Atos de Leitura

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Atos de Leitura

  1. 1. MEMÓRIAS E ATOS DE LEITURA – RESSONÂNCIAS ACERCA DA LITERATURA E MARCAS AINDA VÍVIDAS JANETE MARCIA DO NASCIMENTO Mestre em letras – Linguagem e Sociedade UNIOESTE. CTESOP / jmarcia15@yahoo.com.brPalavras chave: Leitura – Atos – Desejos – Vivências – Escrita – RessonânciasIntrodução Este texto deseja expressar vivências de leitura de obras literárias aolongo de décadas de trabalho docente em diferentes níveis e modalidades deensino. Será um texto narrado em primeira pessoa, por objetivar, dentre outrosaspectos, compartilhar atos de leitura de obras literárias, em geral infantis e infantojuvenis para crianças, adolescentes, jovens e adultos realizadas em diferentesmomentos, lugares e com diversas pessoas em ocasiões distintas. Um elo se faznotar: os espaços de leitura aqui expressos são espaços de docência – salas deaula. Outro objetivo que moveu a escrita desse texto consiste no desejo depublicar memórias ainda vívidas de experiências concretas do passado e dopresente, que corporificam o fio condutor da minha constituição como sujeitodocente professora escrileitora, pesquisadora e leitora voraz de obras literárias, quepor não caberem mais em mim, escorrem pelas aulas que, às vezes, inicio comleituras, das quais gosto. Assim, serão narrados aqui, situações e feedbacksdiversos, que se desenharam durante aulas que inicio com a leitura de uma, duas oumais páginas de alguma obra literária. São momentos únicos, que se tornaram atosconstantes de deleite, prazer e conhecimento de diferentes obras, autores,contextos. Práticas, às vezes inusitadas, que se fizeram e se fazem no cotidiano de
  2. 2. salas de aulas em escolas de ensino fundamental, em turmas de graduação e deespecialização, dentre outros lugares. A metodologia utilizada consistirá na apresentação de relatos chamadosatos de leitura. Tais atos serão discutidos a partir das marcas temporais /cronológicas de surgimento, os relatos de memória1, bem como as obras literáriasque os alimentaram. Serão também mostrados nesse trabalho, alguns feedbacks depessoas (acadêmicos de graduação e crianças do Ensino Fundamental) queaceitaram participar da corporificação desse texto, expressando suas intensidadesao participarem dos atos de leitura que se dão durante as aulas.Discussões e resultados Escrever sobre experiências vividas e ainda vívidas sobre leitura eliteratura é fazer, no máximo, escolhas. Pois ler, é viajar para muitos mundos,adentrar vidas desconhecidas, compartilhar com elas sentidos que não os nossos. Éconviver com diferentes tempos, espaços, intensidades e vivências possíveis,constantes ou não, próximas ou não. A leitura abre possibilidades; reconstróisentidos, define caminhos a serem percorridos. Estabelece elos! Possibilita nascerescritas! Por isso, escrever pode significar costurar, emendar restos / sobras deleitura. Aquilo que não cabe mais em nós, às vezes suplica por derramar-se emforma de tinta no papel, para que outros tenham acesso às nossas sobras. Para quepossamos multiplicar e talvez imprimir nosso deleite em outras pessoas, lugares,desejos! Gosto de ler. E quando leio, espalho pedaços de mim nos outros.Compartilho minhas intensidades e possibilito desejos, de ler e de talvez escrever.Mostro saídas, que se descobrem nos outros. Por isso, quero escrever sobre algunsprazeres aqui nesse texto, que pretende ser leve, breve e se possível, belo!Discutirei os momentos em que atos de leitura se deram em mim, por meio de1 Como em Memórias inventadas – as infâncias de Manoel de Barros – livro no qual o autor narra suasmemórias de infância de forma belíssima afirmando que só teve infância – a primeira, a segunda e a terceira,pois segundo ele, continua a ser criança.
