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O ensino do processo contábil nas disciplinas introdutórias do curso de Ciências
Contábeis

Uma sugestão de técnica baseada no uso de planilhas eletrônicas

Antonio Cesar Pitela
Sandro Rogério Camargo




1 INTRODUÇÃO

No ensino da contabilidade freqüentemente nos deparamos com uma barreira que dificulta sobremaneira o
aprendizado dos alunos, que é a compreensão do processo contábil e seus objetivos. Esse problema,
logicamente, tem origem nas disciplinas introdutórias do curso e no modo como os conteúdos são
ministrados, ou seja, na metodologia adotada.

Segundo LIBÂNEO (1991, p.53), "a metodologia compreende o estudo dos métodos, e o conjunto dos
procedimentos de investigação das diferentes ciências quanto aos seus fundamentos e validade,
distinguindo-se das técnicas que são a aplicação específica dos métodos.[...] Técnicas, recursos ou meios de
ensino são complementos da metodologia, colocados à disposição do professor para o enriquecimento do
processo de ensino." Na sua concepção (1991, p. 150), "o professor, ao dirigir e estimular o processo de
ensino em função da aprendizagem dos alunos, utiliza intencionalmente um conjunto de ações, passos,
condições externas e procedimentos a que chamamos métodos de ensino.

A transposição dessa barreira constitui-se, portanto, numa das tarefas mais árduas para professores e
alunos, pois o domínio desse raciocínio determinará o aproveitamento daqueles nas demais disciplinas do
curso e, conseqüentemente, o seu futuro desempenho profissional.

Tendo em vista que as dificuldades dos alunos são decorrentes, principalmente, do seu desconhecimento em
relação ao curso e à profissão escolhidos e, também, da sua limitação intelectual, imposta por um sistema de
ensino precário e mal estruturado, cabe, então, aos professores encontrar alternativas que possibilitem a
obtenção de resultados satisfatórios.

Esses resultados podem ser alcançados através da aplicação de métodos de ensino adequados,
desenvolvidos e adaptados a cada situação, e, também, do uso de recursos tecnológicos que estimulem o
interesse e a participação dos alunos.

"Os métodos de ensino utilizados devem favorecer a correspondência dos conteúdos com os interesses dos
alunos dentro da realidade social vivida por cada grupo. Na intenção de que por um esforço próprio o aluno
consiga ampliar suas experiências e conhecimentos adquiridos ao longo de sua trajetória
educacional." (OLIVEIRA, 2000).

Os recursos tecnológicos a que nos referimos acima não pressupõem, necessariamente, grandes
investimentos em equipamentos e softwares, pois é possível obter bons resultados a partir da utilização de
aplicativos e ferramentas de informática, que são de fácil utilização, ou seja, que não dependem de
conhecimentos profundos na área e que estão disponíveis na maioria das escolas.

Assim, torna-se possível modificar a relação ensino-aprendizagem, de um modelo onde o professor é o
agente central do processo e aos alunos cabe apenas assimilar os conhecimentos de maneira passiva, para
outro em que os alunos participam e interagem no desenvolvimento dos conteúdos, através de um
posicionamento pró-ativo, e o professor assume o papel de orientador e coordenador das atividades.

Para LIBÂNEO (1991, p. 252), "um professor competente se preocupa em dirigir e orientar a atividade mental
dos alunos, de modo que cada um deles seja um sujeito consciente, ativo e autônomo."

Nessa perspectiva, o objetivo do presente artigo é demonstrar uma técnica de resolução de exercícios
baseada na utilização de microcomputadores e de planilhas eletrônicas (nesse caso, utilizamos o Microsoft
Excel) como instrumento de motivação e, ao mesmo tempo, de simplificação das ações dos alunos. Essa
técnica, que descreveremos detalhadamente a seguir, vem sendo utilizada pelos autores nas disciplinas
Introdução ao Estudo da Contabilidade (1ª série) e Contabilidade Geral I (2ª série), e consiste basicamente
na criação de pastas ou planilhas para cada etapa do processo contábil, que vai desde a constituição do
patrimônio da entidade e da criação do plano de contas até a apuração do resultado e elaboração das
demonstrações contábeis.

É óbvio que existem, atualmente, sistemas de contabilidade e de gestão muito mais sofisticados e
completos, capazes de processar milhares ou milhões de operações instantaneamente, sem que seja
necessária, sequer, a intervenção do contador. Entretanto, vale ressaltar dois aspectos muito importantes:
em primeiro lugar o que se espera é que os alunos desenvolvam, nas disciplinas introdutórias do curso, um
"raciocínio contábil", e não que entendam e assimilem o complexo funcionamento de sistemas contábeis
informatizados; em segundo lugar, é preciso demonstrar aos alunos a importância do processo contábil na
consecução dos objetivos das organizações, independentemente do seu porte ou da complexidade das suas
transações.




