2 a pratica_interdisciplinar

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O texto A prática interdisciplinar foi publicado na PAIDOS em www.slmb.ueg.br/paidos e faz parte do GEFOPI - Grupo de Estudos em Formação de Professores e Interdisciplinaridade. O texto discute sobre as questões que envolvem o processo didático disciplinar ao interdisciplinar, que requer mudanças conceituais por parte dos professores e das escolas. Isso é uma questão paradigmática e urgente.

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  1. 1. A PRÁTICA INTERDISCIPLINAR NA FORMAÇÃO DE PROFESSOR: UMA NECESSIDADE PARADIGMÁTICA1 Andréa Kochhann2 Cristina Omelli3 Umberto Andrade Pinto4 “A idéia da interdisciplinaridade é uma ameaça à autonomia dos especialistas, vítimas de uma restrição de seu campo mental.(...) implica verdadeira conversão da inteligência.” Gusdorf A educação passa por momentos de grandes questionamentos, onde se evi dencia a necessidade de mudanças em seus mais diversos âmbitos, principalmente na prática de ensino. Fala-se em reforma no ensino superior, para que se possa ter uma educação mais completa do educando, e preparando-o para atender demandas de mercado e para cidadania. E dessa necessidade a interdisciplinaridade surge como prática que pode viabilizar uma educação mais ampla, rompendo com velhos paradigmas, Zabala (1998, p.28) afirma que “Educar quer dizer formar cidadãos e cidadãs, que não estão parcelados em compartimentos e estanques, em capacidades isoladas”. Muito se tem enfatizado a teoria, sobre interdisciplinaridade, não é que a teoria não seja importante, é preciso que a teoria e a prática caminhem juntas. Encontra -se certo receio na aplicabilidade da interdisciplinaridade, os docentes parecem ter medo de ousar, errar, porém isso faz parte do processo de desenvolvimento e apenas e que se terá certeza que funciona. 1 Artigo produzido para embasamento teórico nas palestras ministradas no Colóquio da UFG (Universidade Federal de Goiás), no Encontro da UEG (Universidade Estadual de Goiás) Unidade das Laranjeiras em 2006 e atualizado em março de 2007. 2 Andréa Kochhann Machado de Moraes – Pedagoga, Especialista em Docência Universitária e Mét odos e Técnicas de Ensino, Mestre em Educação, Professora o Curso de Pedagogia da UEG – UnU de São Luis de Montes Belos e de Pós - graduação da FMB, Pesquisadora. Responsável pelo GEFOPI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Formação de Professores e Interdisciplinaridade), Coordenadora de Projetos de Extensão. andreakochhann@yahoo.com.br 3 Maria Cristina Omelli - Pedagoga pela UEG – UnU de São Luis de Montes Belos. Professora do Ensino Fundamental Membro do GEFOPI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Formação de Professores e Interdisciplinaridade). cristinaomelli@hotmail.com 4 Umberto Andrade Pinto – Pedagogo e Matemático, Especialista em Filosofia da Educação, Mestr e em Educação Superior e Doutor em Educação. Professor e Coordenador de Projetos de Extensão da Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP, Coordenador do Curso de Pedagogia na Universidade Paulista – UNIP – SP, Orientador do GEFOPI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Formação de Professores e Interdisciplinaridade) ffle@mackenzie.com.br
  2. 2. 2 Há hoje instituições que estão comprovando que a prática interdisciplinar é possível e est ão satisfeito com os resultados obtidos a partir da aplicação da interdisciplinaridade e acreditam que estão obtendo uma formação mais completa de seus educandos. Ao indagar sobre o que é preciso para que a prática interdisciplinar ocorra, a resposta fica no âmbito da integração de equipe, uma boa relação professor -aluno, partir do discurso para a prática e ousar, como diz Fazenda (1999, p.29) “O diálogo, a ousadia da busca e da pesquisa, é a transformação da insegurança num exercício do pensar, num constru ir”. Só teremos uma educação de qualidade quando esta estiver embasada no tripé, pesquisa - extensão e ensino, e através da interdisciplinaridade pode -se estabelecer um elo além da sala e dos espaços da faculdade, mas em uma educação que