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O Cortiço, de Aluísio Azevedo
Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913), nascido em São Luís do
Maranhão, foi o primeiro escritor brasileiro a viver unicamente da literatura, foi ainda
jornalista, cronista, caricaturista e teatrólogo. Tornou-se o grande nome do Naturalismo
brasileiro. Exercendo funções diplomáticas morreu em Buenos Aires na Argentina.
Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam,
enchiam se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez
em alugá-las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os
empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da
obrigação [...]. Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem.
(cap. I, p.21).
Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita
da venda, separada desta apenas por aquelas vinte braças; de sorte que todo o flanco
esquerdo do prédio, coisa de uns vinte e tantos metros, despejava para o terreno do
vendeiro as suas nove janelas de peitoril. Comprou o um tal Miranda, negociante
português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado.
(cap. I, p.13).
Diferentemente do romance realista que procura ver esteticamente os problemas
sociais, o romance naturalista vai além direto e cientificamente aos problemas da
sociedade, buscando desvendar suas causas segundo os preceitos deterministas.
Partindo do pressuposto de suas leituras científicas e observando obras
naturalistas de escritores europeus como Èmile Zola e Hippolyte Taine, para quem o
homem era produto do meio, da “raça” e do momento histórico, o romancista
maranhense seguiu à risca o estilo naturalista de Determinismo e Evolucionismo
ilustrado seguidamente na obra supracitada.
1. O ESPAÇO NO ROMANCE NATURALISTA
O espaço tomado como instrumento de análise apresenta vários aspectos. Dentre
eles, destaca-se a noção de espacialidade dimensional que pode ser mensurável e divide-
se em vertical e horizontal.
A ideia de verticalidade se relaciona com o espaço divino ou sobrenatural, a
noção de horizontalidade opõe-se a verticalidade, uma vez que a horizontalidade é
própria do espaço humano ou natural.
É sabido que todo o texto literário possui seu espaço na medida em que se
propõe mostrar uma parte da realidade, ao mesmo tempo em que estabelece uma
fronteira entre o mundo real e o imaginário.
A descrição é o principal instrumento que o romancista dispõe para conceber o
espaço em que ocorre a história, isso explica o fato de que em romances como o realista
e o naturalista principalmente, o estudo do meio e as descrições ocorram com
frequência.
Paralelamente entrelaça as histórias dos moradores do Cortiço São Romão,
dentre eles o português Jerônimo e Rita Baiana e a luta pela sobrevivência diária, ao
mesmo tempo em que narra a história dos moradores ricos do Sobrado do Miranda este
a princípio oponente de João Romão, depois seu aliado.
2. CORTIÇO: ESPAÇO DE JOÃO ROMÃO
Bem ao estilo naturalista, o cortiço - espaço de João Romão define-se por sua
estrutura horizontal e composição primária de coletivismo patológico. Neste espaço, o
homem é influenciado pela “raça”, meio e momento histórico em uma habitação
coletiva em que coabitam pessoas de várias etnias no bairro do Botafogo no Rio de
Janeiro.
O Cortiço é considerado a personagem mais convincente da obra, uma vez que
se projeta de tal forma, que se destaca mais do que as próprias personagens que ali
vivem.
E durante dois anos o Cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças,
socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se inquieto com aquela
exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe
crescia junto da casa, por debaixo das janelas e cujas raízes piores e mais grossas do
que serpentes minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela,
rachando o solo e rebentando tudo.
Percebe-se aqui a fórmula naturalista em que as descrições do espaço tornam-se
fundamentais para o entendimento da obra. Existe o quadro: dele derivam as figuras,
caso do português Jerônimo, antes respeitado empregado da pedreira, que ao se
apaixonar pela brasileira Rita Baiana vê sua vida mudar completamente. Por ela
Jerônimo deixa a família, o trabalho e transforma-se numa pessoa totalmente voltada
aos prazeres da carne.
O português abrasileirou-se para sempre; fez se preguiçoso, amigo das
extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se lhe de vez o espírito da
economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer e deu-se todo, todo inteiro à
felicidade de possuir a mulata e ser possuído só por ela, só ela e mais ninguém.
Com isso, observa-se a tese determinista sendo comprovada de que o homem é
produto do meio; para o narrador, no Cortiço, já não se distinguem homens de animais,
objetos ou vegetais.
Sentia-se, naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas
rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer
animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.
Visualiza-se desta forma, a impessoalidade com que o narrador acentua a
degradação das pessoas aproximando-as insistentemente de animais.
