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Ciência e construção – validade e
verificabilidade das hipóteses
Conjunto de procedimentos, orientados por um conjunto de regras, que estabelecem a
ordem das operações a realizar com vista a atingir um determinado resultado.
Especificidade metodológica
da ciência
A escolha de um método está dependente do objeto de estudo.
O método permite distinguir aquilo que é
conhecimento científico do que não pode ser
considerado como tal.
MÉTODO
Problema da
demarcação
Procura do
critério de
cientificidade
•Quais são os procedimentos (o método) que o cientista deve
adotar para obter resultados científicos?
•Como podemos reconhecer uma teoria científica?
•Qual o critério a adotar na validação das teorias científicas?
•Será que o método é suficiente para garantir a cientificidade do
conhecimento?
A conceção indutivista do método
científico
Lei
Experimentação
Formulação de
hipóteses
Perspetiva epistemológica que salienta a importância da indução para a ciência, quer
ao nível das descobertas científicas, quer ao nível da justificação das teorias.
INDUTIVISMO
O conhecimento científico deve fundar-se na indução e na
experimentação e não na metafísica e na especulação.
Francis Bacon
(1561-1626)
A atividade científica obedece à seguinte lógica de procedimentos:
Observação
Operações fundamentais do método científico – indutivismo
O cientista observa os factos ou fenómenos e
regista-os de forma sistematizada para
procurar encontrar as suas causas. A
observação é neutra, isenta, rigorosa,
objetiva e imparcial, devendo ser repetida
várias vezes. A observação precede a teoria.
Exemplo:
Observo que as folhas das
plantas a, b, c, d, e, f e g são
verdes.
1. Observação dos
fenómenos
Por meio da comparação e classificação dos
casos observados, o investigador procura
aproximar os factos para descobrir a relação
existente entre eles. Assim, recorrendo à
indução, ele parte para a formulação da
hipótese, explicação geral acerca dos
fenómenos e das suas relações. Procura-se
inferir um enunciado geral a partir de
enunciados particulares ou singulares.
Exemplo:
Existe uma substância em todas
as folhas verdes das plantas que
lhes confere essa cor.
2. Formulação da
hipótese
Contexto de descoberta
(diz respeito à maneira como ocorreu a descoberta)
A experimentação é o processo de confirmação da hipótese explicativa enunciada.
Esta terá de ser testada e, confirmando-se o que ela propõe, pode passar a lei
científica.
A experimentação é fundamental para que se possa verificar ou confirmar se as
relações estabelecidas são aplicáveis a todo o tipo de fenómenos semelhantes (isto
é, nas mesmas condições e da mesma natureza), mesmo sem que tenham sido
observados um por um.
3.
Experimentação /
verificação
experimental
Recorrendo, uma vez mais, à indução, o
cientista generaliza a relação encontrada entre
os factos semelhantes, traduzindo-a numa lei
que expressa as relações constantes entre
esses factos.
Exemplo:
Todas as folhas verdes possuem
uma substância – a clorofila –
que lhes confere essa cor.
4.
Estabelecimento
da lei geral
Contexto de justificação
(refere-se ao modo como se justificam os resultados obtidos na descoberta)
EXPERIMENTAÇÃO
Princípio da
acumulação
Princípio da indução
Princípio de
confirmação
Enunciados do indutivismo
É fundamental para que se possa verificar e confirmar se as relações
estabelecidas são aplicáveis a fenómenos semelhantes.
O conhecimento
científico é o resultado de
factos bem estabelecidos,
a que progressivamente
se acrescentaram outros
sem alteração daqueles.
Há uma forma de, a partir
da acumulação de factos
singulares, inferir
enunciados universais.
Articula a plausibilidade
das leis com o número de
instâncias a que o
fenómeno a que se refere
a lei foi submetido.
O critério da verificabilidade
Passo necessário para assegurar os resultados da investigação.
Qual o critério que permite demarcar o conhecimento
científico de outros tipos de conhecimento?
Uma teoria é científica apenas se consistir em
afirmações que sejam empiricamente verificáveis, ou
seja, apenas se for possível verificar empiricamente
(através da experiência) aquilo que ela propõe.
