente
afirmar
que
há
um
só
acontecimento
sobrenatural
do
qual
derivam
todos
os
fenómenos
naturais.
Dizer
que
todas
as
pessoas
nascem
num
determinado
dia
não
implica
dizer
que
há
um
só
dia
em
que
todas
as
pessoas
nasceram.
5.Será
preciso
percorrer
toda
a
série
de
cadeias
causais
e
culminar
numa
eventual
causa
primeira
para
explicar
um
acontecimento
mais
ou
menos
recente?
Parece
que
não.
Se
quisermos
explicar
porque
Hitler
invadiu
a
Polónia
em
1939
podemos
referir-‐nos
à
sua
ambição
de
encontrar
espaço
vital
para
os
alemães
no
leste
da
Europa,
à
sua
vontade
de
poder
e
ao
seu
ódio
pelos
polacos.
Se
alguém
disser
que
isto
não
explica
porque
invadiu
a
Polónia
então
temos
de
referir-‐nos
às
condições
económicas
e
políticas
da
Alemanha
e
da
Áustria
após
a
primeira
guerra
mundial,
procurando
mostrar
como
essa
situação
contribuiu
para
a
ascensão
de
Hitler
ao
poder
e
á
sua
aventura
trágica.
Se
alguém
dissesse
que
ainda
não
é
suficiente,
teríamos
de
referir
como
era
a
Alemanha
antes
da
primeira
guerra
mundial
e
mostrar
como
essa
guerra
contribuiu
para
que
Hitler
ascendesse
ao
poder
e
anos
mais
tarde
quisesse
dominar
a
Europa.
Mas
em
algum
ponto
teríamos
de
parar
e
encontrar
uma
explicação.
Não
precisamos
de
percorrer
toda
a
história
do
mundo
em
sentido
regressivo
para
encontrar
as
causas
da
invasão
da
Polónia
pelos
exércitos
de
Hitler
em
1939.
6.
Não
será
o
BIg
Bang
um
ponto
de
paragem
apropriado?
Por
que
não
parar
no
mundo
material?
66.
3.
O
argumento
teleológico
ou
do
desígnio
Suponha
que
ao
atravessar
uma
mata
tropeço
numa
pedra
e
me
perguntam
como
foi
ela
ali
parar.
Poderia
talvez
responder
que,
tanto
quanto
me
é
dado
a
saber,
a
pedra
sempre
ali
esteve;
e
talvez
não
fosse
muito
fácil
mostrar
o
absurdo
desta
resposta.
Mas
suponha
que
eu
tinha
encontrado
um
relógio
no
chão
e
procurava
saber
como
podia
ele
estar
naquele
lugar.
Muito
dificilmente
me
poderia
ocorrer
a
resposta
que
tinha
dado
antes
—
que,
tanto
quanto
me
era
dado
saber,
o
relógio
poderia
sempre
ali
ter
estado.
Contudo,
por
que
razão
esta
resposta,
que
serviu
para
a
pedra,
não
serve
para
o
relógio?
Por
que
razão
não
é
esta
resposta
tão
admissível
no
segundo
caso
como
no
primeiro?
Por
esta
razão
e
por
nenhuma
outra:
a
saber,
quando
inspecionamos
o
relógio,
vemos
(o
que
não
poderia
acontecer
no
caso
da
pedra)
que
as
suas
diversas
partes
estão
forjadas
e
associadas
com
um
propósito;
por
exemplo,
vemos
que
as
suas
diversas
partes
estão
fabricadas
e
ajustadas
de
modo
a
produzir
movimento
e
que
esse
movimento
está
regulado
de
modo
a
assinalar
a
hora
do
dia;
e
vemos
que
se
as
suas
diversas
partes
tivessem
uma
forma
diferente
da
que
têm,
se
tivessem
um
tamanho
diferente
do
que
têm
ou
tivessem
sido
colocadas
de
forma
diferente
daquela
em
que
estão
colocadas
ou
se
estivessem
colocadas
segundo
uma
outra
ordem
qualquer,
a
máquina
não
produziria
nenhum
movimento
ou
não
produziria
nenhum
movimento
que
servisse
para
o
que
este
serve.
(...)
Tendo
este
mecanismo
sido
observado
(...),
pensamos
que
a
inferência
é
inevitável:
o
relógio
teve
de
ter
um
criador;
teve
de
existir
num
tempo
e
num
ou
noutro
espaço,
um
artífice
ou
artífices
que
o
fabricaram
para
o
propósito
que
vemos
ter
agora
e
que
compreenderam
a
sua
construção
e
projetaram
o
seu
uso.
(...)
Pois
todo
o
sinal
de
invenção,
toda
a
manifestação
de
desígnio,
que
existia
no
relógio,
existe
nas
obras
da
natureza,
com
a
diferença
de
que
na
natureza
são
mais,
maiores
e
num
grau
tal
que
excede
toda
a
computação.
Quero
dizer
que
os
artefactos
da
natureza
ultrapassam
os
artefactos
da
arte
em
complexidade,
em
subtileza
e
em
curiosidade
do
mecanismo;
e,
se
possível,
ainda
vão
mais
além
deles
em
número
e
variedade;
e,
no
entanto,
num
grande
número
de
casos
não
são
menos
claramente
mecânicos,
não
são
menos
claramente
artefactos,
não
são
menos
claramente
adequados
ao
seu
fim
ou
menos
claramente
adaptados
à
sua
função
do
que
as
produções
mais
perfeitas
do
engenho
humano.
(...)
Em
suma,
após
todos
os
esquemas
e
lutas
de
uma
filosofia
relutante,
temos
necessariamente
de
recorrer
a
uma
Deidade.
Os
sinais
de
desígnio
são
demasiado
fortes
para
serem
ignorados.
O
desígnio
tem
de
ter
um
projetista.
Esse
projetista
tem
de
ser
uma
pessoa.
Essa
pessoa
é
DEUS.
William
Paley,
Teologia
Natural,
1802,
Cap.
1,
3
e
27
Explicitação
67.
Primeira
premissa
-‐
Se
abrirmos
um
relógio
e
inspecionarmos
o
modo
como
todas
as
peças
do
mecanismo
trabalham
conjunta
e
harmoniosamente,
compreenderemos
que
o
relógio
teve
de
ser
criado
por
alguém
inteligente,
o
relojoeiro
que
o
fabricou.
Segunda
premissa
-‐
O
universo
e
os
organismos
vivos
são
muito
semelhantes
aos
relógios,
isto
é,
também
revelam
complexidade
e
organização
e
harmonia
(desígnio).
Conclusão
-‐
Portanto,
também
o
universo
e
os
organismos
vivos
têm
um
criador
inteligente,
que
é
Deus.
Comentário
O
argumento
do
desígnio
tal
como
o
argumento
cosmológico
parte
da
observação
de
dados
empíricos,
de
factos
do
mundo.
No
entanto,
quanto
à
sua
estrutura
há
uma
diferença
importante
em
relação
ao
argumento
cosmológico.
Este
é
um
argumento
de
forma
dedutiva,
ao
passo
que
o
argumento
do
desígnio
é
um
argumento
analógico,
não
–
dedutivo.
Por
isso
mesmo
a
verdade
da
sua
conclusão
não
é
necessária
mas
sim
provável.
O
que
ele
prova
no
caso
de
ser
um
bom
argumento
é
a
forte
probabilidade
de
Deus
existir.
O
argumento
baseia-‐se
numa
analogia
entre
a
natureza
e
um
relógio
(compara
a
natureza,
o
universo,
a
um
relógio).
Um
relógio
é
um
objecto
que
foi
concebido
com
um
determinado
propósito
ou
desígnio,
isto
é,
cumpre
uma
determinada
finalidade
ou
fim
(“telos”
em
grego
significa
fim;
daí
a
designação
de
teleológico
dada
ao
argumento).
Ora,
a
natureza
é
como
um
relógio.
Tal
como
as
peças
do
relógio
formam
um
mecanismo
que
funciona
harmoniosamente
(cada
peça
cumpre
a
função
que
lhe
está
destinada
no
conjunto)
porque
não
foram
colocadas
ao
acaso,
também
o
mundo
natural
revela,
pela
harmonia
que
reina
entre
as
diversas
partes,
que
não
foi
obra
do
acaso
ou
da
união
fortuita
dessas
partes
(Não
é
o
resultado
de
causas
puramente
físicas).
Cada
coisa
na
natureza,
analogamente
às
peças
do
relógio,
cumpre
uma
função.
Mesmo
que
disso
não
se
possa
aperceber,
está
harmoniosamente
adaptada
àquilo
para
que
aparentemente
foi
feita.
Cada
peça
do
todo
que
é
a
natureza
ocupa
um
lugar
previamente
definido
dentro
do
conjunto.
Assim
sendo,
tal
como
não
há
relógio
sem
relojoeiro,
não
há
natureza
ou
universo
sem
um
Criador,
ser
superiormente
inteligente
que
pôs
a
natureza
a
funcionar
como
se
fosse
um
relógio.
Esse
Criador,
esse
grande
Relojoeiro,
é
Deus.
O
argumento
de
Paley
compara
-‐
estabelece
uma
analogia
–
entre
um
relógio
e
as
coisas
e
seres
vivos
do
universo
para
concluir
que
se,
devido
a
certas
características,
o
primeiro
tem
um
criador
inteligente
o
universo
devido
a
características
semelhantes,
também
foi
obra
de
um
ser
inteligente.
Críticas
1.Fraca
analogia
–
Um
relógio
de
pulso
e
um
relógio
de
bolso
são
suficientemente
semelhantes
para
supormos
que
foram
concebidos
por
um
mesmo
relojoeiro.
Mas
os
objetos
naturais
e
os
artificiais
não
são
significativamente
semelhantes.
A
analogia
entre
o
universo
natural
e
um
relógio
é
demasiado
fraca
para
68.
que
concluamos
que
tal
como
um
relógio
é
obra
de
um
ser
inteligente
que
o
destinou
a
uma
função,
o
universo
é
obra
de
um
Ser
Inteligente
–
de
um
«Relojoeiro
universal»
-‐
que
o
dotou
de
um
propósito
e
de
um
conjunto
de
funções
pré
–
estabelecidas.
2.
Não
justifica
a
existência
de
um
único
Deus
nem
de
um
Deus
omnipotente,
omnisciente
e
bom
tal
como
é
descrito
pelas
religiões
monoteístas
–
Mesmo
que
admitíssemos
que
a
analogia
é
forte,
o
argumento
só
provaria
a
existência
de
um
Ser
inteligente
que
poderia
muito
bem
não
ser
o
Deus
das
religiões
monoteístas.
Por
outro
lado,
o
argumento
poderia
chegar
sem
qualquer
incoerência
lógica
à
conclusão
de
que
a
complexidade
e
subtil
ajustamento
e
harmonia
do
funcionamento
das
diversas
partes
do
universo
é
obra
não
de
um
projetista
mas
sim
de
vários
o
que
poderia
conduzir
–
nos
ao
politeísmo.
3.
A
complexidade
dos
organismos
vivos
é
para
Paley
superior
à
dos
objetos
fabricados
pelos
seres
humanos
mas
isso
não
implica
necessariamente
que
tenha
de
ser
explicada
por
uma
causa
sobrenatural
–
Deus.
Para
Paley
a
beleza
de
uma
paisagem
ou
a
formação
dos
órgãos
dos
seres
vivos
(sobretudo
do
olho
que
associa
harmoniosamente
um
aparelho
óptico
e
um
aparelho
nervoso)
são
exemplos
dificilmente
desmentíveis
de
finalidade
ou
desígnio
na
natureza
(de
que
as
coisas
na
natureza
foram
feitas
para
um
determinado
fim,
isto
é,
segundo
um
plano
que
atribui
a
cada
uma
a
função
a
cumprir).
Considera
extremamente
improvável
que
a
harmonia
natural
se
deva
ao
encontro
acidental
de
causas
puramente
naturais.
Contudo,
na
sequência
da
teoria
de
Darwin,
a
biologia
atual
afirma
que
a
surpreendente
harmonia
e
complexidade
dos
seres
vivos
pode
ser
explicada
através
de
causas
simplesmente
naturais,
sem
pressupor
um
desígnio
inteligente
e
sobrenatural.
Essa
complexidade
dos
organismos
é
o
resultado
de
uma
longa
evolução
regida
pela
capacidade
de
adaptação
dos
indivíduos
ao
meio
e
à
transmissão
das
características
com
maior
valor
adaptativo
por
parte
dos
mais
aptos
e
fortes
na
luta
pela
sobrevivência.
A
teoria
de
Darwin
enfraquece,
de
facto,
a
força
do
Argumento
do
Desígnio,
uma
vez
que
explica
os
mesmos
efeitos
sem
mencionar
Deus
como
causa.
A
existência
desta
teoria
acerca
do
mecanismo
de
adaptação
biológica
impede
o
Argumento
do
Desígnio
de
constituir
uma
demonstração
conclusiva
da
existência
de
Deus».
4.O
ARGUMENTO
MORAL
A
felicidade
é
o
estado
no
mundo
de
um
ser
racional
para
o
qual,
na
totalidade
da
sua
existência,
tudo
ocorre
segundo
o
seu
desejo
e
a
sua
vontade
e
funda-‐se,
pois,
na
harmonia
da
natureza
com
o
fim
integral
desse
ser
e
igualmente
com
o
princípio
determinante
essencial
da
sua
vontade.
Ora,
a
lei
moral,
enquanto
lei
da
liberdade,
ordena
por
princípios
determinantes
que
devem
ser
totalmente
independentes
da
natureza
e
da
sua
harmonia
com
a
nossa
faculdade
de
desejar
(como
móbeis);
mas
o
ser
racional
agente
no
mundo
não
é,
contudo,
simultaneamente
causa
do
mundo
e
da
própria
natureza.
Portanto,
não
existe
na
lei
moral
a
menor
razão
para
uma
conexão
necessária
entre
a
moralidade
e
a
felicidade
a
ela
proporcionada
de
um
ser
que,
fazendo
parte
do
mundo
e,
portanto,
dele
dependendo,
não
pode
por
isso
mesmo
ser
pela
sua
vontade
causa
desta
natureza
e
fazê-‐la
por
suas
próprias
forças
coadunar-‐se
inteiramente
—
o
que
concerne
à
sua
felicidade
—
com
os
seus
princípios
práticos.
No
entanto,
no
problema
prático
da
razão
pura,
isto
é,
na
aplicação
necessária
ao
soberano
bem,
postula-‐se
como
necessária
uma
tal
conexão:
devemos
procurar
fomentar
o
soberano
bem
(o
qual,
portanto,
deve
ser
possível).
Postula-‐se
assim
igualmente
a
existência
de
uma
causa
da
natureza
no
seu
conjunto,
distinta
da
69.
natureza,
a
qual
contém
o
princípio
desta
conexão,
a
saber,
da
concordância
exata
da
felicidade
e
da
moralidade.
