Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro EDGAR  MORIN Uma síntese para debate elaborada por Sérgio Luís Boeira
Apresentação O texto a seguir é um pequeno artigo de divulgação para suscitar o debate e especialmente a leitura detalhada de uma obra cuja versão inicial foi submetida a críticas de personalidades universitárias de todo o mundo. Trata-se em parte de uma obra coletiva, portanto, com apoio institucional da UNESCO.
Os sete saberes necessários à educação do futuro, de acordo com Edgar Morin (2000), são os que tratam dos seguintes tópicos:
1- As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão 2- Os princípios do conhecimento pertinente 3- Ensinar a condição humana 4- Ensinar a identidade terrena 5- Enfrentar as incertezas 6- Ensinar a compreensão 7- A ética do gênero humano
1-Trata-se de “armar cada mente no combate vital rumo à lucidez” (Op.cit, p. 14), ou seja: é necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão;
2- Trata-se de desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas as informações em um contexto e um conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo (Op.cit., p.14);
3- Trata-se de reconhecer que o ser humano é simultaneamente físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico, e que esta unidade complexa da natureza humana é totalmente desintegrada na educação contemporânea por meio das disciplinas. Cabe, portanto, mostrar como é possível, com base nas disciplinas atuais, reconhecer a unidade e a complexidade humanas;
4- Trata-se de ensinar a história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, e mostrar como todas as partes do mundo se tornaram solidárias, sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação. Será preciso indicar a complexidade da crise planetária, mostrando que todos os seres humanos, confrontados com problemas comuns de vida e de morte, partilham um destino comum (Op.cit., p.16);
5- Trata-se de ensinar os princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. “É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza” (Op.cit., p. 16).
6- Trata-se de reconhecer que, embora a compreensão seja meio e fim da comunicação humana, a educação para a compreensão está ausente do ensino convencional. Precisamos reconhecer a necessidade da compreensão mútua. Disto decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e efeitos, enfocando não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Isto seria uma das bases mais seguras da educação para a paz (Op.cit., p.17).
7- Trata-se de levar em consideração o caráter ternário da condição humana, que é ser simultaneamente indivíduo/sociedade/espécie. Nesse sentido, escreve Morin, a ética indivíduo/espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética indivíduo/espécie convoca, ao século XXI, a cidadania terrestre.
Além disso, a ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o ser humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade e parte da espécie. Todo o desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana.
Por isso esboçam-se duas grandes finalidades ético-políticas do novo milênio: estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conceber a Humanidade como comunidade planetária.  “ A educação deve contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa  Terra-Pátria , mas também permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania terrena (Op.cit., p.18).
A  antropolítica  requer a compreensão complexa da condição humana, das interações entre os seus diversos aspectos (cerebral, cultural, físico, histórico, biológico, social e psíquico), de sua inserção em diversos âmbitos (indivíduo, sociedade e espécie) e do enfrentamento de diversos obstáculos, como a fragmentação do conhecimento e a incapacidade de percepção de interação entre o todo e as partes;
Sem uma reforma do pensamento humano e uma mudança de paradigma nas ciências e nas políticas públicas, a abordagem dos desafios socioambientais manter-se-á muito limitada e incapaz de viabilizar um redirecionamento salutar e durável nas relações entre as organizações/sociedades humanas e seus ecossistemas.
Esta limitação é perceptível no tratamento dos efeitos e problemas decorrentes das formas dominantes de organização, bem como no fraco interesse institucional e na incapacidade de prevenção e formulação de políticas destinadas a viabilizar a auto-eco-organização individual e coletiva.
A antropolítica proposta pelo autor requer simultaneamente uma  geração  de mais democracia e uma  regeneração  da democracia existente, além da  invenção  de uma democracia planetária, com a  realização  da Humanidade a partir da  antropoética  (ou ética da espécie humana).
A geração da democracia é necessária como resistência diante dos totalitarismos e das arbitrariedades, a partir das brechas do poder nas organizações públicas e privadas; a regeneração da democracia existente faz-se necessária como forma de elevação da qualidade da espécie, da sociedade e dos indivíduos em suas relações humanas, nas suas capacidades de conhecer, de compreender e de realizar a Humanidade em si, como legado para as futuras gerações.
Por fim, a invenção de uma democracia planetária requer a percepção do destino humano comum entre as várias nações e continentes, a disposição para forjar instituições globais voltadas para a educação e cidadania terrenas, com o concomitante desenvolvimento de uma cultura política planetária, complementar às culturas políticas comunitárias e societárias.
Sérgio Luís Boeira é doutor em ciências humanas (UFSC) e professor na UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí). E-mail:  [email_address]   Fonte bibliográfica MORIN, Edgar.  Os sete saberes necessários à educação do futuro . São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000 (118 páginas).

