SERMÃO
O MAIOR MANDAMENTO
INTRODUÇÃO
Vivemos um tempo em que se fala muito em ÉTICA ou
sobre a falta dela. Quem sabe uma das expressões que mais
ouvimos nos últimos tempos seja QUEBRA DE DECORO.
Uma das definições de DECORO é BELEZA MORAL.
Pierre Reverdy, poeta francês falecido em 1960, apresenta
uma definição simples e muito interessante: A ética é a
estética de dentro.
Podemos dizer que uma pessoa ética é aquela que vive,
age, se relaciona de forma bela. É a beleza de dentro. Por
exemplo, quando nossos pais e avós diziam: que coisa feia
menino. Eles não estavam se referindo à nossa aparência
exterior, mas sim ao nosso interior. Não falavam da
ESTÉTICA, mas sim da ÉTICA.
Os dicionários nos ajudam a entender uma pouco mais o
significado da palavra ética através dos sinônimos: virtude,
retidão, brio, respeitabilidade, nobreza, dignidade,
honestidade, honradez, integridade, honra, probidade,
seriedade, lisura, decência...
Gostaria de destacar a palavra DECENTE. Na composição de
muitas palavras em língua portuguesa utilizamos prefixos
latinos e gregos. Por exemplo: DOCente, DISCente e
DECente. DOC, DISC e DEC.
DOCente... quem leva ou conduz
DISCente... quem é levado ou conduzido
DECente... quem embeleza (torna belo)
Existem pessoas que imaginam que ÉTICA seja uma tabela
de comportamentos aceitáveis ou não aceitáveis, corretos
ou incorretos, certos ou errados, toleráveis ou intoleráveis.
Dentro dessa leitura baseada no imaginário popular (senso
comum), alguém que se propusesse a dialogar sobre ética,
deveria trazer esta imensa lista no bolso, pois para cada
ação ele iria apresentar a resposta se era certo/ético ou
errado/não-ético. Partindo dessa visão, existiria uma tabela
pronta que conteria todas as respostas para todas as
perguntas.
Por exemplo: estava ministrando aula em um curso e uma
irmã inflamada me perguntou diretamente (na bucha):
pastor é certo (ético) utilizar o celular para ler a bíblia na
hora do culto?... Minha resposta foi...
Ética não é decorar uma listra de certo e errado. Alguém
que se propõem refletir sobre ética tem muito menos
certezas do que uma lista de certo ou errado.
Uma categorização prévia sobre qualquer conduta seria
uma forma de escravidão, pois não teríamos a liberdade de
escolha e seguiríamos a tabela pronta.
Logo não necessitaríamos refletir sobre qual a melhor
maneira de agir em determinados momentos. Seria uma
forma de autoritarismo ao qual deveríamos nos submeter,
para respondermos corretamente ao que se espera de nós.
Longe de pressupor o fim da nossa liberdade, a ética tem
como condição fundamental a liberdade. Essa é uma
característica plenamente humana. Poder escolher entre
uma possibilidade e outra.
Um filósofo chamado Jean-Jacques Rousseau escreveu um
livro intitulado: Discurso sobre a origem da desigualdade.
Nele o autor usa um exemplo que simples que eu gostaria
de utilizar aqui. Trata-se do pombo e do gato: os animais
seguem o instinto, porém o homem é animal racional e por
isso pode pensar. Somo o único animal "pensante".
Como o homem cria possibilidades, ele sempre se defronta
com opções. Ele precisa decidir “o que” e “como” irá fazer
as coisas. Ele avalia e decide qual a melhor forma de
viver/fazer as coisas.
É necessário refletir sobre o nosso comportamento e
escolher com liberdade o que pretendemos pra nós e para
o nosso convívio.
Quanto menos liberdade se tiver, menos a ética faz sentido.
Para impor comportamentos já existe tribunais, forças
armadas, polícia e muitas outras formas de autoritarismo
por aí.
