Prof. Araré de Carvalho
 A expressão "questão social" começa a ser
empregada maciçamente a partir da
separação positivista, no pensamento
conservador, entre o econômico e o social,
dissociando as questões tipicamente
econômicas das "questões sociais" (cf. Netto,
2001, p. 42).
 Assim, o "social" pode ser visto como "fato
social", como algo natural, a-histórico,
desarticulado dos fundamentos econômicos e
políticos da sociedade, portanto, dos
interesses e conflitos sociais. Assim, se o
problema social (a "questão social") não tem
fundamento estrutural, sua solução também
não passaria pela transformação do sistema.
 Tratar a Questão Social desconectada da sua
“Gênese”, dos processos contraditórios que a
geram.
 Entender os Problemas Sociais como
Problemas do Indivíduo.
 No entanto as particularidades devem ser
consideradas, sob pena da análise genérica.
 A origem desta separação são os
acontecimentos de 1830-48. No momento
em que a classe burguesa perde seu caráter
crítico-revolucionário perante as lutas
proletárias (cf. Lukács, 1992, p. 109 e ss.),
surge um tipo de racionalidade que,
procurando a mistificação da realidade, cria
uma imagem fetichizada e pulverizada desta.
É o que Lukács chama de "decadência
ideológica da burguesia“.
 Segundo ele (1992, p. 123), "após o
surgimento da economia marxista, seria
impossível ignorar a luta de classes como
fato fundamental do desenvolvimento social,
sempre que as relações sociais fossem
estudadas a partir da economia. Para fugir
dessa necessidade, surgiu a sociologia como
ciência autônoma [...]".
 Desta forma, "o nascimento da sociologia
como disciplina independente faz com que o
tratamento do problema da sociedade deixe
de lado a sua base econômica; a suposta
independência entre as questões sociais e as
questões econômicas constitui o ponto de
partida metodológico da sociologia" (Lukács,
1992, p. 132).
 Começa-se a se pensar então a "questão
social", a miséria, a pobreza, e todas as
manifestações delas, não como resultado da
exploração econômica, mas como fenômenos
autônomos e de responsabilidade individual
ou coletiva dos setores por elas atingidos. A
"questão social", portanto, passa a ser
concebida como "questões" isoladas, e ainda
como fenômenos naturais ou produzidos
pelo comportamento dos sujeitos que os
padecem.
 A partir de tal pensamento, as causas da
miséria e da pobreza estariam vinculadas
(nessa perspectiva) a pelo menos três tipos
de fatores, sempre vinculados ao indivíduo
que padece tal situação.
 Primeiramente a pobreza no pensamento
burguês estaria vinculado a um déficit
educativo (falta de conhecimento das leis
"naturais" do mercado e de como agir dentro
dele). Em segundo lugar, a pobreza é visto
como um problema de
planejamento (incapacidade de planejamento
orçamentário familiar). Por fim, esse flagelo é
visto como problemas de ordem moral-
comportamental (mal gasto de recursos,
tendência ao ócio, alcoolismo, vadiagem etc.).
 Surgem com isso as bases para o
desenvolvimento de concepções, como a da
"cultura da pobreza", onde a pobreza e as
condições de vida do pobre são tidas como
produto e responsabilidade do limites
culturais de cada indivíduo.
 Com esta concepção de pobreza (típica da
Europa nos séculos XVI a XIX), o tratamento e
o enfrentamento da mesma desenvolve-se
fundamentalmente a partir da organização de
ações filantrópicas.
 Entender a Atualidade da Questão Social,
tendo em vista, sempre, sua raiz no modelo
de produção do Capital.
 No Brasil, a Questão Social, ganha
características específicas, dado o modo
subserviente que o Brasil se insere na
mundialização do capital, e dado as
características das relações de cultura,
étinica, de gênero e de Nação.
 Do Pauperismo a Questão Social;
 O embate político e social derivou na
reformulação do Estado Social e seu
desdobramento no Wellfare State, até meado
da década de 70.
 O Pacto social, veio muito mais para livrar o
capital de problemas, que se colocavam no
período, como o medo do socialismo.
 O Estado tem um dupla e contraditório
função, a de manter ou criar, as condições de
uma lucrativa acumulação e ao mesmo tempo
criar condições de Harmonia Social.
 Já durante o processo de reestruturação do
Estado se coloca a exigência imperativa de
mais liberdade de mercado, já não cabe
tantos direitos sociais.
 O desdobramento lógico é um Estado
Mínimo, mais flexibilização nas relações de
trabalho, fragilizando as organizações de
classe, estimulando o Terceiro Setor e a
privatização de serviços antes prestados pelo
Estado.