Sete saberesnecessrioseducaodofuturo

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    Sete Saberes Necessáriosà Educação do Futuro EDGAR MORIN Uma síntese para debate elaborada por Sérgio Luís Boeira
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    Apresentação O textoa seguir é um pequeno artigo de divulgação para suscitar o debate e especialmente a leitura detalhada de uma obra cuja versão inicial foi submetida a críticas de personalidades universitárias de todo o mundo. Trata-se em parte de uma obra coletiva, portanto, com apoio institucional da UNESCO.
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    Os sete saberesnecessários à educação do futuro, de acordo com Edgar Morin (2000), são os que tratam dos seguintes tópicos:
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    1- As cegueirasdo conhecimento: o erro e a ilusão 2- Os princípios do conhecimento pertinente 3- Ensinar a condição humana 4- Ensinar a identidade terrena 5- Enfrentar as incertezas 6- Ensinar a compreensão 7- A ética do gênero humano
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    1-Trata-se de “armarcada mente no combate vital rumo à lucidez” (Op.cit, p. 14), ou seja: é necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão;
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    2- Trata-se dedesenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas as informações em um contexto e um conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo (Op.cit., p.14);
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    3- Trata-se dereconhecer que o ser humano é simultaneamente físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico, e que esta unidade complexa da natureza humana é totalmente desintegrada na educação contemporânea por meio das disciplinas. Cabe, portanto, mostrar como é possível, com base nas disciplinas atuais, reconhecer a unidade e a complexidade humanas;
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    4- Trata-se deensinar a história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, e mostrar como todas as partes do mundo se tornaram solidárias, sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação. Será preciso indicar a complexidade da crise planetária, mostrando que todos os seres humanos, confrontados com problemas comuns de vida e de morte, partilham um destino comum (Op.cit., p.16);
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    5- Trata-se deensinar os princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. “É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza” (Op.cit., p. 16).
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    6- Trata-se dereconhecer que, embora a compreensão seja meio e fim da comunicação humana, a educação para a compreensão está ausente do ensino convencional. Precisamos reconhecer a necessidade da compreensão mútua. Disto decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e efeitos, enfocando não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Isto seria uma das bases mais seguras da educação para a paz (Op.cit., p.17).
  • 11.
    7- Trata-se delevar em consideração o caráter ternário da condição humana, que é ser simultaneamente indivíduo/sociedade/espécie. Nesse sentido, escreve Morin, a ética indivíduo/espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética indivíduo/espécie convoca, ao século XXI, a cidadania terrestre.
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    Além disso, aética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o ser humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade e parte da espécie. Todo o desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana.
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    Por isso esboçam-seduas grandes finalidades ético-políticas do novo milênio: estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conceber a Humanidade como comunidade planetária. “ A educação deve contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa Terra-Pátria , mas também permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania terrena (Op.cit., p.18).
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    A antropolítica requer a compreensão complexa da condição humana, das interações entre os seus diversos aspectos (cerebral, cultural, físico, histórico, biológico, social e psíquico), de sua inserção em diversos âmbitos (indivíduo, sociedade e espécie) e do enfrentamento de diversos obstáculos, como a fragmentação do conhecimento e a incapacidade de percepção de interação entre o todo e as partes;
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    Sem uma reformado pensamento humano e uma mudança de paradigma nas ciências e nas políticas públicas, a abordagem dos desafios socioambientais manter-se-á muito limitada e incapaz de viabilizar um redirecionamento salutar e durável nas relações entre as organizações/sociedades humanas e seus ecossistemas.
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    Esta limitação éperceptível no tratamento dos efeitos e problemas decorrentes das formas dominantes de organização, bem como no fraco interesse institucional e na incapacidade de prevenção e formulação de políticas destinadas a viabilizar a auto-eco-organização individual e coletiva.
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    A antropolítica propostapelo autor requer simultaneamente uma geração de mais democracia e uma regeneração da democracia existente, além da invenção de uma democracia planetária, com a realização da Humanidade a partir da antropoética (ou ética da espécie humana).
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    A geração dademocracia é necessária como resistência diante dos totalitarismos e das arbitrariedades, a partir das brechas do poder nas organizações públicas e privadas; a regeneração da democracia existente faz-se necessária como forma de elevação da qualidade da espécie, da sociedade e dos indivíduos em suas relações humanas, nas suas capacidades de conhecer, de compreender e de realizar a Humanidade em si, como legado para as futuras gerações.
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    Por fim, ainvenção de uma democracia planetária requer a percepção do destino humano comum entre as várias nações e continentes, a disposição para forjar instituições globais voltadas para a educação e cidadania terrenas, com o concomitante desenvolvimento de uma cultura política planetária, complementar às culturas políticas comunitárias e societárias.
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    Sérgio Luís Boeiraé doutor em ciências humanas (UFSC) e professor na UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí). E-mail: [email_address] Fonte bibliográfica MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro . São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000 (118 páginas).