Espiral 47

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Espiral 47

  1. 1. espiral da fraternitas moviment ternit vimento boletim da associação fraternitas movimento ANO xiII - N.º 47 - ABRIL/JUNHO de 2012 CORPO somos um só CORPO sejamos coerentes POR fERNANDO fÉLIX ecebi uma carta do nosso colega José da Silva Pin e até de afeto, sem ser sexual. Atualmente é que os homens R to, aliás grande colaborador para o «Espiral». Trans- crevo apenas alguns parágrafos, onde adensa o seusentir-se Igreja, em particular as suas dores e os seus desafios: olham para as mulheres com tensão sexual, e isso é animal. Não existe espiritualidade nesta atitude. Maria de Magdala não é uma qualquer, não é a Madalena das lágrimas, a pecadora, mas sim uma senhora de linhagem, «Há muito tempo, penso, medito e sofro: a nossa SantaIgreja Católica Apostólica tem retrocedido no número de da alta sociedade da altura e que se dedicou a Jesus, tal comocatólicos praticantes e no número de vocações sacerdotais e Joana, a mulher de Cusa, que era administrador do Reiconsagradas, em Portugal. Numa população de onze milhões, Herodes, e Susana. As três mulheres, com os seus bens, acom-os católicos são metade, porque dois milhões se afastaram panhavam o senhor Jesus que era o profeta itinerante, assimnos últimos dez anos. como os discípulos que o seguiam mais de perto.» Isto não é triste? Mais, não será motivo para nos incomo- Artur acaba com a lenda de Maria Madalena pecadora,dar, preocupar e, mais importante do que isso, pela positiva, transportada pela própria Igreja. No livro, verifica-se que essapara nos lançarmos “à pesca”, à pregação? lenda começou com uma infeliz homília do Papa Gregório Os discípulos do Senhor eram pescadores, cobradores de Magno, que, na Basílica de S. Clemente, em Roma, confundiuimpostos, médicos Tinham a cultura do povo. Desde que o Maria Madalena com a “pecadora arrependida” do evangelistaSenhor os chamou, começaram a ser homens de Fé, de muita Lucas (7,36-50). A partir de então terminou a história e prin-Fé, a ponto de darem a vida por Ele, como testemunho de cipiou a lenda. Agora tenta-se criar o Mito. Desde essa homíliaFé e de Amor fortes, indeléveis. Não teremos nós a mesma por diante houve que explorar este equívoco para satisfaçãoFé e o mesmo Amor?» E José da Silva Pinto termina dizendo das pecadoras, tendo em Madalena um exemplo, pois pode-que todos os batizados precisamos de estar bem preparados riam viver consoladas.para a responsabilidade de sermos testemunhas do Evange- E o autor assenta a sua tese em factos históricos. Bastalho pelo exemplo de vida. verificar a bibliografia que é citada para verificar que os teó- logos e biblistas o confirmam, porque está provado histori- «Sejamos coerentes! camente. Não existem dez mandamentos para os homens Por sua vez, Ana Vicente defende que a Igreja Católica e dez mandamentos para as mulheres. deverá ter uma estrutura menos hierarquizada, que permita Jesus pede às mulheres a mesma santidade que um maior envolvimento de todo «o povo de Deus» nas ques- pede aos homens.» tões essenciais. Na sua opinião, o imenso fosso que separa clero e leigos é totalmente despropositado. E, concretamen- o 32.º Encontro Nacional da Fraternitas, em Fáti N ma, de 27 a 29 de abril, centrámos a atenção numdos dinamismos da Igreja: a presença e acão das mulheres. O te, excluir as mulheres dos ministérios na Igreja vai contra a mensagem de Jesus! De facto, permite-se à mulher ler a Pala- vra de Deus, mas elas não podem receber a ordem menor detema foi orientado por Artur Cunha de Oliveira, biblista re- leitor, por exemplo. Mas é a origem dessa discriminação queconhecido, e Ana Vicente, do Movimento Nós Somos Igreja. é absurda: na Igreja o masculino é que prevalece, porque Je- O mote do tema do encontro foi a recente edição do sus era homem, sustenta o Magistério.livro «Jesus e as Mulheres. A propósito de Maria Madalena», Ana Vicente contrapõe com a frase paulina: «Não há ho-pelo Artur Oliveira. Para ele, o único propósito da obra «é o mem nem mulher, pois todos sois um em Cristo.» E arrema-de reabilitar a pessoa digníssima de Madalena e salientar a ta: «Sejamos coerentes! Não existem dez mandamentos parapessoa do Senhor Jesus, que até no trato com as mulheres é, os homens e dez mandamentos para as mulheres. Jesus pedepara nós, um exemplo de delicadeza, de atenção, de carinho, às mulheres a mesma santidade que pede aos homens.»
  2. 2. 2 espiral Livro de Artur Oliveira apresentado no Encontro Nacional POR ALÍPIO AFONSO diálogo. Uma experiência e sabedoria silencioso, passa por entre a multidão O Evangelho, enquanto Boa que faltara, no séc. VII, ao papa Gre- com um sorriso de compaixão infinita. Nova, é herdeiro das Pro- gório Magno, confundindo Maria Estende-lhe os braços, abençoa-os. Um clamações Imperiais, ditas Madalena com Maria a pecadora por velho, cego de infância, exclama do meioBoa Nova, quer agradassem quer desa- desatenção histórica e filológica, como da multidão: «Senhor cura-me e eu tegradassem aos populares, com esta gran- neste livro o nosso grande Artur refere verei.» O cego passa a ver. O povo der-de diferença, o Evangelho não é mero e contradiz historicamente. E faltara, em rama lágrimas de alegria e beija o chãodiscurso informativo mas, também e es- 1870, no decorrer do Vaticano I, a Pio sobre as marcas dos seus passos (...) Assencialmente, operativo com a força da IX, ao não atender uma delegação de crianças lançam flores à sua passagem,eficácia purificadora do mundo (Bento bispos em nome da maioria do colégio cantando: «Hossana, é Ele, deve ser Ele!XVI, Jesus de Nazaré, cap. III). pontifício, para desistir da imposição da Exclama-se: só pode ser Ele!» Por sua vez, o Evangelho esclarece e infalibilidade pontifícia, sob a alegação Chega ao adro da Catedral de Sevi-completa a revelação das velhas Escri- de não ser necessária à Igreja e de difi- lha no momento em que uma multidãoturas Sagradas que nasceram em tradi- cultar os diálogos com outras igrejas. É acompanha um pequeno ataúde brancoções religiosas marcadas por várias cul- conhecida a resposta de Pio IX: «A Igreja com o corpo de uma menina de 7 anos,turas, transmitindo-nos no seu conjun- sou eu.» filha única duma pessoa notável. «Ele res-to a convicção de ser Deus a falar-nos Estes acontecimentos pontifícios suscitará a tua menina», gritam na multi-de muitos modos. O encontro com a ajustam-se à saga do grande inquisidor, dão para a mãe lacrimosa. A mãe lança-eterna e discreta presença divina dá-se do romance Irmãos Karamazov, loca- se aos pés de Jesus e exclama: «Se és Tu,nesta sinuosidade de caminhos dos tem- lizada em Sevilha, nos tempos da gran- ressuscita a minha filha», e estende ospos (P.e Tolentino). de inquisição. Escreve Karamazov: braços para Ele. O cortejo para. Des- Esquecer esta sinuosidade pode le- «Jesus, por misericórdia, volta ao cem o caixão sobre as lajes. Jesus con-var a graves erros. Assim aconteceu há convívio dos homens sob a forma que templa a defunta e cheio de compaixão50 anos, aos 18 cardeais que acompa- tivera nos três anos de vida pública. Apa- diz: «Menina, levanta-te!» E a menina le-nhavam João XXIII na igreja de S. Pau- rece docemente, mas todos o vão co- vantou-se. Neste momento, surge olo, quando o papa anunciou a procla- nhecendo. Atraído pela sua força grande Inquisidor. Olhando para o su-mação do Concílio, considerando-o inú- irresistível, o povo comprime-se à sua cedido e reconhecendo entre a multi-til, mercê da interpretação (dogmática) passagem e segue-lhe os passos. Jesus, dão a pessoa de Jesus, manda-o pren-declarada no Concílio de Trento. Este der. Naquela noite, em silêncio, vai terconcílio separou a revelação inteiramente com Ele à prisão e diz-lhe: «Tu não po-da ciência como afirmou ao programa des fazer mais nada, o que tinhas a fazerEclesiae, em 22/03/12, o presidente já está feito. Agora somos nós que man-dum Instituto de Teologia, tornando temos aquilo que disseste.»norma o princípio do «Roma locuta Para um cristão não há diálogo maiscausa finita». Deu asas novas ao divór- perturbador, comenta o P.e Tolentino.cio latente entre a razão e a fé abando- Mas é esta, muitas vezes, a religiosidadenando a dialética de aproximação às ci- oficial, ao dizer-se: Deus é isto, o seuências, de que são testemunhas as cartas nome é aquilo. Deus tem de ficar ali en-de Paulo, a Cidade de Deus de Agosti- caixado, submisso: «Tu não podes, Tunho, a Súmula Teológica de Tomás de não podes!»Aquino, etc, etc. Por falta de diálogo eclesiástico-ci- João XXIII tinha toda a razão hu- entífico conclui o teólogo J. I. Gonzalez:mana e divina consigo, reforçada no «A Cúria é responsável por mais ateusexercício da nunciatura em vários paí- que Marx, Nietzsche e Freud juntos.» Eses, ao proclamar um novo concílio o teólogo, sociólogo e filósofo Anselmocomo chave para reabrir as portas do Borges, em 11/12/01: «O atual papa