2 ETAPAS DO DESENVOLVIMENTO DA TÉCNICA

Para facilitar a compreensão e o acompanhamento do funcionamento dessa técnica apresentamos, a seguir,
cada etapa do seu desenvolvimento, seguida de exemplos ilustrativos.

Antes porém, é importante observar que, apesar da sua simplicidade, esta técnica permite aos professores
um aumento de produtividade, através da combinação de diferentes metodologias de ensino, propiciando-
lhes, por conseqüência, um ambiente de sinergia com os alunos.

Quanto ao aproveitamento dos alunos, ela apresenta algumas vantagens em relação aos métodos
tradicionais de resolução de exercícios em sala de aula. A primeira é que o contato com ferramentas de
informática, como a planilha eletrônica Excel, utilizada neste trabalho, além de motivar a sua participação,
desperta-lhes o interesse e a curiosidade de conhecer e explorar novos recursos tecnológicos. A segunda
vantagem da técnica sugerida, é o estímulo constante ao exercício do raciocínio lógico e matemático, através
da elaboração de fórmulas e combinações de células. Outra grande vantagem da utilização desse recurso é
a facilidade com que os alunos passam a visualizar o funcionamento de um sistema contábil,
independentemente do volume de transações e das características operacionais da entidade.

1ª etapa: Elaboração do Plano de Contas

Na definição da estrutura do plano de contas devemos considerar dois aspectos fundamentais, que são: o
modelo de gestão adotado pela entidade e o seu ramo de atividade. A partir daí, utilizando o aplicativo
Excel/97, abrimos uma planilha na qual serão criadas as contas que servirão de base para o sistema
contábil. Em nosso exemplo, esta planilha foi chamada de "Placon", e a sua composição ocorreu da seguinte
maneira: na coluna "A" foram dispostos os códigos das contas e na coluna "B" foram dispostos os títulos dos
grupos e das contas (Tela 1).




2ª etapa: Abertura dos razonetes e movimentação das contas

Com a estrutura do plano de contas definida, a próxima etapa do trabalho é criar uma nova planilha onde
serão abertos os razonetes para serem efetuados os lançamentos das operações realizadas pela entidade.
Nessa planilha, chamada de "Razonetes", destacam-se as fórmulas ou comandos que definem os elementos
constitutivos do razão contábil, ou seja, os códigos e títulos das contas, os saldos iniciais, as movimentações
a débito e a crédito de cada conta e os saldos finais.

Os códigos das contas, assim como seus respectivos títulos, são transportados da planilha "Placon", através
de comandos que identificam o local (célula) onde as mesmas encontram-se. Assim, a conta "1.1.1.1.01 -
Caixa Geral", por exemplo, que está nas células "A8" e "B8" do plano de contas, é transportada para o
razonete pelos comandos "=Placon!A8" e "=Placon!B8", como pode ser observado na Tela 2.

Os saldos iniciais de cada conta devem ser digitados pelos alunos, quando se tratar de exercícios cujos
dados referirem-se a patrimônios já existentes. Para exercícios que iniciem-se com a constituição de um
patrimônio, obviamente esses saldos serão iguais a zero. Na ilustração (Tela 3), a seguir, pode-se observar
que os valores correpondentes aos saldos inciais de cada conta foram digitados.

As operações realizadas a débito e a crédito, em cada conta, são totalizadas para efeito de apuração dos
respectivos saldos finais. Para isso, são criadas fórmulas que definem quais as células que contêm os
valores a serem somados. Por exemplo, os lançamentos efetuados na conta "Duplicatas a Receber" são
totalizados utilizando-se as fórmulas "=SOMA(J4:J13)" para os débitos, e "=SOMA(K4:K13)" para os créditos
(Tela 4).

Para obter os saldos finais, é preciso criar fórmulas que identifiquem a sua natureza (devedores ou
credores), a partir da somatória do saldo inicial com as movimentações do período, condicionando a sua
apuração ao resultado dessa somatória, ou seja, se o saldo inicial da conta for devedor e a diferença entre a
soma dos lançamentos a débito e a soma dos lançamentos a crédito, também for devedora, então o saldo
final será devedor, e será demonstrado do lado esquerdo do razonete. Caso ocorra o inverso, então esse
saldo será identificado como credor, isto é, do lado direito do razonete.

