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         mau comportamento
Decisivo na demissão

A
                                          Por Fernando Salles |
                                                salles@lund.com.br |
                                                                       Não adianta ser competente.
                                                                           O profissional que gera
                        formação acadêmica incluía curso
                        superior e pós-graduação em uni-               atritos entre colegas, mente
                        versidades conceituadas. Dotado                com frequência, é explosivo,
                        de raciocínio rápido, era campeão
                        em proatividade nas dinâmicas de                   arrogante, passa horas
                        grupo. Com ótimo português, pos-                 improdutivas na internet
                        tura confiante e dicção perfeita, fa-
lar em público estava longe de ser um problema. As quali-
                                                                        costuma fazer estragos no
dades do candidato eram tantas, que a diretora de recur-                clima das empresas e não é
sos humanos brincou que o gestor havia ganho na loteria.
Considerado, de cara, “um líder nato”, o candidato em
                                                                           bem-vindo. Conheça os
questão não havia parado muito tempo em nenhuma em-                         principais problemas
presa, é bem verdade, mas sabia justificar tal fato com a                comportamentais e saiba
“necessidade de, no passado, adquirir experiência em to-
das as vertentes da área que escolheu”.                                     como lidar com eles.
    Na estreia no novo trabalho, chegou sem dizer
“bom dia” a nenhum colega. “Ansiedade do pri-
meiro dia”, pensou o chefe. Veio a primeira
reunião, momento em que apresentou boas
ideias, mas reagiu de forma ríspida a quase to-
dos os questionamentos que recebeu e mostrou
total desinteresse em ouvir as sugestões dos
outros. Na segunda semana, aproveitava a
hora do cafezinho para falar mal de
algum colega ausente no momento.
Com menos de um mês no empre-
go, já tinha a antipatia dos fun-
cionários de todas as áreas.
Apesar de competente em sua
função, criou tantos atritos,
que fez despencar a pro-
dutividade e os índices
de satisfação do restan-
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     demiSSõeS



              te da equipe. Manteve a conduta
              mesmo após advertência do ges-               O Que MOtiVa uMa DeMissÃO
              tor e da diretora de RH, e termi-
              nou demitido.                                                                34%            28%
                                                                            Comportamento                 Baixo
                  O exemplo é fictício, mas re-                    5%
                                                                                                          desempenho

              trata situação comum em muitos                     Outros
              ambientes de trabalho. “As com-                    1%
              petências técnicas estão no currí-             Meta não
                                                         atingida uma
              culo, mas elas não bastam para                    só vez                                           20%
                                                                                                              Falta de
              garantir bom desempenho. A                                  6%                             alinhamento
                                                                   Metas não             6%              com valores/
              postura comportamental, mais                          atingidas         Cortes de           objetivos da
              difícil de ser avaliada, também in-           recorrentemente            custos                empresa

              fluencia muito”, explica Meiry Ka-
                                                                     foNte: Site de eMPreGoS CUrriCULUM.CoM.Br