Na obra O Cortiço, Aluísio Azevedo retrata literariamente a realidade do Brasil
no século XIX, sua ideologia e as relações sociais presentes no país de capitalismo
incipiente em que o explorador vive perto do explorado.
O Cortiço é o espaço atópico (deslocado), lugar da luta e do sofrimento; lá todas
as personagens são empregados, biscateiros ou assalariados e dependem
economicamente do grupo que mantém o capital e os meios de produção. O narrador
mostra João Romão na sua “moléstia nervosa” de possuir como a única personagem que
não se deixa corromper pelo espaço mixórdico (conflituoso) de moradia e faz uma
distinção ente os que já venceram e os que se esgotam na labuta diária pela própria
sobrevivência.
3. SOBRADO DO MIRANDA
O espaço oponente ao Cortiço de João Romão é o sobrado aristocratizante do
comerciante Miranda e sua família. O sobrado representa a burguesia ascendente do
século XIX. Situa-se no bairro do Botafogo no Rio de Janeiro e explora a exuberante
natureza local como meio determinante.
A casa era boa; seu único defeito estava na escassez do quintal; mas para isso
havia remédio: com muito pouco compravam-se umas dez braças daquele terreno de
fundo, que ia até a pedreira, e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava a
venda.
Analisando a estrutura vertical do sobrado do Miranda, percebe-se o confronto
entre as personagens do Cortiço e do Sobrado. O primeiro nivela-se por baixo, pela
pobreza; o segundo caracteriza-se pela capacidade de barganha e mediação necessárias
a sua própria sobrevivência.
Prezava acima de tudo sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se
novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de se
haver habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já
não tem pátria na Europa.
Compreende-se dessa forma a capacidade de troca mútua de favores existente
nas relações das personagens do sobrado em que ambos se beneficiam. Miranda por um
lado teme a pobreza, Estela sua esposa, por seu turno, precisa manter-se casada para ser
respeitada diante da sociedade da época.
O Sobrado pode ser entendido como o espaço tópico, lugar conhecido onde se
vive em segurança e conforto apesar dos conflitos existentes entre os seus moradores.
Os integrantes do espaço Sobrado, diferentemente da comunidade do Cortiço, que busca
no instinto e na violência meios para conseguir seus objetivos, utilizam -se de regras
culturalmente complexas e definidas para atingir suas metas.
Reafirmando o que dissemos anteriormente, o próprio Miranda, homem rico,
porém, infeliz desde que pegou sua mulher em adultério, não se separa para não perder
a fortuna proveniente do dote da esposa, Miranda vê no baronato uma forma de superar
sua "pequenez" investindo em algo que só a ele pertenceria, sem ter que restituí-lo a
ninguém.
Semelhante preocupação modificou-o em extremo. Deu logo para fingir-se
escravo das conveniências, afetando escrúpulos sociais, empertigando-se quando e
disfarçando sua inveja pelo vizinho com um desdenhoso ar de superioridade
condescendente. Ao passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com
proteção sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida, muito sério.
Nota-se nessa citação o uso das máscaras sociais e o uso de regras definidas
culturalmente como forma de possuir o bem que se almeja.
Miranda é o representante da elite burguesa do século XIX, sua condição social
o diferencia das classes baixas, sobretudo de João Romão que apesar de deter o capital
não participa da vida em sociedade. Com Miranda, João Romão entende que não basta
ter dinheiro, é preciso ostentar uma vida reconhecida e ativa na vida burguesa. Toda
movimentação de Romão é para sair do solo puramente biológico e instintivo em que se
agita o Cortiço e entrar numa organização social regida por um sistema jurídico e
político representativo da Cultura, representado pelo espaço do Miranda.
Para imitar as conquistas do rival, João Romão promove várias mudanças na
estalagem, que ostenta depois das reformas ares aristocráticos. O cortiço muda,
perdendo seu caráter desorganizado e miserável para se transformar na vila São Romão,
superando em estrutura e beleza o sobrado do Miranda.
1. Em O Cortiço, a habitação coletiva que dá título ao livro é comparada a um ser vivo.
Assim, ele é construído, ampliado, suas casas se multiplicam como um ser que cresce.
O que é possível depreender sobre o que acontecerá com ele posteriormente?
2. Leia o fragmento extraído de O Cortiço:
(...) Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouvia em noites de lua clara roncar a
onça e o maracajá, nem pela manhã ao romper do dia, rilhava o bando truculento das
queixadas, lá não varava pelas florestas a anta feia e terrível, quebrando árvores; (...)
lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo; seria o mesmo
lavrador triste e contemplativo como o gado que à tarde levanta para o céu de opala o
seu olhar humilde, compungido e bíblico.