Estas fórmulas são criadas por meio do recurso "fx" do Excel/97, onde deve-se optar por uma função de teste
lógico, denominada "SE", em que as variáveis informadas são consideradas "verdadeiras" ou "falsas". Essa
função compara os valores e determina o resultado da operação. No exemplo, temos as seguintes fórmulas:

      "=SE((J3+J14)>(K3+K14);(J3+J14)-(K3+K14);0)" se o saldo final da conta for devedor, e

      "=SE((K3+K14)>(J3+J14);(K3+K14)-(J3+J14);0)" se o saldo final for credor (Tela 5).




3ª etapa: Elaboração do balancete de verificação

Depois de efetuados todos os lançamentos das operações do período e apurados os saldos das contas,
inicia-se a terceira etapa do trabalho, que é a elaboração do balancete de verificação. Nessa etapa, assim
como nas anteriores, os títulos das contas são transportados do plano de contas, através de comandos como
"=Placon!B8" e "=Placon!B53" para "Caixa Geral" e "Fornecedores", respectivamente.

Os saldos iniciais, que compõem as duas primeiras colunas do balancete, são transportados da planilha
"Razonetes", através de comandos como, por exemplo, "=Razonetes!B3", que identifica o local e a célula
onde encontra-se o saldo inicial da conta "Caixa Geral" (Tela 6).

O movimento do mês, representado pelas duas colunas seguintes do balancete, também é transportado da
planilha "Razonetes" por comandos como, por exemplo, "=Razonetes!J14" e "=Razonetes!K14" que
identificam os lançamentos a débito e a crédito da conta "Duplicatas a Receber". O mesmo procedimento é
utilizado para todas as demais contas movimentadas no período (Tela 7).

As duas últimas colunas do balancete mostram os saldos finais (devedores e credores) das contas que, da
mesma forma como os anteriores, são transportados da planilha "Razonetes", através de comandos
semelhantes aos
anteriores, como, por exemplo, "=Razonetes!F15" ou "=Razonetes!G29" que indicam os locais e as células
onde estão os valores representativos dos saldos finais das contas "Banco da Praça S/A" e "Fornecedores",
respectivamente (Tela 8).




4ª etapa: Encerramento das contas de resultado e apuração do resultado do período

Esta etapa caracteriza-se pela transferência dos saldos das contas de receitas e despesas para a conta de
"Resultado do Exercício" e, também, pela apropriação do resultado apurado ao Patrimônio Líquido, mais
especificamente à conta de "Lucros ou Prejuízos Acumulados" (Telas 9 e 9A).
5ª etapa: Elaboração da Demonstração do Resultado e do Balanço Patrimonial

Finalmente, após terminada toda a fase de escrituração das operações torna-se possível elaborar as
demonstrações contábeis, concluindo essa parte do processo contábil que compreende o registro, a
acumulação e a demonstração dos fatos ocorridos no patrimônio da entidade.

Com essa etapa concluímos, também, este trabalho cujo objetivo é oferecer a professores e alunos das
disciplinas introdutórias de contabilidade um instrumento de fácil utilização, mas que pode contribuir
sensivelmente para elevar o nível de assimilação e aproveitamento do conteúdo.

A Demonstração do Resultado do Exercício é estruturada com informações e valores obtidos de duas
planilhas. Da planilha "Placon" (Plano de Contas) são transportados os títulos das contas e da planilha
"Balancete" são transportados os valores correspondentes. Para isso, são usados comandos como os
seguintes: "=Placon!B94" e "=Balancete!I19" (Tela 10).

Para o Balanço Patrimonial, o procedimento é semelhante, ou seja, os grupos e subgrupos de contas são
transportados do plano de contas "Placon", e os respectivos valores são transportados do balancete de
verificação "Balancete". Assim, como exemplos dos comandos utilizados para localizar esses elementos tem-
se "=Placon!B53" e "Balancete!I12", que correspondem às células onde estão as informações sobre a conta
"Fornecedores" (Tela 11).




3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A melhoria da qualidade do ensino superior de contabilidade tem se caracterizado, historicamente, como um
dos principais pontos de discussão nos meios acadêmico e profissional. Isso se justifica pela necessidade de
constante adaptação do perfil dos contadores às condições ambientais em que operam as organizações.

Existem vários estudos e pesquisas desenvolvidos com o objetivo de identificar os fatores que influenciam
negativamente o ensino da contabilidade e encontrar alternativas para a sua solução. Em todos eles está
presente a preocupação com a metodologia de ensino adotada pelos professores no desenvolvimento do
conteúdo das disciplinas.

