SlideShare uma empresa Scribd logo
Camões

         Corrente renascentista
Um mover d’olhos brando e piadoso,
Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto,
quási forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ũa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo gracioso;

Um escolhido ousar; ũa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
“É porventura (este) o mais célebre […] retrato da mulher amada que Camões
deixou. O retrato, feito com base em enumerações iniciadas por “Um” (o que
marca uma certa indefinição) é quase convencional, à maneira petrarquista:
da amada se refere mais que os traços físicos a impressão que causam –
brandura, piedade, timidez, gravidade, modéstia, bondade, serenidade, mela
ncolia. Mas repare-se que cada um dos traços aponta, de certo modo, para
antíteses “brando e honesto/quase forçado”, “encolhido ousar”, “doce e
humilde gesto/de qualquer alegria duvidoso” – etc.
E porquê a tristeza, o “medo sem ter culpa”, o “longo e obediente
sofrimento”? Esta mulher enigmática […] é, afinal, ela própria, sede de
contradição, como se revela na 2ª parte do soneto […]; é também a Circe, a
feiticeira, que, com “mágico veneno”, perturbou, transformou o pensamento
[…] do poeta.”
                                     in Eu cantarei de amor, Amélia Pinto Pais
Tema: BELEZA FEMININA
   Beleza da mulher amada e fascínio que
ela exerce no sujeito lírico.
   o amor petrarquista / saudosista
                                            O soneto apresenta um retrato da
                                            mulher amada, onde se dá maior
                                            relevo aos traços morais.

                                            O conjunto de qualidades que lhe é
                                            dado tende a produzir uma imagem de
                                            perfeição e a não individualização da
                                            mulher.

                                            Como as qualidades morais são em
                                            maior número, parece ser sobretudo a
                                            beleza espiritual que fascina o sujeito
                                            poético.
O retrato da amada mostra um ideal
de beleza clássico.
Segue um procedimento anafórico
(repetição de uma mesma estrutura) -
"um (...)“, só se esclarecendo o assunto
do poema na última estrofe .
Assunto
   Camões expõe à maneira de Petrarca os
atributos morais da mulher amada, a sua
Circe (feiticeira), que “pôde transformar-lhe o
pensamento”:
brandura, piedade, honestidade, doçura, hum
ildade, modéstia, bondade, retraimento, sere
nidade, obediência e mansidão.

   Trata-se        de       um        retrato
idealizado, indefinível.
Trata-se de um retrato mais espiritual do que físico, que se conclui com
uma referência à transformação do seu pensamento provocada pela sua
formosura, que funcionaria como um “mágico veneno”.

Esta escassa referência a características físicas e a predominância das
qualidades morais remetem-nos para a ideologia platónica.

Todavia, é sobretudo nítida a influência petrarquista no ideal de beleza
feminina, e nas qualidades morais atribuídas à mulher, expressas por
uma adjectivação abundante e por substantivos abstractos.

Observa-se, ainda, que, na esteira de Petrarca, as qualidades morais
predominam sobre as físicas e o fascínio resulta, portanto, da beleza
espiritual.
Um mover d'olhos, brando e piadoso,               Olhar, riso, gesto:
sem ver de quê; um riso brando e honesto,        caracterizados por
                                            atitudes, qualidades, estado
quase forçado; um doce e humilde gesto,                    s.
de qualquer alegria duvidoso;                   Artigo indefinido: indica
                                                    elevado nível de
                                                       abstração.
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
üa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
                                              Atributos habitualmente
                                                não próprios de uma
um encolhido ousar; uma brandura;             dama galante; antes do
                                                      galante!
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;               Cadência monótona e
                                                iterativa do retrato:
esta foi a celeste fermosura                  sublinha a serenidade da
                                                       amada.
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
Um mover d'olhos, brando e piadoso,         Beleza: aqui caracterizada pelos sentimentos
                                            e por elementos de ordem moral e
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
                                            psicológica.
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;               Qualidades interiores mais importantes do
                                            que os atributos físicos.
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
üa pura bondade, manifesto                  Poder ‘maligno’ da amada: amor como
indício da alma, limpo e gracioso;          alquimia.
                                            O seu carácter sublime transforma-se em
um encolhido ousar; uma brandura;           ameaça.
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;                         Aspeto espiritual
                                                                 +
esta foi a celeste fermosura                              Aspeto material
da minha Circe, e o mágico veneno                                =
                                                    Elevação (o caminho divino)
que pôde transformar meu pensamento.
Um mover d’olhos brando e piadoso,
Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto,
quási forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ũa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo gracioso;

Um escolhido ousar; ũa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:
                                               Brando: meigo
Esta foi a celeste formosura
                                               Gesto: rosto
da minha Circe, e o mágico veneno
                                               Despejo: desembaraço
que pôde transformar meu pensamento.
                                               Vergonhoso: recatado, tímido
                                               Sofrimento: paciência
                                               Circe: feiticeira da mitologia grega que deu a
                                               beber aos companheiros de Ulisses a poção
                                               mágica       que     os     transformou    em
                                               animais, impedindo assim, que o herói
                                               prosseguisse viagem e se afastasse dela.
Desenvolvimento do assunto
1ª parte       Faz-se uma enumeração dos atributos físicos e morais da
(quadras+ 1º   mulher amada, repetindo-se a mesma estrutura frásica
terceto)       (artigo indefinido + substantivo + adjetivo). Trata-se do
               retrato da mulher amada, onde são focados aspetos assaz
               abstratos (cf. artigo indefinido). Na 1ª quadra, referem-se
               aspetos exteriores (olhar, riso, rosto) e, em seguida, a
               descrição da amada engloba atitudes, qualidades e
               estados.
2ª parte       Atentar no pronome demonstrativo “Esta”, que introduz o
(2º terceto)   fim da enumeração presente na 1ª parte.
               Nesta 2ª parte, sintetizam-se os atributos da mulher amada,
               que fascina o poeta.
Este poema está dividido em duas partes lógicas.

