Trauma psíquico
Professor Juliano Menezes e Silva
• Formamos nossas memórias partindo de nossa percepção
  do mundo externo.
• Ao mesmo tempo, nossas percepções acham-se ligadas à
  nossa memória – e chamamos isso de associação.
• Associamos nossa percepção do mundo com as memórias
  e afetos que já estão incorporados em nosso psiquismo.
• Percebemos o mundo externo a partir de uma perspectiva
  própria, criada na nossa história pregressa.




Determinismo psíquico
• O que se torna dominante na consciência da criança é o
  que pode se pensar como idéias “adequadas”, aquelas que
  vão bem com a visão que temos de nós mesmos, como
  preferíamos ser.
• A identificação ou espelhamento é importante.
• São idéias socialmente sancionadas que vão bem com
  nossos próprios valores, padrões e moralidade.




Consciência
• Na infância, assim como surgem sentimentos de ofensa
  (ferida narcísica) e consequente raiva (solução narcísica),
  há também uma tendência de sentimentos sexuais
  surgirem – em situações socialmente inapropriadas ou
  dirigidos a pessoas inadequadas ao envolvimento
  romântico.
• Estes impulsos de natureza sexual são evitados por
  também ocasionarem desprazer na criança, por irem
  contra o que é mais dominante em sua mente. Surgem
  então sentimentos como nojo, vergonha, repugnância e
  moralidade.



Sentimentos e afetos
• Desejos – pensamentos impulsionados por sentimentos
  hostis ou sexuais – não aceitos pela consciência da
  criança, se tornam inconscientes pela criança que os
  vivenciou.
• Não desaparecem, mas são dissociados de sua
  consciência – através de mecanismos de defesa da mente.
• Estes desejos podem envolver encenações de sentimentos
  hostis, humilhação ou excitação sexual.




Vontade infantil
• Estes desejos disfarçados por mecanismos de defesa
  atuam “por detrás” do pensamento consciente.
• Mesmo durante a vigília (pessoa consciente) essa mente
  inconsciente nos influencia – e também podem enviesar
  ou comandar nossas fantasias conscientes (ou “sonhos
  diurnos”).



O inconsciente durante
a vigília
• Através da atenção dada ao mundo interno, as imagens e
  sensações conscientes e inconscientes podem ser
  decompostas em sua matéria-prima – nas imagens
  sensoriais das quais tiveram origem.
• Desta forma, temos acesso a um fato que deu à
  personalidade daquele paciente um sentido ou direção.
• Então, analisar seria diluir, decompor o psiquismo do
  indivíduo nas imagens sensoriais das quais se
  desenvolveu.

Análise (promover
insight)
• Significado: lesão causada por um agente externo.
• Esse conceito migrou ao campo psicológico - e um
  trauma psíquico ocorre quando as defesas psicológicas
  naturais são transgredidas.
• Situações traumáticas comuns na literatura psicanalítica:
  ofensas realizadas de forma crônica por um adulto do
  ambiente da criança e, também, abuso sexual na infância.




Trauma
• Inicialmente a criança imatura mantém uma dependência
  confiante com um adulto.
• Num segundo momento, esse adulto contraria as
  expectativas da criança, faz com ela algo doloroso,
  ameaçador ou sexualmente excitante.
• Em um terceiro momento, o adulto recusa à criança o
  reconhecimento, compreensão e conforto em relação ao
  ocorrido anteriormente.




Fases do trauma
• O trauma é um fracasso relativo à dependência da
  criança: o adulto fracassou em desempenhar sua função.
• Experiências traumáticas seriam estimulações de
  hostilidade ou sedução alternadas com privações
  (ausência de conforto e entendimento) – principalmente
  as estimulações repetidas e crônicas, impostas
  intencionalmente sobre a vítima.
• O tempo é fator importante: quanto mais cedo ocorre,
  mais a criança será atingida e maior será o dano.