  3. 3. relatos de memórias de leitura, bem como dos atos ainda presentes no meu fazerdocente e suas intensidades.Primeiro Ato: Ressonâncias acerca da leitura e marcas vívidas da literatura Lembro-me vividamente do meu primeiro contato com um livro deliteratura. Era infantil. Foi no grupo escolar onde estudei, em São Sebastião – umpequeno distrito situado próximo ao município de Toledo, onde moro atualmente edesde a infância. Eu tinha sete anos de idade e estava no primeiro ano primário. Jásabia ler algumas palavras, mas não podíamos naquela época “pegar” ou “tocar” olivro, que já era bem usado. A professora lia para nós, que escutávamos em silêncio,quase sem respirar! Não me lembro do título ou do texto, mas as imagensdesbotadas de crianças e paisagens coloridas povoam ainda hoje, minhasmemórias. Não sei se era o único livro que lá havia, mas é dele que me lembro.Apenas dele. No decorrer da escola primária, não me lembro de ter lido ou ouvidooutros livros de histórias, além deste que citei ou dos fragmentos de textos dos livrosdidáticos de comunicação e expressão (era assim que se chamava a línguaportuguesa naquela época). Mas recordo-me de que as narrativas me encantavam!Eu adorava ler, ouvir, entrar naquele mundo contado por escritas que me roubavamda realidade o tempo todo para que eu pudesse habitar outros mundos. Na adolescência, com a mudança para a cidade, as leituras semodificaram. Conheci os gibis, os romances, os filmes que passavam na televisão,os desenhos animados e tantas outras formas de ler e me encantar. Tive sempremuitos irmãos (somos seis em casa), primos, amigos e vizinhos com quemtrocávamos muitas leituras, sempre! Minha irmã devorava os romances. Eu preferiaos gibis que os meninos liam. Eram variados os estilos: Tex Willer, Conan, RecrutaZero, Fantasma, Disney, A turma da Mônica e tantos mais. Ler gibis era uma nova modalidade para fazer voar a imaginação! Se atéentão os textos sem imagens nos faziam viajar por mundos desconhecidos, ver otraço do desenhista ganhar vida nas imagens nos faziam deleitar de prazer. Eugostava de criar na memória o texto, apenas olhando as imagens, para só depois ler
  4. 4. os balões. Os desenhos eram um belo atrativo. Quando lia os balões, os textosdavam novos sentidos aos desenhos. Eram outras vidas nascendo nas histórias queeu lia. Não havia final nos gibis, apenas novos começos! As histórias curtas me faziaquerer devorar, de uma só vez, um gibi inteiro. E quanto mais gordo ele fosse, maiseu gostava. Na verdade, eu gosto de gibis até hoje!Figura 1: Minhas memórias de leituras: Os Gibis que líamos na adolescência. As narrativas nos enredavam por mundos que não conhecíamos e ostornavam nossos. Realidade e fantasia se misturavam constantemente. Lembro-mede que eu vivia no mundo da lua. Depois descobri que era o mundo dos livros. Erafantástico! Na escola, nos tempos de ginásio e ensino médio, li a coleção vaga-lume
  5. 5. quase completa. As histórias eram belíssimas! Eram narrativas para adolescentesque nos faziam ler e conversar sobre elas. Gostávamos de ler para ter assunto comos colegas na hora do recreio. Trocávamos livros, histórias, e sem o saber, vidas!Isso me constituiu: as leituras que me alimentam ainda hoje!Figura 2: Os livros da coleção vaga-lume eram os melhores que tinha na Biblioteca do Colégio. Todo mundogostava de ler. Eu amava! Ainda na adolescência, com os sonhos da mocidade, vieram as revistas eas surpresas que elas traziam dentro. Eram músicas, dicas de modas, horóscopo,
