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Filosofia da ciência
– Os problemas da demarcação, do método,
da evolução e da objetividade da ciência
4
Capítulo
PROBLEMAS
Os problemas da demarcação e do método científico.
Os problemas da evolução e da objetividade da ciência.
1
2
PROBLEMA DA DEMARCAÇÃO
O problema da demarcação
O que distingue as teorias científicas das não
científicas?
Positivismo lógico Falsificacionismo
Verificação Confirmação Falsificabilidade
1
Senso comum:
• Baseia-se na experiência da vida e nas
tradições
• Trata-se de um saber que evolve investigações
com alguma complexidade e que não pode
ser adquirido apenas com base na experiência
e na vida
Senso comum vs. conhecimento científico
• É um saber essencialmente prático
• Inclui, também, algumas superstições,
como, por exemplo, acreditar que o
número 13 dá azar
• Pode variar de pessoa para pessoa e é
utilizado sem uma preocupação
sistemática de rigor e de justificação
Conhecimento científico:
• Envolve uma sistemática preocupação com o
rigor e a justificação das afirmações
• Caracteriza-se pela procura das causas dos
fenómenos e pela tentativa de construir um
conjunto organizado e coerente de
conhecimentos
Colocar o problema da demarcação significa
perguntar se é possível encontrar um critério de
cientificidade.
O PROBLEMA DA DEMARCAÇÃO
Este critério permitirá dizer quais são as características
que as teorias devem ter para serem consideradas
científicas. Ou, por outras palavras, o critério para
distinguir o que é ciência, o que não é ciência (como a
filosofia, a literatura, as artes) e o que é pseudociência.
Os filósofos defensores do positivismo lógico começaram por considerar que
uma teoria só é científica se for constituída por afirmações empiricamente
verificáveis, ou seja, quando se pode conceber experiências que estabeleçam
conclusivamente a sua verdade ou falsidade.
VERIFICAÇÃO
Segundo Ayer e outros positivistas lógicos, a verificação é um critério
de cientificidade que se aplica às ciências empíricas.
Para esclarecer o critério de cientificidade acima proposto, vejamos os seguintes exemplos:
1. Júpiter tem satélites.
2. Existe uma aura à volta da cabeça de certas pessoas.
A frase 1 é verificável, pois a sua verdade ou falsidade pode ser estabelecida através da experiência.
Contudo, a frase 2 não é verificável, pois não há observações que possam evidenciar a sua verdade
ou falsidade.
Crítica ao critério de verificabilidade
Este critério de demarcação foi alvo de fortes críticas.
Por maior que seja o número de casos observados, não é possível garantir a verdade
de uma lei que se expressa num enunciado universal, já que é impossível observar
o número indefinido de casos a que a proposição universal se refere.
Uma dessas críticas alega que, sendo as hipóteses e as leis científicas expressas por
enunciados universais, estas não podem ser alvo de verificação, pois isso implicaria algo
que ninguém consegue fazer: observar todos os casos.
CONFIRMAÇÃO
Devido às objeções apontadas ao critério de verificabilidade, outros filósofos positivistas –
nomeadamente Carnap – apresentam um critério de cientificidade alternativo: a confirmação.
Todavia, também a confirmação das hipóteses coloca dificuldades: como definir,
em cada contexto, quais são os indícios empíricos relevantes e em que número
para confirmar a hipótese em causa? O próprio Carnap reconhece esta
dificuldade apontada ao seu critério de cientificidade.
Os indícios empíricos disponíveis apoiam as hipóteses e conferem-lhes um grau de
probabilidade maior ou menor, embora não possam garantir, de forma conclusiva, a sua
verdade.
Se uma teoria é científica, então é empiricamente confirmável. Ou seja, pode acumular-se um
número significativo de evidências empíricas a favor de uma hipótese. Se assim for, esta pode
ser considerada verdadeira e tomada como lei científica. Contudo, o número de casos será
sempre finito.
Popper responde ao problema da demarcação propondo um outro critério: a falsificabilidade.