Patogênese
• A força da personalidade em formação é determinante
  com relação ao destino dos componentes introjetados: o
  indivíduo que sofreu o trauma pode não se conduzir
  sempre como vítima, pode se identificar com o agressor e
  mantém as encenações dolorosas, mas de forma invertida.
• Se protege da humilhação, mas sem dar cabo de sua
  existência, que continuará presente – só que longe da
  consciência.
• Nessa identificação (espelhamento) há forte sentido de
  justeza e retidão com que repetirá aquelas situações,
  talvez na esperança de que “desta vez” sejam boas.

Identificação com o
agressor
• Um componente hostil pode passar de geração em
  geração numa mesma família.
• O adulto identificado com um agressor livra-se de
  situações traumáticas do seu passado, empurrando uma
  humilhação sentida por ele pra dentro da criança.
• A criança, que devido à sua posição de dependência,
  submissão, identificação e desamparo, recebe o material
  para restabelecer a harmonia familiar e sua posição de
  ternura infantil.
• Não podendo abrir mão da ternura, e de forma muito
  sugestionável, a criança se identifica mesmo em situações
  de agressão, tende a assumir o que esperam dela, com o
  intuito de fazer parte dessa teia familiar.

Transgeracionalidade
• Os traumas infantis ocasionados pelos cuidadores podem
  permanecerem ocultos pelas idealizações deles, pois a
  criança depende do amor dos seus cuidadores e, também,
  pode assumir a culpa pelo que os cuidadores idealizados
  fizeram.
• A criança emudece diante do silêncio requerido pelo
  adulto.
• A criança vulnerável sente o descaso, a humilhação, a
  coerção e a insensibilidade diante do sofrimento que,
  mais tarde, podem ser manifestados por sintomas
  sadomasoquistas.

Auto-estima diminuída
e vergonha
• Sedução infantil é uma cena sexual em que um sujeito vale-
  se de seu poder para abusar de uma criança que fica
  reduzida a uma posição passiva – uma relação entre o
  carrasco e a vítima, dominador e dominado.
• A personalidade imatura está pobremente equipada para
  lidar com seus concomitantes emocionais.
• A criança raramente diferencia suas próprias necessidades
  das do adulto e da sensação que ele produz.
• Pode se formar como uma promessa de prazer, para depois
  apropriar-se do que pôde gozar muito parcialmente na
  situação original.


Sedução infantil
• No abuso, as necessidades do adulto prevalecem sobre as
  da criança que se vê, dessa forma, ignorada e até
  denegada (contestada, recusada).
• Essa denegação refere-se tanto às experiências
  emocionais da criança, quanto ao seu processo de
  pensamento.
• A desqualificação por parte do adulto acarreta agonia
  psíquica e a divisão (dissociação) da personalidade da
  criança.




Abuso
• A dissociação é uma personalidade múltipla, fuga ou
  amnésia; desencadeada por acontecimentos dolorosos ou
  conduta hostil, provocando uma alteração transitória da
  consciência, memória, percepção e identidade.
• A criança dissociada põe em dúvida suas qualidades e a
  boa imagem de si mesma.
• Com a identidade fragmentada e a auto-estima
  desvalorizada, tende a perceber os outros com esta
  perspectiva.
• Por vezes, como na identificação com o agressor, há uma
  tentativa desesperada de salvar sua auto-estima,
  desvalorizando os outros.


Dissociação
• A parte da personalidade considerada má (parte infligida
  pelo adulto) é desesperadamente projetada em outras
  pessoas e, em seu lugar, é substituída pela identificação
  com o agressor.
• A parte da personalidade que a criança ainda considera
  boa se torna onisciente e insensível – se distanciam de
  suas experiências afetivas.
• Sentimentos como raiva, tristeza, vergonha e insegurança
  são evitados – mantém uma existência inconsciente.