      A primeira parte é as duas quadras e o primeiro terceto e corresponde à
    acumulação de atributos físicos e morais da figura feminina. Assim, são feitas
    referências ao “mover d’olhos”, ao “sorriso”, ao “gesto”, às quais são sempre
    atribuídas qualidades morais: “Um mover d’olhos brando e piadoso,”, “um
    sorriso brando e honesto,” e “um doce e humilde gesto,”.

      A segunda parte é ultimo terceto e corresponde à síntese de todos esses
    atributos reunidos na expressão “celeste fermosura”, que, além da beleza,
    remete para o carácter divino da mulher. Esta é também, metaforicamente,
    apresentada como Circe, ou seja, uma feiticeira que encanta o poeta como
    seu mágico veneno, isto é, a sua perfeição, que seduz o poeta e lhe
    transforma o pensamento.
Um mover d'olhos, brando e piadoso,
1º momento:                               sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Elogio    das   qualidades morais e       quase forçado; um doce e humilde gesto,
psicológicas, por uma acumulação de       de qualquer alegria duvidoso;
predicados;
                                          um despejo quieto e vergonhoso;
A figura feminina não é real, nem
                                          um repouso gravíssimo e modesto;
concreta, nem palpável.
                                          üa pura bondade, manifesto
Este retrato corresponde a um modelo de   indício da alma, limpo e gracioso;
beleza tão perfeita que só pode ser
entendido como idealização.               um encolhido ousar; üa brandura;
                                          um medo sem ter culpa; um ar sereno;
                                          um longo e obediente sofrimento;
2º momento:
Síntese das qualidades e efeito sobre o   esta foi a celeste fermosura
EU lírico.                                da minha Circe, e o mágico veneno
O amor é visto como uma poção
                                          que pôde transformar meu pensamento.
venenosa que determina o rumo da vida
do sujeito.
1ª estrofe: descreve fisicamente sugerindo um
                                            comportamento de delicadeza (ideal de beleza
Um mover d'olhos, brando e piadoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,   clássico)
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;               2ª e 3ª estrofe: descreve o carácter da
                                            amada, quebrando a imagem de delicadeza com
um despejo quieto e vergonhoso;             antíteses (manifesto indício, encolhido ousar) e
um repouso gravíssimo e modesto;            sugerindo que há algo mais na mulher.
üa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;          4ª estrofe: esclarece o assunto do poema, eleva
                                            beleza da amada a um patamar divino (celeste
um encolhido ousar; üa brandura;
                                            formosura) e compara-a a uma feiticeira da mitologia
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
                                            (retomada da cultura greco-latina) que o encanta. A
um longo e obediente sofrimento;
                                            emoção, porém, não é totalmente boa, perturbando
esta foi a celeste fermosura                o Eu lírico.
da minha Circe, e o mágico veneno           As antíteses "manifesto indício", "encolhido ousar"
que pôde transformar meu pensamento.        sugerem o jogo de sedução feminino, que ora
                                            esconde (indício) e ora mostra (manifesto). A
                                            comparação com uma feiticeira também sugere o
                                            jogo.
Ao carácter descritivo do poema, constituído por uma enumeração de
  qualidades e seus efeitos no sujeito, determina a utilização de certos
                           recursos estilísticos:
  Anáfora – repetição do artigo indefinido em início de verso, e que marca a
passagem de uma qualidade para outra;
  Discurso Valorativo - traduz o juízo de valor que o sujeito faz da amada, e
assenta, sobretudo, em adjectivos e expressões que contêm uma apreciação
subjectiva das suas qualidades;
  Adjetivação, que marca o discurso valorativo que o sujeito tece sobre a mulher
amada;
  Abundância de adjetivos e substantivos abstractos e a quase inexistência de
verbos;
  Substantivação de verbos: “um mover de olhos”, “um encolhido ousar”
  Artigo Indefinido - sugere proximidade afetiva entre o sujeito e a amada;
  Antítese - “celeste fermosura” / “mágico veneno”, “um mover de olhos(…)” / “sem
ver de quê” que comprova que está a ser descrita uma mulher quase indefinível.
  Enumeração assindética - acumulação de segmentos de frase, separados por ponto
e vírgula, e sem recorrer à copulativa “e”;
  Metáfora - “mágico veneno”, “a minha Circe”.
  Encavalgamento ou transporte, que acentua a fluidez do ritmo da enumeração;
Um mover d’olhos brando e piadoso,           A
Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto, B
quási forçado; um doce e humilde gesto,      B
                                             A
                                                 A composição poética é
de qualquer alegria duvidoso;
                                                 constituída por duas quadras
Um desejo quieto e vergonhoso;                   e dois tercetos (soneto), em
                                            A
um repouso gravíssimo e modesto;            B    metro decassilábico, com um
ũa pura bondade, manifesto                  B    esquema rimático :
indício da alma, limpo gracioso;            A