Mesmo assim, um dos problemas mais difíceis de se resolver tem sido a forma com que os alunos entram
em contato com a contabilidade, isto é, como esses alunos aprendem o processo contábil e seus objetivos.

Como alternativa para facilitar o aprendizado dos alunos, despertando-lhes o interesse e o gosto pela
contabilidade, desenvolvemos a técnica de ensino apresentada neste trabalho. Não temos a pretensão, nem
a ilusão, de que esta seja a solução definitiva para os problemas das disciplinas introdutórias do curso.
Esperamos apenas que esta sugestão sirva de estímulo para que outros professores desenvolvam métodos
complementares para suas disciplinas.

É importante ressaltar que não estamos propondo nenhuma novidade ou revolução, uma vez que os
recursos oferecidos pela informática são há muito conhecidos e explorados. Além disso, o nível de
sofisticação e complexidade dos sistemas de contabilidade e de gestão é, indiscutivelmente, muito maior do
que este conjunto de planilhas.

Entretanto, chamamos a atenção para o fato de que o raciocínio e a compreensão do processo contábil não
dependem da complexidade ou da sofisticação do sistema utilizado. Pelo contrário, o excesso de
componentes e de movimentações pode agravar a situação. Dessa forma, consideramos essencial a
utilização de instrumentos simplificados que sejam de fácil assimilação e que estejam ao alcance de todos.

Outro aspecto que merece destaque é que esta técnica de ensino pode ser aplicada no desenvolvimento de
outras disciplinas, bastando, apenas, a sua adaptação e/ou complementação de acordo com as
necessidades e objetivos propostos.




4 BIBLIOGRAFIA
ABREU, Maria Célia de; MASETTO, Marcos Tarciso. O professor universitário em aula: prática e princípios teóricos. 5. ed. São
        Paulo: MG Editores Associados, 1985.


        BERBEL, Neusi Aparecida Navas (org.) Questões de ensino na universidade: conversas com quem gosta de aprender para
        ensinar. Londrina: Editora UEL, 1998.


        CORDEIRO, Moroni; GARCIA, Elias; MARION, José Carlos. Discussão sobre metodologias de ensino aplicáveis à
        contabilidade. Revista do Conselho Regional de Contabilidade do Paraná. Curitiba. n. 124, p. 32-36, jun. 1999.


        CURI, Maria Imaculada de Almeida e. Sugestão de uma técnica didática no processo ensino-aprendizagem para o curso de
        ciências contábeis. ENFOQUE – Reflexão Contábil. Maringá. v. 2, n. 2, p. 05-06, jan./jun. 1991.


        LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1991.


        LOPES, Washington de Almeida. Métodos de ensino aplicados ao estudo da contabilidade.In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
        CONTABILIDADE, 15. Anais... Fortaleza(CE), v. III, out. 1996, p. 345-364.


        MARION, José Carlos; MARION, Márcia Maria Costa. A importância da pesquisa no Ensino da contabilidade. Revista do
        Conselho Regional de Contabilidade do Paraná. Curitiba. n. 122, p. 4-9, nov. 1998.


        NOSSA, Valcemiro. A necessidade de professores qualificados e atualizados para o ensino da contabilidade. Revista de
        Contabilidade do CRC-SP. São Paulo. n. 9, p. 18-23, set. 1999.


        OLIVEIRA, Liliana Saraiva de. O professor               universitário   no   processo   ensino-aprendizagem.        Disponível
        http://www.reitoria.ufmg.br/pj/artigos/pag15.html.


        SCHWEZ, Nicolau. O reconhecimento do processo de comunicação e processo de motivação no ensino de contabilidade. In:
        CONGRESSO BRASILEIRO DE CONTABILIDADE, 15. Anais... Fortaleza(CE), v. III, out. 1996, p. 307-327.


        _____. Reflexão sobre o papel do professor na área contábil. Revista Brasileira de Contabilidade. Brasília. n. 91, p. 12-
        15, jan/fev. 1995.


        SERRA NEGRA, Carlos Alberto. Metodologia para o ensino contábil: o uso de artigos técnicos. Revista Brasileira de
        Contabilidade. Brasília. n. 117, p. 71-75, mai/jun. 1999.