Critério da
verificabilidade
Problema da
demarcação
Filósofos
neopositivistas
Verificação da hipótese
Mas será que isto é suficiente para garantir que determinada
hipótese é de facto de uma (boa) hipótese ou teoria científica?
Proposição empiricamente
verificável
“Neptuno possui 14 satélites
naturais.”
O que aqui se afirma pode ser
verificado pela observação
empírica.
“Há um anjo negro à entrada
da sétima dimensão.”
Não se pode verificar
empiricamente o que aqui se
afirma.
Proposição cujo valor de verdade pode ser estabelecido
através da observação e da experiência.
Mas será que as teorias e as leis propostas pelos
cientistas podem ser realmente verificadas?
“Há corvos negros.”
Esta proposição é verificável:
podemos verificar aquilo que ela
afirma de cada vez que se vê um
corvo. Se o corvo for negro, a
proposição é verdadeira..
“Todos os corvos são negros.”
Aquilo que nesta proposição se
afirma não pode ser estritamente
verificado de forma universal, pois
é impossível saber a cor de todos
os corvos que existiram no
passado, que existem e que
existirão no futuro.
Problema da indução
Alguns filósofos neopositivistas afirmam,
porém, que basta que os enunciados sejam
empiricamente confirmáveis
Não exige uma verificação conclusiva, ajustando-se assim às
generalizações próprias das leis científicas e permitindo, mediante
uma verificação empírica parcial, estabelecer "graus de
confirmação" numa base probabilística.
Critério da
confirmabilidade
confirmação da teoria
Este processo é também inconclusivo: pode sempre aparecer uma
observação que ponha em causa a hipótese geral.
Críticas ao indutivismo
Críticas ao indutivismo
Em muitas situações a observação não é
o ponto de partida da investigação
científica. Muitas vezes, o ponto de
partida são os problemas surgidos do
confronto entre uma observação e as
expectativas ou teorias já existentes.
Ainda que o cientista recorra à
observação, ela não é totalmente
neutra, imparcial e isenta de
pressupostos teóricos, de expectativas
face à investigação ou de preconceitos,
ocorrendo sempre num determinado
contexto.
O raciocínio indutivo não confere o rigor
lógico necessário às teorias científicas. É
o já referido problema da indução,
levantado por Hume.
O método indutivista, ligado à verificação
experimental, assenta num argumento
falacioso: se uma teoria é verdadeira,
então verifica-se o que ela prevê; ora,
verifica-se o que ela prevê; logo, essa
teoria é verdadeira. Estamos perante a
falácia da afirmação do consequente..
Problema da indução
(levantado por David Hume)
Baseamo-nos na observação de um conjunto finito de casos particulares para concluir
que todos são assim (generalização) ou que o próximo a ser observado também assim
será (previsão). Há um salto do conhecido para o desconhecido.
Confiamos na indução porque partimos do:
princípio da uniformidade da natureza: princípio de que os fenómenos se repetem e
são previsíveis ou de que o futuro se assemelha ao passado.
não constitui uma verdade necessária
(a priori), pois não pode ser justificado
pelo pensamento
não pode ser provado empiricamente: ele
decorre da experiência anterior e do
hábito, sendo igualmente estabelecido
por generalização (isto significa que
recorremos à indução para justificar a
confiança na própria indução)
Princípio da uniformidade da natureza
Decorre do hábito.
Nenhum raciocínio que se baseie em tal princípio pode
garantir rigorosamente a verdade da sua conclusão.
A couve portuguesa é rica em cálcio.
Os brócolos são ricos em cálcio.
A couve lombarda é rica em cálcio.
Logo, todos os legumes são ricos em cálcio.
Esta generalização indutiva não invalida a hipótese de
alguns legumes não serem ricos em cálcio.
Exemplo
Não é possível justificar, com rigor, aquilo que é proposto numa teoria ou lei científica que decorra da
generalização indutiva. O rigor e a verdade do conhecimento científico ficam comprometidos.
David Hume
sublinha o carácter ilusório do indutivismo
Apesar de admitir que o conhecimento científico se constrói por
indução, reconhece que ela não serve para justificar esse
conhecimento, pois não é racionalmente justificável.
Como podemos então garantir a
cientificidade do conhecimento?
Karl Popper
Propõe outro critério
de cientificidade –
falsificabilidade.
Propõe outro método
– conjeturas e
refutações.
