O encontro

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O encontro

  1. 1. 1
  2. 2. OENCONTRO B. P. BITTENCOURT À MINHA MÃE MARIA JOANA BITTENCOURT ESTAS PÁGINAS SÃO CARINHOSAMENTE DEDICADAS. CAPA E DESENHOS DE: DERLI BARROSO PUBLICAÇÃO DA JUNTA GERAL DE EDUCAÇAO CRISTÃ DA IGREJA METODISTA DO BRASIL SÂO PAULO 1965 2
  3. 3. ÍNDICE A GÊNESE A OPORTUNIDADE I À BEIRA DO POÇO DE JACÓ II AMOR III PAZ IV O SENTIDO DA CRUZ V VONTADE SOBERANA VI GRATIDÃO: IDEAL DE SERVIÇO VII A OVELHA E A LÃ VIII COMPANHEIRISMO IX O TEMPO X O ENCONTRO 06 07 09 17 21 26 31 36 39 44 48 53 3
  4. 4. A GÊNESE Meu caro leitor, as meditações que se seguem não têm outra finalidade senão a de ajudá-lo a compreender melhor suas relações pessoais com Jesus Cristo no tempo presente. Elas foram escritas sem preocupação literária, de improviso, de momento, na hora em que o espírito de Cristo as trazia ao meu coração. Foram escritas num exílio acadêmico na Alemanha, quando, longe de meus queridos, da minha Igreja, de meus amigos, da minha Pátria, nele e só nele encontrava refúgio nas horas de saudade, saudade imensa, grande, difícil, mas gostosa saudade. E, ao escrever estas páginas, eu vivia com ele o seu enredo, seu colorido, sentido vário, que não é meu, mas dele, inspiração dele, e para o seu louvor unicamente escritas. Se mérito há, também é dele, para quem seja a glória para todo o sempre. Heidelberg, dezembro de 1961. 4
  5. 5. A OPORTUNIDADE O tema constante para a discussão do homem de hoje é política internacional baseada no denominador comum Oriente-Ocidente ou comunismo-capitalismo; e na equação é indispensável entrar os cálculos futuros no que respeita à sorte das ideologias em foco, quiçá do próprio mundo, o poderio atômico das partes discordantes com suas imprevisíveis conseqüências. Mas já houve tempo quando se discutiam as intérminas diferenças entre gregos e troianos, entre Atenas e Esparta, ou quando se debatia na rua e no Senado o antagonismo Roma-Cartago. Tudo passou com a História e hoje só serve para atormentar nossos filhos na escola. Talvez esteja o leitor pensando que, numa época de extremo desenvolvimento científico e com problemas político-sociais de tão alta relevância para o momento histórico ocupando a atenção do mundo, seja até anacrônico falar sobre uma personalidade que viveu há quase dois mil anos. Mas, exatamente porque o avanço da ciência trouxe consigo brutal secularização do homem, com uma conseqüente degeneração de seus valores espirituais, é que se torna legítimo falar-se na reabilitação desses mesmos valores. Por mais que o homem queira negar e fugir existe, inata em sua alma, uma tendência religiosa (como inata é a sexual ou a gregária) que o arrasta num movimento constante em direção a um deus, e de cuja influência ele não pode nem sabe escapar, levando-o a levantar diante dos próprios olhos as mais esdrúxulas imagens da divindade. A este teotropismo, que se manifesta desde o animismo dos povos primitivos até as mais refinadas formas de teísmo de nossos dias, jamais o homem pode escapar, por mais que submeta sua consciência a valores materiais imediatos. Totalitarismos romanos, como democracias gregas, têm-se levantado com os séculos, e, com os séculos, visto também seu ocaso. Os mais variados ídolos, os mais diversos deuses, as religiões mais esquisitas, têm encontrado eco no coração humano nos milênios por que corre a História. Tudo tem passado como também passará a tensão dos dias que vivemos. Mas Cristo "é o mesmo ontem, hoje e eternamente". Com ele está a vitória. Ainda agora o Papa afirmou, e com razão, que à "Igreja do Silêncio" na Hungria, pertence a vitória, e que esta vitória é só questão de tempo. Esta é a única razão que me leva à publicação das meditações que se seguem: a fé firme de que Jesus Cristo é o Senhor da História, o Senhor da 5
  6. 6. vida; ele é a certeza para as incertezas do coração humano, a única esperança em meio à crise presente, o único amor para este mundo inimigo, o único valor espiritual em meio à presente secularização. 6
  7. 7. I I – À BEIRA DO POÇO DE JACÓ João 4.1-42 A CENA Meio-dia. Vestes empoeiradas de um longo jornadeio, pés descalços, cabelos soltos ao vento, chega o viandante, sedento e com fome, vindo do Sul, às vizinhanças de uma cidade da Samaria, chamada Sicar. Hora própria para uma pausa na jornada, e nenhum lugar melhor para o cansado peregrino que a murada da fonte de Jacó. Fatigado, senta-se ali. O bando de seguidores vai à cidade comprar alimento. Só, a cismar, quando seus olhos se refletiam nas águas quietas da fonte, a incentivar-lhe a sede, foi que uma mulher de Sicar se achega ao poço, desobrigando-se de mais um de seus diários quefazeres (ocupações). Reconhece logo, no estranho, um judeu, raça que ela e os seus odiavam, ódio, aliás, bem retribuído. Procura ignorá-lo, tirar a água, voltar à cidade e 7
  8. 8. continuar o ritmo normal de sua vida anormal. Mas o viajor aproveita o ensejo para pedir água e matar a sede, pois, o poço é fundo e ele não possui com que tirá-la. "Dá-me de beber". Estranho pedido, pois os judeus não se comunicavam com os samaritanos. E a mulher, admirada, volta-se e lhe dirige uma pergunta perfeitamente normal: "Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim que sou mulher samaritana?" Sim, meu caro leitor: um judeu. Um judeu como muitos outros que haviam, cansados, sedentos, famintos, atravessado a Samaria e, ali junto à fonte de Jacó, sido vistos vezes sem conta, ignorados, anônimos, indesejados. Foi assim que escribas, fariseus, saduceus, sumos sacerdotes, Herodes e Pilatos viram o mesmo homem. E para estes, simples, mas atrevido judeu. E é assim que muitos — milhões quem sabe — ainda hoje olham para Jesus de Nazaré. Ele é "o homem", como disse Pilatos, não porque o procurador o destacasse como "O Homem", mas porque era o conhecido, o acusado, o indesejável, digno só de uma cruz e nada mais. Quantas vezes você tem ouvido falar de Jesus como outro judeu igual a Judas Macabeu, Uzias ou outro qualquer. Ele representa nada para sua vida, muito menos que seu cavalo ou seu automóvel com os quais você se preocupa todos os dias, porque deles precisa para seu transporte. Passam-se as horas e os dias como se só existisse um ponto num longínquo passado histórico relacionado com o nome desse Judeu, ao qual por sua vez se juntam outros nomes como Belém, Nazaré, Cafarnaum, Jerusalém, Judéia, Galiléia, Herodes, Pilatos, João, André, Pedro e outros, também de memória quase apagada. Você também conhece algumas datas como Natal, Páscoa ou Pentecostes, nas quais o comércio se engalana, é feriado na fábrica ou no escritório, há refeições especiais em casa, visitas, presentes, e é tudo. Além disso, o judeu é igual a um polonês ou malaio que você porventura haja conhecido quando morou em Atibaia ou Passo Fundo. Nenhum significado, nenhuma relação. Outra raça, outra época, outra 8
  9. 9. língua, tudo distante, tudo difuso, quase impenetrável. E você ainda é feliz quando aceita ter existido esse judeu. Outros há que até a existência histórica lhe negam, dizendo ser ele um mito como mitológicas eram as figuras em torno das quais gregos e latinos construíram as mais estranhas histórias deste mundo. Outros dizem--no criação da mente excitada de um bando de homens e mulheres que seus passos seguiram por um ou dois anos e às suas idéias fantásticas emprestaram crédito. Mas o trabalho, os negócios, a família, este mundo todo de lutas, de preocupações ou de prazeres e gozo sem conta, levam-no simplesmente a ignorá-lo ou a contá-lo com o outro judeu ali da esquina e do qual você compra sapatos ou meias de vez em quando. Ignorá-lo, simplesmente ignorá-lo. Assim quis fazer a mulher de Sicar. Deixá-lo-ia entregue às especulações de seu descanso, voltaria aos cuidados da casa, a seu amante, e o esqueceria como a tantos outros judeus que pela retina lhe haviam passado em anos de que já não mais se lembrava. Mas o judeu lhe responde: "Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva". A resposta ouvida pela mulher é estranha. Um judeu comum não lhe falaria assim. "Dom de Deus... água viva...". Onde esse cavalheiro conseguiu esses elementos tão estranhos e ao mesmo tempo tão impressivos? Sim ele não é simples judeu como as dezenas que por ali passaram e cujo vulto cedo no horizonte de desvanecia para nunca mais ser evocado. Mulher de vida livre, acostumada a lidar com os homens, levanta os olhos e contempla o vulto peregrino que lhe ousa falar nesse tom diferente. Não, ele não é vulgar e merece outro tratamento do que o pejorativo "judeu" de início. E, na continuação de um dos mais belos diálogos que jamais a pena do homem registrou, ela muda o tratamento: "Senhor..." Não mais o judeu vulgar, anônimo, até desprezível. Ele é cavalheiro e assim é tratado. Quantas samaritanas e samaritanos de hoje assim também conhecem a Jesus de Nazaré. O trato com ele é feito em base puramente humana, embora ele fale em "Dom de Deus" e em "Água viva". Suas relações com ele ainda o colocam em pedestal inferior a Jacó, o patriarca da Escritura: "És tu, porventura, maior do que nosso pai Jacó?" Como pode este simples cavalheiro, este senhor — diriam com a samaritana — significar para mim mais que Jacó, Elias ou Davi, quando nem mesmo algo com que tirar água ele possui? 9
  10. 10. Sim, meus problemas, minhas lutas, minhas apreensões, a inquietude do meu coração, minhas feridas morais, meus combates espirituais serão certamente mais bem tratados pela psicanálise, psicoterapia, espiritismo, umbandismo. Ou não se aquietará minha consciência, meu conturbado coração, através de minhas esmolas, minhas orações, meus jejuns, minhas confissões e minhas penitências? Pois, ele mesmo um simples balde possui?... e o poço é fundo. Sim, o poço é fundo! Quem sabe nas horas de sol abrasador, quando sinto os areais escaldantes sob os pés descalços, o corpo cansado e sedento, ainda eu o vejo como outro cavalheiro qualquer, como um Mestre (quem sabe?), ilustre por todos os méritos, mas impotente para socorrer-me, eu insista: "Onde, pois, tens a água viva?" Não, eu não creio. E, como eu, meu leitor amigo, muitos também não creram e não crêem. Entre esse número está seu próprio povo, para o qual ele é menos que Abraão e Moisés, pois Abraão é o começo, a gênese da própria nação, e Moisés tinha as tábuas da lei, a sarça ardente, a arca, o tabernáculo, a aliança, as promessas. E Jesus de Nazaré não possui nem mesmo um simples balde e eu não sei onde, porventura, ele tem a Água Viva, se é que a tem. Quem sabe até a concessão do título de Mestre seja demais, mas convenhamos em que ele assim seja chamado como o fazem ainda hoje e entre estes o seu próprio povo. Mestre, cujo ensino moral é o mais elevado possível — se bem que cópia servil de muito do que há no judaísmo — argumentam alguns. E o homem para ser aceitável a Deus, para ter vida íntegra, em síntese, para ser salvo, nada mais precisa fazer que praticar o ensino ético do Mestre. E daqui para o humanismo doentio de dois séculos passados e o deste, vai somente um passo. A salvação do homem dependendo, não da pessoa de Jesus, mas de seu ensino, para cuja prática possui o homem possibilidades suficientes, torna-o capaz de realizar sua própria salvação. Ele — o homem — possui a corda, conhece a profundidade do poço e sabe onde a água está. Desgraçadamente, no entanto, não sabe distinguir entre "água" e "Água Viva". Não conhece a própria alma. Esta possui dimensões que lhe são ainda grandes incógnitas. Ou se em parte lhe conhece os segredos, oculta-os sob um simples manto de samaritano, procura tirar a água, voltar aos interesses de Sicar, deixar o peregrino junto à fonte e ignorá-lo para sempre. Mas foi preciso que o olhar penetrante do caminheiro atingisse o coração da samaritana, penetrasse sua alma, levantasse o véu que lhe 10
