IRACEMA: LENDA DO CEARÁ
(1865)
JOSÉ DE ALENCAR
EXEMPLAR MAIS PERFEITO DA
PROSA POÉTICA NA FICÇÃO
ROMÂNTICA
A literatura nacional, que outra coisa é senão a alma da
pátria, que transmigrou para este solo virgem uma raça
ilustre, aqui impregnou-se da seiva americana desta
terra que lhe serviu de regaço; e cada dia se enriquece ao
contacto e ao influxo da civilização?
(José de Alencar, Sonhos d’Ouro)
NAS TRILHAS DO TEXTO
O romance indianista Iracema: lenda do Ceará,
de José de Alencar, conta a história de amor entre
a indígena Iracema e o português Martin Soares
Moreno. Para se casar com o guerreiro branco,
por quem se apaixona, Iracema acaba traindo e
abandonando seu povo, os tabajaras. Da união dos
dois nasce um menino, Moacir, que simboliza a
união entre o branco e o indígena, cujo nome
significa “vindo da dor”. O romance é também
uma história de fundação do mestiço povo
brasileiro.
NARRADOR:
 Escrita em terceira pessoa, apresenta um narrador
observador
O sentimento que ele (Martin) pôs nos olhos e no rosto
não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a
uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa
que lhe causara. (cap. II)
Nota: no trecho acima, Martin (o guerreiro branco)
defronta-se em plena floresta com Iracema, a virgem
dos lábios de mel, que acabara de flechá-lo. O
narrador, contando o fato, assume a primeira pessoa
ao colocar em dúvida o sentimento de Martin diante
do ocorrido. Conserva-se porém na terceira pessoa ao
referir-se a Iracema.
NARRADOR:
 O narrador conta a história do encontro entre o
índio e o branco – tema do livro – do ponto de
vista de Iracema, privilegiando os sentimentos
dela e não os de Martin, que representa o
colonizador portugês;
 O título, o início (cap. II) e o final do enredo (cap.
XXXIII) centralizam-se em Iracema, protagonista
do romance;
 A história não é contada exclusivamente do ponto
de vista do indígena.
NARRADOR:
 Proximidade entre os sentimentos e comportamentos de
Iracema das heroínas românticas do romantismo europeu:
 Exemplo 1: De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a
cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro
aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo
de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida. (cap.
II).
 Exemplo 2: A mão que rápida ferira, estancou mais rápida
e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema
quebrou a flecha homicida; deu a haste ao desconhecido,
guardando consigo a ponta farpada. (cap. II)
Nota: observamos em 1 a reação de Martin perante a
agressão de Iracema não como atitude de defesa, mas de
mágoa perante o ocorrido; em 2 Iracema comporta-se como
indígena e como mulher (símbolo de ternura e amor).
NARRADOR:
 A caracterização de Iracema se adequa aos
elementos do romantismo europeu sobre a
mulher: mulher-anjo, virgem, delicada, bela, que
se sacrifica por quem se apaixona;
 Ainda que privilegie os sentimentos e
comportamentos de Iracema, o ponto de vista do
narrador recai sobre Martin.
O NARRADOR E A “COR LOCAL”:
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da
carnaúba;
Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente,
perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.
(...)
Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco
terral a grande vela?
(...)
Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora;
Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e
um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos
da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho
das vagas:
— Iracema!...
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva
da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde
folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.
Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso.
Que deixara ele na terra do exílio?
Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite,
quando a Lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos
palmares. (Cap. I)
A CARACTERIZAÇÃO FÍSICA DE IRACEMA
COM A NATUREZA
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da
graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como
seu hálito perfumado.
Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu,
onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal
roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a
sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre
esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros
ameigavam o canto.
Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que
corou em manhã de chuva.
Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com
o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.
Nota: linguagem solene (lendário), tempo remoto, equilíbrio entre o
homem e a natureza (o “bom selvagem”, Jean-Jacques Rosseau): repare como as
comparações entre a natureza e a heroína se fudem, numa redescoberta patriótica e
ufanista das “lindas várzeas” onde nasceu o romance.
ENREDO
 Martin Soares Moreno, personagem histórico
(factual) pela colonização do Ceará, em 1603,
(ficcional) encontra-se com Iracema, filha do pajé
Araquém, da tribo dos Tabajaras, senhores da
montanha;
 O visitante Martin encontra em Irapuã (Mel
Redondo), o chefe da tribo, um rival. Um duelo
entre ambos é interrompido pelo grito de guerra
dos Pitiguaras (os senhores do litoral), liderados
por Poti (Antônio Felipe Camarão, personagem
histórico real), amigo de Martin.
