ARTES


 O SÉCULO XX E SEUS PRINCIPAIS MOVIMEN-
            TOS ARTÍSTICOS
1. INTRODUÇÃO




                                                    Guernica, de Picasso. Dimensões: 349x777 cm. Museu do Prado, em Madri.

       O século XX inicia-se ampliando as conquistas            dências artísticas, tais como o Expressionismo, o
técnicas e o progresso industrial do século anterior.           Fauvismo, o Cubismo, o Futurismo, o Abstracionis-
Na sociedade, acentuam-se as diferenças entre a alta            mo, o Dadaísmo, o Surrealismo, a Pintura Metafísi-
burguesia e o proletariado. O capitalismo organizase            ca, a Op-art e a Pop-art expressam, de um modo ou
e surgem os primeiros movimentos sindicais que pas-             de outro, a perplexidade do homem contemporâneo.
sam a interferir nas sociedades industrializadas.
                                                                2. EXPRESSIONISMO
       Nas primeiras décadas do nosso século ocor-
rem também profundas conturbações políticas: a                        É inegável que o Expressionismo foi uma rea-
Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa; o sur-              ção ao Impressionismo, já que esse movimento se
gimento do fascismo na Itália e do nazismo na Ale-              preocupou apenas com as sensações de luz e cor, não
manha. Não demorou muito para que as situações                  se importando com os sentimentos humanos e com a
políticas criadas pela Itália e Alemanha levassem os            problemática da sociedade moderna. Ao contrário, o
países europeus e americanos a envolverem-se em                 Expressionismo procurou expressar as emoções hu-
novo conflito mundial. Com essa última grande guer-             manas e interpretar as angústias que caracterizaram
ra, tiveram início também as pesquisas e o uso da e-            psicologicamente o homem do início do século XX.
nergia nuclear, que se configura hoje como uma                        Na verdade, essa tendência para traduzir em li-
ameaça à sobrevivência da humanidade.                           nhas e cores os sentimentos mais dramáticos do ho-
       Ocorreram ainda neste século a conquista do              mem já vinha sendo realizada por Van Gogh, que não
espaço, o uso crescente da computação e dos satéli-             se preocupava mais em fixar os efeitos efêmeros da
tes, que colocam em comunicação imediata as mais                luz solar sobre os seres. Esse artista procurava, atra-
distantes partes do mundo.                                      vés da cor e da deformação proposital da realidade,
       Ao lado desses avanços acentuaram-se as dis-             fazer com que os seres reais nos revelassem seu
paridades sociais. Hoje, existem regiões com imensas            mundo interior.
riquezas e outras com grande pobreza, onde as pesso-
as passam fome e ignoram os fatos e os benefícios do
progresso material das regiões ricas.
       É nesse contexto complexo, rico em contradi-
ções e muitas vezes angustiante que se desenvolve a
arte do nosso tempo. Assim, os movimentos e as ten-
Editora Exato                                             36
Natureza-morta com Peixes (1911), de Matisse, Museu de
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                             O Grito (1893), de Munch.                 Dos pintores fauvistas, Matisse foi, sem dúvi-
       Além de Van Gogh, o pintor norueguês Ed-                da, a maior expressão. Sua característica mais forte é
vard Munch (1863-1944-) também inspirou o movi-                a despreocupação com o realismo, tanto em relação
mento expressionista. Sua obra O Grito (fig. 1.2) é            às formas das figuras quanto em relação às cores, Em
um exemplo dos temas que sensibilizaram os artistas            suas obras, as coisas representadas são menos impor-
ligados a essa tendência. Nela a figura humana não             tantes do que a maneira de representá-las,
apresenta suas linhas reais mas contorce-se sob o e-                   Assim, as figuras interessam enquanto formas
feito de suas emoções. As linhas sinuosas do céu e da          que constituem uma composição, É indiferente ao ar-
água, e a linha diagonal da ponte, conduzem o olhar            tista se elas são de pessoas ou de natureza morta, Por
do observador para a boca da figura que se abre num            exemplo, em Natureza-morta com Peixes Vermelhos
grito perturbador. Essas atitudes inéditas até aqui pa-        (fig.1.3), quadro pintado em 1911, podemos observar
ra as personagens da pintura e a ênfase para as linhas         que o importante para Matisse é que as figuras - tais
fortes evidenciam a emoção que o artista procura ex-           como a mulher, o aquário, o vaso com flores e a pe-
pressar.                                                       quena estante -, uma vez associadas, compõem um
3. FAUVISMO                                                    todo orgânico.