              mia, diretora da Human Value,
              empresa de consultoria, treina-          Para Juliana Saldanha, psicóloga e consultora de
              mento e desenvolvimento de pes-       RH do Grupo Soma, se antes a capacidade do profis-
              soas. Os números dão razão a ela:     sional fazia com que muitas empresas fechassem os
              pesquisa realizada pelo site de em-   olhos para desvios de conduta, hoje é cada vez mais
              pregos Curriculum com 417 em-         raro que isso aconteça. “Atualmente, há no mercado
              presas mostra que comportamen-        muita gente boa tecnicamente. O desafio é ser supe-
              to é o principal motivo das demis-    rior nos quesitos comportamentais”, garante.
              sões, com 34,1% de participação.
                              O índice é superior   MentIrosos reCorrentes
      Competências ao fator que aparece             eles podem estar procurando um novo emprego
       técnicas não em segundo lugar, o
                              baixo desempenho,     Mentir frequentemente é um exemplo de falha de
       bastam para com 28,1%.                       comportamento que pode tornar inviável a presença
   garantir bom                                     de um profissional na empresa. Meiry Kamia, da
                                                    Human Value, explica que desculpas para justificar
   desempenho.                                      atrasos estão entre as mais comuns. Algumas são
o comportamento                                     inofensivas, desde que não se tornem frequentes.
  também deve                                       No entanto, há também quem minta para justificar
                                                    faltas que atrapalham a produtividade e sobrecarre-
  ser analisado                                         gam os colegas de trabalho. Casos em que a des-
 para se evitar                                               culpa de um inexistente problema familiar
  problemas.                                                    de saúde é usada, podem ter como moti-
                                                                  vo real um “bico” (outro trabalho) para
                                                                   conseguir dinheiro extra ou mesmo
                                                                    uma entrevista de emprego em outra
                                                                     empresa. Ambas as situações são
                                                                      geradas, sobretudo, por insatisfa-
                                                                      ções com o trabalho ou com o salá-
                                                                      rio recebido. Sofrem menos com
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                                        elas, conforme lem-          Mentirosos gerar problemas maiores conforme atin-
                                        bra Meiry, empresas                                        ge níveis hierárquicos mais altos. “É um
                                        com políticas estabe-
                                                                   em altos cargos: grande risco ter alguém com esse com-
                                        lecidas de desenvolvi- lembre que eles portamento acessando dados confi-
                                        mento profissional,          têm acesso a denciais da empresa”, exemplifica a
                                        como plano de carrei-                                      consultora. Sobre informações confi-
                                        ra e estratégia de car-
                                                                            dados                  denciais, Juliana Saldanha, do Grupo
                                        gos e salários que in-       confidenciais Soma, acrescenta que divulgá-las sem
                                        clua possibilidade de                                      permissão é um dos motivos geradores
                                        promoções e de aumento nos ren-             de demissão por justa causa nas empresas.
                                        dimentos por mérito.
                                            Investir em cursos e treina-            aCoMoDaÇÃo e DesMotIVaÇÃo
                                        mentos é outra forma de reter               o profissional precisa ser desafiado a assumir novos projetos
                                        bons profissionais e retardar a
                                        busca por oportunidades fora da             Torcer para não ser lembrado na hora em que sur-
                                        empresa. Nesse quesito, um bom              gem projetos além das rotinas de trabalho e jamais
                                        exemplo vem da rede carioca Pre-            sugerir algo novo pode ser sintoma de acomodação
                                        zunic. A empresa mantém pro-                e desmotivação, dois problemas de comportamen-
                                        gramas como o Novo Telecurso,               to que podem surgir isoladamente ou em conjunto.
                                        que estimula os colaboradores a             Para a consultora Meiry Kamia, profissionais aco-
                                        retomar os estudos, com apoio de            modados são ruins em muitas situações, mas não
                                        orientadores especiais de apren-            em todas. A especialista explica que a característica
                                        dizado, além de material didático.          aparece, muitas vezes, em alguém que desempenha
                                            Ao gestor também cabe o papel           muito bem aquilo que se propõe a fazer, mas não
                                        de identificar outras mentiras que          tem ambição de galgar posições. Se a empresa tam-
                                                apareçam no dia a dia. Prin-        bém não tem planos de crescimento para aquele
                                                   cipalmente porque al-            profissional – e, claro, precisa dele na função atual
                                                      guém com essa falha           – não há razões para preocupação. É o que costuma
                                                        de conduta pode             acontecer em empresas conservadoras, onde pla-
                                                                                                      nos de expansão inexistem, ou em
                                                                                                      cargos estritamente técnicos, por
                                                                                                      exemplo. Complicado mesmo é
                                                              “o gestor deve
joão de freitaS




                                                                                                      quando a empresa está em cresci-
                                                                revelar para o                        mento e conta com estratégia para
                                                                funcionário a                         sucessão de cargos. Nesse caso, o
                                                                 conduta que                          funcionário “estacionado” precisa ser
                                                                                                      desafiado a assumir novas responsa-
                                                                  desaprova
                                                                                                      bilidades. Sem uma reação positiva,
                                                                  e solicitar                         a demissão costuma ocorrer.
                                                                 mudança”                                 Pior ainda quando a acomodação
                                                                                                      é gerada por um sentimento de des-
                                                                    MEIRY KAMIA,
                                                              DIRETORA DA HUMAN VALUE                 motivação com a empresa ou com a
                                                                                                      função exercida. Sobrecarga de traba-
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     demiSSõeS