  3. 3. lespiral 3enquanto cardeal Ratzinger converteu- a cooperação dos três. Em presençase para muitos no principal obstáculo deles, o Espírito Santo talha a cada qualpara a Fé.» o seu caminho, de acordo com o pró- O Vaticano II (1962) não foi tão lon- prio carisma.ge como desejara João XXIII. Às re- Cinco exemplos:formas iniciais - tradução litúrgica do 1. Teillard de Chardin no seu es-latim nas línguas vernáculas, reformu- pantoso testamento espiritual que é a sualação catequética e atualização do Direi- Missa sobre o Mundo:to Canónico - seguiu-se um grande si- - Senhor já que uma vez mais longelêncio. Até hoje está longe de traduzir das florestas da França, aqui, nas este-para o grande público todas as suas de- «Ou respondemos aos homens e mu- pes da Ásia, não tenho pão, nem vinho,duções, devido ao travão imposto pe- lheres de hoje com uma linguagem de nem altar, eu me elevo acima dos sím-las velhas Comissões Consistoriais. Vem hoje, acompanhando a ciência, ou con- bolos até à pura majestade do Real, efaltando a muitas a coragem de pôr a tinuaremos a assistir ao esvaziamento das vos ofereço, eu, vosso sacerdote, sobreIgreja contemporânea a refletir sobre a nossas igrejas», afirmou D. António o altar da terra inteira, o trabalho e ohistória no mundo contemporâneo, ar- Couto, bispo de Lamego, desafiando, sofrimento do mundo... coloco sobre aticulada nos dois eixos complementa- por isso, os fiéis a seguirem com aten- minha patena, meu Deus, a messe espe-res: - Pensar a diferença/Viver a dife- ção os novos tempos com respostas rada deste novo esforço. Derramo so-rença - (sendo isto) o cerne do Vaticano cristãs atualizadas, contrapondo ao faci- bre o meu cálice todos os frutos queII que não acrescentou verdades para litismo existencialista, o valor cristão do hoje são esmagados...acreditar (monge Sertório). amor das Bem-Aventuranças, atualizado A oferenda que esperais agora, Se- O último - um fumo branco notó- em nós próprios e no fermento da mas- nhor, aquela de que tendes imensa ne-rio - tem a data de 1993, saído da Co- sa que nos rodeia. Doutra forma o mun- cessidade cada dia para aplacar a vossamissão Pontifícia Bíblica, ao declarar que do continuará a passar-nos de lado por fome, para acalmar a vossa sede, é oo «o método histórico-crítico é indis- culpa nossa, por não cumprimos o pre- crescimento do mundo impelido pelopensável para O ESTUDO CRÍTICO ceito evangelizador - «Ide e ensinai». (As- devir universal.DO SENTIDO DOS TEXTOS AN- sembleia Diocesana, 27/03). Este pão, o nosso esforço, não é emTIGOS.» Também Bento Domingues falando si, eu o sei, mais que uma degradação Aqui entra em pleno o nosso mestre da doutrina social da Igreja reafirma que imensa. Este vinho, a nossa dor, não é,Artur. Por sua vez, como apóstolo ela deve incarnar em cada época as exi- ainda, ai de mim, mais que umaavalizado da Boa Nova, o Artur não gências do Evangelho. Quando se pro- dissolvente poção. Mas, no fundo destaguardou os talentos para si e seus fami- cura responder, apenas, com as palavras massa informe, colocastes - disso estouliares. Vem-nos dividindo connosco nes- de LEÃO XIII e de Bento XVI, corre- certo, porque o sinto - um irresistível etes encontros e com tantos outros em se o risco de identificar a Igreja com a incessante desejo que nos faz a todosencontros similares e nas várias obras Hierarquia, desprezando a pluralidade da gritar, desde o ímpio ao fiel: «Senhor,publicadas, a última das quais é a base realidade social estudada por Jean Yves fazei-nos Um» no Amor.da presente reflexão. Calvez e tantos outros (Mail, 25/03/12) 2. Teresa de Calcutá, que a Deus re- Este decreto é a confirmação do que Certamente que a presente falta de zava assim: «Senhor, não te importeso Artur sempre afirmou. Nas entreli- diálogo com o mundo contemporâneo com o que eu sinto.» E que de Deusnhas do texto diz-se que a revelação não é uma das causas responsáveis pela per- dizia: «Quero amar a Deus por aquiloacabou, como o Artur nos vem de- da de dois milhões de católicos em Por- que Ele tira. Ele destruiu tudo em mimmonstrando. Deus continua a revelar-se tugal, na última década? (...) O pensamento do Céu nada signifi-aos povos, segundo a capacidade de en- Por sua vez, esta rulote em andamen- ca para mim e contudo vivo esta ânsiatendimento destes. Tal como afirmam to reveste-se de vários formatos, que nos torturante de Deus (...) Se alguma vezo P.e Tolentino, em recente entrevista e são descritos pelos exegetas, linguistas, vier a ser Santa serei com certeza umaD. Manuel Clemente, em resposta ao in- filólogos e teólogos, comprovados pe- santa da escuridão». Não ficou como avestigador Cardoso Bernardes. D. Ma- los exemplos dos santos e confirmados Santa da escuridão mas do Amor, leva-nuel, neste contexto, atribui à Igreja o pela hierarquia. Os exegetas, filólogos e do ao extremo das suas capacidades.papel de estalagem rulote em andamen- teólogos como guias teóricos, os santos 3. Zaqueu. Na sequência do encon-to, (acrescentando), uma Igreja que pare como modelos, a hierarquia como au- tro com Jesus mudou de vida, compro-não chega a Deus (J.N. 18/03). toridade. As rotas seguras pressupõem metendo-se a distribuir metade da for-
  4. 4. 4 espiraltuna pelos pobres e a restituir em quá- com os cotovelos apoiados no balcão ao Inferno. Não foi isso que eu senti.druplo o que roubara aos clientes. ouve-os condoído e responde-lhes: «Só Na Alemanha, uma família protestante, - Hoje veio a salvação a esta casa, o Deus sabe quanto os lamento. Agi como muito jovem, convidou-me para jantar.Filho do Homem veio para procurar e pasteleiro, desconhecendo o que se ti- O mesmo aconteceu com uma famíliasalvar o que estava perdido - confirmou nha passado.» Convidou-os a sentarem- muçulmana.Jesus. Um Amor arrependido, justo e so- se, a tirarem os casacos ao mesmo tem- Perante eles, pessoas admiráveis, pen-lidário. po que ia colocando duas chávenas na sei o que na altura era um enorme atre- 4. O jovem monge, que desafiou a mesa. Os pais passaram a ouvir o que o vimento: em primeiro lugar somos to-regra. A história é sobejamente conheci- pasteleiro tinha para lhes dizer. Calma- dos homens, não podemos andar aquida. Eram dos dois monges peregrinos. mente foi falando. Provavelmente, pre- a levantar barreiras. Este convívio trou-Chegados a uma ribeira encontram uma cisam de comer alguma coisa. Espero xe-me a primeira crise. Fez-me repensarjovem e bela mulher angustiada, à espe- que comam estes bolinhos ainda quen- a Igreja e a própria figura de Jesus.»ra de alguém que a passasse para o ou- tes, feitos por mim. Foram comendo. Este livro do Artur – «Jesus Cristo etro lado. Vendo-os, pede-lhes insisten- As palavras do pasteleiro criaram neles as Mulheres» – insere-se neste aprofun-temente para a transportarem às costas. um clima de acolhimento e escuta. A sua dado repensar científico-cristão.Um pedido que ia contra as regras. generosidade enxugara-lhes parte das Sobre a forma como recebeu a acu- O mais novo colocou as regras de lágrimas e foi-os abrindo ao perdão. sação de herético, em 1970, o P. eparte e satisfaz-lhe o pedido. Chegada à Amor plurifacetado e mutuamente per- Anselmo Borges respondeu: «Fui consi-margem oposta, a mulher agradeceu e doado. derado herético pelo bispo de Portalegrecada qual seguiu o seu destino. O mon- As Rulotes acima, divergentes de então. Foi-me acusar ao diretor doge mais velho levou o resto da viagem a enquanto modelos, convergem na ISET, mas o diretor esteve muito bemrecriminar o colega, até que ele se en- propulsão que é a idêntica em to- e desafiou-o a apresentar por escrito ascheu de coragem e lhe ripostou: «Eu das - Fé e Amor. Os únicos moto- minhas heresias, que, tanto quanto sei,transportei a mulher entre as margens e res que permitem avançar espiritu- não terá feito.»deixei-a, tu, transportaste-a até aqui.» almente, tornando o Reino de Deus Não teremos todos nós passado porAmor que faz o bem sem olhar a quem. presente em nós e no mundo, como apreciações semelhantes? Algo parecido fizemos nós padres diz, também, o P. e Tolentino. Sobre quais as experiências mais mar-casados. Transportámos contra as regras Neste contexto, vêm a propósito as cantes nestas lutas, respondeu: «Várias.da ordem a mulher bela e presenteira, seguintes respostas do P. e Anselmo Uma foi acabar com o Inferno. Tinhade entre as melhores de todas, falo por Borges, fornecidas a determinado jor- 45 anos. Foi em 1989, numa viagem deum meu familiar que conhece muitas de nalista, pela afinidade que mostram com comboio, depois de ler «A História devós, que encontrámos à beira do rio da o sentir da Fraternitas em geral. Deus», de Schillebeeckx (...) Foi uma li-mudança. Depois fomos mais longe que A uma pergunta sobre quando terá bertação. Não há condenados (...) Maso jovem monge. Prosseguimos a viagem começado a pensar que para conviver há Céu? Espero convictamente que najuntos, por mútua afeição. com a humanidade toda teria de renun- morte não cairemos no nada, mas na No que nos diz respeito ao pensar ciar a Deus e à Igreja, respondeu: plenitude de Deus. Sou ortodoxo nodo mais idoso, a Zélia e eu próprio «Renunciar, não. Mas rever, sentido de seguir a reta doutrina. Tal qualcompreendemos a sua reação instituci- desconstruir e reconstruir. Foi aos 25 como Bento XVI em «Jesus de Naza-onal, face ao velho Direito Canónico anos.» ré». E continua: «Em 1994, tive de for-que, neste ponto, não mudou uma vír- Por aqui passaram as vidas de todos mar um puzzle: eu, Deus, os outros, asgula. Sobrepusemo-nos a tudo e manti- nós, Senhoras e Homens da Fraternitas. ciências. E consegui articular a minha févemos sempre uma relação de amizade A uma outra sobre como lidou com com os diferentes saberes e sabores ee de respeito mútuo com a hierarquia. outros credos e outras maneiras de ser os diferentes posicionamentos dos ho- 5. O pasteleiro condoído. Um casal cristão, mormente quando frequentava mens e das mulheres, ao longo dos tem-pela manhã encomendara um bolo para a Universidade Gregoriana Pontifícia e pos. Agora estou de bem. Foi um pro-o aniversário de um filho. Pelo meio- fez férias na Alemanha, respondeu: «Sa- cesso muito, muito doloroso. Tive dedia o jovem morre atropelado e os pais íamos de Portugal e de Roma desconstruir muito do que me tinhammergulhados na dor não mais pensaram dogmáticos. Fora da Igreja, que tudo sa- ensinado.»no bolo. Desconhecendo o sucedido, o bia, não havia salvação. Enquanto miú- Um caminho que vimos todos fa-pasteleiro recrimina-os uma e mais ve- dos fomos permanentemente formados zendo dentro da Fraternitas sob o pre-zes pelo telefone. Uma saga que só aca- nisso. Diziam-nos que os protestantes cioso impulso do Santo P.e Filipe.ba quando, passada a maior dor, os pais eram gente com quem nós não podía- Quanto à fé pessoal, respondeu: «Avão explicar-se à pastelaria. O pasteleiro mos contactar, que estavam condenados minha fé convive com a dúvida. É fé, página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: direccao@fraternitas.pt * blogue: http://fraternitasmovimento.blogspo
  5. 5. l espiral 5 embora com razões. A fé não tem a ver, sumado na doação de Jesus: o meu ali- tava a moldá-lo. O perdão é o regresso em primeiro lugar, com os dogmas. Não mento é fazer a vontade de meu Pai que ao amor. Deus que nos criou não deita acreditamos em dogmas. Isso são coi- me enviou e consumar a sua obra (Mt. fora o barro de que somos feitos. sas, o divino “coisificado”. Nós acredi- 39, 46). Com Jesus o mundo deixou de A oração que Jesus nos ensinou, é tamos em Deus.» ser só o cosmos original, é um mundo um sim continuado e concreto ao Amor, É o diálogo entre a ciência e a fé. redimido expresso nas entrelinhas destas palavras O modelo global de orientação está O Fiat da (3.ª criação), o nosso Fiat de S. Paulo: no Pai-Nosso. No seu conteúdo reside dentro do mandato «Ccrescei, - Ainda que eu fale a língua dos ho- o caminho da santidade, dirigido a to- multiplicai-vos, dominai a terra.» É o Fiat mens e dos anjos, se não tiver amor sou das as mulheres e homens, independen- da criação atual. A vida cósmica cor- como um bronze que soa ou um temente do tempo e do espaço vitais. rente, por vontade de Deus depende, címbalo que retine. Por outro lado, a maior e fatal desgraça também, do homem. Um poder dele- Ainda que eu tenha o dom da pro- que pode acontecer a alguém é não cor- gado que nos engrandece. Como no fecia e conheça todos os mistérios e toda responder a este convite, é não ser san- deserto, onde um poço escondido o tor- a ciência, ainda que eu tenha tão grande to. Sempre que recitarmos consciente- na belo, nós somos belos pela beleza fé que transporte montanhas, se não ti- mente o Pai-Nosso estamos a actualizar latejante de Deus em nós e em nosso ver amor, nada sou. em nós o Fiat da criação e da redenção. redor. Ainda que eu distribua todos os meus (P.e Tolentino): Ao pedirmos ao Pai - o pão Nosso bens e entregue o meu corpo para ser O Fiat da 1.ª Criação da (terra e mar, de Cada dia nos dai hoje - estamos a queimado, se não tiver amor, de nada dia e noite (...), plantas e animais, mulhe- dizer que somos uns para os outros na me aproveita. As profecias terão o seu res e homens). No que respeita à huma- escuta da palavra, no silêncio e no riso, fim, o dom das línguas terminará, só o nidade a criação não tem por base o a no dom e no afeto e no alimento ne- amor jamais passará (1.ª Cor, 13) ordem divina do faça-se mas o façamos cessário. É de vida partilhada que as Ter mino com esta frase de ... o ser mulher e homem à nossa ima- nossas vidas se alimentam. Nietzsche: «Se a Boa Nova da Bíblia es- gem e semelhança. E se nalgum momento nos desvia- tivesse escrita, também, no vosso rosto, O Fiat da Redenção (Faça-se, Pai a mos do caminho do amor, há que vol- não teríeis necessidade de insistir na fé Tua Vontade e não a minha) (também tar atrás e fazer como o oleiro de Isaías de modo tão obstinado. As vossas ações chamada 2.ª criação pelos padres da (18, 1-4) que quando um modelo não tornariam supérflua a leitura da Bíblia. Igreja, iniciado no Fiat de Maria e con- lhe saía bem misturava-o à massa e vol- Cada um de vós seria a própria Bíblia.» A questão do “muitos” e do “todos” na consagração do vinho POR Artur C . de Oliveira Artur C. Missal Romano se lê, na fórmula euca- sermos), é a referência que Paulo faz à refeição fraterna dos fiéis de Corinto S egundo informação vaticana rística da consagração do vinho e a pro- de 30 de abril, Bento XVI teria pósito do sangue do Senhor Jesus: qui (1Cor.11,17-34) – esta Primeira Carta enviado aos bispos católicos da pro vobisetpro multiseffundetur in de Paulo aos Coríntios terá sido escrita Alemanha uma mensagem determinan- remissionempeccatorum, o que dá em uns vinte e poucos anos após a morte do que a expressão pro multis, isto é, por português e consta dos missais do Senhor Jesus. Nele, Paulo afirma muitos, da consagração eucarística do vi- canonicamente aprovados e em uso: der- taxativamente: Com efeito, eu recebi do nho, e que em várias línguas (incluindo a ramado por vós e por todos os homens Senhor o que também vos transmiti: na portuguesa) é atualmente traduzida por para remissão dos pecados. Assim tam- noite em que foi entregue, o Senhor tomou o todos, seja a preferida, porque mais fiel bém em outras línguas, em que o multis pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse ao texto bíblico. É verdade, filologica- do Missal Romano, isto é, muitos, é tra- “Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; mente. Mas não, semanticamente. E em duzido por todos. Quem tem razão? Va- fazei isto em memória de mim”. Do mesmo hermenêutica bíblica, se interessa a mos a ver. modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: filologia, mais, muito mais nos deve in- Observações Prévias “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue: teressar a semântica. O primeiro documento bíblico que todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em me- Consagração eucarística do vinho nos informa sobre o que hoje conside- mória de mim (1Cor.11,23-26). E mais não É verdade que no texto original do ramos a Eucaristia (ou a Missa, se qui- disse. Paulo nem escreveu.ot.com * e-mail: secretariado@fraternitas.pt * página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: tesouraria@fraternitas.pt
  6. 6. 6 espiral Outros bem puxados vinte anos de- texto é: derramado em prol da multidão, e A (21,22)? Ademais, é e bom que se digapois, o médico Lucas, caríssimo discí- Boa Nova Para Toda A Gente, da Soci- em abono da ciência bíblica, as narrati-pulo e companheiro – Como bem se edade Bíblica, publicada em Lisboa em vas da Ceia de Despedida nos Sinópticosfica a saber pelo uso do plural por Lucas 1978 (Novo Testamento), com a apro- não correspondem por inteiro ao que,em Act.16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1- vação de D. António, bispo do Porto, historicamente, então se terá verificado,28) e colaborador de Paulo (Cl.4,14; presidente da Comissão Episcopal da não repugnando, por isso, que constitu-Flm.24; 2Tm.4,11), na narrativa da Ceia Doutrina da Fé, e cuja versão é: derra- am criações da primitiva Comunidadede Despedida do Senhor Jesus escreve: mado em favor da humanidade. Claro que Cristã face à prática cada vez mais gene-“Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, di- isto não são versões mas interpretações. ralizada de se reunirem os fiéis discípu-zendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu S. Jerónimo quando, no século IV, tra- los do Senhor Jesus em comunitárias esangue, que vai ser derramado por vós” duziu a Bíblia do hebraico e do grego fraternas refeições a que, pouco a pou-(Lc.22,20), no que está essencialmente de para o latim, foi filologicamente (e acen- co, se foi dando carácter sagrado.acordo com Paulo (1Cor.11,25), diferin- tuo: filologicamente) fiel ao original, ver- Em segundo lugar, o plural dodo, quanto ao sangue, apenas naquele: tendo: qui pro multiseffundetur. E da Vulgata adjetivo grego polús, pollê, polú (muito) éque vai ser derramado por vós. E nada mais. Latina terá passado para o Missal Ro- usado, tanto no grego clássico, como no Os dois outros Sinópticos (Marcos, mano. Mas, bem ou mal? Mal, porque grego bíblico do Novo Testamento noque escreveu antes dos demais, e Mateus) não se trata apenas de uma questão sentido da totalidade, de todos. Assim,dão-nos as seguintes versões sobre o filológica, mas também, e sobretudo, por exemplo, quando Paulo escreve aosmesmo: Depois, tomou o cálice, deu graças e semântica. Ou, por outras palavras: o que Romanos:Se pela falta de um só homem (eientregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse- é que aquele texto grego quer dizer: mui- gàrtôito?enòs (um) parapt?mati) todos morre-lhes: “Isto é o meu sangue da aliança, que vai tos ou todos? ram (hoipolloiapéthanon), com muito mais ra-ser derramado por todos…” (Mc.14,23-24). Estou convencido de que quer dizer zão a graça de Deus, aquela graça oferecidaSegundo Mateus: Em seguida, tomou um cá- todos e pelas seguintes razões: por meio de um só homem (enósanthôpoy), Jesuslice, deu graças e entregou-lho, dizendo: “Bebei Primeira: A tradição cristã em voga Cristo, foi a todos (eis toyspolloys) concedida emdele todos. Porque este é o meu sangue, sangue no tempo tanto da redação dos Evan- abundância (Rm.5,15). Aqui, não há dúvi-da Aliança, que vai ser derramado por muitos, gelhos segundo Marcos e Mateus, como da, o sentido do adjetivo grego é o depara perdão dos pecados (Mt.26,27- totalidade (todos) e não apenas28). Embora no texto grego ori- de pluralidade (muitos). E, maisginal, e quanto ao sangue derra- abaixo, volta Paulo a usar polys,mado, a expressão num e nou- pollê, poly no mesmo sentido detro evangelista seja a mesma, é totalidade: De facto, tal como pelanotável que a tradução em Mar- desobediência de um só homemcos e Mateus do termo grego (to?enòsanthôpoy), todos (hoipolloi) sepollôn, que é o busílis da questão, tornaram pecadores... (Rm.5,19).não seja a mesma: todos, em Mar- Finalmente, o argumento dacos, e muitos, em Mateus. Afinal analogia da fé. Como é que queem que ficamos? Em todos ou esta opção pelo muitos (sanguesó em muitos? Segundo Bento derramado por muitos), em vezXVI deverá ser muitos. Segundo de todos, se compagina com asme parece e justificarei, literari- afirmações bíblicas (e não é ago-amente, o tradutor de Marcos tem ra- no tempo de S. Jerónimo, era a de que ra caso de tomar em mãos o tema, quezão: são todos. o Senhor Jesus de Nazaré era o Messias. isso nos levaria longe) da universalidade A chave da questão Na Sua Paixão e Morte realizara o pre- da salvação messiânica? Por desfastio, Não há dúvida nenhuma de que o dito pelo Segundo Isaías (século VI a.C.) leia-se, entre outras, qualquer das seguin-termo grego pollôn – que significa «mui- sobre o Servo de Yahwéh: “Por isso ser- tes citações: Lc.3,6; Jo.3,17;4,42;12,47;to», «numeroso», e similares – se pode lhe-á dada uma multidão como herança, há de Act.4,12;28,28; Rm.11,11; 1Tm.2,4;4,10;traduzir, à letra, por muitos. Assim leio na receber muita gente como despojos, porque ele Tt.2,11; 1Jo.4,14.quase dúzia de versões portuguesas que próprio entregou a sua vida à morte, e foi conta- Conclusãopossuo, à exceção de duas: a TEB - a do entre os pecadores, tomando sobre si os peca- Filologicamente, é possível a tradu-tradução ecuménica, publicada no Bra- dos de muitos (rabbim, no hebraico) e sofreu ção: derramado por muitos. Semântica esil pelas Paulinas em 1995, com reco- pelos pecados (Is.53,12). Quem não lê esta exegeticamente, não. Por isso, está certomendação do Presidente da Conferên- parte da “profecia” repercutida na fór- e bem traduzir-se: derramado por todos, nacia Nacional dos Bispos Brasileiros, e cujo mula consecratória do vinho em Mateus fórmula consecratória do vinho.
  7. 7. lespiral 7 Breves notícias do Secretariado ABRIL MAIO DO ARMANDO: «Acabei o segundo romance Quem DO MANUEL P. BARROSO CARTA DE JOSÉ S. PINTOmatou a Laurissílvia?, que está com um JORGE «Fiquei muito contente com opossível editor para ver... Mas aquele si- No dia do seu aniversário, dia 12: Foi policromado cartão (...) bem estrelaDolêncio não é de ouro, é de ferro...» No atropelado na passadeira há quatro me- com os nomes e rubricas dos e das nos-dia 12: «Faleceu hoje, nos EUA, a irmã ses. Fraturou o perónio, andou engessado sas companheiras de viagem (cartãomais nova da Pamela. Abraços de Res- ficando imobilizado cerca de três me- timbrado da Fraternitas, assinado pelossurreição.» ses... Andou também em cadeira de ro- participantes do Encontro Nacional em das. Fátima). Já sabem que enquanto o Se- DO VINCENT nhor me quiser dar a magnífica – e, para Foi submetido a uma intervenção INAUGURAÇÃO mim, humanamente, alegria – de mecirúrgica para extração de um cálculo DAS INSTALAÇÕES deixar ver (...) rosto da nossa compa-num ureter, no dia 24. No dia 26: «Cor- da Fundação Cónego Filipe nheira Mariazinha – eu não podereireu tudo bem... em relação ao do rim de Figueiredo comparecer em corpo e alma, nos nos-direito, terá ainda seguimento hospita- (Estarreja)/Sessão solene, dia 19: A sos (também meus) Encontros. Estou,lar, Cidália.» sessão foi presidida por um represen- aí, em Fátima, em espírito, memória, tante de S. Exa. o ministro da Solidarie- pena e oração. (...) Já não me conhece RESPOSTA DE D. ANTÓNIO dade e da Segurança Social e a missa de como marido ou familiar, há cerca deTAIPA ao convite para Assistente Es- bênção presidida por D. António Fran- dois anos e não fala há cerca de 1,5 ano.piritual, no dia 29: «Infelizmente não po- cisco dos Santos, bispo de Aveiro. Esti- Reconhece-me, pela voz, que já ouve háderei aceitar o convite, mas ficarei dis- ve presente, mas à mente ocorreram- 37 anos. (...) Eu sinto-me o mais feliz,ponível para uma outra situação em que me palavras ditas, escritas e sonhos dos aquele a «Quem a quem o Senhor distri-as coisas se conjuguem melhor.» tantos sonhos daquele santo de Padre, bui a melhor parte» (...)» que (a manuscrito) assim terminava as UASP suas cartas para os casais: “Tenho-vos No passado dia 27 de abril, o bispo sempre presentes no Altar e no coração, DO ÂMBITO DA SAÚDE,de Leiria-Fátima, D. António Marto, as- a vós e aos filhos, com a maior estima. são muitos e cada vez mais os asso-sinou o decreto de reconhecimento O muito Amigo, Pe. Filipe.” ciados que vão padecendo das suasCanónico da UASP - União das Associ- Recebemos já o nº 3 de “Entre Ge- maleitas, dores das suas doenças, queações dos Antigos Alunos dos Seminá- rações”, Jornal da Fundação, que desen- em família, são duplicadas, quandorios Portugueses, dando assim existên- volve toda a página 13 para a não triplicadas. Anotaram-se, aqui,cia legal, à luz do direito canónico e, pela FRATERNITAS MOVIMENTO. apenas algumas ocorrências pontu-Concordata, do direito civil, a esta es- Consultar www.fcff.pt. ais.trutura nacional, que queremos ao ser-viço dos ideais humanistas da Igreja e MATRIMÓNIOda sociedade. de Fernando Félix e Maria José A UASP congrega Associações deantigos alunos dos seminários portugue- Bijóias, no Santuário do Senhor Jesus do Carvalhal, dia 26. «Este é o dia de ale- JUNHOses, Diocesanos e Religiosos. Vem dar gria, que o Senhor preparou para nós», MENSAGEMcorpo a um sonho que surge da ideia de repetia-se no Cântico de Entrada. DO P.E RUI SANTIAGOcongregar e fazer interagir forças emer- «Acompanhemo-los com o nosso Dia 25: «Já pensei na temática para ogentes de um fenómeno global e de afeto e amizade e com a nossa oração», Encontro da Fraternitas de 5 a 8 de ou-importância nacional marcantes: o espí- surgiu na Saudação, e que assim seja. tubro. Podemos chamar-lhe assim: An-rito e a cultura introduzidos na socieda- «Deus viu tudo o que tinha feito: era tudo demos de Esperanças! A Esperançade do último século, a partir dos Semi- muito bom», ouvimos na 1.ª Leitura (Gn como fio condutor da Narrativa Bíbli-nários Portugueses, no que respeita aos 1, 26-28, 31a). Ao casal muitos parabéns, ca.» bênçãos e graças divinas. POR uRTÉLIA sILVA uRTÉLIA sILVvalores, à ciência e cultura em geral.
  8. 8. 8 espiralHomenagem a Henrique Maria dos SantosEm 13 de abril último, partiu para do por acontecimentos políticos e reli- Ao reflectir sobre essas vivências noa Eternidade este sócio–fundador nº 37, casado com Maria giosos de certo vulto. (...) No campo re- Seminário, e pense-se o que se pensar Humberta Nunes de Freitas San- ligioso, o Distrito e a minha aldeia vivi- da teoria “einsteiniana” sobre a “relati- tos, havendo um filho, am, e comentavam, o grande escândalo vidade” do espaço e tempo, e diga-se o residente(s) em Évora. Foi orde- ocorrido: a fuga do 1º Bispo da Dioce- que se disser, acerca do segundo, como nado presbítero em 5 de agosto se de Vila Real, então Arcebispo-Bispo apenas uma Quarta dimensão, o que nin- de 1943 em Vila Real. – D. João de Lima Vidal que havia ne- guém por certo duvidará é da relativi- Segue uma singela homenagem gado funeral religioso àquele que fora o dade do “tempo psicológico”, a dura- através de excertos do livro de 1º Governador Civil da República, no ção, dado da consciência e do tempo esua autoria Aventura Feliz, Évora espaços sociais. São estes últimos espa- Distrito, o professor primário Avelino autor 31 or, 1999, edição autor, 31 1 pp. Samardã. Receoso de enfrentar o pro- ços e tempos os que mais interessam ao pOR Urtélia Silva Urtélia Silv testo dos republicanos D. João de Lima memorialista. Aqui tudo é relativo: o Vidal fugira, pela calada da noite, para homem na temporalidade e o mundo N a dedicatória, a manuscrito Aveiro, sua terra natal. social como sua criação, dimensões da no livro oferecido à Eu, reflectindo o espírito que anima- sua existência. Se observarmos bem Fraternitas: «Não tenhais va estes acontecimentos, comecei logo quando reflectirmos nisto e recordar-medo..» Sou o Henrique M. dos Santos a sintonizar a corrente de opinião em mos o nosso passado e tento mais quan-nesta “AVENTURA FELIZ” da vida. que mais tarde havia de assentar arraiais. to mais velhos somos nunca devemosViver é conviver. Viver é amar. No ban- (...) em 7 de Outubro de 1933 aparecia perder de vista esta importante verda-quete da vida a Amizade é o pão e o eu no Seminário de Vila Real, após o de: o que eu pensei na infância e na ado-Amor é o vinho. A vida é divina porque meu exame de admissão, causando, as- lescência, até mesmo na mocidade, aquiloé bela. (Laus Deo VirginiqueMatri! Sanfins sim, grande espanto em todos quantos que eu fui, então, o que eu vi e senti, nãodo Douro 1920-2000” – Pag. 3; me conheciam, principalmente ao meu é exactamente o mesmo que que sou e À minha Mulher e meu Filho – De professor Matos e a todos os colegas como vejo e sinto hoje. (...) Não digamalguns milhares de páginas que tenho es- de escola que nunca tinham observado que a Verdade, com maiúscula, é só uma,crito, numa vida já bastante longa, pas- em mim feitio eclesiástico. – Pag. 13-21. absoluta e imutável. Eu respondo: serásada a estudar e a escrever, são estas, sem Cap. II – RECORDAÇÕES DA assim talvez filosoficamente e sobretu-dúvida, as que eu queria que fossem ADOLESCÊNCIA – Foi, pois, na do metafisicamente. Mas o que está lon-menos desvaliosas (pag. 5). companhia de minha querida e saudosa ge de ser uma é a maneira de exprimir Cap. I – RECORDAÇÕES DA IN- mãe que entrei para aquele casão enor- essa Verdade hipotesiada quando elaFÂNCIA - (...) Saber quem somos é a me que acabava de levantar as suas pri- exista, e, de reagirmos sobre ela, assimnossa primeira obrigação. Mas saber a meiras paredes.(...) Minha mãe não po- como, por exemplo, é sempre diferenterazão porque aparecemos nesta vida é dia ir além da portaria. Escusado será a forma que reveste a água consoante oalgo que fica no domínio do misterioso. dizer que na vida do Seminário nunca recipiente com que a colhermos.É pois, mistério desta vida: Nascer!... entrava sob o mínimo pretexto que fosse Vem todo este discurso, moderada- Sob o fulgor desse belo céu azul do qualquer ente feminino. A mulher era mente relativista, a propósito de eu que-Alto Douro, nasci em 11 de Novem- considerada um objecto perigoso que rer dizer que à medida em que eu fuibro de 1920, na linda e pitoresca aldeia, se impunha manobrar com muita pru- crescendo física e espiritualmente até estehoje, Vila, de Sanfins do Douro, conce- dência. E a verdade é que a razão talvez momento em que me encontro, de res-lho de Alijó e distrito de Vila Real. Foi não faltasse por aquilo de que me fui peitável ancião de provecta idade quenaquela terra bendita que tudo come- apercebendo… Como é possível a vida tenho, via tudo sob uma cor assaz dife-çou para mim. Foi, ali, que tomei os pri- deixar-se encaixar, assim, com tanto ri- rente daquela com que vejo hoje apósmeiros contactos com o deslumbrante gor, ético-religioso, dentro da redoma sessenta e quatro anos. «A idade dá-nosespectáculo da vida, que recebi as pri- formada por conceitos tão rígidos e perspectivas novas, mais amplas, dasmeiras impressões, que conheci os pri- pouco elásticos?! Que se deve entender realidades que formam o horizonte dameiros júbilos, que chorei as primeiras por más companhias, más leituras, im- nossa consciência».lágrimas. (...) Nos tempos da minha in- pureza? Tudo em concreto tão discutí- Dura-se, vive-se, como chama defância o Distrito de Vila Real foi agita- vel! (Pag. 23). vela que a si mesmo se consome; a
  9. 9. lespiral 9 Enquanto o ilustre antístite viveu tudo vi esclarecidas e pelo modo cruel e realizei sem medida ou reserva para cor- impiedoso como a Igreja governava e responder não só ao pacto estabeleci- governa. do mas, também, movido pelo muito Não concordava com Governo Di- carinho e apreço que o ilustre Prelado tatorial da Igreja… Não suportava a vi- merecia. olação dos direitos humanos a que as- Porém, a diferença de carácter e tim- sistia no interior da Igreja, o sentimento bre do sucessor deste Bispo, o profun- do poder sagrado e eclesiástico. Agora, do desgosto que senti pela morte do nesta aventura da vida sou um homem Papa João XXIII, golpe que me levou feliz. A Liberdade, como fenómeno psi- à cama com riscos de vida, pois, tão cológico e valor fundamental à volta do profundamente senti o desaparecimento qual giram as grandes transformações do insigne Pontífice que veio ofuscar culturais do nosso tempo foi a respon- toda a esperança que eu depositava sável pelos ex-padres, que como eu, e numa Igreja renovada; a minha consci- nesta ocasião, acabaram no seu casamen- ência de Padre adulto, tudo isto, me le- to, a maioria provenientes de camadastemporalidade na vida está no tempo vou decididamente a solicitar ao Vatica- sociológicas rurais determinados porobjectivo, absoluto; é pura dimensão da no a minha redução ao estado laical. tabus e pressões psicológicas.existência. Assim ocorreu comigo. Cres- Nesse estado afirmo-me, hoje, ser, Assim, só no ano em que abdiquei,ci, tomei a mais funda consciência atra- sem escrúpulos ou sem remorsos, com tomaram o mesmo gesto, em todo ovés da minha existência, do meu pró- verdade de homem feliz e realizado que País, 548 (quinhentos e quarenta e oito)prio eu, e, surgiu em mim, quase de re- procurei sempre ser aquilo que devia ser. sacerdotes, deste modo registados epente, um acirrado espírito crítico pe- Não rejeito nada do que fui, nem nego confirmados nas diversas Dioceses:rante um ambiente em fui preparado nada daquilo que fiz. No ambiente que Em Vila Real, diocese a que eu per-para a vida.Tudo isso que destilei e ad- aí fica descrito fui Padre com bastantes tencia, 43; Aveiro, 70; Braga, 110; Beja,quiri no Seminário e na vida, em suma, contrariedades mas com alegria e me re- 12; Algarve, 2; Lisboa, 70; Porto, 115;sem quebra, aliás, de certa estima, res- alizei no exercício deste ofício o melhor Coimbra, 34; Guarda, 24; Lamego, 15;peito e gratidão, e, em alguns casos, de que pude; sou agora, esposo feliz e pai, Portalegre, 17; Viseu, 5; Bragança, 47;franca admiração por alguns dos meus orgulhoso da mulher que tenho e de um Évora, 12.educadores, o devo àqueles com quem filho que tenho que prezo. A minha saí- Sem receios de trambolhões, depoisemparceirei na vida. Os meus «espaço e da de Padre depois de trinta anos, mais de ter dado o salto, tenho procuradotempo» foram-se tornando, então, ou- de um terço do caminho normal no iti- sempre fazer de cada derrota um de-tros. Os pontos de vida, os centros de nerário de uma vida, o meu dar o salto, grau, de cada obstáculo uma escada paraque partiam em mim a observação e as foi apenas a escolha de uma nova for- atingir e permanecer no caminho darelacionações do vivido deslocaram-se; ma de caminhar na esperança de cum- verdadeira vida. É na luta, no combateem breve mudariam. Como não havia prir a existência em novas metas que era que se obtém mais forte o nosso Querer.eu de mudar, também? preciso alcançar e vencer. Não vencer é ser derrotado. Aceitar o Mas, como deixo já antever, esta É necessário ter coragem para desa- condicionalismo que a vida impõe émudança nascida como que de um im- fiar ou mesmo aceitar todos os comba- cobardia. O esforço e a perseverança sãopulso súbito só depois, através de uma tes e contrariedades do futuro. Recusei as verdadeiras regras que devem ser aca-evolução lenta, veio a atingir o seu pon- conscientemente uma ordem estabele- tadas para atingir o êxito. Como Wattto alto no momento em que me encon- cida que era um caos, pus de parte um não me deixei embarrilar pelas dificul-tro. (Pag. 30). lugar, um título, uma situação cómoda. dades que me impunham. Saltei o muro (...) Assim, quando terminei o Cur- Pensei e repensei na coragem necessária das convenções. Escolhi o caminho emso, pela confiança que mereci e conquis- para desafiar todas as contrariedades que frente e avante!...tei, fui chamado a ocupar um dos luga- pudessem aparecer. Fruto de um longo Mudei de campo, de combate e deres de maior responsabilidade, sendo amadurecimento podem-se reduzir a caminho a seguir. Fiz mal? Só os mor-investido na função mor da Abadia da quatro palavras a razão que me levou, tos e os tolos é que não mudam. Pode-Sé, e autorizado a publicar um semaná- para além de outras, ao meu gesto: So- mos sempre viver de pouco quando te-rio que por sugestão do ilustre Prelado lidão, Revolta, Solidariedade e Pressão. mos muito porque viver. Este muito éficou a denominar-se: “A VOZ DE A Igreja não respeitava, nem respei- o Ideal, o Ideal de beleza, de grandeza,TRÁS OS MONTES”. O pacto foi ta, os direitos totais da pessoa humana. darmo-nos ao nosso semelhante e a lutacumprido religiosamente. Saí, pois, por questões de Fé que nunca pela fraternidade universal.
  10. 10. 10 espiral Não podemos esquecer que o Ideal no. O sol mergulha no Ocidente paraé complemento indispensável do verda-deiro homem. Nós não sabemos do emergir no levante; o homem anoitece no sepulcro para amanhecer na Eterni- Henrique,somos capazes quando o Ideal nos ani- dade. A sepultura, a cova é, também, Fma. O melhor que existe em nós é me- berço: para cada corpo que recebe nes- aleceu em Évora, com 91lhor do que podemos compreender e, te mundo agérrimo entrega um recém- anos, o Dr. Henrique Mariaesse melhor ainda se transforma, se nascido a outro mundo melhor. O áto- dos Santos, nosso grandetransfigura, quando se trata de fazer uma mo não pode aniquilar-se. Por isso, das amigo, que foi Sócio Fundador da As-coisa nobre. Mas para isso é necessário pulverizações do cadáver surgem as ra- sociação FRATERNITAS MOVI-ser consciente e viver o problema da diações que nós chamamos espírito, MENTO, na qual marcou presençaVerdade e da Liberdade. A vontade cer- alma. Quando a morte encontra a vida, constante e ativa, enquanto a saúde lhoceada, peada, mutilada, é insuficiente algo desta fica a cintilar nas trevas da permitiu. Ainda me lembro do encon-àquele anunciar, discutir, e acordar que morte. Esta realidade com a qual todos tro de homenagem que fizemos emfaz mister, á acção esclarecida e à ciên- nós deparamos deve-nos levar a con- Évora ao nosso Fundador Cónego Fili-cia. Escolhi a Liberdade, a livre vontade cluir que a ideia e a palavra, falada ou pe de Figueiredo, onde ele esteve comdo respeito à verdade, Não tenho medo escrita, substitui a força e a tirania; as hi- todo o seu entusiasmo e muitonem receio do meu procedimento. Par- erarquias e as classes se devem aproxi- participativo na organização, e no finalti de um determinado ponto, fiz a tra- mar e distar menos umas das outras. (...) do segundo dia o fui levar a casa por-vessia da vida e cheguei onde me en- Todos nos devemos esforçar para ser a que era novembro e estava frio no Se-contro, serenamente, conscientemente. A Sociedade em que estamos enxertados, minário onde o encontro se processou.vida na sua expressão integral foi sem- uma família. Nasceu em Sanfins do Douro em 11pre para mim exacta, rectilínea. Deste A Sociedade em que vivemos devia de novembro de 1920. Foi Pároco dajeito, o que fica registado, nestas pági- ser uma translúcida confederação de Sé de Vila Real durante 30 anos, e sernas, de uma AVENTURA FELIZ, não todos os espíritos na dulcíssima unida- pároco da Sé implica ter confiança doé um desculpável devaneio, mas sim, um de do mesmo afecto. Como Luther seu bispo e de todos os sacerdotes devibrar forte, intenso, perante o avistar da King que sonhava em voz alta eu afir- Vila Real. Acumulou essas funções comestrela boieira e me arrebatou do me- mo: “os homens foram feitos para vi- as de professor de Religião e Moral dolhor da minha vida, da minha personali- verem uns com os outros como irmãos. Liceu, onde deixou nome como homemdade, e me levitou, guindou, da terra al- (...) A fraternidade seja mais que uma sim- distinto e de ideias arejadas. Sempreçando-me aos longes dos longes, ao ples palavra no final de uma oração. muito pontual. Quase nunca faltava e osIdeal.(Pag.38, Capítulo II, pag.s 23 a 38). Com esta fé, poderemos trabalhar jun- alunos que o conheceram tinham por ele EPÍLOGO – (...) Perante a repug- tos, orar juntos, lutar juntos, ir para a uma extraordinária admiração, porquenância que se tem e se sente ao nada e prisão juntos, conservar a liberdade jun- não tinha medo de dizer as verdades empela convergência que todos temos ao tos. Sentarmo-nos juntos à mesa da fra- quaisquer circunstâncias. Habituei-me ainfinito, ao nosso finar há-de correspon- ternidade”. admirá-lo depois dos meus 12 anos. Erader, realmente, a imortalidade que fica A Humanidade é composta por ho- minha tia Maria a zeladora da capela deregistada nas nossas obras. mens e mulheres. O homem personifica Nossa Senhora da Almodena. Ele fazia Entre o berço e o túmulo, entre o o espírito que é sublime e a mulher sim- sempre uma novena preparatória comarrebol e o crepúsculo da vida, distende- boliza o sentimento do belo. Estes dois muita objectividade e muito amor e ca-se, alinha-se, engrena-se, uma longa sé- seres devem-se completar mutuamente rinho pela Mãe de Deus. Não lia pelosrie de pontos, uns negros, outros lumi- com as suas qualidades diferentes, os- livros. Falava sempre olhos nos olhos.nosos, que como tantas voragens nos tentando reunidos o fundo imortal da Eu ficava embevecido a ouvi-lo. Todasvão dia a dia absorvendo a seiva e exau- natureza humana. É este o sentimento as pessoas sentiam respeito e admiraçãorindo as forças. (…) Ao chegarmos ao que tenho vivido e destilado com mi- por este homem. Chegou a ser profes-último palpitar do coração figuramos nha mulher, por um mundo melhor em sor no Seminário de Vila Real, impon-uma flor emurchecida, uma árvore que conflui, se concerta, converge e iden- do-se pelo aprumo e galhardia.desfolhada. Somos sombra de nós mes- tifica, o nosso filho. (...) expansão de duas Depois decidiu-se pelo casamentomos ao penetrar a região das sombras. vidas, (...) que connosco faz parte da com Maria Humberta dos Santos, queSó além morte a treva será luz, a luta grande família que é a Pátria que nos viu era natural dos Açores, onde residiramdescanso, o mérito recompensa, o mar- nascer e a Humanidade, o todo, a que algum tempo, sendo até professor natírio gozo, - sabedoria sem dúvida, -ven- pertencemos e sintonizamos. Escola Industrial da Horta (no Faial).tura sem fel, - justiça e a perene Laus Deo Virginique Matri!”- Pag.s Passaram depois para Évora, onde fi-florescência da glória e a visão do Eter- 306 a 308.. xaram residência e chegou a leccionar
  11. 11. lespiral 11 grande amigo e sócio fundadorem praticamente todo o Alentejo, ten- ram com ele qualquer conversa sobre o o percurso da sua vida, que foi muitodo sido Presidente do Conselho Dire- assunto, sentindo-se magoado por isso. cheia de tudo o que possamos imaginar.tivo da Escola Secundária do Redondo, Foi um homem de causas. Enfren- Vida linda até à exaustão.passando mais tarde para Reguengos de tou com dignidade a ditadura de Sala- Num dos últimos telefonemas queMonsaraz, onde se reformou. zar. Lutou incansavelmente pela igualda- fiz para a família, disseram-me que esta- No seu currículo constam diversas de social de todas as pessoas, procuran- va a escrever um livro sobre “a Fé”, parainiciativas de carácter social, destacando- do que todos tivessem o necessário para deixar de recordação ao filho. Como foise nessa linha a criação de uma cantina viverem com dignidade. Era tolerante e para o hospital fazer uma pequena ope-na Sé, onde chegou a acolher cerca de compreensivo para com todos e acima ração à anca e se previa que dois dias200 crianças e muitos idosos com ne- de tudo nos terrenos que pisou levava a depois estivesse em casa, apanhou umacessidades. Para satisfazer ao essencial de mensagem de Cristo Salvador. Percor- pneumonia e dela acabou por falecer,tanta gente fundou “A Voz de Trá-os- reu quase todo o Alentejo fazendo con- sem que alguém o pudesse prever. NãoMontes”, propriedade da mesma canti- ferências de todos os níveis e procuran- acabou o livro, mas a esposa e o filho,na, que depois da sua transferência para do amar todos os que com ele se cruza- que é advogado, estão com vontade deAçores e Évora foi (sem o seu consenti- vam na vida. Um Homem com Letra o finalizar. Parabéns pela ideia, formamento) passada para a posse da Dioce- grande. Deixou-nos um livrinho, onde brilhante e digna de o homenagearem.se, sendo nomeado seu Diretor o padre conta a sua vida, que se chama Aventura Saibamos honrar este homem deAntónio Maria Cardoso, que pelo me- Feliz. Ofereceu-mo na primeira vez que Deus. Talvez o tenha dado a conhecernos de nome continua a sê-lo. Falei com estivemos juntos em Fátima. Lê-se de mais depois de deixar o exercício dasele particularmente sobre isso e disse- um fôlego, tal é a atração como diz as ordens. A vida tem destes segredos.me com alguma tristeza que nunca tive- coisas.Ali descreve em pormenor todo POR Serafim de Sousa Na Páscoa do Henrique… quete onde TODOS temos o lugar C arta aberta à Maria Humberta e a todos os meus irmãos e irmãsda Fraternitas... A despedida daqueles cujas vidas cru- zam a nossa vida deixando nela uma marca de Beleza, Alegria e Paz não marcado com uma “pedrinha branca”. Nela está escrito o nosso verdadeiro Trazemos em nós, desde o instante pode acontecer como ausência – “mor- nome, o nome que só nesse DIA sabe-primeiro, duas dinâmicas que se acom- rer é só não ser visto”, diz Sophia e os remos. E esse é o DIA sempanham como irmãs gémeas – A Vida poetas sabem o que dizem… entardecer…o DIA da nossa Páscoa. Oe a Morte… Esquecemos isso demasia- Àqueles que se apaixonam, acontece PRIMEIRO DIA!das vezes e, mesmo quando dizemos que a MELHOR, a MAIS PRECIOSA de Na outra margem da Vida, não maisa Morte faz parte da vida, estamos a todas as riquezas – apaixonarmo-nos de nos magoaremos uns aos outros, nãopensar que “é só lá para o fim da vida verdade, amar de verdade, faz-nos in- haverá mais morte, nem sofrimento, nemque a morte é uma parte dela”. capazes de viver sozinhos, de nos luto, nem lágrimas… Toda a dor e toda Mas…A Biologia diz-nos que pare- centramos em nós, de fechar os nossos a angústia foram vencidas pela Vida semce que não é bem assim. olhos por dentro, de fechar os ouvidos confins. E a Fé faz-nos acreditar que, fazen- à Humanidade… Porque Deus SÓ é BOM!do da nossa Vida um Dom, quando ela Na Fé, acredito que o milagre maior E…”porque a Vida está cheia de mi-acabar, também acabou a morte – não das nossas vidas é sermos passados dos lagres; e a morte é o maior e mais estra-haverá mais nada em nós para morrer e braços de quem mais amamos para os nho deles todos”(Rui Santiago)a Morte ficará de mãos vazias … braços de quem mais nos ama – um Pai Por isso, sempre que Celebramos a Todos, mais cedo ou mais tarde so- Todo Poderoso em Amor. Vida, a Graça, o Perdão e a Alegria,mos confrontados com a despedida dos Porque a nossa Esperança e a nossa Celebramos COM todos os que amá-que amamos…Porque “toca a todos”. Fé estão em Jesus ressuscitado. Nele está mos e tendo desaparecido dos nossos E todos morremos, sim, mas não da a nossa Salvação! Nele vivemos e nos olhos estão VIVOS e vivem entre nósmesma maneira. Porque a maneira de movemos! com Cristo ressuscitado!morrer tem tudo a ver com a maneira É esse Jesus que nos acolhe e nos lava Porque vos amo muito.como vivemos. os pés à entrada do GRANDE Ban- POR Glória
  12. 12. 12 espiral “PARA VÓS, SOU O VOSSO BISPO, palavr vras Santo Agos gostinho, V, cristãos foi As palavr as são de Sant o A gos tinho, já no século V, aos cris tãos de Hipona, quando f oi nomeado bispo. Mas calham bem, aplicadas ao nosso querido e saudoso D. Albino Cleto, que todos conhecemos, estimámos e acompanhámos no seu roteiro-itinerário do melhor humanismo e da mais cativante cordialidade, bem como de uma bem meritória e louvada missão. POR Manuel Ferreira da Silva (Primo) da Silv S empre jovial no seu modo rosos pensamentos. Nem o báculo lhe da diocese, foi testemunho institucional humaníssimo de lidar e privar deu ares de potestade canónica. Nem eloquente de homenagem, reconheci- fosse com quem fosse - pois os mais altos cargos e missões o afasta- mento e devoção pastoral.nunca discriminou ninguém - desde os ram da clara e humaníssima amizade Foi ainda com a Sé repleta de diri-bancos da escola até ao seminário, e até com os amigos. Era um muito pessoal gentes das Santas Casas de todo o dis-atingir a cúpula máxima do sacerdócio, testemunho de proximidade. Alguém trito de Coimbra que, no jubilosocomo até Deus lhe fechar os olhos e que, pelo seu testemunho, a todos nos passamento dos seus 75 anos, todas asdar ordem de descanso ao seu coração, ensinava como saber estar, fosse com Misericórdias da diocese homenagearamfoi D. Albino o padrão da mais trans- quem quer que fosse. com particular, jubilosa e festiva ceri-parente e fraternal cordialidade. Não sabia escrever nem viver com mónia o seu prestimoso e muito esti- Homem da sua família, Cidadão da reticências. A sua vida foi sempre de uma mado Bispo.sua terra, Lusitano da sua serra. transparência cativante. Nunca ninguém Com bispos do teor pastoral de Nunca o deslumbraram nem títulos lhe surpreendeu qualquer sombra de D. Albino, as Misericórdias sabem onem capelos académicos, que os tinha, alma. O seu sorriso era o sol da sua vida, que é, e como estarem com a Igrejae com mérito; nem cargos eclesiásticos e que a muitos iluminou. Tudo nele era sem serem da Igreja; não como tribunaque, aliás, lhe foram confiados, e exer- um testemunho de verdade, transparên- de poder e decretos, mas como exem-ceu sempre com o mais generoso de- cia e cordialidade. E sabia como pou- plo e estímulo pastoral a tudo o que sejasempenho; nem incensos de cos ser e fazer-se mais próximo do seu um bem fazer em irmandade, e sem dis-pastoralidade eclesial e de teor mera- próximo. E sem qualquer discriminação. criminações de qualquer ordem, e commente canónico. No momento do Congresso Naci- o melhor espírito de confraria huma- Era, o que se pode dizer, um Bispo onal das Misericórdias em Coimbra, em nista e cristã. Não olham a quem ser-no seu melhor, e sempre em dia com o abril de 2011, as Santas Casas prestaram- vem, nem discriminam quem nelas eseu dia-a-dia; o que lhe mereceu ser o lhe gratíssima homenagem, pelo muito com elas queira servir. São Santas Casasque se diz “um homem em dia”. pessoal e peculiar zelo pastoral que sem- de portas abertas. O mérito do seu hu- Foi a sua morte uma surpresa. Como pre dedicou às Santas Casas, que foi manismo ecuménico pertence-lhes deum eclipse de alma, o cintilar de uma manifestamente sublinhado nas palavras direito e por vocação.estrela, ou o deslizar de um meteoro. de aplauso, louvor e congratulação de Na hora em que Deus o mobilizou Vejo-o retratado por si próprio, em toda a comunidade misericordiana. para outras e mais altas missões, comopalavras que ele mesmo escreveu a meu Particularmente a Misericórdia de a de interventor no Céu por todas aspedido para alguém, mas que as aplico Coimbra, e com todas as Misericórdias nobres Causas que serviu na terra, o seua ele agora com um mérito muito seu: nome é lembrado como quem lhe reza,“Aquilo que hoje sou deita raízes muito sabendo, como publicamente é sabido,fundas dentro de mim: o respeito por quanto as Misericórdias – a começarDeus e pelo Sagrado, o amor à Igreja, pela de Manteigas, sua terra natal – lheas convicções da Fé, a alegria no servi- estavam no mais quente do coração.ço da Comunidade, o encanto com as Apostando numa “Nova Evangeli-festas cristãs, tudo isso germinou em zação e Novos Caminhos para a Igre-mim desde pequeno, e à medida que os ja”, ainda recentemente – abril de 2003olhos o iam contemplando.” – sublinhava à FRATERNITAS: “O Ele fez da sua vida um reflexo sua- mundo da Igreja tradicional acabou. Atéve, e do mais grato sabor, daquilo que o mundo da nossa infância já não exis-nele sempre dominou: a alegria de ser e te”. Então a primeira coisa que há a fa-a generosidade de servir. Nunca a mitra zer agora é escutar a realidade social eme o solidéu lhe atrofiaram os mais gene- que a gente vive.
  13. 13. lespiral 13CONVOSCO, SOU UM DE VÓS” E, quando se trata de perceber qual - No seu modo de ser pastor, foi oo sentido da caminhada a cumprir, é que mais cativante testemunho de uma pas-é preciso ter sempre presente que o Se- toral de proximidade e convívio; e quenhor Jesus é o pioneiro de todos nós. foi sempre, e também, uma pastoral deEle é a vanguarda. Importa, por isso, benevolência, de compreensão, de jus-procurar saber o que Jesus fez e ensi- to critério, e de uma humaníssima almanou, a maneira como actuou, com quem de acolhimento, sem quaisquer reticên-se entendia, como os discípulos foram cias nem discriminações.apreendendo a sua mensagem através - Cumpriu-se o que ele sempre de-do que Ele fazia e dizia, e pelo modo sejou: vontade de voltar à serenidade ecomo abordava as pessoas e as reco- ao silêncio. Mas não se lembrou de que,lhia; e como, após a ressurreição, essa morte em nada lhe mudou o semblante como a S. Francisco Xavier, se lhe apli-mensagem era transmitida. Cada coisa da alma, aprendi com a sua abalada deste ca com mérito a legenda: “O defuntonova deve encarar-se com o espírito de mundo que morrer não é acabar. É di- ainda fala”.acolhimento; mas também com a cons- latar a vida para além do tempo, à di- - Foi a pé ao encontro da morte.ciência de que isso é o que se pode ar- mensão da Fé em que D. Albino acredi- - Foi um homem à frente do seu tempo.ranjar. tou e ensinou a acreditar – e daí, o cha- - Intérprete da sociedade e dos mais Para além de tudo o mais, até pelo mar-se-lhe “vida eterna”. necessitados, deixou por onde passouseu modo muito pessoal de conviver, Morrer foi apenas deixar a condição uma marca sua muito própria de hu-o generoso ganhador de amigos, foi de peregrino, e entrar no Santo dos San- manismo e cativante bondade.D. Albino um dos Homens da Igreja tos, no santuário eterno, onde o tempo - Um homem simples muito próxi-do melhor espírito de missão já não se conta. mo dos mais pobres, destacando-se o seuecumenicista; e que, tendo sabido ser Quando em Manteigas puder pere- humanismo, a ponderação, a simplicida-com a sua muito pessoal pastoralidade grinar até junto do seu túmulo, conver- de, a sua presença constante junto de quemde humaníssima convivência, o Bispo do sarei com ele, e vou contar-lhe, como mais precisava da sua bondade.melhor espírito ecuménico, admitiu que quem lhe reza as contas da saudade, o Um bispo do povo, e de quem sem-em obras e instituições pastorais da Igreja que dele disseram, que partiu tão rápido pre quis sentir-se próximo.possam participar cidadãos menos fa- e com surpresa para todos. Nunca lhe tremeram as pernas, se-vorecidos, como os divorciados; estan- E foi assim o que recolhi a seu res- não só no dia em que o Cardeal D. An-do, aliás, na mais ortodoxa linha pasto- peito de entre os muitos e sensibilizantes tónio Ribeiro o informou de que iriaral do Concílio Ecuménico, que já dá testemunhos: ser nomeado bispo.fundamento para não serem excluídos - Homem de serviço generoso, com Todos estes dados foram colhidosde participar na Pastoral socio-caritativa horizontes abertos e sem reticências na em fontes de informação e comunica-da Igreja, conforme o jornal diocesano alma. ção social: Diário de Notícias, Diárioda Cáritas de Coimbra fazia publicar e - Respirava Fé e transpirava sereni- de Coimbra, Diário de Aveiro, Voz dalembrar o que nos documentos concili- dade e confiança, bem como bondade Verdade, Voz das Misericórdias, Notí-ares já estava consignado: e presença sempre jovial, e sempre mui- cias de Manteigas, Voz Portucalense, O “O grupo socio-caritativo –neste to próximo dos mais pobres. Dever, A Guarda, A Defesa, Espiral,caso as Misericórdias – é um espaço pri- - Foi um pastor de atenção e aten- Notícias da Covilhã.vilegiado na Igreja para integrar pessoas ções para com todos, e sem discriminar Na hora em que o Céu no-lo arre-“afastadas” de outras acções pastorais, quem quer que fosse. batou, não lhe dizemos “adeus!”; por-por razões “jurídicas”, como por exem- - Soube promover estruturas, e sem que continuaremos a senti-lo connosco.plo, muitas pessoas divorciadas” (Caritas delas se tornar escravo nem senhor, sem- A saudade sublinhará sempre uma pre-Diocesana, Maio 2003). pre capaz de compreender e acompa- sença de quem já partiu. Mas dizemos- Pastoral da benevolência, da compre- nhar a evolução dos tempos e dos acon- lhe só, e na mais agradecida amizade-ensão, do justo critério, de uma tecimentos saudade: “até um dia!”humaníssima alma de acolhimento, que - Lembrá-lo é mais do que alimen- Se alguém lhe deve saudade-amiza-dá corpo real à palavra de Cristo “vinde tar apenas uma saudade; é prolongar- de, tenho um especial orgulho nessa dí-todos a Mim…” lhe a memória no exemplo da sua vida, vida, porque me fica como uma marca Agora que o Céu o chamou, e a que foi sempre para todos. na alma.
  14. 14. 14 espiralFAMÍLIA E IGREJAnos caminhos da Nova Evangelização artigos Borges Teles, residente Segue-se uma seleção dos ar tigos do associado Joaquim Bor ges Macedo Teles, residente em Meridãos(Tendais), concelho de Cinfães, que têm vindo a ser publicados com regularidade, quinzenalmente, no jornal(Tendais), quinzenalmente, diocesano “Voz de Lamego”, com a assinatura BORGES MACEDO (BM). A seleção é de Urtélia Silva. NOTA PRÉVIA FAMÍLIA E EDUCAÇÃO ANTE MATRIMÓNIO Foram publicadas as conclusões a Não foi por acaso que um grande investigador sobre EDUCAÇÃO chegou ànível nacional sobre os caminhos da nova conclusão de que a verdadeira educação «começa 20 anos antes do ser humanoevangelização na Igreja, na sequência dos nascer». (...) Quem se debruçar sobre o documento do Conselho Pontifício para atrabalhos que se vão desenrolando na Família, verificará que da preparação para o Matrimónio Cristão e Católico fazlinha de se «Repensar a Pastoral em Por- parte a preparação remota (...), próxima (...) e imediata (...). Chegamos à conclusãotugal». Consta no ponto 19 dessas mes- de que da Família é que parte toda a formação. (...) e se as nossas famílias vivemmas conclusões: «Criar dinâmicas de longe de Deus, como podem dar aos seus membros o Amor que esse mesmocompromisso nas comunidades locais e Deus tanto lhes dedica? (B.M., 15.11.11)na Igreja diocesana, nos vários sectoresda pastoral (...).» Compreende o ponto EDUCAÇÃO EM FAMÍLIA, DESDE A INFÂNCIA3 do Programa Pastoral da diocese de De facto estamos convencidos que mais ninguém, mas absolutamente, podeLamego: «Opções pastorais para a nos- substituir uma família, na verdadeira acepção da palavra, quando se trata de pro-sa diocese para o ano pastoral 2011- porcionar uma boa educação.2012: Família e Igreja nos caminhos da (...) Nós, IGREJA DO SENHOR JESUS CRISTO, precisamos de formar osnova evangelização.» futuros pais e os que de momento enfrentam um ambiente difícil, para que estes reconheçam que sem Deus no centro da Família é impossível educar os seus filhos, FAMÍLIA E EDUCAÇÃO desde o seu primeiro momento de vida já no seio materno. (B.M., 30.11.11) É habitual ouvir-se dizer que as fa-mílias abdicaram da educação dos fi- FAMÍLIA E EDUCAÇÃO NA FÉlhos. Os pais acham que não são capa- Onde estão os cristãos seguidores do Mestre dos mestres, do Senhor dos se-zes de educar porque, como não que- nhores para levar os responsáveis pela Educação (...) a imitar a família de Nazarérem dar aos filhos a educação que re- nas pessoas de JOSÉ, MARIA E JESUS? (...) Como é feliz a família que se deixaceberam, classificando-a de antiquada conduzir pela Palavra do Senhor Jesus!... «Família que reza unida permanece uni-e desajustada aos tempos “modernos”, da.» (...) Como é belo e dá felicidade tentar fazer com que a Palavra de Deuspreferem deixá-los entregues à sua sor- oriente o rumo de vida de cada família (...), quando o Deus da Palavra está nate ou à sociedade em que vivem. Ou nossa ação. Mas para que isso aconteça é necessário ter uma intervenção e açãoseja, fazem o mesmo que o agricultor à contínuas e permanentes. (...) Vamos empenhar-nos em evangelizar, usando todasárvore que semeou ou plantou: deixa-a as forças e energias que o Senhor nos concede. (B.M., 27.12.11)entregue à terra onde a colocou, não seimportando de que ela tenha adubo ou FAMÍLIA E PRESENÇA DE DEUSestrume, água suficiente; não coloca uma A Sociedade em que vivemos tende a esquecer Deus, colocando-O fora do seuestaca para que ela cresça direita e com percurso. Isto verifica-se de uma maneira especial na vida da Família. (...), confor-segurança; não corta os rebentos que a me recordou S. Paulo a Timóteo: «diante de Deus e de Cristo Jesus, que há-depodem minar ou desencaminhar; não a julgar os vivos e os mortos, peço-te, encarecidamente, pela sua vinda e pelo seupoda para que ela não cresça reino: proclama a Palavra, insistem em tempo propício e fora dele, convence, re-desordenadamente, não chegando a dar preende, exorta com toda a compreensão e competência» (2 Tm. 4, 1-2). Acreditofrutos. (...). Enfim: Para quando a for- que se Paulo vivesse nestes tempos, preocupar-se-ia com a realidade do sentimentomação humana e cristã dos pais? Para de «intimismo» que se verifica nos membros da sua Igreja, ostracizando tudo aquiloquando a formação das verdadeiras que deveriam dizer e fazer sem medo e com a força interior de quem prega aquilofamílias? Para quando a preocupação que deve ou devia viver. (...) Vamos criar grupos de famílias, por mais pequenosde que os jovens só serão verdadeira- que sejam, em cada comunidade paroquial que tentem levar por diante um progra-mente seguros na fé, se tiverem uma ma de formação a fim de que sejam fermento para o mundo que tenta destruí-las.família que os apoie? (B.M., 1.11.11) (...) Deus, que nos ama e nunca nos abandona, que quer construir uma sociedade de AMOR, se torne o centro da vida familiar. (B.M., 17.01.12.)
  15. 15. lespiral 15 FAMÍLIA E IGREJA O AMBIENTE SOCIAL E A FAMÍLIA NOS CAMINHOS Como cristãos não nos podemos deixar levar por pessimismos exagerados ao DA NOVA EVANGELIZAÇÃO verificar que o ambiente social é adverso à existência de uma família sólida e cristã Cada vez dou mais realce àquela fra- em profundidade. Mas, muito menos devemos embarcar no optimismo exagera-se de Pascal (...): «Cristo morreu de bra- do de quem perante um mundo de facilitismo desenfreado, deixa correr, entra noços abertos para que nós não vivêsse- caminho do já não há nada a fazer, ou tudo está bem porque isto ainda não estámos de braços cruzados.» Decorreu, du- mau como dizem (...). O Senhor Jesus quando chamou os primeiros discípulosrante três dias, com início em 29 de disse-lhes a determinada altura «vinde e vede» e ainda «vigiai e orai». Encaremos amovembro de 2011 a vigésima Assem- realidade. O que quereria Jesus significar com as expressões que acabo de citar? (...)bleia Plenária do Conselho Pontifício Ganhemos consciência de que muito há a fazer (...). Vamos pegar na PALAVRApara a Família, que teve como tema «Os DE DEUS, nos documentos da Igreja e façamo-los chegar às famílias que se30 anos da exortação Familiaris Consortio dizem cristãs.do Papa João Paulo II», em que o car- Desfaçamos todos os «tabus» de que as famílias (pais de hoje) se deixaramdeal E. Antonelli, presidente do Conse- enfermar, a fim de que, com a força do Senhor Jesus, consigamos trazê-las para olho, revelou, na apresentação do evento, PAI. (...) Só o poderemos conseguir quando juntarmos «muitos bocados de fer-que, apesar das atividades desenvolvidas mento» para levedar a «massa» - criando pequenos grupos de famílias que leiam epelo dicastério da Cúria Romana, as fa- reflitam em conjunto e com verdade a Palavra de Deus e as orientações da Igreja.mílias, após 30 anos, se encontram ain- (B.M., 30.01.12)da em situação de «grande dificuldade».(…) Nas nossas reflexões sobre o Evan- FAMÍLIA “SANTUÁRIO DE VIDAgelho, há necessidade de uma O Concílio Vaticano II chamou à família «Igreja doméstica» (LG, 11) onde«CRISTIFICAÇÃO» MUITO PRO- Deus reside, é reconhecido, amado, adorado e servido. Por sua vez o mesmoFUNDA da vida do ser humano, para Concílio ensinou que: «A salvação da pessoa e da sociedade humana estão intima-que a Nova Evangelização seja uma re- mente ligadas à condição feliz da comunidade conjugal e familiar» (GS, 47). «Des-alidade. (B.M., 24.01.12) ta maneira a família, na qual convivem várias gerações, que se ajudam mutuamen- te em adquirir maior sabedoria e em harmonizar os direitos pessoais com outras exigências sociais, constitui o fundamento da sociedade» (GS, 52). Na exortação apostólica de Sua Santidade João Paulo II à Igreja em geral Familiaris Consortio, a família é apelidada de «Santuário de Vida», isto é, «lugar sa- grado», pois é aí que a vida humana surge como de uma nascente sagrada e é cultivada e formada. É missão sagrada da família guardar, revelar e comunicar ao mundo o Amor e a Vida. (B.M., 14.02.12) FAMÍLIA e “CURSOS PARA CASAIS” Apoiando-me no poema que o nosso bispo D. António Couto citou (...) no seminário de Resende, na festa da sua padroeira, N.ª S.ª de Lourdes, «podem tirar tudo ao homem neste mundo (dinheiro, bens materiais e culturais) não ficará mais pobre, podem metê-lo na prisão, não tirarão a liberdade, mas se lhe tirarem as canções que aprendeu em criança no seio da família, esse mesmo homem perderá o seu rumo», vou transcrever (...) o que escreveu Monsenhor Amílcar Amaral, em 1970, como prefácio ao livro «Curso para Casais»: (...) O Concílio Vaticano II determina: os pais devem ser reconhecidos como os primeiros e principais educa- dores. Esta função é de tanta importância que, onde não existir, dificilmente pode- rá ser suprida» (G.E.3). (...) De facto, esta obra é difícil e gigantesca; não há, por vezes, pessoas preparadas para se lançarem a ela ou para a concretizarem; faltam instrumentos de trabalho para a sua realização; a mentalidade da sociedade actual não está convencida da sua imperiosa necessidade. No entanto, ela é urgente e extremamente necessária. Pois, como dizia o Dr. Grasset: «Cada geração tem a responsabilidade da geração seguinte.» (B.M., março.12)

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