Mas
esta
causa
suprema
deve
conter
o
princípio
da
concordância
da
natureza
não
só
com
uma
lei
da
vontade
dos
seres
racionais,
mas
também
com
a
representação
desta
lei,
na
medida
em
que
eles
a
propõem
a
si
como
princípio
determinante
supremo
da
vontade,
por
conseguinte,
não
apenas
com
os
costumes
segundo
a
forma,
mas
também
com
a
sua
moralidade
enquanto
princípio
determinante
seu,
isto
é,
com
a
sua
intenção
moral.
Por
consequência,
o
soberano
bem
só
é
possível
no
mundo
enquanto
se
admite
uma
causa
suprema
da
natureza
que
tem
uma
causalidade
conforme
à
disposição
moral.
Ora,
um
ser
que
é
capaz
de
acções
segundo
a
representação
das
leis
é
uma
inteligência
(ser
racional)
e
a
causalidade
de
um
tal
ser,
segundo
esta
representação
das
leis,
é
a
sua
vontade.
Assim,
a
causa
suprema
da
natureza,
enquanto
ela
se
deve
pressupor
para
o
soberano
bem,
é
um
ser
que,
pelo
entendimento
e
vontade,
é
a
causa
(por
conseguinte,
o
autor)
da
natureza,
isto
é,
Deus.
Pelo
que,
o
postulado
da
possibilidade
do
soberano
bem
derivado
(do
melhor
mundo)
é
ao
mesmo
tempo
o
postulado
da
realidade
de
um
soberano
bem
primordial,
isto
é,
da
existência
de
Deus.
Ora,
era
para
nós
um
dever
fomentar
o
soberano
bem,
por
conseguinte,
não
só
um
direito,
mas
também
uma
necessidade
conexa
como
exigência
ao
dever,
de
pressupor
a
possibilidade
deste
soberano
bem,
o
qual,
uma
vez
que
só
tem
lugar
sob
a
condição
da
existência
de
Deus,
liga
indissoluvelmente
a
pressuposição
do
mesmo
com
o
dever,
quer
dizer,
é
moralmente
necessário
admitir
a
existência
de
Deus.
Immanuel
Kant,
Crítica
da
Razão
Prática,
pp.
143-‐144
EXPLICITAÇÃO
1.Quem
se
esforça
por
ser
moralmente
perfeito
(o
virtuoso)
não
merece
uma
recompensa.
2.
A
recompensa
adequada
é
a
felicidade
moral,
a
felicidade
devida
ao
mérito
moral.
3.
A
felicidade
é
um
estado
de
completo
acordo
entre
os
acontecimentos
do
mundo
e
a
nossa
vontade.
4.
Não
está
em
nosso
poder
realizar
tal
acordo.
Não
podemos
dominar
e
governar
o
mundo
de
modo
a
que
este
corresponda
totalmente
aos
nossos
desejos
porque,
pensa
Kant,
para
tal
teríamos
de
ser
os
seus
criadores
ou
autores.
5.
Sermos
dignos
da
felicidade
mas
não
podermos
ser
felizes
é
moralmente
injusto.
6.Só
quem
criou
o
mundo
pode
estabelecer
essa
harmonia
completa
e
permanente
entre
a
virtude
e
a
felicidade,
ou
seja,
dar
a
quem
se
esforça
por
ser
moralmente
perfeito
a
felicidade
adequada
ao
seu
sentido
do
dever.
7.
A
esse
criador
omnipotente
e
moralmente
perfeito
chamamos
Deus.
8.
Deus
tem
de
existir
para
que
seja
possível
esperar
que
a
virtude
será
recompensada.
Deus
tem
de
existir
para
que
a
esperança
na
recompensa
legítima
–
a
felicidade
–
tenha
fundamento.
UM
ARGUMENTO
CONTRA
A
EXISTÊNCIA
DE
DEUS:
O
ARGUMENTO
BASEADO
NO
PROBLEMA
DO
MAL
MAL
NATURAL,
MAL
MORAL
E
MAL
DESNECESSÁRIO
70.
MAL
NATURAL
MAL
MORAL
MAL
DESNECESSÁRIO
O
mal
natural
é
o
sofrimento
que
é
causado
pela
natureza
–
catástrofes
como
tsunamis
e
terramotos,
doenças,
epidemias,
etc.
O
mal
moral
é
o
sofrimento
e
a
dor
que
os
seres
humanos
infligem
uns
aos
outros
(guerras,
assassínios,
violência
gratuita,
discriminação,
etc.).
Um
mal
necessário
é
algo
exigido
para
evitar
ou
lutar
contra
um
mal
maior
ou
para
produzir
um
bem
maior.
Certos
tratamentos
médicos
causam
sofrimento
mas
são
necessários
para
evitar
a
morte
ou
recuperar
e
melhorar
a
saúde.
O
sofrimento,
a
dor
e
a
injustiça
são
necessários
se,
e
só
se
houver
um
bem
que
sem
eles
não
aconteceria.
Um
mal
desnecessário
é
o
que
não
evita
um
mal
maior
nem
promove
um
bem
maior.
O
sofrimento
e
a
dor
são
desnecessários
quando
não
contribuem
para
nada
melhor
ou
nada
de
bom.
Tendemos
a
considerar
que
os
males
necessários
são
moralmente
justificáveis
e
que
os
males
desnecessários
não
têm
justificação
moral.
O
ARGUMENTO
CONTRA
A
EXISTÊNCIA
DE
DEUS
BASEADO
NA
EXISTÊNCIA
DE
MAL
DESNECESSÁRIO
1
–
Se
Deus
existisse
(Se
existisse
um
ser
todo-‐poderoso,
omnisciente
e
perfeitamente
bom)
então
não
haveria
mal
desnecessário
no
mundo
2
–
Há
mal
desnecessário
no
mundo.
3
–
Logo,
Deus
não
existe.
COMENTÁRIO
Para
negar
que
o
argumento
seja
aceitável,
os
defensores
da
existência
de
Deus
têm
de
mostrar
que
há
razões
plausíveis
para
considerar
que
todo
o
mal
que
existe
no
mundo
é
necessário.
Para
defender
que
o
argumento
é
plausível,
os
que
negam
a
existência
de
Deus
têm
de
mostrar
que
há
boas
razões
para
acreditar
que
pelo
menos
algum
mal
existente
no
mundo
é
desnecessário.
Vários
defensores
do
argumento
afirmam
que
é
evidente
haver
mal
desnecessário
no
mundo
e
dão
como
exemplos
o
genocídio
de
Auschwitz
e
no
Ruanda
argumentando
que
seria
o
cúmulo
do
cinismo
e
moralmente
inaceitável
afirmar
desses
imensos
sofrimentos
resultou
algum
bem.
71.
UM
CONTRA
–
ARGUMENTO:
POR
QUE
RAZÃO
UM
SER
OMNIPOTENTE
PERMITE
A
EXISTÊNCIA
DO
MAL
Muitos
teístas
afirmam
que
Deus
deve
permitir
e
tolerar
mesmo
o
mal
desnecessário
de
modo
a
proteger
e
respeitar
a
liberdade
humana.
Segundo
o
seu
argumento,
Deus
escolheu
criar
um
mundo
no
qual
as
criaturas
humanas
podem
realizar
escolhas
livres.
Ora,
ter
livre-‐arbítrio
significa
que
somos
capazes
de
fazer
boas
ou
más
escolhas.
Criando
agentes
livres,
Deus
correu
um
risco.
Não
podia
necessariamente
garantir
que
escolheríamos
o
bem
em
vez
do
mal.
Não
é
logicamente
consistente
dizer
que
Deus
poderia
ter-‐nos
criado
livres
–
com
liberdade
de
escolha
-‐
e
ao
mesmo
tempo
incapazes
de
fazer
coisas
más.
Duas
proposições
como
«Os
seres
humanos
têm
liberdade
de
escolha»
e
«Os
seres
humanos
estão
programados
para
fazer
só
o
bem»
não
são
compatíveis.
Portanto
o
resultado
da
escolha
de
Deus
ao
criar
um
mundo
em
que
há
seres
livres
e
não
meros
robôs
é
este:
Vivemos
num
mundo
em
que
há
pessoas
que
escolhem
agir
de
forma
virtuosa,
boa,
solidária
e
pessoas
que
escolhem
que
escolhem
agir
de
forma
destrutiva,
odiosa,
imoral
e
maldosa.
Se
não
houvesse
mal
no
mundo
então
não
existiria
livre
–
arbítrio.
A
liberdade
consiste
em
fazer
boas
e
más
escolhas.
Das
nossas
más
escolhas
resulta
o
mal.
Deus
deu
–
nos
a
liberdade
da
qual
muitas
vezes
deriva
o
mal
para
que
tenhamos
valor
e
dignidade
moral
quando
essa
liberdade
opta
pelo
bem.
Deus
não
quer
nem
causa
o
mal.
Logo,
a
existência
do
mal
é
compatível
com
a
existência
de
um
ser
omnipotente
e
benevolente.
DIFICULDADES
DESTA
FORMA
DE
DEFENDER
DEUS
1.Esta
defesa
apresenta
uma
imagem
de
Deus
desinteressado
dos
assuntos
do
mundo,
indiferente.
Ora
um
aspecto
central
da
concepção
teísta
de
Deus
–
a
que
é
própria
das
religiões
monoteístas
-‐
é
a
ideia
de
que
Deus
intervêm
no
curso
do
mundo.
Não
poderia
Deus
ter
evitado
com
a
sua
intervenção
anomalias
morais
como
Hitler,
Estaline
e
Pol
–
Pot
que
chacinaram
milhões
de
seres
humanos?
Não
poderia
Deus
permitir
más
escolhas
aos
seres
humanos
mas
evitar
as
suas
más
consequências?
2.Só
se
deve
permitir
o
mal
em
nome
de
um
bem
maior
mas
há
males
cuja
gravidade
ultrapassa
qualquer
bem.
De
modo
a
permitir
que
agentes
livres
como
nós
existam
Deus
tem
de
permitir
que
existam
os
maus
resultados
do
uso
dessa
liberdade.
Não
é
profundamente
cínico
dizer
que
Deus
poderia
ter
evitado
os
males
terríveis
e
os
horrores
da
história
tais
como
Hitler,
Estaline,
a
escravatura,
etc.,
mas
o
preço
disso
seria
excluir
os
grandes
momentos
da
história
humana
tais
como
Mozart,
Bach,
Leonardo
da
Vinci,
Gandhi,
Einstein,
Confúcio,
Buda,
e
muitos
outros?
3.Mesmo
que
o
mal
moral
não
fosse
incompatível
com
a
existência
de
Deus
e
mesmo
que
os
seres
humanos
escolhessem
sempre
fazer
o
bem
haveria
ainda
o
problema
do
mal
natural.
A
DEFESA
DE
DEUS
MEDIANTE
O
LIVRE
-‐
ARBÍTRIO
72.
Mesmo
que
o
valor
que
atribuímos
à
posse
de
livre
–
arbítrio
seja
tão
importante
ao
ponto
de
admitirmos
o
mal
moral
resta
um
problema:
que
sentido
atribuir
ao
mal
natural?
A
chamada
«defesa
do
livre
–
arbítrio»
não
resolve
o
problema
do
mal
desnecessário
porque
o
desloca
do
plano
moral
para
o
plano
natural.
Não
se
consegue
perceber
que
bem
maior
advém
do
sofrimento
de
quem
tem
cancro,
de
quem
sofre
terríveis
deformações
genéticas,
das
razias
que
os
terramotos,
os
tornados
e
os
furacões
causam?
Ilibaremos
Deus
se
dissermos
que
tudo
resulta
do
pecado
original
cometido
por
Adão
e
Eva?
Ou
dizendo
que
é
acção
do
Diabo?
Neste
caso
não
se
põe
em
causa
a
omnipotência
de
Deus?
E
não
é
sinónimo
de
gratuita
crueldade
que
paguemos
pelos
pecados
de
antepassados
imensamente
longínquos
e
cuja
existência
histórica
é
mais
do
que
duvidosa?
E
fará
sentido
sermos
dotados
de
livre
–
arbítrio,
o
que
ganhamos
com
isso
se
somos
julgados
pelos
atos
de
antepassados
muito
remotos?
TEMA
11
LÓGICA
ARISTOTÉLICA
SILOGISMO
CATEGÓRICO
PROPOSIÇÕES
TÍPICAS
DO
SILOGISMO
CATEGÓRICO
PM
–
Todos
os
portugueses
são
europeus.
Pm
–
Todos
os
alentejanos
são
portugueses.
C
–
Logo,
todos
os
alentejanos
são
europeus.
Termo
médio
–
portugueses
(termo
das
duas
premissas).
Termo
maior
–
europeus
(predicado
da
conclusão.
Acompanha
o
termo
médio
na
premissa
maior,
que
lhe
deve
o
nome).
Termo
menor
–
alentejanos
(sujeito
da
conclusão.
Acompanha
o
termo
médio
na
premissa
menor,
que
lhe
deve
o
nome).
Tipo
A
–
Universal
afirmativa.
Todos
os
portugueses
são
europeus.
Tipo
E
–
Universal
negativa.
Nenhum
alemão
é
português.
Tipo
I
–
Particular
afirmativa.
Alguns
animais
são
mamíferos.
Tipo
O
–
Particular
negativa.
Alguns
animais
não
são
mamíferos.
FIGURAS
DO
SILOGISMO
CATEGÓRICO
73.
1ª
Figura
O
termo
médio
é
sujeito
na
premissa
maior
e
predicado
na
menor.
2ª
Figura
O
termo
médio
é
predicado
em
ambas
as
premissas.
3ª
Figura
O
termo
médio
é
sujeito
em
ambas
as
premissas.
4ª
Figura
O
termo
médio
é
predicado
na
premissa
maior
e
sujeito
na
menor
M
–
P
S
–
M
_____
S
–
P
Todos
os
homens
são
mortais.
Os
portugueses
são
homens.
Logo,
os
portugueses
são
mortais
P
–
M
S
–
M
_____
S
–
P
Todos
os
peixes
respiram
por
guelras
Nenhuma
baleia
respira
por
guelras
Logo,
nenhuma
baleia
é
peixe.
M
–
P
M
–
S
_____
S
–
P
Todos
os
comunistas
são
de
esquerda.
Todos
os
comunistas
são
pessoas
honestas.
Logo,
algumas
pessoas
honestas
são
de
esquerda.
P
–
M
M
–
S
_____
S
–
P
Nenhum
nazi
é
comunista.
Alguns
comunistas
são
políticos.
Logo,
alguns
políticos
não
são
nazis.
Regras
para
avaliar
a
validade
dos
silogismos
categóricos
1.
Só
se
admitem
três
termos
e
usados
sem
ambiguidades
(a
infração
desta
regra
origina
a
falácia
dos
quatro
termos
ou
do
equívoco).