                                                              odos suficientes de descanso e cujos efeitos prejudi-
                                                              cam o desempenho profissional e a vida pessoal.
                                                                  Para que problemas desse tipo não ocorram, uma
                                                              boa alternativa – já utilizada em muitas companhias
                                                              – é montar um programa de qualidade de vida no
                                                              trabalho (QVT). Com várias possibilidades de im-
                                                              plantação, o recurso tem o objetivo de orientar os
                                                              funcionários sobre eventuais riscos à saúde e encora-
                                                              jar a adoção de um estilo de vida saudável, com
                                                              ações como boa alimentação e prática de atividades
                                                              físicas. Uma dica é buscar na sua região empresas de
                                                              outros segmentos que obtiveram sucesso na imple-
                                                              mentação de um programa de QVT. Distribuir as
                                                              tarefas de modo a evitar sobrecargas de trabalho e
                                                              definir metas ousadas, mas possíveis, são ações que
    Sobrecarga de trabalho, metas                             podem partir do gestor. Já para o funcionário, a re-
              inatingíveis, falta de                          comendação é conversar sobre os seus problemas e,
                                                              quando preciso, saber dizer “não” ao ser destacado
 reconhecimento e de perspectivas
                                                              para tarefas adicionais.
     de ascensão estão entre as
           principais causas da                               Internet para uso pessoal
                 desmotivação                                 excesso prejudica produtividade e qualidade do trabalho

                                                              Uso abusivo da internet é outro problema recorren-
                      lho, metas inatingíveis, falta de re-   te nas corporações. Os jovens, tão acostumados a
                      conhecimento e de perspectivas          utilizar redes sociais como Orkut, Twitter e Face-
                      de ascensão estão entre as princi-      book e programas de comunicação como MSN, le-
                      pais causas. Nesse estágio, o es-       vam o costume para o ambiente de trabalho. Em
                      tresse ocupacional costuma ser          muitas áreas, a utilização desses recursos é necessá-
                      tão alto a ponto de prejudicar a        ria para buscar informações relevantes à área de
                      saúde do funcionário. “Quem pas-        atuação. O problema começa quando o uso para
                      sa por isso costuma ter dores de        fins pessoais passa a ser exagerado e a prejudicar o
                      cabeça e musculares mais frequen-       desempenho. “Há casos de empresas que, ao moni-
                      tes. Dependendo da função, ocor-        torar os acessos, perceberam que alguns funcioná-
                      rem lesões por esforço repetitivo e     rios passavam tardes inteiras utilizando a internet
                      até acidentes de trabalho”, comen-      para fins pessoais”, conta Meiry Kamia.
                      ta a diretora da Human Value.               A melhor forma de minimizar o problema é esta-
                      Sem uma interrupção nesse pro-          belecer regras claras para utilização dessas ferra-
                      cesso, o quadro pode evoluir para       mentas. Para isso, algumas empresas adotam como
                      algo conhecido na área psiquiátri-      procedimento exigir, no primeiro dia de trabalho,
                      ca como Síndrome de Burnout,            que o funcionário assine um termo comprovando
                      um transtorno gerado pelo exces-        estar ciente das regras. Feito isso, não há como ale-
                      so de estafa no trabalho sem perí-      gar desconhecimento. “Há quem não perceba o
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                                   tempo perdido na internet e se            outros casos, ela parte de quem é, comprovadamen-
                                   faça de vítima quando questiona-          te, muito capaz, mas julga-se acima do bem e do
                                   do”, afirma a consultora. “É im-          mal, a ponto de menosprezar ideias de terceiros e
                                   portante mostrar claramente quais         não aceitar que as suas sejam contestadas.    
                                   foram os excessos, apontando, por             Agressivos ao extremo e pessoas incapazes de
                                   exemplo o dia e o tempo de nave-          manter a calma em momentos de pressão também
                                   gação”, recomenda Meiry.                  são figuras fáceis no ambiente corporativo. Juliana
                                                                             Saldanha, consultora de RH do Grupo Soma, avisa
                                   relaÇÃo Interpessoal                      que, na medida certa, a postura agressiva pode ser
                                   o inferno nem sempre são os outros        útil para quem trabalha em determinadas áreas,
                                                                             como a comercial, na qual negociações duras fa-
                                   Quando o assunto é a relação com          zem parte da rotina. Em excesso, porém, prejudica
                                   chefes e colegas, a lista de com-         o profissional e quem convive com ele. “Trabalhar
                                   portamentos que só atrapalham é           bem em equipe é cada vez mais necessário, e o mer-
                                                                             cado valoriza quem tem mais traços democráticos
                                                                             do que autoritários”, afirma a consultora.