  6. 6. variedades, histórias de amor, pôsteres de artistas famosos, etc. Mais tarde vieramos romances “gordos”: Julia, Sabrina, Bianca e outros tantos. Minha irmã e eugostávamos de literatura norte americana. Eram romances tórridos de SidneySheldon, Danielle Steel, Agatha Cristie, dentre outros. Havia também os bolsilivrosde faroeste, que meu primo preferido me emprestava. Eu lia um daqueles livros numúnico dia. Entre a escola e as tarefas da casa, eu fugia para alguma leitura das quegostava. É curiosa a forma como tudo isso acontecia, alheio aos olhares de nossospais, sempre tão envolvidos com o trabalho. Criávamos um universo particular, doqual não participavam e sobre o qual pouco ou nada falávamos. Era o nosso mundoe nós o reinventávamos sempre! Lembro-me de que nossos pais não compravamlivros. Mas sempre os tínhamos em casa. Pois trocávamos com primos, amigos,vizinhos. Foi uma fase inesquecível! Uma coisa que muito nos marcou foi o universoda biblioteca pública. Minha irmã e eu disputávamos livros lidos e ela ganhavasempre! Pois lia muito rápido. Minha adolescência foi a melhor fase da minha vida.Penso que durará ainda muito tempo, porque continuo gostando das mesmascoisas. A vantagem é que meu universo se ampliou bastante. Hoje conheço muitomais autores e livros. Tenho mais possibilidades de compartilhá-los!Segundo ato: Quando a leitura de livros infantis entrou na minha vida, pareciajá ser tarde demais Quando concluí a graduação em Pedagogia, já com quase 21 anos deidade, minha irmã começou a cursar Letras. Lá ela conheceu e comigo compartilhaaté hoje as delícias da Literatura Infantil e Infanto Juvenil. A leveza das obras deLygia Bojunga, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Bartolomeu Campos Queirós,Elias José, Tatiana Belinki, dentre outros, amenizavam a “dureza” das disciplinasteóricas que eu então ministrava na Universidade nos cursos de licenciatura. Foramtempos novos e mágicos para mim, que de tanto gostar, passei a ler meus pequenostesouros para os alunos da graduação. Fui gostando cada vez mais! Leitura eliteratura povoaram meu mundo, e eu fiz delas, minha morada! Estudei leitura eliteratura na Especialização, no Mestrado e passei a ter sempre obras literárias nabolsa. Sou devoradora de livros. Vivencio essas delícias com todos à minha volta. E
  7. 7. contagio, sempre! Comecei lendo pedaços, textos curtos, poemas. De repente, me vilendo livros inteiros com cem, duzentas páginas para os alunos para quem tenholecionado. A cada aula, um pedaço, algumas páginas, enfim. Este foi o começodesse ato que pratico até hoje. Muitas coisas aconteceram e me surpreendo com os depoimentos dosalunos para quem leio, ao iniciar nossas aulas na graduação e na especialização.Muitos adultos comentam que sou a primeira professora a ler para eles. As pessoaspassam a buscar os livros que ostro. Algumas os relêem e me relatam a emoção dareleitura. Tais relatos me lembram Bartolomeu Campos Queiros ao dizer que poucoimporta quantos livros já lemos, mas sim aqueles que relemos sempre 2. Reler é, defato, uma delícia. Desenvolvi técnicas de livros artesanais e as tenho ensinado emoficinas e cursos para alunos, professores e colegas. A magia sempre acontece, esempre me surpreende!Terceiro ato: Da bolsa amarela para outras cores e tons Minha irmã sugeriu que eu lesse O sofá estampado, de Lygia Bojunga.Ela disse que eu amaria! Ela ainda está certa, porque eu já o li inúmeras vezes, paramuitas pessoas, em diferentes momentos da vida; já o comprei outras tantas, etambém já doei este livro, perdi, comprei de novo, enfim! O fato é que sempre tenhoum sofá estampado comigo. É impressionante a leveza com que a autora adentra ouniverso infantil nessa obra, de modo a nos fazer pensar se o texto foi, de fato,escrito por uma pessoa adulta. Depois do sofá, li outras obras de Bojunga. Tantasquanto pude. Mas a Bolsa amarela me transformou numa outra pessoa. Conhecer aRaquel foi um divisor de águas na minha vida! Por isso, vou apresentá-la: “Raquel éuma menina de nove anos de idade, mais ou menos, que mora com sua família –pais e irmãos. Por ser a caçula, é muito esquecida por todos. Sua voz é muitomarcante no texto. Reclama de tudo e tudo sofre, segundo ela, por ser a caçula epor ser menina. Três vontades a dominam em momentos distintos: a vontade de ternascido menino, a vontade de ser grande e a vontade de ser escritora. As se2 Palestra proferida no XV Cole – Congresso de leitura do Brasil no ano de 2005.