Narcisismo
• Todos nós, ao longo de nossa vida, integramos as
  qualidades boas e ruins, o bom e o mau, de nós mesmos e
  dos outros afim de uma visão mais completa e realística
  de nós e dos outros.
• Do contrário, tendemos a ver as qualidades de modo
  muito parcial – ou é bom ou é mau.
• A “visão” parcial é o que acontece com a criança
  traumatizada – tende a ser mais extremista e emotiva
  demais.




Divisão em bom e mau
• A criança fica mais desconfiada (paranóide) e isolada
  (“na dela”/esquizóide).
• Dentro de sua mente, a tendência é de muito medo de que
  o “mau” do outro ataque (e destrua) o que ela tem de
  bom.




Visão parcial
• Vendo de vários ângulos (maior capacidade intelectual)
  há maior integração das qualidades boas e más – ao ver a
  si mesma e a outra pessoa.
• Esta integração leva a relacionamentos mais confiantes.
• Assim o lado amoroso (bom) da criança supera o ódio, o
  amor mitiga o ódio.
• Dentro de sua mente, a criança fica ansiosa com medo de
  fazer mal ao “bom” existente na outra pessoa, há maior
  sentimento de culpa e tentativa de resolver com a
  reparação de um possível dano ao outro.



Visão completa
• O ressentimento – não esquecimento emocional da
  situação traumática – justifica a agressividade como um
  direito à destruição que busca o reconhecimento de que
  uma injustiça foi cometida, assim como busca uma
  compensação por essa injustiça.
• O ressentimento tem um sentido negativo deixando o
  sujeito paranóide com os outros, mas também um sentido
  que em parte é considerado positivo pelo indivíduo: ajuda
  o indivíduo a se organizar e a prevenir o que um dia foi
  ruim.
• Essa evitação de que algo ruim se repita pode deixar o
  indivíduo em ‘modo de espera’ e consequente repetição
  atenuada do trauma dentro de seu psiquismo.

Re-sentimento
• É um acontecimento que pela sua intensidade emocional
  provoca um afluxo excessivo de sentimentos humilhantes
  (que se alternam com os hostis); e a criança é incapaz de
  tolerá-los e dominá-los.




Definindo TRAUMA
• A inteligência é desenvolvida com o crescimento da
  criança.
• A noção que temos de inteligência é a de aumento das
  possibilidades (abstração do pensamento).
• Os símbolos (como um número, uma letra, uma nota
  musical, etc.) aumentam e qualificam a comunicação
  entre humanos.
• É de se supor que aumenta e qualifica a comunicação do
  indivíduo consigo mesmo.
• Quanto maior a cultura (quantidade de símbolos) maiores
  são as possibilidades.
• Em grupo muitos animais, como os humanos, sobrevivem
  melhor devido à troca de informações.
Pensamento abstrato
• Com o crescimento, a criança mantém as memórias,
  sentimentos e afetos vivenciados anteriormente. Servem
  de base (sua cultura) para as próximas vivências.
• No entanto, com o aumento da inteligência com o
  crescimento do seu cérebro, há uma maior abstração das
  vivências (imagens, sentimentos e afetos) – através do
  simbolismo.
• A capacidade de formação de um símbolo é o que torna
  um pensamento imediatista ou concreto, em abstrato.

Da “verdade” para a
abstração
“a criança em crescimento, quando pára de brincar, se
abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela
agora fantasia. Constrói castelos no ar e cria o que
chamamos de devaneios.”