Percebe-se pelo texto que uma determinada mudança fez com que o comportamento da
personagem possa ter sofrido alteração.
a) Que tipo de mudança ocorreu?
b) Que tese da época naturalista previa uma influência no ser humano a partir de tal
modificação?
3. Rita Baiana fugia dos rapazes como uma cadela no cio. Essa frase foi extraída do
romance naturalista O Cortiço.
Qual o nome da característica em que elementos animais aparecem na caracterização de
seres humanos?
4.
Fechou-se um entra-e-sai de marimbondos defronte daquelas cem casinhas
ameaçadas pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao
ombro, numa balbúrdia de doidos. O pátio e a rua enchiam-se agora de camas velhas e
colchões espocados. Ninguém se conhecia naquela zumba de gritos sem nexo, e choro
de crianças esmagadas, e pragas arrancadas pela dor e pelo desespero. Da casa do
Barão saíam clamores apopléticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se
espolinhava (espojava-se, revolvia-se no chão) com um ataque. E começou a aparecer
água. Quem a trouxe? Ninguém sabia dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se
despejavam sobre as chamas.
Os sinos da vizinhança começaram a badalar.
E tudo era um clamor.
A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa.
Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha,
reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante
como as das éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno.
E ela ria-se, ébria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no
meio daquela orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua
alma extravagante de maluca.
Ia atirar-se cá para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento da casa
incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca num montão de brasas.
(O Cortiço, de Aluísio Azevedo)
O caráter naturalista nessa obra de Aluísio Azevedo oferece, de maneira figurada, um
retrato de nosso país, no final do século XIX. Põe em evidência a competição dos mais
fortes, entre si, e estes, esmagando as camadas de baixo, compostas de brancos pobres,
mestiços e escravos africanos. No ambiente de degradação de um cortiço, o autor expõe
um quadro tenso de misérias materiais e humanas. No fragmento, há várias outras
características do Naturalismo. Aponte a opção em que as duas características
apresentadas são corretas.
a) Exploração do comportamento anormal e dos instintos baixos; enfoque da vida e dos
fatos sociais contemporâneos ao escritor.
b) Visão subjetivista dada pelo foco narrativo; tensão conflitiva entre o ser humano e o
meio ambiente.
c) Preferência pelos temas do passado, propiciando uma visão objetiva dos fatos; crítica
aos valores burgueses e predileção pelos mais pobres.
d) A onisciência do narrador imprime-lhe o papel de criador, e se confunde com a ideia
de Deus; utilização de preciosismos vocabulares, para enfatizar o distanciamento entre a
enunciação e os fatos enunciados.
e) Exploração de um tema em que o ser humano é aviltado pelo mais forte;
predominância de elementos anticientíficos, para ajustar a narração ao ambiente
degradante das personagens.

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O cortiço material de aula

  • 1. O Cortiço, de Aluísio Azevedo Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913), nascido em São Luís do Maranhão, foi o primeiro escritor brasileiro a viver unicamente da literatura, foi ainda jornalista, cronista, caricaturista e teatrólogo. Tornou-se o grande nome do Naturalismo brasileiro. Exercendo funções diplomáticas morreu em Buenos Aires na Argentina. Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam, enchiam se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em alugá-las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação [...]. Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem. (cap. I, p.21). Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita da venda, separada desta apenas por aquelas vinte braças; de sorte que todo o flanco esquerdo do prédio, coisa de uns vinte e tantos metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janelas de peitoril. Comprou o um tal Miranda, negociante português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado. (cap. I, p.13). Diferentemente do romance realista que procura ver esteticamente os problemas sociais, o romance naturalista vai além direto e cientificamente aos problemas da sociedade, buscando desvendar suas causas segundo os preceitos deterministas. Partindo do pressuposto de suas leituras científicas e observando obras naturalistas de escritores europeus como Èmile Zola e Hippolyte Taine, para quem o homem era produto do meio, da “raça” e do momento histórico, o romancista maranhense seguiu à risca o estilo naturalista de Determinismo e Evolucionismo ilustrado seguidamente na obra supracitada. 