2.
O
termo
médio
só
deve
aparecer
nas
premissas.
3.
Os
termos
maior
e
menor
não
podem
ter,
na
conclusão,
maior
extensão
do
que
nas
premissas.
Devem
estar
distribuídos
nas
premissas
se
estiverem
distribuídos
na
conclusão,
ou
seja,
não
podem
ser
universais
na
conclusão
e
particulares
nas
premissas
(a
infração
da
regra
origina
a
falácia
da
ilícita
maior
ou
a
falácia
da
ilícita
menor).
4.
O
termo
médio
deve
ter
extensão
universal
–
estar
distribuído
–
pelo
menos
em
uma
premissa
(a
infração
da
regra
origina
a
falácia
do
termo
médio
não
distribuído).
74.
DEVE
DAR
ESPECIAL
ATENÇÃO
ÀS
SEGUINTES
FALÁCIAS
FORMAIS
ASSOCIADAS
AO
SILOGISMO
CATEGÓRICO.
FALÁCIA
DOS
QUATRO
TERMOS
FALÁCIA
DA
ILÍCITA
MAIOR
FALÁCIA
DA
ILÍCITA
MENOR
FALÁCIA
DO
TERMO
MÉDIO
NÃO
DISTRIBUÍDO
Comete-‐se
esta
falácia
quando
se
viola
a
regra
1:
Só
pode
conter
três
termos,
e
cada
termo
deve
ter
o
mesmo
significado
ao
longo
do
argumento.
Exemplo
desta
falácia:
Todos
os
bancos
são
instituições
financeiras.
Algumas
peças
de
mobiliário
são
bancos.
Logo,
algumas
peças
de
mobiliário
são
instituições
financeiras.
Explicação:
Banco
tem
dois
significados
diferentes,
Comete-‐se
esta
falácia
quando
se
viola
parte
da
regra
3
referente
ao
termo
maior:
O
termo
maior
não
deve
ter
maior
extensão
na
conclusão
do
que
nas
premissas
(um
termo
deve
estar
distribuído
nas
premissas
se
estiver
distribuído
–
se
for
universal
–
na
conclusão).
Exemplo
desta
falácia:
Todos
os
cães
são
mamíferos.
Nenhum
gato
é
cão.
Logo,
nenhum
gato
é
Comete-‐se
esta
falácia
quando
se
viola
parte
da
regra
3
referente
ao
termo
menor:
O
termo
menor
não
deve
ter
maior
extensão
na
conclusão
do
que
nas
premissas.
Exemplo
desta
falácia:
Todos
os
leões
são
seres
vivos.
Alguns
mamíferos
não
são
leões.
Logo,
nenhum
mamífero
é
ser
vivo.
Explicação:
Na
premissa,
mamíferos
está
quantificado
Comete-‐se
esta
falácia
quando
se
viola
a
regra
4:
O
termo
médio
deve
ter
extensão
universal
pelo
menos
em
uma
premissa
(o
termo
médio
deve
estar
distribuído
pelo
menos
uma
vez).
Exemplo
desta
falácia:
Todos
os
tablets
são
portáteis.
Todos
os
telemóveis
são
portáteis.
Logo,
todos
os
telemóveis
são
tablets.
Explicação:
Portáteis
é
predicado
de
duas
premissas
afirmativas
pelo
que
é
particular
em
ambas.
Devia
ser
universal
pelo
5.
Premissas
afirmativas
pedem
conclusão
afirmativa.
(De
duas
premissas
afirmativas
não
se
pode
tirar
conclusão
negativa.)
6.
De
duas
premissas
negativas
nada
se
pode
concluir.
7.
De
duas
premissas
particulares
nada
se
pode
concluir.
(O
termo
médio
não
é
universal
em
nenhuma.)
8.
A
conclusão
segue
sempre
a
parte
mais
fraca:
será
negativa
se
houver
uma
premissa
negativa
e
particular
se
houver
uma
premissa
particular.
75.
pelo
que
designa
dois
termos
diferentes.
mamífero.
Explicação:
Na
premissa,
mamíferos
é
predicado
de
uma
afirmativa,
pelo
que
é
particular.
Na
conclusão,
é
predicado
de
uma
negativa,
pelo
que
é
universal.
Tem
assim
mais
extensão
na
conclusão
do
que
na
premissa.
claramente
como
particular.
Alguns
é
um
quantificador
particular.
Na
conclusão,
está
quantificado
como
universal,
Tem
mais
extensão
na
conclusão
do
que
na
premissa.
menos
numa
delas.
Notas
importantes
1
–
Dizer
que
um
termo
está
distribuído
é
dizer
que
tem
extensão
universal.
2
–
O
termo
médio
pode
ser
universal
nas
duas
premissas.
O
que
não
pode
é
ser
particular
nas
duas.
Tem
de
ser
universal
–
estar
distribuído
–
pelo
menos
numa
delas.
3
–
O
termo
maior
pode
ser
universal
na
premissa
e
na
conclusão.
Pode
ser
também
particular
na
premissa
e
particular
na
conclusão.
Pode
ser
igualmente
universal
na
premissa
e
particular
na
conclusão.
O
que
não
pode
é
ser
particular
na
premissa
e
universal
na
conclusão.
4
–
O
termo
menor
pode
ser
universal
na
premissa
e
na
conclusão.
Pode
ser
também
particular
na
premissa
e
particular
na
conclusão.
Pode
ser
igualmente
universal
na
premissa
e
particular
na
conclusão.
O
que
não
pode
é
ser
particular
na
premissa
e
universal
na
conclusão.
5
–
Nas
proposições
do
tipo
E
e
O
–
universais
negativas
e
particulares
negativas
–,
o
predicado
é
sempre
universal.
Nas
proposições
do
tipo
A
e
I
–
universais
afirmativas
e
particulares
afirmativas
–,
o
predicado
é
sempre
particular.
AS
FALÁCIAS
FORMAIS
MAIS
IMPORTANTES:
AS
FALÁCIAS
DO
TERMO
MÉDIO
NÃO
DISTRIBUÍDO,
DA
ILÍCITA
MAIOR
E
DA
ILÍCITA
MENOR
TÉCNICA
PARA
AS
DETETAR
As
falácias
formais
–
defeitos
na
forma
do
raciocínio
–
mais
importantes
na
lógica
dita
aristotélica
são
estas:
Termo
médio
não
distribuído
Ilícita
Maior
Ilícita
menor
O
termo
médio
não
tem
extensão
universal
em
O
termo
maior
tem
mais
extensão
na
conclusão
do
O
termo
menor
tem
mais
extensão
na
76.
nenhuma
das
premissas.
que
na
premissa.
conclusão
do
que
na
premissa.
Considere
o
seguinte
silogismo.
Todos
os
filósofos
são
pessoas
com
espírito
crítico.
Algumas
pessoas
com
espírito
crítico
são
cientistas.
Logo,
alguns
cientistas
são
filósofos.
Perguntemos:
que
falácia
comete
este
silogismo?
Comete
a
falácia
da
ilícita
maior?
Identifiquemos
o
termo
maior.
O
que
define
o
termo
maior
é
ser
o
predicado
da
conclusão.
O
termo
maior
é
filósofos.
Vejamos
qual
a
sua
extensão
quer
na
premissa
quer
na
conclusão.
Vemos
que
na
primeira
premissa
–
Todos
os
filósofos
são
pessoas
com
espírito
crítico
–
ele
está
quantificado
universalmente
ou
tem
extensão
universal.
Está
distribuído.
E
na
conclusão?
Na
conclusão
–
Logo,
alguns
cientistas
são
filósofos
–,
tem
extensão
particular.
Dizer
que
alguns
cientistas
são
filósofos
equivale
a
dizer
que
alguns
filósofos
são
cientistas.
Lembre-‐se
que
predicado
de
proposição
afirmativa
é,
regra
geral,
particular.
Assim,
o
termo
maior
–
filósofos
–
é
universal
na
premissa
e
particular
na
conclusão.
Não
se
comete
portanto
a
falácia
da
ilícita
maior
porque
o
termo
maior
não
tem
mais
extensão
na
conclusão
do
que
na
premissa.
Um
problema
está
resolvido.
O
termo
maior
passou
no
teste.
Vamos
assinalar
esse
facto
a
verde.
Todos
os
filósofos
são
pessoas
com
espírito
crítico.
Algumas
pessoas
com
espírito
crítico
são
cientistas.
Logo,
alguns
cientistas
são
filósofos.
77.
Passemos
a
outro
problema.
Comete
a
falácia
da
ilícita
menor?
Identifiquemos
o
termo
menor.
O
que
define
o
termo
menor
é
ser
o
sujeito
da
conclusão.
O
termo
menor
é
cientistas.
Vejamos
qual
a
sua
extensão
quer
na
premissa
quer
na
conclusão.
Vemos
que
na
segunda
premissa
–
Algumas
pessoas
com
espírito
crítico
são
cientistas
–
ele
tem
extensão
particular.
Dizer
que
algumas
pessoas
com
espírito
crítico
são
cientistas
equivale
a
dizer
que
alguns
cientistas
são
pessoas
com
espírito
crítico.
Lembre-‐se
que
predicado
de
proposição
afirmativa
é,
regra
geral,
particular.
E
na
conclusão?
Na
conclusão
–
Logo,
alguns
cientistas
são
filósofos
–,
tem
extensão
particular.
O
quantificador
é
«alguns».
Assim,
o
termo
menor
–
cientistas
–
é
particular
na
premissa
e
particular
na
conclusão.
Não
se
comete,
portanto,
a
falácia
da
ilícita
menor
porque
o
termo
menor
não
tem
mais
extensão
na
conclusão
do
que
na
premissa.
Mais
um
problema
está
resolvido.
O
termo
menor
passou
no
teste.
Vamos
assinalar
esse
facto
a
verde.
Todos
os
filósofos
são
pessoas
com
espírito
crítico.
Algumas
pessoas
com
espírito
crítico
são
cientistas.
Logo,
alguns
cientistas
são
filósofos.
Como
se
perguntou
que
falácia
comete
este
silogismo,
antevê-‐se
que
é
a
falácia
do
termo
médio
não
distribuído.
É
verdade,
mas
temos
que
justificar
essa
afirmação.
Vejamos
qual
a
extensão
do
termo
médio
em
ambas
as
premissas.
O
termo
médio
é
«pessoas
com
espírito
crítico».
Na
premissa
maior,
é
particular
porque
dizer
que
todos
os
filósofos
são
pessoas
com
espírito
crítico
equivale
a
dizer
que
algumas
pessoas
com
espírito
crítico
são
filósofos.
Lembre-‐se
que
predicado
de
proposição
afirmativa
é,
regra
geral,
particular.
Na
premissa
menor,
o
quantificador
alguns
indica-‐nos
que
o
termo
médio
–
pessoas
com
espírito
crítico
–
está
quantificado
particularmente,
tem
extensão
particular.
78.
Assim,
vemos
que
o
termo
médio
é
particular
em
ambas
as
premissas.
Ora,
devia
ser
universal
pelo
menos
em
uma.
Este
silogismo
é
inválido
ou
falacioso.
O
termo
médio
não
está
distribuído
ou
não
tem
extensão
universal
em
nenhuma
premissa.
O
termo
médio
não
passou
no
teste.
Assinalemos
esse
facto
a
vermelho.
Todos
os
filósofos
são
pessoas
com
espírito
crítico.
Algumas
pessoas
com
espírito
crítico
são
cientistas.
Logo,
alguns
cientistas
são
filósofos.
O
termo
médio
pode
ser
universal
nas
duas
premissas.
O
que
não
pode
é
ser
particular
nas
duas.
Tem
de
ser
universal
–
estar
distribuído
–
pelo
menos
em
uma
delas.
TEMA
12
LÓGICA
INFORMAL
Na
Unidade
sobre
lógica
formal
estudámos
os
argumentos
em
si
mesmos
e
do
ponto
de
vista
da
sua
forma.
Conhecemos
vários
tipos
de
argumentos
dedutivos.
Os
argumentos
dedutivos
estudados
pela
lógica
formal
são
válidos
quando
as
premissas
garantem
e
apoiam
de
forma
absoluta
a
verdade
da
conclusão.
Agora
iremos
estudar
outro
tipo
de
argumentos
que
nos
permitirão
ter
uma
noção
do
que
são
os
aspetos
concretos
da
argumentação.
A
lógica
formal,
uma
vez
detectada
a
invalidade
de
um
argumento,
abandona-‐o.
Mas
nós
usamos
argumentos
que,
não
excluindo
a
possibilidade
de
a
sua
conclusão
ser
falsa,
nos
dão
muitas
vezes
razões
para
aceitarmos
que
a
conclusão
é
plausível,
provável
ou
verosímil.
Por
essa
razão
devemos
dar
atenção
a
esse
tipo
de
argumentos,
a
que
a
partir
de
agora
chamaremos
argumentos
informais.
Argumentos
informais
Lógica
informal
Em
geral,
os
argumentos
cuja
conclusão
é
discutível,
mesmo
que
tenhamos
boas
razões
para
acreditar
nela,
denominam-‐se
argumentos
informais.
Âmbito
da
lógica
que
estuda
os
argumentos
em
que
a
relação
lógica
entre
as
premissas
e
a
conclusão,
permite
apenas
afirmar
que
é
mais
provável
do
que
improvável
a
verdade
da
conclusão.
Distingue
–
se
por
isso
da
lógica
formal,
em
que
a
verdade
das
premissas
implica
a
da
conclusão.
Referimo
-‐
nos
em
especial
aos
argumentos
indutivos
(generalizações
e
previsões),
aos
argumentos
por
analogia
e
aos
argumentos
de
autoridade.
Entramos
no
plano
da
chamada
lógica
informal.
79.
DIVERSOS
TIPOS
DE
ARGUMENTOS
Argumentos
indutivos
Argumentos
por
analogia
Argumentos
de
autoridade
Generalizações
Previsões
São
inferências
que
se
baseiam
em
comparações.
Argumentos
que
fornecem
como
justificação
para
a
conclusão
o
facto
de
ela
ter
sido
emitida
por
uma
pessoa
ou
instituição
considerada
uma
autoridade
na
matéria.
Consistem
em
tornar
extensível
a
toda
uma
classe
de
objetos
ou
de
seres
uma
caraterística
(ou
caraterísticas)
observada
num
determinado
número
de
casos
considerados
representativos.
Argumentos
em
que
se
infere
o
que
vai
acontecer
no
futuro
a
partir
de
uma
amostra
considerada
representativa.
Paulo
curou
a
sua
dor
de
cabeça
com
este
remédio.
Logo,
João
curará
a
sua
dor
de
cabeça
com
este
mesmo
remédio.
Todas
as
esmeraldas
observadas
são
verdes;
Logo,
as
esmeraldas
da
Joana
são
verdes.