Um escolhido ousar; ũa brandura;            C    ABBA///ABBA//CDE//CDE
um medo sem ter culpa; um ar sereno;        D    verificando-se a existência de
um longo e obediente sofrimento:            E    rima      interpolada      em
                                                 A, emparelhada em B e
Esta foi a celeste formosura                C
                                            D
                                                 interpolada em CDE.
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.        E
Tema                               a beleza da amada
                                   "mover d'olhos brando e piadoso", "riso brando e honesto",
Qualidades físicas da amada
                                   "ar sereno".
                                   branda e piedosa, honesta, doce, alegre sem exagero,
Qualidades psicológicas da
                                   maneira de estar serena, bondosa, alma pura, ousada com
amada
                                   medida, sofredora.
Classe social da amada             Senhora "celeste fermosura"
                                   celeste fermosura da minha Circe
Justificação de expressões         a sua beleza é celestial, divina mas também diabólica pois
                                   conseguiu prendê-lo irremediavelmente.
                                   Adjetivação: simples, dupla e tripla: em todo o poema;
Recursos estilísticos utilizados
                                   Antítese: “celeste fermosura”; “mágico veneno”
no retrato
                                   Metáfora; Hipérbole; Anáfora
                                   Soneto. ABBA/ABBA/ CDE/ CDE
Tipo de composição
                                   Rima emparelhada e interpolada.
Aisthesis:
             Percepção do amor mais dinâmica a partir de sentimentos
                           contraditórios / oscilantes




                                 semiótica do
                                    amor
                                  camoniano



   Anestética:
heterotopia deste                                                  Estética:
   modelo do                                              ideia do amor «elevado»,
  amor, soneto                                            derivada do petrarquismo
   camoniano
Disciplina: Português
Prof.ª: Helena Maria Coutinho

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Gil vicente, farsa de inês pereira
Gil vicente, farsa de inês pereiraGil vicente, farsa de inês pereira
Gil vicente, farsa de inês pereira
David Caçador
 
Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonteDescalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
Helena Coutinho
 
Capítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António Vieira
Capítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António VieiraCapítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António Vieira
Capítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António Vieira
Alexandra Madail
 
Sermão de Santo António aos Peixes
Sermão de Santo António aos PeixesSermão de Santo António aos Peixes
Sermão de Santo António aos Peixes
Paula Oliveira Cruz
 
Crítica, cartoon e crónica
Crítica, cartoon e crónicaCrítica, cartoon e crónica
Crítica, cartoon e crónica
Fernanda Monteiro
 
Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106
Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106
Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106
nanasimao
 
Deíticos
DeíticosDeíticos
Deíticos
Paula Angelo
 
Fernando Pessoa-Ortónimo
Fernando Pessoa-OrtónimoFernando Pessoa-Ortónimo
Fernando Pessoa-Ortónimo
Margarida Rodrigues
 
Sermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixesSermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixes
AnaGomes40
 
Endechas a bárbara
Endechas a bárbaraEndechas a bárbara
Endechas a bárbara
Helena Coutinho
 
Os Lusíadas - Reflexões do Poeta
Os Lusíadas - Reflexões do PoetaOs Lusíadas - Reflexões do Poeta
Os Lusíadas - Reflexões do Poeta
Dina Baptista
 
Amor é fogo que arde
Amor é fogo que ardeAmor é fogo que arde
Amor é fogo que arde
Helena Coutinho
 
Estrutura do Texto de Apreciação Crítica
Estrutura do Texto de Apreciação CríticaEstrutura do Texto de Apreciação Crítica
Estrutura do Texto de Apreciação Crítica
Vanda Sousa
 
Poesia Trovadoresca - Resumo
Poesia Trovadoresca - ResumoPoesia Trovadoresca - Resumo
Poesia Trovadoresca - Resumo
Gijasilvelitz 2
 
A representação na amada na lírica de Camões
A representação na amada na lírica de CamõesA representação na amada na lírica de Camões
A representação na amada na lírica de Camões
Cristina Martins
 
Sermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixesSermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixes
vermar2010
 
Frei luís de sousa
Frei luís de sousaFrei luís de sousa
Frei luís de sousa
Margarida Tomaz
 
Cap v repreensões particular
Cap v repreensões particularCap v repreensões particular
Cap v repreensões particular
Helena Coutinho
 
Resumos de Português: Camões lírico
Resumos de Português: Camões líricoResumos de Português: Camões lírico
Resumos de Português: Camões lírico
Raffaella Ergün
 
Sebastianismo - Frei Luís de Sousa
Sebastianismo - Frei Luís de SousaSebastianismo - Frei Luís de Sousa
Sebastianismo - Frei Luís de Sousa
António Aragão
 

Mais procurados (20)

Gil vicente, farsa de inês pereira
Gil vicente, farsa de inês pereiraGil vicente, farsa de inês pereira
Gil vicente, farsa de inês pereira
 
Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonteDescalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
 
Capítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António Vieira
Capítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António VieiraCapítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António Vieira
Capítulo III Sermão de Santo António aos Peixes Padre António Vieira
 
