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O Cortiç o 
Aluísio Azevedo
"Desistindo de montar um enredo em funç ão de 
pessoas, Aluísio atinou com a fó rmula que se 
ajustava ao seu talento: ateve-se à sequência de 
descriç ões muito precisas, onde CENAS 
COLETIVAS e tipos psicologicamente 
primários fazem, no conjunto do cortiç o, a 
personagem mais convincente do nosso romance 
naturalista.” 
(Alfredo Bosi)
O Cortiç o 
• A aç ão do romance: entre 1872 e 1880. 
• O espaç o: bairro de Botafogo - Rio de Janeiro. 
• Os cortiç os > habitaç ão da maior parte do 
operariado carioca em fins do século XIX. 
• A narrativa onisciente. 
• As personagens estereotipadas.
• O homem concebido como síntese das 
funç ões orgânicas. 
• O ato sexual: desejo - ó dio - comicidade - 
náusea. 
• O tema central: a degradaç ão motivada pela 
promiscuidade, álcool e violência. 
• Descreve o mecanismo de formaç ão da 
riqueza individual.
O Cortiç o 
• O coletivismo tribal. 
• O nivelamento por baixo. 
• A sujeiç ão ao instinto (có digo sensorial). 
• Os conflitos: a soluç ão pela eliminaç ão.
Cortiç o X Sobrado 
Simples Complexo 
Instinto Racional 
Animal Cultural 
Horizontal Vertical 
Violência Troca
João Romão: o desejo capitalista. 
Só tinha uma preocupaç ão: aumentar os bens. 
Das suas hortas recolhia para si e para a 
companheira os piores legumes, aqueles que, por 
maus, ninguém compraria; as suas galinhas 
produziam muito e ele não comia um ovo, do que 
no entanto gostava imenso; vendia-os todos e 
contentava-se com os restos da comida dos 
trabalhadores. Aquilo já não era ambiç ão, era uma 
molé stia nervosa, uma loucura, um desespero 
de acumular; de reduzir tudo a moeda.
Bertoleza 
“Ele propô s-lhe morarem juntos e ela 
concordou de braç os abertos, feliz em meter-se 
de novo com um português, porque, como toda a 
cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e 
procurava instintivamente o homem numa 
raç a superior à sua.”
Bertoleza é que continuava na cepa torta, 
sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada 
de serviç o, sem domingo nem dia santo; essa, em 
nada, em nada absolutamente, participava das 
novas regalias do amigo; pelo contrário, à medida 
que ele galgava posiç ão social, a desgraç ada 
fazia-se mais e mais escrava e rasteira.
Miranda: a relaç ão de conveniência e a 
brutalidade verbal. 
“— Uma mulher naquelas condiç ões, dizia ele 
convicto, representa nada menos que o capital, e 
um capital em caso nenhum a gente despreza! 
Agora, você o que devia era nunca chegar-se para 
ela... 
— Ora! explicava o marido. Eu me sirvo dela 
como quem se serve de uma escarradeira!”
Miranda: 
• Ódio à esposa. 
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O atrito com João Romão: 
• Negociaç ão do terreno. 
• Construç ão do muro. 
• O desejo de um título.
E ela também, ela também gozou, estimulada por 
aquela circunstância picante do ressentimento que os 
desunia; gozou a desonestidade daquele ato que a 
ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se 
toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo 
daquele seu inimigo odiado, achando-o também 
agora, como homem, melhor que nunca, sufocando-o 
nos seus braç os nus, metendo-lhe pela boca a língua 
úmida e em brasa. Depois, um arranco de corpo 
inteiro, com um soluç o gutural e estrangulado, 
arquejante e convulsa, estatelou-se num abandono de 
pernas e braç os abertos, a cabeç a para o lado, os 
olhos moribundos e chorosos, toda ela agonizante, 
como se a tivessem crucificado na cama.
A transformaç ão bioló gica: 
“E naquela terra encharcada e fumegante, 
naquela umidade quente e lodosa, começ ou a 
minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, 
uma coisa viva, uma geraç ão, que parecia brotar 
espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e 
multiplicar-se como larvas no esterco.”
• O uso da caricatura na construç ão das 
personagens. 
• O zoomorfismo (animalizaç ão). 
“Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum 
crescente; uma aglomeraç ão tumultuosa de 
machos e fêmeas.” 