Pensando sobre esse tema, gostaria de partilhar com vocês
sobre o episódio relatado por Mateus onde Jesus é
questionado quanto ao cumprimento da Lei.
TEXTO: Mt 22:34-40
34
Entretanto, os fariseus, sabendo que ele fizera calar
os saduceus, reuniram-se em conselho.
35
E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o,
lhe perguntou:
36
Mestre, qual é o grande mandamento na Lei?
37
Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus,
de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o
teu entendimento.
38
Este é o grande e primeiro mandamento. 39
O
segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo
como a ti mesmo.
40
Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e
os Profetas.
CONTEXTO
Jerusalém - últimos dias de Jesus.
Os líderes judaicos desejavam condenar Jesus. Para isso
precisavam apresentar provas plausíveis contra ele.
No Evangelho de Mateus encontramos 3 controvérsias
apresentadas como armadilhas bem organizadas e
montadas, com o fim de forjar provas, capazes de serem
usadas no tribunal para conseguir a condenação de Jesus.
1ª Controversa: Tributo a César (cf. Mt 22,15-
22) – Fariseus e Herodianos
2ª Controversa: Ressurreição dos mortos (cf.
Mt 22,23-33) - Saduceus
3ª Controversa: Maior mandamento da Lei (cf.
Mt 22,34-40) – Fariseus
O nosso texto é esta 3ª Controversa.
Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os
fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe
interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito.
A questão do maior mandamento da Lei não era uma
questão pacífica, mas sim objeto de debates intermináveis
entre os fariseus e os doutores da Lei no tempo de Jesus.
A preocupação em atualizar a Lei (MITZVOT), de forma a
que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a
dia punha, tinha levado os doutores da Lei a produzir um
conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e
248 ações a pôr em prática.
O número 613 tem um significado simbólico muito
importante na tradição rabínica dizia: 248 é o número de
ossos do corpo humano (na concepção que tinham na
época). O número 365 tem a ver com os dias do ano. Daí a
ideia de que os nossos 248 ossos precisam realizar 248
ações prescritas e que a cada dia do ano é necessário se
empenhar em não transgredir os 365 preceitos negativos.
Esta “multiplicação” dos preceitos legais lançava,
evidentemente, a questão das prioridades: todos os
preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é
mais importante do que os outros?
É esta a questão que é posta a Jesus.
MENSAGEM
A resposta de Jesus, no entanto, supera o horizonte da
pergunta. Foge da discussão periférica legalistas, para
apresentar o núcleo... centro... âmago da Lei
(Mandamentos, preceitos, mitzvot)
Ele vai ensinar que o mais importante não é definir qual o
maior dos mandamentos, mas sim encontrar a raiz de todos
estes preceitos.
Para Jesus, essa raiz gira em torno de dois pontos: o amor a
Deus e o amor ao próximo.
A Lei e os Profetas são apenas comentários a estes dois
mandamentos.
Naquela época se utilizava a expressão “a Lei e os Profetas”
para se referir ao Antigo Testamento.
Dizer, portanto, que “nestes dois mandamentos se
resumem a Lei e os Profetas” (vers. 40), significa dizer que
toda a revelação de Deus, pode ser resumida no amor a
Deus e ao próximo.
A originalidade da afirmação de Jesus não está nas ideias de
amor a Deus a ao próximo, que são bem conhecidas do
Antigo Testamento: Pois Jesus se limita a citar Dt 6,5 (no
que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz
respeito ao amor ao próximo)…
A originalidade deste ensinamento está, por um lado, na
forma como Jesus aproxima os dois mandamentos,
colocando-os em perfeito paralelo e, por outro, no fato de
Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus
nestes dois mandamentos.
Portanto, o compromisso religioso (que é proposto aos
crentes, quer do Antigo, quer do Novo Testamento)
resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo. Na
perspectiva de Jesus, que é que isto quer dizer?
De acordo com os relatos dos evangelhos, Jesus nunca se
preocupou excessivamente com o cumprimento dos rituais
litúrgicos que a religião judaica propunha, nem viveu
obcecado com o oferecimento de dons materiais a Deus.