                                                                             os Mal-HuMoraDos
                                                                             Pessimismo pode contaminar colegas

                                                                               Quem não mede a agressividade perde pontos com
                                                                               chefe e colegas, e o mesmo acontece com os mal-
                                                                               humorados de plantão, nos casos em que o pessi-
                                                                               mismo contamina colegas. Mas vale ressaltar que
divULGaÇão




                                                                                                   todos estamos sujeitos a dias dis-
                                                                                                   tantes do bom humor e isso, co-
                                                                                                   mumente, passa longe de se tor-
                                                                  “o saldo entre                   nar um problema. “A questão é o
                                                              capacidade técnica                   impacto gerado na equipe e no
                                                                                                   negócio. Se for nulo, não há ra-
                                                               e comportamento
                                                                                                   zões para preocupação”, destaca
                                   das mais extensas.            define como é                      Juliana, que faz questão de desfa-
                                   Vai desde situações        um profissional”                      zer o mito de que o ideal é ter na
                                   pontuais, como in-          JULIANA SALDANHA, CONSULTORA
                                                                                                   equipe quem enxergue apenas o
                                   trigas e fofocas ge-             DE RH DO GRUPO SOMA            lado bom das coisas. “Otimismo
                                   radoras de descon-                                              demais pode ser sinal de falta de
                                   fiança e atritos, até                                           senso crítico e de leitura errada
                                   ocorrências ainda                                               da realidade”, comenta.
                                   mais problemáticas. Postura arro-               Com maior ou menor impacto, o fato é que cer-
                                   gante é uma delas. Às vezes a arro-         tas atitudes nas relações com colegas costumam
                                   gância no trabalho é sinal de inse-         surpreender os gestores envolvidos na contratação
                                   gurança e medo de que descu-                do profissional. Uma forma de minimizar decep-
                                   bram as próprias deficiências. Em           ções é fazer a lição de casa antes de iniciar o proces-
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     demiSSõeS



              so de seleção. O primeiro passo,       empresa incentiva a troca de informações entre as
              segundo Juliana, é traçar detalha-     equipes”. A solução não virá em 100% dos casos, já
              damente o perfil procurado para        que depende também da disponibilidade do profis-
              a função – técnico e, claro, com-      sional em mudar o comportamento, mas a advertên-
              portamental. Por mais urgência         cia servirá para deixar claro quais práticas a empresa
              que a empresa tenha, o processo        valoriza e quais comportamentos ela reprova. Aliás,
              deve ser conduzido com calma e         essa é uma tarefa sem data de conclusão. A cada
              envolver várias etapas, como aná-      novo funcionário, um novo desafio.                  Sm

              lise de currículos, entrevistas, di-
              nâmicas de grupo, testes psicoló-
              gicos e provas situacionais, que
              simulam rotinas de trabalho com
              as quais o candidato terá de lidar.
              Nessas provas sempre é possível
              identificar posturas que poderão
              prejudicar a relação do profissio-
                                                      joão de freitaS




              nal com chefes, colegas e subordi-
              nados. “Alguns testes avaliam se a
                          pessoa tem mais traços
   O feedback é extrovertidos ou intro-
um dos recursos vertidos, o que ou di-
                          trazer facilidades
                                             pode