Um
argumento
por
analogia
é
válido
se:
1.
Os
objetos
comparados
forem
semelhantes
nos
aspetos
relevantes.
2.O
número
de
semelhanças
entre
os
objetos
comparados
for
significativo.
Portugal
foi
o
primeiro
Estado
europeu
moderno.
Assim
o
dizem
todos
os
historiadores.
Um
argumento
de
autoridade
é
válido
se
a
autoridade
no
assunto:
1.
For
competente.
2.
Não
for
contradita
por
por
autoridades
com
igual
reputação.
3.
For
imparcial.
As
pessoas
que
até
à
data
caíram
de
uma
altura
superior
a
150
metros
morreram.
Logo,
qualquer
pessoa
que
caia
de
uma
altura
superior
a
150
metros
morre.
Quanto
maior
e
mais
diversificada
é
a
amostra
maior
o
suporte
que
as
premissas
dão
à
conclusão.
Quanto
maior
e
mais
diversificada
é
a
amostra
maior
o
suporte
que
as
premissas
dão
à
conclusão.
Falácia
da
generalização
precipitada
Falácia
da
previsão
inadequada.
Falácia
da
falsa
analogia.
Falácia
do
apelo
inadequado
à
autoridade.
As
namoradas
que
conheci
eram
desonestas.
Logo,
as
mulheres
são
desonestas.
Ontem
fui
ao
casino
e
não
ganhei
nada.
Logo,
nunca
irei
ganhar
nada
no
casino.
O
Estado
é
como
uma
empresa.
Logo,
deve
ser
gerido
por
empresários.
Muitos
cientistas
acreditaram
e
acreditam
na
existência
de
Deus.
Logo,
Deus
existe.
80.
Argumentos
indutivos
Argumentos
dedutivos
A
sua
validade
não
depende
apenas
da
sua
forma
lógica.
A
sua
validade
depende
apenas
da
sua
forma
lógica.
A
verdade
das
premissas
não
torna
impossível
a
falsidade
da
conclusão.
A
verdade
–
suposta
ou
de
facto
-‐
das
premissas
não
torna
impossível
a
falsidade
da
conclusão.
Serem
válidos
significa
que
a
verdade
das
premissas
não
garante
a
verdade
da
conclusão
mas
sim
que
torna
mais
provável
a
verdade
daquela
do
que
a
sua
falsidade.
Serem
válidos
significa
que
a
verdade
das
premissas
implica
a
verdade
da
conclusão:
esta
é
uma
consequência
lógica
das
premissas.
As
premissas
dos
argumentos
indutivos
válidos
nunca
são
conclusivas.
As
premissas
dos
argumentos
dedutivos
válidos
são
sempre
conclusivas.
São
argumentos
cuja
validade
possui
graus:
há
argumentos
indutivos
mais
fortes
do
que
outros.
São
argumentos
cuja
validade
não
admite
graus:
ou
as
premissas
dão
um
apoio
total
à
conclusão
ou
o
argumento
é
inválido.
Num
argumento
indutivo
válido
é
mais
improvável
do
que
provável
(mas
não
impossível)
que
as
premissas
sejam
verdadeiras
e
a
conclusão
falsa.
Num
argumento
dedutivo
válido
é
impossível
que
as
premissas
sejam
verdadeiras
e
a
conclusão
falsa.
Apesar
de
poder
ter
premissas
falsas
e/ou
conclusão
falsa
não
pode
ter
premissas
verdadeiras
e
conclusão
falsa.
ARGUMENTO
INDUTIVO
VÁLIDO.
Um
argumento
é
indutivamente
válido
quando
é
mais
provável
do
que
improvável
que
a
verdade
das
premissas
sustente
a
verdade
da
conclusão.
No
entanto,
nunca
é
impossível
que
as
premissas
sejam
verdadeiras
e
a
conclusão
falsa.
1
1.O
que
são
argumentos
indutivos?
R:
São
argumentos
cuja
validade
não
depende
unicamente
da
sua
forma
lógica.
São
argumentos
que,
quando
válidos,
tornam
relativamente
improvável
mas
não
impossível
que
de
premissas
verdadeiras
se
infira
conclusão
falsa.
81.
2.”Um
argumento
indutivo
é
um
raciocínio
em
que
é
improvável
mas
não
impossível
que
da
verdade
das
premissas
se
infira
a
falsidade
da
conclusão”.
Esta
definição
de
argumento
indutivo
é
correta?
R:
Não.
Trata
–
se
da
definição
de
argumento
indutivamente
válido
e
não
de
argumento
indutivo.
Se
aceitarmos
esta
definição
nenhum
raciocínio
indutivo
poderia
ser
inválido
ou
inaceitável.
3.
O
que
são
argumentos
indutivos
válidos?
R:
Os
argumentos
indutivos
válidos
são
argumentos
em
que,
apesar
de
relativamente
improvável,
não
é
impossível
que
as
premissas
sejam
verdadeiras
e
a
conclusão
falsa.
Ao
contrário
dos
argumentos
dedutivos,
a
forma
lógica
não
estabelece
que,
se
as
premissas
forem
verdadeiras,
a
conclusão
também
é
verdadeira.
4.Qual
dos
argumentos
indutivos
seguintes
nos
dá
razões
mais
fortes
para
pensar
que
a
conclusão
é
verdadeira?
1.Todas
as
pessoas
que
comeram
no
restaurante
Zodíaco
ontem
à
noite
ficaram
doentes.
Logo,
a
comida
estava
estragada
2.Até
agora
nenhuma
mulher
foi
Presidente
dos
E.U.A.
Logo,
nenhuma
mulher
será
Presidente
dos
E.U.A.
R:
O
argumento
1
dá
–
nos
uma
razão
muito
forte
para
crer
que
a
conclusão
é
verdadeira.
Não
é
impossível
que
algumas
pessoas
tenham
ficado
doentes
por
terem
apanhado
um
resfriado
mas
é
muito
provável
que
a
conclusão
seja
verdadeira.
A
verdade
da
premissa
torna
fortemente
provável
a
verdade
da
conclusão.
Quanto
ao
argumento
2
podemos
dizer
que
é
perfeitamente
possível
e
altamente
provável
que
apesar
da
verdade
da
premissa
a
conclusão
seja
falsa.Com
efeito,
noutros
países
há
e
já
houve
mulheres
a
desempenhar
o
mais
alto
cargo,
em
Portugal
já
houve
uma
candidata
e
que
nos
E.U.A.
o
acesso
de
mulheres
a
cargos
importantes
está
a
generalizar-‐se
tornando
provável
que
num
futuro
muito
próximo
tenhamos
uma
mulher
na
presidência.
O
argumento
2
dá
–
nos
uma
razão
muito
fraca
para
crer
que
a
conclusão
é
verdadeira.
5.Dos
argumentos
seguintes
qual
é
o
que
nos
dá
mais
fortes
razões
para
acreditar
que
a
conclusão
é
verdadeira?
82.
1.Sabe
-‐
se
que
sangue
do
tipo
AB
é
raro.
Logo,
o
próximo
doente
que
vai
aparecer
não
tem
sangue
do
tipo
AB.
2.Sergei
é
um
estudante
russo
bolsista
numa
universidade
americana
onde
até
agora
muitos
estudantes
russos
conseguiram
aprender
bem
inglês.
Logo,
Sergei
não
fala
bem
inglês.
R:
O
argumento
1
torna
bastante
provável
a
verdade
da
conclusão.
A
probabilidade
indutiva
do
argumento
2
é
muito
baixa.
O
argumento
2
corre
muitos
riscos
de
ser
desmentido.
6.Considere
os
dois
seguintes
argumentos:
Relembrando
o
que
estudou
no
Capítulo
sobre
Lógica
formal
por
que
razões
não
podemos
afirmar
que
estes
argumentos
são
dedutivos?
R:
Estes
argumentos
têm
a
mesma
forma
lógica:
Todos
os
A’s
observados
até
hoje
são
B’s
Logo,
todo
o
A
é
B.
Contudo,
apenas
num
deles
(2.)
a
conclusão
se
infere
das
premissas
de
maneira
provável.
Sabemos
que
há
cisnes
negros
pelo
que
a
conclusão
é
falsa.
Assim,
1
e
2
têm
a
mesma
forma
lógica
mas
só
um
deles
é
aceitável.
Isto
não
se
verifica
com
os
argumentos
dedutivos.
Não
é
possível
que
dois
argumentos
dedutivos
tenham
a
mesma
forma
lógica
e
só
um
deles
ser
válido.
7.
Diz
–
se
que
os
argumentos
indutivos
são
“argumentos
de
risco”.
Tente
explicar.
R:
São
argumentos
de
risco
porque,
quando
muito,
a
verdade
das
premissas
poderá
tornar
provável
a
verdade
de
uma
conclusão
mas
nunca
a
pode
garantir
ou
assegurar.
2
Identifique
os
seguintes
argumentos
informais.
1.Todos
os
cisnes
observados
até
hoje
são
brancos.
Logo,
todos
os
cisnes
são
brancos.
2.
Todos
os
corvos
observados
até
hoje
são
pretos.
Logo,
todos
os
corvos
são
pretos.
83.
1.
Bertrand
Russell,
um
reputado
lógico,
afirmou
que
os
costumes
sociais
a
respeito
do
sexo
fora
do
casamento
são
nocivos
e
opressivos.
Portanto,
os
costumes
sociais
a
respeito
do
sexo
fora
do
casamento
são
nocivos
e
opressivos.
Identifique
este
tipo
de
argumento
e
explique
a
condição,
ou
condições,
que
tem
de
respeitar
para
ser
um
bom
argumento
do
ponto
de
vista
informal.
Argumento
de
autoridade.
Para
que
este
tipo
de
argumentos
seja
bom,
a
autoridade
evocada
tem
de
ser,
de
facto,
uma
autoridade
e
não
podem
existir
divergências
entre
os
especialistas
acerca
da
matéria.
2.
«De
acordo
com
o
meu
Epicuro…
nada
continua
a
existir
depois
da
dissolução
do
ser
vivo,
e
no
termo
“ser
vivo”
ele
incluía
tanto
o
homem
como
o
leão,
o
lobo,
o
cão,
e
todas
as
outras
coisas
que
respiram.
Concordo
com
tudo
isto.
Eles
comem,
nós
comemos;
eles
bebem,
nós
bebemos;
eles
dormem,
e
o
mesmo
fazemos
nós.
Eles
geram,
concebem,
dão
à
luz,
e
alimentam
os
seus
jovens
da
mesma
forma
que
os
nossos.
Eles
têm
alguma
capacidade
de
raciocínio
e
de
memória,
alguns
mais
do
que
outros,
e
nós
um
pouco
mais
que
eles.
Somos
como
eles
em
quase
tudo;
por
fim,
eles
morrem
e
nós
morremos
–
ambos
de
forma
definitiva.»
Lorenzo
Valla,
On
Pleasure,
Nova
Iorque,
Abaris
Books,
1977,
pp.
219-‐221.
Identifique
e
explique
em
que
consiste
o
argumento
que
o
texto
exemplifica.
Argumento
por
analogia.
Os
argumentos
por
analogia
baseiam-‐se
em
comparações.
Dadas
duas
entidades
ou
situações,
A
e
B,
com
várias
caraterísticas
semelhantes,
da
observação
de
que
A
tem
uma
caraterística
conclui-‐se
que
o
mesmo
se
passa
com
B.
3.
O
BCP,
O
BPI,
o
BES,
a
GALP
e
a
PT
estão
cotados
em
bolsa.
Portanto,
todas
as
grandes
empresas
portuguesas
estão
cotadas
em
bolsa.
Identifique
este
tipo
de
argumento
e
explique
a
condição
(ou
condições)
que
tem
de
respeitar
para
ser
um
argumento
bom.
Trata-‐se
de
uma
generalização
por
indução.
Para
que
estes
argumentos
sejam
bons,
a
amostra
expressa
pela
premissa
deve
ser
ampla
e
representativa.
4.
«Podemos
verificar
que
existe
uma
grande
semelhança
entre
a
Terra
que
habitamos
e
os
outros
planetas,
Saturno,
Júpiter,
Marte,
Vénus
e
Mercúrio.
Como
a
Terra,
todos
giram
em
torno
do
Sol,
embora
a
distâncias
e
períodos
diferentes.
Como
a
Terra,
recebem
toda
a
sua
luz
do
Sol.
Como
a
Terra,
vários
rodam
em
torno
do
seu
eixo
e,
desse
modo,
têm
também
a
sucessão
dos
dias
e
das
noites.
Alguns
têm
luas,
que
servem
para
lhes
dar
luz
na
ausência
do
Sol,
como
a
nossa
Lua
faz
para
nós.
Como
a
Terra,
estão
todos,
nos
seus
movimentos,
sujeitos
à
mesma
lei
da
gravitação
84.
universal.
Com
base
nestas
semelhanças
não
é
irracional
pensar
que
esses
planetas,
como
a
nossa
Terra,
sejam
habitados
por
vários
tipos
de
criaturas
vivas.»
Thomas
Reid,
Essays
on
the
Intellectual
Powers
of
Man,
Cambridge,
John
Bartlett,
1850,
p.
16.
Identifique
este
tipo
de
argumento
e
explique
a
condição
(ou
condições)
que
tem
de
respeitar
para
ser
um
bom
argumento
do
ponto
de
vista
informal.
Este
argumento
é
um
argumento
por
analogia.
Para
que
um
argumento
por
analogia
seja
bom,
deve
cumprir
três
condições:
1)
a
amostra
deve
ser
suficiente
(quanto
maior
o
número
de
objetos
comparados
maior
a
força
do
argumento);
2)
o
número
de
semelhanças
deve
ser
suficiente
(a
força
da
analogia
cresce
com
o
aumento
do
número
de
semelhanças
verificadas);
3)
as
semelhanças
verificadas
devem
ser
relevantes.
5.
No
Dictionary
of
Philosophy,
Anthony
Flew
define
«logicismo»
como
o
ponto
de
vista
segundo
o
qual
a
«matemática,
e
em
particular
a
aritmética,
faz
parte
da
lógica».
Portanto,
o
logicismo
é
isso.
Identifique
este
tipo
de
argumento
e
explique
as
condições
que
tem
de
respeitar
para
ser
um
argumento
bom.
É
um
argumento
de
autoridade.
Para
que
este
tipo
de
argumento
seja
bom,
deve
respeitar
as
seguintes
condições:
as
fontes
devem
ser
autoridades
na
matéria
e
não
pode
haver
discordância
entre
elas.
6.
A
esmagadora
maioria
das
nozes
deste
saco
que
parti
até
agora
estava
estragada.
Portanto,
a
próxima
noz
que
tirar
do
saco
também
estará
estragada.
Identifique
e
explique
em
que
consiste
o
argumento
que
o
texto
exemplifica.