  8. 8. expressarem, tais vontades engordam a ponto de a menina não conseguir escondê-las. Ao ganhar uma bolsa amarela de uma tia que gosta de comprar coisas que nãousa para depois doá-las à família de Raquel, a menina decide guardar / esconderseus segredos / vontades / invenções dentro da bolsa amarela que passa a ser seuuniverso particular”3. A narrativa fluida de Bojunga nos leva a duvidar das marcas reais /imaginárias traçadas nesta obra. Entramos junto com a Raquel na Bolsa Amarela epara lá também levamos nossos segredos. O vai e vem da narrativa atemporalsugere encontros que se dão entre realidade / fantasia, alegria / tristeza, medo /coragem, enfim. Inúmeros sentimentos se misturam, definem-se em determinadosmomentos da obra e voltam a se confundir noutros, em múltiplos sentidos. A bolsaamarela me mostra labirintos de pensamentos infantis há tempos adormecidos emvívidas e por vezes esquecidas memórias. Expressos por fatos e vivências daRaquel, fizeram-me rememorar diálogos (inventados?) (vivenciados?) por mim nainfância, com animais, plantas, nuvens, céu, estrelas, lua e outros elementos danatureza, como os passarinhos e as borboletas, muito comuns no sítio onde nasci evivi toda minha infância. Ter morado no campo me possibilitou invencionar narrativasque, até conhecer a bolsa amarela me faziam ter dúvidas de que eles haviamacontecido dentro ou fora de mim. Devo escrever também, que de intensasmaneiras, o estampado do sofá, de Bojunga, me remete às estampas das roupasque minha mãe costurava e que eu, muitas vezes reproduzia, dando vida às minhaselegantes bonecas que ganhava uma vez por ano, no Natal. As cores da literatura colorem nossa vida, constantemente. Os tons sedefinem de maneiras diversas em momentos distintos. A literatura para crianças, emgeral, devido ao seu aspecto ilustrativo, colorido, trás leveza e serenidade aoseventos do cotidiano infantil, e talvez por isso, denota uma seriedade que não fazparte do mundo adulto. Ao ler para os acadêmicos da graduação, isso fica explícito.Apesar de a maioria gostar de ouvir as histórias que leio, alguns resistem ao fato deque elas sejam infantis. Ao ler um conto como felicidade clandestina de ClariceLispector, por exemplo, o ato de ler ganha diferentes significados, pois a princípio,nada neste conto, a não ser o próprio texto nos remete a ideia de que ele narre as3 Relato de memória – leitura e releitura da obra A Bolsa Amarela (Lygia Bojunga).
  9. 9. angústias de uma infância – a história de uma menina, sem posses e devoradorasde livros, que implora por ter emprestados os livros que a filha do dono de livrarianão lia.Quarto ato: Das delícias de ler e sentir Para desenhar esse texto sobre os atos de leitura que tenho realizado aolongo de meus fazeres docentes, decidi compartilhar as intensidades daqueles quetem tornado possíveis tais atos: os acadêmicos para quem leio há anos. Entãopropus em algumas turmas de cursos de licenciatura (Pedagogia, Geografia eMatemática – do CTESOP / UNIMEO – turmas de 2012), que me escrevessemsobre “o que sentem quando leio alguma história na sala de aula”. O objetivo foiconhecer os sentidos das leituras que faço, do ponto de vista de quem lê com osouvidos as histórias, em geral, de literatura infantil ou infanto juvenil, como já foiexplicado anteriormente. Seguem alguns dos relatos:“Ao escutar uma história, como as que a “Acho um modo interessante de começar aprofessora lê, leva nossos sentidos a aula, já que não somos acostumados a pegarinterpretar, e às vezes entrar no contexto livros de histórias.”histórico imaginando quais os próximospassos que irá ocorrer na estorinha. Ou seja, “Quando a professora de Políticas lê históriasdispersamos nossas preocupações diárias e infantis, faz com que viajemos pelo menos umnos envolvemos com algo que nos distrai e ao pouco do dia, pois vivemos num mundomesmo tempo se torna prazeroso, pois a conturbado, cheio de deveres e estressante.nossa imaginação nos leva a algo que Com essas leituras, além da nossadesconhecemos e que muitas vezes não imaginação viajar em fantasias, tiramos aindapraticamos este conhecimento, esta dádiva lições que pode servir e ajudar no nossonos dada que é a imaginação.” cotidiano, quando viramos adultos não ligamos, e muitas vezes não temos tempo“Eu acho muito legal, uma didática diferente de para ler essas histórias, a professora fornecetrabalhar, momento para ouvirmos, refletir e de para nós acadêmicos este momento dedistração, o que torna a aula mais distração, ou lembramos de nossa infância.”interessante.” “Na minha opinião, a professora Janete tem“Quero que a professora continue com as um costume bonito, pois ao chegar na nossahistórias, pois o início das delas já nos deixa aula, ela pede licença para contar umaatentos e curiosos, são histórias com história, que ela trás. As histórias são ummensagens gostosas de ouvir, um momento pouco infantis, mas para nós que estamosdiferente, de viajar... são histórias simples e ao estudando para ser docentes, é muitomesmo tempo, complexas. Obrigada!” gratificante, pois a leitura é muito necessária para todos. Obrigado, professora Janete.”