Sermão de Santo António aos Peixes
Sermão de Santo António aos PeixesSermão de Santo António aos Peixes
Sermão de Santo António aos Peixes
 
Crítica, cartoon e crónica
Crítica, cartoon e crónicaCrítica, cartoon e crónica
Crítica, cartoon e crónica
 
Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106
Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106
Os lusíadas - Canto I Estâncias 105 e 106
 
Deíticos
DeíticosDeíticos
Deíticos
 
Fernando Pessoa-Ortónimo
Fernando Pessoa-OrtónimoFernando Pessoa-Ortónimo
Fernando Pessoa-Ortónimo
 
Sermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixesSermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixes
 
Endechas a bárbara
Endechas a bárbaraEndechas a bárbara
Endechas a bárbara
 
Os Lusíadas - Reflexões do Poeta
Os Lusíadas - Reflexões do PoetaOs Lusíadas - Reflexões do Poeta
Os Lusíadas - Reflexões do Poeta
 
Amor é fogo que arde
Amor é fogo que ardeAmor é fogo que arde
Amor é fogo que arde
 
Estrutura do Texto de Apreciação Crítica
Estrutura do Texto de Apreciação CríticaEstrutura do Texto de Apreciação Crítica
Estrutura do Texto de Apreciação Crítica
 
Poesia Trovadoresca - Resumo
Poesia Trovadoresca - ResumoPoesia Trovadoresca - Resumo
Poesia Trovadoresca - Resumo
 
A representação na amada na lírica de Camões
A representação na amada na lírica de CamõesA representação na amada na lírica de Camões
A representação na amada na lírica de Camões
 
Sermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixesSermão de santo antónio aos peixes
Sermão de santo antónio aos peixes
 
Frei luís de sousa
Frei luís de sousaFrei luís de sousa
Frei luís de sousa
 
Cap v repreensões particular
Cap v repreensões particularCap v repreensões particular
Cap v repreensões particular
 
Resumos de Português: Camões lírico
Resumos de Português: Camões líricoResumos de Português: Camões lírico
Resumos de Português: Camões lírico
 
Sebastianismo - Frei Luís de Sousa
Sebastianismo - Frei Luís de SousaSebastianismo - Frei Luís de Sousa
Sebastianismo - Frei Luís de Sousa
 

Mais de Helena Coutinho

. Maias simplificado
. Maias simplificado. Maias simplificado
. Maias simplificado
Helena Coutinho
 
Santo antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhanças
Santo antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhançasSanto antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhanças
Santo antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhanças
Helena Coutinho
 
Relato hagiografico
Relato hagiograficoRelato hagiografico
Relato hagiografico
Helena Coutinho
 
P.ant vieira bio
P.ant vieira bioP.ant vieira bio
P.ant vieira bio
Helena Coutinho
 
Epígrafe sermao
Epígrafe sermaoEpígrafe sermao
Epígrafe sermao
Helena Coutinho
 
Cap vi
Cap viCap vi
Cap iv repreensões geral
Cap iv repreensões geralCap iv repreensões geral
Cap iv repreensões geral
Helena Coutinho
 
Cap iii louvores particular
Cap iii louvores particularCap iii louvores particular
Cap iii louvores particular
Helena Coutinho
 
Cap ii louvores geral
Cap ii louvores geralCap ii louvores geral
Cap ii louvores geral
Helena Coutinho
 
1. introd e estrutura
1. introd e estrutura1. introd e estrutura
1. introd e estrutura
Helena Coutinho
 
Contexto histórico padre antónio vieira
Contexto histórico padre antónio vieiraContexto histórico padre antónio vieira
Contexto histórico padre antónio vieira
Helena Coutinho
 
. O texto dramático
. O texto dramático. O texto dramático
. O texto dramático
Helena Coutinho
 
. Batalha de alcácer quibir
. Batalha de alcácer quibir. Batalha de alcácer quibir
. Batalha de alcácer quibir
Helena Coutinho
 
Fls figuras reais
Fls figuras reaisFls figuras reais
Fls figuras reais
Helena Coutinho
 
. Enredo
. Enredo. Enredo
. Enredo
Helena Coutinho
 
. A obra e o contexto
. A obra e o contexto. A obra e o contexto
. A obra e o contexto
Helena Coutinho
 
Sete anos de pastor jacob servia
Sete anos de pastor jacob serviaSete anos de pastor jacob servia
Sete anos de pastor jacob servia
Helena Coutinho
 
Oh! como se me alonga, de ano em ano
Oh! como se me alonga, de ano em anoOh! como se me alonga, de ano em ano
Oh! como se me alonga, de ano em ano
Helena Coutinho
 
Enquanto quis fortuna que tivesse
Enquanto quis fortuna que tivesseEnquanto quis fortuna que tivesse
Enquanto quis fortuna que tivesse
Helena Coutinho
 
Aquela triste e leda madrugada
Aquela triste e leda madrugadaAquela triste e leda madrugada
Aquela triste e leda madrugada
Helena Coutinho
 

Mais de Helena Coutinho (20)

. Maias simplificado
. Maias simplificado. Maias simplificado
. Maias simplificado
 
Santo antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhanças
Santo antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhançasSanto antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhanças
Santo antónio e padre antónio vieira – diferenças e semelhanças
 