Prof. Antonio Cesar Pitela
Mestre em Contabilidade e Controladoria pela Universidade Norte do Paraná – UNOPAR;
Professor Assistente do Departamento de Ciências Contábeis da Universidade Estadual de Ponta Grossa
e-mail: acpitela@convoy.com.br


Prof. Sandro Rogério Camargo
Professor Auxiliar do Departamento de Ciências Contábeis da Universidade Estadual de Ponta Grossa


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  • 1. O ensino do processo contábil nas disciplinas introdutórias do curso de Ciências Contábeis Uma sugestão de técnica baseada no uso de planilhas eletrônicas Antonio Cesar Pitela Sandro Rogério Camargo 1 INTRODUÇÃO No ensino da contabilidade freqüentemente nos deparamos com uma barreira que dificulta sobremaneira o aprendizado dos alunos, que é a compreensão do processo contábil e seus objetivos. Esse problema, logicamente, tem origem nas disciplinas introdutórias do curso e no modo como os conteúdos são ministrados, ou seja, na metodologia adotada. Segundo LIBÂNEO (1991, p.53), "a metodologia compreende o estudo dos métodos, e o conjunto dos procedimentos de investigação das diferentes ciências quanto aos seus fundamentos e validade, distinguindo-se das técnicas que são a aplicação específica dos métodos.[...] Técnicas, recursos ou meios de ensino são complementos da metodologia, colocados à disposição do professor para o enriquecimento do processo de ensino." Na sua concepção (1991, p. 150), "o professor, ao dirigir e estimular o processo de ensino em função da aprendizagem dos alunos, utiliza intencionalmente um conjunto de ações, passos, condições externas e procedimentos a que chamamos métodos de ensino. A transposição dessa barreira constitui-se, portanto, numa das tarefas mais árduas para professores e alunos, pois o domínio desse raciocínio determinará o aproveitamento daqueles nas demais disciplinas do curso e, conseqüentemente, o seu futuro desempenho profissional. Tendo em vista que as dificuldades dos alunos são decorrentes, principalmente, do seu desconhecimento em relação ao curso e à profissão escolhidos e, também, da sua limitação intelectual, imposta por um sistema de ensino precário e mal estruturado, cabe, então, aos professores encontrar alternativas que possibilitem a obtenção de resultados satisfatórios. Esses resultados podem ser alcançados através da aplicação de métodos de ensino adequados, desenvolvidos e adaptados a cada situação, e, também, do uso de recursos tecnológicos que estimulem o interesse e a participação dos alunos. "Os métodos de ensino utilizados devem favorecer a correspondência dos conteúdos com os interesses dos alunos dentro da realidade social vivida por cada grupo. Na intenção de que por um esforço próprio o aluno consiga ampliar suas experiências e conhecimentos adquiridos ao longo de sua trajetória educacional." (OLIVEIRA, 2000). Os recursos tecnológicos a que nos referimos acima não pressupõem, necessariamente, grandes investimentos em equipamentos e softwares, pois é possível obter bons resultados a partir da utilização de aplicativos e ferramentas de informática, que são de fácil utilização, ou seja, que não dependem de conhecimentos profundos na área e que estão disponíveis na maioria das escolas. Assim, torna-se possível modificar a relação ensino-aprendizagem, de um modelo onde o professor é o agente central do processo e aos alunos cabe apenas assimilar os conhecimentos de maneira passiva, para outro em que os alunos participam e interagem no desenvolvimento dos conteúdos, através de um posicionamento pró-ativo, e o professor assume o papel de orientador e coordenador das atividades. Para LIBÂNEO (1991, p. 252), "um professor competente se preocupa em dirigir e orientar a atividade mental dos alunos, de modo que cada um deles seja um sujeito consciente, ativo e autônomo." Nessa perspectiva, o objetivo do presente artigo é demonstrar uma técnica de resolução de exercícios baseada na utilização de microcomputadores e de planilhas eletrônicas (nesse caso, utilizamos o Microsoft Excel) como instrumento de motivação e, ao mesmo tempo, de simplificação das ações dos alunos. Essa técnica, que descreveremos detalhadamente a seguir, vem sendo utilizada pelos autores nas disciplinas