  10. 10. “Conforme a professora relata a história, vou Isso faz com que eu me esqueça dasformando o ambiente em que se passa dificuldades da aula e me sinta mais tranqüilo,embasada nos detalhes. Quando as histórias mais criança.”se estendem muito, confesso que me dispersofacilmente, mas quando não, as narrações me “Me sinto muito bem, parece que soudeixam intrigada e curiosa para saber o que expectadora, que estou presente lá dentro daocorrerá depois.” história, fico quietinha, sem dar uma palavra sequer, apenas escutando, o que se“Como eu não gosto muito de leitura, ouvir a transforma em „ver‟, na minha imaginação.professora ler é melhor porque faz a gente Neste instante me sinto leve, parece que arefletir com o que a leitura diz. Como a tensão do decorrer do meu dia some, assim,professora lê compassado, é muito gostoso do nada, desaparece. Me lembro de uma faseouvir ela lendo, dá para ficar imaginando como quando era criança, foi quando minha mãea história está acontecendo, imaginar cenas. estava montando o enxoval da minha irmã queEu prefiro ouvir do que ler porque quando estava pra nascer. Pois como eu tinha novelemos e não entendemos a história não tem anos, com medo de que eu ficasse cm ciúmes,sentido, mas quando ouvimos a leitura eu minha tia me presenciou com uma coleção deentendo melhor.” livrinhos infantis, que todas as noites quando ia dormir minha mãe lia para mim, juntamente“Quando a professora lê as histórias vou com meu pai, nós quatro, juntos. Destanavegando em uma imaginação que nem eu maneira me sentia muito bem, assim como memesma, na correria sei que tenho. Na história sinto hoje, nas aulas de filosofia, parece queda andorinha Sinhá e do gato Malhado4 trouxe volto ao tempo e começo a sentir novamentemuito para minha vida, pois nos ensina que se aquela paz de espírito, viajando deste modo,queremos algo não importa se pareça sem rumo e barreiras, apenas viajando dentroimpossível, mas devemos lutar por nossos da história.”sonhos. Me incentivou mais na prática daleitura percebendo que é algo importante e de “Ao ouvir as histórias infantis contadas pelamuito valor. Pois se não temos a prática da professora Janete, sinto vontade de chegarleitura somos ignorantes, pois é nela que logo ao final, pois a forma como a mesmaadquirimos muitos conhecimentos.” conta as histórias me cativa e faz com que eu queira ouvir mais histórias. No decorrer das“Ouvir a professora lendo uma história é histórias somos instigados a soltar asempre uma forma de fugir dos pensamentos imaginação e prever o final das mesmas,rotineiros e viajar, relaxar. É um prazer quando a professora conta com entusiasmo einexplicável, pois os textos nos fazem rever emoção, obtemos os mesmos sentimentos.nossa forma tão rígida de viver a vida. A leitura Eu, particularmente sou apaixonada pornos dá outras possibilidades.” histórias infantis, e quando ouço alguém lendo a minha expectativa em relação às mesmas é“Não é um sentimento muito nítido. maior do que quando eu leio.”Geralmente eu prefiro ler, mas a sua leitura,provavelmente devido à expressão facial e ao “A hora da leitura em sala de aula, é umtom de voz que você usa, torna-se momento de distração, de alegria, reflexão deinteressante e faz com que eu me sinta nossas atitudes, escolhas. Sinto prazer eminteressada no desfecho da estória, que na ouvir as histórias contadas pela professora.maioria das vezes não é um desfecho comum. Fico imaginando como são os lugares, osApesar de eu ter o gosto totalmente diferente personagens, entre outros. Desperta tambémdo seu, aprecio sua leitura.” a curiosidade, atenção para ver qual será o final da história. É interessante o momento em“Quando a professora está lendo alguma que a professora, após contar a história,história, eu paro de pensar e fico fixado, pergunta aos alunos o que acharam, setentando desenhara história na minha cabeça. gostaram e qual foi a interpretação e compreensão de cada aluno a respeito da4 O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá – (Jorge história contada.”Amado). Li esta obra inteira para esta turma noano anterior, na disciplina de didática. Foi “Simplesmente imagino junto com a história,emocionante o envolvimento da turma. Um ato não tem como ouvir e não passar um filme naintenso de trocas de emoções. Muitos choraram mente, como se fossem as imagens emcom final infeliz da história de amor entre o gato e movimento, é mesmo muito legal uma descontração assim.”a andorinha.