seja colaborativa. Vivencia-se a era das informações e transformações, com a globalização, sempre é preciso conhecer mais e mais, para isso é necessário que o educando tenha uma boa formação onde aprenda a fazer ligações de fatos a conteúdos e vice -versa, retirando assim o máximo de aprendizado. Zabala (1998, p.40) fala sobre essa interação, que “Todo conteúdo por mais especifico que seja sempre está associado e, portanto será aprendido junto com conteúdos de outra natureza”. Levando em consideração que o professor é um elemen to de grande relevância neste processo de mudança é preciso que seja crítico -reflexivo e busque mudar os paradigmas educacionais, em busca de novos horizontes para viabilizar a formação de cidadãos conscientes e que sejam o rompimento do paradigma do qual Cury (2000, p.66) fala que Estamos formando homens cultos, mas não homens que pensam. Estamos formandos homens que dão respostas ao mercado, mas não homens maduros, completos, que sabem interiorizar, pensar antes de agir, expor e não impor as suas idéias, trabalhar em equipe, que amam a solidariedade, que sabem se colocar no lugar do outro. Assim sendo, após um estudo teórico e presenciar momentos interdisciplinares, tanto na Educação Básica quanto na Superior é que se sugere prática interdisciplinar como possibilidade de mudanças na educação, começando pela Universidade que apresenta um saber didático disciplinar e neste contexto a inquietude é quanto à aceitação desta prática por parte dos envolvidos no intuito de uma formação do homem integral. Entende-se que para tal proposição se torna realidade é
  3. 3. 3 preciso perceber-se interdisciplinar, esse é o primeiro movimento em direção a um fazer interdisciplinar. Dessa ótica Ferreira apud Fazenda (2001, p. 11) alega uma reflexão Perceber-se interdisciplinar É sentir componente de um todo.(...) É juntar esforços na construção do mundo. (...) É saber que a liberdade está em afirmar-se integrando-se.(...) É reconhecer no “Uni-verso”, “unidade na diversidade”. É estar consciente de que o evoluir é lei geral(...). O pensar interdisciplinar tenta dialogar com as outras formas de conhecimento como uma atitude. E o que caracteriza a atitude interdisciplinar é a ousadia transformando a insegurança num exercício do pensar, num construir. Como cita Willian Blake apud Fazenda (2001, p. 19) “Para ver o mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, segure o infinito na palma de sua mão. E a eternidade numa hora.”. A proposta interdisciplinar visa romper com as barreiras entre as disciplinas e superar o compartimentalismo do pensar, na busca de uma aproximação do saber como elo entre todos os conhecimentos dos diversos campos. Esta prática pedagógica deve pautar -se não na intenção, mas na ação no ensino superior, pois a educação básica deve ser pensada pela transdisciplina ridade. Fica evidenciado que os educadores precisam analisar a interdisciplinaridade a partir do significado dos seus elementos constitutivos – de sua prática. O termo Interdisciplinaridade se compõe de um prefixo – inter - e de um sufixo – dade – que, ao se justaporem ao substantivo – disciplina – nos levam à seguinte possibilidade interpretativa, onde: inter, prefixo latino, que significa posição a ação intermediária, reciprocidade, interação 5 . Por sua vez, dade (ou idade) sufixo latino, guarda a propriedade de substantivar alguns adjetivos, atribuindo -lhes o sentido de ação ou resultado de ação, qualidade, estado ou, ainda, modo de ser. Já a palavra disciplina, núcleo do termo, significa a epistemé, podendo também ser caracterizado como ordem que convém ao funcionamento duma organização ou ainda um regime de ordem imposta ou livremente consentida. Neste momento convém analisar a epistemologia da interdisciplinaridade. Para Assumpção apud Fazenda (2001, p.23) “O termo interdisciplinaridade se compõe de um prefixo – inter (reciprocidade, interação) - e de um sufixo – dade (dá qualidade ou modo de ser) que se justapõe ao 5 Como “interação”, temos aquele fazer que se dá a partir de duas ou mais coisas ou pessoas – mostra-se, pois, na relação sujeito-objeto.
