O cortiço , Aluísio Azevedo
Augusto Malta – Interior de um cortiço – Rio de Janeiro (1906)
Cortiço na Rua Visconde do Rio Branco – Rio de Janeiro (1906)
Cortiço – Rio de Janeiro (1904)
Rua São Clemente, Botafogo (1970) – Cenário que teria inspirado  O cortiço
Rua São Clemente, Botafogo (2007) – Cenário que teria inspirado  O cortiço
O cortiço , de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, é uma obra  naturalista  que se inspirou: em leis naturais enunciadas por Darwin (Seleção Natural e Evolucionismo); nas descobertas da medicina  experimental  de Claude Bernard (experimentalismo hipotético-dedutivo: observação-hipótese-experiência-resultado-interpretação-conclusão) ; nas ideias do filósofo e historiador francês Hippolyte Taine (Determinismo); nos princípios do Positivismo de Augusto Comte (cientificismo e materialismo).
Foco Narrativo:  o narrador é onisciente: além de comportar-se como se estivesse observando e registrando a verdade dos fatos, demonstra conhecimento sobre intenções e sentimentos das personagens.
Espaço:  A narrativa se desenvolve em dois espaços distintos/dois conjuntos que sofrerão transformações, como se pudessem ser representativos de dois organismos que estabelecem trocas e estão em evolução.  Conjunto A: O cortiço São Romão Conjunto B: O sobrado de Miranda.
O cortiço São Romão  (onde vivem os carapicus) Origem “ João Romão não saía nunca a passeio, nem ia à missa aos domingos; tudo que rendia sua venda e mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econômica e daí então para o banco. Tanto assim que, um ano depois da  aquisição da crioula [Bertoleza] , indo em hasta pública algumas braças de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem perda de tempo, de construir três casinhas de porta e janela.” (p.17)
“ E o fato é que aquelas três casinhas, tão engenhosamente construídas, foram o ponto de partida do  grande cortiço  de São Romão. Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua bodega; e, à proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e o número de moradores.” (p.18)
Desenvolvimento  “ Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças,  socando-se de gente . E ao lado o Miranda assustava-se (...).” (p.26)
Extinção  “ Houve nas duas maltas [carapicus e cabeças-de-gato] um súbito espasmo de terror. Abaixaram-se os ferros e calou-se o hino de morte. Um clarão tremendo ensanguentou o ar, que se fechou logo de fumaça fulva. A Bruxa conseguira afinal realizar o seu sonho de louca: o cortiço ia arder; não haveria meio de reprimir aquele cruento devorar de labaredas. Os cabeças-de-gato,  leais nas suas justas de partido , abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o auxílio de um sinistro  e dispostos até a socorrer o inimigo, se assim fosse preciso .” (p.165)
Reconstrução do cortiço   “ Daí a dias, com efeito, a estalagem metia-se em obras. À desordem do desentulho do incêndio sucedia a do trabalho dos pedreiros (...).” (p.171) “ Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito diferente, mal dava ideia do que fora. O pátio, como João Romão havia prometido, estreitara-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo calçado por igual e iluminado por três lampiões grandes simetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras de água e três banheiros. (...) De cento e tantos, a numeração dos cômodos elevou-se a mais de quatrocentos; e tudo caiadinho e pintado de fresco.” (p.181)
“ E, como a casa comercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. Já lá não se admitia assim qualquer pé-rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma recomendação especial. Os preços dos cômodos subiam (...). (...) a maior parte das casinhas eram ocupadas agora por pequenas famílias de operários, artistas e praticantes de secretaria. O cortiço aristocratizava-se.” (pp.198-199)
Sobrado de João Romão  “ João Romão conseguira  meter  o sobrado do vizinho  no chinelo ; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as cortinas e com a mobília nova impunha respeito. (p.183)
O sobrado do Miranda Origem “ Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita da venda (...). Comprou-o um tal Miranda, negociante português (...). Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele para lá com a família (...).” (pp.18-19)
Relações familiares no sobrado “ (...) a verdadeira causa da mudança estava na necessidade, que ele reconhecia urgente, de afastar Dona Estela do alcance dos seus caixeiros. Dona Estela era uma  mulherzinha levada da breca : achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio,  o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério ; ficou furioso e o seu primeiro impulso foi de mandá-la para o diabo junto com o cúmplice; mas a sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera (...). Além de que, um rompimento brusco seria obra para escândalo, e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem.” (p.19).   – Dona Estela não consegue controlar seus desejos lascivos.