1. O ESPAÇO NO ROMANCE NATURALISTA O espaço tomado como instrumento de análise apresenta vários aspectos. Dentre eles, destaca-se a noção de espacialidade dimensional que pode ser mensurável e divide- se em vertical e horizontal. A ideia de verticalidade se relaciona com o espaço divino ou sobrenatural, a noção de horizontalidade opõe-se a verticalidade, uma vez que a horizontalidade é própria do espaço humano ou natural. É sabido que todo o texto literário possui seu espaço na medida em que se propõe mostrar uma parte da realidade, ao mesmo tempo em que estabelece uma fronteira entre o mundo real e o imaginário. A descrição é o principal instrumento que o romancista dispõe para conceber o espaço em que ocorre a história, isso explica o fato de que em romances como o realista e o naturalista principalmente, o estudo do meio e as descrições ocorram com frequência. Paralelamente entrelaça as histórias dos moradores do Cortiço São Romão, dentre eles o português Jerônimo e Rita Baiana e a luta pela sobrevivência diária, ao mesmo tempo em que narra a história dos moradores ricos do Sobrado do Miranda este a princípio oponente de João Romão, depois seu aliado. 2. CORTIÇO: ESPAÇO DE JOÃO ROMÃO
  • 2. Bem ao estilo naturalista, o cortiço - espaço de João Romão define-se por sua estrutura horizontal e composição primária de coletivismo patológico. Neste espaço, o homem é influenciado pela “raça”, meio e momento histórico em uma habitação coletiva em que coabitam pessoas de várias etnias no bairro do Botafogo no Rio de Janeiro. O Cortiço é considerado a personagem mais convincente da obra, uma vez que se projeta de tal forma, que se destaca mais do que as próprias personagens que ali vivem. E durante dois anos o Cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas e cujas raízes piores e mais grossas do que serpentes minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e rebentando tudo. Percebe-se aqui a fórmula naturalista em que as descrições do espaço tornam-se fundamentais para o entendimento da obra. Existe o quadro: dele derivam as figuras, caso do português Jerônimo, antes respeitado empregado da pedreira, que ao se apaixonar pela brasileira Rita Baiana vê sua vida mudar completamente. Por ela Jerônimo deixa a família, o trabalho e transforma-se numa pessoa totalmente voltada aos prazeres da carne. O português abrasileirou-se para sempre; fez se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer e deu-se todo, todo inteiro à felicidade de possuir a mulata e ser possuído só por ela, só ela e mais ninguém. Com isso, observa-se a tese determinista sendo comprovada de que o homem é produto do meio; para o narrador, no Cortiço, já não se distinguem homens de animais, objetos ou vegetais. Sentia-se, naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. Visualiza-se desta forma, a impessoalidade com que o narrador acentua a degradação das pessoas aproximando-as insistentemente de animais. Na obra O Cortiço, Aluísio Azevedo retrata literariamente a realidade do Brasil no século XIX, sua ideologia e as relações sociais presentes no país de capitalismo incipiente em que o explorador vive perto do explorado. O Cortiço é o espaço atópico (deslocado), lugar da luta e do sofrimento; lá todas as personagens são empregados, biscateiros ou assalariados e dependem economicamente do grupo que mantém o capital e os meios de produção. O narrador mostra João Romão na sua “moléstia nervosa” de possuir como a única personagem que não se deixa corromper pelo espaço mixórdico (conflituoso) de moradia e faz uma distinção ente os que já venceram e os que se esgotam na labuta diária pela própria sobrevivência. 3. SOBRADO DO MIRANDA O espaço oponente ao Cortiço de João Romão é o sobrado aristocratizante do comerciante Miranda e sua família. O sobrado representa a burguesia ascendente do século XIX. Situa-se no bairro do Botafogo no Rio de Janeiro e explora a exuberante natureza local como meio determinante. A casa era boa; seu único defeito estava na escassez do quintal; mas para isso havia remédio: com muito pouco compravam-se umas dez braças daquele terreno de
  • 3. fundo, que ia até a pedreira, e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava a venda. Analisando a estrutura vertical do sobrado do Miranda, percebe-se o confronto entre as personagens do Cortiço e do Sobrado. O primeiro nivela-se por baixo, pela pobreza; o segundo caracteriza-se pela capacidade de barganha e mediação necessárias a sua própria sobrevivência. Prezava acima de tudo sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já não tem pátria na Europa. Compreende-se dessa forma a capacidade de troca mútua de favores existente nas relações das personagens do sobrado em que ambos se beneficiam. Miranda por um lado teme a pobreza, Estela sua esposa, por seu turno, precisa manter-se casada para ser respeitada diante da sociedade da época. O Sobrado pode ser entendido como o espaço tópico, lugar conhecido onde se vive em segurança e conforto apesar dos conflitos existentes entre os seus moradores. Os integrantes do espaço Sobrado, diferentemente da comunidade do Cortiço, que busca no instinto e na violência meios para conseguir seus objetivos, utilizam -se de regras culturalmente complexas e definidas para atingir suas metas. Reafirmando o que dissemos anteriormente, o próprio Miranda, homem rico, porém, infeliz desde que pegou sua mulher em adultério, não se separa para não perder a fortuna proveniente do dote da esposa, Miranda