ENREDO
 Nas entranhas da terra, magicamente abertas por
Araquem, Iracema esconde-se com e torna-se esposa
de Martin, traindo o compromisso de virgem vestal,
sacerdotisa da tribo e portadora do segredo da
Jurema, o segredo da fertilidade da tribo dos
Tabajaras;
 Durante o sono da tribo, propiciado por Iracema que a
leva ao bosque da Jurema, onde os guerreiros podem
sonhar vitórias futuras, há o encontro entre Martin e
Poti, que fogem guiados por Iracema. Ela não revela
que houve entre ambos o himeneu (casamento),
enquanto o jovem inicia-se nos segredos da jurema, só
o fazendo após à fuga.
ENREDO
 Irapuã encontra os fugitivos e trava-se um
combate entre os Tabajaras e os Pitiguaras,
conduzidos por Jacaúva, irmão de Poti.
 Neste combate Iracema pede a Martin que não
mate Caubi (o Senhor dos Caminhos), seu irmão,
e por duas vezes salva a vida do estrangeiro;
 Os Tabajaras debandam, deixando Iracema triste
e envergonhada.
ENREDO
 Os três então chegam ao território Pitiguara, de
onde viajam para visitar Batuirité, avô de Poti, o
qual denomina Martin de Gavião Branco,
fazendo, antes de morrer, a profecia da
destruição de seu povo pelos brancos;
 Iracema engravida, e acompanhada por Poti,
pinta o corpo de Martin, que passa a ser Cotiabo,
o guerreiro pintado, que às vezes tem momentos
de grande melancolia, com saudades da pátria.
ENREDO
 Um mensageiro pitiguara leva a Poti um recado
de Jacaúva contando a aliança entre os franceses
e os Tabajaras, Poti e Martin partem para a
guerra;
 Iracema fica no litoral, em companhia de uma
seta envolvida em um galho de Maracujá (a
lembrança). Triste, recebe a visita de Jandaia,
antiga companheira, e torna-se a mecejana (a
abandonada), como ela.
ENREDO
 Martin e Poti voltam vitoriosos; Martin sente maiores
saudades da pátria; Iracema profetiza a própria
morte, que ocorrerá em seguida ao nascimento do
filho;
 Novo combate, nasce Moacir, o filho do sofrimento de
Iracema, que recebe a visita de Caubi, quando o leite
já está secando e as forças acabando;
 Mal chega Martin, Iracema morre, após entregar-lhe
o filho e pedir que fosse sepultada sob o coqueiro que o
esposo amava. Nesse lugar nasce o Ceará, colonizado
por Martin, que volta de Portugal, para onde levara o
filho, mas onde não conseguira permanecer, como
sugere o primeiro capítulo do livro.
ENREDO
 Iracema tem um argumento histórico baseado na
colonização do Ceará;
 Por um lado, há, por parte do escritor, a montagem de
um enredo que procura romantizar o processo de
colonização do Brasil, escamoteando a violência e a
dominação do colonizador sobre o índio por meio do
romance entre os protagonistas;
 Por outro lado, ele inaugura o mito heroico da pátria,
de natureza indianista – uma mentirada gentil que
traduz a vontade profunda dos brasileiros de
perpetuar a convenção que dá a um país de mestiços o
álibi duma raça heroica, e a uma nação de história
curta, a profundidade do tempo lendário. (Antonio
Candido, Formação da literatura brasileira)
LINGUAGEM
 Belas imagens visuais, sonoridade, ritmo e cadência
poética aliam-se ao levantamento de termos, costumes e
rituais indígenas;
 Caráter épico (narrativa em forma de poema que conta
os feitos/façanhas de um herói de um povo; narrativa
oral-escrita de caráter mítico-histórico);
 Caráter idealizador dos elementos da “cor local” que
aparecem por uma superposição de imagens e de
comparações originais, adequadas à sugestão do
nascimento de um novo mundo;
 Desejo de criar uma nova língua.
Personagens Principais:
Iracema (“lábios de mel”) = mito fundador da nacionalidade; cor local; traços
psicológicos do romantismo europeu; virgem vestal; sentimento x oposições
sociais
Martin = (Martim Soares Moreno, personagem histórico e literário) =
representa o colonizador europeu; amizade a Poti e amor à Iracema =
conciliação entre o branco e o índio no processo de colonizador.
Moacir (“nascido no sofrimento”) = representa o primeiro brasileiro.
Personagens secundários:
Poti (“Antônio Felipe Camarão”, personagem histórico e literário) = aliança
entre pitiguaras e portugueses (amizade com Martim).
Caubi (“senhor dos caminhos”) = irmão de Iracema
Irapuã (“Mel redondo”) = chefe dos tabajaras, se opõe Martim, amor não
correspondido ou proteger a tribo da invasão branca
Baturité (“serra”) = avó de Poti, denomina Martim de Gavião Branco,
profetiza destruição de seu povo pelos brancos.