Este
argumento
é
uma
previsão
indutiva.
A
partir
de
uma
amostra
considerada
representativa,
tira-‐se
uma
conclusão
acerca
de
um
acontecimento
futuro.
85.
MAIS
ALGUMAS
FALÁCIAS
INFORMAIS
Falácia
da
derrapagem
A
conclusão
resulta
de
um
suposto
e
improvável
encadeamento
de
situações.
Ex.:
Se
és
um
apreciador
de
bons
vinhos,
então,
depois
de
um
bom
copo,
beberás
outro
e
outro
e
mais
tarde
ou
mais
cedo
tornar-‐te-‐ás
um
alcoólico.
Falácia
do
falso
dilema
Apresentam-‐se
duas
alternativas
como
sendo
as
únicas,
ignorando
ou
tentando
fazer
com
que
se
acredite
que
não
há
mais
alternativas
disponíveis.
Ex.:
Ou
és
crente
ou
és
ateu.
Se
não
acreditas
na
existência
de
Deus,
só
posso
concluir
que
és
ateu.
Falácia
da
petição
de
princípio
Usamos
como
prova,
aquilo
que
estamos
a
tentar
provar:
supõe-‐se
a
verdade
do
que
se
quer
provar,
ou
seja,
provamos
a
conclusão
tendo
como
premissa
a
própria
conclusão.
Ex.:
Não
falta
ninguém,
uma
vez
que
está
cá
toda
a
gente.
Falácia
do
«boneco
de
palha»
Distorcem-‐se
as
ideias
do
adversário
para
as
atacar
mais
facilmente.
A
tese
do
adversário
é
deturpada
para
ser
atacada,
mas
isso
significa
que
se
falha
o
alvo.
Ex.:
O
João
diz
que
para
se
protegerem
certas
espécies
os
Jardins
Zoológicos
são
importantes.
Então
mais
valia
prenderem
todos
os
animais.
Falácia
do
ataque
à
pessoa
(ad
hominem
falacioso)
Ataca-‐se
indevidamente
a
pessoa
que
defende
certas
ideias,
julgando-‐se
erradamente
que
isso
é
atacar
as
suas
ideias.
Ex.:
É
impossível
acreditar
no
que
dizes.
Como
podes
ter
uma
opinião
inteligente
sobre
o
aborto?
Não
és
mulher,
pelo
que
esta
é
uma
decisão
que
nunca
terás
de
tomar.
Falácia
do
apelo
à
ignorância
(apelo
falacioso
à
ignorância)
Transforma-‐se
em
prova
a
ausência
de
prova.
Se
não
provarmos
a
falsidade
de
uma
afirmação,
então
ela
é
verdadeira;
se
não
provarmos
a
verdade
de
uma
afirmação
então
ela
é
falsa.
Ex.:
1.
Ninguém
provou
que
os
fantasmas
não
existem.
Logo,
existem.
2.
Nunca
se
observaram
extraterrestres.
Logo,
não
existem.
86.
TEMA
13
A
RETÓRICA
E
A
PROCURA
DA
ADESÃO
DO
AUDITÓRIO.
1.O
que
é
a
retórica?
R:
A
retórica
é
habitualmente
definida
como
a
arte
da
persuasão.
2.
O
que
entende
Aristóteles
por
retórica?
R:
Aristóteles
entende
–
a
sobretudo
como
estudo
do
método
da
persuasão.
Ela
é
a
faculdade
de
descobrir
e
considerar
o
que,
para
cada
questão,
pode
ser
adequado
para
persuadir.
2.
Porque
se
justifica
o
estudo
da
retórica?
R:
O
estudo
da
retórica
justifica
–
se
porque
argumentar
é
tentar
persuadir
e
convencer,
encontrar
formas
de
obter
a
adesão
a
certas
ideias
e
opiniões.
Tentamos
persuadir
os
outros
e
outros
procuram
fazer
o
mesmo.
Na
vida
prática,
em
processos
comunicativos
concretos,
a
argumentação
destina
–
se
a
convencer
e
a
ganhar
a
adesão
do
interlocutor.
Qual
é
o
domínio
de
atuação
da
retórica?
R:
O
campo
da
argumentação
retórica
é
o
verosímil,
o
provável,
o
controverso
e
o
discutível
e
não
o
necessariamente
verdadeiro.
A
Retórica
pretende
descobrir
os
meios
que,
relativamente
a
qualquer
argumento,
podem
persuadir
um
dado
auditório.
Procura
fazer
aceitar
teses
prováveis,
que
podem
ser
controversas,
verosímeis
ou
convincentes.
É,por
isso,
“a
técnica
ou
a
arte
do
verosímil”
8.
O
que
entende
Aristóteles
por
ethos?
R:
O
ethos
é
uma
“prova”
ou
dispositivo
retórico
baseada
no
carácter
do
orador.
O
orador
tenta
persuadir
o
auditório
proferindo
o
discurso
de
maneira
a
criar
nele
a
impressão
de
que
tem
um
carácter
que
o
torna
digno
de
crédito,
valendo
–
se
da
sua
experiência
no
assunto,
da
sua
reputação
e
da
qualidade
das
fontes
e
informações
em
que
se
apoia
.
É
um
apelo
à
credibilidade.
9.O
que
é
o
pathos?
R:
É
uma
“prova”
ou
dispositivo
retórico
centrado
no
auditório.
O
orador
tenta
persuadir
despertando
pelo
discurso
no
auditório
sentimentos
e
emoções
que
o
tornam
recetivo
ao
que
está
a
ser
dito.
10.
O
que
carateriza
o
logos?
R:
É
uma
“prova”
ou
dispositivo
retórico
baseado
no
discurso.
Apela
à
racionalidade
e
capacidade
lógica
do
auditório.
Se
o
orador
tenta
persuadir
procurando
apresentar
razões
em
defesa
de
um
determinado
ponto
de
vista
(
e
não
tentando
despertar
certas
emoções
ou
transmitir
a
imagem
de
credibilidade
pessoal)
então
estamos
no
plano
do
logos.
87.
Os
dois
usos
da
retórica
Persuasão
Manipulação
O
orador
não
tem
a
intenção
de
enganar.
Tenta
apresentar
toda
a
informação
relevante,
não
distorce
factos
nem
os
omite.
Recorre
a
argumentos
enganadores
ou
manobras
falaciosas.
Visa
enganar
e
iludir,
omitindo
certos
factos
para
destacar
outros
ou
apresentando
a
mensagem
de
forma
propositadamente
parcial
e
ambígua.
Evita
explorar
os
preconceitos
do
auditório
Explora
os
preconceitos
do
auditório.
Procura
que
os
membros
do
auditório
pensem
por
si.
Trata
os
membros
do
auditório
como
meios
ao
serviço
das
suas
finalidades
pessoais.
Procura
obter
adesão
apelando
a
factores
emocionais
e
racionais
embora
predomine
o
recurso
ao
logos.
Procura
obter
adesão
apelando
essencialmente
a
factores
emocionais,
que
impressionam
mais
o
auditório
.
É
tanto
mais
eficaz
quanto
maior
for
a
capacidade
de
argumentação
do
orador.
(
apresenta
os
argumentos
pela
melhor
ordem
e
sem
complicações
desnecessárias).
É
tanto
mais
eficaz
quanto
maiores
forem
a
passividade,
os
preconceitos
e
a
falta
de
sentido
crítico
do
auditório.
O
bom
uso
da
retórica
O
mau
uso
da
retórica
11.
O
que
opõe
radicalmente
Platão
e
Sócrates
aos
sofistas?
O
relativismo
constitui
para
Sócrates
e
Platão
o
principal
inimigo
da
filosofia
entendida
como
procura
de
uma
verdade
absoluta
e
permanente.
Sócrates
e
Platão,
defendiam
que
há
uma
realidade
objetiva
e
que
há
verdades
objetivas
e
universais,
que
podem
ser
conhecidas
por
intermédio,
não
da
retórica,
mas
da
filosofia.
A
retórica
sofista
é
um
obstáculo
ao
conhecimento
e
à
descoberta
da
verdade.
12.
Fala
–
se
de
dois
usos
da
retórica:
o
bom
e
o
mau.
Identifique
–
os-‐
O
bom
uso
da
retórica
consiste
na
persuasão
racional.
O
mau
uso
da
retórica
consiste
na
manipulação.
13.
Em
que
consiste
a
persuasão
racional?
É
a
tentativa
de
evitando
manobras
falaciosas
e
construindo
argumentos
bons,
sem
artifícios
estilísticos,
claramente
organizados
e
expostos,
obter
a
adesão
do
auditório.
88.
Pode
dizer
–
se
que
contribui
para
descobrir
e
comunicar
a
verdade.
A
persuasão
racional
tem
em
vista
a
verdade,
mas
a
manipulação
não.
14.
Em
que
consiste
a
manipulação?
A
manipulação
consiste
em
usar
a
capacidade
de
persuasão
para
enganar,
iludir
e
convencer
o
auditório
daquilo
que
mais
interessa
e
convém
ao
orador.
Tenta
tirar
partido
das
limitações
e
dos
preconceitos
do
auditório.
Trata
–
se
de
uma
forma
de
argumentação
desonesta
que
instrumentaliza
o
auditório
e
se
afasta
da
verdade.
15.
Qual
é
a
crítica
fundamental
que
Platão
dirige
à
retórica
sofista?
Reconhecendo
o
poder
da
retórica,
questiona
de
um
ponto
de
vista
ético
o
uso
de
um
tal
poder.
Platão
não
pensa
que
a
retórica
seja
a
arte
da
persuasão.
Para
Platão,
a
retórica
em
vez
de
visar
a
persuasão
do
auditório,
visa
sim
a
sua
manipulação.
16.
Como
justifica
Platão
que
a
retórica
sofista
é
uma
forma
de
manipulação
e
não
de
persuasão?
Segundo
Platão,
a
retórica
não
se
baseia
na
razão
e
na
procura
da
verdade
mas
na
exploração
das
emoções,
dos
interesses
e
das
necessidades
do
auditório.
É
uma
forma
de
manipulação
porque,
pensa
Platão,
quem
não
domina
o
assunto
que
fala
só
é
persuasivo,
e
inclusive
mais
persuasivo
do
quem
sabe,
se
o
auditório
estiver
mal
informado
sobre
o
assunto
de
que
fala
o
orador.
A
ignorância
é
condição
necessária
do
triunfo
do
ignorante.
17.
Por
que
razão
não
a
considera
uma
arte?
É
o
caráter
manipulador
da
retórica
que
lhe
retira
o
direito
ao
título
de
arte.
Não
procurando
a
verdade
a
retórica
afasta
–
nos
do
triunfo
do
bem
e
da
justiça.
Como
uma
atividade
que
não
se
baseia
na
verdade
e
não
tem
como
finalidade
a
realização
do
bem
não
merece
o
nome
de
arte,
Platão
conclui
que,
ao
contrário
do
que
pensam
os
sofistas,
a
retórica
não
é
uma
arte.
TEMA
14
O
CONHECIMENTO
TIPOS
DE
CONHECIMENTO
Conhecimento
prático
Conhecimento
por
contato
Conhecimento
proposicional
Consiste
na
capacidade
ou
aptidão
para
fazer
algo.
O
seu
objeto
é
uma
atividade.
Saber
conduzir
uma
mota.
Consiste
na
experiência
direta
de
objetos,
fatos
ou
pessoas.
O
seu
objeto
são
lugares,
pessoas
e
coisas.
Conhecer
pessoalmente
o
Papa
Consiste
em
saber
que
certas
proposições
são
verdadeiras.
O
seu
objeto
são
proposições
verdadeiras.
“Ankara
é
a
capital
da
Turquia”
O
CONHECIMENTO
É
89.
CRENÇA
VERDADEIRA
JUSTIFICADA
Não
se
pode
conhecer
algo
sem
se
acreditar
no
que
se
diz
conhecer.
Temos
de
acreditar
que
a
proposição
é
verdadeira.
O
que
não
é
verdadeiro
não
pode
ser
objeto
de
conhecimento.
A
proposição
tem
de
ser
verdadeira.
A
crença
verdadeira
não
pode
ser
uma
simples
opinião
ou
um
palpite.
Tem
de
haver
boas
razões
e
evidências
a
favor
da
verdade
da
crença
João
acredita
que
a
proposição
“A
ponte
Vasco
da
Gama
é
extensa
“
é
verdadeira.
A
proposição
“A
ponte
Vasco
da
Gama
é
extensa
“
é
verdadeira.
Há
uma
boa
razão
para
João
acreditar
que
a
proposição
“A
ponte
Vasco
da
Gama
é
extensa
”
é
verdadeira.
João
circula
nela
há
cinco
minutos.
1.Em
que
consiste
a
definição
clássica
de
conhecimento?
Segundo
a
definição
clássica
de
conhecimento,
há
três
condições
necessárias
para
conhecer
uma
proposição:
1.
A
proposição
deve
ser
verdadeira;
2.
Temos
de
acreditar
que
a
proposição
é
verdadeira
e
3.
Deve
haver
boas
razões
ou
evidências
para
acreditar
que
a
proposição
é
verdadeira.
A
crença
por
si
não
é
conhecimento
porque
temos
crenças
falsas
e
a
verdade
é
inseparável
do
conhecimento.
A
crença
verdadeira
não
é
conhecimento
porque
posso
ter
uma
crença
verdadeira
por
acaso
ou
acidentalmente.
Para
haver
conhecimento,
não
é
suficiente
que
uma
crença
seja
verdadeira.
É
também
necessária
a
sua
justificação.
2.
Esta
definição
é
indiscutível?
Não.
Os
contraexemplos
de
Gettier
mostram
que
podemos
ter
boas
razões
a
justificar
uma
crença
verdadeira
e,
contudo,
não
ter
conhecimento.
3.
Qual
é
o
argumento
que
Gettier
apresenta
contra
a
definição
clássica
de
conhecimento
?
R:
A
definição
de
conhecimento
como
crença
verdadeira
justificada
não
é
correta
porque
alguém
pode
acreditar
justificadamente
que
determinada
proposição
é
verdadeira
e,
contudo,
não
saber
que
essa
proposição
é
verdadeira.
S
pode
ter
a
crença
verdadeira
justificada
de
que
P
e,
em
simultâneo,
não
saber
que
P.
Gettier
afirma
que
não
há
uma
relação
de
implicação
entre
ter
uma
crença
verdadeira
justificada
e
ter
conhecimento.
A
CVJ
não
garante
que
haja
conhecimento,
não
é
condição
suficiente
para
que
haja
conhecimento.
4.
Como
defende
Gettier
a
sua
tese?
90.
R:
Gettier
recorre
a
um
exemplo:
Dois
homens,
Smith
e
Jones,
são
candidatos
a
um
lugar
numa
empresa.
Smith
não
acredita
que
o
lugar
venha
a
ser
seu
porque
o
gerente
da
empresa
deu
sinais
de
que
o
escolhido
seria
Jones.