              S. Freud – Escritores criativos e devaneios (1908)




Nas palavras de Freud
• Para a criança que não pôde nomear a experiência afetiva e,
  ainda, vê-la desqualificada por um adulto confiável, resta a
  concretude do episódio traumático – com um peso
  emocional que excede a capacidade de pensamento da
  criança, falhando a abstração.
• A criança fica emotiva em excesso - essa emoção é sua
  única realidade, não contrabalanceada com o pensamento.
• A palavra poderia ter dado sentido à situação dolorosa,
  evitando a cisão (divisão, quebra) entre a capacidade de
  compreensão da criança e o que ela presenciou.
• Com a cisão, o sintoma (emotividade como única realidade
  possível) encobre a possibilidade de pensamento abstrato
  (sem palavras) e se transforma na única forma de expressão
  que o indivíduo dispõe.
De volta ao TRAUMA
• Podemos dizer que a experiência traumática permanece
  no psiquismo como um corpo estranho, não é pensada
  apropriadamente, causando uma repetição da percepção
  traumática.
• No adulto podemos entender como infantil o que, na vida
  psíquica, não encontrou possibilidades de elaboração
  (processamento/metabolização/mentalização/conscientiza
  ção) e de historização – fica à deriva e, por isso,
  destinado a impor-se na forma da repetição.




Compulsão à repetição
“é como se os pacientes não tivessem findado com a
situação traumática, como se ainda estivessem
enfrentando-a como tarefa imediata, não executada.”

       S. Freud – Fixação em traumas – o inconsciente (1917)




Compulsão à repetição
• Inicialmente a criança imatura mantém uma dependência
  confiante com um adulto.
• Num segundo momento, esse adulto contraria as
  expectativas da criança, faz com ela algo doloroso,
  ameaçador ou sexualmente excitante.
• Em um terceiro momento, o adulto recusa à criança o
  reconhecimento, compreensão e conforto em relação ao
  ocorrido anteriormente.




Fases do trauma
• O trauma não pertence apenas ao que aconteceu, mas
  também ao que “não aconteceu” porque faltou o encontro
  da criança com um adulto saudável – o encontro de suas
  mentes – para o desenvolvimento psíquico sadio.

• Talvez as vivências “traumaticamente interrompidas”
  devam desta vez, na interação atual com o terapeuta,
  serem “vividas até o fim”.

• Desta vez com reconhecimento, compreensão e conforto
  em relação ao ocorrido anteriormente.



Compensar as faltas
• No trauma, a criança é incapaz de dar sentido e integrar
  sua realidade psíquica. Ocorre uma alienação em relação
  à sua identidade proveniente de si mesma.

• No mundo interno, a ausência de comunicação ou
  substancialidade psíquica sugere que algo traumático
  ocorreu.

• Se não existe um espaço onde a experiência pode ser
  representada (simbolizada) e, assim, ponderada, cabe ao
  terapeuta dar sustento a um processo de restabelecimento
  da comunicação do paciente com ele próprio e, dessa
  forma, com as outras pessoas.
Conter a substância
• De acordo com as próprias memórias e dinâmicas
  afetivas, cada pessoa interpreta os eventos traumáticos de
  forma diferente.

• O paciente pode se tornar consciente do papel e lugar
  comum entre os eventos traumáticos e enredos
  emocionais mais antigos, possibilitando a escolha de
  ações mais saudáveis.

• Enquanto novos diálogos internos resilientes se
  fortalecem, o paciente desarticula padrões patológicos.



Diálogos resilientes
• Freud diz que da memória enlutada surge o espírito como
  aptidão do intelecto para discernir, discriminar e exercer
  com lucidez frente a cada situação – com significativa
  independência tanto em relação à pressão que vem do
  mundo interno, como em relação à percepção imediata
  dos sentidos.

• Este pode ser o caráter estruturante do evento traumático,
  com sua retomada num outro momento, impregnada de
  culpa e luto, com o ato brutal sendo dito como
  linguagem.
• A linguagem não nega o trauma, mas cria memórias onde
  se aglomeram os desejos e o intelecto do homem que
  então pode se estabelecer no discernimento e na lucidez.
Talking cure
• O indivíduo traumatizado apresenta uma área mental separada
  e evitada, tal qual um corpo estranho, onde a identificação com
  o agressor e o pensamento concreto são os manejos possíveis.
• O trabalho terapêutico pode ser a transição desta condição para
  outra em que a memória traumática permanece como parte de
  um todo maior, capaz de ser contemplada sem um flashback.
• A vida pós-trauma pode até ser melhor em alguns aspectos, na
  medida em que o indivíduo compreende melhor a realidade e
  adquire maior reconhecimento do valor de boas relações com
  os outros.
• O passado, o presente e o futuro podem ser novamente
  sentidos e percebidos com um pensamento flexível e criativo.