       Em 1905, em Paris, durante a realização do Sa-          4. O CUBISMO
lão de Outono, alguns jovens pintores foram chama-                    Historicamente o Cubismo originou-se na obra
dos pelos críticos de fauves, que em português                 de Cézanne, pois, para ele a pintura deveria tratar as
significa "feras", por causa da intensidade com que            formas da natureza como se fossem cones, esferas e
usavam as cores puras, sem misturá-las ou matizá-              cilindros,
las.                                                                  Entretanto, os cubistas foram mais longe do
       Dois princípios regem esse movimento artísti-           que Cézanne. Passaram a representar os objetos com
co: a simplificação das formas das figuras e o empre-          todas as suas partes num mesmo plano. Na verdade,
go das cores puras. Por isso, as figuras fauvistas são         essa atitude de decompor os objetos não tinha ne-
apenas sugeridas e não representadas realisticamente           nhum compromisso de fidelidade com a aparência
pelo pintor. Da mesma forma, as cores não são as da            real das coisas. Significava, em suma, o abandono da
realidade. Elas resultam de uma escolha arbitrária do          busca da ilusão da perspectiva ou das três dimensões
artista e são usadas puras, tal como estão no tubo de          dos seres, tão perseguidos pelos pintores renascentis-
tinta. O pintor não as torna mais suaves nem cria gra-         tas,
dação de tons.                                                        Com o tempo, o Cubismo evoluiu em duas
                                                               grandes tendências chamadas Cubismo analítico e
                                                               Cubismo sintético, O Cubismo analítico foi desen-
                                                               volvido por Picasso e Braque, aproximadamente en-

Editora Exato                                             37
tre 1908 e 1911. Esses artistas trabalharam com pou-           amente (fig, 1.4). Levada às últimas conseqüências,
cas cores - preto, cinza e alguns tons de marrom e o-          essa tendência chegou a uma fragmentação tão gran-
cre -, já que o mais importante para eles era definir          de dos seres, que tornou impossível o reconhecimen-
um tema e apresentá-lo de todos os lados simultane-            to de qualquer figura nas pinturas cubistas (fig, 1.5).




                   Violinoe Cântaro (1910), de Braque.           O Poeta (1911), de Picasso.

       Reagindo à excessiva fragmentação dos obje-
tos e à destruição de sua estrutura, os cubistas passa-
ram ao Cubismo sintético. Basicamente, essa
tendência procurou tornar as figuras novamente reco-
nhecíveis. Mas, apesar de ter havido uma certa recu-
peração da imagem real dos objetos, isso não
significou o retorno a um tratamento realista do tema.
Foi mantido o modo característico de o Cubismo a-
presentar simultaneamente as várias dimensões de
um objeto, como podemos observar em Mulher com
Violão, de Braque (fig. 1.6).




                                                                                     Mulher com Violão (1908), de Braque.
                                                                      O Cubismo sintético foi chamado também de
                                                               Colagem porque introduziu letras, palavras, números,
                                                               pedaços de madeira, vidro, metal e até objetos intei-
                                                               ros nas pinturas. Essa inovação pode ser explicada
                                                               pela intenção do artista de criar novos efeitos plásti-
                                                               cos e de ultrapassar os limites das sensações visuais

Editora Exato                                             38
que a pintura sugere, despertando também no obser-
vador as sensações táteis.
5. O ABSTRACIONISMO
        A principal característica da pintura abstrata é
a ausência de relação imediata entre suas formas e
cores e as formas e cores de um ser. Por isso, uma te-
la abstrata não representa nada da realidade que nos
cerca, nem narra figurativamente alguma cena histó-
rica, literária, religiosa ou mitológica.
        Os estudiosos de arte comumente consideram
o pintor russo Wassily Kandinsky (1866-1944) o ini-
ciador da moderna pintura abstrata. O começo de
seus trabalhos neste sentido é marcado pela tela Bata-
lha (fig. 1.7).