Smith
repara
que
Jones
tem
dez
moedas
no
bolso
porque
teve
ocasião
de
o
ver
contá-‐las.
Smith
tem
então
razão
para
pensar
que
a
pessoa
que
vai
obter
o
emprego
é
uma
pessoa
que
tem
dez
moedas
no
bolso.
Smith
tem
uma
crença
verdadeira
justificada
porque
1
–
é
verdade
que
o
gerente
disse
que
Jones
teria
o
emprego;
2
–
acredita
que
é
verdade
o
que
o
gerente
disse;
e
3
–
tem
razões
para
acreditar
que
Jones
(a
pessoa
que
tem
10
moedas
no
bolso)
vai
ser
o
eleito,
dado
que
o
gerente
não
é
dado
a
enganos
e
é
uma
fonte
de
informação
credível.
Temos
assim
que
Smith
tem
uma
CVJ
na
proposição
seguinte:
O
homem
que
vai
conseguir
o
emprego
é
uma
pessoa
que
tem
10
moedas
no
bolso.
Mas
sem
o
saber
também
tem
dez
moedas
no
bolso
e
afinal
o
gerente
escolhe
–
o
a
ele.
Apesar
de
Smith
ter
uma
justificação
razoável
para
acreditar
em
algo
verdadeiro
–
a
pessoa
que
vai
obter
o
emprego
tem
10
moedas
no
bolso
–,
será
que
podemos
dizer
que
tal
crença
é
conhecimento?
Não.
É
verdade
que
é
a
pessoa
que
tem
10
moedas
que
é
eleita,
mas
Smith
não
sabia
que
tinha
essa
quantidade
no
bolso.
Pensava
que
era
Jones.
Afinal,
sem
o
saber,
acertou.
Palpite
correto.
Nada
mais.
Uma
crença
verdadeira
justificada
não
é
garantia
de
que
haja
conhecimento.
TEMA
15
Conhecimento
vulgar
Conhecimento
científico
1.Relativamente
acrítico
2.A
descrição
predomina
sobre
a
explicação.
3.
Fraca
sistematização.
4.Muito
fraco
espírito
metódico.
5.
Essencialmente
prático.
6.
Deixa
–
se
iludir
pelas
aparências.
1.Baseia
–
se
no
pensamento
crítico.
2.
Essencialmente
explicativo.
3.
Forte
pendor
sistemático.
4.
Essencialmente
metódico.
5.
Alto
valor
teórico
e
prático.
6.
Procura
ir
para
lá
das
aparências
ou
impressões
imediatas.
TEMA
16
ANÁLISE
COMPARATIVA
DE
DUAS
TEORIAS
EXPLICATIVAS
DO
CONHECIMENTO
1
O
RACIONALISMO
DE
DESCARTES
91.
Resumo
da
teoria
cartesiana
do
conhecimento
O
projeto
Construir
um
sistema
de
verdades
indubitáveis
em
que
de
uma
verdade
que
seja
impossível
considerar
falsa
possamos
deduzir
outras
verdades
que
sejam
certezas
absolutas.
As
razões
de
ser
do
projeto
1.
O
sistema
dos
ditos
conhecimentos
do
seu
tempo
era
constituído
por
verdades
e
falsidades.
2.
Temos
de
separar
o
verdadeiro
do
falso
e
justificar
que
o
que
acreditamos
ser
verdadeiro
é
absolutamente
verdadeiro.
3.
O
sistema
dos
ditos
conhecimentos
do
seu
tempo
não
tinha
bases
firmes
e
estava
desorganizado,
a
tal
ponto
que
havia
falsidades
na
base
do
sistema
e
verdades
noutros
pontos
desse
sistema.
4.
Temos
de
encontrar
uma
verdade
indubitável
que
sirva
como
base
ao
sistema
dos
conhecimentos
e
permita
organizá-‐lo
firme
e
seguramente.
A
estratégia
para
atingir
esse
objetivo
A
dúvida
é
a
estratégia
escolhida
para
separar
absolutamente
o
verdadeiro
do
falso.
Como?
Vamos
submeter
ao
exame
rigoroso
da
dúvida
as
bases
em
que
assentava
o
sistema
dos
conhecimentos
estabelecidos.
Exame
rigoroso
significa
que
:
1.
Consideraremos
falso
o
que
não
for
absolutamente
verdadeiro
ou
indubitável.
2.
Consideraremos
enganadora
qualquer
faculdade
que
alguma
vez
nos
tenha
enganado
ou
de
cujo
funcionamento
correto
possamos
por
muito
pouco
que
seja
suspeitar.
A
dúvida
será
por
isso
aplicada
de
forma
hiperbólica.
3.
As
bases
do
sistema
dos
ditos
conhecimentos
que
vamos
examinar
implacavelmente
são:
‒
a
crença
de
que
os
sentidos
são
fontes
fiáveis
de
conhecimento
sobre
as
propriedades
dos
objetos
físicos;
‒
a
forte
crença
de
que
existem
realidades
físicas;
‒
a
crença
de
que
as
mais
fiáveis
produções
do
nosso
entendimento
–
as
matemáticas
–
são
um
modelo
de
verdade
indubitável.
O
que
passar
neste
exame
rigoroso
será
indubitavelmente
verdadeiro.
O
que
não
passa
no
exame
da
dúvida
metódica/hiperbólica
1.
Os
sentidos
não
são
dignos
de
confiança
quanto
às
informações
quer
sobre
as
qualidades
das
coisas
sensíveis
quer
sobre
a
existência
dessas
mesmas
coisas.
92.
As
ilusões
dos
sentidos
e
o
argumento
de
que
não
temos
forma
de
distinguir
absolutamente
o
sonho
da
realidade,
o
fictício
do
real,
levam-‐nos
a
negar
o
empirismo
(que
o
conhecimento
comece
com
a
experiência
sensível)
e
a
crença
de
que
o
mundo
físico
indubitavelmente
existe.
2.
O
correto
funcionamento
do
nosso
entendimento
(razão)
é
colocado
sob
suspeita
devido
ao
argumento
de
que
Deus
pode
tê-‐lo
criado
destinado
a
confundir
o
falso
com
o
verdadeiro.
Acredito
que
Deus
me
criou.
Deus
é
omnipotente.
A
omnipotência
significa
ser
capaz
de
tudo.
Não
parece
completamente
descabido
suspeitar
que
Deus
me
tenha
feito
de
tal
maneira
que
o
meu
entendimento
considere
falso
o
que
é
verdadeiro
e
verdadeiro
o
que
é
falso.
Por
mais
incrível
que
isso
me
pareça
a
hipótese
de
um
Deus
enganador
tem
de
ser
tida
em
conta
e
assim
não
posso
ter
nenhuma
certeza
quanto
à
verdade
daquilo
em
que
costumo
acreditar.
Os
objetos
sensíveis
e
os
objetos
inteligíveis
–
exemplificados
pela
matemática
–
são
colocados
sob
suspeita,
e
por
isso
deles
não
pode
derivar-‐se
conhecimento
algum.
É
no
plano
do
sujeito
e
não
dos
objetos
que
temos
procurar
a
verdade.
O
que
resiste
à
dúvida
Resiste
à
dúvida
a
existência
do
sujeito
que
de
tudo
duvida.
«Duvido
–
penso
–
logo
existo»
é
uma
verdade
indubitável
porque
a
existência
de
quem
duvida
não
pode
ser
objeto
de
dúvida
alguma.
Caraterísticas
da
primeira
verdade
1.
É
primeira
porque
impõe-‐se
no
momento
em
que
de
tudo
se
duvida.
2.
É
primeira
porque
não
deriva
de
nenhuma
outra
(teria
de
haver
outra,
o
que
não
acontece).
3.
É
objeto
de
intuição
existencial
e
não
de
dedução
–
será
o
ponto
de
partida
de
todas
as
deduções
que
faremos
para
construir
o
sistema
firme
dos
conhecimentos.
4.
É,
por
isso,
o
primeiro
princípio
do
sistema
de
conhecimentos.
5.
Corresponde
à
existência
de
um
sujeito
cuja
natureza
ou
essência
consiste
em
pensar.
6.
É
uma
ideia
ou
verdade
inata
porque
se
impõe
como
absolutamente
indubitável
independentemente
da
experiência.
Nasce
connosco
e
descobrimo-‐la
como
certeza
sem
apoio
empírico.
7.
É
um
critério
ou
modelo
de
verdade,
dada
a
evidência,
clareza
e
93.
distinção
com
que
se
impõe.
Verdades
indubitáveis
que
deduzimos
da
primeira
verdade
1.
A
alma
é
distinta
do
corpo.
Todas
as
coisas
sensíveis
–
incluindo
o
meu
corpo
–
podem
não
passar
de
realidades
que
só
existem
em
sonho.
Mas
existo,
e
disso
não
posso
duvidar.
Se
não
preciso
do
corpo
para
existir,
então
a
alma
–
o
que
eu
sou
–
é
distinta
do
corpo
e
mais
fácil
de
conhecer
do
que
este.
2.
Deus
existe.
Se
duvido
e
nada
conheço
a
não
ser
que
existo
e
sou
um
ser
pensante,
então
sou
imperfeito.
Mas
de
onde
veio
esta
ideia?
Comparei
as
minhas
qualidades
com
as
que
caraterizam
um
ser
perfeito.
Logo,
sem
a
ideia
de
um
ser
perfeito
–
do
que
é
ser
perfeito
–,
não
saberia
que
sou
imperfeito.
Mas
sou
a
causa
desta
ideia?
Sou
o
seu
autor?
Não,
porque
ela
representa
mais
perfeição
do
que
a
que
possuo
e
poderia
causar.
Logo,
só
um
ser
perfeito
é
causa
da
ideia
de
perfeito.
Quem
é
esse
ser?
É
Deus.
Logo,
Deus
existe.
A
importância
da
existência
de
Deus
como
ser
perfeito
1.
Afasta-‐se
a
desconfiança
no
funcionamento
correto
do
nosso
entendimento.
Provado
que
Deus
não
pode
enganar,
podemos
confiar
nas
operações
do
nosso
entendimento/razão.
O
critério
da
evidência
é
fundamentado
de
modo
que
aquilo
que
considero
claro
e
distinto
–
evidente
–
é
claro
e
distinto,
absolutamente
indubitável.
1. Supera-‐se,
em
parte,
o
solipsismo.
Com
efeito,
Deus
é
um
ser
de
cuja
existência
não
depende
do
sujeito
pensante.
3.
Deus
é
o
fundamento
metafísico
das
crenças
verdadeiras.
Garante-‐as
absolutamente
porque
garante
que
as
evidências
atuais
são
realmente
indubitáveis
e
também
que
o
serão
sempre.
O
conhecimento
torna-‐se
assim
um
conjunto
de
verdades
objetivas,
94.
independentes
do
sujeito
pensante.
A
recuperação
da
crença
na
existência
do
mundo
físico
Descartes
apercebe-‐se
de
que
há
ideias
das
coisas
que
não
são
produzidas
pelo
sujeito
pensante.
Existindo,
devem
ter
uma
causa:
as
próprias
coisas
sensíveis.
Esta
propensão
ou
crença
natural
é
legítima
e
fundada,
dado
que
Deus,
a
quem
a
devo,
não
me
engana.
O
racionalismo
cartesiano
1.
A
razão
é
a
fonte
ou
origem
do
conhecimento.
Só
as
verdades
descobertas
pela
razão
e
deduzidas
desta
têm
direito
ao
título
de
conhecimento.
O
princípio
do
sistema
dos
conhecimentos
é
uma
verdade
puramente
racional.
Os
sentidos
não
merecem
confiança.
2.
O
ideal
de
conhecimento
em
Descartes
é
o
de
um
sistema
dedutivo
análogo
ao
modelo
do
raciocínio
matemático
que
sempre
o
deslumbrou.
De
uma
verdade
indubitável
–
a
existência
do
eu
–
deduz
outras
verdades
que
devem
apresentar
a
mesma
clareza
e
distinção.
A
matemática
é
um
ideal
metodológico
e
não
a
rainha
das
ciências,
dado
que
esse
estatuto
de
ciência
primeira
pertence
à
metafísica.
3.
As
ideias
que
desempenham
um
papel
decisivo
no
conhecimento
são
ideias
inatas.
Ideias
como
as
de
eu
e
de
Deus
formam-‐se
no
pensamento
sem
o
contributo
da
experiência.
São
ideias
que,
mediante
a
reflexão
puramente
racional,
a
razão
descobre
em
si,
atualizando
o
que
potencialmente
existe
na
alma
desde
que
existimos.
O
inatismo
é
a
afirmação
da
autonomia
da
razão
em
relação
à
experiência.
4.
A
dúvida
metódica
está
ligada
à
natureza
racionalista
da
filosofia
de
Descartes.
A
vontade
de
duvidar
parte
da
ideia
de
que
a
razão
não
pode
atingir
a
verdade,
subordinando-‐se
à
experiência,
aos
sentidos.
A
dúvida
cumpre
a
função
de
devolver
a
razão
à
plena
posse
de
si
mesma,
torna-‐a
autónoma,
ao
libertá-‐la
da
dependência
em
relação
aos
sentidos
e
dos
falsos
pontos
de
partida.
95.
2
O
EMPIRISMO
DE
DAVID
HUME
RESUMO
DA
TEORIA
DO
CONHECIMENTO
DE
DAVID
HUME
Projeto
Investigar
as
capacidades
e
os
limites
do
entendimento
humano
no
que
respeita
ao
conhecimento
do
mundo
de
modo
a
evitar
especulações
inúteis
e
a
determinar
se
e
o
que
podemos
saber.
Estratégia
Estratégia
Analisar
os
conteúdos
da
mente.
Os
conteúdos
da
mente
Os
conteúdos
da
mente
são
as
impressões
e
as
ideias.
Impressões
e
ideias
são
as
unidades
básicas
do
conhecimento.
Segundo
o
Princípio
da
Cópia,
as
ideias
são
cópias
das
impressões.
As
cópias
são
menos
intensas
e
vívidas
do
que
as
impressões
que
estão
na
sua
origem.
As
ideias
são
cópias
de
impressões
e
são
por
isso
causadas
por
estas.
Têm
uma
origem
empírica.
As
nossas
ideias
formam-‐se
todas
a
partir
da
experiência.
Se
as
ideias
não
fossem
cópias
das
impressões,
quem
não
possuísse
a
capacidade
de
ter
a
experiência
da
cor
formaria
a
ideia
de
cores,
o
que
é
absurdo.
Uma
pessoa
cega
de
nascença
não
poderá
ter
a
ideia
de
branco
porque
nunca
terá
a
impressão
de
branco.
O
Princípio
da
Cópia
e
o
empirismo
Do
que
não
há
impressão
não
há
ideia.