A RESPOSTA DE POPPER: FALSIFICABILIDADE
Mas o que é a falsificabilidade e por que razão esta é uma condição
necessária para uma teoria ser considerada científica?
Uma teoria é falsificável se for possível pensar numa circunstância que caso, ocorresse, a
desmentiria (a tornaria falsa).
Popper salienta que essas condições empíricas que permitem refutar (ou falsificar) as teorias
científicas têm de ser logicamente pensáveis ou imagináveis; não significa que tenham de vir
a ocorrer, podem acontecer ou não.
De acordo com este filósofo, a principal distinção entre as teorias científicas e não científicas
é o facto de as primeiras serem falsificáveis.
De acordo com Popper, os cientistas devem adotar uma atitude crítica. Ou seja, devem formular
teorias claras, onde se explicitem as condições em que estas podem revelar-se falsas e depois
realizar testes exigentes, procurando eventuais erros nessas teorias – ou seja, devem procurar
falsificá-las.
Portanto, teorias como a astrologia – que procuram apresentar explicações
propositadamente vagas que não sejam refutadas por nenhum caso concreto –
não são científicas.
A RESPOSTA DE POPPER: FALSIFICABILIDADE
Quando uma teoria não resiste às tentativas de falsificação dos testes empíricos, diz-se
que foi falsificada e terá de ser substituída por outra (na totalidade ou em parte) que
corrige os erros da anterior.
A RESPOSTA DE POPPER: FALSIFICABILIDADE
Consequentemente, para Popper as hipóteses ou teorias científicas são sempre
conjeturais, isto é, são tentativas provisórias de explicação, suposições que podem vir
a revelar-se falsas. Por isso, não devemos dizer que são verdadeiras.
Se, pelo contrário, os dados observacionais não conseguem pôr em causa a teoria, diz-
-se que foi corroborada (saiu fortalecida). A corroboração permite a aceitação
provisória da teoria enquanto resistir aos testes que procuram falsificá-la. Mas, ainda
assim, essa teoria continua a ser falsificável.
Popper considera que as teorias mais
interessantes para a ciência são aquelas
que possuem um elevado grau de
falsificabilidade.
Popper: graus de falsificabilidade
Os cientistas devem procurar teorias
ousadas e com elevado conteúdo
empírico, que digam mais sobre o
mundo, com maior poder explicativo e,
por isso, correndo maior risco de falhar.
Popper: graus de falsificabilidade
Para exemplificar os graus de falsificabilidade, Popper afirma:
 as teorias de Kepler e Galileu foram unificadas e
substituídas pela teoria de Newton;
Teorias de Kepler
e Galileu
Teorias de Newton
e Maxwell
Teoria de Einstein
 as teorias de Newton e Maxwell foram, por sua vez,
unificadas e substituídas pela teoria de Einstein.
 As teorias de Kepler e Galileu são as menos
falsificáveis – porque são menos abrangentes.
 As teorias de Newton e Maxwell são mais
falsificáveis do que as anteriores.
 A teoria de Einstein é a mais abrangente – tem
o grau de falsificabilidade mais elevado; é mais
fácil ser desmentida pelos factos.
A falsificabilidade é uma condição necessária para uma teoria ser científica. Porém, não é uma condição
suficiente. Para ser científica uma teoria deverá reunir, em simultâneo, os seguintes requisitos:
Ser falsificável.
Ter capacidade explicativa, fornecendo respostas para problemas com alguma complexidade.
Há enunciados que são falsificáveis, mas não científicas, pois são respostas a questões banais,
como, por exemplo, «Nenhum futebolista gosta do Algarve».
Popper: condições suficientes
1
2
O problema do método científico
A que método recorrem
os cientistas para elaborar
e justificar as hipóteses?
De acordo com esta perspetiva, podemos descortinar as seguintes etapas
do método científico (por vezes chamado método experimental):
A perspetiva indutivista do método
1
2
3
4
Observação e registo dos factos empíricos.