                          Batalha (1910), de Kandinsky.




Editora Exato                                              39

A arte no Século XX

  • 1.
    ARTES O SÉCULOXX E SEUS PRINCIPAIS MOVIMEN- TOS ARTÍSTICOS 1. INTRODUÇÃO Guernica, de Picasso. Dimensões: 349x777 cm. Museu do Prado, em Madri. O século XX inicia-se ampliando as conquistas dências artísticas, tais como o Expressionismo, o técnicas e o progresso industrial do século anterior. Fauvismo, o Cubismo, o Futurismo, o Abstracionis- Na sociedade, acentuam-se as diferenças entre a alta mo, o Dadaísmo, o Surrealismo, a Pintura Metafísi- burguesia e o proletariado. O capitalismo organizase ca, a Op-art e a Pop-art expressam, de um modo ou e surgem os primeiros movimentos sindicais que pas- de outro, a perplexidade do homem contemporâneo. sam a interferir nas sociedades industrializadas. 2. EXPRESSIONISMO Nas primeiras décadas do nosso século ocor- rem também profundas conturbações políticas: a É inegável que o Expressionismo foi uma rea- Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa; o sur- ção ao Impressionismo, já que esse movimento se gimento do fascismo na Itália e do nazismo na Ale- preocupou apenas com as sensações de luz e cor, não manha. Não demorou muito para que as situações se importando com os sentimentos humanos e com a políticas criadas pela Itália e Alemanha levassem os problemática da sociedade moderna. Ao contrário, o países europeus e americanos a envolverem-se em Expressionismo procurou expressar as emoções hu- novo conflito mundial. Com essa última grande guer- manas e interpretar as angústias que caracterizaram ra, tiveram início também as pesquisas e o uso da e- psicologicamente o homem do início do século XX. nergia nuclear, que se configura hoje como uma Na verdade, essa tendência para traduzir em li- ameaça à sobrevivência da humanidade. nhas e cores os sentimentos mais dramáticos do ho- Ocorreram ainda neste século a conquista do mem já vinha sendo realizada por Van Gogh, que não espaço, o uso crescente da computação e dos satéli- se preocupava mais em fixar os efeitos efêmeros da tes, que colocam em comunicação imediata as mais luz solar sobre os seres. Esse artista procurava, atra- distantes partes do mundo. vés da cor e da deformação proposital da realidade, Ao lado desses avanços acentuaram-se as dis- fazer com que os seres reais nos revelassem seu paridades sociais. Hoje, existem regiões com imensas mundo interior. riquezas e outras com grande pobreza, onde as pesso- as passam fome e ignoram os fatos e os benefícios do progresso material das regiões ricas. É nesse contexto complexo, rico em contradi- ções e muitas vezes angustiante que se desenvolve a arte do nosso tempo. Assim, os movimentos e as ten- Editora Exato 36
  • 2.
    Natureza-morta com Peixes(1911), de Matisse, Museu de Arte Moderna York. O Grito (1893), de Munch. Dos pintores fauvistas, Matisse foi, sem dúvi- Além de Van Gogh, o pintor norueguês Ed- da, a maior expressão. Sua característica mais forte é vard Munch (1863-1944-) também inspirou o movi- a despreocupação com o realismo, tanto em relação mento expressionista. Sua obra O Grito (fig. 1.2) é às formas das figuras quanto em relação às cores, Em um exemplo dos temas que sensibilizaram os artistas suas obras, as coisas representadas são menos impor- ligados a essa tendência. Nela a figura humana não tantes do que a maneira de representá-las, apresenta suas linhas reais mas contorce-se sob o e- Assim, as figuras interessam enquanto formas feito de suas emoções. As linhas sinuosas do céu e da que constituem uma composição, É indiferente ao ar- água, e a linha diagonal da ponte, conduzem o olhar tista se elas são de pessoas ou de natureza morta, Por do observador para a boca da figura que se abre num exemplo, em Natureza-morta com Peixes Vermelhos grito perturbador. Essas atitudes inéditas até aqui