  11. 11. encobria a vida licenciosa, trouxesse a claro o que ela escondia, quem sabe com amargura e lutas no recesso do próprio ser, para que ela reconhecesse nele um profeta. Admirada, quem sabe constrangida, com a revelação de seus segredos íntimos, ela exclama: "Senhor, vejo que és profeta". E nada mais natural que conversar com um profeta sobre assuntos de ordem espiritual e para este campo ela conduz a palestra: adoração, Jerusalém, Geresin, Messias, Cristo. Profeta era um homem capaz de interpretar a vontade de Deus para o presente e o futuro; era oráculo de Deus, o mais sublime e respeitoso ser que os mortais do tempo conheciam. E a galeria era augusta e numerosa: Samuel, Elias, Eliseu, Isaías, Jeremias, Amos e tantos outros. Profetizaram fomes, guerras, cativeiro, destruição, morte; profetizaram vitórias, abundância, paz. Desvendaram os segredos dos corações dos reis e dos príncipes, dos nobres e dos grandes da terra. E ali estava um profeta. Maravilhoso! Extraordinário! Os profetas falavam em nome de Deus, ouviam a voz de Deus, e, com divina autoridade, falavam dos destinos dos homens e das nações, desvendando-lhes o futuro. E não foi assim que Jesus fez? Abriu a cortina, penetrou os profundos arcanos, trouxe à luz o que a pobre mulher jamais desejava fosse comentado por ele. Certamente ele é profeta, mas somente profeta. Será que é assim que você o vê, meu caro leitor? Mas tal foi a impressão que o profeta lhe causou, tal a penetração, a agudez e a graça de seu ensino, tal a glória de sua presença, da revelação de Deus em sua face e de sua própria afirmação "Eu o sou", que a pobre pecadora de Samaria abandona o cântaro junto à fonte de Jacó, vai até Sicar, chama os homens da cidade para um encontro com ele e lhes afirma, perguntando: "Será este porventura o Cristo?" Sim, ele era diferente. Um profeta se apóia em visões e revelações, na palavra que de Deus recebe e deste modo se expressa: "Assim diz o Senhor". Mas Jesus falava: "Eu, porém, vos digo". Um rabino procura na Escritura e em Moisés a autoridade para seu ensino: "Moisés disse". Jesus, porém, falava: "Vós ouvistes o que os antigos disseram; eu, porém, vos digo". Foram os homens de Samaria. Viram e ouviram e agora diziam de experiência própria: "Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo". 11
  12. 12. • O LIVRO A Bíblia é o livro que narra esta cena à beira do poço de Jacó. É o livro que nos conta como, em Jesus de Nazaré, Deus visita os Samaritanos de Sicar, os da minha raça, da minha cidade, da minha rua, do meu próprio lar, a mim mesmo. Sem corrermos o risco do extremismo cético de Bultmann, 1 ou do exagero literalista do Do minus dixit de Barth, no entanto, poderíamos dizer com este último que "a relação de Deus com os homens e a relação dos homens com esse Deus é para mim — diz Barth — o tema da Bíblia e o resumo de toda a filosofia". E, como dizia Zahrnt, "não é o homem o agente deste encontro, mas Deus. Não há nenhum caminho do homem para Deus, mas só o caminho de Deus para o homem". E é na Bíblia que a Palavra de Deus encontra o homem, e ela o encontra em Jesus Cristo. E, quando Deus em Cristo fala ao homem, então esta Palavra de Deus possui perfeita relação histórica do Verbo que se fez carne, e, em Jesus de Nazaré, viveu entre os homens. Por isso, parafraseando Pilatos, diríamos: "Eis o Livro". Vá, meu caro leitor, ao Evangelho, não em busca da letra que mata, mas à procura do espírito que vivifica, no dizer de Paulo. E, ali, em clareza esplendente e simplicidade de criança, ver-se-á você frente a frente com aquele a quem, sem saber, seu coração procura e por quem sua alma aspira. Antes, porém, deixe-me introduzi-lo a essa invulgar personalidade. • DA HISTÓRIA À FÉ O apóstolo Paulo, num simples versículo escreve a mais curta história da vida de Jesus de que se tem notícia: "Nascido de mulher, nascido sob a lei" (Gl 4.4b). Jesus não era um fantasma, ou uma sombra como nos contos de fada, meio que cópia servil de muito do que há no judaísmo, meio homem, meio Deus, ou, como os gnósticos, um semi-deus, mas Jesus é vero homem que viveu plenamente a vida de um homem normal neste mundo. Sua vida humana não difere da vida de outro homem qualquer, e nisto o autor do quarto Evangelho e de 1 João é insistente: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14a); "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da  1 Por não se tratar de trabalho crítico, onde citações dos autores mencionados no corpo do livro são indispensáveis ao pé da página, o autor limitou-se somente a mencionar-lhes os nomes para seu crédito. 12
  13. 13. vida" (1Jo 1.1). (E note-se que a preocupação do Quarto Evangelho é descrever o Cristo exaltado e não o Jesus da História). Ele viveu em determinado espaço e em tempo específico da História humana. Mais ou menos no ano cinco antes de nossa era, Jesus veio ao mundo, nascendo de Maria. Teve infância e mocidade normal. E, como diz o Credo Apostólico, "padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos", fato possível de verificação. Ainda na linguagem do mesmo Credo cristão, como tantos outros homens, "foi morto e sepultado". Morto e sepultado em determinada cidade: Jerusalém; em determinada colina: Calvário; em determinada semana: a da Páscoa. Não um mito, mas um e único fato que não se repete; não uma idéia, mas um acontecimento; não a interpretação de um culto, mas realidade histórica; não metafísica, mas escatológica; não um símbolo, mas palavra; não miragem, mas fé. Eis a história de um homem como você ou eu. Homem, sim, mas não mero homem. Jesus é também e ao mesmo tempo o filho de Deus, não porque possuísse qualidades físicas extras, mas por causa de sua relação com Deus. Paulo diz que "Deus estava em Cristo" (2 Co 5.19). Não foi difícil para a samaritana perceber que estava falando com alguém que era mais do que um profeta. Talvez seja difícil para o homem entender por que Jesus foi levado ao Calvário e à Cruz. Os próprios discípulos não entenderam, e, usando aqui a linguagem de Paulo de Lagarde, "Ele era grande demais para morrer". Mas é exatamente na cruz e no túmulo que ele é diferente, pois, nem na cruz, nem no túmulo ficou. De muitos outros homens se pode dizer: "padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado". Mas só de Jesus se pode dizer: "ao terceiro dia ressuscitou dos mortos". E aqui nos defrontamos com algo que transcende a história do homem comum que na morte se encerra para o mundo presente. Foi difícil para os discípulos ver Jesus pendurado numa cruz. No caminho de Emaús dois deles revelam desilusão: "Pois nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel" (Lc 24.21). Será que aqui o homem se encontra só no domínio da fé, ou existe ainda algo sensível à História? Acompanhemos os dois no caminho de Emaús; sigamos a Pedro e seus companheiros retornando às lides da pesca nas praias de Tiberíades; contemplemos a desolação de algumas seguidoras à porta do túmulo; 13
  14. 14. vejamos o grupo todo disperso. Desilusão, medo, desorientação, fracasso total. Eis que algo acontece. Algo que da Galiléia leva os discípulos outra vez a Jerusalém; algo que os lança a uma atividade febril, incontida; algo que os leva a desafiar a própria morte. Isto o historiador pode verificar. O historiador não pode verificar se Jesus ressuscitou ou não. Mas pode afirmar que Pedro e os outros discípulos o viram ressurreto. Paulo não mais que vinte e cinco anos após o evento escreve: "...Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas, e, depois, aos doze. Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora, porém, alguns já dormem. Depois foi visto por Tiago, mais tarde por todos os apóstolos, e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo" (1 Co 15.3a-8). Note-se a referência paulina às testemunhas que ele conheceu pessoalmente e que ainda viviam quando ele endereça sua carta aos cristãos coríntios. Isto significa que Deus ressuscitou a Jesus de Nazaré dentre os mortos. Aquele que na cruz pregado estava, vive! Este é o testemunho claro que o Novo Testamento nos comunica. Jesus de Nazaré é o Verbo divino encarnado. Deus nele está. Sua palavra é a palavra de Deus; seus atos são os atos de Deus no mundo; sua história é a história de Deus com os homens, ou, como diz Günther Bornkamm, "Jesus é a manifestação da realidade de Deus no mundo. Nele Deus a si próprio se revela". • O ENCONTRO Paulo afirma que "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo próprio" (2 Co 5.19). Em Jesus Cristo o homem se defronta com Deus. Não há medianeiros (mediadores). É na face de Cristo e só nela que se reflete o brilho da glória de Deus (2 Co 4.6). A encarnação do Verbo Divino em Jesus de Nazaré — a vida, morte e ressurreição de Cristo — é o ponto crucial da História humana, a invasão do temporal pelo eterno. Cristo chama o homem para este encontro pessoal. Uns o encontram de maneira dramática como Paulo na estrada de Damasco; ou como Pedro, 14
  15. 15. nu, nas praias de Tiberíades; ou Zaqueu na copa de uma árvore numa praça de Jericó. Outros no silêncio de sua própria alma, quando o coração se aquece de modo inexplicável, como John Wesley naquele 24 de maio em Aldersgate. E, quando o homem ouve o chamado de Cristo, passado e futuro se dissolvem no presente através da vinda do Reino de Deus aqui e agora. Seguir a Jesus no presente significa participar com ele também do futuro. Não há para aquele que pessoalmente o encontra um interesse imediato na História, mas no hoje; não no que Jesus era, mas no que ele é, no que ele significa agora para mim, numa relação íntima, totalmente pessoal, minha, só minha. Minha confissão de fé não mais será: "Eu creio que Jesus Cristo foi concebido pelo Espírito Santo; que nasceu da virgem Maria; que sofreu sob Pôncio Pilatos; que foi crucificado, morto e sepultado; que ao terceiro dia ressuscitou dos mortos..." Mas será: "Eu creio em Jesus Cristo, o qual foi concebido pelo Espírito Santo; o qual nasceu da virgem Maria; o qual sofreu sob Pôncio Pilatos; o qual foi crucificado, morto e sepultado; o qual ao terceiro dia ressuscitou dos mortos..." Isto significa que a fé cristã não se baseia em fatos históricos, mas na própria pessoa de Jesus Cristo. Não é a fé na ressurreição, mas no Ressuscitado. A História da salvação, para Paulo, está contida na exposição que faz aos filipenses, no capítulo 2 de sua carta (6-11) que assim se lê: "Pois ele, subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai". 15
  16. 16. II – AMOR "... se eu não tiver amor, nada serei" (1Co 13.13.b) "Sempre que houver um vazio em tua vida, enche-o de amor" (Amado Nervo) . Se alguém me pedisse para definir o amor eu diria simplesmente: não sei. Sei que o amor não conhece distâncias: simplesmente ama. Não conhece altura, porém, sobe onde está o alvo de seus anseios. Não vê o abismo: simplesmente desce, desce porque ama. Não olha a cor: se negro, branco, amarelo ou azeitonado. 16