Mostra que o
problema da indução
não tem o peso que
Hume lhe atribui.
A conceção de ciência de Popper – o
método conjetural
Karl Popper
Considera que a especificidade
metodológica da ciência não pode
assentar na indução.
Rejeita o critério da
verificabilidade e da confirmação
das hipóteses e teorias científicas
tal como proposto pelo
positivismo lógico.
A construção do conhecimento
científico faz-se através de
conjeturas e refutações.
O critério de cientificidade das
teorias é o da falsificabilidade.
CIÊNCIA
Faz-se por um processo de construção criativa de
hipóteses– conjeturas – para responder a problemas.
Ao contrário do indutivismo, Popper entende que a
observação não é o ponto de partida do cientista, nem
as teorias resultam de inferências indutivas.
A ciência parte de problemas (ou factos-problemas) e as
teorias começam por ser hipóteses explicativas e
criativas (conjeturas) que terão de ser submetidas a
testes rigorosos, tendo em vista a sua refutação.
Problema
Hipótese
(conjetura))
Testes
(refutação)
O método de conjeturas e refutações (método hipotético-dedutivo)
“Facto-problema”
Exemplo:
Constata-se que algumas crianças,
mesmo quando bem alimentadas e
sem problema de foro genético
diagnosticado, revelam um
crescimento abaixo da média.
Procura-se explicar a razão pela
qual estas crianças revelam um
baixo crescimento.
Exemplo:
Hipótese 1 – A presença em excesso da
hormona X no organismo impede o
crescimento.
O ponto de partida da investigação científica são os
problemas ou factos-problemas. Um facto-problema surge,
em geral, de conflitos decorrentes das nossas expectativas
ou das teorias já existentes. Para o resolver, o cientista terá
de propor uma explicação provisória – hipótese (ou
conjetura): momento criativo da atividade científica,
associado à intuição, à imaginação e não à indução.
1 – Formulação da
hipótese ou conjetura
1 – Formulação da hipótese ou conjetura a
partir de um facto-problema.
Hipótese
Explicação provisória de um dado fenómeno que
exige comprovação; suposição que se expressa
num enunciado antecipado sobre a natureza das
relações entre dois ou mais fenómenos.
Exemplo:
Dedução das consequências da
hipótese 1 – Se a hipótese 1 for
verdadeira, a redução ou a inibição
da produção da hormona X
promoverá o crescimento.
Depois de a hipótese ter sido formulada, são
deduzidas as suas principais consequências. Ou seja,
na prática o cientista procura prever o que pode
acontecer se a sua hipótese ou conjetura for
verdadeira.
2 – Dedução das
consequências
Exemplo:
Experiências realizadas com
ratinhos revelam que, nos grupos
em que a hormona X foi
administrada em doses
sucessivamente superiores, os
ratinhos apresentaram um
crescimento mais ou menos lento e
pouco significativo, mesmo quando
bem alimentados; já nos grupos de
ratinhos que não sofreram essa
administração, o seu crescimento
foi normal. Este resultado validou a
hipótese. Caso não tivesse validado
a hipótese, teríamos de a
reformular ou apresentar uma
nova hipótese.
Agora será necessário descobrir se as previsões que o
cientista fez estão ou não corretas: a hipótese será
testada, confrontada com a experiência. Os resultados
podem, então, mostrar o “sucesso” ou o fracasso da
conjetura proposta.
• Se for validada pela experiência, a hipótese é
considerada como credível e passará a ser
reconhecida na comunidade científica – teoria
corroborada. Mesmo assim, deverá continuar-se a
submeter essa teoria a testes, cada vez mais severos,
de falsificação.
• Se não for validada, teremos de a abandonar
ou de a reformular – teoria refutada.
3 – Experimentação
Validade das hipóteses ou conjeturas
Condições exigidas para a garantir:
É preciso criticá-las, tentar refutá-las, procurar os seus
pontos fracos, submetê-las a testes rigorosos, proceder a
várias tentativas de falsificação..
Só assim é possível o desenvolvimento
do conhecimento científico.
O crescimento do conhecimento avança de velhos para novos
problemas mediante conjeturas e refutações (K. P.).
Este método não se baseia no raciocínio indutivo, mas sim no raciocínio dedutivo.