Relato hagiografico
Relato hagiograficoRelato hagiografico
Relato hagiografico
 
P.ant vieira bio
P.ant vieira bioP.ant vieira bio
P.ant vieira bio
 
Epígrafe sermao
Epígrafe sermaoEpígrafe sermao
Epígrafe sermao
 
Cap vi
Cap viCap vi
Cap vi
 
Cap iv repreensões geral
Cap iv repreensões geralCap iv repreensões geral
Cap iv repreensões geral
 
Cap iii louvores particular
Cap iii louvores particularCap iii louvores particular
Cap iii louvores particular
 
Cap ii louvores geral
Cap ii louvores geralCap ii louvores geral
Cap ii louvores geral
 
1. introd e estrutura
1. introd e estrutura1. introd e estrutura
1. introd e estrutura
 
Contexto histórico padre antónio vieira
Contexto histórico padre antónio vieiraContexto histórico padre antónio vieira
Contexto histórico padre antónio vieira
 
. O texto dramático
. O texto dramático. O texto dramático
. O texto dramático
 
. Batalha de alcácer quibir
. Batalha de alcácer quibir. Batalha de alcácer quibir
. Batalha de alcácer quibir
 
Fls figuras reais
Fls figuras reaisFls figuras reais
Fls figuras reais
 
. Enredo
. Enredo. Enredo
. Enredo
 
. A obra e o contexto
. A obra e o contexto. A obra e o contexto
. A obra e o contexto
 
Sete anos de pastor jacob servia
Sete anos de pastor jacob serviaSete anos de pastor jacob servia
Sete anos de pastor jacob servia
 
Oh! como se me alonga, de ano em ano
Oh! como se me alonga, de ano em anoOh! como se me alonga, de ano em ano
Oh! como se me alonga, de ano em ano
 
Enquanto quis fortuna que tivesse
Enquanto quis fortuna que tivesseEnquanto quis fortuna que tivesse
Enquanto quis fortuna que tivesse
 
Aquela triste e leda madrugada
Aquela triste e leda madrugadaAquela triste e leda madrugada
Aquela triste e leda madrugada
 

Último

D20 - Descritores SAEB de Língua Portuguesa
D20 - Descritores SAEB de Língua PortuguesaD20 - Descritores SAEB de Língua Portuguesa
D20 - Descritores SAEB de Língua Portuguesa
eaiprofpolly
 
GÊNERO TEXTUAL - POEMA.pptx
GÊNERO      TEXTUAL     -     POEMA.pptxGÊNERO      TEXTUAL     -     POEMA.pptx
GÊNERO TEXTUAL - POEMA.pptx
Marlene Cunhada
 
Leonardo da Vinci .pptx
Leonardo da Vinci                  .pptxLeonardo da Vinci                  .pptx
Leonardo da Vinci .pptx
TomasSousa7
 
Fernão Lopes. pptx
Fernão Lopes.                       pptxFernão Lopes.                       pptx
Fernão Lopes. pptx
TomasSousa7
 
Slides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptx
Slides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptxSlides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptx
Slides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptx
LuizHenriquedeAlmeid6
 
O Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdf
O Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdfO Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdf
O Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdf
silvamelosilva300
 
slides de Didática 2.pdf para apresentar
slides de Didática 2.pdf para apresentarslides de Didática 2.pdf para apresentar
slides de Didática 2.pdf para apresentar
JoeteCarvalho
 
1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.
1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.
1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.
LeticiaRochaCupaiol
 
Reino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptx
Reino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptxReino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptx
Reino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptx
CarinaSantos916505
 
Testes + soluções_Mensagens12 )11111.pdf
Testes + soluções_Mensagens12 )11111.pdfTestes + soluções_Mensagens12 )11111.pdf
Testes + soluções_Mensagens12 )11111.pdf
lveiga112
 
Rimas, Luís Vaz de Camões. pptx
Rimas, Luís Vaz de Camões.          pptxRimas, Luís Vaz de Camões.          pptx
Rimas, Luís Vaz de Camões. pptx
TomasSousa7
 
A QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdf
A QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdfA QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdf
A QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdf
AurelianoFerreirades2
 
7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx
7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx
7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx
LEANDROSPANHOL1
 
Pintura Romana .pptx
Pintura Romana                     .pptxPintura Romana                     .pptx
Pintura Romana .pptx
TomasSousa7
 
Famílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do Assaré
Famílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do AssaréFamílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do Assaré
Famílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do Assaré
profesfrancleite
 
OS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdf
OS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdfOS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdf
OS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdf
AmiltonAparecido1
 
Atividade letra da música - Espalhe Amor, Anavitória.
Atividade letra da música - Espalhe  Amor, Anavitória.Atividade letra da música - Espalhe  Amor, Anavitória.
Atividade letra da música - Espalhe Amor, Anavitória.
Mary Alvarenga
 
Redação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptx
Redação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptxRedação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptx
Redação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptx
DECIOMAURINARAMOS
 
A Evolução da história da Física - Albert Einstein
A Evolução da história da Física - Albert EinsteinA Evolução da história da Física - Albert Einstein
A Evolução da história da Física - Albert Einstein
WelberMerlinCardoso
 
karl marx biografia resumida com suas obras e história de vida
karl marx biografia resumida com suas obras e história de vidakarl marx biografia resumida com suas obras e história de vida
karl marx biografia resumida com suas obras e história de vida
KleginaldoPaz2
 