  17. 17. Simplesmente, docemente, diafanamente ama. Não há vazio para o amor: ele tudo preenche. Não conhece fronteiras: simplesmente as atravessa em busca de seus sonhos. Não cogita do feio ou belo, perfeito ou imperfeito, sadio ou enfermo, rico ou pobre, palácio ou choupana, mas terna e docemente ama. O amor não conhece aurora ou ocaso, noites escuras ou plenilúnios, pois ele é a própria luz. Não indaga do ontem, hoje ou amanhã: o amor é eterno. Não conhece Verão. Usa-lhe o brilho e o calor para fazer-se mais achegado. Não vê o passar do Outono. Simplesmente se delicia com seus frutos. Não conhece Primavera. Mas, da beleza das flores e do perfume dos vales e outeiros, enche a vida e a vida noutros transborda. Não sabe do frio Inverno, mas das neves tece o agasalho que aquece e vitaliza. Não conhece a morte: além do frio mármore ainda ama, ama sempre. Que é o amor? Não sei. Mas... Ele está nos olhos vivos, cheios de luz, inquiridores e gostosos do meu filhinho. Ele está nos passos trôpegos, incertos, falsos do velhinho que passa. Está na face do mancebo: coragem, altivez, força, grandeza, promessas... É o olhar da casta donzela: graça, pureza, doçura, atração... É a escola, o lar, a igreja, o campo, a fábrica. .. Ele é a chama que arde no altar e é o próprio altar. É a mensagem, é a Bíblia, é o ministro, é a congregação. É o sol, a lua, a via Láctea, os pássaros, os insetos, as flores, o perfume, as árvores, os horizontes, os mares, as serras, os vales, os desertos, os oásis, o imenso, o infinito, o eterno... E que mais? Tudo. O amor é indefinível, porque o amor é Deus e Deus é indefinível. Ele é infinito, absoluto, eterno. Incorpora os próprios atributos da divindade. E nisto está a sublimidade do amor, em que sendo infinito, absoluto, eterno, inatingível pela finitude humana, fez-se um de nós, finito, relativo, temporal, para que em nós e em tudo houvesse amor. Em Jesus de Nazaré a magnificência e a grandeza deste amor se manifestam em tanta glória quanto a finitude humana seja capaz de perceber. Não a glória do palácio do rei Antipas, na Galiléia, mas a que penetra os tugúrios de pecadores contumazes. 17
  18. 18. Não a luz e o esplendor dos banquetes reais, mas a mesa de leprosos e publicanos. Não os colóquios teológicos com os mestres de Jerusalém, mas à beira do poço de Jericó, com uma pecadora conhecida. Em Jericó esse amor não se agasalha na casa de um conhecido e piedoso fariseu, mas penetra os impenetráveis umbrais de Zaqueu, o traidor. Não se inebria com o perfume das grandes festas, mas recebe o ungüento e as lágrimas de uma meretriz ante os olhos pasmados de Simão. Não lhe precederam na última entrada em Jerusalém os carros de guerra, os cavalos fogosos e os clarins romanos, mas ramos e folhas de oliveira e os hosanas dos pequeninos. O evento amor não teve lugar em Roma, Alexandria ou Atenas, mas nas vielas de Nazaré da Galiléia, obscuro vilarejo, distante até do mundo. E este amor não busca os perfeitos, salvos, justos — se porventura os há — mas o pecador, o publicano, a meretriz. Inconcebível para os "escolhidos" do tempo de Jesus; inconcebível para o homem de hoje. Mas realidade gloriosa. "Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!" (Rm 11.33). "Porque eu estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem cousas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do AMOR de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 8.38-39). 18
  19. 19. III - PAZ “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.1) Dia brilhante de sol outonal. O céu azul, claro, risonho. A natureza toda em festa. O espelho azul do lago Constança, uma superfície plácida, calma, serena. Descansam essas águas na paz de um desses dias ensolarados e tão raros do Outono centro-europeu. Embora reflitam quietude e paz, não são águas neutras, estagnadas, sem vida. Por elas atravessam as águas do Reno, descendo dos Alpes suíços. Mas o lago as recebe e logo depois as devolve à sua torrente normal, sem perder o equilíbrio, a serenidade, a paz. Não deixa por isso de refletir o azul do céu, a sombra das árvores ribeirinhas, o brilho do sol, a grandeza quase indescritível dos Alpes, e de alimentar milhões de seres viventes que suas águas povoam. E, no 19
  20. 20. exercício de toda essa vitalidade e no reflexo de toda essa glória, ele mantém seu indispensável equilíbrio. Assim é a paz. Paz é sinônimo de personalidade equilibrada. É ao equilíbrio total da personalidade humana que a Bíblia chama de paz. O jovem quando ama só possui paz em seu coração, só descansa, quando sua personalidade se equilibra pela correspondência de seu amor. Sem esse equilíbrio, ele não tem paz, ainda não a conquistou, embora a busque incessantemente numa insistência muitas vezes inconsciente junto ao objeto de seus anseios. O homem antes de conhecer a Deus não tem paz. Este é o testemunho da Escritura quando afirma: "Para os ímpios não há paz" (Is 57.21). Que acontece aqui? É o desequilíbrio. Só Deus está dando de seu amor e graça. E o homem, não participando dessa transação, não se equilibra, não possui paz. O homem que não conhece a Deus, não conhece paz, porque não ama, e a paz é fruto do amor, não de amor egoísta que só recebe, mas, e principalmente, de amor altruísta, cuja máxima preocupação é dar. E é neste dar, neste contínuo oferecer-se, sem pensar em receber, que ele recebe e por isso se equilibra. Paz ou equilíbrio da personalidade é conseqüência. É corolário de grande axioma: encontro com Deus. E o fator principal deste encontro é Cristo. Ele é o fiel da balança, e só através dele pode vir ao homem o conhecimento de Deus, pois o homem só conhece a Deus através de sua revelação em Cristo. A carta aos Efésios diz que Cristo é a nossa paz (Is 2.14) e que o Evangelho que Cristo pregou foi Evangelho de paz (Is 2.17). Paulo afirma que a nossa paz é conseqüência dessa transação de amor, desse conhecimento de Deus, dessa nova relação encontrada através do que ele chama de justificação pela fé em Cristo. Nenhum balanço se estabelece quando há credores e devedores. Só há equilíbrio quando as contas são acertadas. E a dívida do pecado humano para com Deus é demasiadamente grande, e a paz só volta ao coração do homem quando sua consciência lhe testemunha esse amor perdoador de Deus em Cristo. Só assim o homem pode ter acesso à fonte perene de paz. E não é privilégio para ser gozado além e amanhã. Não. É hic et nunc — aqui e agora. Paulo afirma: "Justificados, pois, pela fé TEMOS PAZ". Basta que o homem tome por analogia suas relações com o próximo. Dificilmente dorme em paz o coração em cujo seio se abriga o ódio contra o próximo ou possui contas a acertar com seu irmão. Pode ser que o perdão humano seja móvel egoísta na tentativa de conseguir paz, equilíbrio. Tantas 20
  21. 21. e tantas vezes a fraqueza humana assim se expressa: "Perdôo, mas não quero mais relações com ele". Não é preciso dizer que este tipo de perdão não equilibra jamais as relações humanas. Deus não é assim. Seu perdão é gracioso, fruto de amor perfeito que nos amou antes que o amássemos. Nas relações Deus-homem o perdão representa o selo da aceitação do servo pelo seu Senhor. Nas relações homem-homem o perdão é uma das coisas mais sublimes que Deus tem sugerido ao homem como elemento de sua própria aproximação do Criador. E é somente quando Deus em Cristo me afirma o seu perdão e sela com sua graça o perdão que ofereço e recebo do meu próximo, que meu intranqüilo coração pode então ter paz, pode equilibrar-se. Esta relação é dialética: embora Deus seja o eterno credor — pois o homem é pecador por natureza — ele torna em Cristo nossa conta neutra, êle estabelece o balanço, realiza a síntese, concede a paz, equilibra o conturbado coração do homem, e isto é sublime, é glorioso, indescritível, incompreensível ao homem comum. Esta é a linguagem de Paulo quando ele diz que a paz de Deus excede a todo o entendimento (Fp 4.7). O homem possui paz porque aquilo que lhe faltava, Deus em Cristo lhe supriu. E nisto está a manifestação augusta do amor de Deus em Cristo. Lembre-se o homem de que antes de a si mesmo se conhecer, já Deus o amava e estava à sua espera. Evoco aqui a figura magnífica do pai na parábola de Jesus, à entrada da fazenda, olhares longos no caminho, a sofrer o amor que consagrava ao perdulário e pervertido filho. E o filho não descansou enquanto não levantou os olhos do cocho onde comia com os porcos, voltou-se para o lar e confessou-se pecador diante do pai. Conseguida a paz através dessa transação preciosa e ungida pelo apaixonado amor de Deus, o homem precisa mantê-la. Isto não está em Deus, pois, ele sempre mantém seu compromisso. Está em mim. A permanência, pois, desse equilíbrio depende única e exclusivamente da minha comunhão com o Senhor. Esta comunhão não é sinônimo de dois ou três minutos apressados de oração pela manhã ou à noite. Ela só é possível através da cruz de Cristo que situa o homem em novo mundo, com nova atitude e nova e dinâmica interpretação da vida. Comunhão com Deus é a sensação diuturna, de momento a momento, de que não estamos sós, mas que ele está conosco, fica conosco, vai conosco, permanece em nós, por nós e para nós. Não tente o homem manter esse equilíbrio através de suas ofertas ao Senhor, pois, os judeus, consoante as Crônicas e os livros de Samuel, 21
  22. 22. ofereciam até centenas de milhares de bois de uma só vez e rejeitaram o Príncipe da Paz. Nem seja sua intenção fazê-lo com seu trabalho, seus jejuns, ou com o conhecimento de toda a Bíblia. Nem mesmo seu culto, suas flores, seus círios, seu incenso, sua música, seus templos podem manter-lhe a paz. E isto por um simples motivo: é que no outro prato da balança estão seus pecados que são sempre mais pesados que todo o esforço que porventura êle seja capaz de realizar. Todos estes elementos são acessórios importantes, e sua finalidade é dar, ao coração que já possui paz, o gozo de celebrar a glória do Senhor da paz. Não é segredo que muitas vezes o homem procura, através do culto ou do serviço cristão, fugir à situação de fato em que seu atribulado coração se encontra. Conheci um cidadão que, servindo a uma das igrejas onde também eu servia como pastor, jamais faltava a qualquer reunião, inclusive às da sociedade de crianças e estava sempre uma hora ou duas antes do início de qualquer programa. Depois de algumas visitas a seu lar, fiquei sabendo que suas relações com a esposa eram tão críticas que o lar lhe era intolerável e ele se escondia então atrás do altar. Concluindo: paz é fruto de comunhão com Deus, e comunhão com Deus é prática, não gesto ou palavras ou humanos sacrifícios. E eu só conheço um caminho para o restabelecimento do equilíbrio da personalidade humana, para a realização da sua paz: Cristo. "Ele é a nossa paz..." (Ef 2.14 a). 22
  23. 23. IV – O SENTIDO DA CRUZ "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á; e, quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á. Que aproveita ao homem, ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mc 8.34-36) Dietrich Bonhoffer, mártir do Cristianismo, que se opôs a Hitler durante a segunda guerra mundial, escreveu: "Quando Cristo chama o homem, ele o desafia para vir e morrer". A morte física não é condição necessária e indispensável ao chamado 23