Flexível e criativo
Trauma
Trauma
Trauma
Trauma

Trauma

  • 1.
  • 2.
    • Formamos nossasmemórias partindo de nossa percepção do mundo externo. • Ao mesmo tempo, nossas percepções acham-se ligadas à nossa memória – e chamamos isso de associação. • Associamos nossa percepção do mundo com as memórias e afetos que já estão incorporados em nosso psiquismo. • Percebemos o mundo externo a partir de uma perspectiva própria, criada na nossa história pregressa. Determinismo psíquico
  • 3.
    • O quese torna dominante na consciência da criança é o que pode se pensar como idéias “adequadas”, aquelas que vão bem com a visão que temos de nós mesmos, como preferíamos ser. • A identificação ou espelhamento é importante. • São idéias socialmente sancionadas que vão bem com nossos próprios valores, padrões e moralidade. Consciência
  • 4.
    • Na infância,assim como surgem sentimentos de ofensa (ferida narcísica) e consequente raiva (solução narcísica), há também uma tendência de sentimentos sexuais surgirem – em situações socialmente inapropriadas ou dirigidos a pessoas inadequadas ao envolvimento romântico. • Estes impulsos de natureza sexual são evitados por também ocasionarem desprazer na criança, por irem contra o que é mais dominante em sua mente. Surgem então sentimentos como nojo, vergonha, repugnância e moralidade. Sentimentos e afetos
  • 5.
    • Desejos –pensamentos impulsionados por sentimentos hostis ou sexuais – não aceitos pela consciência da criança, se tornam inconscientes pela criança que os vivenciou. • Não desaparecem, mas são dissociados de sua consciência – através de mecanismos de defesa da mente. • Estes desejos podem envolver encenações de sentimentos hostis, humilhação ou excitação sexual. Vontade infantil
  • 6.
    • Estes desejosdisfarçados por mecanismos de defesa atuam “por detrás” do pensamento consciente. • Mesmo durante a vigília (pessoa consciente) essa mente inconsciente nos influencia – e também podem enviesar ou comandar nossas fantasias conscientes (ou “sonhos diurnos”). O inconsciente durante a vigília
  • 7.
    • Através daatenção dada ao mundo interno, as imagens e sensações conscientes e inconscientes podem ser decompostas em sua matéria-prima – nas imagens sensoriais das quais tiveram origem. • Desta forma, temos acesso a um fato que deu à personalidade daquele paciente um sentido ou direção. • Então, analisar seria diluir, decompor o psiquismo do indivíduo nas imagens sensoriais das quais se desenvolveu. Análise (promover insight)
  • 8.
    • Significado: lesãocausada por um agente externo. • Esse conceito migrou ao campo psicológico - e um trauma psíquico ocorre quando as defesas psicológicas naturais são transgredidas. • Situações traumáticas comuns na literatura psicanalítica: ofensas realizadas de forma crônica por um adulto do ambiente da criança e, também, abuso sexual na infância. Trauma
  • 9.
    • Inicialmente acriança imatura mantém uma dependência confiante com um adulto. • Num segundo momento, esse adulto contraria as expectativas da criança, faz com ela algo doloroso, ameaçador ou sexualmente excitante. • Em um terceiro momento, o adulto recusa à criança o reconhecimento, compreensão e conforto em relação ao ocorrido anteriormente. Fases do trauma
  • 10.
    • O traumaé um fracasso relativo à dependência da criança: o adulto fracassou em desempenhar sua função. • Experiências traumáticas seriam estimulações de hostilidade ou sedução alternadas com privações (ausência de conforto e entendimento) – principalmente as estimulações repetidas e crônicas, impostas intencionalmente sobre a vítima. • O tempo é fator importante: quanto mais cedo ocorre, mais a criança será atingida e maior será o dano. Patogênese
  • 11.