“A primeira que se pô s a lavar foi a Leandra, 
por alcunha a “Machona”, portuguesa feroz, 
berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca 
de animal do campo.”
“Junto dela pô s-se a trabalhar a Leocádia, 
mulher de um ferreiro chamado Bruno, 
portuguesa pequena e socada, de carnes duras, 
com uma fama terrível de leviana entre as suas 
vizinhas.”
“Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio 
idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes 
de que só ela dispunha para benzer erisipelas e 
cortar febres por meio de rezas e feitiç arias. Era 
extremamente feia, grossa, triste, com olhos 
desvairados, dentes cortados à navalha, 
formando ponta, como dentes de cão, cabelos 
lisos, escorridos e ainda retintos apesar da idade. 
Chamavam-lhe ‘Bruxa’.”
“Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua 
filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito 
seria e asseada em exagero (...). A filha tinha 
quinze anos, a pele de um moreno quente, 
beiç os sensuais, bonitos dentes, olhos luxuriosos 
de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas 
sustentava ainda a sua virgindade e não cedia.”
“Dona Isabel (...) tinha uma cara macilenta de 
velha portuguesa devota, que já foi gorda, 
bochechas moles de pelancas rechupadas, que 
lhe pendiam dos cantos da boca como saquinhos 
vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, 
sempre chorosos engolidos pelas pálpebras. 
Puxava em bandos sobre as fontes o escasso 
cabelo grisalho untado de ó leo de amêndoas 
doces.”
“A filha era a flor do cortiç o. Chamavam-lhe 
Pombinha. Bonita, posto que enfermiç a e 
nervosa ao último ponto; loura, muito pálida, com 
uns modos de menina de boa família. A mãe não 
lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo porque 
o médico a proibira expressamente.”
Jerô nimo 
“Era um português de seus trinta e cinco a 
quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, 
cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a 
testa, por debaixo de um chapéu de feltro 
ordinário: pescoç o de touro e cara de Hércules, na 
qual os olhos todavia, humildes como os olhos de 
um boi de canga, exprimiam tranquila bondade.”
A mulher chamava-se Piedade de Jesus; 
teria trinta anos, boa estatura, carne ampla e rija, 
cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco 
alvos, mas só lidos e perfeitos, cara cheia, 
fisionomia aberta; um todo de bonomia toleirona, 
desabotoando-lhe pelos olhos e pela boca numa 
simpática expressão de honestidade simples e 
natural.
Jerô nimo doente 
“A portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no 
intimo, ressentida contra aquela invasão de uma 
estranha nos cuidados pelo seu homem. Não era 
a inteligência nem a razão o que lhe apontava o 
perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de 
toda a fêmea pelas outras, quando sente o seu 
ninho exposto.”
Rita Baiana 
“(...) No seu farto cabelo, crespo e reluzente, 
puxado sobre a nuca, havia um molho de 
manjericão e um pedaç o de baunilha espetado por 
um gancho. E toda ela respirava o asseio das 
brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas 
aromáticas.
Naquela mulata estava o grande mistério, a 
síntese das impressões que ele recebeu chegando 
aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o 
calor vermelho das sestas da fazenda; era o 
aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o 
atordoara nas matas brasileiras; (...) era o veneno 
e era o aç úcar gostoso;
ela era a cobra verde e traiç oeira, a lagarta 
viscosa, a muriç oca doida, que esvoaç ava havia 
muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe 
os desejos, acordando-lhe as fibras 
embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe 
as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma 
centelha daquele amor setentrional, uma nota 
daquela música feita de gemidos de prazer, uma 
larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam 
em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar 
numa fosforescência afrodisíaca.
A có lera de João Romão 
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• Guardar ou gastar. 
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“Agora, espolinhava-se toda, cerrando os 
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“E continuou a sorrir, desvanecida na sua 
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leitura – entretenimento – investimento. 
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“(...) desde que Jerô nimo propendeu para ela, 
fascinando-a com a sua tranquila seriedade de 
animal bom e forte, o sangue da mestiç a 
reclamou os seus direitos de apuraç ão, e Rita 
preferiu no europeu o macho de raç a superior. 