  24. 24. divino. Aliás, ela ocupa lugar secundário na economia desta mesma vocação, quiçá nem entra como fator de qualquer importância. Em sua primeira epístola aos coríntios Paulo escreve: "Ainda que eu entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitaria" (1Co 13.5). Se se entendesse do modo contrário, bastaria ao homem, no desempenho de seu chamado, ir ao encontro da morte e teria seu galardão conquistado. No entanto o problema não é tão simples e Jesus não seria tão inocente e cândido em equacioná-lo assim. Nem mesmo Bonhoffer, que, quando este pensamento escreveu esperava a morte a qualquer instante, quis dar significado literal e meramente material às suas palavras. Jamais. A morte física não tem significado aos olhos do Eterno se não estiver relacionada como simples parcela e incluída na soma total que relaciona outros fatores de maior e mais augusta importância. É ainda Paulo que, em 2 Co 11.23-29, enumera todos os padecimentos de seu ministério, que o levaram quase até a morte, quem escreveu: "Reputei tudo como escória para que possa ganhar a Cristo e ser achado nele" (F p3 .8 ). E aqui nos defrontamos novamente com a cruz, relacionada intimamente com o chamado neste texto de Marcos. O abraçá-la, o tomá-la sobre os ombros, sim, esta é condição indispensável e necessária para o apostolado cristão. A cruz, aqui neste convite e desafio de Jesus, não tinha o significado que sua morte lhe emprestou no Calvário, porque o significado que lhe deu o Filho de Deus nela suspenso, só ele e unicamente ele poderia dar, e só nele e por ele ela poderia receber essa conotação. Jesus não diz que a cruz de seu chamado deveria ser entendida como algo sobre o que o homem deveria morrer, na qual o discípulo deveria "perder a sua vida". Se assim fora, grande e final teria sido o mérito de milhares de inimigos indesejáveis do império romano que seus imperadores crucificaram e total o mérito de alguém que, ao lado do Cordeiro de Deus expirante, o desafia com insultos e insolências. Não. A cruz de que fala Jesus Cristo nesta passagem de Marcos e outras paralelas poderia ser levada durante a realização dos ideais do próprio Cristo, na peregrinação do homem neste mundo, no seguir a Cristo, seu Senhor. E por que não dizermos que esse tomar a cruz pode ser expresso como nova atitude pessoal, nova interpretação — consciente e inteligente — da realidade presente e futura, mas especialmente presente? Sim, pessoal, porque Jesus fala de "sua cruz", não dele, pois, a dele só ele poderia levar, como a levou, mas da minha e da sua, meu caro leitor. A cruz, o mais ilustre símbolo cristão, significa nova interpretação da vida, desde o momento em que o homem se defronta com Cristo e lhe ouve 24
  25. 25. o chamado. Nova atitude para com Deus, o Pai e Criador de todas as coisas, em nova interpretação de sua graça e seu amor que sempre estiveram voltados para o homem em eterna expectativa. É a nova posição, antes antagônica, rebelde, agora franca e amiga. Deus, o eterno desconhecido, distante, insensível, só presente nos templos, no altar; no arder dos círios ou no invocar da bênção; na feição pungente dos ídolos, ou entre as capas de grosso volume escrito numa linguagem também distante e impenetrável. Agora, "eis que tudo se fez novo". Rasgado o véu, penetra a alma no Sancta Sanctorum, fala face a face, sente-lhe a excelsitude, a grandeza infinita, a majestade, a onipotência, a santidade, mas sente-lhe também a proximidade, a "voz mansa", as mãos ternas, os passos bem chegados, o aquecer do amor: é a relação Pai-filho que se estabelece. E só há um prisma através do qual o espectro desta relação é visto em todo o esplendor multifário de um colorido de glória: é a cruz. Certo domingo à tarde visitei um orfanato da cidade onde servia como pastor. Encontrei, à entrada, um garoto de mais ou menos seis anos, todo cheio de barro, sujinho mesmo e outro mais velho, pouco mais velho, com uma mangueira de água, tentando livrá-lo da lama. Logo perguntei: "Como é que vocês estão fazendo isto?". E o que procedia à limpeza do irmãozinho logo respondeu: "O pai não está; ele foi à cidade; está longe". Assim é o universo para muitos. Procedem como se o Pai não estivesse em casa, como se ele tivesse ido à cidade vizinha, como se estivesse longe. Sentem-se em um grande orfanato, sozinhos, como filhos bastardos, aí provisoriamente adotados. É orfanato, não seu lar. E porque não é seu lar, sentem-se à vontade, livres, para desarranjar a casa, quebrar os móveis, espancar seus irmãos, destruir, destruir, até que a si próprios se destroem também. Mas a cruz dá ao homem o ensejo de interpretar o universo de modo diferente. Aquilo que antes era casa vazia, sem dono, de onde o Criador se retirara após seu feito, agora está cheio da própria Presença; agora encontrou a figura que o transforma em lar: o Pai. E Ele faz o homem sentir que não está só. Ele é a eterna, sensível, doce, gostosa Presença. A filosofia do tudo se acaba na tumba; a do "comamos e bebamos porque amanhã morreremos" não tem mais lugar, porque agora o homem, através da cruz, ressurgiu com o crucificado. Porque aquilo que me parecia eterno cemitério, onde as vítimas de falsa filosofia da criação se encerravam atrás do gélido mármore e deixavam simplesmente de existir, agora é vida, em cuja economia o mármore não tem mais cotação. 25
  26. 26. Sim, aquilo que simples, pura e mecanicamente orbitava pelos anos luz, pelo infinito sideral e se constituía num todo frio, senão mesmo vazio — simples Via Láctea, nebulosas, planetas e sóis — agora possui propósito, agora se define em termos pessoais e teológicos. Nova atitude para com o pecado. Aquilo que antes era inofensivo e moral, que não entrava em minhas cogitações quando porventura tentava situar-me no tempo e no espaço como homem, ser vivente, pensante, dotado de consciência, agora toma a forma de inimigo mortal, contra o qual a cruz me coloca em posição de permanente e irredutível combate. Nova atitude interpretativa para com a vida como um todo. Esta nova atitude encerra elementos negativos e positivos. Os elementos negativos são pura e simplesmente denominados por Cristo com frase mui breve: "a si mesmo se negue". Jesus jamais desejou que, ao tomar esta atitude, o homem se abastardasse e aniquilasse sua própria personalidade, fazendo-se eunuco ou celibatário, vestindo-se permanentemente de preto, ou fugindo para os desertos, usando cintos de espinho ou sapatos de ferro, comendo peixe ou tomando chá. Jamais esta renúncia é ainda renúncia de atitude e de interpretação viciadas. Através desta renúncia passa o homem a ver a vida em termos exclusivamente de Cristo. E aqui está o lado positivo da renúncia — por paradoxal que pareça falar-se em aspecto positivo da renúncia. Esta nova atitude interpretativa permite ao homem apossar-se de Cristo e leva-o a viver por Cristo e em Cristo, sem misticismo, mas na realidade histórica do hoje, do*agora da existência. E aqui o exemplo, bem como o ensino de Paulo, em Gl 2.20, é único. Este é o ponto crucial do problema, pois, ele não é corolário, mas tese. A mim me parece um tanto sumário, mas também se me afigura completo o quadro, quando se estabelece que ao tomar sua cruz o homem toma novas atitudes e de novo interpreta suas relações para com Deus, para com o universo onde agora existe, para com o pecador e para com a vida como um todo, Ainda como grande importe capítulo deste panorama da existência na sua relação com o Absoluto, poderíamos acrescentar as relações do homem com o seu próximo, com o samaritano da beira do caminho, para cujas relações é condição indispensável e necessária ao vocacionado uma nova atitude em função da posição assumida para com os vários itens já mencionados dentro do quadro da realidade presente em face da cruz. É que este "próximo", este "samaritano" não é mais mero número pelo qual se chama dentro do quadro da indústria ali da esquina, dente na engrenagem do capitalismo ou parcela indefinível do socialismo estatal, mas meu irmão, por quem, nessa mesma cruz, Cristo também morreu. Mas esta nova atitude para com o próximo é corolário, conseqüência da nova interpretação de Deus, do universo, do pecado e da vida como um todo; como conseqüência será nova a atitude para com o 26
  27. 27. trabalho, a família, a pátria e especificamente para com o Reino de Deus aqui representado pela Igreja de Cristo. O destaque dado acima ao pecado da visão da vida como um todo tem sua razão de ser na importância que esta parcela encerra na economia da existência e porque é olhando para o cocho onde come com os porcos, que o homem pode sentir o apelo do amor que em Deus o espera. Assim, a cruz — que para muitos tem sido o símbolo de pesado fardo e de sofrimentos físicos — pode ser equacionada como nova atitude interpretativa. Convém notar que a primeira interpretação peca contra o ensino total do Novo Testamento onde toda a ênfase é colocada em Cristo e em sua obra redentora, pois, jamais advirá qualquer mérito por sangue ou suor que o homem porventura venha a derramar depois de haver tomado sua cruz. O próprio Senhor Jesus diz algures que está pronto a levar o meu fardo, a tomar sobre si as minhas ansiedades e inquietudes, o meu cansaço e opressão. É ainda o mesmo Senhor quem ensina que por mais ansioso e angustiante que meu coração se encontre, jamais poderei acrescentar um côvado que seja à minha estatura. Poder-se-ia então concluir que a minha cruz, tomada livre e voluntariamente ao ouvir o chamado, não são meus jejuns, minhas privações, minhas chagas, minhas prisões, minhas esmolas, minhas orações, longas ou breves, a leitura da Bíblia ou a pregação do púlpito, e outros elementos que tais, mas nova atitude em face da realidade presente, e que me relaciona diretamente com o Senhor Deus onipotente. Esta nova atitude me leva a uma relação direta com o Senhor Deus onipotente. Esta nova atitude faz-me expressar como Paulo perante Agripa, quando sua própria cabeça estava pendente: "Sinto-me venturoso, ó rei..." (At 26.2). Não se tome falsamente o que diz o parágrafo anterior. Jejuns, orações, esmolas, prisões, combates e lutas, tudo faz parte da minha cruz, não como tese, mas como corolário. O v. 36 de Marcos 8 agora em foco ensina que de nada servirá uma vida inteira de sacrifícios e lutas, se não assumirmos essa nova atitude. Pois assim fazem os hindus e budistas, capazes mesmo de fabricar máquinas de oração e usam os prolongados jejuns, que fazem publicamente e com grande propaganda, e como arma política. Foi contra isso que se insurgiu Jesus todas as vezes que repelia esse religioso proceder dos fariseus do tempo. Esta nova atitude interpretativa para com a realidade presente dá novo colorido à totalidade da existência, tornando harmoniosas as relações Deus-homem em Cristo. É isto que Jesus chama de "glória" em João 17.22. É esta a herança que ele nos legou: "eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós somos um". É só neste 27
  28. 28. Evangelho que a cruz significa glória e é a contemplação desta mesma cruz que o cap. 1 v. 14 chama de glória quando diz: "...e vimos a sua glória, glória como do ungido do Pai". Esta é a interpretação que Paulo dá quando escreveu: "Longe de mim esteja gloriar-me a não ser na Cruz..." (G1 6.1 4). 28
  29. 29. V – VONTADE SOBERANA "...não se faça a minha vontade, e, sim, atua". (Lc 22.42b). Dentre as criaturas que saíram das mãos do Eterno Criador, só o homem tem a ousadia de levantar o nariz e dizer a seu Senhor: "Não serve. Eu não quero assim". Isto acontece, é claro, porque é o homem o único animal dotado de vontade, atributo que lhe foi emprestado pela própria divindade. Quis o Senhor da criação que na criatura se refletisse aquilo que em caráter absoluto caracteriza o próprio Deus: capacidade de escolha. A história humana é o registro constante de uma série de escolhas. A vontade do homem determina o destino, não só seu, mas de sua família, de sua nação e, tantas vezes, do próprio mundo. Dificilmente pensa o homem 29