  4. 4. 4 substantivo disciplina (epistemé).” Para Fazenda (2001, p.17) “O pensar interdisciplinar parte do princípio de que nenhuma forma de conhecimento é em si mesma racional. Tenta, pois, o diálogo com outras formas de conhecimento, deixando -se interpenetrar por elas.(...) não se ensina, nem se aprende, vive-se, exerce-se.” Já no entendimento de Zabala (1998, p.143) “ ... é a interação entre duas ou mais disciplinas, que pode ir desde a simples comunicação de idéias até a integração recíproca dos conceitos fundamentais e da teoria do conhecimento, da metodologia e dos dados da pesquisa.” Prosseguindo nesta linha, para Santomé (1998, p.65) “A interdisciplinaridade é fundamentalmente um processo e uma filosofia de trabalho (...) é um objetivo nunca completamente alcançado e por isso deve ser permanentemente buscado. Não é apenas uma proposta teórica, mas sobretudo uma prática.” . Visto que para Piaget apud Santomé (1998, p.70) é o “Segundo nível de associação entre disciplinas, em que a cooperação entre várias disciplinas provoca intercâmbios reais, isto é, existe verdadeira reciprocidade nos intercâmbios e, consequentemente, enriquecimentos mútuo.” . Gusdorf vai além de um conceito enquanto prática pedagógica, alega que O que se designa por interdisciplinaridade é uma atitude epistemológica que ultrapassa os hábitos intelectuais estabelecidos ou mesmo os programas de ensino.(...) A idéia da interdisciplinaridade é uma ameaça à autonomia dos especialistas, vítimas de uma restrição de seu campo mental.(...) implica verdadeira conversão da inteligência. (apud FAZENDA,1991, p. 24) Continuando, Hernández (1998, p.46) alega que o intuito é de se chegar a transdisciplinaridade, que ... representa uma concepção da pesquisa baseada num marco de compreensão novo e compartilhado por várias disciplinas, que vem acompanhando por uma interpretação recíproca das epistemologias disciplinares. A cooperação, neste caso, dirige-se para a resolução de problemas e se cria a transdisciplinaridade pela construção de um novo modelo de aproximação da realidade do fenômeno que é objeto de estudo. Interdisciplinaridade, palavra difícil de ser dita, por sua extensão. Complexa na cabeça de muita gente, comprometedora, utópica para muitos e instigadora para alguns. Há muito debate com relação ao conceito de interdisciplinaridade. E debates, muitas vezes,
  5. 5. 5 promovam ou vêm do caos. A educação e a interdisciplinaridade é is so: um caos constante, como diz Nietzsch (s/d) “Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: Há ainda caos dentro de vós?”. E ao analisarmos sobre a importância da educação, concordamos com Cr aveiro (1997, p. 2) “A educação deve ser pensada com o compromisso de preparação do aluno para a vida como um todo, nos seus aspectos individuais e coletivos.”. Partindo desse pressuposto percebe-se a necessidade de uma atitude de ousadia, um desafio, que segundo Henfil (apud CRAVEIRO, 1997, p. 17) “Não é o desafio com que nos deparamos que determina quem somos e o que estamos nos tornando, mas a maneira como respondemos ao desafio.” O desafio posto é o conhecer melhor, para então atuar, aproveitando os ben efícios da prática interdisciplinar na Universidade. O movimento interdisciplinar é recente, na década de 1970 inicia -se as primeiras discussões sobre a mesma no Brasil por Fazenda (1979) na década de 80 houve uma luta para a busca de uma identidade perdida durante as décadas de 1950 à 1970 conhecidas por tempo de silêncio6 . Na década de 1990 tem-se a possibilidade de explicitação de um projeto antropológico de educação, o interdisciplinar, em suas principais contradições. Portanto, é necessário reconhecer que muitos acadêmicos foram alfabetizados e seguiram seus estudos pelo método tradicional e hoje necessitam e buscam um novo rigor acadêmico. Convém lembrar que os profissionais da educação com certeza foram formados na prática tradicional e por isso, tendem a educarem como foram educados, já que um novo projeto de educação é sinônimo de trabalho árduo, exige o rompimento com a acomodação. Exercer uma tarefa interdisciplinar, como cita Fazenda (1999, p. 77) “ ... pressupõe antes de mais nada um ato de perceber-se interdisciplinar. Esse processo é lento, exige cuidado, critério e paciência.” Continuando, a autora afirma que busca -se “... um novo rigor – uma outra forma de rigor mais acentuado, em que da objetividade empresta -se a seriedade, a ordem, e da subjetividade, a emoção, a poesia.” (p.44). Isso demonstra que a preocupação com a formação continuada é marcante e por isso um consenso no que tange cada professor ensinar de maneira diferente, pois a identidade é necessária. 6 O final dos anos 50 e início dos anos 60 foram marcados por movimentos contra os governos populistas a tal ponto do golpe militar em 64 que a partir de então o povo precisou calar, silenciar e os educadores assim tinham que fazer também por toda década de 70.