O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às 
imposiç ões mesoló gicas, enfarava a esposa, 
sua congênere, e queria a mulata, porque a 
mulata era o prazer, era a volúpia, era o fruto 
dourado e acre destes sertões americanos, onde 
a alma de Jerô nimo aprendeu lascívias de 
macaco e onde seu corpo porejou o cheiro 
sensual dos bodes.”
O reflexo romântico 
“(...) arriscar espontaneamente a vida por 
alguém é aceitar um compromisso de ternura, 
em que empenhamos alma e coraç ão; a mulher 
por quem fazemos tamanho sacrifício, seja ela 
quem for assume de um só voo em nossa 
fantasia as proporç ões de um ideal.”
Agora, as duas cocotes, amigas inseparáveis, 
terríveis naquela inquebrantável solidariedade, 
que fazia delas uma só cobra de duas cabeç as, 
dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro.
E a mísera, sem chorar, foi refugiar-se, junto 
com a filha, no "Cabeç a-de-Gato" que, à 
proporç ão que o São Romão se engrandecia, 
mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, 
fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, 
mais cortiç o, vivendo satisfeito do lixo e da 
salsugem que o outro rejeitava, como se todo o 
seu ideal fosse conservar inalterável, para 
sempre, o verdadeiro tipo da estalagem 
fluminense, a legitima, a legendária:
aquela em que há um samba e um rolo por noite; 
aquela em que se matam homens sem a polícia 
descobrir os assassinos; viveiro de larvas 
sensuais em que irmãos dormem misturados 
com as irmãs na mesma lama; paraíso de 
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O cortiço

  • 1. O Cortiç o Aluísio Azevedo
  • 2. "Desistindo de montar um enredo em funç ão de pessoas, Aluísio atinou com a fó rmula que se ajustava ao seu talento: ateve-se à sequência de descriç ões muito precisas, onde CENAS COLETIVAS e tipos psicologicamente primários fazem, no conjunto do cortiç o, a personagem mais convincente do nosso romance naturalista.” (Alfredo Bosi)
  • 3. O Cortiç o • A aç ão do romance: entre 1872 e 1880. • O espaç o: bairro de Botafogo - Rio de Janeiro. • Os cortiç os > habitaç ão da maior parte do operariado carioca em fins do século XIX. • A narrativa onisciente. • As personagens estereotipadas.
  • 4. • O homem concebido como síntese das funç ões orgânicas. • O ato sexual: desejo - ó dio - comicidade - náusea. • O tema central: a degradaç ão motivada pela promiscuidade, álcool e violência. • Descreve o mecanismo de formaç ão da riqueza individual.
  • 5. O Cortiç o • O coletivismo tribal. • O nivelamento por baixo. • A sujeiç ão ao instinto (có digo sensorial). • Os conflitos: a soluç ão pela eliminaç ão.
  • 6. Cortiç o X Sobrado Simples Complexo Instinto Racional Animal Cultural Horizontal Vertical Violência Troca
  • 7. João Romão: o desejo capitalista. Só tinha uma preocupaç ão: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambiç ão, era uma molé stia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda.
  • 8. Bertoleza “Ele propô s-lhe morarem juntos e ela concordou de braç os abertos, feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raç a superior à sua.”
  • 9. Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviç o, sem domingo nem dia santo; essa, em nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo; pelo contrário, à medida que ele galgava posiç ão social, a desgraç ada fazia-se mais e mais escrava e rasteira.
  • 10. Miranda: a relaç ão de conveniência e a brutalidade verbal. “— Uma mulher naquelas condiç ões, dizia ele convicto, representa nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza! Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ela... — Ora! explicava o marido. Eu me sirvo dela como quem se serve de uma escarradeira!”
  • 11. Miranda: • Ódio à esposa. • Desgosto pela paternidade. O atrito com João Romão: • Negociaç ão do terreno. • Construç ão do muro. • O desejo de um título.
  • 12. E ela também, ela também gozou, estimulada por aquela circunstância picante do ressentimento que os desunia; gozou a desonestidade daquele ato que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo daquele seu inimigo odiado, achando-o também agora, como homem, melhor que nunca, sufocando-o nos seus braç os nus, metendo-lhe pela boca a língua úmida e em brasa. Depois, um arranco de corpo inteiro, com um soluç o gutural e estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se num abandono de pernas e braç os abertos, a cabeç a para o lado, os olhos moribundos e chorosos, toda ela agonizante, como se a tivessem crucificado na cama.