   que a empresa ficuldades para o profis-                         Postura do chefe pode ser
                                                                   ‘convite’ ao mau comportamento
  pode usar para sional no exercício da
         orientar o atividade, que for ocu-                        Q
                                       dependendo                       uestionado sobre as características de um bom
                          do cargo                                      técnico de futebol, o craque Romário certa vez
    funcionário e par”, diz Juliana, com a                         disparou: “É aquele que não atrapalha”. Não seria justo
  corrigir atitudes ressalva de que os testes                      afirmar que o mesmo raciocínio define um bom líder,
                          não são eliminatórios.                   mas é fato que a má liderança influencia a maioria dos
                  Quando essa ação preventiva                      desligamentos de funcionários. Pelo menos é nisso
                                                                   que acredita TaTsumi Ebina , sócio da consultoria
              não dá resultados, é hora de o ges-
                                                                   Muttare. Para ele, muitos líderes se envolvem nas
              tor agir e dar o chamado feedback
                                                                   rotinas de trabalho e deixam de gerir a equipe. São
              (retorno sobre o desempenho),
                                                                   pessoas centralizadoras, que resistem a delegar tarefas,
              conforme orienta Meiry Kamia.                        inibem a criatividade e a proatividade de funcionários.
              Nessa conversa, o gestor deve ter o                  “Sem espaço, o profissional deixa de ousar, falta com
              cuidado de ser objetivo e relem-                     frequência ao trabalho e se mantém na empresa apenas
              brar tempo e espaço da ocorrência                    até receber outra proposta”, afirma. “É preciso, portanto,
              que o desagradou. Vale dizer, por                    cuidar também das lideranças.”
              exemplo: “na reunião da última
              sexta você reagiu com agressivida-     Mais infO rMações:
              de quando sua colega fez aquele        CurriCuluM: www.curriculum.com.br
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RH - Mau Comportamento