Formulação das leis científicas.
Elaboração da hipótese.
Experimentação.
• Na primeira etapa, observam-se determinados factos e são recolhidos, de forma
imparcial e rigorosa, dados.
A perspetiva indutivista do método
• Na segunda etapa, formula-se – através da generalização – uma hipótese, ou seja,
uma tentativa provisória de explicar o que foi observado.
• A terceira etapa permite testar se as previsões, feitas com base na hipótese,
correspondem ao que acontece na realidade.
• Na quarta etapa, se a hipótese for confirmada pelos dados empíricos transforma-se
– através da generalização – numa lei científica que é aplicável a todos os
fenómenos semelhantes.
Etapas do método científico
Não há observação pura, independente de pressupostos teóricos.
Críticas ao indutivismo
1
Segundo alguns filósofos, incluindo Popper, a visão indutivista do método científico não
corresponde a uma descrição correta das atividades dos cientistas.
Duas objeções que pretendem mostrar que a perspetiva indutivista está errada:
Os cientistas fazem observações em função de um determinado enquadramento
mental, que engloba interesses, expectativas e conhecimentos já adquiridos.
Assim sendo, a observação é sempre orientada por pressupostos teóricos prévios
e visa responder a uma questão que, colocada antecipadamente, orienta a
observação e justifica a sua realização.
Críticas ao indutivismo
2 O ponto de partida não é sempre a observação.
Duas objeções que pretendem mostrar que a perspetiva indutivista está errada:
Há fenómenos estudados pelos cientistas que não são diretamente observáveis;
por exemplo, o facto de uma parte do universo ser constituída por matéria negra.
Esta não é visível, mas sim inferida através dos efeitos gravitacionais sobre a
matéria visível (estrelas, galáxias, etc.).
Casos como estes permitem colocar em causa a perspetiva indutivista do método.
Críticas ao indutivismo
Há uma divisão de opiniões relativamente à importância da indução no método científico.
A indução é utilizada
no método científico?
Conceção falsificacionista do
método
Conceção indutivista do
método
SIM
NÃO
Em alternativa à conceção indutivista da ciência, Popper defende que, nas ciências da natureza,
os cientistas utilizam o método crítico ou o método das conjeturas e refutações.
Assim, segundo a perspetiva falsificacionista, podemos distinguir
as seguintes etapas do método científico:
O método das conjeturas e refutações – Popper
1
2
3
Problema.
Conjeturas.
Submissão a testes: refutação ou corroboração
(das conjeturas).
 Na primeira etapa, o cientista coloca uma questão para a qual pretende encontrar uma resposta.
O método das conjeturas e refutações
 Na segunda etapa, o cientista formula uma hipótese (uma suposição ou tentativa de solução do
problema) desejavelmente com elevado conteúdo empírico.
 Na terceira etapa, as consequências deduzidas das hipóteses são submetidas a testes que visam
confrontá-las com os factos.
Mas como se chega a essa hipótese? Popper pensa que a descoberta das hipóteses
deve-se ao espírito criativo e imaginativo dos cientistas. O que é relevante, depois
de apresentar a hipótese, é a possibilidade de deduzir consequências empíricas, ou
seja, de fazer previsões a partir desta, de modo a testá-la.
Popper considera que os testes são tentativas de refutação (e não de confirmação
ou verificação). Os cientistas, na discussão crítica das teorias, devem procurar
detetar erros de modo a falsificá-las. Se as conjeturas ou teorias resistirem às
tentativas de falsificação, são corroboradas. As teorias que não resistem (porque
os testes mostram que são falsas) são refutadas.
Popper concorda com a análise lógica que David Hume fez do problema da indução: as
conclusões das inferências indutivas ultrapassam os dados da experiência e não se
encontram racionalmente justificadas.