  30. 30. que sua escolha atinge também seu próximo, embora só a ele cabe a responsabilidade. Mas é a história do indivíduo, na sua relação pessoal com Deus, que interessa a esta meditação. Depois que o homem pecou e foi destituído da glória de Deus, herdou, como conseqüência de seu ato volitivo, a tendência para o pecado. E é esta força gigante que lhe persegue os passos até a sepultura, e que torna a vontade de Deus sobremodo estranha a seus olhos. Não pode compreender a razão de ser, a finalidade da submissão e obediência a essa vontade. Parece impossível conhecê-la e ainda mais difícil realizá-la. É que o homem é irresistivelmente atraído pelo imediato, enquanto o plano de Deus é mais mediato. O homem se impressiona facilmente com seus próprios sentimentos e os idolatra, ao mesmo tempo que a vontade soberana lhe parece invisível, extra-sensorial. A linguagem de Hebreus (Hb 11.27b), relatando que Moisés "permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível", é paradoxal e incompreensível ao homem comum. É fácil ao homem escusar-se pela impossibilidade de o relativo conhecer, através da humana filosofia, a vontade do absoluto. E por que não dizer que o atrevimento humano leva o homem ainda mais longe, pois, através de um precário raciocínio de justificação, ele é conduzido a lançar sobre o Criador a responsabilidade de sua desobediência, ao dizer que assim o fez o Senhor, porque suas tendências são inatas e que é perfeitamente normal o permitir que a natureza se expresse, e que esta expressão não possui, por força de sua gênese, qualquer conotação ética? Mas é fácil perceber-se que tudo isto é vício de raciocínio ao qual a própria vontade humana conduz. E é neste ponto que surge também a humana indagação: "Mas qual é então a vontade de Deus? É possível ao homem conhecê-la?" Sim, o homem é capaz de conhecê-la. Não através de sua ciência ou filosofia, pois, elas só lhe revelariam o que é exclusivamente humano, mas através de Cristo, que é a manifestação mais humana que conhecemos daquilo que é divino. Ele é a encarnação da própria vontade de Deus e é nele e através dele tão-somente que o mortal pode conhecer a vontade do Eterno. Paulo foi muito feliz ao escrever que "Deus estava em Cristo" e a I Epístola de João, por sua vez, põe ênfase no fato de que também em Cristo estava "o homem". É, pois, nele, que o divino encontra o humano e o humano por um ato de vontade — concessão graciosa do próprio Criador — encontra o divino. Mas depois que o homem pela fé encontra o seu Deus em Jesus Cristo, 30
  31. 31. ele ainda é levado a indagar: "Mas como conhecer em Cristo a vontade eterna?". E a resposta é uma e única: a mesma Palavra de Deus escrita que lhe permitiu o conhecimento e o encontro com Cristo, essa mesma Palavra possui os elementos indispensáveis para que o homem também conheça o indispensável da vontade soberana. Por outro lado o contato pessoal com Cristo, através da oração da fé, traz ao coração humano a noção da vontade divina, que é identificada pela consciência do homem quando afinada pelo diapasão do Evangelho de Cristo. Há, ainda, depois do exame da Palavra de Deus escrita, a indagação do homem quando chega a alcançar pela fé, na vida e mensagem de Cristo, a vontade de seu Senhor: "É praticável na vida humana aquilo da vontade divina que Deus em Cristo nos sagrados escritos manifestou?" Ainda se há de dizer que só o homem, e só pela simples leitura e conhecimento dessa vontade em Cristo, não poderá praticá-la. Mas então será baldado todo o esforço? Não. É exatamente neste encontro do homem com Deus em Cristo que lhe vem capacidade cognitiva e poder realizador. E aqui mais uma vez é o auxílio da Escritura invocado, com o testemunho escrito de homens e mulheres que chegaram ao ponto de, pela interpretação de sua vontade com a vontade divina, escrever, como no caso de Paulo, temos a mente de Cristo" ou "Cristo vive em mim" ou como Pedro perante a suprema corte de seu país, quando ameaçado: "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens". Creio que o homem pode dialogar com o seu Deus e apresentar-lhe sua vontade. Sim, ele pode, mas sempre nos termos em que Cristo o fez: "Sê é possível...", com a necessária e indispensável conclusão: "contudo, não se faça a minha vontade, e, sim, a tua". Quantas vezes não vamos ao Senhor para consultá-lo a respeito de algo sobre o quê já tomamos nossa antecipada decisão? Nem sequer a tomamos ad referendum. Simplesmente decidimos e cometemos o erro clamoroso de, em termos de consulta, submetermos o Senhor à nossa vontade, ou pelo menos realizarmos essa tentativa atrevidíssima. Tudo o que se escreveu nesta meditação só tem sentido para o homem quando ele se apercebe da Eterna Presença no universo e particularmente em sua vida. E este sentido da Presença, esta nova atitude interpretativa, é a própria cruz de Cristo que dá. Concluindo, diríamos que só depois que o homem se encontra com Cristo e toma a sua cruz, é que ele pode conhecer em Cristo a vontade soberana, pois ele irá sentir-se num mundo ordenado com finalidade; finalidade cuja ordem o homem, que ao Senhor conhece, tem de lutar por manter, pois é a vontade soberana. É só quando o homem aprende não se achar a casa vazia, e sabe que o Senhor, o chefe da casa, está à cabeceira da mesa, que ele se porta com decência. Não porque 31
  32. 32. tenha receio dessa invisível Presença, mas porque ela lhe é preciosa. Tudo o que o homem precisa saber — repito — da vontade de Deus para realizá-la, foi revelado em Cristo. Felizes são os homens de quem o Evangelho pode dizer: "Agora eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado provêm de ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste e eles as receberam e verdadeiramente conheceram que sa- de ti, e creram que tu me enviaste" (Jo 17.7-8). OBS: Sugiro, meu caro leitor, procure recolher-se por alguns instantes aos aposentos de sua própria alma e cantar somente para seu coração ouvir o hino 270 do Hinário Evangélico. 32
  33. 33. VI - GRATIDÃO: IDEAL DE SERVIÇO "Sempre dou graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas orações, e sem cessar, recordando-nos diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé..." (1Ts 1.2 -3a). Nenhum louvor, por mais perfeito e sincero, pode jamais corresponder à bênção da vida. Ela é preciosa, tão preciosa que o coração do Pai se partiu, que as potestades celestes se abalaram, que os reinos se moveram, quando o Senhor da vida enviou seu próprio e único filho ao mundo para que por ele vivêssemos — sendo ele a própria vida. Gosto de ler a alegoria do Bom Pastor e ouvir o Evangelho dizer: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10.10b). E pouco mais à frente no mesmo Evangelho segundo João, ele diz: "Eu sou a vida (Jo 14.6). Não foi só na Encarnação que, em Jesus de Nazaré, a vida se relacionou com o Filho de Deus e, por força da encarnação, com o mundo também. O mesmo evangelista, 33
  34. 34. filosofando sobre o tema Encarnação, afirma: "A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens" (Jo 1.4). A vida do homem só pode ser apreciada através de um prisma: Cristo. Fora dele pode haver tudo, e tudo se apresentar com um arremedo de vida, levando o próprio homem a rotular esse arremedo como "vida boa". São dois mundos diferentes, antagônicos: de um lado a excelência de Cristo, de outro o mundo. Embora o mundo se apresente com todas as excelências e gozos desta imitação de vida, tudo, absolutamente tudo, conduz à morte. Tudo deve levar a Cristo, proceder de Cristo ou existir por Cristo. O próprio homem não pode existir por si próprio. É ainda o Quarto Evangelho que nos socorre aqui: "Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora..." (Jo 15.6). Este dualismo é de difícil compreensão para o homem e aparece a seus olhos como verdadeira loucura. Ele encontra no mundo aquilo que lhe excita os sentidos e o satisfaz como ser temporal, embora precariamente. E a Escritura afirma que isto não é vida. Mas ele pergunta: "Então que é vida?". E a resposta é inaceitável porque ela não lhe define os prazeres e o gozo, mas pretende atirar-lhe sobre o ombro uma cruz, que ele rejeita, porque cruz não é símbolo de gozo temporal para o homem temporal. Há, nos escritos paulinos verdadeiro grito de alma, torrente de sentimentos, quando o apóstolo tenta relacionar-se com o que ele define como vida, e que poderia escandalizar seus irmãos da Galácia, porque nesta relação Paulo (ser temporal) — Cristo (eterno), ele não pode evitar a Cruz: "Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (2.20). E, na continuação de sua lição e de seu clamor, o apóstolo dá por assentado que aqui mesmo no domínio do temporal, a cruz pode relacionar-se com o homem e outorgar-lhe vida, e oferecer-lhe gozo e prazer, gozo e prazer que, por se oporem ao gozo e prazer temporal, só se define paradoxalmente em termos da cruz: "...e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim (Gl 2.20) . Por isso a vida cristã, isto é, a vida-Cristo, só se define em termos de serviço, pois a cruz representa a maior obra jamais realizada em benefício do gênero humano e, quem a toma no sentido real de nova interpretação da realidade presente, há de gastar-se no serviço de Deus e do próximo, como expressão de sua gratidão a Deus pelo dom da vida que agora, vista pelo prisma da cruz, coloca-o em nova e privilegiada posição. Quem lê as viagens de Paulo em Atos e depois suas epístolas, tem a sensação nítida de que a agitação 'permanente de sua carreira e a soma extraordinária de serviço prestado era o corolário natural da relação com o seu Senhor que ele estabelece em Gálatas 2.20. E, quando ele se assenta para escrever aos cristãos coríntios uma carta de severa admoestação e conselhos, 34
  35. 35. define a posição cristã nestes termos: "Porque de Deus somos cooperadores" (1Co 3.9a) . Sunergoi que se traduziu em português por "cooperadores" quer dizer exatamente isto: trabalhar com alguém, servir ao lado de outro numa causa comum. A mim me parece que a maior expressão de louvor e gratidão que o homem pode endereçar a seu Senhor é o trabalho. O serviço é a definição melhor de vida em Cristo e ele representa o mais expressivo louvor a Deus pelo dom dessa mesma vida. Mas que é serviço? O ideal de serviço é o próprio Cristo. E ele nos revelou que uma das manifestações do Pai e do Filho em termos inteligíveis ao homem, é o ideal de serviço, quando afirma: "Meu Pai trabalha até agora e eu também" (Jo 5.17). Além do auto-benefício, o alvo deste ideal de serviço é o Senhor e o próximo. Esta noite tive um sonho interessante. Estava no Brasil e recebera um atestado de um médico que me havia examinado dois meses antes. Ele atestava que eu estava com uma enfermidade pertinaz e muito comum em nossos dias e que só teria seis meses de vida. Daí duas preocupações: não poderei ver meu filho crescer e fazer-se homem. E a segunda: que farei para o Senhor em termos de serviço nestes seis últimos meses de minha carreira temporal? Esta minha viagem e o tempo para meditações solitárias que ela está me oferecendo leva-me a crer que o melhor louvor não são os hinos e música que enleva, as flores no altar ou o ritual do culto (embora esses elementos sejam uma das mais refinadas expressões de louvor), mas o serviço, o serviço cristão. Acordei, depois do sonho que me pesara à noite. O sol radiante filtrava-se pelas cortinas, rendilhando em luz alguns desenhos na parede do meu quarto. Acordei para a realidade da vida que vivia. Senti meu corpo descansado e cheio de saúde. A alma se encheu da esperança gostosa de ver Paulo César, homem e cristão, servindo ao mesmo Senhor e cuidando dos interesses do Reino, e o coração transbordou de gozo pelo ensejo da continuação da vida e pela oportunidade de serviço. Voltaram-se-me os olhos para a Pátria distante e particularmente para a igreja amada que a cada um oferece graciosamente um ideal de serviço. E todas as sensações desta manhã aqui neste canto sul desta pobre Alemanha dividida (quando o texto foi escrito a Alemanha estava separada por um muro da então Alemanha Oriental), levaram-na a um denominador comum: vida. E, pelo mais precioso dos dons — a vida — oferece o ministério evangélico uma oportunidade sui generis de louvor. Não há de o ministro 35