  • 2. Introdução ao Estudo da Contabilidade (1ª série) e Contabilidade Geral I (2ª série), e consiste basicamente na criação de pastas ou planilhas para cada etapa do processo contábil, que vai desde a constituição do patrimônio da entidade e da criação do plano de contas até a apuração do resultado e elaboração das demonstrações contábeis. É óbvio que existem, atualmente, sistemas de contabilidade e de gestão muito mais sofisticados e completos, capazes de processar milhares ou milhões de operações instantaneamente, sem que seja necessária, sequer, a intervenção do contador. Entretanto, vale ressaltar dois aspectos muito importantes: em primeiro lugar o que se espera é que os alunos desenvolvam, nas disciplinas introdutórias do curso, um "raciocínio contábil", e não que entendam e assimilem o complexo funcionamento de sistemas contábeis informatizados; em segundo lugar, é preciso demonstrar aos alunos a importância do processo contábil na consecução dos objetivos das organizações, independentemente do seu porte ou da complexidade das suas transações. 2 ETAPAS DO DESENVOLVIMENTO DA TÉCNICA Para facilitar a compreensão e o acompanhamento do funcionamento dessa técnica apresentamos, a seguir, cada etapa do seu desenvolvimento, seguida de exemplos ilustrativos. Antes porém, é importante observar que, apesar da sua simplicidade, esta técnica permite aos professores um aumento de produtividade, através da combinação de diferentes metodologias de ensino, propiciando- lhes, por conseqüência, um ambiente de sinergia com os alunos. Quanto ao aproveitamento dos alunos, ela apresenta algumas vantagens em relação aos métodos tradicionais de resolução de exercícios em sala de aula. A primeira é que o contato com ferramentas de informática, como a planilha eletrônica Excel, utilizada neste trabalho, além de motivar a sua participação, desperta-lhes o interesse e a curiosidade de conhecer e explorar novos recursos tecnológicos. A segunda vantagem da técnica sugerida, é o estímulo constante ao exercício do raciocínio lógico e matemático, através da elaboração de fórmulas e combinações de células. Outra grande vantagem da utilização desse recurso é a facilidade com que os alunos passam a visualizar o funcionamento de um sistema contábil, independentemente do volume de transações e das características operacionais da entidade. 1ª etapa: Elaboração do Plano de Contas Na definição da estrutura do plano de contas devemos considerar dois aspectos fundamentais, que são: o modelo de gestão adotado pela entidade e o seu ramo de atividade. A partir daí, utilizando o aplicativo Excel/97, abrimos uma planilha na qual serão criadas as contas que servirão de base para o sistema contábil. Em nosso exemplo, esta planilha foi chamada de "Placon", e a sua composição ocorreu da seguinte maneira: na coluna "A" foram dispostos os códigos das contas e na coluna "B" foram dispostos os títulos dos grupos e das contas (Tela 1). 2ª etapa: Abertura dos razonetes e movimentação das contas Com a estrutura do plano de contas definida, a próxima etapa do trabalho é criar uma nova planilha onde serão abertos os razonetes para serem efetuados os lançamentos das operações realizadas pela entidade. Nessa planilha, chamada de "Razonetes", destacam-se as fórmulas ou comandos que definem os elementos constitutivos do razão contábil, ou seja, os códigos e títulos das contas, os saldos iniciais, as movimentações a débito e a crédito de cada conta e os saldos finais. Os códigos das contas, assim como seus respectivos títulos, são transportados da planilha "Placon", através de comandos que identificam o local (célula) onde as mesmas encontram-se. Assim, a conta "1.1.1.1.01 - Caixa Geral", por exemplo, que está nas células "A8" e "B8" do plano de contas, é transportada para o razonete pelos comandos "=Placon!A8" e "=Placon!B8", como pode ser observado na Tela 2. Os saldos iniciais de cada conta devem ser digitados pelos alunos, quando se tratar de exercícios cujos
  • 3. dados referirem-se a patrimônios já existentes. Para exercícios que iniciem-se com a constituição de um patrimônio, obviamente esses saldos serão iguais a zero. Na ilustração (Tela 3), a seguir, pode-se observar que os valores correpondentes aos saldos inciais de cada conta foram digitados. As operações realizadas a débito e a crédito, em cada conta, são totalizadas para efeito de apuração dos respectivos saldos finais. Para isso, são criadas fórmulas que definem quais as células que contêm os valores a serem somados. Por exemplo, os lançamentos efetuados na conta "Duplicatas a Receber" são totalizados utilizando-se as fórmulas "=SOMA(J4:J13)" para os débitos, e "=SOMA(K4:K13)" para os créditos (Tela 4). Para obter os saldos finais, é preciso criar fórmulas que identifiquem a sua natureza (devedores ou credores), a partir da somatória do saldo inicial