Se a teoria P é verdadeira, então o que ela prevê (Q) ocorre.
O que ela prevê (Q) não ocorre.
Logo a teoria P não é verdadeira.
Os testes experimentais, orientados para a tentativa de falsificação,
obedecem a uma forma de inferência válida, o modus tollens:
P → Q
 Q
  P
Sendo o método científico um método crítico, o cientista
deverá ser crítico em relação às suas teorias.
O método indutivista, visando a verificação das teorias, assenta num argumento falacioso,
cometendo a falácia da afirmação do consequente
Se a teoria P é verdadeira, então o que ela prevê (Q) ocorre.
O que ela prevê (Q) ocorre.
Logo a teoria P é verdadeira.
P → Q
Q
 P
O critério da falsificabilidade
POPPER
rejeita o critério da verificabilidade
Segundo Popper, as teorias científicas não são
empiricamente verificáveis.
Para que uma hipótese venha a ser considerada credível,
é preciso procurar refutá-la ou falsificá-la.
Critério da
falsificabilidade
Uma hipótese ou teoria será científica apenas se
for empiricamente falsificável.
Uma teoria é empiricamente falsificável se, e apenas se, for incompatível
com algumas observações possíveis.
Confrontação da hipótese com a experiência
Não visa confirmar a hipótese, mas permitir testar a
resistência que ela tem face às tentativas empreendidas
para a enfraquecer, refutar ou falsificar.
O teste experimental é visto como a procura de
fenómenos que possam infirmar a hipótese.
Uma teoria científica é válida enquanto for resistindo à
tentativa de a falsificar empiricamente e é tanto mais
forte quanto mais resistir.
O enunciado «Todos os cisnes são brancos» é científico,
porque é empiricamente falsificável – para o falsificar,
basta encontrar um cisne de outra cor.
A atitude do
cientista deve ser
a de procurar
cisnes de outra
cor (para
falsificar) e não a
de procurar cisnes
brancos (para
confirmar).
Se se encontrar
um cisne de outra
cor, teremos de
abandonar e/ou
reformular o
enunciado: este
não resistiu à
falsificação e foi,
efetivamente,
falsificado.
“Surgirá no Céu uma bola de
fogo.”
Enunciado não falsificável.
“O cometa Halley aparecerá
no ano de 1986.”
Enunciado falsificável.
Uma teoria que não é
falsificável nada diz de
significativo sobre os factos.
Quanto mais uma teoria é
falsificável, mais
possibilidades o cientista tem
de descobrir falhas na sua
investigação e de propor
uma nova explicação.
Mais possibilidades de a ciência
progredir.
Enunciados
Quanto mais conteúdo empírico tiver uma teoria,
isto é, quanto mais informação nos der sobre o
mundo, maior é o seu grau de falsificabilidade.
Exemplo:
A afirmação “Todos os corpos são compostos por
átomos” tem mais conteúdo empírico e maior domínio
de aplicação (e, por isso, maior grau de falsificabilidade)
do que a afirmação “O meu corpo é composto por
átomos”.
Critério da falsificabilidade
Permite a Popper responder ao problema da
demarcação.
As teorias científicas são diferentes das não-
científicas (ou das pseudocientíficas), na
medida em que são falsificáveis.
Não pode ser falsificado.
“Todos os cisnes são brancos.”
“Deus existe.”
Não constitui um enunciado
de carácter científico.
Pode ser falsificado.
Constitui um enunciado de
carácter científico.
Críticas a Popper
Considerando a história da ciência, não parece que ela possa evoluir por meio de
conjeturas e refutações: Copérnico, Galileu ou Newton, por exemplo, não abandonaram
as suas teorias na presença de factos que aparentemente as poderiam falsificar.
O processo de refutação ou falsificação não é o
procedimento mais comum entre os cientistas.
Geralmente, eles procuram confirmar o que as
teorias científicas propõem; ainda que dada
observação implique rejeitar uma previsão, tal não
os demove de investigar no mesmo sentido.
Popper, com o critério falsificacionista, subestima o valor, para o progresso da ciência,
das previsões bem-sucedidas. É expectável que o cientista se concentre mais nas
previsões bem-sucedidas do que naquelas que são um fracasso. Estas previsões são
fundamentais para o progresso da ciência.