O cortiço miserável e o rico sobrado de Miranda retratam, em pequena escala, a sociedade brasileira do fim do segundo império (segunda metade do século XIX): início discreto da industrialização (surgimento do operariado); crescimento do comércio urbano (capitalistas comerciais, compondo uma classe média – Miranda e João Romão). O cortiço é o espaço mais importante da obra, abrigando “machos e fêmeas” que lutavam pela sobrevivência.
Outras oposições presentes no romance A terra brasileira X Portugal   “ E [Piedade] maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa terra cansada, velha como que enferma; essa boa terra tranquila, sem sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e melancólicos, de um verde alourado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e afogados em tanto sol e em tanto perfume como o deste inferno (...); lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo; seria o mesmo lavrador triste e contemplativo (...).” (p.158) –  Determinismo: Adaptação ao meio (Jerônimo) X Inadaptação ao meio /sucumbência ao meio (Piedade)
Portugueses X brasileiros :   “ (...) E, para individualizar o objeto do seu ódio, [Botelho] voltava-se contra o Brasil, essa terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os portugueses, e que, no entanto, o deixara, a ele, na penúria.” (p.31) –  Aspecto da realidade brasileira da segunda metade do século XIX: ódio dos brasileiros por portugueses que aqui enriqueciam.
João Romão X Miranda  “ (...) era ainda a prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito [de Miranda], enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito. Tinha inveja do outro [João Romão], daquele outro português que fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre (...).” (p.27)
“ (...) [João Romão] invejava agora o Miranda, invejava-o deveras, com dobrada amargura do que sofrera o marido de Dona Estela, quando, por sua vez, o invejara a ele. Acompanhara-o desde que o Miranda viera habitar o sobrado com a família; vira-o nas felizes ocasiões da vida, cheio de importância, cercado de amigos e rodeado de aduladores (...); vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e nunca lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento! quando o vendeiro leu no ‘Jornal do Comércio’ que o vizinho estava Barão (...) sentiu tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista por um instante se lhe apagou dos olhos.” (pp.102-103)
Arbítrio X sujeição ao meio   “ Durante o dia paravam agora em frente do armazém carroças e carroças com fardos e caixas trazidos da alfândega, em que se liam as iniciais de João Romão; e rodavam-se pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes partidas de barricas de cerveja e de barris de manteiga e de sacos de pimenta. E o armazém, com as suas portas escancaradas sobre o público, engolia tudo de um trago, para depois ir deixando sair de novo, aos poucos, com um lucro lindíssimo, que no fim do ano causava assombros. (...) E, como a casa comercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. (...)” (p.198) –  A ambição patológica de João Romão e a inveja de Miranda tornam-no um homem obstinado capaz de superar as influências do meio e prosperar.
“ (...) Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jerônimo, a cuja filha, sua protegida predileta, votava agora, por sua vez, uma simpatia toda especial, idêntica à que noutro tempo inspirara ela própria à Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente;  o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria. ” (p.201) –  O meio degradante do cortiço era um ambiente propício para a prostituição. Senhorinha, vivendo no cortiço, com uma mãe que sucumbiu às imposições do meio e degradou-se, tornando-se ébria,  inevitavelmente , vai prostituir-se.
CARACTERÍSTICAS NATURALISTAS A força dos instintos; animalização; determinação da raça  “ (...) [Rita] Amara-o [Firmo] a princípio por afinidade de temperamento,  pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos , depois continuou a estar com ele por hábito, por uma espécie de vício que amaldiçoamos sem poder largá-lo; mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua  tranquila seriedade de animal bom e forte , o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu  no europeu o macho de raça superior .  (...)” (p.151)
As determinações da raça   “ (...) Rita,  volúvel como toda mestiça , não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obséquios com a família do amigo. (...)” (p.179)
As determinações do meio   “ Ela [Piedade] ergueu-se finalmente, foi lá fora ao capinzal, pôs-se a andar agitada, falando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o céu os punhos fechados, dir-se-ia que  não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode.  (...)” (p.158)
Desfecho da obra À cena  trágica  do suicídio de Bertoleza, que se nega a voltar a seus donos, segue uma cena de intensa  ironia : um grupo de abolicionistas chega à casa de João Romão para entregar-lhe um diploma de sócio benemérito.