A grande preocupação de Jesus foi, em contrapartida,
discernir a vontade do Pai e a cumpri-la com fidelidade e
amor.
“Amar a Deus” é pois, na perspectiva de Jesus, estar atento
aos projetos do Pai e procurar concretizar, na vida do dia a
dia, os seus planos.
Na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai passa
por fazer da vida uma entrega de amor aos irmãos, se
necessário até ao dom total de si mesmo.
Assim, na perspectiva de Jesus, “amor a Deus” e “amor aos
irmãos” estão intimamente associados. Não são dois
mandamentos diversos, mas duas faces da mesma moeda.
“Amar a Deus” é cumprir o seu projeto de amor, que se
concretiza na solidariedade, na partilha, no serviço, no dom
da vida aos irmãos.
Como é que deve ser esse “amor aos irmãos”? Este texto só
explica que é preciso “amar o próximo como a si mesmo”.
APLICAÇÃO
O que podemos destacar deste texto:
Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada
herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de
proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de
virtudes, que arrastamos pesadamente pela história.
Este texto põe as coisas de forma totalmente clara: o
essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se
resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida
plena e definitiva para os homens.
O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o
testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de tudo,
pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas
propostas e pela obediência total aos seus projetos.
O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o
testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar
atenção a cada homem ou mulher com quem cruzamos
pelos caminhos da vida (seja quem for).
O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a
solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida…
Como cristãos, mais do que cumprir ritualismos e preceitos
institucionais, somos desafiados a viver eticamente
segundo os valores do evangelho de Jesus Cristo.
A nossa estética interna, ou seja, a ética deve ser fruto do
amor que vem de Deus e me transforma em uma pessoa
"bonita internamente" que é capaz de retornar o amor ao
próprio Deus, bem como distribuí-lo àqueles com quem
convive.
A ética, a qual temos chamado de estética do lado de
dentro, não se embeleza com cosmética. Não há
maquilagem capaz de embelezá-la.
É necessário transformação.
Para tal, é necessário esforço humano, naquilo que nos
compete. O apóstolo Paulo disse aos Coríntios: "Tudo me é
lícito, mas nem tudo me convém".
PORÉM, nem tudo depende de nossa própria força. há
questões que é só o milagre de Deus.
Rev. Paulo Dias Nogueira
Catedral Metodista de Piracicaba
05.06.2016 - Culto Vespertino

Sermão - O maior Mandamento - Mt 22 34-40

  • 1.
    SERMÃO O MAIOR MANDAMENTO INTRODUÇÃO Vivemosum tempo em que se fala muito em ÉTICA ou sobre a falta dela. Quem sabe uma das expressões que mais ouvimos nos últimos tempos seja QUEBRA DE DECORO. Uma das definições de DECORO é BELEZA MORAL. Pierre Reverdy, poeta francês falecido em 1960, apresenta uma definição simples e muito interessante: A ética é a estética de dentro. Podemos dizer que uma pessoa ética é aquela que vive, age, se relaciona de forma bela. É a beleza de dentro. Por exemplo, quando nossos pais e avós diziam: que coisa feia menino. Eles não estavam se referindo à nossa aparência exterior, mas sim ao nosso interior. Não falavam da ESTÉTICA, mas sim da ÉTICA. Os dicionários nos ajudam a entender uma pouco mais o significado da palavra ética através dos sinônimos: virtude, retidão, brio, respeitabilidade, nobreza, dignidade, honestidade, honradez, integridade, honra, probidade, seriedade, lisura, decência... Gostaria de destacar a palavra DECENTE. Na composição de muitas palavras em língua portuguesa utilizamos prefixos latinos e gregos. Por exemplo: DOCente, DISCente e DECente. DOC, DISC e DEC. DOCente... quem leva ou conduz DISCente... quem é levado ou conduzido DECente... quem embeleza (torna belo) Existem pessoas que imaginam que ÉTICA seja uma tabela de comportamentos aceitáveis ou não aceitáveis, corretos ou incorretos, certos ou errados, toleráveis ou intoleráveis. Dentro dessa leitura baseada no imaginário popular (senso comum), alguém que se propusesse a dialogar sobre ética, deveria trazer esta imensa lista no bolso, pois para cada ação ele iria apresentar a resposta se era certo/ético ou errado/não-ético. Partindo dessa visão, existiria uma tabela pronta que conteria todas as respostas para todas as perguntas. Por exemplo: estava ministrando aula em um curso e uma irmã inflamada me perguntou diretamente (na bucha): pastor é certo (ético) utilizar o celular para ler a bíblia na hora do culto?... Minha resposta foi... Ética não é decorar uma listra de certo e errado. Alguém que se propõem refletir sobre ética tem muito menos certezas do que uma lista de certo ou errado.