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    75 RH Supermercado moderno • fevereiro 2011 mau comportamento Decisivo na demissão A Por Fernando Salles | salles@lund.com.br | Não adianta ser competente. O profissional que gera formação acadêmica incluía curso superior e pós-graduação em uni- atritos entre colegas, mente versidades conceituadas. Dotado com frequência, é explosivo, de raciocínio rápido, era campeão em proatividade nas dinâmicas de arrogante, passa horas grupo. Com ótimo português, pos- improdutivas na internet tura confiante e dicção perfeita, fa- lar em público estava longe de ser um problema. As quali- costuma fazer estragos no dades do candidato eram tantas, que a diretora de recur- clima das empresas e não é sos humanos brincou que o gestor havia ganho na loteria. Considerado, de cara, “um líder nato”, o candidato em bem-vindo. Conheça os questão não havia parado muito tempo em nenhuma em- principais problemas presa, é bem verdade, mas sabia justificar tal fato com a comportamentais e saiba “necessidade de, no passado, adquirir experiência em to- das as vertentes da área que escolheu”. como lidar com eles. Na estreia no novo trabalho, chegou sem dizer “bom dia” a nenhum colega. “Ansiedade do pri- meiro dia”, pensou o chefe. Veio a primeira reunião, momento em que apresentou boas ideias, mas reagiu de forma ríspida a quase to- dos os questionamentos que recebeu e mostrou total desinteresse em ouvir as sugestões dos outros. Na segunda semana, aproveitava a hora do cafezinho para falar mal de algum colega ausente no momento. Com menos de um mês no empre- go, já tinha a antipatia dos fun- cionários de todas as áreas. Apesar de competente em sua função, criou tantos atritos, que fez despencar a pro- dutividade e os índices de satisfação do restan-
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    76 | RH | Supermercado moderno • fevereiro 2011 demiSSõeS te da equipe. Manteve a conduta mesmo após advertência do ges- O Que MOtiVa uMa DeMissÃO tor e da diretora de RH, e termi- nou demitido. 34% 28% Comportamento Baixo O exemplo é fictício, mas re- 5% desempenho trata situação comum em muitos Outros ambientes de trabalho. “As com- 1% petências técnicas estão no currí- Meta não atingida uma culo, mas elas não bastam para só vez 20% Falta de garantir bom desempenho. A 6% alinhamento Metas não 6% com valores/ postura comportamental, mais atingidas Cortes de objetivos da difícil de ser avaliada, também in- recorrentemente custos empresa fluencia muito”, explica Meiry Ka- foNte: Site de eMPreGoS CUrriCULUM.CoM.Br mia, diretora da Human Value, empresa de consultoria, treina- Para Juliana Saldanha, psicóloga e consultora de mento e desenvolvimento de pes- RH do Grupo Soma, se antes a capacidade do profis- soas. Os números dão razão a ela: sional fazia com que muitas empresas fechassem os pesquisa realizada pelo site de em- olhos para desvios de conduta, hoje é cada vez mais pregos Curriculum com 417 em- raro que isso aconteça. “Atualmente, há no mercado presas mostra que comportamen- muita gente boa tecnicamente. O desafio é ser supe- to é o principal motivo das demis- rior nos quesitos comportamentais”, garante. sões, com 34,1% de participação. O índice é superior MentIrosos reCorrentes Competências ao fator que aparece eles podem estar procurando um novo emprego técnicas não em segundo lugar, o baixo desempenho, Mentir frequentemente é um exemplo de falha de bastam para com 28,1%. comportamento que pode tornar inviável a presença garantir bom de um profissional na empresa. Meiry Kamia, da Human Value, explica que desculpas para justificar desempenho. atrasos estão entre as mais comuns. Algumas são o comportamento inofensivas, desde que não se tornem frequentes. também deve No entanto, há também quem minta para justificar faltas que atrapalham a produtividade e sobrecarre- ser analisado gam os colegas de trabalho. Casos em que a des- para se evitar culpa de um inexistente problema familiar problemas. de saúde é usada, podem ter como moti- vo real um “bico” (outro trabalho) para conseguir dinheiro extra ou mesmo uma entrevista de emprego em outra empresa. Ambas as situações são geradas, sobretudo, por insatisfa- ções com o trabalho ou com o salá- rio recebido. Sofrem menos com
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    78 | RH | Supermercado moderno • fevereiro 2011 demiSSõeS elas, conforme lem- Mentirosos gerar problemas maiores conforme atin- bra Meiry, empresas ge níveis hierárquicos mais altos. “É um com políticas estabe- em altos cargos: grande risco ter alguém com esse com- lecidas de desenvolvi- lembre que eles portamento acessando dados confi- mento profissional, têm acesso a denciais da empresa”, exemplifica a como plano de carrei- consultora. Sobre informações confi- ra e estratégia de car- dados denciais, Juliana Saldanha, do Grupo gos e salários que in- confidenciais Soma, acrescenta que divulgá-las sem clua possibilidade de permissão é um dos motivos geradores promoções e de aumento nos ren- de demissão por justa causa nas empresas. dimentos por mérito. Investir em cursos e treina- aCoMoDaÇÃo e DesMotIVaÇÃo mentos é outra forma de reter o profissional