 A constituição de 88, chamada de
constituição Cidadã, foi uma tentativa , de
sem ferir a ordem burguesa, reduzir a níveis
toleráveis o que a própria classe dominante
chamava de “DIVIDA SOCIAL”.
 A constituição representou uma espécie de
Estado de Bem-Estar Social, confirmando o
método do grande capital, que sob pressão
concede por um período, algumas benesses.
 Essa orientação vai contra o cenário
Neoliberal Internacional, baseado na
desregulamentação, flexibilização e
privatização.
 A eleição de Collor em 89 foi um ganho por
parte da burguesia, pois pra além do caso de
polícia que tornou-se seu governo, mostrou
que havia a necessidade de um plano menos
imediatista.
 Esse projeto aparece já no governo Itamar e
FHC, sob a égide do plano Real.
 FHC colocou em prática o projeto político do
Grande Capital. Seu projeto político
inviabilizou o projeto social contido na
constituição de 88, em nome da
“Modernização do País”.
 O endividamento crônico do País foi a
garantia que órgãos internacionais como o
BID e o FMI precisavam para impor medidas
que reestruturavam o mercado e garantia a
aquisição de empresas rentáveis pelo capital
estrangeiro.
 A agenda oculta consistia em cortar gastos
públicos e salários para liberar o dinheiro
necessário para o pagamento do serviço das
dívidas internas e externas.
 Tanto que para um novo acordo com o FMI o
órgão internacional colocava como condição
uma reforma na constituição, com a inserção
de cláusulas.
 O que incomodava era a estabilidade do
servidor público. Acreditava-se que para
atingir as metas impostas pelo FMI, seria
necessário uma demissão em massa de
servidores públicos.
 Houve também todo um processo de
convencimento de que para se combater a
inflação
 É preciso ter presente na análise elementos
que procurem discernir o caráter do
desenvolvimento nacional, da formação da
identidade brasileira, para melhor
compreender a Questão Social no Brasil.
 "Reflete sim disparidades econômicas,
políticas e culturais, envolvendo classes
sociais, grupos raciais e formações regionais.
Sempre põe em causa as relações entre
amplos segmentos da sociedade civil e o
poder estatal"(IANNI,1992, p.87).
 "As controvérsias sobre o pacto social, a
tomada de terras, a reforma agrária, as
migrações internas, o problema indígena, o
movimento negro, a liberdade sindical, o
protesto popular, o saque ou a expropriação,
a ocupação de habitações, a legalidade ou
ilegalidade dos movimentos sociais, as
revoltas populares e outros temas da
realidade nacional, essas controvérsias
sempre suscitam aspectos mais ou menos
urgentes da questão" (IANNI,1992, p.88).
 As manifestações têm que ser levadas em
conta para compreender a particularidade
das questões sociais no Brasil. Encontra-se
um IANNI, bastante afirmativo no que se
refere à questão escravista. "É claro que
durante a vigência do regime de trabalho
escravo havia uma questão social. O
escravo era expropriado no produto do seu
trabalho e na sua pessoa. Nem sequer
podia dispor de si.
 Era propriedade do outro, do senhor, que
podia dispor dele como quisesse, declará-
lo livre ou açoitá-lo até a morte". A
contrapartida, na perspectiva do escravo,
continua o autor, "era o suicídio, a tocaia
contra o senhor, membros da família deste
e capatazes, rebelião na senzala, fuga,
formação de quilombo, saque,
expropriação". E assim se entende que "a
questão social estava posta de modo
aberto, transparente"(1992, p.88).
 "Ao longo das décadas de 20 e 30 os governantes
começam a admitir que a questão social poderia
deixar de ser considerada um problema de polícia, e
começar a ser tratada como um problema político".
Segundo registros do próprio autor, leva tempo a
moderada alteração de atitudes e métodos, além
disso são frequentes os retrocessos. Ele, diz,
também: "nunca deixou de ocorrer a repressão contra
diferentes manifestações sociais de setores
populares, no campo e na cidade". Aparelhos
repressivos de "dentro e de fora das agências
estatais, agem no sentido de anular ou intimidar
movimentos, sindicatos e partidos, suas bases e
lideranças". " (1992, p.89).
 O processo de desenvolvimento "extensivo e
intensivo do capitalismo, na cidade e no campo,
provoca os mais diversos movimentos dos
trabalhadores, ..." (...) "As crescentes
diversidades sociais estão acompanhadas de
crescentes desigualdades sociais. Criam-se e
recriam-se as condições de mobilidade social
horizontal e vertical, simultaneamente às
desigualdades e aos antagonismos. É o contexto
em que emprego, desemprego, subemprego e
pauperismo se tornam realidade cotidiana para
muitos trabalhadores". (1992, p. 91-92).