  11. 11. “Adoro as histórias, acho bem interessante muda completamente. Um método depois, é uma forma de nos distrair, de ir além da aprendizagem excelente!”realidade. Todos os professores deveriam lerhistórias pra gente. Por mim, a professora “Ao escutar as histórias que a professorapode continuar contando histórias até o final conta, viajo no mundo desses encantosdo ano que vem. Eu gosto muito das histórias literários, pois saio do mundo real e passo aaté descobri a gatinha. Rsrs5.” imaginar essas histórias fantásticas, que transmitem esperança, alegria e diversão e“A leitura feita antes de ser passado o ainda mais, a emoção e expectativa de ouvirconteúdo é método muito bom, pois traz mais e mais histórias”.tranqüilidade e faz com que a aula se tornemais agradável depois de um dia de trabalho “Alegria, emoção (curiosidade, raiva,cansativo e corrido”. felicidade, liberdade, descontração); momento próprio, individual, de pensamento só meu,“O que eu sinto ao ouvir as histórias da minha imaginação. Construção de ideias,professora Janete é... calma. Também há imagens, representações, viajar namomentos de tranquilidade; curiosidade (para imaginação, imaginar sem repreensão; deixarsaber o final); Emoção (alegria, tristeza,... fluir os sentimentos, compreender aDependendo do contexto); Imaginação; mensagem passada, interpretá-la e utilizá-laAprendizado; Desenvolvimento (da percepção corretamente. Deixar o lúdico fazer-seauditiva)”. presente em mim. Voltar a ser criança (...).”“Quando a professora conta as histórias, eu “A leitura de livros de histórias em sala deaprecio como um descanso. Pois a gente faz aula, para mim, é muito importante paramatemática, temos muitas listas, muitos textos estimular e incentivar o aluno a ler também.e um período muito curto para observar tudo Com a leitura feita pelo professor, o aluno falaisso. E quando a professora faz uma atividade a história mentalmente, criando característicasdiferente, ou conta uma história foge dessa dos personagens e acontecimentos. Muitosrotina cansativa, e a professora faz essa alunos de nosso curso não tem o hábito de lermesclagem, e dá aula ao mesmo tempo”. esse tipo de leitura. Talvez seja uma forma de iniciar esse hábito. Como professor, vejo essa“Ao observar a leitura, percebo um mundo atividade não muito produtiva, pois é algo queencantador a ser desvendado, a imaginação, não é visto da mesma maneira por todos.curiosidade, levar ao movimento do Alguns participam, outros não”.pensamento, a viajar na história, e também acontextualizar a história no nosso contexto”. “A leitura no início da aula nos traz um momento de distração, em que fazemos o uso“Na minha opinião as histórias são muito bem da imaginação. Com isso conseguimos terdesenvolvidas em cima de conteúdos, às mais concentração na aula”.vezes precisamos de algo diferente que nosmotive a ir além e essas histórias fazem toda a “No meu ponto de vista, esta prática que adiferença. As histórias nos influenciam e nos professora usa de ler histórias é maravilhosa.fazem buscar motivos para continuar a vencer Quando a professora conta as histórias asna vida. Muitas vezes suas histórias se mesmas parecem ser de verdade e isso faz aencaixam em momentos de nossa vida que história ficar mais bonita e divertida. Acho quenos fazem entender e valorizar cada vez mais todos professores deveriam adotar esta práticaaquilo que nos é dado”. porque a leitura deixa a aula mais gostosa. Além disso, comecei a olhar a leitura de“Quando a professora lê, nós podemos sair um maneira diferente”.pouco desse mundo e nos distrair, voltar aosbons tempos onde nossos pais contavamhistórias. Isso é bom, pois o ânimo da aula5 A acadêmica, que é do 2° Ano de Matemáticarefere-se a Dalva – personagem central doromance entre uma gata e um tatu em O sofáestampado. Li a primeira parte da obra e pergunteiquem eles achavam que eram os personagens.Todos pensaram que fossem pessoas, mas sãoanimais. Ela sugeriu que poderia ser uma gata eficou muito feliz com sua descoberta.