A perspetiva de Popper não parece valorizar o conhecimento científico associado a
resultados positivos. Se há avanços tecnológicos e práticos, temos razões para acreditar
que as teorias científicas que os possibilitaram são verdadeiras e não se reduzem a meras
conjeturas falsificáveis.
Isto significa que a teoria de
Popper não é descritiva (não diz
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mas sim normativa (diz como
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Construção da ciência

  • 1. Ciência e construção – validade e verificabilidade das hipóteses
  • 2. Conjunto de procedimentos, orientados por um conjunto de regras, que estabelecem a ordem das operações a realizar com vista a atingir um determinado resultado. Especificidade metodológica da ciência A escolha de um método está dependente do objeto de estudo. O método permite distinguir aquilo que é conhecimento científico do que não pode ser considerado como tal. MÉTODO Problema da demarcação Procura do critério de cientificidade •Quais são os procedimentos (o método) que o cientista deve adotar para obter resultados científicos? •Como podemos reconhecer uma teoria científica? •Qual o critério a adotar na validação das teorias científicas? •Será que o método é suficiente para garantir a cientificidade do conhecimento?
  • 3. A conceção indutivista do método científico
  • 4. Lei Experimentação Formulação de hipóteses Perspetiva epistemológica que salienta a importância da indução para a ciência, quer ao nível das descobertas científicas, quer ao nível da justificação das teorias. INDUTIVISMO O conhecimento científico deve fundar-se na indução e na experimentação e não na metafísica e na especulação. Francis Bacon (1561-1626) A atividade científica obedece à seguinte lógica de procedimentos: Observação
  • 5. Operações fundamentais do método científico – indutivismo O cientista observa os factos ou fenómenos e regista-os de forma sistematizada para procurar encontrar as suas causas. A observação é neutra, isenta, rigorosa, objetiva e imparcial, devendo ser repetida várias vezes. A observação precede a teoria. Exemplo: Observo que as folhas das plantas a, b, c, d, e, f e g são verdes. 1. Observação dos fenómenos Por meio da comparação e classificação dos casos observados, o investigador procura aproximar os factos para descobrir a relação existente entre eles. Assim, recorrendo à indução, ele parte para a formulação da hipótese, explicação geral acerca dos fenómenos e das suas relações. Procura-se inferir um enunciado geral a partir de enunciados particulares ou singulares. Exemplo: Existe uma substância em todas as folhas verdes das plantas que lhes confere essa cor. 2. Formulação da hipótese Contexto de descoberta (diz respeito à maneira como ocorreu a descoberta)
  • 6. A experimentação é o processo de confirmação da hipótese explicativa enunciada. Esta terá de ser testada e, confirmando-se o que ela propõe, pode passar a lei científica. A experimentação é fundamental para que se possa verificar ou confirmar se as relações estabelecidas são aplicáveis a todo o tipo de fenómenos semelhantes (isto é, nas mesmas condições e da mesma natureza), mesmo sem que tenham sido observados um por um. 3. Experimentação / verificação experimental Recorrendo, uma vez mais, à indução, o cientista generaliza a relação encontrada entre os factos semelhantes, traduzindo-a numa lei que expressa as relações constantes entre esses factos. Exemplo: Todas as folhas verdes possuem uma substância – a clorofila – que lhes confere essa cor. 4. Estabelecimento da lei geral Contexto de justificação (refere-se ao modo como se justificam os resultados obtidos na descoberta)
  • 7. EXPERIMENTAÇÃO Princípio da acumulação Princípio da indução Princípio de confirmação Enunciados do indutivismo É fundamental para que se possa verificar e confirmar se as relações estabelecidas são aplicáveis a fenómenos semelhantes. O conhecimento científico é o resultado de factos bem estabelecidos, a que progressivamente se acrescentaram outros sem alteração daqueles. Há uma forma de, a partir da acumulação de factos singulares, inferir enunciados universais. Articula a plausibilidade das leis com o número de instâncias a que o fenómeno a que se refere a lei foi submetido.
  • 8. O critério da verificabilidade
  • 9. Passo necessário para assegurar os resultados da investigação. Qual o critério que permite demarcar o conhecimento científico de outros tipos de conhecimento? Uma teoria é científica apenas se consistir em afirmações que sejam empiricamente verificáveis, ou seja, apenas se for possível verificar empiricamente (através da experiência) aquilo que ela propõe. Critério da verificabilidade Problema da demarcação Filósofos neopositivistas Verificação da hipótese Mas será que isto é suficiente para garantir que determinada hipótese é de facto de uma (boa) hipótese ou teoria científica?