 E "sob essas condições, manifestam-se
aspectos mais ou menos graves e urgentes da
questão social. As lutas sociais polarizam-se
em torno do acesso à terra, emprego, salário,
condições de trabalho na fábrica e na
fazenda, garantias trabalhistas, saúde,
habitação, educação, direitos políticos,
cidadania".
 "Conforme a época e o lugar, a questão social
mescla aspectos raciais, regionais, culturais,
juntamente com os econômicos e políticos.
Isto é, o tecido da questão social mescla
desigualdades e antagonismos de
significação estrutural"(1992, p.92).
 Vista assim, em perspectiva histórica ampla, a
sociedade em movimento apresenta-se como uma
vasta fábrica das desigualdades e antagonismos que
constituem a questão social. A prosperidade da
economia e o fortalecimento do aparelho estatal
parecem em descompasso com o desenvolvimento
social. Isto é, a situação social de amplos
contingentes de trabalhadores; fabrica-se
precisamente com os negócios, a reprodução do
capital. As dificuldades agudas da fome e de
desnutrição, falta de habitação condigna e as
precárias condições gerais de saúde são produtos e
condições dos mesmos processos estruturais que
criam a ilusão de que a economia brasileira é
moderna,... (IANNI, 1992, p. 92-93).
 A "criminalização da questão social" é outro
aspecto presente no trato da questão brasileira
"Praticamente um século após a Abolição da
Escravatura, ainda ressoa no pensamento social
brasileiro a suspeita de que a vítima é culpada",
quando, "há estudos em que a 'miséria', a
'pobreza', e a 'ignorância' parecem estados de
natureza ou da responsabilidade do miserável,
pobre, analfabeto". E o lamentável é que 'não há
empenho visível em revelar a trama das relações
que produzem as desigualdades sociais"(1992, p.
97).
 A questão indígena tem origem em nossa
economia. Tem raízes na propriedade da terra.
Hoje ela se mostra, mantendo marcadas raízes
do século XVI, na matança , tomada de terra,
massacres, atrasos nas demarcações, conflitos
fundiários, pressões de políticos e grupos
interessados nas terras pela revisão dos
dispositivos constitucionais ( caso brasileiro),
constituem fatos concretos dessa história
interminável" (1997, p.78). Acrescenta-se ainda o
peso do preconceito de que continua sendo
vítima, considerado como "não-gente“.
 Sua resistência: lutas por identidade, memória,
autonomia, convivência pluralista, com algumas
novas feições, como, manifestações públicas,
filiação a partidos políticos, associações, ocupações
de terras e, ultimamente no Brasil, invasões de
agências públicas, tomadas de reféns,
acampamentos nas cidades (1997, p.77), criação de
"casas do índio" nos municípios, onde expõem os
artesanatos e a cultura, ou seja, onde ele mesmo se
expõe porque fora do seu meio, como forma de
dizer; o que também fazem quando são
encontrados em suas representações nos
congressos: "ouçam-nos: nós temos nosso jeito de
ser e de viver".
 Alguns avanços já se registram a partir da
inscrição na Constituição de 88, art. 231,
como "Nações indígenas", em que são
reconhecidos, pela organização social,
costumes, crenças, tradições, direitos sobre
terras, que tradicionalmente
ocupavam(1997, p. 77).
 está na gênese do "encontro do estrangeiro com
o nativo“ (1997, p. 83), por isso se expressa na
mestiçagem, nas questões de fronteira, questões
regionais, tanto para direcionar recursos do
governo, quanto na discriminação entre as
regiões, xpressando-se, por exemplo nos
nordestinos em São Paulo, nos separatistas
latentes na "República dos Pampas", nas
categorias sociais, como os "brasiguaios", que
demonstram com clareza dificuldades e
problemas da questão nacional (1997, p. 87).
 Respostas de resistências: Grupos políticos e
acadêmicos insistem na necessidade de
redefinir a federação e na formulação de
projetos estratégicos alternativos,
envolvendo questões diversas, na elaboração
de projetos nacionais (1997, p. 87-88).
Acredita-se, como as outras questões, esta
especialmente é atualíssima, quando na
mundialização do capital, o espaço da nação
ficou reduzido e clama por afirmação.
 Mesmo após 114 anos do fim da
escravidão, uma "Pesquisa do Datafolha"
informa: empregados negros com carteira
assinada ganham 42% menos que a média
paga ao trabalhador em geral. Se levado em
conta o trabalho informal no qual as
condições de trabalho ainda são piores. (
Jornal Folha de SP. 24 de mar. 2002, p. 5).
Estas e outras informações dão conta de
que o racismo no Brasil não é tão "cordial"
como alguns querem fazer crer.