Último (20)

D20 - Descritores SAEB de Língua Portuguesa
D20 - Descritores SAEB de Língua PortuguesaD20 - Descritores SAEB de Língua Portuguesa
D20 - Descritores SAEB de Língua Portuguesa
 
GÊNERO TEXTUAL - POEMA.pptx
GÊNERO      TEXTUAL     -     POEMA.pptxGÊNERO      TEXTUAL     -     POEMA.pptx
GÊNERO TEXTUAL - POEMA.pptx
 
Leonardo da Vinci .pptx
Leonardo da Vinci                  .pptxLeonardo da Vinci                  .pptx
Leonardo da Vinci .pptx
 
Fernão Lopes. pptx
Fernão Lopes.                       pptxFernão Lopes.                       pptx
Fernão Lopes. pptx
 
Slides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptx
Slides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptxSlides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptx
Slides Lição 11, Central Gospel, Os Mortos Em CRISTO, 2Tr24.pptx
 
O Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdf
O Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdfO Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdf
O Mito da Caverna de Platão_ Uma Jornada em Busca da Verdade.pdf
 
slides de Didática 2.pdf para apresentar
slides de Didática 2.pdf para apresentarslides de Didática 2.pdf para apresentar
slides de Didática 2.pdf para apresentar
 
1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.
1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.
1ª LEI DE OHN, CARACTERISTICAS IMPORTANTES.
 
Reino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptx
Reino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptxReino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptx
Reino-Vegetal plantas e demais conceitos .pptx
 
Testes + soluções_Mensagens12 )11111.pdf
Testes + soluções_Mensagens12 )11111.pdfTestes + soluções_Mensagens12 )11111.pdf
Testes + soluções_Mensagens12 )11111.pdf
 
Rimas, Luís Vaz de Camões. pptx
Rimas, Luís Vaz de Camões.          pptxRimas, Luís Vaz de Camões.          pptx
Rimas, Luís Vaz de Camões. pptx
 
A QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdf
A QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdfA QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdf
A QUESTÃO ANTROPOLÓGICA: O QUE SOMOS OU QUEM SOMOS.pdf
 
7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx
7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx
7133lllllllllllllllllllllllllllll67.pptx
 
Pintura Romana .pptx
Pintura Romana                     .pptxPintura Romana                     .pptx
Pintura Romana .pptx
 
Famílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do Assaré
Famílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do AssaréFamílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do Assaré
Famílias Que Contribuíram Para O Crescimento Do Assaré
 
OS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdf
OS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdfOS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdf
OS elementos de uma boa Redação para o ENEM.pdf
 
Atividade letra da música - Espalhe Amor, Anavitória.
Atividade letra da música - Espalhe  Amor, Anavitória.Atividade letra da música - Espalhe  Amor, Anavitória.
Atividade letra da música - Espalhe Amor, Anavitória.
 
Redação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptx
Redação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptxRedação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptx
Redação e Leitura_7º ano_58_Produção de cordel .pptx
 
A Evolução da história da Física - Albert Einstein
A Evolução da história da Física - Albert EinsteinA Evolução da história da Física - Albert Einstein
A Evolução da história da Física - Albert Einstein
 
karl marx biografia resumida com suas obras e história de vida
karl marx biografia resumida com suas obras e história de vidakarl marx biografia resumida com suas obras e história de vida
karl marx biografia resumida com suas obras e história de vida
 