O problema da indução e a resposta de Popper
Popper substitui os dois grandes alicerces do método indutivo:
1. Substitui a verificação / confirmação pela falsificação.
2. Substitui a indução pela dedução.
Poderia pensar-se que as conclusões céticas de Hume seriam extensíveis às teorias
científicas, mas Popper rejeita isso. Para ele, na investigação científica, não é necessário
recorrer às inferências indutivas (nem para formular as hipóteses, nem para as justificar)
e, por isso, a racionalidade e a objetividade das ciências empíricas não é posta em causa
pelas ideias defendidas por Hume.
A distinção entre ciência e pseudociência depende da comunidade e do contexto.
Críticas ao método das conjeturas e refutações
1
O filósofo da ciência Paul Thagard deu atenção não só à dimensão lógica e
metodológica da atividade científica, como também ao contexto histórico e
social em que esta decorre.
Segundo Thagard, a distinção entre ciência e pseudociência deve ser feita a
partir de características típicas e não de características necessárias e
suficientes.
Deste modo, fariam parte da pseudociência propriedades como a desatenção
dos factos empíricos, o desinteresse por teorias alternativas e a ausência de
progresso, entre outras.
O falsificacionismo não descreve corretamente a prática científica.
Críticas ao método das conjeturas e refutações
Em vários momentos da história da ciência verificou-se que os cientistas –
e a comunidade científica – não procederam de acordo com o método das
conjeturas e refutações, ou seja, não adotaram um ponto de vista crítico
em relação às suas teorias e não tentaram falsificá-las. Pelo contrário,
resistiram às tentativas de refutação, procurando antes confirmar e
consolidar as suas teorias.
Assim, mesmo que tivessem constatado que algumas previsões empíricas
tinham falhado, colocavam antes em causa as condições em que os testes
haviam sido realizados.
2
critério de cientificidade adotado:
verificação ou confirmação
das hipóteses.
critério de cientificidade adotado:
falsificabilidade.
………..
Conceção indutivista Conceção falsificacionista
Observação e registo dos
factos empíricos.
Elaboração da hipótese.
Experimentação.
Formulação das leis
científicas.
Problema.
Conjeturas.
Submissão a testes:
refutação ou corroboração.
Em que consiste
o método científico?
1
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1
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  • 1. Filosofia da ciência – Os problemas da demarcação, do método, da evolução e da objetividade da ciência 4 Capítulo
  • 2. PROBLEMAS Os problemas da demarcação e do método científico. Os problemas da evolução e da objetividade da ciência. 1 2
  • 3. PROBLEMA DA DEMARCAÇÃO O problema da demarcação O que distingue as teorias científicas das não científicas? Positivismo lógico Falsificacionismo Verificação Confirmação Falsificabilidade 1
  • 4. Senso comum: • Baseia-se na experiência da vida e nas tradições • Trata-se de um saber que evolve investigações com alguma complexidade e que não pode ser adquirido apenas com base na experiência e na vida Senso comum vs. conhecimento científico • É um saber essencialmente prático • Inclui, também, algumas superstições, como, por exemplo, acreditar que o número 13 dá azar • Pode variar de pessoa para pessoa e é utilizado sem uma preocupação sistemática de rigor e de justificação Conhecimento científico: • Envolve uma sistemática preocupação com o rigor e a justificação das afirmações • Caracteriza-se pela procura das causas dos fenómenos e pela tentativa de construir um conjunto organizado e coerente de conhecimentos
  • 5. Colocar o problema da demarcação significa perguntar se é possível encontrar um critério de cientificidade. O PROBLEMA DA DEMARCAÇÃO Este critério permitirá dizer quais são as características que as teorias devem ter para serem consideradas científicas. Ou, por outras palavras, o critério para distinguir o que é ciência, o que não é ciência (como a filosofia, a literatura, as artes) e o que é pseudociência.