  6. 6. 6 No que se refere à identidade pessoal, Fazenda (1999, p. 48) diz que “Consideramos que é algo que vai sendo construído num processo de tomada de consciência gradativa das capacidades, possibilidades e probabilidades de execução, configura -se num projeto individual de trabalho e de vida”. Portanto, continua a autora (p. 47) “A identidade só se consolida no movimento contraditório das situações concretas de vida .”. Fazenda destaca, ainda, que (p. 76) “(...) a prática de cada um está marcada por sua história de vida pessoal, acadêmica e prof issional.” ficando claro que cada professor terá seu próprio estilo de ensinar, a inquietude não está no isolamento, mas na socialização de sua identidade numa práxis dialética coletiva. Como afirma Fazenda (1999, p. 86) “A premissa(...) é a do respeito ao modo de ser de cada um, ao caminho que cada um empreende em busca de sua autonomia.”, portanto cabe ao professor respeitar as diferenças de interpretações dos acadêmicos e com o fechamento de idéias aparar as arestas dos seminários, dando-lhe uma feição única e contundente. Há necessidade de privilegiar na educação a qualidade, porém não se deve perder de vista a quantidade, bem como há o reconhecimento da necessidade de uma relação entre o professor e o aluno de alteridade – professor mais próximo do aluno em linguagem e afetividade, mas com rigor acadêmico – para o favorecimento do processo ensino -aprendizagem. Quanto ao processo de alteridade, Fazenda (1999, p. 44-5) afirma que Se estamos ou queremos viver hoje na educação um momento de alteridade (com o construção/produção de conhecimento) é fundamental que o professor seja mestre, aquele que sabe aprender com os mais novos (...). O professor precisa ser o condutor do processo (...). A alegria, o afeto, o aconchego, a troca(...) não podem pedir demissão da escola, sua ausência poderia criar um mundo sem colorido, sem brinquedo, sem lúdico, sem criança, sem felicidade. Nota-se, desse modo, a importância da formação humana daqueles que assumirão a função docente, retomando-se o caráter dialético das interações sociais. Nesse processo, importa destacar não apenas o aspecto cognoscitivo do conhecimento, como também seu caráter afetivo e social. Certamente, encarado dessa perspectiva, o conhecimento ganha um caráter mediador nas relações e seu domínio deve ser avaliado de modo sistemático e amplo. Nesse sentido, poder -se-ia dizer que o processo avaliativo se redireciona para um caráter interdisciplinar.