    • A forçada personalidade em formação é determinante com relação ao destino dos componentes introjetados: o indivíduo que sofreu o trauma pode não se conduzir sempre como vítima, pode se identificar com o agressor e mantém as encenações dolorosas, mas de forma invertida. • Se protege da humilhação, mas sem dar cabo de sua existência, que continuará presente – só que longe da consciência. • Nessa identificação (espelhamento) há forte sentido de justeza e retidão com que repetirá aquelas situações, talvez na esperança de que “desta vez” sejam boas. Identificação com o agressor
  • 12.
    • Um componentehostil pode passar de geração em geração numa mesma família. • O adulto identificado com um agressor livra-se de situações traumáticas do seu passado, empurrando uma humilhação sentida por ele pra dentro da criança. • A criança, que devido à sua posição de dependência, submissão, identificação e desamparo, recebe o material para restabelecer a harmonia familiar e sua posição de ternura infantil. • Não podendo abrir mão da ternura, e de forma muito sugestionável, a criança se identifica mesmo em situações de agressão, tende a assumir o que esperam dela, com o intuito de fazer parte dessa teia familiar. Transgeracionalidade
  • 13.
    • Os traumasinfantis ocasionados pelos cuidadores podem permanecerem ocultos pelas idealizações deles, pois a criança depende do amor dos seus cuidadores e, também, pode assumir a culpa pelo que os cuidadores idealizados fizeram. • A criança emudece diante do silêncio requerido pelo adulto. • A criança vulnerável sente o descaso, a humilhação, a coerção e a insensibilidade diante do sofrimento que, mais tarde, podem ser manifestados por sintomas sadomasoquistas. Auto-estima diminuída e vergonha
  • 14.
    • Sedução infantilé uma cena sexual em que um sujeito vale- se de seu poder para abusar de uma criança que fica reduzida a uma posição passiva – uma relação entre o carrasco e a vítima, dominador e dominado. • A personalidade imatura está pobremente equipada para lidar com seus concomitantes emocionais. • A criança raramente diferencia suas próprias necessidades das do adulto e da sensação que ele produz. • Pode se formar como uma promessa de prazer, para depois apropriar-se do que pôde gozar muito parcialmente na situação original. Sedução infantil
  • 15.
    • No abuso,as necessidades do adulto prevalecem sobre as da criança que se vê, dessa forma, ignorada e até denegada (contestada, recusada). • Essa denegação refere-se tanto às experiências emocionais da criança, quanto ao seu processo de pensamento. • A desqualificação por parte do adulto acarreta agonia psíquica e a divisão (dissociação) da personalidade da criança. Abuso
  • 16.
    • A dissociaçãoé uma personalidade múltipla, fuga ou amnésia; desencadeada por acontecimentos dolorosos ou conduta hostil, provocando uma alteração transitória da consciência, memória, percepção e identidade. • A criança dissociada põe em dúvida suas qualidades e a boa imagem de si mesma. • Com a identidade fragmentada e a auto-estima desvalorizada, tende a perceber os outros com esta perspectiva. • Por vezes, como na identificação com o agressor, há uma tentativa desesperada de salvar sua auto-estima, desvalorizando os outros. Dissociação
  • 17.
    • A parteda personalidade considerada má (parte infligida pelo adulto) é desesperadamente projetada em outras pessoas e, em seu lugar, é substituída pela identificação com o agressor. • A parte da personalidade que a criança ainda considera boa se torna onisciente e insensível – se distanciam de suas experiências afetivas. • Sentimentos como raiva, tristeza, vergonha e insegurança são evitados – mantém uma existência inconsciente. Narcisismo
  • 18.
    • Todos nós,ao longo de nossa vida, integramos as qualidades boas e ruins, o bom e o mau, de nós mesmos e dos outros afim de uma visão mais completa e realística de nós e dos outros. • Do contrário, tendemos a ver as qualidades de modo muito parcial – ou é bom ou é mau. • A “visão” parcial é o que acontece com a criança traumatizada – tende a ser mais extremista e emotiva demais. Divisão em bom e mau