  • 6. Os filósofos defensores do positivismo lógico começaram por considerar que uma teoria só é científica se for constituída por afirmações empiricamente verificáveis, ou seja, quando se pode conceber experiências que estabeleçam conclusivamente a sua verdade ou falsidade. VERIFICAÇÃO Segundo Ayer e outros positivistas lógicos, a verificação é um critério de cientificidade que se aplica às ciências empíricas. Para esclarecer o critério de cientificidade acima proposto, vejamos os seguintes exemplos: 1. Júpiter tem satélites. 2. Existe uma aura à volta da cabeça de certas pessoas. A frase 1 é verificável, pois a sua verdade ou falsidade pode ser estabelecida através da experiência. Contudo, a frase 2 não é verificável, pois não há observações que possam evidenciar a sua verdade ou falsidade.
  • 7. Crítica ao critério de verificabilidade Este critério de demarcação foi alvo de fortes críticas. Por maior que seja o número de casos observados, não é possível garantir a verdade de uma lei que se expressa num enunciado universal, já que é impossível observar o número indefinido de casos a que a proposição universal se refere. Uma dessas críticas alega que, sendo as hipóteses e as leis científicas expressas por enunciados universais, estas não podem ser alvo de verificação, pois isso implicaria algo que ninguém consegue fazer: observar todos os casos.
  • 8. CONFIRMAÇÃO Devido às objeções apontadas ao critério de verificabilidade, outros filósofos positivistas – nomeadamente Carnap – apresentam um critério de cientificidade alternativo: a confirmação. Todavia, também a confirmação das hipóteses coloca dificuldades: como definir, em cada contexto, quais são os indícios empíricos relevantes e em que número para confirmar a hipótese em causa? O próprio Carnap reconhece esta dificuldade apontada ao seu critério de cientificidade. Os indícios empíricos disponíveis apoiam as hipóteses e conferem-lhes um grau de probabilidade maior ou menor, embora não possam garantir, de forma conclusiva, a sua verdade. Se uma teoria é científica, então é empiricamente confirmável. Ou seja, pode acumular-se um número significativo de evidências empíricas a favor de uma hipótese. Se assim for, esta pode ser considerada verdadeira e tomada como lei científica. Contudo, o número de casos será sempre finito.
  • 9. Popper responde ao problema da demarcação propondo um outro critério: a falsificabilidade. A RESPOSTA DE POPPER: FALSIFICABILIDADE Mas o que é a falsificabilidade e por que razão esta é uma condição necessária para uma teoria ser considerada científica? Uma teoria é falsificável se for possível pensar numa circunstância que caso, ocorresse, a desmentiria (a tornaria falsa). Popper salienta que essas condições empíricas que permitem refutar (ou falsificar) as teorias científicas têm de ser logicamente pensáveis ou imagináveis; não significa que tenham de vir a ocorrer, podem acontecer ou não. De acordo com este filósofo, a principal distinção entre as teorias científicas e não científicas é o facto de as primeiras serem falsificáveis.
  • 10. De acordo com Popper, os cientistas devem adotar uma atitude crítica. Ou seja, devem formular teorias claras, onde se explicitem as condições em que estas podem revelar-se falsas e depois realizar testes exigentes, procurando eventuais erros nessas teorias – ou seja, devem procurar falsificá-las. Portanto, teorias como a astrologia – que procuram apresentar explicações propositadamente vagas que não sejam refutadas por nenhum caso concreto – não são científicas. A RESPOSTA DE POPPER: FALSIFICABILIDADE
  • 11. Quando uma teoria não resiste às tentativas de falsificação dos testes empíricos, diz-se que foi falsificada e terá de ser substituída por outra (na totalidade ou em parte) que corrige os erros da anterior. A RESPOSTA DE POPPER: FALSIFICABILIDADE Consequentemente, para Popper as hipóteses ou teorias científicas são sempre conjeturais, isto é, são tentativas provisórias de explicação, suposições que podem vir a revelar-se falsas. Por isso, não devemos dizer que são verdadeiras. Se, pelo contrário, os dados observacionais não conseguem pôr em causa a teoria, diz- -se que foi corroborada (saiu fortalecida). A corroboração permite a aceitação provisória da teoria enquanto resistir aos testes que procuram falsificá-la. Mas, ainda assim, essa teoria continua a ser falsificável.