  • 10. Proposição empiricamente verificável “Neptuno possui 14 satélites naturais.” O que aqui se afirma pode ser verificado pela observação empírica. “Há um anjo negro à entrada da sétima dimensão.” Não se pode verificar empiricamente o que aqui se afirma. Proposição cujo valor de verdade pode ser estabelecido através da observação e da experiência.
  • 11. Mas será que as teorias e as leis propostas pelos cientistas podem ser realmente verificadas? “Há corvos negros.” Esta proposição é verificável: podemos verificar aquilo que ela afirma de cada vez que se vê um corvo. Se o corvo for negro, a proposição é verdadeira.. “Todos os corvos são negros.” Aquilo que nesta proposição se afirma não pode ser estritamente verificado de forma universal, pois é impossível saber a cor de todos os corvos que existiram no passado, que existem e que existirão no futuro. Problema da indução
  • 12. Alguns filósofos neopositivistas afirmam, porém, que basta que os enunciados sejam empiricamente confirmáveis Não exige uma verificação conclusiva, ajustando-se assim às generalizações próprias das leis científicas e permitindo, mediante uma verificação empírica parcial, estabelecer "graus de confirmação" numa base probabilística. Critério da confirmabilidade confirmação da teoria Este processo é também inconclusivo: pode sempre aparecer uma observação que ponha em causa a hipótese geral.
  • 14. Críticas ao indutivismo Em muitas situações a observação não é o ponto de partida da investigação científica. Muitas vezes, o ponto de partida são os problemas surgidos do confronto entre uma observação e as expectativas ou teorias já existentes. Ainda que o cientista recorra à observação, ela não é totalmente neutra, imparcial e isenta de pressupostos teóricos, de expectativas face à investigação ou de preconceitos, ocorrendo sempre num determinado contexto. O raciocínio indutivo não confere o rigor lógico necessário às teorias científicas. É o já referido problema da indução, levantado por Hume. O método indutivista, ligado à verificação experimental, assenta num argumento falacioso: se uma teoria é verdadeira, então verifica-se o que ela prevê; ora, verifica-se o que ela prevê; logo, essa teoria é verdadeira. Estamos perante a falácia da afirmação do consequente..
  • 15. Problema da indução (levantado por David Hume) Baseamo-nos na observação de um conjunto finito de casos particulares para concluir que todos são assim (generalização) ou que o próximo a ser observado também assim será (previsão). Há um salto do conhecido para o desconhecido. Confiamos na indução porque partimos do: princípio da uniformidade da natureza: princípio de que os fenómenos se repetem e são previsíveis ou de que o futuro se assemelha ao passado. não constitui uma verdade necessária (a priori), pois não pode ser justificado pelo pensamento não pode ser provado empiricamente: ele decorre da experiência anterior e do hábito, sendo igualmente estabelecido por generalização (isto significa que recorremos à indução para justificar a confiança na própria indução)
  • 16. Princípio da uniformidade da natureza Decorre do hábito. Nenhum raciocínio que se baseie em tal princípio pode garantir rigorosamente a verdade da sua conclusão. A couve portuguesa é rica em cálcio. Os brócolos são ricos em cálcio. A couve lombarda é rica em cálcio. Logo, todos os legumes são ricos em cálcio. Esta generalização indutiva não invalida a hipótese de alguns legumes não serem ricos em cálcio. Exemplo Não é possível justificar, com rigor, aquilo que é proposto numa teoria ou lei científica que decorra da generalização indutiva. O rigor e a verdade do conhecimento científico ficam comprometidos.
  • 17. David Hume sublinha o carácter ilusório do indutivismo Apesar de admitir que o conhecimento científico se constrói por indução, reconhece que ela não serve para justificar esse conhecimento, pois não é racionalmente justificável. Como podemos então garantir a cientificidade do conhecimento? Karl Popper Propõe outro critério de cientificidade – falsificabilidade. Propõe outro método – conjeturas e refutações. Mostra que o problema da indução não tem o peso que Hume lhe atribui.