  • 2.
    Uma categorização préviasobre qualquer conduta seria uma forma de escravidão, pois não teríamos a liberdade de escolha e seguiríamos a tabela pronta. Logo não necessitaríamos refletir sobre qual a melhor maneira de agir em determinados momentos. Seria uma forma de autoritarismo ao qual deveríamos nos submeter, para respondermos corretamente ao que se espera de nós. Longe de pressupor o fim da nossa liberdade, a ética tem como condição fundamental a liberdade. Essa é uma característica plenamente humana. Poder escolher entre uma possibilidade e outra. Um filósofo chamado Jean-Jacques Rousseau escreveu um livro intitulado: Discurso sobre a origem da desigualdade. Nele o autor usa um exemplo que simples que eu gostaria de utilizar aqui. Trata-se do pombo e do gato: os animais seguem o instinto, porém o homem é animal racional e por isso pode pensar. Somo o único animal "pensante". Como o homem cria possibilidades, ele sempre se defronta com opções. Ele precisa decidir “o que” e “como” irá fazer as coisas. Ele avalia e decide qual a melhor forma de viver/fazer as coisas. É necessário refletir sobre o nosso comportamento e escolher com liberdade o que pretendemos pra nós e para o nosso convívio. Quanto menos liberdade se tiver, menos a ética faz sentido. Para impor comportamentos já existe tribunais, forças armadas, polícia e muitas outras formas de autoritarismo por aí. Pensando sobre esse tema, gostaria de partilhar com vocês sobre o episódio relatado por Mateus onde Jesus é questionado quanto ao cumprimento da Lei. TEXTO: Mt 22:34-40 34 Entretanto, os fariseus, sabendo que ele fizera calar os saduceus, reuniram-se em conselho. 35 E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o, lhe perguntou: 36 Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? 37 Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. 38 Este é o grande e primeiro mandamento. 39 O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 40 Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.
  • 3.
    CONTEXTO Jerusalém - últimosdias de Jesus. Os líderes judaicos desejavam condenar Jesus. Para isso precisavam apresentar provas plausíveis contra ele. No Evangelho de Mateus encontramos 3 controvérsias apresentadas como armadilhas bem organizadas e montadas, com o fim de forjar provas, capazes de serem usadas no tribunal para conseguir a condenação de Jesus. 1ª Controversa: Tributo a César (cf. Mt 22,15- 22) – Fariseus e Herodianos 2ª Controversa: Ressurreição dos mortos (cf. Mt 22,23-33) - Saduceus 3ª Controversa: Maior mandamento da Lei (cf. Mt 22,34-40) – Fariseus O nosso texto é esta 3ª Controversa. Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito. A questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica, mas sim objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei no tempo de Jesus. A preocupação em atualizar a Lei (MITZVOT), de forma a que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a produzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a pôr em prática. O número 613 tem um significado simbólico muito importante na tradição rabínica dizia: 248 é o número de ossos do corpo humano (na concepção que tinham na época). O número 365 tem a ver com os dias do ano. Daí a ideia de que os nossos 248 ossos precisam realizar 248 ações prescritas e que a cada dia do ano é necessário se empenhar em não transgredir os 365 preceitos negativos. Esta “multiplicação” dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros? É esta a questão que é posta a Jesus.