com as movimentações do período, condicionando a sua apuração ao resultado dessa somatória, ou seja, se o saldo inicial da conta for devedor e a diferença entre a soma dos lançamentos a débito e a soma dos lançamentos a crédito, também for devedora, então o saldo final será devedor, e será demonstrado do lado esquerdo do razonete. Caso ocorra o inverso, então esse saldo será identificado como credor, isto é, do lado direito do razonete. Estas fórmulas são criadas por meio do recurso "fx" do Excel/97, onde deve-se optar por uma função de teste lógico, denominada "SE", em que as variáveis informadas são consideradas "verdadeiras" ou "falsas". Essa função compara os valores e determina o resultado da operação. No exemplo, temos as seguintes fórmulas: "=SE((J3+J14)>(K3+K14);(J3+J14)-(K3+K14);0)" se o saldo final da conta for devedor, e "=SE((K3+K14)>(J3+J14);(K3+K14)-(J3+J14);0)" se o saldo final for credor (Tela 5). 3ª etapa: Elaboração do balancete de verificação Depois de efetuados todos os lançamentos das operações do período e apurados os saldos das contas, inicia-se a terceira etapa do trabalho, que é a elaboração do balancete de verificação. Nessa etapa, assim como nas anteriores, os títulos das contas são transportados do plano de contas, através de comandos como "=Placon!B8" e "=Placon!B53" para "Caixa Geral" e "Fornecedores", respectivamente. Os saldos iniciais, que compõem as duas primeiras colunas do balancete, são transportados da planilha "Razonetes", através de comandos como, por exemplo, "=Razonetes!B3", que identifica o local e a célula onde encontra-se o saldo inicial da conta "Caixa Geral" (Tela 6). O movimento do mês, representado pelas duas colunas seguintes do balancete, também é transportado da planilha "Razonetes" por comandos como, por exemplo, "=Razonetes!J14" e "=Razonetes!K14" que identificam os lançamentos a débito e a crédito da conta "Duplicatas a Receber". O mesmo procedimento é utilizado para todas as demais contas movimentadas no período (Tela 7). As duas últimas colunas do balancete mostram os saldos finais (devedores e credores) das contas que, da mesma forma como os anteriores, são transportados da planilha "Razonetes", através de comandos semelhantes aos anteriores, como, por exemplo, "=Razonetes!F15" ou "=Razonetes!G29" que indicam os locais e as células onde estão os valores representativos dos saldos finais das contas "Banco da Praça S/A" e "Fornecedores", respectivamente (Tela 8). 4ª etapa: Encerramento das contas de resultado e apuração do resultado do período Esta etapa caracteriza-se pela transferência dos saldos das contas de receitas e despesas para a conta de "Resultado do Exercício" e, também, pela apropriação do resultado apurado ao Patrimônio Líquido, mais especificamente à conta de "Lucros ou Prejuízos Acumulados" (Telas 9 e 9A).
  • 4. 5ª etapa: Elaboração da Demonstração do Resultado e do Balanço Patrimonial Finalmente, após terminada toda a fase de escrituração das operações torna-se possível elaborar as demonstrações contábeis, concluindo essa parte do processo contábil que compreende o registro, a acumulação e a demonstração dos fatos ocorridos no patrimônio da entidade. Com essa etapa concluímos, também, este trabalho cujo objetivo é oferecer a professores e alunos das disciplinas introdutórias de contabilidade um instrumento de fácil utilização, mas que pode contribuir sensivelmente para elevar o nível de assimilação e aproveitamento do conteúdo. A Demonstração do Resultado do Exercício é estruturada com informações e valores obtidos de duas planilhas. Da planilha "Placon" (Plano de Contas) são transportados os títulos das contas e da planilha "Balancete" são transportados os valores correspondentes. Para isso, são usados comandos como os seguintes: "=Placon!B94" e "=Balancete!I19" (Tela 10). Para o Balanço Patrimonial, o procedimento é semelhante, ou seja, os grupos e subgrupos de contas são transportados do plano de contas "Placon", e os respectivos valores são transportados do balancete de verificação "Balancete". Assim, como exemplos dos comandos utilizados para localizar esses elementos tem- se "=Placon!B53" e "Balancete!I12", que correspondem às células onde estão as informações sobre a conta "Fornecedores" (Tela 11). 