  • 18. A conceção de ciência de Popper – o método conjetural
  • 19. Karl Popper Considera que a especificidade metodológica da ciência não pode assentar na indução. Rejeita o critério da verificabilidade e da confirmação das hipóteses e teorias científicas tal como proposto pelo positivismo lógico. A construção do conhecimento científico faz-se através de conjeturas e refutações. O critério de cientificidade das teorias é o da falsificabilidade.
  • 20. CIÊNCIA Faz-se por um processo de construção criativa de hipóteses– conjeturas – para responder a problemas. Ao contrário do indutivismo, Popper entende que a observação não é o ponto de partida do cientista, nem as teorias resultam de inferências indutivas. A ciência parte de problemas (ou factos-problemas) e as teorias começam por ser hipóteses explicativas e criativas (conjeturas) que terão de ser submetidas a testes rigorosos, tendo em vista a sua refutação. Problema Hipótese (conjetura)) Testes (refutação)
  • 21. O método de conjeturas e refutações (método hipotético-dedutivo) “Facto-problema” Exemplo: Constata-se que algumas crianças, mesmo quando bem alimentadas e sem problema de foro genético diagnosticado, revelam um crescimento abaixo da média. Procura-se explicar a razão pela qual estas crianças revelam um baixo crescimento. Exemplo: Hipótese 1 – A presença em excesso da hormona X no organismo impede o crescimento. O ponto de partida da investigação científica são os problemas ou factos-problemas. Um facto-problema surge, em geral, de conflitos decorrentes das nossas expectativas ou das teorias já existentes. Para o resolver, o cientista terá de propor uma explicação provisória – hipótese (ou conjetura): momento criativo da atividade científica, associado à intuição, à imaginação e não à indução. 1 – Formulação da hipótese ou conjetura 1 – Formulação da hipótese ou conjetura a partir de um facto-problema. Hipótese Explicação provisória de um dado fenómeno que exige comprovação; suposição que se expressa num enunciado antecipado sobre a natureza das relações entre dois ou mais fenómenos.
  • 22. Exemplo: Dedução das consequências da hipótese 1 – Se a hipótese 1 for verdadeira, a redução ou a inibição da produção da hormona X promoverá o crescimento. Depois de a hipótese ter sido formulada, são deduzidas as suas principais consequências. Ou seja, na prática o cientista procura prever o que pode acontecer se a sua hipótese ou conjetura for verdadeira. 2 – Dedução das consequências
  • 23. Exemplo: Experiências realizadas com ratinhos revelam que, nos grupos em que a hormona X foi administrada em doses sucessivamente superiores, os ratinhos apresentaram um crescimento mais ou menos lento e pouco significativo, mesmo quando bem alimentados; já nos grupos de ratinhos que não sofreram essa administração, o seu crescimento foi normal. Este resultado validou a hipótese. Caso não tivesse validado a hipótese, teríamos de a reformular ou apresentar uma nova hipótese. Agora será necessário descobrir se as previsões que o cientista fez estão ou não corretas: a hipótese será testada, confrontada com a experiência. Os resultados podem, então, mostrar o “sucesso” ou o fracasso da conjetura proposta. • Se for validada pela experiência, a hipótese é considerada como credível e passará a ser reconhecida na comunidade científica – teoria corroborada. Mesmo assim, deverá continuar-se a submeter essa teoria a testes, cada vez mais severos, de falsificação. • Se não for validada, teremos de a abandonar ou de a reformular – teoria refutada. 3 – Experimentação
  • 24. Validade das hipóteses ou conjeturas Condições exigidas para a garantir: É preciso criticá-las, tentar refutá-las, procurar os seus pontos fracos, submetê-las a testes rigorosos, proceder a várias tentativas de falsificação.. Só assim é possível o desenvolvimento do conhecimento científico. O crescimento do conhecimento avança de velhos para novos problemas mediante conjeturas e refutações (K. P.).
  • 25. Este método não se baseia no raciocínio indutivo, mas sim no raciocínio dedutivo. Se a teoria P é verdadeira, então o que ela prevê (Q) ocorre. O que ela prevê (Q) não ocorre. Logo a teoria P não é verdadeira. Os testes experimentais, orientados para a tentativa de falsificação, obedecem a uma forma de inferência válida, o modus tollens: P → Q  Q   P Sendo o método científico um método crítico, o cientista deverá ser crítico em relação às suas teorias.