  36. 36. trabalhar porque precisa de corresponder ao parcimonioso salário que o Concílio lhe vota, nem mesmo porque foi ordenado com a imposição das mãos do bispo, ou, no dizer das Pastorais, do "presbitério". Nem mesmo ele age, e cura, e visita, e ora, e prega, e escreve, e consola, simplesmente porque é ministro e estes são dever es do ministro. Jamais! Mil vezes não! O ministério, como outro qualquer trabalho, é privilégio. E todo o seu ideal de serviço deve ser visto sob este prisma. E a relação entre este privilégio e Aquele que o concede deve ter o curso estabelecido pelo Salmo 116.12-14. Atentando para o dom, para o chamado específico e para o ideal de serviço, tudo em termos de privilégio, deve então a alma voltar-se permanentemente para o seu Senhor em atitude de louvor contínuo, de modo que a equação louvor igual a serviço seja real. É só através desse louvor que o homem manifesta a seu Deus e Senhor a sua mais perfeita gratidão. "Porque dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém" (Rm 11.36) . 36
  37. 37. VII – A OVELHA E A LÃ "O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Ele conduz-me a pastos verdejantes..." (Sl 23.1-2). O piedoso pastor alemão Christoph Blumhardt escreveu algures: "Ensinamos aos nossos filhos esta frase: "Porque eu sou Cordeirinho de Jesus, ele me conduz a pastos verdejantes". Eu digo não. Porque vós sois ovelhas de Jesus, vós tendes lã, e a lã deve ser tosquiada. Ninguém possui ovelhas por causa das pastagens, mas por causa da lã!" 37
  38. 38. Vezes sem conta vamos ao púlpito para oferecer, em nome de Cristo, um céu além das nuvens e das estrelas, onde a música de divinas harpas, o perfume inebriante de etéreas flores, o brilho ofuscante de preciosas gemas, a gloriosa luz e a numinosa Presença, tornam os eternos páramos um lugar de suspense como nos contos de fada; oferecer vida de prosperidade material que necessariamente advirá da conversão, e todos os demais benefícios da vida na comunidade dos crentes que são pintados com cores vivas e atraentes. Alguns pregadores há que fazem da conversão verdadeiros hospitais, prometendo saúde física aos que ingressam na fé que anunciam. Tudo, tudo à moda das modernas agências de publicidade que descrevem em caracteres gigantes os benefícios da oferta e, no rodapé, com invisíveis asteriscos, em reduzido número de palavras, as obrigações e os preços. Falamos e aceitamos os privilégios do Salmo 23: pastos verdejantes, alimento abundante, águas tranqüilas, frescas, cristalinas, descanso, sossego, paz; nenhum esforço, nenhum trabalho, pois até a mesa está posta pelo Senhor; nenhuma preocupação com a senda a seguir, pois o guia é o Senhor, não há inimigos a temer, pois, na sua presença e para seu testemunho, o Senhor prepara a minha mesa. Enfim, só privilégios, privilégios e mais privilégios! O Evangelho de Cristo não é só a alegoria do Bom Pastor. É também a cruz. Nestas meditações se definiu a cruz como nova atitude interpretativa. E como relacionar a cruz com a minha condição de membro da Igreja, minha condição de ovelha? É a cruz que me permite definir (e quem sabe reinterpretar) minha condição de ovelha. A ovelha não existe por causa das pastagens verdejantes; pelo contrário, a ovelha existe porque possui lã, e a lã deve ser tosquiada. Nenhum pastor compraria ovelhas porque possui pastagens, mas possui pastagens porque tem ovelhas. O importante não são as pastagens, e sim a lã. Todavia, não se menosprezem as pastagens, pois elas existem por causa das ovelhas e sem as pastagens as ovelhas pereceriam. A ovelha, porém, só existe por causa da lã. Nosso ensino a nossos filhos cria-lhes na mente um conceito de Deus como um Pai de amor cujo regaço cheio de bênçãos não tem lugar para qualquer ideal de serviço da parte do homem. Ele fez tudo, tudo. Ninguém se admire de que nossos filhos dele se afastem e mesmo contra ele blasfemem, quando não lhes vem, na hora desejada, o imediato socorro. Eles foram preparados para tão-somente receber; jamais para oferecer a lã à tosquia. 38
  39. 39. Aliás, a ovelha que não se submete à tosquia não vive vida tão longa, nem goza de saúde igual à que é tosquiada regularmente. E, quanto mais a ovelha é tosquiada, mais depressa lhe cresce a lã e melhor se torna. A Igreja de Cristo não é um banco onde o Senhor deposita seu ouro e do qual usamos e abusamos. Ela é o banco onde fazemos irreversíveis depósitos. Jesus nos conta que o samaritano usou seu azeite, seu vinho, sua cavalgadura, seu dinheiro, seu crédito na hospedaria, sem falar, no entanto, que o infeliz assaltado recebeu a conta pelos gastos e serviços prestados. Vamos ao culto porque apreciamos o coro e o solista da noite; porque o pregador é nome conhecido nos púlpitos evangélicos; porque a organista, num belo e moderno órgão eletrônico, produz música que enleva; porque nossos amigos lá estarão e nós os veremos e nos deleitaremos com o encontro; porque é hora de distração das preocupações e anseios da nossa carne (vida); porque nosso nome está no rol e haverá, embora velada, alguma censura pela nossa ausência; porque precisamos ser exemplo para nossos filhos que crescem... Nossa lã? Não. O Senhor é rico e dela não precisa. Afinal de contas ele no-Ia deu como único agasalho e o inverno está às portas. Não é de se estranhar que o ateísmo comunista, que se propõe a oferecer ainda mais lã, tem absorvido milhões de cristãos acostumados só a receber. A tosquia é símbolo de serviço. Já definimos gratidão como o ideal de serviço. Deste modo a oferta de nossa lã seria o nosso culto de gratidão ao Senhor. E este culto de gratidão é a demonstração pública de que o Senhor beneficia seu povo e, embora este povo não exista por causa desses benefícios, ele os tem, não em troca da lã que oferta, mas como natural conseqüência do amor do Grande Pastor das ovelhas. É como o quadro de certo grande pintor, onde aparece o pastor, não de cajado em punho para a defesa do rebanho e a mão sobre a cabeça da ovelha a acariciá-la, mas a figura terna da ovelha a roçar-lhe meigamente o manto em atitude de amor e gratidão. Embora o homem receba (porque o dar é próprio da generosa natureza divina), Deus não chama o homem para receber, mas para dar. E não se confunda esta oferta, esta consagração em termos de dois ou três quilos de lã. Ela é representada pela atitude ofertante do homem, mais do que pela própria lã que porventura ele ofereça. E aqui não haveria melhor ilustração do que a referência que Jesus fez à oferta da viúva pobre. E por que não dizermos que nenhum pastor é proprietário só da lã, mas de toda a ovelha? Assim é o homem: com a entrega de sua lã, entrega todo o seu ser. E ele passará a viver em termos de oferta e apropriação total da parte de seu Senhor. 39
  40. 40. A lã não representa paga de qualquer espécie aos cuidados sem preço do pastor, como o serviço cristão não é retribuição ao sacrifício do Supremo Pastor por seu rebanho, pois este é gratuito, gracioso. Que lã pagaria os cuidados e as vigílias, as montanhas e os vales, os desfiladeiros e os abismos percorridos pelo pastor em busca da ovelha perdida? E mais: o pastor não percorre campos e montes ou desce abismos em busca de meio quilo de lã, mas em busca da ovelha. A ovelha não oferece também somente o peso de sua lã, mas a própria vida que está íntima e indissolüvelmente associada com a lã que dela nasce e cresce sem cessar. Mas o elemento mais ilustre nesta sublime transação não é propriamente a relação lã-pastagens, mas a relação pastor-ovelha. Esta é uma relação pessoal em termos mui expressivos como consagrados pela palavra do próprio Bom-pastor: "Eu sou o bom pastor: conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim" (Jo 10:14). É nesta relação pessoal que a ovelha sente transbordante gozo em trazer sua lã e o Supremo Pastor a alegria de ser seu pastor. Deixando de lado qualquer idéia mística que porventura Galatas 2.20 possa encerrar, gostaria que esta meditação fosse selada com esse augusto texto de Paulo, como o ideal nas relações ovelha-pastor: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim". E então o Salmo 23 pode concluir: "O meu cálix transborda". 40
  41. 41. VIII - COMPANHEIRISMO "Então designou doze -para estarem com ele..." (Mc 3.14) Companheirismo... Este é um dos mais acentuados instintos humanos. O homem é ser gregário por excelência. Não gosta de estar só. Isola-se somente por aberração mental ou por força de castigo a cumprir e, por que não dizer, por aberração espiritual também, como no caso dos ascetas? O companheirismo exerce no homem uma ação purificadora de alta classe. É tão bom quando temos alguém a quem contar as lutas e fracassos que se escondem no porão de nossa alma, em canto escuro, receosos de revelação! E que alívio quando do companheiro ou companheira flui a palavra de conforto, de estímulo e, às vezes, até mesmo de perdão, perdão diferente, antecipado, que, antes mesmo que o coração se dobre ansioso, já se sente aliviado! E, como se sente venturoso o homem quando pode 41