Só
conhecemos
aquilo
de
que
temos
experiência.
O
conhecimento
começa
com
a
experiência
e
daquilo
de
que
não
há
experiência
não
há
conhecimento
O
problema
do
conhecimento
do
mundo
ou
conhecimento
factual
A
matemática
e
a
lógica
dão-‐nos
verdades
necessárias,
mas
não
nos
dão
conhecimentos
sobre
o
mundo.
Por
isso,
o
problema
da
possibilidade
do
conhecimento
é
o
de
saber
se
podemos
conhecer
os
factos
do
mundo.
Em
que
consiste
o
nosso
conhecimento
dos
factos
do
mundo
O
nosso
conhecimento
do
mundo
consiste
–
esquecendo
as
observações
simples
como
ver
o
Sol
nascer
–
em
explicações,
generalizações
e
previsões.
As
explicações
implicam
o
recurso
à
ideia
de
relação
entre
causa
e
efeito.
As
generalizações
e
as
previsões
são
formas
de
raciocínio
indutivo.
Assim,
o
nosso
conhecimento
do
mundo
baseia-‐se
essencialmente
na
relação
causa
e
efeito
e
em
inferências
indutivas.
Como
os
argumentos
dedutivos
se
limitam
às
relações
entre
ideias,
não
servem
para
conhecer
factos.
O
pressuposto
fundamental
do
nosso
conhecimento
do
Explicamos
factos,
generalizamos
observações
particulares
e
efetuamos
previsões.
O
que
subjaz
a
estas
atividades
é
a
crença
de
que
o
mundo
se
comporta
de
forma
regular
ou
uniforme.
A
crença
na
uniformidade
da
96.
mundo
natureza
é
a
que
está
na
base
da
nossa
relação
de
conhecimento
com
os
factos
que
constituem
o
mundo.
Em
que
consiste
justificar
a
possibilidade
de
conhecimento
dos
factos
do
mundo
Consiste
em
tentar
provar
que
é
verdade
o
seguinte:
1.
Que
a
ideia
de
conexão
necessária
dos
fenómenos
do
mundo
é
uma
propriedade
objetiva
das
coisas
(não
é
uma
simples
ideia).
2.
Que
os
raciocínios
indutivos
se
exprimem,
em
princípio,
pelo
conhecimento
dos
factos,
que
nos
permitem
atingir
conclusões
verdadeiras.
A
resolução
destes
dois
problemas
depende
da
solução
de
um
problema
mais
fundamental:
provar
que
é
verdade
que
a
natureza
–
os
factos
do
mundo
‒
se
comporta
de
forma
regular
e
uniforme.
Primeira
conclusão
cética:
Não
é
possível
provar
que
a
ideia
de
conexão
necessária
é
verdadeira.
Não
podemos
provar
que
acontecimentos
que
supomos
causalmente
relacionados
estejam
conectados
necessariamente.
Como
conhecer
é
explicar
os
factos
estabelecendo
uma
conexão
necessária
entre
eles,
o
conhecimento
objetivo
do
mundo
não
é
possível.
Por
que
razão
se
chega
a
esta
conclusão?
Porque,
se
todo
o
conhecimento
depende
da
experiência,
esta
não
nos
dá
contudo
qualquer
prova
(qualquer
impressão)
de
uma
conexão
necessária
entre
acontecimentos.
Podemos
pensar
que
certos
acontecimentos
são
causas
de
outros,
mas
tal
crença
não
pode
ser
justificada
pela
experiência.
A
experiência
nada
mais
nos
mostra
do
que
uma
conjunção
constante
entre
certos
factos,
mas
nunca
uma
ligação
necessária
que
faça
de
um
a
causa
sem
a
qual
o
outro
não
existe
ou
acontece.
97.
Segunda
conclusão
cética:
O
nosso
conhecimento
do
mundo
não
se
pode
basear
na
indução.
«A
causa
B»
significa
que
A
produz
B
ou
que
B
é
e
será
sempre
seguido
de
A.
Até
agora
tem
sido
assim
e
assim
continuará
a
ser.
Esta
crença
exprime-‐
se
mediante
um
argumento
indutivo,
argumento
que
nos
leva
para
lá
da
experiência
ou
da
observação
empírica.
Qualquer
argumento
indutivo,
tal
como
a
ideia
de
conexão
necessária,
pressupõe
a
ideia
de
uniformidade
da
natureza,
de
que
esta
se
comporta
sempre
do
mesmo
modo
ou
de
que
é
previsível.
Mas
essa
ideia
só
poderia
ser
justificada
mediante
o
recurso
a
um
argumento
indutivo.
Ora,
isso
é
fazer
do
que
se
pretende
provar
uma
forma
de
prova,
o
que
consiste
numa
petição
de
princípio
(não
é
logicamente
legítimo
que,
mediante
a
indução,
que
depende
da
ideia
de
uniformidade
da
natureza,
provemos
a
verdade
desta
ideia).
Assim,
o
nosso
conhecimento
do
mundo
não
se
pode
basear
nem
em
argumentos
dedutivos
–
não
tratam
de
factos
–
nem
em
argumentos
indutivos
(da
ideia
de
uniformidade
da
natureza
na
qual
os
argumentos
indutivos
se
baseiam
não
podemos
ter
qualquer
experiência).
Conclusão
cética
global:
O
conhecimento
objetivo
não
é
possível.
O
conhecimento
do
mundo
não
é
possível.
Formamos
ideias
acerca
do
modo
como
as
coisas
do
mundo
são
ou
funcionam,
mas
não
podemos
pretender
alcançar
nem
verdades
indiscutíveis
–
certezas
–
nem
verdades
prováveis.
Em
que
consiste
o
nosso
conhecimento
do
mundo
O
nosso
conhecimento
do
mundo
não
é
constituído
nem
por
certezas
nem
por
verdades
prováveis.
Não
possuímos
crenças
verdadeiras
objetivamente
justificadas.
Mas
possuímos
crenças
que,
não
tendo
um
fundamento
racional
ou
empírico,
encontram
no
hábito
ou
costume
uma
forte
base
psicológica.
As
nossas
inferências
indutivas
e
a
crença
na
conexão
necessária
entre
fenómenos
baseiam-‐se
no
hábito.
Sem
qualquer
faculdade
que
nos
permita
resolver
questões
de
facto,
não
deixamos
de
explicar,
de
prever
acontecimentos
e,
assim,
de
agir
no
mundo.
O
hábito
é
o
conhecimento
transformado
em
crença
indispensável.
O
empirismo
de
David
Hume
Podemos
caraterizar
o
empirismo
de
Hume
do
seguinte
modo:
1.
Baseado
na
investigação
das
capacidades
do
entendimento
humano,
afirma
que
o
conhecimento
começa
com
a
experiência
e
não
pode
ir
além
dela.
2.
Analisando
os
conteúdos
da
mente
envolvidos
no
ato
de
conhecer,
98.
conclui
que
a
afirmação
anterior
tem
a
ver
com
o
facto
de
que
não
há
conhecimento
de
ideias
a
que
não
corresponda
uma
impressão
sensível.
3.
Se
do
que
não
há
impressão
não
há
ideia,
não
há
ideias
inatas.
4.
As
relações
causais
que
estabelecemos
entre
os
factos
e
as
inferências
que
nos
levam
para
lá
da
«memória
e
dos
sentidos»,
ou
seja,
as
inferências
indutivas,
não
têm
fundamento
empírico.
Para
lá
da
«memória
e
dos
sentidos»,
não
há
impressão
que
justifique
a
crença
de
que
há
uma
relação
de
necessidade
entre
causa
e
efeito
e
de
que
o
mundo
continuará
a
ser
como
até
agora
tem
sido.
5.
O
nosso
conhecimento
do
mundo
não
é
constituído
nem
por
verdades
indubitáveis
nem
por
verdades
prováveis.
O
empirismo
de
Hume
é,
de
certa
forma,
um
ceticismo.
6.
Não
podemos
provar
que
conhecemos
os
factos
do
mundo,
mas
não
podemos
deixar
de
acreditar
que
conhecemos.
O
conhecimento
é
uma
crença
em
cuja
verdade
podemos
confiar,
mesmo
que
não
a
possamos
justificar.
Devemos
deixar-‐nos
guiar
pelo
hábito.
3
QUADRO
COMPARATIVO
DAS
TEORIAS
DO
CONHECIMENTO
DE
DESCARTES
E
DE
HUME
TEMAS
DESCARTES
HUME
PROJETO
Encontrar
princípios
racionais
indubitáveis
de
modo
a
justificar
que
o
sistema
do
conhecimento
seja
constituído
por
verdades
absolutamente
certas.
Efetuar
uma
análise
da
mente
que
revele
quais
as
capacidades
e
os
limites
do
entendimento
humano.
ORIGEM
DO
CONHECIMENTO
O
conhecimento
entendido
como
certeza
absoluta
não
pode
principiar
com
a
experiência
porque
os
sentidos
não
são
fiáveis.
Descartes
não
é
empirista.
É
racionalista.
Todo
o
conhecimento
começa
com
a
experiência
porque
todas
as
nossas
ideias
são
causadas
por
impressões
das
quais
são
cópias.
Hume
não
é
racionalista.
É
empirista.
OS
CONTEÚDOS
DO
ENTENDIMENTO
Nem
todas
as
ideias
são
inatas,
mas
o
conhecimento
funda-‐se
em
ideias
inatas
ou
puramente
racionais.
Todas
as
nossas
ideias
têm
uma
origem
empírica,
mesmo
as
mais
complexas
e
abstratas.
São
cópias
de
impressões
sensíveis.
Por
isso
não
há
ideias
inatas.
O
empirismo
rejeita
o
inatismo.
99.
AS
OPERAÇÕES
DO
ENTENDIMENTO
Mediante
a
intuição,
descobrimos
o
princípio
primeiro
e
indubitável
do
sistema
do
saber.
Por
dedução,
inferimos
por
ordem
outras
verdades
indubitáveis
sobre
a
relação
alma
–
corpo,
Deus
e
o
mundo.
A
intuição
e
a
dedução
limitam-‐se
ao
conhecimento
formal
das
matemáticas
e
da
geometria.
Esses
conhecimentos
a
priori
são
indubitáveis,
mas
nada
de
indubitável
podemos
conhecer
sobre
o
mundo
e
o
que
ultrapassa
a
experiência.
O
conhecimento
de
factos
depende
de
raciocínios
indutivos.
As
verdades
sobre
o
mundo,
caso
existam,
não
podem
ser
estabelecidas
dedutivamente.
A
POSSIBILIDADE
DO
CONHECIMENTO
O
conhecimento
é
possível,
sendo
um
conjunto
de
verdades
absolutamente
indubitáveis
sobre
a
alma
–
o
eu
–,
Deus
e
o
mundo.
O
conhecimento
de
factos
não
é
possível.
Nem
a
razão
nem
a
experiência
nos
dão
verdades
objetivas
sobre
o
mundo.
Temos
crenças,
mas
não
conhecimentos.
As
únicas
verdades
indubitáveis
são
as
da
matemática
e
da
lógica.
A
JUSTIFICAÇÃO
DO
CONHECIMENTO
Podemos
justificar
as
nossas
crenças
ou
opiniões
verdadeiras
porque
há
um
princípio
racional
indubitável
do
conhecimento
–
o
Cogito
–
e
um
fundamento
absolutamente
confiável
–
Deus
–
que
garante
a
verdade
das
nossas
ideias
claras
e
distintas.
Não
há
justificação
nem
empírica
nem
racional
para
o
conhecimento
do
mundo.
O
conhecimento
é
um
produto
do
hábito
e
não
da
razão.
É
uma
crença
natural
que
só
traduz
a
nossa
necessidade
de
acreditar
que
conhecemos
como
o
mundo
é
e
funciona.
OS
LIMITES
DO
CONHECIMENTO
Aplicando
corretamente
a
nossa
faculdade
de
conhecer,
podemos
alcançar
verdades
indubitáveis
sobre
o
mundo
físico
e
sobre
realidades
que
ultrapassam
a
experiência.
A
metafísica
é
a
ciência
fundamental,
a
raiz
da
«árvore
do
saber».
Do
que
não
há
experiência
não
pode
haver
conhecimento.
Por
isso
não
há
conhecimento
de
realidades
metafísicas
(Deus
e
a
alma).
A
metafísica
não
é
uma
ciência.
Nem
mesmo
do
mundo
temos
conhecimentos
certos
e
seguros.
O
nosso
conhecimento
da
realidade
é
constituído
por
verdades
indubitáveis.
O
nosso
conhecimento
do
mundo
não
é
constituído
nem
por
verdades
indubitáveis
nem
por
verdades
prováveis.
100.
TEMA
17
A
CIÊNCIA
NA
PERSPETIVA
DE
POPPER
SÍNTESE
DAS
IDEIAS
DE
POPPPER
SOBRE
O
MÉTODO
CIENTÍFICO
E
A
CIÊNCIA
TESES
CENTRAIS
1.
Uma
teoria
é
científica
se
for
testável
e
suscetível
de
falsificação
empírica
mediante
a
observação.
2.
Uma
teoria
irrefutável
não
tem
direito
a
ser
considerada
científica.
3.
O
indutivismo
é
uma
perspetiva
errada
sobre
o
método
científico.
4.
As
teorias
e
hipóteses
científicas
não
podem
ser
verificadas
nem
confirmadas,
mas
unicamente
corroboradas.
5.
Os
cientistas
exercem
uma
vigilância
crítica
permanente
das
hipóteses
e
teorias
científicas.
6.
A
ciência
é
objetiva
porque
os
cientistas
submetem
as
teorias
ou
hipóteses
a
testes
empíricos
rigorosos.
7.
A
ciência
procede
por
conjeturas
(hipóteses)
e
refutações
em
direção
a
um
ideal
de
verdade
que
nunca
atingirá,
mas
do
qual
se
aproxima
constantemente
mediante
a
eliminação
de
erros.
A
falsificabilidade
O
tema
da
falsificabilidade
permite
a
Popper
resolver
dois
problemas:
o
da
demarcação
entre
ciência
e
não
ciência
e
o
do
papel
da
indução
na
ciência.
A
falsificabilidade
é
a
caraterística
de
uma
teoria
ou
hipótese
que
pode
ser
refutada
por
alguma
observação.
O
problema
da
demarcação
O
problema
da
demarcação
consiste
em
encontrar
um
critério
que
permita
separar
ciência
de
pseudociência.
Será
científica
a
teoria
que
se
submete
a
testes
destinados
a
falsificá-‐la
e
assim
a
refutá-‐la.
A
ciência
distingue-‐se
da
pseudociência
porque
procura
falsificar
e
não
verificar
ou
confirmar
as
suas
hipóteses.
As
teorias
que
não
são
refutáveis
por
alguma
observação
possível
não
são
científicas.
E
são
cientificamente
tanto
mais
úteis
quanto
mais
riscos
correrem
nas
previsões
que
fazem.