  • 12. Popper considera que as teorias mais interessantes para a ciência são aquelas que possuem um elevado grau de falsificabilidade. Popper: graus de falsificabilidade Os cientistas devem procurar teorias ousadas e com elevado conteúdo empírico, que digam mais sobre o mundo, com maior poder explicativo e, por isso, correndo maior risco de falhar.
  • 13. Popper: graus de falsificabilidade Para exemplificar os graus de falsificabilidade, Popper afirma:  as teorias de Kepler e Galileu foram unificadas e substituídas pela teoria de Newton; Teorias de Kepler e Galileu Teorias de Newton e Maxwell Teoria de Einstein  as teorias de Newton e Maxwell foram, por sua vez, unificadas e substituídas pela teoria de Einstein.  As teorias de Kepler e Galileu são as menos falsificáveis – porque são menos abrangentes.  As teorias de Newton e Maxwell são mais falsificáveis do que as anteriores.  A teoria de Einstein é a mais abrangente – tem o grau de falsificabilidade mais elevado; é mais fácil ser desmentida pelos factos.
  • 14. A falsificabilidade é uma condição necessária para uma teoria ser científica. Porém, não é uma condição suficiente. Para ser científica uma teoria deverá reunir, em simultâneo, os seguintes requisitos: Ser falsificável. Ter capacidade explicativa, fornecendo respostas para problemas com alguma complexidade. Há enunciados que são falsificáveis, mas não científicas, pois são respostas a questões banais, como, por exemplo, «Nenhum futebolista gosta do Algarve». Popper: condições suficientes 1 2
  • 15. O problema do método científico A que método recorrem os cientistas para elaborar e justificar as hipóteses?
  • 16. De acordo com esta perspetiva, podemos descortinar as seguintes etapas do método científico (por vezes chamado método experimental): A perspetiva indutivista do método 1 2 3 4 Observação e registo dos factos empíricos. Formulação das leis científicas. Elaboração da hipótese. Experimentação.
  • 17. • Na primeira etapa, observam-se determinados factos e são recolhidos, de forma imparcial e rigorosa, dados. A perspetiva indutivista do método • Na segunda etapa, formula-se – através da generalização – uma hipótese, ou seja, uma tentativa provisória de explicar o que foi observado. • A terceira etapa permite testar se as previsões, feitas com base na hipótese, correspondem ao que acontece na realidade. • Na quarta etapa, se a hipótese for confirmada pelos dados empíricos transforma-se – através da generalização – numa lei científica que é aplicável a todos os fenómenos semelhantes. Etapas do método científico
  • 18. Não há observação pura, independente de pressupostos teóricos. Críticas ao indutivismo 1 Segundo alguns filósofos, incluindo Popper, a visão indutivista do método científico não corresponde a uma descrição correta das atividades dos cientistas. Duas objeções que pretendem mostrar que a perspetiva indutivista está errada: Os cientistas fazem observações em função de um determinado enquadramento mental, que engloba interesses, expectativas e conhecimentos já adquiridos. Assim sendo, a observação é sempre orientada por pressupostos teóricos prévios e visa responder a uma questão que, colocada antecipadamente, orienta a observação e justifica a sua realização.
  • 19. Críticas ao indutivismo 2 O ponto de partida não é sempre a observação. Duas objeções que pretendem mostrar que a perspetiva indutivista está errada: Há fenómenos estudados pelos cientistas que não são diretamente observáveis; por exemplo, o facto de uma parte do universo ser constituída por matéria negra. Esta não é visível, mas sim inferida através dos efeitos gravitacionais sobre a matéria visível (estrelas, galáxias, etc.). Casos como estes permitem colocar em causa a perspetiva indutivista do método.