  • 19.
    • A criançafica mais desconfiada (paranóide) e isolada (“na dela”/esquizóide). • Dentro de sua mente, a tendência é de muito medo de que o “mau” do outro ataque (e destrua) o que ela tem de bom. Visão parcial
  • 20.
    • Vendo devários ângulos (maior capacidade intelectual) há maior integração das qualidades boas e más – ao ver a si mesma e a outra pessoa. • Esta integração leva a relacionamentos mais confiantes. • Assim o lado amoroso (bom) da criança supera o ódio, o amor mitiga o ódio. • Dentro de sua mente, a criança fica ansiosa com medo de fazer mal ao “bom” existente na outra pessoa, há maior sentimento de culpa e tentativa de resolver com a reparação de um possível dano ao outro. Visão completa
  • 21.
    • O ressentimento– não esquecimento emocional da situação traumática – justifica a agressividade como um direito à destruição que busca o reconhecimento de que uma injustiça foi cometida, assim como busca uma compensação por essa injustiça. • O ressentimento tem um sentido negativo deixando o sujeito paranóide com os outros, mas também um sentido que em parte é considerado positivo pelo indivíduo: ajuda o indivíduo a se organizar e a prevenir o que um dia foi ruim. • Essa evitação de que algo ruim se repita pode deixar o indivíduo em ‘modo de espera’ e consequente repetição atenuada do trauma dentro de seu psiquismo. Re-sentimento
  • 22.
    • É umacontecimento que pela sua intensidade emocional provoca um afluxo excessivo de sentimentos humilhantes (que se alternam com os hostis); e a criança é incapaz de tolerá-los e dominá-los. Definindo TRAUMA
  • 23.
    • A inteligênciaé desenvolvida com o crescimento da criança. • A noção que temos de inteligência é a de aumento das possibilidades (abstração do pensamento). • Os símbolos (como um número, uma letra, uma nota musical, etc.) aumentam e qualificam a comunicação entre humanos. • É de se supor que aumenta e qualifica a comunicação do indivíduo consigo mesmo. • Quanto maior a cultura (quantidade de símbolos) maiores são as possibilidades. • Em grupo muitos animais, como os humanos, sobrevivem melhor devido à troca de informações. Pensamento abstrato
  • 24.
    • Com ocrescimento, a criança mantém as memórias, sentimentos e afetos vivenciados anteriormente. Servem de base (sua cultura) para as próximas vivências. • No entanto, com o aumento da inteligência com o crescimento do seu cérebro, há uma maior abstração das vivências (imagens, sentimentos e afetos) – através do simbolismo. • A capacidade de formação de um símbolo é o que torna um pensamento imediatista ou concreto, em abstrato. Da “verdade” para a abstração
  • 25.
    “a criança emcrescimento, quando pára de brincar, se abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constrói castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios.” S. Freud – Escritores criativos e devaneios (1908) Nas palavras de Freud
  • 26.
    • Para acriança que não pôde nomear a experiência afetiva e, ainda, vê-la desqualificada por um adulto confiável, resta a concretude do episódio traumático – com um peso emocional que excede a capacidade de pensamento da criança, falhando a abstração. • A criança fica emotiva em excesso - essa emoção é sua única realidade, não contrabalanceada com o pensamento. • A palavra poderia ter dado sentido à situação dolorosa, evitando a cisão (divisão, quebra) entre a capacidade de compreensão da criança e o que ela presenciou. • Com a cisão, o sintoma (emotividade como única realidade possível) encobre a possibilidade de pensamento abstrato (sem palavras) e se transforma na única forma de expressão que o indivíduo dispõe. De volta ao TRAUMA
  • 27.