Evidenciam-se, nesse desfecho: 1. as bases frágeis em que estava apoiado o abolicionismo no Brasil – os negros não contariam com uma verdadeira liberdade, pois a estrutura social oligárquica brasileira poderia lhes garantir a liberdade, mas não os verdadeiros direitos de qualquer cidadão; 2. a validade de uma lei natural: os mais fortes sobrevivem, os mais fracos sucumbem e morrem.
PERSONAGENS A obra é composta por um grande número de personagens que apenas na aparência são diferentes – na essência, formam uma multidão caracterizada pelo trabalho, pela exploração, pela degradação, brutalidade e animalização.
ESTILO Descrições minuciosas e sensoriais “ (...) das portas [do cortiço] surgiam cabeças congestionadas de sono;  ouviam-se   amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o  cheiro quente  do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias; reatavam-se as conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No  confuso rumor  que se formava, destacavam-se risos,  sons  de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. (...).” (p.35)
Linguagem:  simples, com presença de gírias, expressões grosseiras e populares e imitação da fala lusitana. “ Quando o ferreiro [Bruno], logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda não tinha acabado de vestir a saia molhada. -  Com quem te esfregavas tu ,  sua vaca ?! bradou ele,  a botar os bofes pela boca. ” (p.81) “ - Desta vez a coisa foi  de esticar , hein?!” (p.58)  “ - Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele!” (p.93) –  ( Provérbio, dito popular)
TEMPO As marcas temporais são muito difusas, no entanto pode-se afirmar que os fatos remetem à segunda metade do século XIX pela menção ao periódico  Jornal do comércio , fundado em 1827, pelas referências à “Lei Rio Branco”, aprovada em 1871 e pela presença de operários imigrantes italianos.

O Cortiço..

  • 1.
    O cortiço ,Aluísio Azevedo
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    Augusto Malta –Interior de um cortiço – Rio de Janeiro (1906)
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    Cortiço na RuaVisconde do Rio Branco – Rio de Janeiro (1906)
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    Cortiço – Riode Janeiro (1904)
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    Rua São Clemente,Botafogo (1970) – Cenário que teria inspirado O cortiço
  • 6.
    Rua São Clemente,Botafogo (2007) – Cenário que teria inspirado O cortiço
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    O cortiço ,de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, é uma obra naturalista que se inspirou: em leis naturais enunciadas por Darwin (Seleção Natural e Evolucionismo); nas descobertas da medicina experimental de Claude Bernard (experimentalismo hipotético-dedutivo: observação-hipótese-experiência-resultado-interpretação-conclusão) ; nas ideias do filósofo e historiador francês Hippolyte Taine (Determinismo); nos princípios do Positivismo de Augusto Comte (cientificismo e materialismo).
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    Foco Narrativo: o narrador é onisciente: além de comportar-se como se estivesse observando e registrando a verdade dos fatos, demonstra conhecimento sobre intenções e sentimentos das personagens.
  • 9.
    Espaço: Anarrativa se desenvolve em dois espaços distintos/dois conjuntos que sofrerão transformações, como se pudessem ser representativos de dois organismos que estabelecem trocas e estão em evolução. Conjunto A: O cortiço São Romão Conjunto B: O sobrado de Miranda.
  • 10.
    O cortiço SãoRomão (onde vivem os carapicus) Origem “ João Romão não saía nunca a passeio, nem ia à missa aos domingos; tudo que rendia sua venda e mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econômica e daí então para o banco. Tanto assim que, um ano depois da aquisição da crioula [Bertoleza] , indo em hasta pública algumas braças de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem perda de tempo, de construir três casinhas de porta e janela.” (p.17)
  • 11.
    “ E ofato é que aquelas três casinhas, tão engenhosamente construídas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São Romão. Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua bodega; e, à proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e o número de moradores.” (p.18)
  • 12.