  • 13. A transformaç ão bioló gica: “E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começ ou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geraç ão, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”
  • 14. • O uso da caricatura na construç ão das personagens. • O zoomorfismo (animalizaç ão). “Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeraç ão tumultuosa de machos e fêmeas.” “A primeira que se pô s a lavar foi a Leandra, por alcunha a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo.”
  • 15. “Junto dela pô s-se a trabalhar a Leocádia, mulher de um ferreiro chamado Bruno, portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas.”
  • 16. “Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiç arias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe ‘Bruxa’.”
  • 17. “Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito seria e asseada em exagero (...). A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiç os sensuais, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não cedia.”
  • 18. “Dona Isabel (...) tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota, que já foi gorda, bochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre chorosos engolidos pelas pálpebras. Puxava em bandos sobre as fontes o escasso cabelo grisalho untado de ó leo de amêndoas doces.”
  • 19. “A filha era a flor do cortiç o. Chamavam-lhe Pombinha. Bonita, posto que enfermiç a e nervosa ao último ponto; loura, muito pálida, com uns modos de menina de boa família. A mãe não lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo porque o médico a proibira expressamente.”
  • 20. Jerô nimo “Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário: pescoç o de touro e cara de Hércules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquila bondade.”
  • 21. A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta anos, boa estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco alvos, mas só lidos e perfeitos, cara cheia, fisionomia aberta; um todo de bonomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela boca numa simpática expressão de honestidade simples e natural.
  • 22. Jerô nimo doente “A portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, ressentida contra aquela invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente o seu ninho exposto.”
  • 23. Rita Baiana “(...) No seu farto cabelo, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um pedaç o de baunilha espetado por um gancho. E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas.
  • 24. Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; (...) era o veneno e era o aç úcar gostoso;
  • 25. ela era a cobra verde e traiç oeira, a lagarta viscosa, a muriç oca doida, que esvoaç ava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.
  • 26. A có lera de João Romão (o choque das vontades) • Guardar ou gastar. • O vislumbre da vida abastada e a escassez da linguagem. • A reclamaç ão sobre Jerô nimo. • O convite de Miranda.
  • 27. Pombinha e a descoberta do corpo • Indisposiç ão – lembranç a do dia anterior. • A visita a Léonie: seduç ão. • O passeio pelo capinzal > sonho (o sol e a borboleta) > a chegada da menstruaç ão. • O vestido manchado > a celebraç ão no cortiç o. • Enxoval de casamento.
  • 28. “Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em crispaç ões de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de égua, bufando e relinchando.“
  • 29. A reflexão de Pombinha • A carta de Bruno à Leocádia: saudade e submissão. • A atitude dos homens. • A AVERSÃO ao casamento. • O desenvolvimento intelectual supera o florescer físico.
  • 30. A consciência do poder feminino “E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino”
  • 31. Cabeç a de Gato X Carapicus (rivalidade) A transformaç ão de João Romão: vestuário – leitura – entretenimento – investimento. • O convite de Miranda: aniversário de Estela. • As conversas entre Botelho e João Romão •A reflexão de João Romão sobre a mudanç a de vida
  • 32. “(...) desde que Jerô nimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiç a reclamou os seus direitos de apuraç ão, e Rita preferiu no europeu o macho de raç a superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposiç ões mesoló gicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões americanos, onde a alma de Jerô nimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes.”
  • 33. O reflexo romântico “(...) arriscar espontaneamente a vida por alguém é aceitar um compromisso de ternura, em que empenhamos alma e coraç ão; a mulher por quem fazemos tamanho sacrifício, seja ela quem for assume de um só voo em nossa fantasia as proporç ões de um ideal.”
  • 34. Agora, as duas cocotes, amigas inseparáveis, terríveis naquela inquebrantável solidariedade, que fazia delas uma só cobra de duas cabeç as, dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro.
  • 35. E a mísera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no "Cabeç a-de-Gato" que, à proporç ão que o São Romão se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiç o, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalterável, para sempre, o verdadeiro tipo da estalagem fluminense, a legitima, a legendária:
  • 36. aquela em que há um samba e um rolo por noite; aquela em que se matam homens sem a polícia descobrir os assassinos; viveiro de larvas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma lama; paraíso de vermes, brejo de lodo quente e fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão.