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Nº 69 - Janeiro / Março de 2019
b o l e t i m d a F R A T E R N I T A S M O V I M E N T O
Correspondência dos leitores 3
Foi notícia... 3
Dossier
Pontos nos is 6-7
Quem vai matar, ou matou o Calvário,
do Padre Américo? 8-10
Opinião com nome próprio
Quando me pediam papel macio pró cu
e roupa boa prá gente... 4-5
Do baú da memória (II) 11
Do baú da memória (III) 13
Ecos... 12
45º Encontro Nacional 14
Vivência ecuménica 14
In Memoriam... 15
Fraldas, micro-ondas e aspirina!... 16
(continua na pág. seguinte)
O
encontro dos bispos em Roma foi
notícia. Vimos o relevo que os
jornais e canais de televisão lhe
deram. E o caso não era para menos!
Ouvi parte da homilia do papa Francisco, na
eucaristia de encerramento. Decerto muita
gente ficou insatisfeita. Criou-se muita
expectativa... O papa desiludiu?
Pela minha parte, queria mais ousadia dos
bispos e do próprio papa. Confesso que
esperava mais. Todavia reconheço que não se
passa de oito para oitenta, sem correr o risco
de descrédito. Quem imaginava, há um ano
atrás, que era possível tratar este assunto em
público e em liberdade? E de facto assim foi.
Muito se disse! Sobretudo deu-se ouvidos a
testemunhos na primeira pessoa. Solidarizo-
-me. Veio ao de cima tanta angústia, tanto
sofrimento calado, tanta amargura
machucada, abafada, espezinhada... ao longo
de décadas… talvez séculos! Dois
representantes máximos da Igreja foram
afastados… Coragem! Só a força do Espírito
garantiu esta depuração!
Por tudo isto, damos graças a Deus! Fez-se
justiça? Não, nós queremos verdade,
transparência. Não está tudo feito, mas
alguma coisa se vislumbra no horizonte. Já
aparece!
Mea culpa!
Não bato palmas por tanta miséria posta a
nu, mas alegro-me pela coragem de tantos e
tantas que ousaram pôr o dedo na ferida.
Venceram a vergonha de séculos. A Igreja,
pelos seus representantes mais expostos,
confessa-se pecadora: pede perdão.
Queríamos mais? Para já experimentamos o
caminho percorrido. Eu sei que precisamos
de ir mais longe. Também sei do longo
sofrimento do papa Francisco, das
artimanhas que lhe preparam alguns mais
próximos, da contra-corrente que lhe
criam… E ele sempre em frente! Recordo
que nos diálogos dos videntes de Fátima, um
dizia: «Tenho tanta pena do Santo Padre!»
Também reconheço e sinto a angústia do
Papa, a sua incerteza, a sua dor por estes
pecados da igreja contra as vítimas mais
inofensivas e indefesas.
Mas isto vai. Não vai tão depressa, como se
queria ou previa… Entre nós, anda a passo
de caracol. Um bispo de Portugal recebeu
uma vítima da pedofilia… Muito bem! Falou
e passou. Pronto: assim esse bispo calou a
consciência. E mais não disse nem se tiraram
conclusões. Tudo continua na mesma.
Parece que tudo é normal… nesta
anormalidade! Muito mal!
E
u creio no Espírito Santo! Não
damos conta d'Ele, mas olhando
para trás vemos que realmente está
presente, activo. Só que o Espírito não
trabalha à maneira dos homens. D'Ele são os
tempos e a eternidade. E Ele não tem
pressa… Nós desesperamos. Somos
transitórios. Corremos. Corremos! Nós
também trabalhamos para a eternidade!
Temos de aprender com Ele. Rezemos ao
Espírito Santo para entrarmos na sua
dinâmica. Assim veremos como de facto
tudo se transforma. Em tempo oportuno,
esse Espírito desperta consciências e
saboreamos a uma nova luz "a grandeza, a
profundidade, a extensão do amor de Deus".
As coisas reaparecem numa perspectiva nova
e em horizontes mais vastos.
Entra em ti. Dá crédito a Esse Espírito que
te habita. Vê como essa Força divina te
absorve, te orienta e te confirma na
caminhada constante para o alto. Rezamos
tantas vezes: "Corações ao alto!" É aí que o
nosso coração deve estar, para ganharmos
força, capacidade, espírito de luta, sem
retrocessos ou hesitações. Ele não se cala. As
coisas podem parecer esquecidas, mas Ele
fá-las surgir com vigor renovado, quando
menos se espera ou já desesperamos... E nós
somos a garantia da sua presença, da sua
vitalidade neste mundo e nesta Igreja cheia
de contradições. Nesta hora sintonizamos
com o papa Francisco e penitenciamo-nos:
Mea culpa. Perdão, Senhor!
Joaquim Soares
(Associado Nº 72)
Serradelo, 28 de Fevereiro de 2019
(continuação da pág. 1)

RES SUSC ITOU ! Al el uia !
PÁSCOA, a perene renovação, o presente grávido
do futuro, a esperança imersa num mundo fechado, a
luz que rasga as trevas e abre horizontes de infinito!
A Direcção da Fraternitas Movimento augura a todos
os associados e seus familiares, bem como a todos os
nossos amigos, uma vivência profunda da explosão do
Amor misericordioso e salvífico de Deus. Boa Páscoa!
(continuação da página 2)
Muito obrigado, pelo envio do
número 68 do vosso jornal
Espiral.
Com melhores cumprimentos.
† Carlos Ximenes Belo
[ximenes.belo@salesianos.pt]
(23/11/2018)
Olá meu caro Osório,
Esta tensão entre Código e
Evangelho é intrínseca à
natureza desta Igreja em que
ainda vivemos. Basta pensar
no confronto entre Pedro e
Paulo que desde início
desenhou um inevitável
confronto entre espírito e
instituição. Talvez pegando em
cada frase do Evangelho e
transformando-a em lei
canónica a coisa pudesse
melhorar...!
Paulo Santos
[pjssjp@gmail.com]
(23/11/2018)
Bom dia,
Acuso a receção do vosso
boletim que faço chegar ao Sr.
Dom António Braga.
Bem haja.
Com os melhores cumprimen-
tos, bom fim de semana,
Pel' O superior,
Ir. José Joaquim Mendes da
Costa
[alfragide@dehonianos.org]
(23/11/2018)
Caro Osório, agradeço o envio
deste boletim e felicito-vos
pelo seu conteúdo. Ao lê-lo,
lembrei-me do que me disse D.
António Ferreira Gomes ao
entregar-me a dispensa "das
obrigações inerentes ao estado
sacerdotal": — «A grande
maioria dos que saem são
homens de muito valor. Espero
que formem a retaguarda
teológica da Igreja».
Abraço.
João Alves Dias
[joaotanoeiro@gmail.com]
(23/11/2018)
Estimados Amigos, muito
obrigado.
Cumprimentos para todos.
† Francisco Senra Coelho,
Évora.
[padresenra@gmail.com]
(24/11/2018)
Foi notícia...
Gostosamente damos conta
que o Diário de Coimbra, na
sua edição do dia 10 de De-
zembro de 2018, noticiava o
lançamento póstumo em
Arganil de “Contos e Poemas
de Natal”, um livro do nosso
associado José Ramos
Mendes, falecido em 2016.
Com cerca de 60 páginas, o
livro é constituído por seis
contos e três poemas.
Encarregou-seda apresentação
da obra Pedro Pereira Alves,
advogado e amigo do autor,
que imediata e muito gostosa-
mente acedeu ao pedido que lhe
fizera Marta Mendes, filha do
nosso associado.
Segundo o causídico, trata-se de
«páginas muito bem escritas,
que recordam contos de Natal
reais, que transmitem de uma
forma visível a vida do interior
dasaldeias ea vidado seminário,
quetambémestá aquiretratada.»
Espelham a alma do autor que,
segundo Marta Mendes, como
«professor e verdadeiro peda-
gogo, tinha como grande paixão
escrever, dando ênfase aos seus
sentimentos, às suas crenças, ao
seu modo de viver e de sentir
o mundo».
Estávamos ainda no século
XX, no longínquo ano de 1968,
quando a vida me deu oportuni-
dade de cumprir um dos meus
sonhos: ser professora. Dei co-
migo numa escola masculina, ali
muito pertinho do rio Douro, na
primeira freguesia de Penafiel,
no lugar de Rio Mau.
Era tão longe, da minha rua
do Bonfim, não podia vir para
casa no final do dia, não tinha a
minha gente, e eu era uma me-
nina da cidade com algum
mimo, muitas rosas na alma, e
tinha apenas 18 anos.
Nada me fazia pensar que
tanta esperança e tanta alegria
me trariam tanta vida e tantas lá-
grimas.
Os meninos afinal eram ho-
mens com calos nas mãos, pés
descalços e um pedaço de broa
no bolso das calças remendadas.
As meninas eram mulheres
de tranças feitas ao domingo de
manhã antes da missa, de saias
de cotim, braços cansados de dar
colo aos irmãos mais novos, e
de rodilha na cabeça para aguen-
tar o peso dos alguidares de rou-
pa para lavar no rio ou dos mo-
lhos de erva para alimentar o
gado.
As mães eram mulheres so-
bretudo boas parideiras, gente
que trabalhava de sol a sol e es-
perava a sorte de alguém levar
uma das suas cachopas para a ci-
dade, "servir" para casa de gen-
te de posses.
Seria menos uma malga de
caldo para encher e uns tostões
que chegavam pelo correio, no
final de cada mês.
Os homens eram mineiros no
Pejão, traziam horas de sono por
cumprir, serviam-se da mulher
pela madrugada,mesmo quefos-
se no aido das vacas enquanto
os filhos dormiam (quatro em
cada enxerga), cultivavam as
leiras que tinham ao redor da
casa, ou perto do rio e nos dias
de invernia, entre um jogo de
sueca e duas malgas de vinho
que na venda fiavam até recebe-
rem a féria, conseguiam dar ao
seu dia mais que as 24 horas que
realmente ele tinha. Filhos, eram
coisas de mães e quando corri-
am pró torto era o cinto das cal-
ças do pai que "inducava"… e a
mãe também "provava da isca"
para não dizer amém comeles…
E os filhos faziam-se gente.
E era uma festa quando co-
meçavam a ler as letras gordas
dumvelho pedaço de jornal pen-
durado no prego da cagadeira da
casa… o menino já lia... ai que
ele é tão fino… se deus quiser,
vai ser um homem eter uma pro-
fissão!
Ai como a escola e a profes-
sora eram coisas tão importan-
tes!
A escola que ia até aos mais
remotoslugares, ao encontro das
crianças que afinal até nem ti-
nham nascido crianças…eram
apenas mais braços para traba-
lhar, mais futuro para os pais em
fimde vida, mais gente para des-
bravar os socalcos do Douro,
mais vozes para cantar em tem-
po de colheitas.
E os meninos ensinaram-me
a ser gente, a lutar por eles, a
amanhar a lampreia, a grelhar o
sávelnas pedrasdorio aquecidas
pelas brasas, a rir de pequenas
Quando me pediam papel macio pró cu
e roupa boa prá gente…*
coisas, a sonhar com um país di-
ferente, a saber que ler e escre-
ver e pensar não é coisa para ri-
cos mas para todos, para todos.
E por lá vivi e cresci durante
três anos e por lá fiz amigos e
por lá semeeialgumas flores que
trazia na alma inquieta de jovem
que julgava conseguir fazer um
mundo menos desigual.
E foi o padre António Au-
gusto Vasconcelos, de Rio Mau,
Sebolido, Penafiel, que me foi
casarao mosteiro de LeçadoBa-
lio no ano de 1971 e aí me en-
tregou um envelope com mil oi-
tocentos e três escudos (o meu
ordenado mensal) como prenda
de casamento conseguida entre
todosos meusalunos maisas co-
legas da escola mais as senho-
ras da Casa do Outeiro. E foi na
igreja de Sebolido que batizou
o meu filho, no dia 1 de janeiro
de 1973.
E é deste povo que tenho sau-
dades. O povo que lutou sem ar-
mas, que voou sem asas, que es-
creveu páginas de Portugal sem
saber as letras do seu próprio
nome.
Hoje, o povo navega na
internet, sabe a marca e os pre-
ços dos carros topo de gama,
sabe os nomes de quem nos sa-
queia a vida e suga o sangue,
mas é neles que vai votando en-
quanto continua à espera de um
milagre de Fátima, duns trocos
que os velhos guardaram, do dia
das eleições para ir passear e
comer fora, de saber se o joga-
dor de futebol se zangou com a
gaja que tinha comprado com os
seusmilhões,e é claro de ver um
filmezito escaldante para aque-
cer a sua relação que estava há
tempos no congelador.
As escolas fecharam-se, os
professores foram quase todos
trocados por gente que vende
aulas aqui, ali e acolá, os papás
são todos doutores da mula rus-
sa e sabem todas as técnicas de
educação mas deseducam os
seus génios, os pequenos/gran-
des ditadores que até são seus fi-
lhinhos e o país tornou-seumfa-
buloso manicómio onde os finó-
rios são felizes e os burros co-
mem palha e esperam pelo dia
do abate.
Sabem que mais?!
Ainda vejo as letras enormes
escritas no quadro preto da es-
cola masculina, ao final da tar-
de de sábado, por moços de doze
e treze anos com estes dois pe-
didos que me faziam: "Profes-
sora vá devagar que a estrada é
ruim, e não se esqueça de tra-
zer na segunda-feira, papel ma-
cio pró cu e roupa boa dos seus
sobrinhos prá gente".
Esta gente foi a gente com
quem me fiz gente.
Hoje, não há gente… é tudo
transgénico.
O povo adormeceu à sombra
do muro da eira que construiu
mas os senhores do mundo, es-
tão acordadinhos e atentos,
escarrapachados nos seus
solários "badalhocamente" ricos
e extraordinariamente felizes
porque inventaram máquinas e
reinventaram novos escravos.
Dizem que já estamos no século
XXI...
Maria de Lourdes dos Anjos
in: http://etcetaljornal.pt/j/
2015/03/quando-me-pediam-
papel-macio-pro-cu-e-roupa-
boa-pra-gente/
* A autora confessa: "um dos
textos que mais me custou a
escrever e por isso tem mais
lágrimas do que palavras".

DOSSIER
Meu Irmão Bispo, cardeal,
patriarca… Ora deixemos os tí-
tulos de tanta nobreza e vamos
diretos ao assunto...
Irmão bispo, "questionado
sobre problemas ligados à Casa
do Gaiato e outras obras do Pa-
dreAmérico", admitiste "um de-
sentendimento entre a proposta
original e a visão do Estado"...
Meu irmão, conheces bem o
pensamento dePaiAmérico. Por
isso não podes falar num desen-
tendimento. Sabes que há rotura
completa, total. Pai Américo
contava, como dizes "com a par-
ticipação dos próprios, dos jo-
vens, das crianças, dos doentes".
P O N T O S N O S I S
Diremos mais: "esse contar" é o
quiddaobra do PaiAmérico.Ele
nãoqueria uma IPSS, como ago-
ra se diz, ele queria um lar de fa-
mília, para cada um daqueles
sectores da sua obra. Uma famí-
lia, na qual todos se entendem,
ajudam, se educam… numa pa-
lavra: crescem, se amam… Sa-
bemos que isto não é fácil.
Pai Américo encetava deste
modo uma pedagogia renovado-
ra e até revolucionária. Como é
que tu, meu irmão, tens coragem
de afirmar que "esta metodolo-
gia teve grandes méritos, mas
que não é hoje a maneira de res-
ponder a essas necessidades"?
Tu, meu irmão, que és um ho-
mem experiente e profeta, ali-
nhas no politicamente correto?
Nós sabemos a luta do Padre
Américo para manter a sua obra
com esta característica. Sempre
recusou a intromissão dos 'dili-
gentes zelotes' da Segurança
Social. E sabes bem, irmão bis-
po, como as outras obras orien-
tadas ou supervisionadas pela
Segurança Social não são mode-
lo de humanidade.
Certo que a Casa do Gaiato,
o Lar de Beire e outras Casas da
Obra da Rua apresentam carên-
cias, dificuldades. Não é fácil
governar uma casa destas. Mas
“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo
dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as
tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).
Como discípulos de Cristo, membros da Igreja pelo baptismo, não podemos ficar indife-
rentes a situações de dor, mesmo que velada, como a que está a sofrer a Obra da Rua e
aqueles a quem ela se dirige: os pobres, os deserdados, os doentes incuráveis e “descarta-
dos”!
Já no número anterior do nosso boletim publicámos um grito angustiado do nosso asso-
ciado Joaquim Soares. E, infelizmente, não nos constou publicamente qualquer tomada de
posição da hierarquia em defesa da Obra que o Padre Américo, sob inspiração de Deus, tão
lúcida e inovadoramente lançou, com uma dinâmica verdadeiramente evangélica, por dar
protagonismo àqueles a quem se dirigia. Antes pelo contrário: a notícia que ressaltou para a
opinião pública foi a de uma suspeição do seu valor pedagógico, ali tido como ultrapassado.
Esta consideração sobre o desacerto actual da pedagogia iniciada pelo Padre Américo e
que a Obra hoje segue motivou reacções: apresentamos dois textos que publicamos. Uma
carta dirigida ao senhor Cardeal-Patriarca de Lisboa e uma reflexão, do também nosso asso-
ciado Pereira Pinto, sobre as consequências que derivam dos comentários proferidos no final
dos trabalhos da Assembleia Plenária do Episcopadao Português, a 15 de Novembro de 2018.
Alberto Osório
DOSSIER
nestas Casas há amor, entendi-
mento, alegria, paciência…
Bem-estar!
E os responsáveis desta Obra
têm consciência do legado do
Padre Américo.
Eles viram co-
mo os funcio-
nários da Segu-
rança Social in-
vadiram a Casa
de Beire, como
obrigaram, vio-
lentaram os
"moradores" a
entrar nas carri-
nhas. Eles, ve-
lhos, decré-
pitos, recusa-
vam.Eles queriam ficar,em Bei-
re. Sentem-se bem com a falta
de todas coisas que os funcioná-
rios da SS lhes ofereciam. Tu
viste isto, meu irmão bispo?
Sem dúvida que estas casas
são antigas. Não houve visão
atempada para se adaptarem às
novas exigências de licencia-
mento? Isso nunca foi pedido
aos responsáveis?...
Estiveste uns anos no Porto.
Foste bispo do Porto! Não sei se
visitaste aquela Casa. Recupera
o tempo perdido! Vai lá, sem os
escarlates discricionários. Vai
como peregrino, humilde, des-
conhecido. Comunga daquela
pobreza, beija aqueles pés
doridos, sofredores, lava aque-
las chagas… Então verás o por-
quê do lar de família que o Pai
Américo queria e a recusa de uns
funcionários, mais ou menos
académicos. Esta é a nota distin-
tiva da Obra da Rua, que só se
apreende com o coração.
Por isso ajuda a encontrar
caminho que respeite o espírito
da Obra, sem adulterações im-
postas por leis e técnicos buro-
cratas.
Ó meu irmão! Acreditas na-
quele julgamento fantasma do
Padre Batista? Aquilo foi uma
cena. O Padre Batista ama aque-
la gente. Pode ter-se excedido,
aceito. Mas obrigá-lo, impedi-lo
de ir àquela Casa é uma violên-
cia a toda a prova*. E tu calaste!
E tu vês isto? Pois, eu sei,não
és o bispo dele, mas és bispo da
Igreja, não podes calar a injusti-
ça, fazer de conta que não vês.
Astuaspalavras,em declarações
no final da Assembleia da CEP,
são uma fraca justificação. Onde
estão os mais fracos, mais vul-
neráveis, mais esquecidos? Tu,
meu irmão, tens de estar ao lado
deles, com eles, ou estás a trair
esse Evangelho que te puseram
sobre os ombros na tua ordena-
ção…
E acrescentas, meu irmão,
que "a metodologia do Padre
Américo... não é hoje a maneira
de responder a essas necessida-
des"!Vêsoutra? Não!Ametodo-
logiaestácerta;aCasa é decons-
trução antiga. Façam-se as obras
necessárias, mas respeite-se a
metodologia herdada do Pai
Américo.
Não te julgo, meu irmão bis-
po! Mas quando aquelas tuas
declarações chegaram às mãos
dos padres casados, inscritos na
Fraternitas, sentimo-nos defrau-
dados. É evidente que não con-
fundimos as tuas palavras com
o pensar e sentir dos bispos por-
tugueses. E muito menos iden-
tificamos as tuas palavras como
inspiradas. As tuas palavras fi-
zeram muito mal. Ó meu irmão
bispo, como foste infeliz! Tenho
pena de ti! Sem dúvida! Deve-
mos corrigir o que está errado,
mas salvaguardar o que é váli-
(conclui na pág. 11)
página oficial na Internet: http://fraternitasmovimento.blogspot.com NIF: 504 602 136 IBAN: PT50 0033 0000 4521 8426 660 05
DOSSIER
de de análise de situações fami-
liares, pela sobrevalorização de
factores irrelevantes, pelo des-
conhecimento, tantas vezes, da
mais elementar compreensão do
que são as dificuldades do dia a
dia, de tantos agregados famili-
ares, a que havia de providenci-
ar-se, no sentido da melhoria das
suas condições de vida, o que,
em geral, não acontece!!
E, precisamente, suportado
em relatório de uma senhora drª.
da Segurança Social (!), um se-
nhor juiz decretou que cinco fi-
lhos fossem retirados a sua mãe
— aqui, sim, um atentado
contranatura — pois de mais um
famigerado relatório constava
que a cozinha, quarto de banho
e demais instalações familiares
não eram condignas para nele
viverem.
Uma decisão destasapenas se
entende, na natureza dessa om-
nipotente, neo-espartana segu-
rança social, de um Estado, nes-
te sector, totalitário, a quem in-
teressa uma tal movimentação
económica social.
É que, aquilo que o Estado
deviafazer era conceder,deime-
diato, a essa família, uma habi-
tação condigna. E não o fez!
Porquê? Porque essas crianças
iriam acrescer a muitas outras e,
por via de tal, mais senhores drs.
técnicos e senhoras drªs. da Se-
gurança Social(!)seriam contra-
tados…
Recordo uma notícia referin-
do que umas instalações da se-
gurança social estavam prontas
a receber 26 utentes jovens, en-
tregues ao Estado, para sua rein-
tegração —muitos dosquais sai-
rão de lá, piores do que entra-
ram!...— e que já haviam sido
contratados 27 funcionários —
os tais!… Repete-se, para 26
utentes! E os funcionários já re-
cebiam seus vencimentos…",
por nada terem que fazer, pois
não havia utentes!
O que importa é a tal movi-
mentação económica-financei-
ra!
O caso da Mãe e filhos aci-
ma referido, que indignou mul-
tidões, acabou com uma muito
tardia entrega dos filhos à mãe,
mas também com a condenação
do Estado Português, pelo Tri-
bunal dos Direitos Humanos
Europeu,a pagar 15.000,00€ aos
ultrajados Mãe e filhos.
Apenas, com este antelóquio,
o leitor pode entender o que, de
seguida, vou dizer.
Para quem assumir e perce-
ber a teleologia que preside ao
comportamento deste segundo
Estado, que é a Segurança Soci-
al, logo concluirá da incapacida-
O nº 1949 de O Gaiato, de
24 de Novembro de 2018, em
“Da Nossa Vida” (Padre Júlio)
lê-se e com o título O Nosso
Calvário: "Está tudo vazio…
Quando é que eles voltam?..." E
segue-se o relato, quiçá dramá-
tico, prosseguindo: "Foi em
nome de os retirar dos "perigos"
(…), que foi cometido este acto
contranatura e contra a vontade
de todos, doentes e seus famili-
ares, sem falar nos tutores que
por eles se responsabilizam, que
nos retiraram, até ao momento
em que escrevo, 25 dos nossos
doentes".
Entenda-se, operação levada
a cabo pela Segurança Social.
Esta entidade é uma podero-
sa instituição, quer pela sua or-
gânica e poderes que lhe são
confiados, quer pelos poderosos
fundos financeiros, em que se
suporta. É um estado, dentro do
próprio Estado.
Os advogados, que passaram
ou passam pelos Tribunais de
Família, conhecem essas senho-
ras drªs. da Segurança Social (!),
pelosseusrelatórios,pedidos pe-
los Tribunais de Família.
Muitossão de umainquietan-
te perversidade,pela incapacida-
Quem vai matar, ou matou o Calvário, do Padre Américo?
Geral: fraternitasmovimento@gmail.com Secretariado: secretariado.fraternitas@gmail.com Direcção: direcao.fraternitas@gmail.com
DOSSIER
de desta para entender, por isso
a rejeitar a pedagogia do Padre
Américo e o espírito e especifi-
cidade do Calvário, movido, por
essência, pela caridade evangé-
lica!
Há, pois, razões profundas de
carácter ideológico. Assim se
compreende que, quando Antó-
nio Guterres nomeou Maria de
Belém Roseira, para Ministra da
Saúde, dois dias depois, o Gran-
de Oriente Lusitano veio a ter-
reno questionar se, com essa no-
meação, se pretendia substituir
a solidariedade, nos hospitais,
pela caridadezinha cristã (sic).
E ainda se compreende a ra-
zão pela qual, no governo de
Passos Coelho, saísse um decre-
to lei que determina, face ao tal
desenvolvimento económico
social que as épocas de crise ge-
ram(!),seuniformizassemoses-
tatutos, quanto à orgânica e fins,
de todas as IPSS, de forma a, por
idênticos estatutos, convergis-
sem para os mesmos objectivos.
E, como a omnipotente Segu-
rança Social tem fundos fabulo-
sos, para tudo e todos há subsí-
dios! Até para as Misericórdias.
Algumas já não Santas Casas…
Ora, a obra do PadreAmérico
sempre — que eu saiba — recu-
sou-se a qualquer subsídio esta-
tal — deste segundo estado.
Logo, à partida, era uma ques-
tão de tempo, para dar o golpe.
Mas a Igreja ou entendeu os
caminhos que as instituições le-
vavam — mesmo as suas — e o
preço que viria a pagar, por re-
ceberem — ou não entenderam,
ou foi-lhe indiferente, ou acei-
tou.
Ora, o público, notório e pro-
fundamente lamentável é que a
Igreja, os Bispos perceberam. E
foram coniventes!
Agora, a magna questão:
quem, afinal, quer matar ou ma-
tou O Calvário?
Não é,nãofoio Estado,como
dois colunistas, em Voz
Portucalense de 12 de Dezem-
bro 2018 dizem, acusando a Se-
gurança Social.
Ironicamente, os ditos
colonistas, ou não leram e, se
leram, não relevaram, foi o que,
na Voz Portucalense de 21 de
Novembro de 2018, se escreveu.
A pág. 11: "O Cardeal Patri-
arca foi questionado sobre pro-
blemas ligados à Casa do Gaia-
to ou outras obras do Padre
Américo, admitindo um "desen-
tendimento", entre a proposta
original e a visão do Estado, em
particular a Segurança Social".
E, logo a seguir, o presidente
da C.E.P. refere que a proposta
do PadreAmérico"contava mui-
to com a participação dos pró-
prios", dos jovens, das crianças,
dos doentes. "É uma metodo-
logia que teve grandes méritos",
mas que não é hoje "a maneira
de responder a essas necessida-
des", acrescentou.
Estas palavras do Presidente
da Conferência Episcopal Portu-
guesa, proferidas, no fim das
(continua na pág. 10)
sessões da mesma, não podem
entender-se como uma posição
meramente pessoal — e que o
fosse! — mas sim dos bispos
portugueses. É irredutível esta
hermenêutica, quer se queira,
quer não.
E resulta linear a posição da-
queles, inexorável, como juízo
de valor, de uma obra sublime:
"desentendimento" entre a pro-
posta original (do Padre
Américo) e a visão do Estado,
em particular da Segurança So-
cial.
Em verdade, a omnipotente
Segurança Social dita implaca-
velmente as suas regras. O que
importa é controlo estatal, sub-
jugando quem e o que não está
em conformidade com o mode-
lo social das IPSS, que também
o são as Misericórdias, à troca
do contributo estatal!
Não há lugar, neste esquema,
para a caridade cristã, evangéli-
ca, de amor pelo próximo! Nem
para o acolhimento de crianças,
porque agora, tudo cabe à om-
nipotência da Segurança Social
e dos relatórios das tais srªs. drªs.
Em breve, as Casas do Gaia-
to serão um deserto, a clamar em
vão!
E o Calvário "contava muito
com a comparticipação dos pró-
prios…". Mas, agora, tudo se
passa a movimentar, pelos cor-
redores sombrios de lares, com
cuidadores(as), psicólogos, srª.s
drªs da Seg. Social, mensalida-
des dos utentes, os que mais po-
dem mais dão, em favor dos que
menos tem… e… o contributo
da Seg.Social,por cadautente…
e quanto mais assalariados, mais
ou menos mercenários — as ex-
cepções são raras — mais em-
prego… menos descompressão
social… Este o grande objecti-
vo!
Para quê, pois, uma institui-
ção como a do Padre Américo,
que se norteava por uma outra
pedagogia, aliás defendida, em
trabalhos científicos, assente na
caridade cristã?!
Mas não era, afinal, esta a
perspectiva dos Srs. Bispos??!
Por isso, é que o Sr. Patriarca
proclamou: "Éuma metodologia
que teve grandes méritos (teve,
passado irreversível) — "Mas
que não é hoje — (ou seja, no
presente) — "a maneira de res-
ponder a essas necessida-
des"(!!!).
E eis como estas palavras do
porta voz, Presidente da Confe-
rência Episcopal Portuguesa, —
mataram a Obra do Padre
Américo, mataram O Calvário!
Como é possível que alguém
que tenha lido estas palavras,
não as tenha entendido e vem à
liça dizer lugares comuns, e não
tenha coragem de denunciar o
óbvio,que resulta destas mortais
palavras do Senhor Patriarca de
Lisboa?
Porquê o silêncio dos cris-
tãos, perante a agonia e morte da
Obra do Padre Américo, pela
mão dosBispos de Portugal? Por
ter sido pelas mãos deles? E si-
lencia-se?
02-01-2019
José Nuno Pereira Pinto
(Professor, Advogado, Canonista)
Quem vai matar, ou matou o Calvário, do Padre Américo?
(continuação da pág. 9)

DOSSIER
DO BAÚ DA MEMÓRIA (II)*
(conclui na pág. 12)
Quando, há dias, en-
contrei esta reflexão
com quase cinquen-
ta anos — foi lida na tal confe-
rência eclesiásticanodia2 de Ju-
nho de 1969, tal como está men-
cionado no final do texto que
está datado,mas não assinado —
não deixei deexclamar: — Nada
mudou!
Os clérigos continuam a viver
distantes da vida das pessoas
vulgares.Tantas vezes indiferen-
tes aos problemas dos outros,
tantas vezespreocupados apenas
com a beleza dos "seus" actos de
culto, com a música, se é ou não
apropriada para as ocasiões, se
as flores… se a campainha… se
a genuflexão… se as velas… se
as inclinações…
Regressaram às vestes clericais.
Como não evangelizam com a
vida, talvez um colarinho bran-
co ainda diga alguma coisa…
A linguagem não mudou. Um
amigo meu perguntou-me por-
que é que os padres falam
"padrês" e não falam português.
É que assim ninguém os enten-
de. Concluiu ele.
Num encontro de preparação
para umsínododiocesano,quan-
do se procuravam propostas para
o tema de fundo, inocentemente
eu propus uma reflexão sobre a
linguagem da catequese, das
homilias, dos sermões…A lin-
guagem do clero. Ninguém per-
cebeu a intenção e foi pena. As
conclusões destes sínodos e ou-
tros trabalhos similares ficam
apenas escritas para a posterida-
de.
Continua o clero a viver a sua
vida de funcionários do culto.
O panorama não mudou. Mas
agravou-se.
Há 50 anos havia esperança na
renovação. O vaticano II tinha
aberto espaços de diálogo, de re-
flexão, que lentamente se foram
fechando. Francisco — o Papa
que veio do fim do Mundo —
bem tenta remar contra as ondas
que açoitam os areais da Igreja,
bemtenta desfazeros castelos de
nuvens negras que tapam a Luz
do Evangelho, mas a inércia da
tradição continua mais forte que
a renovação.
do.
Duvido que esta carta chegue
às tuas mãos. Algum zeloso se-
cretário encarregar-se-á de ta
extraviar. Por isso, depois de te
enviar esta carta, vou fazer com
que chegue aos meus amigos e
irmãos da Fraternitas. Afinal,
embora marginalizados na Igre-
ja, desacreditados por esta Igre-
ja, ainda há alguém com senso
comum normalizado.
Rezamos, meu irmão bispo,
para que vejas além. Sabes bem
que o profeta antecipa no tem-
po. Vê para além dos horizontes
geográficos, cronológicos.Afir-
ma os valores escatológicos de-
finitivos.Relembro as cartas que
o Anjo enviou às sete igrejas,
convidando-as a rever os seus
pontos de vista.
Sou um pobre padre margi-
nalizado que acredita que o Es-
pírito governa a Igreja através de
homens, que nem sempre sinto-
nizam nessa mesma linha.Acre-
dita! Tu podes apressar o Reino
ou atrasá-lo. Há uma certeza:
contigo, meu irmão bispo, sem
ti ou mesmo contra ti, o nosso
Deus leva a água ao Seu moi-
nho, isto é, concretiza o Seu ple-
no de salvação. Colabora! Sem-
pre será mais fácil! E agora,
mãos à obra. Refaçamos as ca-
sas da Obra da Rua. Demos-lhe
condições de higiene mais efi-
ciente, mais e maiores comodi-
dades que a moderna tecnologia
C.
Pontos nos Is
(continuação da pág. 7)
DOSSIER
* Completa-se, agora, a última parte do texto com o
título acima, publicado no número anterior.
preconiza.Assim gostaria de ver
a tua palavra, esclarecida e
esclarecedora, abrircaminhos de
alegria esatisfação.Ainda é tem-
po!
Joaquim Ferreira Soares
13/12/2018
*A pena a que o tribunal condenou o
Padre Baptista foi indultada pelo
Presidente da República, pelo Natal de
2018. Segundo o JN, entre os cidadãos
que pediram este perdão presidencial
estão três antigos chefes de Estado:
Ramalho Eanes, Jorge Sampaio e
Cavaco Silva. [Nota do Editor]

car de tamanha (des)graça!
O presbítero de antanho, quan-
do da ordenação de homens ca-
sados se começou a falar, sob as
tílias ornamentais do largo do
seminário, argumentava nestes
termos: "Era o que mais faltava!
Ó gente, ter de casar? Já temos
de aturar as mulheres dos outros
na igreja e ainda termos de atu-
rar a nossa lá em casa?" Parece
(conclusão da pág. 13)
Do baú da memória (III)

anedota, mas não é. Eu ouvi este
desabafo. E nunca fiquei a saber
o que este homem pensava. Pen-
saria ele que a lei do celibato
obrigatório, seria substituída
pela do casamento obrigatório?
Que ideia faziaele do amor? Um
aturar, um sofrimento constan-
te? Nunca ninguém lhe terá dito
que Deus é Amor?
No livro citado "O Diário do
Concílio", refere-se a Mons.
Soares (Sebastião Soares de
Resende, bispo da Beira em
Moçambique) como tendo dito
que será preciso esperar pelo
próximo concílio para se obter
um bom esquema sobre os sa-
cerdotes. Era uma profecia ou
um desabafo pessimista?
Esperemosentão opróximo con-
cílio. E que não demore!
Antonino Mendonça
21-02-2019
E, por fim, a bomba, tantos anos
contida e escondida, rebentou: a
pedofilia estilhaçou a confiança
de grande parte dos crentes. E o
celibato obrigatório continua a
impor a sua lei. Parece absolu-
tamente esquecido da agenda
dos bispos, que piamente se la-
mentam e pedem orações pelas
(conclusão da pág. 11)
Do baú da memória (II)
vocações… Não creio que seja
com rezas e benzeduras que es-
tes problemas se resolvem, mas
com mudanças.
A muitos outros temas poderia
referir-me. Mas fico-me por
aqui.
É Outono. Talvez tenhamos de
deixar cair algumas folhas. Tal-
vez tenhamos de suportar mais
umas quantas atitudes ditatori-
ais. Talvez tenham ainda de ser
caladas algumas vozes, até que
o grito do Povo de Deus que nin-
guém ouve, seja finalmente es-
cutado. Talvez tenha de passar
mais um Inverno. Mas tenho es-
perança.
A Primavera chegará.
Antonino Mendonça
12-11-2018

e c o s . . .
 "Os Primeiros Cem Anos do
Cristianismo", um chamamento
para voltarmos à fonte.
Tal como é necessário voltarmos
à essência dos textos bíblicos,
também é necessário descobrir os
trilhos pisados pelo os nossos an-
tepassados.
Neste 3 dias:
- Descobri o quanto difícil foi o iní-
cio do Cristianismo, as discussões,
asdúvidasque osnossosantepas-
sados tiveram de ultrapassar.
- Encontrei um grupo de cristãos
disponíveis para partilhar e um
espaço aberto às questões que
impactam as nossas vivências.
- Cresci num espaço ecuménico,
onde homense mulheresdespidos
de imposições participam activa-
mente no testemunho de Jesus.
Os meus agradecimentos a todos
os membros da Fraternitas por me
terem permitido esta experiência
de vida fantástica.
Um abraço fraterno,
Marcos
21/11/2018
- Escrevo no dia em que, no
Vaticano, se inicia o encontro do
Papa Franciscocom ospresiden-
tesdasConferênciasEpiscopais.
Todos eles clérigos: cardeais ou
bispos, num total de 190 ho-
mens.
Procuram uma solução para a
praga da pederastia e de mais
escândalos sexuais que, tendo
saído do segredo das cúrias e
perdido os medos das represáli-
as e dos castigos eternos, se es-
palhou como mancha de óleo
sujo pela hierarquia da Igreja
Católica.
- Há dias visitei, como é meu
costume de há uns tempos para
cá, um alfarrabista de Faro.
Comprei o 3º volume de "O Di-
ário do Concílio" de Henri
Fesquet, publicado em 1968.
Relata a 4ª e última sessão do
Concílio Vaticano II. Nele se re-
ferem três assuntos provisoria-
mente (?)não aprofundados nem
assumidos, ou porque Paulo VI
os chamou a si ou porque a ti-
midez ainda reinante em muitos
dos clérigos não o permitiu:
 Regulação da natalidade. O
Papa encarregou-se do proble-
ma e, mais tarde, publicou a
encíclica "Humanae Vitae",
que teve duas consequências
desastrosas: 1ª, Casais houve
que pretenderam seguir a dou-
trina papal sem o conseguir,
com conflitos enormes de
consciência; 2ª, outros casais,
a grande maioria, não quise-
ram saber das proibições repe-
tidas nem sequer tiveram cu-
riosidade de conhecer a letra
da carta pontifical. Perda total
do respeito e da autoridade ro-
mana!
 Possibilidade de um segundo
casamento para o cônjuge ino-
centeabandonado,comoacon-
tece na Igreja Ortodoxa. Só
uma voz se levantou a referir
o problema. Mais nada. Foi
preciso esperar cinquenta anos
para que uma luz muito débil
brilhe ao fundo túnel. Refiro-
me, claro está, à Exortação
Apostólica "Amoris Laetitia",
que abre uma porta muito
estreitinha à recepção e parti-
cipação nos sacramentos aos
divorciados casados civilmen-
te em segundo casamento. Ca-
tólico romano sofre…
DoCelibato.Com oargumen-
to de que "não é oportuno de-
bater publicamente este tema,
que requer a maior prudência
e se reveste de grande impor-
tância", Paulo VI meteu tra-
vões a fundo e acabou com as
discussões. E, passados estes
anos,os problemasnão só con-
tinuam mas aumentaram con-
sideravelmente: por falta de
candidatos, muitos seminários
fecharam; mais de cem mil
presbíteros e bisposabandona-
ram as fileiras do clero; vieram
à luz do dia escândalos sexu-
aisescondidos no recôndito si-
giloso das cúrias… E a procis-
são ainda vai na praça!
- Para terminar, deixo dois
apontamentos: de um presbítero
dos anos sessenta e de um teó-
logo dos nossos dias.
O teólogo desta geração, cheio
de palavreado e de presunção,
atribuiu o problema da pedofilia
a uma certa tendência natural
para esse vício eà solidãodeque
alguns agressores sofrem, mas
sem qualquer ligação à lei do
celibato obrigatório, uma vez
que o celibato é um dom de
Deus, uma graça que permite a
disponibilidade total do cléri-
go… Não se poderá nunca abdi-
DO BAÚ DA MEMÓRIA (III)
(conclusão na pág. 12.)

Eu tinha vontade de conhecer Elias, por duas
razões: porque ele é árabe e cristão, uma iden-
tidade difícil de viver neste contexto, e porque
tinha casado, havia poucos meses, com
Violaine, uma rapariga que passara um ano em
Bet Gemal*, antes de descobrir a sua vocação
para o casamento.
Eu sou palestiniano cristão e tenho um pas-
saporte israelita. Nasci na cidade velha de
Jerusalém, numa família de sete filhos. Ami-
nha mãe é ortodoxa grega, e o meu pai, ca-
tólico latino: foi nesta Igreja que fomos edu-
cados. Fiz toda a minha escolaridade numa
escola luterana, que hoje já não existe.
Pai católico, mãe ortodoxa, escola luterana...
basta isto para nos pôr em contacto com esta
Igreja de Jerusalém, herdeira da Igreja do Pen-
tecostes, e, em primeiro lugar, judeo-cristã.
WARREN, Inès de, Esse Amor que o mundo esquece, Paulinas, Prior Velho 2017, p. 213
* [N.E.: Bet Gemal é um mosteiro das Monjas de Belém, em Israel]
Vivência ecuménica
45º ENCONTRO NACIONAL
Data: 26 a 28 de Abril de 2019
Local: Casa de Retiros de Nossa Senhora das Dores (lado da
Capelinha das Aparições)
Tema: AS PERIFERIAS NA IGREJA
Orientador: Padre José LUÍS RODRIGUES (PÁROCO DA DIOCESE DO FUNCHAL)
Inscrições: Secretariado da Fraternitas até ao dia 11 de Abril
Urtélia Silva | telf 239 001 605 | telmv 914 754 706 (até às
21:00H, por favor) | secretariado.fraternitas@gmail.com
Este é o nosso Encontro Anual em que, para além da reflexão, oração e reforço
de laços fraternos, teremos também a Assembleia Geral que faz parte da pro-
gramação normal da FRATERNITAS Movimento. São um instrumento indispensá-
vel para o crescimento pessoal e grupal.
Contamos, naturalmente, com todos, pois se trata de um Encontro a nível naci-
onal. Todavia, porque é aberto, pedimos também o favor de o divulgarem e
motivarem amigos e conhecidos para esta iniciativa do nosso Movimento.
In Memoriam...
JOÃO DA SILVA
1935 - 2019
28 de Fevereiro
Um gesto bonito na partida do
Dr João da Silva
No dia 28 de Fevereiro, fa-
leceu em Coimbra o Dr João da
Silva, sacerdote dispensado do
exercício das ordens e membro
do movimento de padres casa-
dos Fraternitas. Frequentou os
seminários diocesanos de
Resende e Lamego, foi pároco
em S. João da Pesqueira e pro-
fessor no Seminário de Resende.
Pediu dispensa do exercício das
ordens, casou com Maria
Madalena com quem teve duas
filhas (Alexandra eVera). Casou
também, depois de viúvo, com
a Dra Urtélia Silva, professora
do ensino secundário, secretária
da Fraternitas Movimento e
sempre disponível no serviço à
paróquia da Sé Velha de
Coimbra.ADra Urtélia Silva foi
uma grande bênção na vida do
Dr João da Silva, uma presença
sempre simpática que lhe dava
muita alegria, saúde e auxílio
com o avançar da idade.
Ainda pároco, o Dr João da
Silva profissionalizou-se no en-
sino secundário, entrando na
função pública. Foi sempre esti-
mado pelos seus condiscípulos,
colegas e paroquianos pela sua
bondade e disponibilidade. Já
depoisdedispensado, colaborou
20 anos com o pároco da Sé Ve-
lha de Coimbra na catequese,
comissão fabriqueira e centro
paroquial e social. Colaborou
também com o instituto univer-
sitário "Justiça e Paz", com o
Padre João Labrador, actual Bis-
po dos Açores.
No dia do seu funeral, 1 de
Março corrente, depois da mis-
sa de corpo presente em
Coimbra, foi para Lamego onde
também se celebrou uma missa
de corpo presente às 15h30 na
Igreja da Graça. Esta celebração
foi presidida pelo Monsenhor
Pinto Guedes (pároco de Alma-
cave), concelebrando o Cónego
José Ferreira (pároco da Sé de
Lamego), Dr José António
Teixeira (capelão do Santuário
dos Remédios), Pe Artur
Mergulhão (pároco de Arícera,
freguesia da naturalidade do Dr
João da Silva), Cónego José
Francisco (Chanceler da cúria
diocesana), Dr Delfim de Al-
meida (Deão emérito da Sé de
Lamego), Monsenhor José
Abrunhosa, Pe António Morga-
do (pároco de Souzelo) e Mon-
senhor Bouça Pires.
No fim das exéquias, todos
os sacerdotes presentes pegaram
na urna do colega dispensado e
levaram-no do altar até à carri-
nha funerária que o transportou
até ao cemitério da Cruz Alta,
onde foi sepultado. Foi um ges-
to muito bonito. Não posso dei-
xar de registar o gesto destes sa-
cerdotes, próprio de uma Igreja
acolhedora, misericordiosa, ser-
va, disponível e inclusiva, que
não deixou de impressionar pro-
fundamente ocondiscípulo,tam-
bém dispensado do exercício,
que escreveu esta nota.
Lino Martins Pinto
(Associado nº 82)

Rua Dr. Sá Carneiro, 182 - 1º Dtº
3700-254 S. JOÃO DA MADEIRA
e-mail: espiral.fraternitas@gmail.com
boletim de
fr a t er n it a s m o v im en t o
Responsável: Alberto Osório de Castro
Nº 69 - Janeiro/Março de 2019
U
m bispo norte-americano disse que a
baixa alarmante de compromisso e
medo de alguém se entregar para
toda a vida, quer na vida matrimonial quer
na vida consagrada, se deve a três coisas: às
fraldas descartáveis, ao micro-ondas e à aspi-
rina. São três símbolos da nossa cultura de
consumo, não tão inofensivos como parecem.
As fraldas são o símbolo do usar e dei-
tar fora. Os produtos hoje têm prazo de vali-
dade e muitos deles, só se podem usar uma
vez. E o que acontece com os produtos, acon-
tece com as ideias, os valores e as pessoas. O
que hoje vale, amanhã já não presta. Estamos
numa sociedade do provisório, do usa e deita
fora. Daí que muitos jovens tenham medo de
assumir compromissos definitivos tanto no
casamento como na vida de consagração. E
tudo se adia e, às vezes, para as Calendas gre-
gas!...
Apenas uma ressalva: "Estamos numa
sociedade do provisório", escrevia eu. Mas,
na política, quando se trata de sugar dinheiro
ao povo, certas iniciativas, ditas "provisórias",
passam a "definitivas"…
O micro-ondas é o modelo do efeito
instantâneo, sem tempo nem necessidade de
amadurecer, de dar gosto à comida. O nosso
tempo perdeu a paciência para a cozinha a
lenha que, embora lenta, dá um outro sabor à
mesma. Hoje nada amadurece, não se respei-
tam etapas nem ritmos de crescimento gra-
dual. Tudo é feito à pressão: os frangos, as
alfaces, o tomate, a oração, as reuniões... Até
certos decretos!...
Não há tempo para nada! Mas a matu-
ridade não acontece, não se faz sem caminho
e sem paciência. Há quem queira dizer a uma
criança, de uma só vez, o que ela deveria
aprender ao longo de vinte anos. Esquecemos
hoje a lição da frutado pomar: primeiro a flor,
depois o pequeno fruto que vai crescendo e,
finalmente, o fruto maduro... É a civilização
do micro-ondas, do efeito imediato, do pôr e
retirar do fogo. Até há quem se "queime"!...
A aspirina e os seus congéneres são
símbolo da recusa de qualquer incómodo, a
começar por uma qualquer dor de cabeça ou
previsível dor de dentes. Ninguém se atreve
a sair de casa sem a caixinha de analgésicos...
H
oje, de facto, não sabemos viver sem
todas as comodidades e não quere-
mos que ninguém nos incomode. O
egoísmo é já lei!... Estamos, de facto, sem ca-
pacidade de aguentar qualquer contrarieda-
de, por exemplo no casamento, onde, quan-
do surge qualquer pequena contrariedade,
cada um debanda para seu lado. Até já se diz
que a "experiência não deu certo"…
A publicidade insinua-nos um mundo
sem dor... Vida fácil. Paraíso na terra. A lin-
guagem da abnegação e da cruz, hoje mais
queno tempo deS.Paulo,éloucura.Ninguém
acredita que, quando procuramos um Cristo
semCruz,apenasencontramosumaCruzsem
Cristo!...
O nosso mundo é o mundo das fraldas
descartáveis, do micro-ondas e da aspirina.
Mas, com tudo isto, um mundo triste, insatis-
feito, sem objectivos que assegurem a paz in-
terior que faz nascer a paz social!...
A parábola aí fica para reflexão e para
que cada um tire as devidas
conclusões...
Manuel Paiva
(Associado Nº 28)


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  • 1. Nº 69 - Janeiro / Março de 2019 b o l e t i m d a F R A T E R N I T A S M O V I M E N T O Correspondência dos leitores 3 Foi notícia... 3 Dossier Pontos nos is 6-7 Quem vai matar, ou matou o Calvário, do Padre Américo? 8-10 Opinião com nome próprio Quando me pediam papel macio pró cu e roupa boa prá gente... 4-5 Do baú da memória (II) 11 Do baú da memória (III) 13 Ecos... 12 45º Encontro Nacional 14 Vivência ecuménica 14 In Memoriam... 15 Fraldas, micro-ondas e aspirina!... 16 (continua na pág. seguinte) O encontro dos bispos em Roma foi notícia. Vimos o relevo que os jornais e canais de televisão lhe deram. E o caso não era para menos! Ouvi parte da homilia do papa Francisco, na eucaristia de encerramento. Decerto muita gente ficou insatisfeita. Criou-se muita expectativa... O papa desiludiu? Pela minha parte, queria mais ousadia dos bispos e do próprio papa. Confesso que esperava mais. Todavia reconheço que não se passa de oito para oitenta, sem correr o risco de descrédito. Quem imaginava, há um ano atrás, que era possível tratar este assunto em público e em liberdade? E de facto assim foi. Muito se disse! Sobretudo deu-se ouvidos a testemunhos na primeira pessoa. Solidarizo- -me. Veio ao de cima tanta angústia, tanto sofrimento calado, tanta amargura machucada, abafada, espezinhada... ao longo de décadas… talvez séculos! Dois representantes máximos da Igreja foram afastados… Coragem! Só a força do Espírito garantiu esta depuração! Por tudo isto, damos graças a Deus! Fez-se justiça? Não, nós queremos verdade, transparência. Não está tudo feito, mas alguma coisa se vislumbra no horizonte. Já aparece! Mea culpa! Não bato palmas por tanta miséria posta a nu, mas alegro-me pela coragem de tantos e tantas que ousaram pôr o dedo na ferida. Venceram a vergonha de séculos. A Igreja, pelos seus representantes mais expostos, confessa-se pecadora: pede perdão.
  • 2. Queríamos mais? Para já experimentamos o caminho percorrido. Eu sei que precisamos de ir mais longe. Também sei do longo sofrimento do papa Francisco, das artimanhas que lhe preparam alguns mais próximos, da contra-corrente que lhe criam… E ele sempre em frente! Recordo que nos diálogos dos videntes de Fátima, um dizia: «Tenho tanta pena do Santo Padre!» Também reconheço e sinto a angústia do Papa, a sua incerteza, a sua dor por estes pecados da igreja contra as vítimas mais inofensivas e indefesas. Mas isto vai. Não vai tão depressa, como se queria ou previa… Entre nós, anda a passo de caracol. Um bispo de Portugal recebeu uma vítima da pedofilia… Muito bem! Falou e passou. Pronto: assim esse bispo calou a consciência. E mais não disse nem se tiraram conclusões. Tudo continua na mesma. Parece que tudo é normal… nesta anormalidade! Muito mal! E u creio no Espírito Santo! Não damos conta d'Ele, mas olhando para trás vemos que realmente está presente, activo. Só que o Espírito não trabalha à maneira dos homens. D'Ele são os tempos e a eternidade. E Ele não tem pressa… Nós desesperamos. Somos transitórios. Corremos. Corremos! Nós também trabalhamos para a eternidade! Temos de aprender com Ele. Rezemos ao Espírito Santo para entrarmos na sua dinâmica. Assim veremos como de facto tudo se transforma. Em tempo oportuno, esse Espírito desperta consciências e saboreamos a uma nova luz "a grandeza, a profundidade, a extensão do amor de Deus". As coisas reaparecem numa perspectiva nova e em horizontes mais vastos. Entra em ti. Dá crédito a Esse Espírito que te habita. Vê como essa Força divina te absorve, te orienta e te confirma na caminhada constante para o alto. Rezamos tantas vezes: "Corações ao alto!" É aí que o nosso coração deve estar, para ganharmos força, capacidade, espírito de luta, sem retrocessos ou hesitações. Ele não se cala. As coisas podem parecer esquecidas, mas Ele fá-las surgir com vigor renovado, quando menos se espera ou já desesperamos... E nós somos a garantia da sua presença, da sua vitalidade neste mundo e nesta Igreja cheia de contradições. Nesta hora sintonizamos com o papa Francisco e penitenciamo-nos: Mea culpa. Perdão, Senhor! Joaquim Soares (Associado Nº 72) Serradelo, 28 de Fevereiro de 2019 (continuação da pág. 1)  RES SUSC ITOU ! Al el uia ! PÁSCOA, a perene renovação, o presente grávido do futuro, a esperança imersa num mundo fechado, a luz que rasga as trevas e abre horizontes de infinito! A Direcção da Fraternitas Movimento augura a todos os associados e seus familiares, bem como a todos os nossos amigos, uma vivência profunda da explosão do Amor misericordioso e salvífico de Deus. Boa Páscoa!
  • 3. (continuação da página 2) Muito obrigado, pelo envio do número 68 do vosso jornal Espiral. Com melhores cumprimentos. † Carlos Ximenes Belo [ximenes.belo@salesianos.pt] (23/11/2018) Olá meu caro Osório, Esta tensão entre Código e Evangelho é intrínseca à natureza desta Igreja em que ainda vivemos. Basta pensar no confronto entre Pedro e Paulo que desde início desenhou um inevitável confronto entre espírito e instituição. Talvez pegando em cada frase do Evangelho e transformando-a em lei canónica a coisa pudesse melhorar...! Paulo Santos [pjssjp@gmail.com] (23/11/2018) Bom dia, Acuso a receção do vosso boletim que faço chegar ao Sr. Dom António Braga. Bem haja. Com os melhores cumprimen- tos, bom fim de semana, Pel' O superior, Ir. José Joaquim Mendes da Costa [alfragide@dehonianos.org] (23/11/2018) Caro Osório, agradeço o envio deste boletim e felicito-vos pelo seu conteúdo. Ao lê-lo, lembrei-me do que me disse D. António Ferreira Gomes ao entregar-me a dispensa "das obrigações inerentes ao estado sacerdotal": — «A grande maioria dos que saem são homens de muito valor. Espero que formem a retaguarda teológica da Igreja». Abraço. João Alves Dias [joaotanoeiro@gmail.com] (23/11/2018) Estimados Amigos, muito obrigado. Cumprimentos para todos. † Francisco Senra Coelho, Évora. [padresenra@gmail.com] (24/11/2018) Foi notícia... Gostosamente damos conta que o Diário de Coimbra, na sua edição do dia 10 de De- zembro de 2018, noticiava o lançamento póstumo em Arganil de “Contos e Poemas de Natal”, um livro do nosso associado José Ramos Mendes, falecido em 2016. Com cerca de 60 páginas, o livro é constituído por seis contos e três poemas. Encarregou-seda apresentação da obra Pedro Pereira Alves, advogado e amigo do autor, que imediata e muito gostosa- mente acedeu ao pedido que lhe fizera Marta Mendes, filha do nosso associado. Segundo o causídico, trata-se de «páginas muito bem escritas, que recordam contos de Natal reais, que transmitem de uma forma visível a vida do interior dasaldeias ea vidado seminário, quetambémestá aquiretratada.» Espelham a alma do autor que, segundo Marta Mendes, como «professor e verdadeiro peda- gogo, tinha como grande paixão escrever, dando ênfase aos seus sentimentos, às suas crenças, ao seu modo de viver e de sentir o mundo».
  • 4. Estávamos ainda no século XX, no longínquo ano de 1968, quando a vida me deu oportuni- dade de cumprir um dos meus sonhos: ser professora. Dei co- migo numa escola masculina, ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel, no lugar de Rio Mau. Era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma me- nina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma, e tinha apenas 18 anos. Nada me fazia pensar que tanta esperança e tanta alegria me trariam tanta vida e tantas lá- grimas. Os meninos afinal eram ho- mens com calos nas mãos, pés descalços e um pedaço de broa no bolso das calças remendadas. As meninas eram mulheres de tranças feitas ao domingo de manhã antes da missa, de saias de cotim, braços cansados de dar colo aos irmãos mais novos, e de rodilha na cabeça para aguen- tar o peso dos alguidares de rou- pa para lavar no rio ou dos mo- lhos de erva para alimentar o gado. As mães eram mulheres so- bretudo boas parideiras, gente que trabalhava de sol a sol e es- perava a sorte de alguém levar uma das suas cachopas para a ci- dade, "servir" para casa de gen- te de posses. Seria menos uma malga de caldo para encher e uns tostões que chegavam pelo correio, no final de cada mês. Os homens eram mineiros no Pejão, traziam horas de sono por cumprir, serviam-se da mulher pela madrugada,mesmo quefos- se no aido das vacas enquanto os filhos dormiam (quatro em cada enxerga), cultivavam as leiras que tinham ao redor da casa, ou perto do rio e nos dias de invernia, entre um jogo de sueca e duas malgas de vinho que na venda fiavam até recebe- rem a féria, conseguiam dar ao seu dia mais que as 24 horas que realmente ele tinha. Filhos, eram coisas de mães e quando corri- am pró torto era o cinto das cal- ças do pai que "inducava"… e a mãe também "provava da isca" para não dizer amém comeles… E os filhos faziam-se gente. E era uma festa quando co- meçavam a ler as letras gordas dumvelho pedaço de jornal pen- durado no prego da cagadeira da casa… o menino já lia... ai que ele é tão fino… se deus quiser, vai ser um homem eter uma pro- fissão! Ai como a escola e a profes- sora eram coisas tão importan- tes! A escola que ia até aos mais remotoslugares, ao encontro das crianças que afinal até nem ti- nham nascido crianças…eram apenas mais braços para traba- lhar, mais futuro para os pais em fimde vida, mais gente para des- bravar os socalcos do Douro, mais vozes para cantar em tem- po de colheitas. E os meninos ensinaram-me a ser gente, a lutar por eles, a amanhar a lampreia, a grelhar o sávelnas pedrasdorio aquecidas pelas brasas, a rir de pequenas Quando me pediam papel macio pró cu e roupa boa prá gente…*
  • 5. coisas, a sonhar com um país di- ferente, a saber que ler e escre- ver e pensar não é coisa para ri- cos mas para todos, para todos. E por lá vivi e cresci durante três anos e por lá fiz amigos e por lá semeeialgumas flores que trazia na alma inquieta de jovem que julgava conseguir fazer um mundo menos desigual. E foi o padre António Au- gusto Vasconcelos, de Rio Mau, Sebolido, Penafiel, que me foi casarao mosteiro de LeçadoBa- lio no ano de 1971 e aí me en- tregou um envelope com mil oi- tocentos e três escudos (o meu ordenado mensal) como prenda de casamento conseguida entre todosos meusalunos maisas co- legas da escola mais as senho- ras da Casa do Outeiro. E foi na igreja de Sebolido que batizou o meu filho, no dia 1 de janeiro de 1973. E é deste povo que tenho sau- dades. O povo que lutou sem ar- mas, que voou sem asas, que es- creveu páginas de Portugal sem saber as letras do seu próprio nome. Hoje, o povo navega na internet, sabe a marca e os pre- ços dos carros topo de gama, sabe os nomes de quem nos sa- queia a vida e suga o sangue, mas é neles que vai votando en- quanto continua à espera de um milagre de Fátima, duns trocos que os velhos guardaram, do dia das eleições para ir passear e comer fora, de saber se o joga- dor de futebol se zangou com a gaja que tinha comprado com os seusmilhões,e é claro de ver um filmezito escaldante para aque- cer a sua relação que estava há tempos no congelador. As escolas fecharam-se, os professores foram quase todos trocados por gente que vende aulas aqui, ali e acolá, os papás são todos doutores da mula rus- sa e sabem todas as técnicas de educação mas deseducam os seus génios, os pequenos/gran- des ditadores que até são seus fi- lhinhos e o país tornou-seumfa- buloso manicómio onde os finó- rios são felizes e os burros co- mem palha e esperam pelo dia do abate. Sabem que mais?! Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da es- cola masculina, ao final da tar- de de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pe- didos que me faziam: "Profes- sora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de tra- zer na segunda-feira, papel ma- cio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente". Esta gente foi a gente com quem me fiz gente. Hoje, não há gente… é tudo transgénico. O povo adormeceu à sombra do muro da eira que construiu mas os senhores do mundo, es- tão acordadinhos e atentos, escarrapachados nos seus solários "badalhocamente" ricos e extraordinariamente felizes porque inventaram máquinas e reinventaram novos escravos. Dizem que já estamos no século XXI... Maria de Lourdes dos Anjos in: http://etcetaljornal.pt/j/ 2015/03/quando-me-pediam- papel-macio-pro-cu-e-roupa- boa-pra-gente/ * A autora confessa: "um dos textos que mais me custou a escrever e por isso tem mais lágrimas do que palavras". 
  • 6. DOSSIER Meu Irmão Bispo, cardeal, patriarca… Ora deixemos os tí- tulos de tanta nobreza e vamos diretos ao assunto... Irmão bispo, "questionado sobre problemas ligados à Casa do Gaiato e outras obras do Pa- dreAmérico", admitiste "um de- sentendimento entre a proposta original e a visão do Estado"... Meu irmão, conheces bem o pensamento dePaiAmérico. Por isso não podes falar num desen- tendimento. Sabes que há rotura completa, total. Pai Américo contava, como dizes "com a par- ticipação dos próprios, dos jo- vens, das crianças, dos doentes". P O N T O S N O S I S Diremos mais: "esse contar" é o quiddaobra do PaiAmérico.Ele nãoqueria uma IPSS, como ago- ra se diz, ele queria um lar de fa- mília, para cada um daqueles sectores da sua obra. Uma famí- lia, na qual todos se entendem, ajudam, se educam… numa pa- lavra: crescem, se amam… Sa- bemos que isto não é fácil. Pai Américo encetava deste modo uma pedagogia renovado- ra e até revolucionária. Como é que tu, meu irmão, tens coragem de afirmar que "esta metodolo- gia teve grandes méritos, mas que não é hoje a maneira de res- ponder a essas necessidades"? Tu, meu irmão, que és um ho- mem experiente e profeta, ali- nhas no politicamente correto? Nós sabemos a luta do Padre Américo para manter a sua obra com esta característica. Sempre recusou a intromissão dos 'dili- gentes zelotes' da Segurança Social. E sabes bem, irmão bis- po, como as outras obras orien- tadas ou supervisionadas pela Segurança Social não são mode- lo de humanidade. Certo que a Casa do Gaiato, o Lar de Beire e outras Casas da Obra da Rua apresentam carên- cias, dificuldades. Não é fácil governar uma casa destas. Mas “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Como discípulos de Cristo, membros da Igreja pelo baptismo, não podemos ficar indife- rentes a situações de dor, mesmo que velada, como a que está a sofrer a Obra da Rua e aqueles a quem ela se dirige: os pobres, os deserdados, os doentes incuráveis e “descarta- dos”! Já no número anterior do nosso boletim publicámos um grito angustiado do nosso asso- ciado Joaquim Soares. E, infelizmente, não nos constou publicamente qualquer tomada de posição da hierarquia em defesa da Obra que o Padre Américo, sob inspiração de Deus, tão lúcida e inovadoramente lançou, com uma dinâmica verdadeiramente evangélica, por dar protagonismo àqueles a quem se dirigia. Antes pelo contrário: a notícia que ressaltou para a opinião pública foi a de uma suspeição do seu valor pedagógico, ali tido como ultrapassado. Esta consideração sobre o desacerto actual da pedagogia iniciada pelo Padre Américo e que a Obra hoje segue motivou reacções: apresentamos dois textos que publicamos. Uma carta dirigida ao senhor Cardeal-Patriarca de Lisboa e uma reflexão, do também nosso asso- ciado Pereira Pinto, sobre as consequências que derivam dos comentários proferidos no final dos trabalhos da Assembleia Plenária do Episcopadao Português, a 15 de Novembro de 2018. Alberto Osório
  • 7. DOSSIER nestas Casas há amor, entendi- mento, alegria, paciência… Bem-estar! E os responsáveis desta Obra têm consciência do legado do Padre Américo. Eles viram co- mo os funcio- nários da Segu- rança Social in- vadiram a Casa de Beire, como obrigaram, vio- lentaram os "moradores" a entrar nas carri- nhas. Eles, ve- lhos, decré- pitos, recusa- vam.Eles queriam ficar,em Bei- re. Sentem-se bem com a falta de todas coisas que os funcioná- rios da SS lhes ofereciam. Tu viste isto, meu irmão bispo? Sem dúvida que estas casas são antigas. Não houve visão atempada para se adaptarem às novas exigências de licencia- mento? Isso nunca foi pedido aos responsáveis?... Estiveste uns anos no Porto. Foste bispo do Porto! Não sei se visitaste aquela Casa. Recupera o tempo perdido! Vai lá, sem os escarlates discricionários. Vai como peregrino, humilde, des- conhecido. Comunga daquela pobreza, beija aqueles pés doridos, sofredores, lava aque- las chagas… Então verás o por- quê do lar de família que o Pai Américo queria e a recusa de uns funcionários, mais ou menos académicos. Esta é a nota distin- tiva da Obra da Rua, que só se apreende com o coração. Por isso ajuda a encontrar caminho que respeite o espírito da Obra, sem adulterações im- postas por leis e técnicos buro- cratas. Ó meu irmão! Acreditas na- quele julgamento fantasma do Padre Batista? Aquilo foi uma cena. O Padre Batista ama aque- la gente. Pode ter-se excedido, aceito. Mas obrigá-lo, impedi-lo de ir àquela Casa é uma violên- cia a toda a prova*. E tu calaste! E tu vês isto? Pois, eu sei,não és o bispo dele, mas és bispo da Igreja, não podes calar a injusti- ça, fazer de conta que não vês. Astuaspalavras,em declarações no final da Assembleia da CEP, são uma fraca justificação. Onde estão os mais fracos, mais vul- neráveis, mais esquecidos? Tu, meu irmão, tens de estar ao lado deles, com eles, ou estás a trair esse Evangelho que te puseram sobre os ombros na tua ordena- ção… E acrescentas, meu irmão, que "a metodologia do Padre Américo... não é hoje a maneira de responder a essas necessida- des"!Vêsoutra? Não!Ametodo- logiaestácerta;aCasa é decons- trução antiga. Façam-se as obras necessárias, mas respeite-se a metodologia herdada do Pai Américo. Não te julgo, meu irmão bis- po! Mas quando aquelas tuas declarações chegaram às mãos dos padres casados, inscritos na Fraternitas, sentimo-nos defrau- dados. É evidente que não con- fundimos as tuas palavras com o pensar e sentir dos bispos por- tugueses. E muito menos iden- tificamos as tuas palavras como inspiradas. As tuas palavras fi- zeram muito mal. Ó meu irmão bispo, como foste infeliz! Tenho pena de ti! Sem dúvida! Deve- mos corrigir o que está errado, mas salvaguardar o que é váli- (conclui na pág. 11)
  • 8. página oficial na Internet: http://fraternitasmovimento.blogspot.com NIF: 504 602 136 IBAN: PT50 0033 0000 4521 8426 660 05 DOSSIER de de análise de situações fami- liares, pela sobrevalorização de factores irrelevantes, pelo des- conhecimento, tantas vezes, da mais elementar compreensão do que são as dificuldades do dia a dia, de tantos agregados famili- ares, a que havia de providenci- ar-se, no sentido da melhoria das suas condições de vida, o que, em geral, não acontece!! E, precisamente, suportado em relatório de uma senhora drª. da Segurança Social (!), um se- nhor juiz decretou que cinco fi- lhos fossem retirados a sua mãe — aqui, sim, um atentado contranatura — pois de mais um famigerado relatório constava que a cozinha, quarto de banho e demais instalações familiares não eram condignas para nele viverem. Uma decisão destasapenas se entende, na natureza dessa om- nipotente, neo-espartana segu- rança social, de um Estado, nes- te sector, totalitário, a quem in- teressa uma tal movimentação económica social. É que, aquilo que o Estado deviafazer era conceder,deime- diato, a essa família, uma habi- tação condigna. E não o fez! Porquê? Porque essas crianças iriam acrescer a muitas outras e, por via de tal, mais senhores drs. técnicos e senhoras drªs. da Se- gurança Social(!)seriam contra- tados… Recordo uma notícia referin- do que umas instalações da se- gurança social estavam prontas a receber 26 utentes jovens, en- tregues ao Estado, para sua rein- tegração —muitos dosquais sai- rão de lá, piores do que entra- ram!...— e que já haviam sido contratados 27 funcionários — os tais!… Repete-se, para 26 utentes! E os funcionários já re- cebiam seus vencimentos…", por nada terem que fazer, pois não havia utentes! O que importa é a tal movi- mentação económica-financei- ra! O caso da Mãe e filhos aci- ma referido, que indignou mul- tidões, acabou com uma muito tardia entrega dos filhos à mãe, mas também com a condenação do Estado Português, pelo Tri- bunal dos Direitos Humanos Europeu,a pagar 15.000,00€ aos ultrajados Mãe e filhos. Apenas, com este antelóquio, o leitor pode entender o que, de seguida, vou dizer. Para quem assumir e perce- ber a teleologia que preside ao comportamento deste segundo Estado, que é a Segurança Soci- al, logo concluirá da incapacida- O nº 1949 de O Gaiato, de 24 de Novembro de 2018, em “Da Nossa Vida” (Padre Júlio) lê-se e com o título O Nosso Calvário: "Está tudo vazio… Quando é que eles voltam?..." E segue-se o relato, quiçá dramá- tico, prosseguindo: "Foi em nome de os retirar dos "perigos" (…), que foi cometido este acto contranatura e contra a vontade de todos, doentes e seus famili- ares, sem falar nos tutores que por eles se responsabilizam, que nos retiraram, até ao momento em que escrevo, 25 dos nossos doentes". Entenda-se, operação levada a cabo pela Segurança Social. Esta entidade é uma podero- sa instituição, quer pela sua or- gânica e poderes que lhe são confiados, quer pelos poderosos fundos financeiros, em que se suporta. É um estado, dentro do próprio Estado. Os advogados, que passaram ou passam pelos Tribunais de Família, conhecem essas senho- ras drªs. da Segurança Social (!), pelosseusrelatórios,pedidos pe- los Tribunais de Família. Muitossão de umainquietan- te perversidade,pela incapacida- Quem vai matar, ou matou o Calvário, do Padre Américo?