pa- (fig.1.3), quadro pintado em 1911, podemos observar ra as personagens da pintura e a ênfase para as linhas que o importante para Matisse é que as figuras - tais fortes evidenciam a emoção que o artista procura ex- como a mulher, o aquário, o vaso com flores e a pe- pressar. quena estante -, uma vez associadas, compõem um 3. FAUVISMO todo orgânico. Em 1905, em Paris, durante a realização do Sa- 4. O CUBISMO lão de Outono, alguns jovens pintores foram chama- Historicamente o Cubismo originou-se na obra dos pelos críticos de fauves, que em português de Cézanne, pois, para ele a pintura deveria tratar as significa "feras", por causa da intensidade com que formas da natureza como se fossem cones, esferas e usavam as cores puras, sem misturá-las ou matizá- cilindros, las. Entretanto, os cubistas foram mais longe do Dois princípios regem esse movimento artísti- que Cézanne. Passaram a representar os objetos com co: a simplificação das formas das figuras e o empre- todas as suas partes num mesmo plano. Na verdade, go das cores puras. Por isso, as figuras fauvistas são essa atitude de decompor os objetos não tinha ne- apenas sugeridas e não representadas realisticamente nhum compromisso de fidelidade com a aparência pelo pintor. Da mesma forma, as cores não são as da real das coisas. Significava, em suma, o abandono da realidade. Elas resultam de uma escolha arbitrária do busca da ilusão da perspectiva ou das três dimensões artista e são usadas puras, tal como estão no tubo de dos seres, tão perseguidos pelos pintores renascentis- tinta. O pintor não as torna mais suaves nem cria gra- tas, dação de tons. Com o tempo, o Cubismo evoluiu em duas grandes tendências chamadas Cubismo analítico e Cubismo sintético, O Cubismo analítico foi desen- volvido por Picasso e Braque, aproximadamente en- Editora Exato 37
  • 3.
    tre 1908 e1911. Esses artistas trabalharam com pou- amente (fig, 1.4). Levada às últimas conseqüências, cas cores - preto, cinza e alguns tons de marrom e o- essa tendência chegou a uma fragmentação tão gran- cre -, já que o mais importante para eles era definir de dos seres, que tornou impossível o reconhecimen- um tema e apresentá-lo de todos os lados simultane- to de qualquer figura nas pinturas cubistas (fig, 1.5). Violinoe Cântaro (1910), de Braque. O Poeta (1911), de Picasso. Reagindo à excessiva fragmentação dos obje- tos e à destruição de sua estrutura, os cubistas passa- ram ao Cubismo sintético. Basicamente, essa tendência procurou tornar as figuras novamente reco- nhecíveis. Mas, apesar de ter havido uma certa recu- peração da imagem real dos objetos, isso não significou o retorno a um tratamento realista do tema. Foi mantido o modo característico de o Cubismo a- presentar simultaneamente as várias dimensões de um objeto, como podemos observar em Mulher com Violão, de Braque (fig. 1.6). Mulher com Violão (1908), de Braque. O Cubismo sintético foi chamado também de Colagem porque introduziu letras, palavras, números, pedaços de madeira, vidro, metal e até objetos intei- ros nas pinturas. Essa inovação pode ser explicada pela intenção do artista de criar novos efeitos plásti- cos e de ultrapassar os limites das sensações visuais Editora Exato 38
  • 4.
    que a pinturasugere, despertando também no obser- vador as sensações táteis. 5. O ABSTRACIONISMO A principal característica da pintura abstrata é a ausência de relação imediata entre suas formas e cores e as formas e cores de um ser. Por isso, uma te- la abstrata não representa nada da realidade que nos cerca, nem narra figurativamente alguma cena histó- rica, literária, religiosa ou mitológica. Os estudiosos de arte comumente consideram o pintor russo Wassily Kandinsky (1866-1944) o ini- ciador da moderna pintura abstrata. O começo de seus trabalhos neste sentido é marcado pela tela Bata- lha (fig. 1.7). Batalha (1910), de Kandinsky. Editora Exato 39