  • 20. Críticas ao indutivismo Há uma divisão de opiniões relativamente à importância da indução no método científico. A indução é utilizada no método científico? Conceção falsificacionista do método Conceção indutivista do método SIM NÃO
  • 21. Em alternativa à conceção indutivista da ciência, Popper defende que, nas ciências da natureza, os cientistas utilizam o método crítico ou o método das conjeturas e refutações. Assim, segundo a perspetiva falsificacionista, podemos distinguir as seguintes etapas do método científico: O método das conjeturas e refutações – Popper 1 2 3 Problema. Conjeturas. Submissão a testes: refutação ou corroboração (das conjeturas).
  • 22.  Na primeira etapa, o cientista coloca uma questão para a qual pretende encontrar uma resposta. O método das conjeturas e refutações  Na segunda etapa, o cientista formula uma hipótese (uma suposição ou tentativa de solução do problema) desejavelmente com elevado conteúdo empírico.  Na terceira etapa, as consequências deduzidas das hipóteses são submetidas a testes que visam confrontá-las com os factos. Mas como se chega a essa hipótese? Popper pensa que a descoberta das hipóteses deve-se ao espírito criativo e imaginativo dos cientistas. O que é relevante, depois de apresentar a hipótese, é a possibilidade de deduzir consequências empíricas, ou seja, de fazer previsões a partir desta, de modo a testá-la. Popper considera que os testes são tentativas de refutação (e não de confirmação ou verificação). Os cientistas, na discussão crítica das teorias, devem procurar detetar erros de modo a falsificá-las. Se as conjeturas ou teorias resistirem às tentativas de falsificação, são corroboradas. As teorias que não resistem (porque os testes mostram que são falsas) são refutadas.
  • 23. Popper concorda com a análise lógica que David Hume fez do problema da indução: as conclusões das inferências indutivas ultrapassam os dados da experiência e não se encontram racionalmente justificadas. O problema da indução e a resposta de Popper Popper substitui os dois grandes alicerces do método indutivo: 1. Substitui a verificação / confirmação pela falsificação. 2. Substitui a indução pela dedução. Poderia pensar-se que as conclusões céticas de Hume seriam extensíveis às teorias científicas, mas Popper rejeita isso. Para ele, na investigação científica, não é necessário recorrer às inferências indutivas (nem para formular as hipóteses, nem para as justificar) e, por isso, a racionalidade e a objetividade das ciências empíricas não é posta em causa pelas ideias defendidas por Hume.
  • 24. A distinção entre ciência e pseudociência depende da comunidade e do contexto. Críticas ao método das conjeturas e refutações 1 O filósofo da ciência Paul Thagard deu atenção não só à dimensão lógica e metodológica da atividade científica, como também ao contexto histórico e social em que esta decorre. Segundo Thagard, a distinção entre ciência e pseudociência deve ser feita a partir de características típicas e não de características necessárias e suficientes. Deste modo, fariam parte da pseudociência propriedades como a desatenção dos factos empíricos, o desinteresse por teorias alternativas e a ausência de progresso, entre outras.
  • 25. O falsificacionismo não descreve corretamente a prática científica. Críticas ao método das conjeturas e refutações Em vários momentos da história da ciência verificou-se que os cientistas – e a comunidade científica – não procederam de acordo com o método das conjeturas e refutações, ou seja, não adotaram um ponto de vista crítico em relação às suas teorias e não tentaram falsificá-las. Pelo contrário, resistiram às tentativas de refutação, procurando antes confirmar e consolidar as suas teorias. Assim, mesmo que tivessem constatado que algumas previsões empíricas tinham falhado, colocavam antes em causa as condições em que os testes haviam sido realizados. 2
  • 26. critério de cientificidade adotado: verificação ou confirmação das hipóteses. critério de cientificidade adotado: falsificabilidade. ……….. Conceção indutivista Conceção falsificacionista Observação e registo dos factos empíricos. Elaboração da hipótese. Experimentação. Formulação das leis científicas. Problema. Conjeturas. Submissão a testes: refutação ou corroboração. Em que consiste o método científico? 1 2 3 1 2 3 4

Notas do Editor

  1. Setas e bolas das perspetivas devem surgir no final, ao click