  • 9. Geral: fraternitasmovimento@gmail.com Secretariado: secretariado.fraternitas@gmail.com Direcção: direcao.fraternitas@gmail.com DOSSIER de desta para entender, por isso a rejeitar a pedagogia do Padre Américo e o espírito e especifi- cidade do Calvário, movido, por essência, pela caridade evangé- lica! Há, pois, razões profundas de carácter ideológico. Assim se compreende que, quando Antó- nio Guterres nomeou Maria de Belém Roseira, para Ministra da Saúde, dois dias depois, o Gran- de Oriente Lusitano veio a ter- reno questionar se, com essa no- meação, se pretendia substituir a solidariedade, nos hospitais, pela caridadezinha cristã (sic). E ainda se compreende a ra- zão pela qual, no governo de Passos Coelho, saísse um decre- to lei que determina, face ao tal desenvolvimento económico social que as épocas de crise ge- ram(!),seuniformizassemoses- tatutos, quanto à orgânica e fins, de todas as IPSS, de forma a, por idênticos estatutos, convergis- sem para os mesmos objectivos. E, como a omnipotente Segu- rança Social tem fundos fabulo- sos, para tudo e todos há subsí- dios! Até para as Misericórdias. Algumas já não Santas Casas… Ora, a obra do PadreAmérico sempre — que eu saiba — recu- sou-se a qualquer subsídio esta- tal — deste segundo estado. Logo, à partida, era uma ques- tão de tempo, para dar o golpe. Mas a Igreja ou entendeu os caminhos que as instituições le- vavam — mesmo as suas — e o preço que viria a pagar, por re- ceberem — ou não entenderam, ou foi-lhe indiferente, ou acei- tou. Ora, o público, notório e pro- fundamente lamentável é que a Igreja, os Bispos perceberam. E foram coniventes! Agora, a magna questão: quem, afinal, quer matar ou ma- tou O Calvário? Não é,nãofoio Estado,como dois colunistas, em Voz Portucalense de 12 de Dezem- bro 2018 dizem, acusando a Se- gurança Social. Ironicamente, os ditos colonistas, ou não leram e, se leram, não relevaram, foi o que, na Voz Portucalense de 21 de Novembro de 2018, se escreveu. A pág. 11: "O Cardeal Patri- arca foi questionado sobre pro- blemas ligados à Casa do Gaia- to ou outras obras do Padre Américo, admitindo um "desen- tendimento", entre a proposta original e a visão do Estado, em particular a Segurança Social". E, logo a seguir, o presidente da C.E.P. refere que a proposta do PadreAmérico"contava mui- to com a participação dos pró- prios", dos jovens, das crianças, dos doentes. "É uma metodo- logia que teve grandes méritos", mas que não é hoje "a maneira de responder a essas necessida- des", acrescentou. Estas palavras do Presidente da Conferência Episcopal Portu- guesa, proferidas, no fim das (continua na pág. 10)
  • 10. sessões da mesma, não podem entender-se como uma posição meramente pessoal — e que o fosse! — mas sim dos bispos portugueses. É irredutível esta hermenêutica, quer se queira, quer não. E resulta linear a posição da- queles, inexorável, como juízo de valor, de uma obra sublime: "desentendimento" entre a pro- posta original (do Padre Américo) e a visão do Estado, em particular da Segurança So- cial. Em verdade, a omnipotente Segurança Social dita implaca- velmente as suas regras. O que importa é controlo estatal, sub- jugando quem e o que não está em conformidade com o mode- lo social das IPSS, que também o são as Misericórdias, à troca do contributo estatal! Não há lugar, neste esquema, para a caridade cristã, evangéli- ca, de amor pelo próximo! Nem para o acolhimento de crianças, porque agora, tudo cabe à om- nipotência da Segurança Social e dos relatórios das tais srªs. drªs. Em breve, as Casas do Gaia- to serão um deserto, a clamar em vão! E o Calvário "contava muito com a comparticipação dos pró- prios…". Mas, agora, tudo se passa a movimentar, pelos cor- redores sombrios de lares, com cuidadores(as), psicólogos, srª.s drªs da Seg. Social, mensalida- des dos utentes, os que mais po- dem mais dão, em favor dos que menos tem… e… o contributo da Seg.Social,por cadautente… e quanto mais assalariados, mais ou menos mercenários — as ex- cepções são raras — mais em- prego… menos descompressão social… Este o grande objecti- vo! Para quê, pois, uma institui- ção como a do Padre Américo, que se norteava por uma outra pedagogia, aliás defendida, em trabalhos científicos, assente na caridade cristã?! Mas não era, afinal, esta a perspectiva dos Srs. Bispos??! Por isso, é que o Sr. Patriarca proclamou: "Éuma metodologia que teve grandes méritos (teve, passado irreversível) — "Mas que não é hoje — (ou seja, no presente) — "a maneira de res- ponder a essas necessida- des"(!!!). E eis como estas palavras do porta voz, Presidente da Confe- rência Episcopal Portuguesa, — mataram a Obra do Padre Américo, mataram O Calvário! Como é possível que alguém que tenha lido estas palavras, não as tenha entendido e vem à liça dizer lugares comuns, e não tenha coragem de denunciar o óbvio,que resulta destas mortais palavras do Senhor Patriarca de Lisboa? Porquê o silêncio dos cris- tãos, perante a agonia e morte da Obra do Padre Américo, pela mão dosBispos de Portugal? Por ter sido pelas mãos deles? E si- lencia-se? 02-01-2019 José Nuno Pereira Pinto (Professor, Advogado, Canonista) Quem vai matar, ou matou o Calvário, do Padre Américo? (continuação da pág. 9)  DOSSIER
  • 11. DO BAÚ DA MEMÓRIA (II)* (conclui na pág. 12) Quando, há dias, en- contrei esta reflexão com quase cinquen- ta anos — foi lida na tal confe- rência eclesiásticanodia2 de Ju- nho de 1969, tal como está men- cionado no final do texto que está datado,mas não assinado — não deixei deexclamar: — Nada mudou! Os clérigos continuam a viver distantes da vida das pessoas vulgares.Tantas vezes indiferen- tes aos problemas dos outros, tantas vezespreocupados apenas com a beleza dos "seus" actos de culto, com a música, se é ou não apropriada para as ocasiões, se as flores… se a campainha… se a genuflexão… se as velas… se as inclinações… Regressaram às vestes clericais. Como não evangelizam com a vida, talvez um colarinho bran- co ainda diga alguma coisa… A linguagem não mudou. Um amigo meu perguntou-me por- que é que os padres falam "padrês" e não falam português. É que assim ninguém os enten- de. Concluiu ele. Num encontro de preparação para umsínododiocesano,quan- do se procuravam propostas para o tema de fundo, inocentemente eu propus uma reflexão sobre a linguagem da catequese, das homilias, dos sermões…A lin- guagem do clero. Ninguém per- cebeu a intenção e foi pena. As conclusões destes sínodos e ou- tros trabalhos similares ficam apenas escritas para a posterida- de. Continua o clero a viver a sua vida de funcionários do culto. O panorama não mudou. Mas agravou-se. Há 50 anos havia esperança na renovação. O vaticano II tinha aberto espaços de diálogo, de re- flexão, que lentamente se foram fechando. Francisco — o Papa que veio do fim do Mundo — bem tenta remar contra as ondas que açoitam os areais da Igreja, bemtenta desfazeros castelos de nuvens negras que tapam a Luz do Evangelho, mas a inércia da tradição continua mais forte que a renovação. do. Duvido que esta carta chegue às tuas mãos. Algum zeloso se- cretário encarregar-se-á de ta extraviar. Por isso, depois de te enviar esta carta, vou fazer com que chegue aos meus amigos e irmãos da Fraternitas. Afinal, embora marginalizados na Igre- ja, desacreditados por esta Igre- ja, ainda há alguém com senso comum normalizado. Rezamos, meu irmão bispo, para que vejas além. Sabes bem que o profeta antecipa no tem- po. Vê para além dos horizontes geográficos, cronológicos.Afir- ma os valores escatológicos de- finitivos.Relembro as cartas que o Anjo enviou às sete igrejas, convidando-as a rever os seus pontos de vista. Sou um pobre padre margi- nalizado que acredita que o Es- pírito governa a Igreja através de homens, que nem sempre sinto- nizam nessa mesma linha.Acre- dita! Tu podes apressar o Reino ou atrasá-lo. Há uma certeza: contigo, meu irmão bispo, sem ti ou mesmo contra ti, o nosso Deus leva a água ao Seu moi- nho, isto é, concretiza o Seu ple- no de salvação. Colabora! Sem- pre será mais fácil! E agora, mãos à obra. Refaçamos as ca- sas da Obra da Rua. Demos-lhe condições de higiene mais efi- ciente, mais e maiores comodi- dades que a moderna tecnologia C. Pontos nos Is (continuação da pág. 7) DOSSIER * Completa-se, agora, a última parte do texto com o título acima, publicado no número anterior. preconiza.Assim gostaria de ver a tua palavra, esclarecida e esclarecedora, abrircaminhos de alegria esatisfação.Ainda é tem- po! Joaquim Ferreira Soares 13/12/2018 *A pena a que o tribunal condenou o Padre Baptista foi indultada pelo Presidente da República, pelo Natal de 2018. Segundo o JN, entre os cidadãos que pediram este perdão presidencial estão três antigos chefes de Estado: Ramalho Eanes, Jorge Sampaio e Cavaco Silva. [Nota do Editor] 
  • 12. car de tamanha (des)graça! O presbítero de antanho, quan- do da ordenação de homens ca- sados se começou a falar, sob as tílias ornamentais do largo do seminário, argumentava nestes termos: "Era o que mais faltava! Ó gente, ter de casar? Já temos de aturar as mulheres dos outros na igreja e ainda termos de atu- rar a nossa lá em casa?" Parece (conclusão da pág. 13) Do baú da memória (III)  anedota, mas não é. Eu ouvi este desabafo. E nunca fiquei a saber o que este homem pensava. Pen- saria ele que a lei do celibato obrigatório, seria substituída pela do casamento obrigatório? Que ideia faziaele do amor? Um aturar, um sofrimento constan- te? Nunca ninguém lhe terá dito que Deus é Amor? No livro citado "O Diário do Concílio", refere-se a Mons. Soares (Sebastião Soares de Resende, bispo da Beira em Moçambique) como tendo dito que será preciso esperar pelo próximo concílio para se obter um bom esquema sobre os sa- cerdotes. Era uma profecia ou um desabafo pessimista? Esperemosentão opróximo con- cílio. E que não demore! Antonino Mendonça 21-02-2019 E, por fim, a bomba, tantos anos contida e escondida, rebentou: a pedofilia estilhaçou a confiança de grande parte dos crentes. E o celibato obrigatório continua a impor a sua lei. Parece absolu- tamente esquecido da agenda dos bispos, que piamente se la- mentam e pedem orações pelas (conclusão da pág. 11) Do baú da memória (II) vocações… Não creio que seja com rezas e benzeduras que es- tes problemas se resolvem, mas com mudanças. A muitos outros temas poderia referir-me. Mas fico-me por aqui. É Outono. Talvez tenhamos de deixar cair algumas folhas. Tal- vez tenhamos de suportar mais umas quantas atitudes ditatori- ais. Talvez tenham ainda de ser caladas algumas vozes, até que o grito do Povo de Deus que nin- guém ouve, seja finalmente es- cutado. Talvez tenha de passar mais um Inverno. Mas tenho es- perança. A Primavera chegará. Antonino Mendonça 12-11-2018  e c o s . . .  "Os Primeiros Cem Anos do Cristianismo", um chamamento para voltarmos à fonte. Tal como é necessário voltarmos à essência dos textos bíblicos, também é necessário descobrir os trilhos pisados pelo os nossos an- tepassados. Neste 3 dias: - Descobri o quanto difícil foi o iní- cio do Cristianismo, as discussões, asdúvidasque osnossosantepas- sados tiveram de ultrapassar. - Encontrei um grupo de cristãos disponíveis para partilhar e um espaço aberto às questões que impactam as nossas vivências. - Cresci num espaço ecuménico, onde homense mulheresdespidos de imposições participam activa- mente no testemunho de Jesus. Os meus agradecimentos a todos os membros da Fraternitas por me terem permitido esta experiência de vida fantástica. Um abraço fraterno, Marcos 21/11/2018
  • 13. - Escrevo no dia em que, no Vaticano, se inicia o encontro do Papa Franciscocom ospresiden- tesdasConferênciasEpiscopais. Todos eles clérigos: cardeais ou bispos, num total de 190 ho- mens. Procuram uma solução para a praga da pederastia e de mais escândalos sexuais que, tendo saído do segredo das cúrias e perdido os medos das represáli- as e dos castigos eternos, se es- palhou como mancha de óleo sujo pela hierarquia da Igreja Católica. - Há dias visitei, como é meu costume de há uns tempos para cá, um alfarrabista de Faro. Comprei o 3º volume de "O Di- ário do Concílio" de Henri Fesquet, publicado em 1968. Relata a 4ª e última sessão do Concílio Vaticano II. Nele se re- ferem três assuntos provisoria- mente (?)não aprofundados nem assumidos, ou porque Paulo VI os chamou a si ou porque a ti- midez ainda reinante em muitos dos clérigos não o permitiu:  Regulação da natalidade. O Papa encarregou-se do proble- ma e, mais tarde, publicou a encíclica "Humanae Vitae", que teve duas consequências desastrosas: 1ª, Casais houve que pretenderam seguir a dou- trina papal sem o conseguir, com conflitos enormes de consciência; 2ª, outros casais, a grande maioria, não quise- ram saber das proibições repe- tidas nem sequer tiveram cu- riosidade de conhecer a letra da carta pontifical. Perda total do respeito e da autoridade ro- mana!  Possibilidade de um segundo casamento para o cônjuge ino- centeabandonado,comoacon- tece na Igreja Ortodoxa. Só uma voz se levantou a referir o problema. Mais nada. Foi preciso esperar cinquenta anos para que uma luz muito débil brilhe ao fundo túnel. Refiro- me, claro está, à Exortação Apostólica "Amoris Laetitia", que abre uma porta muito estreitinha à recepção e parti- cipação nos sacramentos aos divorciados casados civilmen- te em segundo casamento. Ca- tólico romano sofre… DoCelibato.Com oargumen- to de que "não é oportuno de- bater publicamente este tema, que requer a maior prudência e se reveste de grande impor- tância", Paulo VI meteu tra- vões a fundo e acabou com as discussões. E, passados estes anos,os problemasnão só con- tinuam mas aumentaram con- sideravelmente: por falta de candidatos, muitos seminários fecharam; mais de cem mil presbíteros e bisposabandona- ram as fileiras do clero; vieram à luz do dia escândalos sexu- aisescondidos no recôndito si- giloso das cúrias… E a procis- são ainda vai na praça! - Para terminar, deixo dois apontamentos: de um presbítero dos anos sessenta e de um teó- logo dos nossos dias. O teólogo desta geração, cheio de palavreado e de presunção, atribuiu o problema da pedofilia a uma certa tendência natural para esse vício eà solidãodeque alguns agressores sofrem, mas sem qualquer ligação à lei do celibato obrigatório, uma vez que o celibato é um dom de Deus, uma graça que permite a disponibilidade total do cléri- go… Não se poderá nunca abdi- DO BAÚ DA MEMÓRIA (III) (conclusão na pág. 12.)