Contra
o
indutivismo
e
o
verificacionismo
Popper
resolve
o
problema
da
indução
opondo
à
conceção
indutivista
da
investigação
científica
(que
procura
tornar
verdadeiras
as
teorias),
a
falsificação.
101.
A
indução
não
é
o
método
da
ciência
porque:
1.
Não
podemos
inferir
as
hipóteses
da
experiência
como
se
houvesse
observações
puras
ou
objetivas.
Os
cientistas
deduzem
consequências
observacionais
das
teorias
e,
submetendo
essas
predições
ao
confronto
com
os
factos,
sujeitam
as
teorias
a
testes
rigorosos.
Não
precisam
da
indução
para
formar
hipóteses.
2.
A
experimentação
científica
não
é
realizada
com
o
objetivo
de
«verificar»
ou
estabelecer
a
verdade
de
hipóteses
ou
teorias
porque
esse
objetivo
é
impossível.
A
indução
não
nos
pode
dar
certezas
acerca
da
verdade
das
nossas
teorias.
Por
maior
que
seja
o
número
de
observações
a
favor
de
uma
teoria
obtida
por
indução,
esta
pode
sempre
vir
a
revelar-‐se
falsa.
Mas
podemos
muitas
vezes
ter
a
certeza
da
sua
falsidade
adotando
um
modelo
hipotético
dedutivo
que
procura
provar
a
falsidade
e
não
a
verdade
de
uma
teoria.
A
corroboração
Uma
teoria
diz-‐se
corroborada
quando
resiste
aos
testes
destinados
a
falsificá-‐la.
Para
ser
corroborada,
uma
teoria
deve
apresentar
um
bom
conteúdo
empírico
que
restrinja
aquilo
segundo
as
suas
previsões
pode
acontecer
‒
de
modo
a
não
ser
vaga
–
e
deve
passar
em
testes
sérios
e
rigorosos.
Mas
ser
corroborada
não
significa
dizer
que
a
sua
verdade
foi
provada
nem
que
é
provável
que
seja
verdadeira.
Unicamente
não
foi
refutada
e
podemos
continuar
a
trabalhar
com
ela,
se
não
for
posteriormente
desmentida
ou
se
não
encontrarmos
uma
melhor.
A
qualquer
momento,
uma
teoria
pode
ser
refutada
por
novos
testes.
O
máximo
que
se
pode
dizer
de
uma
teoria
científica
é
que,
até
a
um
dado
momento,
ela
resistiu
aos
testes
usados
para
a
refutar.
O
progresso
do
conhecimento
científico
A
ciência
progride
mediante
o
método
das
conjeturas
e
refutações.
As
conjeturas
ou
hipóteses
–
que
nunca
podem
ser
verificadas
ou
confirmadas
–
são
sujeitas
a
testes
severos
aos
quais
podem
sobreviver
ou
não.
As
que
sobrevivem
às
tentativas
de
refutação
revelam-‐se
mais
resistentes,
mas
nunca
verdadeiras
ou
provavelmente
verdadeiras.
Constituem,
em
comparação
com
outras,
uma
melhor
aproximação
à
verdade.
O
seu
grau
de
verosimilhança
é
o
critério
que
as
torna
melhores
do
que
teorias
rivais.
Aproxima-‐se
mais
da
verdade
a
conjetura
que
resolve
melhor
certos
problemas
do
que
as
suas
competidoras.
O
progresso
científico,
mediante
a
eliminação
de
erros,
é
uma
evolução
em
direção
a
uma
meta
ideal
inalcançável:
o
ideal
da
verdade
como
espelho
fiel
da
realidade.
102.
TEMA
18
RESUMO
DAS
IDEIAS
DE
KUHN
SOBRE
A
CIÊNCIA
E
A
SUA
EVOLUÇÃO
TESES
CENTRAIS
1.
Não
há
atividade
científica
fora
de
uma
comunidade
de
praticantes
(comunidade
científica).
2.
Não
há
comunidade
científica
sem
a
adoção
consensual
de
um
paradigma
pelos
seus
membros.
3.
A
atividade
a
que
ao
longo
da
história
da
ciência
os
cientistas
mais
frequentemente
se
dedicam
tem
o
nome
de
ciência
normal.
4.
A
longos
períodos
de
ciência
normal
sucedem
de
vez
em
quando
episódios
revolucionários
a
que
se
dá
o
nome
de
revoluções
científicas,
ou
seja,
mudanças
de
paradigma.
5.
Uma
revolução
científica
traduz-‐se
numa
forma
de
ver
o
mundo
inteiramente
nova
e
incompatível
com
a
forma
de
ver
o
mundo
associada
e
determinada
pelo
paradigma
anterior.
6.
Sendo
a
expressão
de
formas
incompatíveis
de
ver
o
mundo,
os
paradigmas
são
incomensuráveis.
7.
Sendo
incomensuráveis,
não
há
acima
ou
fora
de
cada
paradigma
um
critério
ou
medida
comum
que
permita
considerar
que
um
é
mais
verdadeiro
do
que
outro
ou
que
é
um
espelho
mais
fiel
da
realidade.
8.
Assim
sendo,
não
se
pode
falar
de
progresso
científico
se
por
este
entendermos
um
progresso
contínuo
e
cumulativo
em
direção
à
verdade.
Se
pudermos
falar
de
progresso,
este
é
descontínuo,
feito
de
algumas
ruturas
ou
descontinuidades,
de
mudanças
de
paradigmas
e
não
de
transformação
de
um
paradigma
noutro.
9.
A
substituição
de
um
paradigma
por
outro
não
obedece
a
critérios
estritamente
objetivos
e
racionais.
103.
A
EVOLUÇÃO
DA
CIÊNCIA
ESQUEMA
DA
EVOLUÇÃO
DA
CIÊNCIA
Pré-‐ciência
-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐
Ciência
normal
-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐Ciência
extraordinária
-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐
Revolução
científica
-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐-‐
Novo
período
de
ciência
normal
…………….
1.
Pré-‐ciência.
Período
marcado
pela
ausência
de
consenso,
dado
não
haver
um
paradigma
partilhado.
2.
Ciência
normal.
Período
longo
em
que
um
paradigma
–
o
contexto
intelectual
e
tecnológico
da
prática
científica
–
dá
unidade
à
atividade
dos
praticantes
de
ciência.
Os
cientistas
aplicam
o
paradigma
para
determinar
que
problemas
resolver
e
como
os
resolver
e
também
procuram
ampliar
o
seu
poder
explicativo.
Este
período
assume
por
isso
um
caráter
cumulativo
resultante
da
invenção
de
instrumentos
mais
potentes
e
eficazes,
que
possibilitam
medições
mais
exatas
e
precisas,
não
procurando
o
cientista
a
novidade
nem
pôr
em
causa
o
paradigma.
3.
Ciência
extraordinária.
Período
de
crise
do
paradigma
vigente,
dado
que
as
anomalias
a
princípio
detetadas
e
relativamente
desvalorizadas
persistem
e,
dada
a
sua
gravidade,
ameaçam
as
bases
do
paradigma.
Não
basta
a
existência
de
anomalias
–
o
próprio
termo
é
significativo
–
para
que
o
paradigma
vigente
entre
em
crise.
É
necessário
que
as
anomalias
abalem
a
confiança
no
paradigma
e
suscitem
a
constituição
de
paradigmas
alternativos.
Da
união
em
torno
de
um
paradigma
passamos
à
divisão.
A
crise
pode
ser
resolvida
de
duas
maneiras:
1.
Ou
se
reformula
e
reajusta
o
paradigma
continuando
a
trabalhar
com
ele;
2.
Ou
se
abandona
o
paradigma
substituindo-‐o
por
um
novo.
4.
Revolução
científica.
Período
em
que
se
dá
a
mudança
de
paradigma
e
a
constituição
de
uma
nova
forma
de
ver
o
mundo
incompatível
ou
incomensurável
com
a
anterior.
A
transição
de
um
paradigma
para
outro
não
é
pois
um
processo
cumulativo,
mas
uma
rutura
e
uma
aposta
nas
potencialidades
do
novo
paradigma.
Se
não
conseguir
explicar
melhor
os
fenómenos
que
derrotavam
o
poder
explicativo
do
anterior
paradigma,
o
novo
não
triunfará.
5.
Novo
período
de
ciência
normal.
Estabelecida
uma
nova
forma
de
fazer
ciência
e
dotados
de
um
novo
«mapa»
para
explorar
e
investigar
a
natureza,
os
cientistas
regressam
a
uma
atividade
relativamente
rotineira
marcada
pela
preocupação
em
consolidar
o
novo
paradigma
e
em
ampliar
a
sua
aplicação.
A
INCOMENSURABILIDA
DE
DOS
PARADIGMAS
Não
há
um
critério
absoluto
que
permita
medir
ou
aferir
os
méritos
relativos
de
cada
paradigma
e
decidir
da
sua
maior
ou
menor
verdade.
Enquanto
nova
forma
de
ver
o
mundo
–
nova
mundivisão
–,
o
paradigma
triunfante
estabelece
uma
nova
forma
de
fazer
ciência,
definindo
um
novo
conjunto
de
normas
e
de
procedimentos,
que
questões
são
legítimas,
como
é
apropriado
resolvê-‐las
e
104.
mesmo
um
entendimento
diferente
de
conceitos
anteriores.
Mas
o
novo
não
triunfa
sobre
o
velho
porque
é
objetivamente
melhor.
Na
verdade,
os
paradigmas
são
incomensuráveis:
diferentes
maneiras
de
ver
o
mesmo
mundo
instalam
os
cientistas
em
mundos
diferentes.
Assim,
não
pode
haver
uma
forma
objetiva,
um
critério
neutro,
exterior
a
cada
paradigma
para
dizer
que,
na
passagem
de
um
a
outro,
houve
um
avanço
em
direção
à
verdade.
A
verdade
é
sempre
relativa
a
um
paradigma,
pelo
que
é
impossível,
dada
a
incomensurabilidade
dos
paradigmas,
determinar
se
um
é
mais
verdadeiro
ou
melhor
do
que
outro.
A
ESCOLHA
ENTRE
PARADIGMAS
Não
há
nenhum
argumento
a
priori
–
nenhum
critério
objetivamente
estabelecido
–
que
em
certa
medida
obrigue
um
cientista
a
adotar
um
paradigma
e
não
outro.
Apesar
de
Kuhn
apresentar
alguns
critérios
objetivos
que
podem
tornar
um
paradigma
preferível
a
outro
–
simplicidade,
fecundidade,
alcance
e
precisão
explicativa
–,
a
escolha
entre
paradigmas
envolve
vários
fatores
(psicológicos
e
sociais).
Assim,
mesmo
os
critérios
objetivos
são
objeto
de
apreciação
e
de
interpretação
condicionadas
por
gostos,
convicções
religiosas,
etc.
No
caso
do
triunfo
do
paradigma
de
Copérnico,
por
exemplo,
houve
cientistas
que
foram
atraídos
pela
sua
simplicidade,
outros
que
valorizaram
a
sua
capacidade
explicativa
e
outros
ainda
que
o
rejeitaram
por
motivos
religiosos.
Vários
fatores
–
científicos
e
extracientíficos
(gostos,
preferências
religiosas,
poder
político
e
mesmo
preconceitos)
‒
influenciam
a
escolha
do
novo
paradigma.
Assim,
a
mudança
de
paradigma
não
obedece
a
critérios
estritamente
racionais
e
objetivos.
Não
há
aproximação
à
verdade
na
evolução
da
ciência
porque
não
podemos
determinar
se
um
paradigma
é
superior
a
outro.
A
ciência
evolui,
mas
é
muito
discutível
dizer
que
essa
evolução
se
faz
de
forma
estritamente
racional
e
objetiva.
105.
Comparação
entre
Popper
e
Kuhn
sobre
a
evolução
da
ciência,
a
sua
racionalidade
e
objetividade
Temas
Popper
Kuhn
Verdade
A
verdade
é
a
meta
ideal
da
investigação
científica.
As
teorias
mais
verosímeis
são
as
que
explicam
melhor
os
factos,
sugerem
novas
experimentações
e
superaram
testes
em
que
as
outras
foram
derrotadas.
A
comunidade
científica
muda
de
paradigmas,
mas
não
há
forma
objetiva
de
provar
que
a
mudança
é
um
crescimento
do
conhecimento
em
direção
à
verdade.
A
verdade
é
relativa
a
um
paradigma,
e
por
isso
nenhum
é
«mais
verosímil»
do
que
outro.
Progresso/avanço
da
ciência
Há
progresso
em
ciência
porque
as
novas
teorias,
sobrevivendo
a
testes
rigorosos,
eliminam
os
erros
das
anteriores
e
assim
aproximam-‐se
mais
da
verdade.
A
verosimilhança
é
o
critério
do
progresso.
Não
há
progresso
em
ciência,
exceto
nos
períodos
de
ciência
normal.
Na
passagem
de
um
paradigma
a
outro,
não
há
forma
de
dizer
que
o
novo
representa
um
maior
avanço
em
direção
à
verdade.
Objetividade
O
crescimento
ou
progresso
do
conhecimento
é
objetivo
porque
a
nova
teoria
superou
testes
precisos
e
rigorosos,
confrontou-‐se
com
observações
tendentes
a
superá-‐las
e
resistiu.
Uma
teoria
está
mais
próxima
da
verdade
do
que
outra
quando
tem
um
conteúdo
empírico
corroborado
por
mais
factos
e
torna
compreensíveis
mais
fenómenos
do
que
outra
teoria.
A
mudança
de
paradigma
não
é
determinada
por
critérios
estritamente
objetivos,
mas
por
uma
combinação
de
fatores
extracientíficos
(psicológicos
e
sociológicos)
e
científicos
(caraterísticas
das
teorias
–
poder
explicativo,
alcance,
simplicidade
e
fecundidade).
Racionalidade
A
aproximação
à
verdade
que
carateriza
a
evolução
da
ciência
é
marcada
pela
atitude
racional
traduzida
na
vigilância
crítica
em
relação
às
teorias:
nunca
se
pode
dizer
que
deixaram
de
ser
conjeturas
e
se
tornaram
verdades.
A
evolução
da
ciência
não
é
determinada
por
uma
atitude
de
vigilância
crítica
porque
os
cientistas
tendem
a
ignorar
em
muitos
casos
as
refutações
de
que
um
paradigma
é
alvo.
Na
passagem
de
um
paradigma
a
outro,
os
fatores
lógicos
e
racionais
são
muitas
vezes
superados
por
fatores
subjetivos.
A
ciência
evolui
e
progride
de
forma
racional
e
objetiva.
A
ciência
evolui,
mas
é
difícil
falar
de
progresso
porque
a
sucessão
de
paradigmas
não
acontece
segundo
padrões
estritamente
racionais
e
objetivos.