  • 26. O método indutivista, visando a verificação das teorias, assenta num argumento falacioso, cometendo a falácia da afirmação do consequente Se a teoria P é verdadeira, então o que ela prevê (Q) ocorre. O que ela prevê (Q) ocorre. Logo a teoria P é verdadeira. P → Q Q  P
  • 27. O critério da falsificabilidade
  • 28. POPPER rejeita o critério da verificabilidade Segundo Popper, as teorias científicas não são empiricamente verificáveis. Para que uma hipótese venha a ser considerada credível, é preciso procurar refutá-la ou falsificá-la. Critério da falsificabilidade Uma hipótese ou teoria será científica apenas se for empiricamente falsificável. Uma teoria é empiricamente falsificável se, e apenas se, for incompatível com algumas observações possíveis.
  • 29. Confrontação da hipótese com a experiência Não visa confirmar a hipótese, mas permitir testar a resistência que ela tem face às tentativas empreendidas para a enfraquecer, refutar ou falsificar. O teste experimental é visto como a procura de fenómenos que possam infirmar a hipótese. Uma teoria científica é válida enquanto for resistindo à tentativa de a falsificar empiricamente e é tanto mais forte quanto mais resistir. O enunciado «Todos os cisnes são brancos» é científico, porque é empiricamente falsificável – para o falsificar, basta encontrar um cisne de outra cor. A atitude do cientista deve ser a de procurar cisnes de outra cor (para falsificar) e não a de procurar cisnes brancos (para confirmar). Se se encontrar um cisne de outra cor, teremos de abandonar e/ou reformular o enunciado: este não resistiu à falsificação e foi, efetivamente, falsificado.
  • 30. “Surgirá no Céu uma bola de fogo.” Enunciado não falsificável. “O cometa Halley aparecerá no ano de 1986.” Enunciado falsificável. Uma teoria que não é falsificável nada diz de significativo sobre os factos. Quanto mais uma teoria é falsificável, mais possibilidades o cientista tem de descobrir falhas na sua investigação e de propor uma nova explicação. Mais possibilidades de a ciência progredir. Enunciados
  • 31. Quanto mais conteúdo empírico tiver uma teoria, isto é, quanto mais informação nos der sobre o mundo, maior é o seu grau de falsificabilidade. Exemplo: A afirmação “Todos os corpos são compostos por átomos” tem mais conteúdo empírico e maior domínio de aplicação (e, por isso, maior grau de falsificabilidade) do que a afirmação “O meu corpo é composto por átomos”.
  • 32. Critério da falsificabilidade Permite a Popper responder ao problema da demarcação. As teorias científicas são diferentes das não- científicas (ou das pseudocientíficas), na medida em que são falsificáveis. Não pode ser falsificado. “Todos os cisnes são brancos.” “Deus existe.” Não constitui um enunciado de carácter científico. Pode ser falsificado. Constitui um enunciado de carácter científico.
  • 34. Considerando a história da ciência, não parece que ela possa evoluir por meio de conjeturas e refutações: Copérnico, Galileu ou Newton, por exemplo, não abandonaram as suas teorias na presença de factos que aparentemente as poderiam falsificar. O processo de refutação ou falsificação não é o procedimento mais comum entre os cientistas. Geralmente, eles procuram confirmar o que as teorias científicas propõem; ainda que dada observação implique rejeitar uma previsão, tal não os demove de investigar no mesmo sentido. Popper, com o critério falsificacionista, subestima o valor, para o progresso da ciência, das previsões bem-sucedidas. É expectável que o cientista se concentre mais nas previsões bem-sucedidas do que naquelas que são um fracasso. Estas previsões são fundamentais para o progresso da ciência. A perspetiva de Popper não parece valorizar o conhecimento científico associado a resultados positivos. Se há avanços tecnológicos e práticos, temos razões para acreditar que as teorias científicas que os possibilitaram são verdadeiras e não se reduzem a meras conjeturas falsificáveis. Isto significa que a teoria de Popper não é descritiva (não diz como os cientistas procedem), mas sim normativa (diz como os cientistas deviam proceder). Críticas a Popper