    Desenvolvimento “Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente . E ao lado o Miranda assustava-se (...).” (p.26)
  • 13.
    Extinção “Houve nas duas maltas [carapicus e cabeças-de-gato] um súbito espasmo de terror. Abaixaram-se os ferros e calou-se o hino de morte. Um clarão tremendo ensanguentou o ar, que se fechou logo de fumaça fulva. A Bruxa conseguira afinal realizar o seu sonho de louca: o cortiço ia arder; não haveria meio de reprimir aquele cruento devorar de labaredas. Os cabeças-de-gato, leais nas suas justas de partido , abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o auxílio de um sinistro e dispostos até a socorrer o inimigo, se assim fosse preciso .” (p.165)
  • 14.
    Reconstrução do cortiço “ Daí a dias, com efeito, a estalagem metia-se em obras. À desordem do desentulho do incêndio sucedia a do trabalho dos pedreiros (...).” (p.171) “ Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito diferente, mal dava ideia do que fora. O pátio, como João Romão havia prometido, estreitara-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo calçado por igual e iluminado por três lampiões grandes simetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras de água e três banheiros. (...) De cento e tantos, a numeração dos cômodos elevou-se a mais de quatrocentos; e tudo caiadinho e pintado de fresco.” (p.181)
  • 15.
    “ E, comoa casa comercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. Já lá não se admitia assim qualquer pé-rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma recomendação especial. Os preços dos cômodos subiam (...). (...) a maior parte das casinhas eram ocupadas agora por pequenas famílias de operários, artistas e praticantes de secretaria. O cortiço aristocratizava-se.” (pp.198-199)
  • 16.
    Sobrado de JoãoRomão “ João Romão conseguira meter o sobrado do vizinho no chinelo ; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as cortinas e com a mobília nova impunha respeito. (p.183)
  • 17.
    O sobrado doMiranda Origem “ Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita da venda (...). Comprou-o um tal Miranda, negociante português (...). Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele para lá com a família (...).” (pp.18-19)
  • 18.
    Relações familiares nosobrado “ (...) a verdadeira causa da mudança estava na necessidade, que ele reconhecia urgente, de afastar Dona Estela do alcance dos seus caixeiros. Dona Estela era uma mulherzinha levada da breca : achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério ; ficou furioso e o seu primeiro impulso foi de mandá-la para o diabo junto com o cúmplice; mas a sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera (...). Além de que, um rompimento brusco seria obra para escândalo, e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem.” (p.19). – Dona Estela não consegue controlar seus desejos lascivos.
  • 19.
    O cortiço miserávele o rico sobrado de Miranda retratam, em pequena escala, a sociedade brasileira do fim do segundo império (segunda metade do século XIX): início discreto da industrialização (surgimento do operariado); crescimento do comércio urbano (capitalistas comerciais, compondo uma classe média – Miranda e João Romão). O cortiço é o espaço mais importante da obra, abrigando “machos e fêmeas” que lutavam pela sobrevivência.
  • 20.
    Outras oposições presentesno romance A terra brasileira X Portugal “ E [Piedade] maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa terra cansada, velha como que enferma; essa boa terra tranquila, sem sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e melancólicos, de um verde alourado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e afogados em tanto sol e em tanto perfume como o deste inferno (...); lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo; seria o mesmo lavrador triste e contemplativo (...).” (p.158) – Determinismo: Adaptação ao meio (Jerônimo) X Inadaptação ao meio /sucumbência ao meio (Piedade)
  • 21.
    Portugueses X brasileiros: “ (...) E, para individualizar o objeto do seu ódio, [Botelho] voltava-se contra o Brasil, essa terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os portugueses, e que, no entanto, o deixara, a ele, na penúria.” (p.31) – Aspecto da realidade brasileira da segunda metade do século XIX: ódio dos brasileiros por portugueses que aqui enriqueciam.
  • 22.
    João Romão XMiranda “ (...) era ainda a prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito [de Miranda], enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito. Tinha inveja do outro [João Romão], daquele outro português que fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre (...).” (p.27)
  • 23.