  7. 7. 7 Esse processo deve objetivar que o aluno busque em outras disciplinas o suporte para responder às questões, sendo assim mais eficiente do que as tidas por avaliações tradicionais, onde o aluno reproduz o que os autores afirmam. Portanto , devemos verificar se estamos utilizando a educação bancária, que explicita Paulo Freire (2001) em muitos trabalhos seus, esta educação tida por tradicional mostra a necessidade de rupturas deste paradigma e a ousadia do trabalho interdisciplinar. Como salienta Fazenda (1999, p. 78) “O processo de passagem de uma didática tradicional para uma didática transformadora, interdiscip linar supõe uma revisão dos aspectos cotidianamente trabalhados pelo professor”. Por isso, é necessário um projeto de capacitação docente para a consecução de uma interdisciplinaridade no ensino, levando em consideração por outro lado, as dificuldades de concretizar tal projeto, como afirma Fazenda (1999, p. 50) (...) como efetivar o processo de engajamento do educador num trabalho interdisciplinar, mesmo que sua formação tenha sido fragmentada.(...) -como propiciar formas de instauração do diálogo, mesmo que o educador não tenha sido preparado para isso.(...) - como propiciar condições para troca com outras disciplinas, mesmo que o educador ainda não tenha adquirido o domínio da sua. Um projeto dessa natureza pressupõe a formação de professor/pesquisado r que valorize a indissociabilidade ensino-pesquisa e extensão como forma de produção de saber. É possível dizer que o século XXI se inicia com luzes mais claras nos caminhos que levam à prática da interdisciplinaridade nos vários níveis de ensino. A luta de Fazenda está sendo valorizada, lembrando que a década de 60 foi o tempo de silêncio, a de 70 construção epistemológica, a de 80 explicações das contradições epistemológicas decorrentes de sua construção, a de 90 tentando construir uma nova epistemologia, a própria da interdisciplinaridade, e hoje ocorre sua propagação. Na construção do conhecimento a integração das muitas ciências não garan te a sua perfeita execução. A interdisciplinaridade surge, assim, como potencialidade de enriquecer e ultrapassar a integração dos elementos do conhecimento. Perpassa todos os elementos do conhecimento, pressupondo a integração profunda e orgânica entre eles. Está marcada por um movimento ininterrupto, criando ou recriando outros pontos para a discussão e intersecção. A palavra interdisciplinaridade esquecida em décadas passadas volta como palavra de ordem das propostas educacionais, não só no Brasil, mas no mundo. Entretanto, ela é apenas
  8. 8. 8 pronunciada e os educadores não sabem bem o que fazer com ela. Sentem -se perplexos frente à possibilidade de sua implementação na educação. Essa perplexidade é traduzida por alguns na tentativa da construção de novos projetos para o ensino. Mas, percebe -se em todos esses projetos a marca da insegurança. Difícil pensar em interdisciplinaridade, quando se foi acostumado durante décadas, pensar a educação compartimentalizada, produto da escola tecnicista. No entanto para que o aluno saiba enfrentar a vida num processo dialético, considerando simultaneamente a teoria e a prática, é bom se sentir, se encontrar, poder ser, para poder então “fazer”. Segundo Fazenda (1979, p. 108) assim é o ato de ser interdisciplinar “Interdisciplinaridade não se ensina, não se aprende, apenas vive -se, exerce-se e por isso exige uma nova pedagogia, a da comunic ação”. Entretanto, trata-se de uma atividade que se apresenta como um desafio no ensino superior, uma vez que os alunos devem compreender a realidade concreta, não apenas sentida como uma atividade experimentada e imediata, mas que seja entendida em suas diversas dimensões culturais amplas, nas relações entre as classes e sobre os aspectos políticos que permeia m toda a vida social. O aluno precisa, desse modo, dominar o saber e não ser dominado por ele. Nesse momento a postura do educador mais uma vez é indispensável. O educador desempenha um papel fundamental, tanto na educação básica quanto na superior, pois à proporção que explica os conteúdos, mantém uma permanente dialógica com os alunos. Dessa perspectiva, cada assunto deve ser organizado de maneira q ue propicie a cada aluno resgatar a memória de sua própria história de vida. Através dessa interação, ambos podem incorporar saberes interdisciplinares, a fim de superar os conhecimentos parcelados da realidade, como é, em geral, proposto pelo currículo oficial das Escolas, e criando novo saber. Como pode-se notar, não é uma tarefa fácil. Muitos impedimentos existem, como mostra Barbosa apud Japiassú (1976, p. 56 ) A prática interdisciplinar, por outro lado, sofre impedimentos resultantes da formação cultura da sociedade que reflete no setor educacional através da formação do professor, treinado por um saber fragmentado e realizando o seu trabalho sob as mais adversas influências . Estas se manifestam no cotidiano da sala de aula, onde o professor realiza um trabalho solitário e para qualquer iniciativa de criação do saber sofre inibições pela ausência de estímulos. Frente ao exposto ser interdisciplinar requer uma atitude política e pedagógica que demanda coragem, despojamento, muita dedicação e sobretu do muita garra. Na educação este deve ser o