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A melhoria da qualidade do ensino superior de contabilidade tem se caracterizado, historicamente, como um dos principais pontos de discussão nos meios acadêmico e profissional. Isso se justifica pela necessidade de constante adaptação do perfil dos contadores às condições ambientais em que operam as organizações. Existem vários estudos e pesquisas desenvolvidos com o objetivo de identificar os fatores que influenciam negativamente o ensino da contabilidade e encontrar alternativas para a sua solução. Em todos eles está presente a preocupação com a metodologia de ensino adotada pelos professores no desenvolvimento do conteúdo das disciplinas. Mesmo assim, um dos problemas mais difíceis de se resolver tem sido a forma com que os alunos entram em contato com a contabilidade, isto é, como esses alunos aprendem o processo contábil e seus objetivos. Como alternativa para facilitar o aprendizado dos alunos, despertando-lhes o interesse e o gosto pela contabilidade, desenvolvemos a técnica de ensino apresentada neste trabalho. Não temos a pretensão, nem a ilusão, de que esta seja a solução definitiva para os problemas das disciplinas introdutórias do curso. Esperamos apenas que esta sugestão sirva de estímulo para que outros professores desenvolvam métodos complementares para suas disciplinas. É importante ressaltar que não estamos propondo nenhuma novidade ou revolução, uma vez que os recursos oferecidos pela informática são há muito conhecidos e explorados. Além disso, o nível de sofisticação e complexidade dos sistemas de contabilidade e de gestão é, indiscutivelmente, muito maior do que este conjunto de planilhas. Entretanto, chamamos a atenção para o fato de que o raciocínio e a compreensão do processo contábil não dependem da complexidade ou da sofisticação do sistema utilizado. Pelo contrário, o excesso de componentes e de movimentações pode agravar a situação. Dessa forma, consideramos essencial a utilização de instrumentos simplificados que sejam de fácil assimilação e que estejam ao alcance de todos. Outro aspecto que merece destaque é que esta técnica de ensino pode ser aplicada no desenvolvimento de outras disciplinas, bastando, apenas, a sua adaptação e/ou complementação de acordo com as necessidades e objetivos propostos. 4 BIBLIOGRAFIA
  • 5. ABREU, Maria Célia de; MASETTO, Marcos Tarciso. O professor universitário em aula: prática e princípios teóricos. 5. ed. São Paulo: MG Editores Associados, 1985. BERBEL, Neusi Aparecida Navas (org.) Questões de ensino na universidade: conversas com quem gosta de aprender para ensinar. Londrina: Editora UEL, 1998. CORDEIRO, Moroni; GARCIA, Elias; MARION, José Carlos. Discussão sobre metodologias de ensino aplicáveis à contabilidade. Revista do Conselho Regional de Contabilidade do Paraná. Curitiba. n. 124, p. 32-36, jun. 1999. CURI, Maria Imaculada de Almeida e. Sugestão de uma técnica didática no processo ensino-aprendizagem para o curso de ciências contábeis. ENFOQUE – Reflexão Contábil. Maringá. v. 2, n. 2, p. 05-06, jan./jun. 1991. LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1991. LOPES, Washington de Almeida. Métodos de ensino aplicados ao estudo da contabilidade.In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CONTABILIDADE, 15. Anais... Fortaleza(CE), v. III, out. 1996, p. 345-364. MARION, José Carlos; MARION, Márcia Maria Costa. A importância da pesquisa no Ensino da contabilidade. Revista do Conselho Regional de Contabilidade do Paraná. Curitiba. n. 122, p. 4-9, nov. 1998. NOSSA, Valcemiro. A necessidade de professores qualificados e atualizados para o ensino da contabilidade. Revista de Contabilidade do CRC-SP. São Paulo. n. 9, p. 18-23, set. 1999. OLIVEIRA, Liliana Saraiva de. O professor universitário no processo ensino-aprendizagem. Disponível http://www.reitoria.ufmg.br/pj/artigos/pag15.html. SCHWEZ, Nicolau. O reconhecimento do processo de comunicação e processo de motivação no ensino de contabilidade. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CONTABILIDADE, 15. Anais... Fortaleza(CE), v. III, out. 1996, p. 307-327. _____. Reflexão sobre o papel do professor na área contábil. Revista Brasileira de Contabilidade. Brasília. n. 91, p. 12- 15, jan/fev. 1995. SERRA NEGRA, Carlos Alberto. Metodologia para o ensino contábil: o uso de artigos técnicos. Revista Brasileira de Contabilidade. Brasília. n. 117, p. 71-75, mai/jun. 1999. Prof. Antonio Cesar Pitela Mestre em Contabilidade e Controladoria pela Universidade Norte do Paraná – UNOPAR; Professor Assistente do Departamento de Ciências Contábeis da Universidade Estadual de Ponta Grossa e-mail: acpitela@convoy.com.br Prof. Sandro Rogério Camargo Professor Auxiliar do Departamento de Ciências Contábeis da Universidade Estadual de Ponta Grossa << Voltar