    • Podemos dizerque a experiência traumática permanece no psiquismo como um corpo estranho, não é pensada apropriadamente, causando uma repetição da percepção traumática. • No adulto podemos entender como infantil o que, na vida psíquica, não encontrou possibilidades de elaboração (processamento/metabolização/mentalização/conscientiza ção) e de historização – fica à deriva e, por isso, destinado a impor-se na forma da repetição. Compulsão à repetição
  • 28.
    “é como seos pacientes não tivessem findado com a situação traumática, como se ainda estivessem enfrentando-a como tarefa imediata, não executada.” S. Freud – Fixação em traumas – o inconsciente (1917) Compulsão à repetição
  • 29.
    • Inicialmente acriança imatura mantém uma dependência confiante com um adulto. • Num segundo momento, esse adulto contraria as expectativas da criança, faz com ela algo doloroso, ameaçador ou sexualmente excitante. • Em um terceiro momento, o adulto recusa à criança o reconhecimento, compreensão e conforto em relação ao ocorrido anteriormente. Fases do trauma
  • 30.
    • O traumanão pertence apenas ao que aconteceu, mas também ao que “não aconteceu” porque faltou o encontro da criança com um adulto saudável – o encontro de suas mentes – para o desenvolvimento psíquico sadio. • Talvez as vivências “traumaticamente interrompidas” devam desta vez, na interação atual com o terapeuta, serem “vividas até o fim”. • Desta vez com reconhecimento, compreensão e conforto em relação ao ocorrido anteriormente. Compensar as faltas
  • 31.
    • No trauma,a criança é incapaz de dar sentido e integrar sua realidade psíquica. Ocorre uma alienação em relação à sua identidade proveniente de si mesma. • No mundo interno, a ausência de comunicação ou substancialidade psíquica sugere que algo traumático ocorreu. • Se não existe um espaço onde a experiência pode ser representada (simbolizada) e, assim, ponderada, cabe ao terapeuta dar sustento a um processo de restabelecimento da comunicação do paciente com ele próprio e, dessa forma, com as outras pessoas. Conter a substância
  • 32.
    • De acordocom as próprias memórias e dinâmicas afetivas, cada pessoa interpreta os eventos traumáticos de forma diferente. • O paciente pode se tornar consciente do papel e lugar comum entre os eventos traumáticos e enredos emocionais mais antigos, possibilitando a escolha de ações mais saudáveis. • Enquanto novos diálogos internos resilientes se fortalecem, o paciente desarticula padrões patológicos. Diálogos resilientes
  • 33.
    • Freud dizque da memória enlutada surge o espírito como aptidão do intelecto para discernir, discriminar e exercer com lucidez frente a cada situação – com significativa independência tanto em relação à pressão que vem do mundo interno, como em relação à percepção imediata dos sentidos. • Este pode ser o caráter estruturante do evento traumático, com sua retomada num outro momento, impregnada de culpa e luto, com o ato brutal sendo dito como linguagem. • A linguagem não nega o trauma, mas cria memórias onde se aglomeram os desejos e o intelecto do homem que então pode se estabelecer no discernimento e na lucidez. Talking cure
  • 34.
    • O indivíduotraumatizado apresenta uma área mental separada e evitada, tal qual um corpo estranho, onde a identificação com o agressor e o pensamento concreto são os manejos possíveis. • O trabalho terapêutico pode ser a transição desta condição para outra em que a memória traumática permanece como parte de um todo maior, capaz de ser contemplada sem um flashback. • A vida pós-trauma pode até ser melhor em alguns aspectos, na medida em que o indivíduo compreende melhor a realidade e adquire maior reconhecimento do valor de boas relações com os outros. • O passado, o presente e o futuro podem ser novamente sentidos e percebidos com um pensamento flexível e criativo. Flexível e criativo