 "A situação dos negros vai se manifestar como
uma questão social, germinalmente, por
problemas econômicos quanto ao seu custo e
produtividade"(1997, p. 90-91). Tornou-se mais
acirrada na agenda política após o processo
abolicionista. Passa pela questão do
embranquecimento", imposição de fazê-lo
"pensar como branco". Está comprovado que
ainda encontra dificuldades para ocupar as
mesmas posições do branco,especialmente no
trabalho, normalmente, ganhando menos.
 Sua resistência: como visto anteriormente, já
começava nos navios negreiros, continuava
nas plantações até a formação dos quilombos
(1997, p. 93). Organizações mais recentes
estão nos movimentos pela "consciência
negra", que procuram afirmar, seus
costumes, valorizar a raça, estimular para
preservar seu estilo de vida. Enfim garantir
posições mais igualitárias.
 Trata-se de uma questão especial porque
contempla, além da mulher em geral, a
mulher indígena, negra, rural, operária,
favelada e a doméstica. "Permeia todos os
setores e classes sociais inclusive as
dominantes".
 Sua resistência resulta da "tomada de
consciência individual de determinadas mulheres
e de certos grupos que, com imensas
dificuldades conseguiram impactar um círculo
maior de pessoas"(1997, p.95-96). Também os
movimentos feministas havidos, no início do
século , mas em especial o dos anos 60. Eles
tiveram avanços na proclamação do Ano
Internacional da Mulher 1975, e dos Congressos
Internacionais com destaque para Beijing, em
1996, que estimulou ações afirmativas da
mulher , em especial no mundo do trabalho
como também da política
 . A criação de Conselhos representativos, as
Delegacias da Mulher, uma rede de
Associações de Mulheres, e de Associações
de Bairros, em geral, onde ela desponta
como principal liderança, também da
definição de quotas nos partidos políticos e
nas direções sindicais.
 Engloba componentes como o indígena, o
negro e a mulher. Problemas estruturais
ligados à propriedade da terra sob a forma de
latifúndio e uma discriminação oligárquico-
patrimonialista do passado, mas que persiste
ainda hoje. "A implantação da empresa agrícola
capitalista pouco alterou as relações de
poder"(1997, p.101).
 Persiste o sistema latifundiário que
concentra terras nas mãos de poucos e a
empresa agrícola que mantém o "bóia-fria"
numa situação pouco diferenciada da
escravidão, porém, com um prejuízo: com
menos comida e menos saúde.
 Para não ter dúvidas sobre isto é só sentar nas
"rodas" deles e ouvir os relatos, para os quais
acrescentar-se-ia nesta mesma situação, o nosso
agricultor de subsistência, no interior do nosso
Brasil. A produção com prioridades para a
exportação e a monocultura, expõem hoje uma
ferida que poderá sangrar muito no futuro; a
degradação do meio ambiente ecológico, inclui-
se o cultivo de transgênicos sem suficiente e/ou
acesso às pesquisas e o uso de agrotóxicos que,
ainda, mata muita gente no "silêncio da noite“ e
nos espaços privados do nosso agricultor.
 Sua resistência: a partir da organização em sindicatos
e cooperativas de produção , que atinge
especialmente a agricultura familiar, e na ocupação
de terras pelo Movimento dos Sem-Terra, ainda, a
busca de aliados, na política , na sociedade, em geral
, como também aliados em outros países. Como
resultado, a mobilização dos camponeses e dos
trabalhadores rurais vem crescendo, inclusive
adotando estratégias e táticas de lutas inovadoras,
trazendo, por um lado, maior violência; e por outro,
uma conscientização de que nesta face da Questão
Social totalizante, reside a fonte de contínuos e
graves conflitos sociais" e, ele lembra, ainda o
Movimento de Chiapas no México e MST no Brasil .
 Situam-se como vítimas do mesmo processo: da
concentração de renda e do aumento da
desigualdade, num contexto mais amplo, mas,
também, na atual conjuntura da "desestabilização
dos estáveis", considerando que o "incluído" de hoje,
seja o "excluído" de amanhã. Com as grandes
concentrações urbanas é compreensível que,
expressiva Questão Social tenha a cara urbana,
expressa no "pauperismo, na violência, no tráfico da
droga", na moradia precária, "tornando a situação
urbana um elemento crítico da questão social"(1997,
p.112), quando a "questão social ainda continua uma
questão de polícia", em que se criminalizam, o
desempregado, o pobre, o favelado, que hoje, mais
do que nunca, são considerados "classes perigosas".
 A resistência deste aspecto tentar-se-á
contemplar mais amplamente noutro espaço,
quando se pretende trabalhar aspectos da
Questão Social no espaço local no município. De
qualquer forma registre-se ainda como parte da
nossa historicidade: Daqui para frente
enfrentaremos novos problemas, típicos de uma
população urbana, envelhecida, deseducada,
com recursos públicos cada vez mais limitados,
ante as necessidades crescentes"
(SCHWARTZMAN, 2001, p. 8).