  42. 42. partilhar com alguém que lhe conhece a alma e a quem ele ama os mais recônditos segredos! Ganha a vida assim partilhada um quê indefinido e gostoso, uma esotérica compreensão de destinos comuns. E não é só na ansiedade, na luta, na dor, ou guardando pecado recôndito e indesejável que o homem aprecia a companhia de alguém. Quão bom e salutar é dividirmos também com os outros nossas vitórias, os triunfos vários que a vida alegremente nos traz! Também isto exerce na personalidade humana efeito salutar, renovador até mesmo terapêutico. Confidenciarmos as vitórias, o gozo da alma; contarmos a alguém de um coração ensolarado, um ser no qual raiou nova luz, nova aurora; falar de obstáculos transpostos e da conquista do ontem, tudo contribui para o aprimoramento do caráter de quem testemunha e para encorajamento do companheiro confidente. Evite o orgulho, e egoísmo, o ensimesmar-se de um convencimento patológico, que pode gerar enfermidade fatal ao coração. É por isso que os poetas escrevem e repartem o divino estro, é por isso que o compositor deixa nas pautas metade da alma a transbordar a celeste música; é por isso que você e eu sentimos gozo indizível no companheirismo que nos permite, não só derramar o fel, mas também quebrar o vaso de alabastro, derramar o perfume, inebriar a vida toda de encantos mil. E por que não dizer que é no instinto gregário que os outros dois grandes e poderosos instintos da raça — o sexual e o religioso — encontram expressão própria? Não nos esqueçamos jamais de que nossa reação pessoal em face da realidade da vida perante aqueles com quem palmilhamos a mesma vereda pode determinar-lhes a felicidade ou a desventura do viver. Jesus Cristo conhecia todas estas coisas. Ele mesmo sabia que, homem como era, embora divino, precisava também da companhia dos homens e sem ela sua obra estaria condenada e sua própria estada entre os homens — sua vida — sofreria muito. Marcos, o mais antigo dos evangelhos, cuja tradição está mais próxima da fonte, registra um traço particular do chamado dos doze que nenhum dos outros evangelhos o faz. Antes de chamar os discípulos para pregarem ou, no trabalho pessoal ser, na linguagem do Mestre, "pescadores de homens"; antes de comissioná-los para a divina missão de cooperadores do Reino; antes de torná-los continuadores da obra que se inaugura com a Encarnação, Jesus os chama — diz Marcos — "para estarem com ele". Só depois o Senhor acrescentou:...." e para os enviar a pregar". Sentia Jesus, como você e eu, a necessidade do companheirismo. Jamais se isolou, a não ser para momentos de comunhão com o Pai. E, uma das lutas de seu ministério foi por tornar o grupo de companheiros capaz de entender sua missão e com ele sofrer os desapontamentos da carreira, como também 42
  43. 43. com ele exultar quando ramos e flores fossem colocados sob os pés do jumentinho que transportava o Senhor na entrada triunfal. Quando Jesus vai ao Getsêmane e leva consigo três companheiros, deixa-os vigiar com ele na hora mais angustiante de sua divina peregrinação, sofre por três vezes o desapontamento de ter sido deixado a sofrer sozinho. E sua angústia, que poderia ter sido aliviada pelo companheirismo, aumenta a solidão no horto. E suas próprias palavras revelam o desengano de seu grande e amorável coração: "Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo?" (Mt 26.40b). Parece que vejo a desilusão com os companheiros estampada na fronte augusta do Mestre, quando ouço suas palavras: "Ainda dormis e repousais! Eis que é chegada a hora, e o filho do homem está sendo entregue nas mãos de pecadores" (Mt 26.45). O Quarto Evangelho (cap. 17) registra uma oração de Jesus, pouco antes de oferecer-se em holocausto pelos seus. Nesta oração, o motivo principal é o louvor ao Pai pelos companheiros que ele teve durante seu ministério e a intercessão insistente junto a Deus, pelo cuidado divino para com os companheiros que ficavam, a quem o Senhor Jesus havia transmitido as lutas e as peregrinações que sofrerá, mas também em cujos corações deixava o Mestre os segredos do Reino que do Pai recebera. Deixava mais: deixava a própria glória com que Deus revestiu a Encarnação de seu Filho: "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado..." (Jo 17.22a). Que companheiro sublime! Assim foi Jesus. Chamou os doze, não primeiramente para assessorá-los nos trabalhos da Causa; não tão-somente para organizarem a manutenção do sacro colégio; não primeiramente para pregar e anunciar a chegada do Reino; não necessariamente para fundarem uma igreja; não somente para aprenderem a curar pela fé, nem mesmo para qualquer grande empreendimento social. O Senhor Jesus os chama primeiramente para a mais augusta tarefa que jamais se confiou a um mortal qualquer. Chamou-os "para estarem com ele". Ainda hoje Jesus Cristo, o Senhor anda pelas ruas da minha cidade; pelos trilhos intérminos do campo onde cultivo o meu trigo e apascento o meu rebanho; pelos corredores da minha escola; por entre as máquinas barulhentas da minha oficina; entre os negócios do meu escritório; pelas praias, pelas montanhas, pelos prados, pelos vales, por onde quer que eu vá, convidando-me "para estar com ele". E, se porventura a nau está em perigo, prestes a soçobrar, tais as lutas e as angústias, os ventos, e a fúria do mar, pode o homem sentir a 43
  44. 44. mesma experiência daquele pequeno grupo vencido quando Jesus "subiu para o barco para estar com eles, e o vento cessou" (Mc 6.51). Dobro meus joelhos no silêncio reverente da minha alma; curvo minha fronte diante da majestade do convite. E, no lusco-fusco da noite que desce sobre minha aldeia, murmuram, trêmulos, meus lábios: "Fica, porque é tarde e o dia já declina" (Lc 24.29a). E não há conforto maior para o coração abatido, nem participação mais querida para a alma exultante de gozo, do que o registro de Lucas logo, como segue: "E ele entrou para ficar com eles" (Lc 24.29b). 44
  45. 45. IX – O TEMPO "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente" (Hb 13.8). Há na vida do homem um marco natural, depois do qual ele passa a viver do passado. Parece que a visão do fim de todo mortal lhe constrange os olhos da alma os quais se voltam para águas quietas ou agitadas que por eles passaram e que agora correm inexoravelmente para o mar. Encontrei há algumas semanas, ao sol do meio-dia, um casal de velhinhos. Deviam ter, asseguro, mais de sessenta, quem sabe setenta anos. Vi as rugas que lhes vinculavam as faces, os cabelos encanecidos, de pés incertos e as mãos trêmulas que se juntavam numa expressão feliz de companheirismo sadio. Atentei cuidadosamente para os olhos de ambos com indiscrição de pasmar e pude ler-lhes os segredos e os colóquios daquele dia tão claro e cheio de futuro. 45
  46. 46. Um dia, crianças; depois jovens a correr pelas ruas desta pequena cidade do sul da Alemanha — Radolfzell — a colher dos frutos nativos desta terra amiga e a vadear, receosos, pelas praias pedregosas do lago Constança. Depois o encontro: olhares roubados, discretos, depois diretos, quentes, promissores. Então o altar, as flores, a música, os conselhos do ministro, a unção celeste. Daí o lar, o sol do Verão e a neve do Inverno, os janeiros e os dezembros, os planos realizados e os castelos sem conclusão. A chegada dos filhos, a ventura de vê-los crescer, percorrer os mesmos prados e montes, as mesmas ruas e praças e a repetir o mesmo e intérmino ciclo de seu soberbo destino. Só depois que os netos já amadureciam para a repetição terceira do ciclo, é que eles acordaram do sonho, postaram-se na colina cortada pelo caminho, a contemplar a jornada vivida, os ideais atingidos, os meio-atingidos e os jamais alcançados. A palavra mais comum daquele colóquio de lustros e decênios era certamente "lembrança". "Lembras-te, querida?..." É bom viver o passado. Recordar as bênçãos, contar as vitórias e cantar bem alto os aleluias da alma pelo que o Senhor tem feito por nós. Mas só assim. Só quando com Ele andamos passo a passo a caminhada é que convém recordar. Sim, recordar as múltiplas vezes que conosco Ele se assentou à beira do poço e nos serviu da Água Viva; as vezes inúmeras que, atravessando os maduros trigais da velha Palestina, Ele mesmo colheu o trigo e, do Pão da Vida, se encheu nosso regaço. E outras tantas, inúmeras, incontáveis, quando Ele nos clareou o rumo com a Luz do Mundo e nos deu sabor à existência com o Sal da Terra. Sim, é bom recordar; recordar que Ele viveu conosco peregrinou a mesma estrada e que as suas foram as nossas experiências. E eu vi nos olhos do casal de velhinhos o palco no qual se dramatizavam um passado. Naquele instante eles viviam além, nos bastidores. Viviam de saudades, da lembrança do passado. Parece que cumpriam a profecia dos versos de Guilherme de Almeida: “E quando eu passar e tu passares, Hão de seguir-nos todos os olhares, E debruçar-se as flores nos barrancos.” Foi outro encontro, no entanto, que me inspirou esta página. Outro par, momentos depois, no mesmo dia ensolarado e belo. E, quando os vi, parei discretamente para lhes observar a passagem e ver-lhes a luz, então discreta, que jorrava através das janelas da alma, já que além, além das cortinas, na azáfama ou no sossego dos bastidores, só penetra o Senhor do espetáculo. 46
  47. 47. Eram jovens, bem jovens. Creio que dezesseis ou dezessete anos lhes seria marcar demasiado longe a jornada. Não se davam as mãos, contentando-se somente com o ruflar discreto, de quando em quando, da blusa de lã nos braços nus do companheiro, e ela a sentir a pele juvenil a roçar na lã que compunha a blusa jogada sobre os ombros, no caminho de casa. Vinham da escola e era a hora da refeição do meio-dia. Os passos, tão lerdos, revelavam desinteresse pelo alimento físico que os aguardava. Cabelos doirados, olhos azuis, vivos, inquiridores, mas, sobretudo esperançosos. Pés vagarosos, mas firmes, pisando como quem inicia a jornada, acompanhados que eram pelos olhos, freqüentemente, como a querer livrá-los das urzes da jornada. Não. Aquele casal não tinha preocupação nenhuma com o passado. Os olhos juvenis, de um vivo de fogo, estavam postos no futuro, para o qual os passos vagarosos os conduziam então. Ali tudo era amanhã, depois de amanhã, futuro imenso, intérmino para aquela juventude a florir. Não havia preocupação com o que antes se passara nos bastidores. Agora estavam no palco e deviam representar bem o seu papel. A preocupação era com o êxito futuro da peça e não com a renda da bilheteria de ontem. Da esquina da rua onde moro, passo a contemplá-los, agora mais à distância, na outra esquina, sempre avançando, rumo ao futuro. Que conversam eles? Não sei. Só sei que falavam do futuro. Quais eram seus sonhos? Não sei. Sei tão-somente que eram futuros. Para onde seus passos os conduziam? Não sei. Sei que para o amanhã. Mas em seus corações os mesmos anseios, os mesmos sonhos. Aquecem-se as mãos ao darem-se à vida em comum. Flores, perfumes, grinaldas, música. O altar, o ministro, o ritual, bênção, festa, lua-de-mel. Lar, filhos, amigos, Primavera, Outono, mas tudo no futuro, futuro para o qual não convém correr; para o qual se deve caminhar devagar, seguro, confiante. Mas todo esse amanhã imenso, gostoso, perto ou distante; todas as flores, os perfumes, a música ou o altar, nenhum significado têm senão relacionados com o Senhor do futuro, Jesus Cristo, Deus Conosco. Se ele não for junto, pouco se ouvirá da música, do perfume só lima parte mui pequena, das flores e dos pássaros o encanto é quase nada; a própria luz do sol não terá pleno brilho, a água não matará completamente a sede, nem 47