    “ (...) [JoãoRomão] invejava agora o Miranda, invejava-o deveras, com dobrada amargura do que sofrera o marido de Dona Estela, quando, por sua vez, o invejara a ele. Acompanhara-o desde que o Miranda viera habitar o sobrado com a família; vira-o nas felizes ocasiões da vida, cheio de importância, cercado de amigos e rodeado de aduladores (...); vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e nunca lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento! quando o vendeiro leu no ‘Jornal do Comércio’ que o vizinho estava Barão (...) sentiu tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista por um instante se lhe apagou dos olhos.” (pp.102-103)
  • 24.
    Arbítrio X sujeiçãoao meio “ Durante o dia paravam agora em frente do armazém carroças e carroças com fardos e caixas trazidos da alfândega, em que se liam as iniciais de João Romão; e rodavam-se pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes partidas de barricas de cerveja e de barris de manteiga e de sacos de pimenta. E o armazém, com as suas portas escancaradas sobre o público, engolia tudo de um trago, para depois ir deixando sair de novo, aos poucos, com um lucro lindíssimo, que no fim do ano causava assombros. (...) E, como a casa comercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. (...)” (p.198) – A ambição patológica de João Romão e a inveja de Miranda tornam-no um homem obstinado capaz de superar as influências do meio e prosperar.
  • 25.
    “ (...) Pombinhaabria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jerônimo, a cuja filha, sua protegida predileta, votava agora, por sua vez, uma simpatia toda especial, idêntica à que noutro tempo inspirara ela própria à Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria. ” (p.201) – O meio degradante do cortiço era um ambiente propício para a prostituição. Senhorinha, vivendo no cortiço, com uma mãe que sucumbiu às imposições do meio e degradou-se, tornando-se ébria, inevitavelmente , vai prostituir-se.
  • 26.
    CARACTERÍSTICAS NATURALISTAS Aforça dos instintos; animalização; determinação da raça “ (...) [Rita] Amara-o [Firmo] a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos , depois continuou a estar com ele por hábito, por uma espécie de vício que amaldiçoamos sem poder largá-lo; mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte , o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior . (...)” (p.151)
  • 27.
    As determinações daraça “ (...) Rita, volúvel como toda mestiça , não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obséquios com a família do amigo. (...)” (p.179)
  • 28.
    As determinações domeio “ Ela [Piedade] ergueu-se finalmente, foi lá fora ao capinzal, pôs-se a andar agitada, falando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o céu os punhos fechados, dir-se-ia que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. (...)” (p.158)
  • 29.
    Desfecho da obraÀ cena trágica do suicídio de Bertoleza, que se nega a voltar a seus donos, segue uma cena de intensa ironia : um grupo de abolicionistas chega à casa de João Romão para entregar-lhe um diploma de sócio benemérito.
  • 30.
    Evidenciam-se, nesse desfecho:1. as bases frágeis em que estava apoiado o abolicionismo no Brasil – os negros não contariam com uma verdadeira liberdade, pois a estrutura social oligárquica brasileira poderia lhes garantir a liberdade, mas não os verdadeiros direitos de qualquer cidadão; 2. a validade de uma lei natural: os mais fortes sobrevivem, os mais fracos sucumbem e morrem.
  • 31.
    PERSONAGENS A obraé composta por um grande número de personagens que apenas na aparência são diferentes – na essência, formam uma multidão caracterizada pelo trabalho, pela exploração, pela degradação, brutalidade e animalização.
  • 32.
    ESTILO Descrições minuciosase sensoriais “ (...) das portas [do cortiço] surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias; reatavam-se as conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. (...).” (p.35)
  • 33.
    Linguagem: simples,com presença de gírias, expressões grosseiras e populares e imitação da fala lusitana. “ Quando o ferreiro [Bruno], logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda não tinha acabado de vestir a saia molhada. - Com quem te esfregavas tu , sua vaca ?! bradou ele, a botar os bofes pela boca. ” (p.81) “ - Desta vez a coisa foi de esticar , hein?!” (p.58) “ - Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele!” (p.93) – ( Provérbio, dito popular)
  • 34.
    TEMPO As marcastemporais são muito difusas, no entanto pode-se afirmar que os fatos remetem à segunda metade do século XIX pela menção ao periódico Jornal do comércio , fundado em 1827, pelas referências à “Lei Rio Branco”, aprovada em 1871 e pela presença de operários imigrantes italianos.