vê no baronato uma forma de superar sua "pequenez" investindo em algo que só a ele pertenceria, sem ter que restituí-lo a ninguém. Semelhante preocupação modificou-o em extremo. Deu logo para fingir-se escravo das conveniências, afetando escrúpulos sociais, empertigando-se quando e disfarçando sua inveja pelo vizinho com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com proteção sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida, muito sério. Nota-se nessa citação o uso das máscaras sociais e o uso de regras definidas culturalmente como forma de possuir o bem que se almeja. Miranda é o representante da elite burguesa do século XIX, sua condição social o diferencia das classes baixas, sobretudo de João Romão que apesar de deter o capital não participa da vida em sociedade. Com Miranda, João Romão entende que não basta ter dinheiro, é preciso ostentar uma vida reconhecida e ativa na vida burguesa. Toda movimentação de Romão é para sair do solo puramente biológico e instintivo em que se agita o Cortiço e entrar numa organização social regida por um sistema jurídico e político representativo da Cultura, representado pelo espaço do Miranda. Para imitar as conquistas do rival, João Romão promove várias mudanças na estalagem, que ostenta depois das reformas ares aristocráticos. O cortiço muda, perdendo seu caráter desorganizado e miserável para se transformar na vila São Romão, superando em estrutura e beleza o sobrado do Miranda. 1. Em O Cortiço, a habitação coletiva que dá título ao livro é comparada a um ser vivo. Assim, ele é construído, ampliado, suas casas se multiplicam como um ser que cresce. O que é possível depreender sobre o que acontecerá com ele posteriormente?
  • 4. 2. Leia o fragmento extraído de O Cortiço: (...) Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouvia em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã ao romper do dia, rilhava o bando truculento das queixadas, lá não varava pelas florestas a anta feia e terrível, quebrando árvores; (...) lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo; seria o mesmo lavrador triste e contemplativo como o gado que à tarde levanta para o céu de opala o seu olhar humilde, compungido e bíblico. Percebe-se pelo texto que uma determinada mudança fez com que o comportamento da personagem possa ter sofrido alteração. a) Que tipo de mudança ocorreu? b) Que tese da época naturalista previa uma influência no ser humano a partir de tal modificação? 3. Rita Baiana fugia dos rapazes como uma cadela no cio. Essa frase foi extraída do romance naturalista O Cortiço. Qual o nome da característica em que elementos animais aparecem na caracterização de seres humanos? 4. Fechou-se um entra-e-sai de marimbondos defronte daquelas cem casinhas ameaçadas pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao ombro, numa balbúrdia de doidos. O pátio e a rua enchiam-se agora de camas velhas e colchões espocados. Ninguém se conhecia naquela zumba de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas pela dor e pelo desespero. Da casa do Barão saíam clamores apopléticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava (espojava-se, revolvia-se no chão) com um ataque. E começou a aparecer água. Quem a trouxe? Ninguém sabia dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chamas. Os sinos da vizinhança começaram a badalar. E tudo era um clamor. A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa. Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno. E ela ria-se, ébria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no meio daquela orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua alma extravagante de maluca. Ia atirar-se cá para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento da casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca num montão de brasas. (O Cortiço, de Aluísio Azevedo) O caráter naturalista nessa obra de Aluísio Azevedo oferece, de maneira figurada, um retrato de nosso país, no final do século XIX. Põe em evidência a competição dos mais fortes, entre si, e estes, esmagando as camadas de baixo, compostas de brancos pobres,
  • 5. mestiços e escravos africanos. No ambiente de degradação de um cortiço, o autor expõe um quadro tenso de misérias materiais e humanas. No fragmento, há várias outras características do Naturalismo. Aponte a opção em que as duas características apresentadas são corretas. a) Exploração do comportamento anormal e dos instintos baixos; enfoque da vida e dos fatos sociais contemporâneos ao escritor. b) Visão subjetivista dada pelo foco narrativo; tensão conflitiva entre o ser humano e o meio ambiente. c) Preferência pelos temas do passado, propiciando uma visão objetiva dos fatos; crítica aos valores burgueses e predileção pelos mais pobres. d) A onisciência do narrador imprime-lhe o papel de criador, e se confunde com a ideia de Deus; utilização de preciosismos vocabulares, para enfatizar o distanciamento entre a enunciação e os fatos enunciados. e) Exploração de um tema em que o ser humano é aviltado pelo mais forte; predominância de elementos anticientíficos, para ajustar a narração ao ambiente degradante das personagens.