Um mover de olhos brando e piadoso

  • 1. Camões Corrente renascentista
  • 2. Um mover d’olhos brando e piadoso, Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto, quási forçado; um doce e humilde gesto, de qualquer alegria duvidoso; Um despejo quieto e vergonhoso; um repouso gravíssimo e modesto; ũa pura bondade, manifesto indício da alma, limpo gracioso; Um escolhido ousar; ũa brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento: Esta foi a celeste formosura da minha Circe, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento.
  • 3. “É porventura (este) o mais célebre […] retrato da mulher amada que Camões deixou. O retrato, feito com base em enumerações iniciadas por “Um” (o que marca uma certa indefinição) é quase convencional, à maneira petrarquista: da amada se refere mais que os traços físicos a impressão que causam – brandura, piedade, timidez, gravidade, modéstia, bondade, serenidade, mela ncolia. Mas repare-se que cada um dos traços aponta, de certo modo, para antíteses “brando e honesto/quase forçado”, “encolhido ousar”, “doce e humilde gesto/de qualquer alegria duvidoso” – etc. E porquê a tristeza, o “medo sem ter culpa”, o “longo e obediente sofrimento”? Esta mulher enigmática […] é, afinal, ela própria, sede de contradição, como se revela na 2ª parte do soneto […]; é também a Circe, a feiticeira, que, com “mágico veneno”, perturbou, transformou o pensamento […] do poeta.” in Eu cantarei de amor, Amélia Pinto Pais
  • 4. Tema: BELEZA FEMININA  Beleza da mulher amada e fascínio que ela exerce no sujeito lírico.  o amor petrarquista / saudosista O soneto apresenta um retrato da mulher amada, onde se dá maior relevo aos traços morais. O conjunto de qualidades que lhe é dado tende a produzir uma imagem de perfeição e a não individualização da mulher. Como as qualidades morais são em maior número, parece ser sobretudo a beleza espiritual que fascina o sujeito poético.
  • 5. O retrato da amada mostra um ideal de beleza clássico. Segue um procedimento anafórico (repetição de uma mesma estrutura) - "um (...)“, só se esclarecendo o assunto do poema na última estrofe .
  • 6. Assunto  Camões expõe à maneira de Petrarca os atributos morais da mulher amada, a sua Circe (feiticeira), que “pôde transformar-lhe o pensamento”: brandura, piedade, honestidade, doçura, hum ildade, modéstia, bondade, retraimento, sere nidade, obediência e mansidão.  Trata-se de um retrato idealizado, indefinível.
  • 7. Trata-se de um retrato mais espiritual do que físico, que se conclui com uma referência à transformação do seu pensamento provocada pela sua formosura, que funcionaria como um “mágico veneno”. Esta escassa referência a características físicas e a predominância das qualidades morais remetem-nos para a ideologia platónica. Todavia, é sobretudo nítida a influência petrarquista no ideal de beleza feminina, e nas qualidades morais atribuídas à mulher, expressas por uma adjectivação abundante e por substantivos abstractos. Observa-se, ainda, que, na esteira de Petrarca, as qualidades morais predominam sobre as físicas e o fascínio resulta, portanto, da beleza espiritual.
  • 8.
  • 9. Um mover d'olhos, brando e piadoso, Olhar, riso, gesto: sem ver de quê; um riso brando e honesto, caracterizados por atitudes, qualidades, estado quase forçado; um doce e humilde gesto, s. de qualquer alegria duvidoso; Artigo indefinido: indica elevado nível de abstração. um despejo quieto e vergonhoso; um repouso gravíssimo e modesto; üa pura bondade, manifesto indício da alma, limpo e gracioso; Atributos habitualmente não próprios de uma um encolhido ousar; uma brandura; dama galante; antes do galante! um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento; Cadência monótona e iterativa do retrato: esta foi a celeste fermosura sublinha a serenidade da amada. da minha Circe, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento.
  • 10. Um mover d'olhos, brando e piadoso, Beleza: aqui caracterizada pelos sentimentos e por elementos de ordem moral e sem ver de quê; um riso brando e honesto, psicológica. quase forçado; um doce e humilde gesto, de qualquer alegria duvidoso; Qualidades interiores mais importantes do que os atributos físicos. um despejo quieto e vergonhoso; um repouso gravíssimo e modesto; üa pura bondade, manifesto Poder ‘maligno’ da amada: amor como indício da alma, limpo e gracioso; alquimia. O seu carácter sublime transforma-se em um encolhido ousar; uma brandura; ameaça. um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento; Aspeto espiritual + esta foi a celeste fermosura Aspeto material da minha Circe, e o mágico veneno = Elevação (o caminho divino) que pôde transformar meu pensamento.
  • 11. Um mover d’olhos brando e piadoso, Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto, quási forçado; um doce e humilde gesto, de qualquer alegria duvidoso; Um despejo quieto e vergonhoso; um repouso gravíssimo e modesto; ũa pura bondade, manifesto indício da alma, limpo gracioso; Um escolhido ousar; ũa brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento: Brando: meigo Esta foi a celeste formosura Gesto: rosto da minha Circe, e o mágico veneno Despejo: desembaraço que pôde transformar meu pensamento. Vergonhoso: recatado, tímido Sofrimento: paciência Circe: feiticeira da mitologia grega que deu a beber aos companheiros de Ulisses a poção mágica que os transformou em animais, impedindo assim, que o herói prosseguisse viagem e se afastasse dela.
  • 12. Desenvolvimento do assunto 1ª parte Faz-se uma enumeração dos atributos físicos e morais da (quadras+ 1º mulher amada, repetindo-se a mesma estrutura frásica terceto) (artigo indefinido + substantivo + adjetivo). Trata-se do retrato da mulher amada, onde são focados aspetos assaz abstratos (cf. artigo indefinido). Na 1ª quadra, referem-se aspetos exteriores (olhar, riso, rosto) e, em seguida, a descrição da amada engloba atitudes, qualidades e estados. 2ª parte Atentar no pronome demonstrativo “Esta”, que introduz o (2º terceto) fim da enumeração presente na 1ª parte. Nesta 2ª parte, sintetizam-se os atributos da mulher amada, que fascina o poeta.