  9. 9. 9 alvo do educador. Deve-se lembrar sempre, segundo Carr apud Brandão (1995, p.78 ) de que “ A educação é uma atividade prática com carga de valores relacionada com a promoção dos valores humanos e dos ideais sociais”. Fica um desejo de que a frase que deveria estar presente no currículo de todo educador, que busca e espera uma educação diferenciada, que forme o cidadão integral e que relacione saber escolar com prática social, com certeza poderia ser “A interdiscipl inaridade não fica apenas no campo da intenção, mas na ação, precisa ser exercitada .”.(Fazenda, 1999, p.35). Evidenciando que a educação passa por transformações, a interdisciplinaridade precisa ser iniciada aos poucos, mas ousando, mesmo percebendo que há alguns que resistem por se tratar de um rompimento de um paradigma e por não se ter receituário de interdisciplinaridade para seguir , pois “O termo não possui um sentido único e estável. O modo de interpretar a interdisciplinaridade não tem forma definida: constrói-se” (Idem, p.35). Surge assim um questionamento a sociedade vivencia momentos onde nada é estável e tudo está se transformando, e a educação qual deve ser a sua posição? Ao estudar interdisciplinarmente, acaba -se desenvolvendo um raciocínio que faz ligações entre fatos e assim desenvolver um senso crítico, que aprenda a ler as entrelinhas e encontrar soluções. Espera-se que a cada dia se desperte mais o interesse na aplicabilidade da interdisciplinaridade no ensino superior, mudando os rumos da educação, construindo um conceito próprio de interdisciplinaridade. Transformando o âmbito educacional de dentro para fora, e assim uma reforma universitária que vai realmente auxiliar a educação. É preciso ter um conceito de educação partindo do pensamento de Savater (2000, p.171), “Esse processo de ensino, nunca é uma simples transmissão de conhecimentos objetivos ou destrezas práticas, mas vem acompanhado de um ideal de vida e de um projeto de sociedade (...) A educação tem como objetivo completar a humanidade”. Assim, com uma educação nova que unida rompa paradigmas poderemos ter uma educação libertadora com ideias capazes de ajudar a humanizar a sociedade atual. REFERÊNCIAS BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 33ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995 ( Coleção primeiros passos: 203).
  10. 10. 10 COSTA NETO, Antônio. Paradigmas em educação no novo milênio. Goiânia: Kelps, 2002. CURY, Augusto Jorge. Superando o cárcere da emoção: a pior prisão do mundo. São Paulo: Acadêmica de inteligência, 2000. CRAVEIRO, Clélia Brandão Alvarenga. A formação do professor para a escola básica . In Educador V. 1, nº 1, ( 1997 ) – Goiânia: Dep. Educação da UCG, 1997. CUNHA, Maria Isabel. O professor universitário na transição de paradigmas .Araraquara, SP: JM editora, 1998. DELORS, Jacques. Educação um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 1990. FAZENDA, Ivani. Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro . São Paulo, Loyola, 1979. _________. Interdisciplinaridade: História, teoria e pesquisa . Campinas, SP: Papirus, 1999. 4 ed. _________ ( org.). Práticas interdisciplinares na escola. São Paulo: Cortez, 2001. _________. Interdisciplinaridade: um projeto em parceria . São Paulo: Loyola, 1991. FREIRE, Paulo. Professor sim, tia não – cartas a quem ousa ensinar. 3 ed. São Paulo: Olho D’Água, 1993. _______. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa .17 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001. HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação. Porto Alegre: ArtMed, 1998. JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber . Rio de Janeiro, Imago:1976 LISITA, Verbena Moreira S. S. PEIXOTO, Adão José. Formação de professores, políticas, concepções e perspectivas. Goiânia, Ed: Alternativa, 2001. MASETTO, Marcos e ABREU, M. Célia. Professor universitário em sala. São Paulo: Cortez, 1980. MORAES, Maria Cândido. O paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 1997 PIMENTA, Selma Garrido ( org). Saberes pedagógicos e atividades docentes . SP: Cortez, 1998. SAVATER, Fernando. O valor de educar. São Paulo: Martins Fontes, 2000. SANTOMÉ, Jurjo. Globalização e interdisciplinaridade. Porto Alegre: Artes Médicas,1998. ZABALA, Antoni. A prática educativa. Porto Alegre: Artmed, 1998.

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