  • 4.
    MENSAGEM A resposta deJesus, no entanto, supera o horizonte da pergunta. Foge da discussão periférica legalistas, para apresentar o núcleo... centro... âmago da Lei (Mandamentos, preceitos, mitzvot) Ele vai ensinar que o mais importante não é definir qual o maior dos mandamentos, mas sim encontrar a raiz de todos estes preceitos. Para Jesus, essa raiz gira em torno de dois pontos: o amor a Deus e o amor ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários a estes dois mandamentos. Naquela época se utilizava a expressão “a Lei e os Profetas” para se referir ao Antigo Testamento. Dizer, portanto, que “nestes dois mandamentos se resumem a Lei e os Profetas” (vers. 40), significa dizer que toda a revelação de Deus, pode ser resumida no amor a Deus e ao próximo. A originalidade da afirmação de Jesus não está nas ideias de amor a Deus a ao próximo, que são bem conhecidas do Antigo Testamento: Pois Jesus se limita a citar Dt 6,5 (no que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz respeito ao amor ao próximo)… A originalidade deste ensinamento está, por um lado, na forma como Jesus aproxima os dois mandamentos, colocando-os em perfeito paralelo e, por outro, no fato de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos. Portanto, o compromisso religioso (que é proposto aos crentes, quer do Antigo, quer do Novo Testamento) resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo. Na perspectiva de Jesus, que é que isto quer dizer? De acordo com os relatos dos evangelhos, Jesus nunca se preocupou excessivamente com o cumprimento dos rituais litúrgicos que a religião judaica propunha, nem viveu obcecado com o oferecimento de dons materiais a Deus. A grande preocupação de Jesus foi, em contrapartida, discernir a vontade do Pai e a cumpri-la com fidelidade e amor. “Amar a Deus” é pois, na perspectiva de Jesus, estar atento aos projetos do Pai e procurar concretizar, na vida do dia a dia, os seus planos. Na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai passa por fazer da vida uma entrega de amor aos irmãos, se necessário até ao dom total de si mesmo. Assim, na perspectiva de Jesus, “amor a Deus” e “amor aos irmãos” estão intimamente associados. Não são dois mandamentos diversos, mas duas faces da mesma moeda.
  • 5.
    “Amar a Deus”é cumprir o seu projeto de amor, que se concretiza na solidariedade, na partilha, no serviço, no dom da vida aos irmãos. Como é que deve ser esse “amor aos irmãos”? Este texto só explica que é preciso “amar o próximo como a si mesmo”. APLICAÇÃO O que podemos destacar deste texto: Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de virtudes, que arrastamos pesadamente pela história. Este texto põe as coisas de forma totalmente clara: o essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida plena e definitiva para os homens. O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de tudo, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projetos. O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem cruzamos pelos caminhos da vida (seja quem for). O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida… Como cristãos, mais do que cumprir ritualismos e preceitos institucionais, somos desafiados a viver eticamente segundo os valores do evangelho de Jesus Cristo. A nossa estética interna, ou seja, a ética deve ser fruto do amor que vem de Deus e me transforma em uma pessoa "bonita internamente" que é capaz de retornar o amor ao próprio Deus, bem como distribuí-lo àqueles com quem convive. A ética, a qual temos chamado de estética do lado de dentro, não se embeleza com cosmética. Não há maquilagem capaz de embelezá-la. É necessário transformação. Para tal, é necessário esforço humano, naquilo que nos compete. O apóstolo Paulo disse aos Coríntios: "Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém". PORÉM, nem tudo depende de nossa própria força. há questões que é só o milagre de Deus. Rev. Paulo Dias Nogueira Catedral Metodista de Piracicaba 05.06.2016 - Culto Vespertino