  • 13. Este poema está dividido em duas partes lógicas. A primeira parte é as duas quadras e o primeiro terceto e corresponde à acumulação de atributos físicos e morais da figura feminina. Assim, são feitas referências ao “mover d’olhos”, ao “sorriso”, ao “gesto”, às quais são sempre atribuídas qualidades morais: “Um mover d’olhos brando e piadoso,”, “um sorriso brando e honesto,” e “um doce e humilde gesto,”. A segunda parte é ultimo terceto e corresponde à síntese de todos esses atributos reunidos na expressão “celeste fermosura”, que, além da beleza, remete para o carácter divino da mulher. Esta é também, metaforicamente, apresentada como Circe, ou seja, uma feiticeira que encanta o poeta como seu mágico veneno, isto é, a sua perfeição, que seduz o poeta e lhe transforma o pensamento.
  • 14. Um mover d'olhos, brando e piadoso, 1º momento: sem ver de quê; um riso brando e honesto, Elogio das qualidades morais e quase forçado; um doce e humilde gesto, psicológicas, por uma acumulação de de qualquer alegria duvidoso; predicados; um despejo quieto e vergonhoso; A figura feminina não é real, nem um repouso gravíssimo e modesto; concreta, nem palpável. üa pura bondade, manifesto Este retrato corresponde a um modelo de indício da alma, limpo e gracioso; beleza tão perfeita que só pode ser entendido como idealização. um encolhido ousar; üa brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento; 2º momento: Síntese das qualidades e efeito sobre o esta foi a celeste fermosura EU lírico. da minha Circe, e o mágico veneno O amor é visto como uma poção que pôde transformar meu pensamento. venenosa que determina o rumo da vida do sujeito.
  • 15. 1ª estrofe: descreve fisicamente sugerindo um comportamento de delicadeza (ideal de beleza Um mover d'olhos, brando e piadoso, sem ver de quê; um riso brando e honesto, clássico) quase forçado; um doce e humilde gesto, de qualquer alegria duvidoso; 2ª e 3ª estrofe: descreve o carácter da amada, quebrando a imagem de delicadeza com um despejo quieto e vergonhoso; antíteses (manifesto indício, encolhido ousar) e um repouso gravíssimo e modesto; sugerindo que há algo mais na mulher. üa pura bondade, manifesto indício da alma, limpo e gracioso; 4ª estrofe: esclarece o assunto do poema, eleva beleza da amada a um patamar divino (celeste um encolhido ousar; üa brandura; formosura) e compara-a a uma feiticeira da mitologia um medo sem ter culpa; um ar sereno; (retomada da cultura greco-latina) que o encanta. A um longo e obediente sofrimento; emoção, porém, não é totalmente boa, perturbando esta foi a celeste fermosura o Eu lírico. da minha Circe, e o mágico veneno As antíteses "manifesto indício", "encolhido ousar" que pôde transformar meu pensamento. sugerem o jogo de sedução feminino, que ora esconde (indício) e ora mostra (manifesto). A comparação com uma feiticeira também sugere o jogo.
  • 16. Ao carácter descritivo do poema, constituído por uma enumeração de qualidades e seus efeitos no sujeito, determina a utilização de certos recursos estilísticos: Anáfora – repetição do artigo indefinido em início de verso, e que marca a passagem de uma qualidade para outra; Discurso Valorativo - traduz o juízo de valor que o sujeito faz da amada, e assenta, sobretudo, em adjectivos e expressões que contêm uma apreciação subjectiva das suas qualidades; Adjetivação, que marca o discurso valorativo que o sujeito tece sobre a mulher amada; Abundância de adjetivos e substantivos abstractos e a quase inexistência de verbos; Substantivação de verbos: “um mover de olhos”, “um encolhido ousar” Artigo Indefinido - sugere proximidade afetiva entre o sujeito e a amada; Antítese - “celeste fermosura” / “mágico veneno”, “um mover de olhos(…)” / “sem ver de quê” que comprova que está a ser descrita uma mulher quase indefinível. Enumeração assindética - acumulação de segmentos de frase, separados por ponto e vírgula, e sem recorrer à copulativa “e”; Metáfora - “mágico veneno”, “a minha Circe”. Encavalgamento ou transporte, que acentua a fluidez do ritmo da enumeração;
  • 17. Um mover d’olhos brando e piadoso, A Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto, B quási forçado; um doce e humilde gesto, B A A composição poética é de qualquer alegria duvidoso; constituída por duas quadras Um desejo quieto e vergonhoso; e dois tercetos (soneto), em A um repouso gravíssimo e modesto; B metro decassilábico, com um ũa pura bondade, manifesto B esquema rimático : indício da alma, limpo gracioso; A Um escolhido ousar; ũa brandura; C ABBA///ABBA//CDE//CDE um medo sem ter culpa; um ar sereno; D verificando-se a existência de um longo e obediente sofrimento: E rima interpolada em A, emparelhada em B e Esta foi a celeste formosura C D interpolada em CDE. da minha Circe, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento. E
  • 18. Tema a beleza da amada "mover d'olhos brando e piadoso", "riso brando e honesto", Qualidades físicas da amada "ar sereno". branda e piedosa, honesta, doce, alegre sem exagero, Qualidades psicológicas da maneira de estar serena, bondosa, alma pura, ousada com amada medida, sofredora. Classe social da amada Senhora "celeste fermosura" celeste fermosura da minha Circe Justificação de expressões a sua beleza é celestial, divina mas também diabólica pois conseguiu prendê-lo irremediavelmente. Adjetivação: simples, dupla e tripla: em todo o poema; Recursos estilísticos utilizados Antítese: “celeste fermosura”; “mágico veneno” no retrato Metáfora; Hipérbole; Anáfora Soneto. ABBA/ABBA/ CDE/ CDE Tipo de composição Rima emparelhada e interpolada.
  • 19. Aisthesis: Percepção do amor mais dinâmica a partir de sentimentos contraditórios / oscilantes semiótica do amor camoniano Anestética: heterotopia deste Estética: modelo do ideia do amor «elevado», amor, soneto derivada do petrarquismo camoniano
  • 20.
  • 21.