  12. 12. Considerações finais Este foi um texto homenagem. Àqueles que de muitas formascompartilham comigo durante décadas de docência, as delícias dos atos de leitura.Sejam eles os autores, os alunos que me ouvem ler, os amigos que me suportam aomostrar os livros que passo a conhecer, e todos os envolvidos nos diferentes gruposdos quais faço parte e que passam a me conhecer e a compartilhar meus singelosatos de leitura. Ler e ver ressoar os efeitos nas pessoas que convivem conosco,diariamente é digno de homenagem. É o tipo da coisa, que como diria Queiros(2005) a gente não dá conta de viver e admirar sozinho. Gosto disso! Me alimentaver brilho nos olhos dos alunos, adultos ou crianças, ao concluir a leitura do texto,seja ele curto ou longo. Muitas vezes me perco no texto por não resistir àcuriosidade de conferir com olhares fortuitos, as expressões que vão se desenhandonas pessoas enquanto leio. Elas variam de acordo com o texto. Mas trazem semprea intensidade de quem ouve, atento, ao desenrolar de uma historia, na maioria dasvezes desconhecida. É curioso ver os alunos pedirem se não tenho algum livro nabolsa, quando começo a aula sem mencionar a leitura de algum texto. É interessanteser cobrada sobre isso e ao mesmo tempo ter que cobrar constantemente a leiturados conteúdos das disciplinas! Ou seja, ler por prazer é muito mais interessante.Isso me faz crer que a literatura pode ocupar um espaço até então, repleto desentidos na vida de pessoas que afirmamos sempre, não gostar de ler. Britto (2003)sugere que quando uma criança de três anos lê com a voz emprestada da mãe, daprofessora ou de qualquer outro adulto, já estabelece um contato com a linguagemescrita, que é a voz da escrita, diferente da voz de quem conta, relata, fala, reconta.E isso, segundo o autor, é ler também. Penso que de certa forma, estamos formandoleitores que poderão ler quando gostam de ouvir as leituras que fazemos em sala deaula. Penso, portanto, que atos de leitura podem vir a ser leituras!Referências BibliográficasBARK, Jaspre. Diário das invenções de Leonardo Da Vinci. São Paulo: CirandaCultural, 2009.
  13. 13. BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros. _ SãoPaulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.BOJUNGA, Lygia. A bolsa amarela. 33ª Ed. Rio de Janeiro: Ed. Casa Lygia Bojunga, 2003.______________. O sofá estampado. 19ª Ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 1995.FRANÇA, Mary e Eliardo. A verdade verdadeira – contos de Andersen. São Paulo: ática,2004. 3ª ediçãoLISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro. Rocco Ed., 1998 – 1ª edição.QUEIROS, Bartolomeu Campos. Onde tem bruxa tem fada. 3ª ed. São Paulo: Moderna,2002.Sites das imagens:http://www.google.com.br/search?hl=ptBR&q=gibi+tex+online+willer,+conan,+recruta+zero,+fantasma&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_qf.,cf.osb&biw=1280&bih=619&um=1&ie=UTF-8&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=olPdT-DdJ4L68gSGwqX4Cg – gibis diversos.http://poptude.blogspot.com.br/2012/04/livros-da-colecao-vaga-lume-vao-parar.html - coleçãovaga-lume.

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