Formação da questão social no brasil

  • 1.
  • 2.
     A expressão"questão social" começa a ser empregada maciçamente a partir da separação positivista, no pensamento conservador, entre o econômico e o social, dissociando as questões tipicamente econômicas das "questões sociais" (cf. Netto, 2001, p. 42).
  • 3.
     Assim, o"social" pode ser visto como "fato social", como algo natural, a-histórico, desarticulado dos fundamentos econômicos e políticos da sociedade, portanto, dos interesses e conflitos sociais. Assim, se o problema social (a "questão social") não tem fundamento estrutural, sua solução também não passaria pela transformação do sistema.
  • 4.
     Tratar aQuestão Social desconectada da sua “Gênese”, dos processos contraditórios que a geram.  Entender os Problemas Sociais como Problemas do Indivíduo.  No entanto as particularidades devem ser consideradas, sob pena da análise genérica.
  • 5.
     A origemdesta separação são os acontecimentos de 1830-48. No momento em que a classe burguesa perde seu caráter crítico-revolucionário perante as lutas proletárias (cf. Lukács, 1992, p. 109 e ss.), surge um tipo de racionalidade que, procurando a mistificação da realidade, cria uma imagem fetichizada e pulverizada desta. É o que Lukács chama de "decadência ideológica da burguesia“.
  • 6.
     Segundo ele(1992, p. 123), "após o surgimento da economia marxista, seria impossível ignorar a luta de classes como fato fundamental do desenvolvimento social, sempre que as relações sociais fossem estudadas a partir da economia. Para fugir dessa necessidade, surgiu a sociologia como ciência autônoma [...]".
  • 7.
     Desta forma,"o nascimento da sociologia como disciplina independente faz com que o tratamento do problema da sociedade deixe de lado a sua base econômica; a suposta independência entre as questões sociais e as questões econômicas constitui o ponto de partida metodológico da sociologia" (Lukács, 1992, p. 132).
  • 8.
     Começa-se ase pensar então a "questão social", a miséria, a pobreza, e todas as manifestações delas, não como resultado da exploração econômica, mas como fenômenos autônomos e de responsabilidade individual ou coletiva dos setores por elas atingidos. A "questão social", portanto, passa a ser concebida como "questões" isoladas, e ainda como fenômenos naturais ou produzidos pelo comportamento dos sujeitos que os padecem.
  • 9.
     A partirde tal pensamento, as causas da miséria e da pobreza estariam vinculadas (nessa perspectiva) a pelo menos três tipos de fatores, sempre vinculados ao indivíduo que padece tal situação.
  • 10.
     Primeiramente apobreza no pensamento burguês estaria vinculado a um déficit educativo (falta de conhecimento das leis "naturais" do mercado e de como agir dentro dele). Em segundo lugar, a pobreza é visto como um problema de planejamento (incapacidade de planejamento orçamentário familiar). Por fim, esse flagelo é visto como problemas de ordem moral- comportamental (mal gasto de recursos, tendência ao ócio, alcoolismo, vadiagem etc.).
  • 11.
     Surgem comisso as bases para o desenvolvimento de concepções, como a da "cultura da pobreza", onde a pobreza e as condições de vida do pobre são tidas como produto e responsabilidade do limites culturais de cada indivíduo.
  • 12.
     Com estaconcepção de pobreza (típica da Europa nos séculos XVI a XIX), o tratamento e o enfrentamento da mesma desenvolve-se fundamentalmente a partir da organização de ações filantrópicas.
  • 13.
     Entender aAtualidade da Questão Social, tendo em vista, sempre, sua raiz no modelo de produção do Capital.  No Brasil, a Questão Social, ganha características específicas, dado o modo subserviente que o Brasil se insere na mundialização do capital, e dado as características das relações de cultura, étinica, de gênero e de Nação.
  • 14.
     Do Pauperismoa Questão Social;  O embate político e social derivou na reformulação do Estado Social e seu desdobramento no Wellfare State, até meado da década de 70.  O Pacto social, veio muito mais para livrar o capital de problemas, que se colocavam no período, como o medo do socialismo.
  • 15.
     O Estadotem um dupla e contraditório função, a de manter ou criar, as condições de uma lucrativa acumulação e ao mesmo tempo criar condições de Harmonia Social.  Já durante o processo de reestruturação do Estado se coloca a exigência imperativa de mais liberdade de mercado, já não cabe tantos direitos sociais.
  • 16.