precisa ser desafiado a assumir novos projetos bons profissionais e retardar a busca por oportunidades fora da Torcer para não ser lembrado na hora em que sur- empresa. Nesse quesito, um bom gem projetos além das rotinas de trabalho e jamais exemplo vem da rede carioca Pre- sugerir algo novo pode ser sintoma de acomodação zunic. A empresa mantém pro- e desmotivação, dois problemas de comportamen- gramas como o Novo Telecurso, to que podem surgir isoladamente ou em conjunto. que estimula os colaboradores a Para a consultora Meiry Kamia, profissionais aco- retomar os estudos, com apoio de modados são ruins em muitas situações, mas não orientadores especiais de apren- em todas. A especialista explica que a característica dizado, além de material didático. aparece, muitas vezes, em alguém que desempenha Ao gestor também cabe o papel muito bem aquilo que se propõe a fazer, mas não de identificar outras mentiras que tem ambição de galgar posições. Se a empresa tam- apareçam no dia a dia. Prin- bém não tem planos de crescimento para aquele cipalmente porque al- profissional – e, claro, precisa dele na função atual guém com essa falha – não há razões para preocupação. É o que costuma de conduta pode acontecer em empresas conservadoras, onde pla- nos de expansão inexistem, ou em cargos estritamente técnicos, por exemplo. Complicado mesmo é “o gestor deve joão de freitaS quando a empresa está em cresci- revelar para o mento e conta com estratégia para funcionário a sucessão de cargos. Nesse caso, o conduta que funcionário “estacionado” precisa ser desafiado a assumir novas responsa- desaprova bilidades. Sem uma reação positiva, e solicitar a demissão costuma ocorrer. mudança” Pior ainda quando a acomodação é gerada por um sentimento de des- MEIRY KAMIA, DIRETORA DA HUMAN VALUE motivação com a empresa ou com a função exercida. Sobrecarga de traba-
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    80 | RH | Supermercado moderno • fevereiro 2011 demiSSõeS odos suficientes de descanso e cujos efeitos prejudi- cam o desempenho profissional e a vida pessoal. Para que problemas desse tipo não ocorram, uma boa alternativa – já utilizada em muitas companhias – é montar um programa de qualidade de vida no trabalho (QVT). Com várias possibilidades de im- plantação, o recurso tem o objetivo de orientar os funcionários sobre eventuais riscos à saúde e encora- jar a adoção de um estilo de vida saudável, com ações como boa alimentação e prática de atividades físicas. Uma dica é buscar na sua região empresas de outros segmentos que obtiveram sucesso na imple- mentação de um programa de QVT. Distribuir as tarefas de modo a evitar sobrecargas de trabalho e definir metas ousadas, mas possíveis, são ações que Sobrecarga de trabalho, metas podem partir do gestor. Já para o funcionário, a re- inatingíveis, falta de comendação é conversar sobre os seus problemas e, quando preciso, saber dizer “não” ao ser destacado reconhecimento e de perspectivas para tarefas adicionais. de ascensão estão entre as principais causas da Internet para uso pessoal desmotivação excesso prejudica produtividade e qualidade do trabalho Uso abusivo da internet é outro problema recorren- lho, metas inatingíveis, falta de re- te nas corporações. Os jovens, tão acostumados a conhecimento e de perspectivas utilizar redes sociais como Orkut, Twitter e Face- de ascensão estão entre as princi- book e programas de comunicação como MSN, le- pais causas. Nesse estágio, o es- vam o costume para o ambiente de trabalho. Em tresse ocupacional costuma ser muitas áreas, a utilização desses recursos é necessá- tão alto a ponto de prejudicar a ria para buscar informações relevantes à área de saúde do funcionário. “Quem pas- atuação. O problema começa quando o uso para sa por isso costuma ter dores de fins pessoais passa a ser exagerado e a prejudicar o cabeça e musculares mais frequen- desempenho. “Há casos de empresas que, ao moni- tes. Dependendo da função, ocor- torar os acessos, perceberam que alguns funcioná- rem lesões por esforço repetitivo e rios passavam tardes inteiras utilizando a internet até acidentes de trabalho”, comen- para fins pessoais”, conta Meiry Kamia. ta a diretora da Human Value. A melhor forma de minimizar o problema é esta- Sem uma interrupção nesse pro- belecer regras claras para utilização dessas ferra- cesso, o quadro pode evoluir para mentas. Para isso, algumas empresas adotam como algo conhecido na área psiquiátri- procedimento exigir, no primeiro dia de trabalho, ca como Síndrome de Burnout, que o funcionário assine um termo comprovando um transtorno gerado pelo exces- estar ciente das regras. Feito isso, não há como ale- so de estafa no trabalho sem perí- gar desconhecimento. “Há quem não perceba o