LINGUAGEM
 Belas imagens visuais, sonoridade, ritmo e cadência
poética aliam-se ao levantamento de termos, costumes e
rituais indígenas;
 Caráter épico (narrativa em forma de poema que conta
os feitos/façanhas de um herói de um povo; narrativa
oral-escrita de caráter mítico-histórico);
 Caráter idealizador dos elementos da “cor local” que
aparecem por uma superposição de imagens e de
comparações originais, adequadas à sugestão do
nascimento de um novo mundo;
 Desejo de criar uma nova língua.
[...]
Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a
flor da lembrança, o entrelaçou na haste da seta, e partiu
enfim seguido por Poti.
Breve desapareceram os dois guerreiros entre as
árvores. O calor do sol já tinha secado seus passos na
beira do lago. Iracema inquieta veio pela várzea, seguindo
o rasto do esposo até o tabuleiro. As sombras doces
vestiam os campos quando ela chegou à beira do lago.
Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o
goiamum trespassado, o ramo partido, e encheram-se de
pranto.
— Ele manda que Iracema ande para trás, como o
goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá
guarda sua flor todo o tempo até morrer.
Iracema, de José Maria de Medeiros, 1884. Óleo sobre tela, 167,5 cm x
250,2 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (RJ).
Iracema, de Antônio Parreiras, 1909. Óleo sobre tela, 61 cm x 92 cm.
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), São Paulo
(SP).
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu
Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa
da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no
bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do
Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara, o pé grácil e
nu, mal roçando alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as
primeiras águas.
Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o
corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da
acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na
folhagem os pássaros ameigavam o canto
Iracema saiu do banho; o aljôfar d'água ainda a roreja, como à doce mangaba
que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará
as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho
próximo, o canto agreste
A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela As vezes sobe aos
ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru te palha
matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá , as
agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que
o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e
não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam
o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos
ignotos cobrem-lhe o corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu
Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.
De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada, mas logo sorriu.
O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de
ternura e amor. Sofreu mais d'alma que da ferida.
O sentimento que ele pos nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem
lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que
causara.
A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que
gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao
desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.
O guerreiro falou:
- Quebras comigo a flecha da paz?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará.
Manaus: Valer: 2010 (Projeto Leitura Para a
Juventude).
AMARAL, E.; ANTÔNIO, S.; PATROCÍNIO, M. F.
Iracema. In: Português: redação, gramática,
literatura e interpretação de texto. São Paulo:
Nova Cultural, 1999, p. 369-372.
SETTE, Graça; TRAVALHA, Márcia; STARLING,
Rozário. Iracema. In: Português: linguagens em
conexão. São Paulo: Leya, 2013 (vol. 2), p. 61-63.

Iracema

  • 1.
    IRACEMA: LENDA DOCEARÁ (1865) JOSÉ DE ALENCAR
  • 2.
    EXEMPLAR MAIS PERFEITODA PROSA POÉTICA NA FICÇÃO ROMÂNTICA A literatura nacional, que outra coisa é senão a alma da pátria, que transmigrou para este solo virgem uma raça ilustre, aqui impregnou-se da seiva americana desta terra que lhe serviu de regaço; e cada dia se enriquece ao contacto e ao influxo da civilização? (José de Alencar, Sonhos d’Ouro)
  • 3.
    NAS TRILHAS DOTEXTO O romance indianista Iracema: lenda do Ceará, de José de Alencar, conta a história de amor entre a indígena Iracema e o português Martin Soares Moreno. Para se casar com o guerreiro branco, por quem se apaixona, Iracema acaba traindo e abandonando seu povo, os tabajaras. Da união dos dois nasce um menino, Moacir, que simboliza a união entre o branco e o indígena, cujo nome significa “vindo da dor”. O romance é também uma história de fundação do mestiço povo brasileiro.
  • 4.
    NARRADOR:  Escrita emterceira pessoa, apresenta um narrador observador O sentimento que ele (Martin) pôs nos olhos e no rosto não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que lhe causara. (cap. II) Nota: no trecho acima, Martin (o guerreiro branco) defronta-se em plena floresta com Iracema, a virgem dos lábios de mel, que acabara de flechá-lo. O narrador, contando o fato, assume a primeira pessoa ao colocar em dúvida o sentimento de Martin diante do ocorrido. Conserva-se porém na terceira pessoa ao referir-se a Iracema.
  • 5.