  • 14.  Eu tinha vontade de conhecer Elias, por duas razões: porque ele é árabe e cristão, uma iden- tidade difícil de viver neste contexto, e porque tinha casado, havia poucos meses, com Violaine, uma rapariga que passara um ano em Bet Gemal*, antes de descobrir a sua vocação para o casamento. Eu sou palestiniano cristão e tenho um pas- saporte israelita. Nasci na cidade velha de Jerusalém, numa família de sete filhos. Ami- nha mãe é ortodoxa grega, e o meu pai, ca- tólico latino: foi nesta Igreja que fomos edu- cados. Fiz toda a minha escolaridade numa escola luterana, que hoje já não existe. Pai católico, mãe ortodoxa, escola luterana... basta isto para nos pôr em contacto com esta Igreja de Jerusalém, herdeira da Igreja do Pen- tecostes, e, em primeiro lugar, judeo-cristã. WARREN, Inès de, Esse Amor que o mundo esquece, Paulinas, Prior Velho 2017, p. 213 * [N.E.: Bet Gemal é um mosteiro das Monjas de Belém, em Israel] Vivência ecuménica 45º ENCONTRO NACIONAL Data: 26 a 28 de Abril de 2019 Local: Casa de Retiros de Nossa Senhora das Dores (lado da Capelinha das Aparições) Tema: AS PERIFERIAS NA IGREJA Orientador: Padre José LUÍS RODRIGUES (PÁROCO DA DIOCESE DO FUNCHAL) Inscrições: Secretariado da Fraternitas até ao dia 11 de Abril Urtélia Silva | telf 239 001 605 | telmv 914 754 706 (até às 21:00H, por favor) | secretariado.fraternitas@gmail.com Este é o nosso Encontro Anual em que, para além da reflexão, oração e reforço de laços fraternos, teremos também a Assembleia Geral que faz parte da pro- gramação normal da FRATERNITAS Movimento. São um instrumento indispensá- vel para o crescimento pessoal e grupal. Contamos, naturalmente, com todos, pois se trata de um Encontro a nível naci- onal. Todavia, porque é aberto, pedimos também o favor de o divulgarem e motivarem amigos e conhecidos para esta iniciativa do nosso Movimento.
  • 15. In Memoriam... JOÃO DA SILVA 1935 - 2019 28 de Fevereiro Um gesto bonito na partida do Dr João da Silva No dia 28 de Fevereiro, fa- leceu em Coimbra o Dr João da Silva, sacerdote dispensado do exercício das ordens e membro do movimento de padres casa- dos Fraternitas. Frequentou os seminários diocesanos de Resende e Lamego, foi pároco em S. João da Pesqueira e pro- fessor no Seminário de Resende. Pediu dispensa do exercício das ordens, casou com Maria Madalena com quem teve duas filhas (Alexandra eVera). Casou também, depois de viúvo, com a Dra Urtélia Silva, professora do ensino secundário, secretária da Fraternitas Movimento e sempre disponível no serviço à paróquia da Sé Velha de Coimbra.ADra Urtélia Silva foi uma grande bênção na vida do Dr João da Silva, uma presença sempre simpática que lhe dava muita alegria, saúde e auxílio com o avançar da idade. Ainda pároco, o Dr João da Silva profissionalizou-se no en- sino secundário, entrando na função pública. Foi sempre esti- mado pelos seus condiscípulos, colegas e paroquianos pela sua bondade e disponibilidade. Já depoisdedispensado, colaborou 20 anos com o pároco da Sé Ve- lha de Coimbra na catequese, comissão fabriqueira e centro paroquial e social. Colaborou também com o instituto univer- sitário "Justiça e Paz", com o Padre João Labrador, actual Bis- po dos Açores. No dia do seu funeral, 1 de Março corrente, depois da mis- sa de corpo presente em Coimbra, foi para Lamego onde também se celebrou uma missa de corpo presente às 15h30 na Igreja da Graça. Esta celebração foi presidida pelo Monsenhor Pinto Guedes (pároco de Alma- cave), concelebrando o Cónego José Ferreira (pároco da Sé de Lamego), Dr José António Teixeira (capelão do Santuário dos Remédios), Pe Artur Mergulhão (pároco de Arícera, freguesia da naturalidade do Dr João da Silva), Cónego José Francisco (Chanceler da cúria diocesana), Dr Delfim de Al- meida (Deão emérito da Sé de Lamego), Monsenhor José Abrunhosa, Pe António Morga- do (pároco de Souzelo) e Mon- senhor Bouça Pires. No fim das exéquias, todos os sacerdotes presentes pegaram na urna do colega dispensado e levaram-no do altar até à carri- nha funerária que o transportou até ao cemitério da Cruz Alta, onde foi sepultado. Foi um ges- to muito bonito. Não posso dei- xar de registar o gesto destes sa- cerdotes, próprio de uma Igreja acolhedora, misericordiosa, ser- va, disponível e inclusiva, que não deixou de impressionar pro- fundamente ocondiscípulo,tam- bém dispensado do exercício, que escreveu esta nota. Lino Martins Pinto (Associado nº 82) 
  • 16. Rua Dr. Sá Carneiro, 182 - 1º Dtº 3700-254 S. JOÃO DA MADEIRA e-mail: espiral.fraternitas@gmail.com boletim de fr a t er n it a s m o v im en t o Responsável: Alberto Osório de Castro Nº 69 - Janeiro/Março de 2019 U m bispo norte-americano disse que a baixa alarmante de compromisso e medo de alguém se entregar para toda a vida, quer na vida matrimonial quer na vida consagrada, se deve a três coisas: às fraldas descartáveis, ao micro-ondas e à aspi- rina. São três símbolos da nossa cultura de consumo, não tão inofensivos como parecem. As fraldas são o símbolo do usar e dei- tar fora. Os produtos hoje têm prazo de vali- dade e muitos deles, só se podem usar uma vez. E o que acontece com os produtos, acon- tece com as ideias, os valores e as pessoas. O que hoje vale, amanhã já não presta. Estamos numa sociedade do provisório, do usa e deita fora. Daí que muitos jovens tenham medo de assumir compromissos definitivos tanto no casamento como na vida de consagração. E tudo se adia e, às vezes, para as Calendas gre- gas!... Apenas uma ressalva: "Estamos numa sociedade do provisório", escrevia eu. Mas, na política, quando se trata de sugar dinheiro ao povo, certas iniciativas, ditas "provisórias", passam a "definitivas"… O micro-ondas é o modelo do efeito instantâneo, sem tempo nem necessidade de amadurecer, de dar gosto à comida. O nosso tempo perdeu a paciência para a cozinha a lenha que, embora lenta, dá um outro sabor à mesma. Hoje nada amadurece, não se respei- tam etapas nem ritmos de crescimento gra- dual. Tudo é feito à pressão: os frangos, as alfaces, o tomate, a oração, as reuniões... Até certos decretos!... Não há tempo para nada! Mas a matu- ridade não acontece, não se faz sem caminho e sem paciência. Há quem queira dizer a uma criança, de uma só vez, o que ela deveria aprender ao longo de vinte anos. Esquecemos hoje a lição da frutado pomar: primeiro a flor, depois o pequeno fruto que vai crescendo e, finalmente, o fruto maduro... É a civilização do micro-ondas, do efeito imediato, do pôr e retirar do fogo. Até há quem se "queime"!... A aspirina e os seus congéneres são símbolo da recusa de qualquer incómodo, a começar por uma qualquer dor de cabeça ou previsível dor de dentes. Ninguém se atreve a sair de casa sem a caixinha de analgésicos... H oje, de facto, não sabemos viver sem todas as comodidades e não quere- mos que ninguém nos incomode. O egoísmo é já lei!... Estamos, de facto, sem ca- pacidade de aguentar qualquer contrarieda- de, por exemplo no casamento, onde, quan- do surge qualquer pequena contrariedade, cada um debanda para seu lado. Até já se diz que a "experiência não deu certo"… A publicidade insinua-nos um mundo sem dor... Vida fácil. Paraíso na terra. A lin- guagem da abnegação e da cruz, hoje mais queno tempo deS.Paulo,éloucura.Ninguém acredita que, quando procuramos um Cristo semCruz,apenasencontramosumaCruzsem Cristo!... O nosso mundo é o mundo das fraldas descartáveis, do micro-ondas e da aspirina. Mas, com tudo isto, um mundo triste, insatis- feito, sem objectivos que assegurem a paz in- terior que faz nascer a paz social!... A parábola aí fica para reflexão e para que cada um tire as devidas conclusões... Manuel Paiva (Associado Nº 28) 