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    82 | RH | Supermercado moderno • fevereiro 2011 demiSSõeS tempo perdido na internet e se outros casos, ela parte de quem é, comprovadamen- faça de vítima quando questiona- te, muito capaz, mas julga-se acima do bem e do do”, afirma a consultora. “É im- mal, a ponto de menosprezar ideias de terceiros e portante mostrar claramente quais não aceitar que as suas sejam contestadas.     foram os excessos, apontando, por Agressivos ao extremo e pessoas incapazes de exemplo o dia e o tempo de nave- manter a calma em momentos de pressão também gação”, recomenda Meiry. são figuras fáceis no ambiente corporativo. Juliana Saldanha, consultora de RH do Grupo Soma, avisa relaÇÃo Interpessoal que, na medida certa, a postura agressiva pode ser o inferno nem sempre são os outros útil para quem trabalha em determinadas áreas,                       como a comercial, na qual negociações duras fa- Quando o assunto é a relação com zem parte da rotina. Em excesso, porém, prejudica chefes e colegas, a lista de com- o profissional e quem convive com ele. “Trabalhar portamentos que só atrapalham é bem em equipe é cada vez mais necessário, e o mer- cado valoriza quem tem mais traços democráticos do que autoritários”, afirma a consultora. os Mal-HuMoraDos Pessimismo pode contaminar colegas Quem não mede a agressividade perde pontos com chefe e colegas, e o mesmo acontece com os mal- humorados de plantão, nos casos em que o pessi- mismo contamina colegas. Mas vale ressaltar que divULGaÇão todos estamos sujeitos a dias dis- tantes do bom humor e isso, co- mumente, passa longe de se tor- “o saldo entre nar um problema. “A questão é o capacidade técnica impacto gerado na equipe e no negócio. Se for nulo, não há ra- e comportamento zões para preocupação”, destaca das mais extensas. define como é Juliana, que faz questão de desfa- Vai desde situações um profissional” zer o mito de que o ideal é ter na pontuais, como in- JULIANA SALDANHA, CONSULTORA equipe quem enxergue apenas o trigas e fofocas ge- DE RH DO GRUPO SOMA lado bom das coisas. “Otimismo radoras de descon- demais pode ser sinal de falta de fiança e atritos, até senso crítico e de leitura errada ocorrências ainda da realidade”, comenta. mais problemáticas. Postura arro- Com maior ou menor impacto, o fato é que cer- gante é uma delas. Às vezes a arro- tas atitudes nas relações com colegas costumam gância no trabalho é sinal de inse- surpreender os gestores envolvidos na contratação gurança e medo de que descu- do profissional. Uma forma de minimizar decep- bram as próprias deficiências. Em ções é fazer a lição de casa antes de iniciar o proces-
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    84 | RH | Supermercado moderno • fevereiro 2011 demiSSõeS so de seleção. O primeiro passo, empresa incentiva a troca de informações entre as segundo Juliana, é traçar detalha- equipes”. A solução não virá em 100% dos casos, já damente o perfil procurado para que depende também da disponibilidade do profis- a função – técnico e, claro, com- sional em mudar o comportamento, mas a advertên- portamental. Por mais urgência cia servirá para deixar claro quais práticas a empresa que a empresa tenha, o processo valoriza e quais comportamentos ela reprova. Aliás, deve ser conduzido com calma e essa é uma tarefa sem data de conclusão. A cada envolver várias etapas, como aná- novo funcionário, um novo desafio. Sm lise de currículos, entrevistas, di- nâmicas de grupo, testes psicoló- gicos e provas situacionais, que simulam rotinas de trabalho com as quais o candidato terá de lidar. Nessas provas sempre é possível identificar posturas que poderão prejudicar a relação do profissio- joão de freitaS nal com chefes, colegas e subordi- nados. “Alguns testes avaliam se a pessoa tem mais traços O feedback é extrovertidos ou intro- um dos recursos vertidos, o que ou di- trazer facilidades pode que a empresa ficuldades para o profis- Postura do chefe pode ser ‘convite’ ao mau comportamento pode usar para sional no exercício da orientar o atividade, que for ocu- Q dependendo uestionado sobre as características de um bom do cargo técnico de futebol, o craque Romário certa vez funcionário e par”, diz Juliana, com a disparou: “É aquele que não atrapalha”. Não seria justo corrigir atitudes ressalva de que os testes afirmar que o mesmo raciocínio define um bom líder, não são eliminatórios.  mas é fato que a má liderança influencia a maioria dos Quando essa ação preventiva desligamentos de funcionários. Pelo menos é nisso que acredita TaTsumi Ebina , sócio da consultoria não dá resultados, é hora de o ges- Muttare. Para ele, muitos líderes se envolvem nas tor agir e dar o chamado feedback rotinas de trabalho e deixam de gerir a equipe. São (retorno sobre o desempenho), pessoas centralizadoras, que resistem a delegar tarefas, conforme orienta Meiry Kamia. inibem a criatividade e a proatividade de funcionários. Nessa conversa, o gestor deve ter o “Sem espaço, o profissional deixa de ousar, falta com cuidado de ser objetivo e relem- frequência ao trabalho e se mantém na empresa apenas brar tempo e espaço da ocorrência até receber outra proposta”, afirma. “É preciso, portanto, que o desagradou. Vale dizer, por cuidar também das lideranças.” exemplo: “na reunião da última sexta você reagiu com agressivida- Mais infO rMações: de quando sua colega fez aquele CurriCuluM: www.curriculum.com.br HuMan Value: www.hvalue.com.br comentário. Esse não é um proce- GruPO sOMa: www.gruposoma.net Muttare: www.muttare.com.br dimento recomendado, pois nossa PrezuniC: www.prezunic.com.br