     O desdobramentológico é um Estado Mínimo, mais flexibilização nas relações de trabalho, fragilizando as organizações de classe, estimulando o Terceiro Setor e a privatização de serviços antes prestados pelo Estado.  A constituição de 88, chamada de constituição Cidadã, foi uma tentativa , de sem ferir a ordem burguesa, reduzir a níveis toleráveis o que a própria classe dominante chamava de “DIVIDA SOCIAL”.
  • 17.
     A constituiçãorepresentou uma espécie de Estado de Bem-Estar Social, confirmando o método do grande capital, que sob pressão concede por um período, algumas benesses.  Essa orientação vai contra o cenário Neoliberal Internacional, baseado na desregulamentação, flexibilização e privatização.
  • 18.
     A eleiçãode Collor em 89 foi um ganho por parte da burguesia, pois pra além do caso de polícia que tornou-se seu governo, mostrou que havia a necessidade de um plano menos imediatista.  Esse projeto aparece já no governo Itamar e FHC, sob a égide do plano Real.
  • 19.
     FHC colocouem prática o projeto político do Grande Capital. Seu projeto político inviabilizou o projeto social contido na constituição de 88, em nome da “Modernização do País”.  O endividamento crônico do País foi a garantia que órgãos internacionais como o BID e o FMI precisavam para impor medidas que reestruturavam o mercado e garantia a aquisição de empresas rentáveis pelo capital estrangeiro.
  • 20.
     A agendaoculta consistia em cortar gastos públicos e salários para liberar o dinheiro necessário para o pagamento do serviço das dívidas internas e externas.  Tanto que para um novo acordo com o FMI o órgão internacional colocava como condição uma reforma na constituição, com a inserção de cláusulas.
  • 21.
     O queincomodava era a estabilidade do servidor público. Acreditava-se que para atingir as metas impostas pelo FMI, seria necessário uma demissão em massa de servidores públicos.  Houve também todo um processo de convencimento de que para se combater a inflação
  • 22.
     É precisoter presente na análise elementos que procurem discernir o caráter do desenvolvimento nacional, da formação da identidade brasileira, para melhor compreender a Questão Social no Brasil.  "Reflete sim disparidades econômicas, políticas e culturais, envolvendo classes sociais, grupos raciais e formações regionais. Sempre põe em causa as relações entre amplos segmentos da sociedade civil e o poder estatal"(IANNI,1992, p.87).
  • 23.
     "As controvérsiassobre o pacto social, a tomada de terras, a reforma agrária, as migrações internas, o problema indígena, o movimento negro, a liberdade sindical, o protesto popular, o saque ou a expropriação, a ocupação de habitações, a legalidade ou ilegalidade dos movimentos sociais, as revoltas populares e outros temas da realidade nacional, essas controvérsias sempre suscitam aspectos mais ou menos urgentes da questão" (IANNI,1992, p.88).
  • 24.
     As manifestaçõestêm que ser levadas em conta para compreender a particularidade das questões sociais no Brasil. Encontra-se um IANNI, bastante afirmativo no que se refere à questão escravista. "É claro que durante a vigência do regime de trabalho escravo havia uma questão social. O escravo era expropriado no produto do seu trabalho e na sua pessoa. Nem sequer podia dispor de si.
  • 25.
     Era propriedadedo outro, do senhor, que podia dispor dele como quisesse, declará- lo livre ou açoitá-lo até a morte". A contrapartida, na perspectiva do escravo, continua o autor, "era o suicídio, a tocaia contra o senhor, membros da família deste e capatazes, rebelião na senzala, fuga, formação de quilombo, saque, expropriação". E assim se entende que "a questão social estava posta de modo aberto, transparente"(1992, p.88).
  • 26.
     "Ao longodas décadas de 20 e 30 os governantes começam a admitir que a questão social poderia deixar de ser considerada um problema de polícia, e começar a ser tratada como um problema político". Segundo registros do próprio autor, leva tempo a moderada alteração de atitudes e métodos, além disso são frequentes os retrocessos. Ele, diz, também: "nunca deixou de ocorrer a repressão contra diferentes manifestações sociais de setores populares, no campo e na cidade". Aparelhos repressivos de "dentro e de fora das agências estatais, agem no sentido de anular ou intimidar movimentos, sindicatos e partidos, suas bases e lideranças". " (1992, p.89).
  • 27.
     O processode desenvolvimento "extensivo e intensivo do capitalismo, na cidade e no campo, provoca os mais diversos movimentos dos trabalhadores, ..." (...) "As crescentes diversidades sociais estão acompanhadas de crescentes desigualdades sociais. Criam-se e recriam-se as condições de mobilidade social horizontal e vertical, simultaneamente às desigualdades e aos antagonismos. É o contexto em que emprego, desemprego, subemprego e pauperismo se tornam realidade cotidiana para muitos trabalhadores". (1992, p. 91-92).
  • 28.
     E "sobessas condições, manifestam-se aspectos mais ou menos graves e urgentes da questão social. As lutas sociais polarizam-se em torno do acesso à terra, emprego, salário, condições de trabalho na fábrica e na fazenda, garantias trabalhistas, saúde, habitação, educação, direitos políticos, cidadania".
  • 29.
     "Conforme aépoca e o lugar, a questão social mescla aspectos raciais, regionais, culturais, juntamente com os econômicos e políticos. Isto é, o tecido da questão social mescla desigualdades e antagonismos de significação estrutural"(1992, p.92).
  • 30.
     Vista assim,em perspectiva histórica ampla, a sociedade em movimento apresenta-se como uma vasta fábrica das desigualdades e antagonismos que constituem a questão social. A prosperidade da economia e o fortalecimento do aparelho estatal parecem em descompasso com o desenvolvimento social. Isto é, a situação social de amplos contingentes de trabalhadores; fabrica-se precisamente com os negócios, a reprodução do capital. As dificuldades agudas da fome e de desnutrição, falta de habitação condigna e as precárias condições gerais de saúde são produtos e condições dos mesmos processos estruturais que criam a ilusão de que a economia brasileira é moderna,... (IANNI, 1992, p. 92-93).
  • 31.
     A "criminalizaçãoda questão social" é outro aspecto presente no trato da questão brasileira "Praticamente um século após a Abolição da Escravatura, ainda ressoa no pensamento social brasileiro a suspeita de que a vítima é culpada", quando, "há estudos em que a 'miséria', a 'pobreza', e a 'ignorância' parecem estados de natureza ou da responsabilidade do miserável, pobre, analfabeto". E o lamentável é que 'não há empenho visível em revelar a trama das relações que produzem as desigualdades sociais"(1992, p. 97).
  • 32.
     A questãoindígena tem origem em nossa economia. Tem raízes na propriedade da terra. Hoje ela se mostra, mantendo marcadas raízes do século XVI, na matança , tomada de terra, massacres, atrasos nas demarcações, conflitos fundiários, pressões de políticos e grupos interessados nas terras pela revisão dos dispositivos constitucionais ( caso brasileiro), constituem fatos concretos dessa história interminável" (1997, p.78). Acrescenta-se ainda o peso do preconceito de que continua sendo vítima, considerado como "não-gente“.
  • 33.
     Sua resistência:lutas por identidade, memória, autonomia, convivência pluralista, com algumas novas feições, como, manifestações públicas, filiação a partidos políticos, associações, ocupações de terras e, ultimamente no Brasil, invasões de agências públicas, tomadas de reféns, acampamentos nas cidades (1997, p.77), criação de "casas do índio" nos municípios, onde expõem os artesanatos e a cultura, ou seja, onde ele mesmo se expõe porque fora do seu meio, como forma de dizer; o que também fazem quando são encontrados em suas representações nos congressos: "ouçam-nos: nós temos nosso jeito de ser e de viver".
  • 34.
     Alguns avançosjá se registram a partir da inscrição na Constituição de 88, art. 231, como "Nações indígenas", em que são reconhecidos, pela organização social, costumes, crenças, tradições, direitos sobre terras, que tradicionalmente ocupavam(1997, p. 77).
  • 35.
     está nagênese do "encontro do estrangeiro com o nativo“ (1997, p. 83), por isso se expressa na mestiçagem, nas questões de fronteira, questões regionais, tanto para direcionar recursos do governo, quanto na discriminação entre as regiões, xpressando-se, por exemplo nos nordestinos em São Paulo, nos separatistas latentes na "República dos Pampas", nas categorias sociais, como os "brasiguaios", que demonstram com clareza dificuldades e problemas da questão nacional (1997, p. 87).
  • 36.
     Respostas deresistências: Grupos políticos e acadêmicos insistem na necessidade de redefinir a federação e na formulação de projetos estratégicos alternativos, envolvendo questões diversas, na elaboração de projetos nacionais (1997, p. 87-88). Acredita-se, como as outras questões, esta especialmente é atualíssima, quando na mundialização do capital, o espaço da nação ficou reduzido e clama por afirmação.
  • 37.
     Mesmo após114 anos do fim da escravidão, uma "Pesquisa do Datafolha" informa: empregados negros com carteira assinada ganham 42% menos que a média paga ao trabalhador em geral. Se levado em conta o trabalho informal no qual as condições de trabalho ainda são piores. ( Jornal Folha de SP. 24 de mar. 2002, p. 5). Estas e outras informações dão conta de que o racismo no Brasil não é tão "cordial" como alguns querem fazer crer.
  • 38.
     "A situaçãodos negros vai se manifestar como uma questão social, germinalmente, por problemas econômicos quanto ao seu custo e produtividade"(1997, p. 90-91). Tornou-se mais acirrada na agenda política após o processo abolicionista. Passa pela questão do embranquecimento", imposição de fazê-lo "pensar como branco". Está comprovado que ainda encontra dificuldades para ocupar as mesmas posições do branco,especialmente no trabalho, normalmente, ganhando menos.
  • 39.
     Sua resistência:como visto anteriormente, já começava nos navios negreiros, continuava nas plantações até a formação dos quilombos (1997, p. 93). Organizações mais recentes estão nos movimentos pela "consciência negra", que procuram afirmar, seus costumes, valorizar a raça, estimular para preservar seu estilo de vida. Enfim garantir posições mais igualitárias.
  • 40.
     Trata-se deuma questão especial porque contempla, além da mulher em geral, a mulher indígena, negra, rural, operária, favelada e a doméstica. "Permeia todos os setores e classes sociais inclusive as dominantes".
  • 41.
     Sua resistênciaresulta da "tomada de consciência individual de determinadas mulheres e de certos grupos que, com imensas dificuldades conseguiram impactar um círculo maior de pessoas"(1997, p.95-96). Também os movimentos feministas havidos, no início do século , mas em especial o dos anos 60. Eles tiveram avanços na proclamação do Ano Internacional da Mulher 1975, e dos Congressos Internacionais com destaque para Beijing, em 1996, que estimulou ações afirmativas da mulher , em especial no mundo do trabalho como também da política
  • 42.
     . Acriação de Conselhos representativos, as Delegacias da Mulher, uma rede de Associações de Mulheres, e de Associações de Bairros, em geral, onde ela desponta como principal liderança, também da definição de quotas nos partidos políticos e nas direções sindicais.
  • 43.
     Engloba componentescomo o indígena, o negro e a mulher. Problemas estruturais ligados à propriedade da terra sob a forma de latifúndio e uma discriminação oligárquico- patrimonialista do passado, mas que persiste ainda hoje. "A implantação da empresa agrícola capitalista pouco alterou as relações de poder"(1997, p.101).
  • 44.
     Persiste osistema latifundiário que concentra terras nas mãos de poucos e a empresa agrícola que mantém o "bóia-fria" numa situação pouco diferenciada da escravidão, porém, com um prejuízo: com menos comida e menos saúde.
  • 45.
     Para nãoter dúvidas sobre isto é só sentar nas "rodas" deles e ouvir os relatos, para os quais acrescentar-se-ia nesta mesma situação, o nosso agricultor de subsistência, no interior do nosso Brasil. A produção com prioridades para a exportação e a monocultura, expõem hoje uma ferida que poderá sangrar muito no futuro; a degradação do meio ambiente ecológico, inclui- se o cultivo de transgênicos sem suficiente e/ou acesso às pesquisas e o uso de agrotóxicos que, ainda, mata muita gente no "silêncio da noite“ e nos espaços privados do nosso agricultor.
  • 46.
     Sua resistência:a partir da organização em sindicatos e cooperativas de produção , que atinge especialmente a agricultura familiar, e na ocupação de terras pelo Movimento dos Sem-Terra, ainda, a busca de aliados, na política , na sociedade, em geral , como também aliados em outros países. Como resultado, a mobilização dos camponeses e dos trabalhadores rurais vem crescendo, inclusive adotando estratégias e táticas de lutas inovadoras, trazendo, por um lado, maior violência; e por outro, uma conscientização de que nesta face da Questão Social totalizante, reside a fonte de contínuos e graves conflitos sociais" e, ele lembra, ainda o Movimento de Chiapas no México e MST no Brasil .
  • 47.
     Situam-se comovítimas do mesmo processo: da concentração de renda e do aumento da desigualdade, num contexto mais amplo, mas, também, na atual conjuntura da "desestabilização dos estáveis", considerando que o "incluído" de hoje, seja o "excluído" de amanhã. Com as grandes concentrações urbanas é compreensível que, expressiva Questão Social tenha a cara urbana, expressa no "pauperismo, na violência, no tráfico da droga", na moradia precária, "tornando a situação urbana um elemento crítico da questão social"(1997, p.112), quando a "questão social ainda continua uma questão de polícia", em que se criminalizam, o desempregado, o pobre, o favelado, que hoje, mais do que nunca, são considerados "classes perigosas".
  • 48.
     A resistênciadeste aspecto tentar-se-á contemplar mais amplamente noutro espaço, quando se pretende trabalhar aspectos da Questão Social no espaço local no município. De qualquer forma registre-se ainda como parte da nossa historicidade: Daqui para frente enfrentaremos novos problemas, típicos de uma população urbana, envelhecida, deseducada, com recursos públicos cada vez mais limitados, ante as necessidades crescentes" (SCHWARTZMAN, 2001, p. 8).