  48. 48. o pão saciará de todo a fome. Conheço alguém em quem passado e futuro se reúnem em eterno presente: Cristo. Passado e futuro só possuem significado em termos do presente. A vida crista se traduz menos em termos de saudade e esperanças: compõe-se de amor e o amor, embora possua ligações com o passado e futuro, é o agora da vida. O passado fornece lições para as vitórias do porvir, cuja urdidura se encontra no agora da existência. A saudade e a esperança possuem conotação temporal: jamais o amor. Ele se realiza plenamente numa esfera extra-temporal. É curioso verificar-se nos evangelhos que Jesus Cristo jamais disse ao paralítico suplicante: "Procure-me amanhã". Nem tampouco quis o Filho de Deus saber se os cegos aos quais restaurou a vista haviam contemplado ontem belas auroras ou vésperas cheias de luz e poesia. Não. Ele simplesmente viveu o seu presente de amor: curou-os. Há duas parábolas nas quais Jesus vive, em sua narrativa, esta realidade presente. Quando o samaritano encontrou o pobre judeu dilapidado e sofrendo à beira do caminho, não lhe pediu esperasse um pouco ou lhe indagou do acontecido de ontem. "Pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele" (Lucas 10:34). Esta é a linguagem do agora. Quando o filho pródigo se descobre miserável e distante do pai, não diz: "Amanhã irei ter com meu pai", mas "levantar-me-ei e irei ter com meu pai... e levantando-se, foi para seu pai" (Lc 15.18a, 20a). Não há nestas páginas lição que nos queira alienar da realidade histórica, temporal. Jamais, pois o homem é ser temporal e a vida possui na realidade estas três dimensões: passado, presente e futuro. Há, sim um brado que visa acordar os saudosistas e despertar os visionários. Há o propósito de chamar a atenção para a urgência do presente, de modo que a vida do agora, na exuberância do amor que de Cristo promana, seja vivida com tal intensidade que o passado não perca seu significado, nem o futuro seu sabor de espera. É cristão trabalhar e pensar no futuro, pois, no dizer de Paulo, esperamos a volta do Senhor. É, no entanto, iníquo absorver de tal modo o presente nesta expectativa, que a vida perca sua realidade atual e se torne na angústia ou no enfado do amanhã. É bom recordar, é justo usar as experiências de ontem para os bons êxitos de hoje. É, no entanto, iníquo roubar ao presente suas possibilidades criadoras, através de uma absorção desusada no passado. Há uma indecifrável urgência de vivermos o agora em Cristo, o hoje do 48
  49. 49. amor, na certeza gostosa de que tanto a saudade quanto a esperança lhe pertencem. Bem aventurado o homem que pode ver o passado como o resultado de alguns anos de vida em comum com aquele que é o Senhor do passado. Venturoso o homem que pode lançar seus olhares para o futuro e permitir, como no caminho de Emaús, que Jesus vá com ele em demanda do amanhã. Feliz é o homem que no agora em Cristo pode sentir saudades do ontem com ele, e prosseguir sereno, para o amanhã da fé. 49
  50. 50. X – O ENCONTRO "Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei e irei ter com meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou e, compadecido dele, correndo, o abraçou e o beijou". (Lc 15.17-20). Jovem, cheio de vida, vestido suntuosamente, na posse da herança, levanta a fronte, volta as costas ao velho pai, e parte. Parte para o desconhecido, "para uma terra distante". E, lá, dissipa seus bens: vive dissolutamente. E quando o ouro se acaba, todos o abandonam e, na linguagem da Escritura, é expulso do jardim em cuja entrada se ai teia a espada flame jante. 50
  51. 51. Então o campo é seu mundo. Os porcos seus amigos. Numa estrebaria o leito encontra, e, no cocho entre o rosnar dos suínos, o seu pão. Por vestes, andrajos. O corpo e a alma no meretrício se corromperam. Nos olhos a chama se apagara e nos dedos não mais se achava o anel de herdeiro. Este é o drama do homem. Quantos se encontram hoje numa destas duas fases: dissipando seus bens, vivendo dissolutamente, no gozo e prazeres do mundo, ou já no segundo estágio, a apascentar porcos, com eles vivendo, com eles dormindo, e no seu cocho se alimentando cada dia, desnutridos, sem esperança, vencidos! Poucos homens sabem que não foram criados para o cocho a quem têm descido, porque assim o escolheram. Uns mais próximos dos porcos, outros mais longe; uns descem mais, outros menos; uns comem em pequenos, outros em largos, avantajados cochos, onde tentam enlamear ainda mais a própria face que deveria refulgir a imagem do Criador. Mais próximos ou menos próximos dos porcos, uma coisa é certa: "Todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm 3.23). Também nem todos os homens sabem que lá de onde vieram, à entrada da fazenda, olhos incessantemente postos no caminho, braços amoràvelmente abertos, lábios onde há sempre a palavra de perdão e bênção, espera o pai, velando em noites longas e por dias inteiros, na esperança do retorno do filho que partira. O texto de Lucas 15.11-32 encerra a mais notável dentre as notáveis parábolas de Jesus. Seu foco não é o filho que parte rico e volta seminu, faminto, corrompido, desgraçado; não são os protestos e os reclamos do irmão que ficara fiel no seu trabalho; não é a festa, o banque, a música, as danças. Não. A figura central nesta parábola é a do Pai, cujo amor perfeito baixou a este mundo e, em Cristo, incessantemente busca e encontra o homem pecador. É esse mesmo Deus-em-Cristo que dá ao homem forças para que ele possa levantar-se e partir. Mas é preciso que o homem queira, que simplesmente deseje. Parece que vejo aquele miserável rapaz da parábola, assentado, desiludido, olhos baixos, a vigiar o rebanho que passeia. De repente seus olhos se inflamam, seu coração se aquece, sua fronte se ergue e ele tem uma visão do velho pai a esperá-lo ao longe. Mas não fica só na visão, no êxtase e na glória daquele momento de contemplação. Ele diz a si próprio: "Levantar-me-ei e irei ter com meu pai". Isto não é futuro, não é amanhã, não é depois. Isto é agora, é presente, é já, pois a narrativa continua: "E, levantando-se, foi para seu pai". 51
  52. 52. Foi como estava: sujo, seminu, descalço, faminto, carregado de pecados e de dores. Não partiu arrogante para discutir com o pai os direitos que porventura lhe restassem. Não. Humilde, reconhecendo o abismo em que naufragara, se propõe a confessar: "Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores". Vestes novas, anel no dedo e sandália nos pés. Regozijo, festa na fazenda. Isto acontecerá, meu caro leitor, a todo homem que se descobre no cocho, entre os porcos, miserável, pecador e se propõe a regressar ao lar e confessar-se culpado diante do Pai, apelando para sua misericórdia em Cristo. "Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou e o beijou". Não existe no céu nem na terra outra cena mais comovedora do que esta. Não há linguagem humana que outro quadro mais augusto descrever possa. É o encontro do infinito com o finito; é o encontro do amor de Deus com a miséria e o pecado humano. Ele o espera. Não à distância, no além, no desconhecido. Mas aqui, a seu lado; e, se você estender a mão, simplesmente estendê-la, ele o abraçará e o beijará, no dizer da parábola de Jesus. Ele o espera. Não amanhã, no próximo domingo, no ano vindouro, no futuro. Ele o espera agora, já. Tome o alforje; arranje melhor os andrajos de modo a velar mais discretamente a nudez moral em que se encontra; curve a fronte em atitude de súplica e parta. Volte ao lar. Basta que seu coração queira e na intimidade de sua alma, diante do Espírito Divino, haja lugar para a decisão: "Levantar-me-ei e irei ter com meu pai". • DEPOIS DO ENCONTRO O "fato Cristo" acontecido na vida do homem não o isola de outros homens que não conhecem a Cristo. Aproxima-o, é verdade, de outros integrados em Cristo e apenas distancia-se espiritualmente dos que ainda não retornaram a Deus. Deste modo o "homem em Cristo", como Paulo denomina os cristãos, não pode abstrair sua condição de sócio. Ele continua relacionado com a mesma sociedade de antes do Encontro com seu Salvador. A diferença está em que agora ele assumiu sérias 52
  53. 53. responsabilidades para com o mundo em que vive. Antes ele o contemplava sendo ele próprio parte integrante do mundo. Agora ele o vê através do prisma do Evangelho, dos olhos de Jesus Cristo, seu Senhor, estando no mundo, mas a ele não pertencendo (Jo 17). E qual o colorido que a luz de seus olhos humanos (mas em Cristo) projeta através do prisma Cristo sobre esse mundo no qual ele vive, sem, contudo, lhe pertencer? A eterna soberania de Deus torna-se realidade. Deus não é somente aquele ser distante, que manda chuva e sol sobre a terra e a faz tremer de vez em quando. Não é o ser divino para o qual se apela em horas de aperturas, mas o Deus pessoal que em Jesus de Nazaré o encontrou e nele fez morada, e cuja vontade, por mais estranha e difícil que pareça, deve realizar-se na vida do novo homem, mesmo que incompreendida. Já um santo do passado dizia: "Senhor, tu me esmagas; mas basta saber que é a tua vontade." Os outros seres humanos já não são meras peças do mecanismo social. Agora estão mais chegados, são o seu próximo. E qual é a atitude do novo homem para com o próximo? Ele possui os mesmos direitos perante Deus, perante o Estado e diante de outros homens. E, por mais estranha que pareça a lição de Cristo, ele deve entrar primeiro pela porta, deve sentar-se à sua frente no banquete. E, porque ele é o seu próximo, não pode ser motivo de exploração pessoal. Ele tem direito a uma vida digna; ele também deve participar do pão. A urgência do testemunho é outra incumbência do novo estado do homem depois do Encontro. Seu amor a Deus e sua responsabilidade para com o próximo levam-no a anunciar-lhe a possibilidade de ele mesmo vir a encontrar-se com Cristo. Este não é um anúncio que se faça à maneira de simples propaganda comercial. Ele tem dois aspectos: o primeiro é a apresentação de Cristo como o caminho que leva o homem a Deus; o segundo é o anúncio do julgamento de Deus pendente sobre o homem na sua condição de rebelde, de distanciado de Deus. Este anúncio é profético, tendo a Palavra de Deus como instrumento, mas também é existencial e pode ser distinguido pelo homem comum através do brilho da glória de Cristo na face do novo homem em seu testemunho na vida de cada dia. Este não é um brilho utópico e luminoso como a fictícia auréola dos santos. É revelado em termos de vida e vida abundante em Cristo. Também não é exercício humano, mas é o novo estado do homem em Cristo, de quem vem a graça e o poder para o testemunho. 53
  54. 54. Há aspectos deste testemunho diário que o homem não expressa senão através da Igreja de Cristo, que não se confunde com nenhuma denominação evangélica, embora estas sejam expressões daquela. Este testemunho também se expressa na relação do homem com o Estado, em termos de obediência e tributos, até ao ponto em que o Estado não interfira em sua nova relação com Cristo. O novo homem olha para os bens do mundo como instrumentos de seu testemunho cristão e não como elemento de opressão do próximo ou da sociedade, ou alimento para seu orgulho ou degradação moral como no caso do rico insensato da parábola de Jesus, segundo Lucas (12.16-21). Nem ao Estado atribui ele o direito de ser o proprietário de todos os bens e deles dispor para seu fortalecimento político e opressão humana. Os bens materiais existem para o bem do homem e do seu próximo e não para instrumento de seu pecado. O novo homem possui nova conceituação da família, onde esposa e filhos são familiares e não objetos de satisfação de seus desejos. Depois do encontro com Cristo o homem é membro do Reino de Deus, vivendo agora no mundo por sua graça e da esperança futura de sua redenção final. As relações do novo homem com o mundo não são mundanas, porque ele não mais lhe pertence. Elas são divinas. E ele já não forma uma unidade com o mundo, mas com Cristo e esta unidade estreita-se cada vez mais até à exclamação paulina: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim" (Gl 2.20). 54
  55. 55. LIVROS DO MESMO AUTOR PROBLEMAS DE UMA IGREJA LOCAL Publicação da Associação Acadêmica "João Wesley", 1962. A PERSONALIDADE VIVA DE PAULO Publicação da Associação Acadêmica "João Wesley", 1964. O NOVO TESTAMENTO: Cânon — Língua — Texto Publicação da Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos — ASTE — 1965. IMPRENSA METODISTA 55

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