    NARRADOR:  O narradorconta a história do encontro entre o índio e o branco – tema do livro – do ponto de vista de Iracema, privilegiando os sentimentos dela e não os de Martin, que representa o colonizador portugês;  O título, o início (cap. II) e o final do enredo (cap. XXXIII) centralizam-se em Iracema, protagonista do romance;  A história não é contada exclusivamente do ponto de vista do indígena.
  • 6.
    NARRADOR:  Proximidade entreos sentimentos e comportamentos de Iracema das heroínas românticas do romantismo europeu:  Exemplo 1: De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida. (cap. II).  Exemplo 2: A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida; deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada. (cap. II) Nota: observamos em 1 a reação de Martin perante a agressão de Iracema não como atitude de defesa, mas de mágoa perante o ocorrido; em 2 Iracema comporta-se como indígena e como mulher (símbolo de ternura e amor).
  • 7.
    NARRADOR:  A caracterizaçãode Iracema se adequa aos elementos do romantismo europeu sobre a mulher: mulher-anjo, virgem, delicada, bela, que se sacrifica por quem se apaixona;  Ainda que privilegie os sentimentos e comportamentos de Iracema, o ponto de vista do narrador recai sobre Martin.
  • 8.
    O NARRADOR EA “COR LOCAL”: Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros. (...) Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela? (...) Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora; Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem. A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas: — Iracema!... O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio. Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso. Que deixara ele na terra do exílio? Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a Lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares. (Cap. I)
  • 9.
    A CARACTERIZAÇÃO FÍSICADE IRACEMA COM A NATUREZA Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto. Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste. Nota: linguagem solene (lendário), tempo remoto, equilíbrio entre o homem e a natureza (o “bom selvagem”, Jean-Jacques Rosseau): repare como as comparações entre a natureza e a heroína se fudem, numa redescoberta patriótica e ufanista das “lindas várzeas” onde nasceu o romance.
  • 10.
    ENREDO  Martin SoaresMoreno, personagem histórico (factual) pela colonização do Ceará, em 1603, (ficcional) encontra-se com Iracema, filha do pajé Araquém, da tribo dos Tabajaras, senhores da montanha;  O visitante Martin encontra em Irapuã (Mel Redondo), o chefe da tribo, um rival. Um duelo entre ambos é interrompido pelo grito de guerra dos Pitiguaras (os senhores do litoral), liderados por Poti (Antônio Felipe Camarão, personagem histórico real), amigo de Martin.
  • 11.
    ENREDO  Nas entranhasda terra, magicamente abertas por Araquem, Iracema esconde-se com e torna-se esposa de Martin, traindo o compromisso de virgem vestal, sacerdotisa da tribo e portadora do segredo da Jurema, o segredo da fertilidade da tribo dos Tabajaras;  Durante o sono da tribo, propiciado por Iracema que a leva ao bosque da Jurema, onde os guerreiros podem sonhar vitórias futuras, há o encontro entre Martin e Poti, que fogem guiados por Iracema. Ela não revela que houve entre ambos o himeneu (casamento), enquanto o jovem inicia-se nos segredos da jurema, só o fazendo após à fuga.
  • 12.
    ENREDO  Irapuã encontraos fugitivos e trava-se um combate entre os Tabajaras e os Pitiguaras, conduzidos por Jacaúva, irmão de Poti.  Neste combate Iracema pede a Martin que não mate Caubi (o Senhor dos Caminhos), seu irmão, e por duas vezes salva a vida do estrangeiro;  Os Tabajaras debandam, deixando Iracema triste e envergonhada.
  • 13.
    ENREDO  Os trêsentão chegam ao território Pitiguara, de onde viajam para visitar Batuirité, avô de Poti, o qual denomina Martin de Gavião Branco, fazendo, antes de morrer, a profecia da destruição de seu povo pelos brancos;  Iracema engravida, e acompanhada por Poti, pinta o corpo de Martin, que passa a ser Cotiabo, o guerreiro pintado, que às vezes tem momentos de grande melancolia, com saudades da pátria.
  • 14.
    ENREDO  Um mensageiropitiguara leva a Poti um recado de Jacaúva contando a aliança entre os franceses e os Tabajaras, Poti e Martin partem para a guerra;  Iracema fica no litoral, em companhia de uma seta envolvida em um galho de Maracujá (a lembrança). Triste, recebe a visita de Jandaia, antiga companheira, e torna-se a mecejana (a abandonada), como ela.
  • 15.
    ENREDO  Martin ePoti voltam vitoriosos; Martin sente maiores saudades da pátria; Iracema profetiza a própria morte, que ocorrerá em seguida ao nascimento do filho;  Novo combate, nasce Moacir, o filho do sofrimento de Iracema, que recebe a visita de Caubi, quando o leite já está secando e as forças acabando;  Mal chega Martin, Iracema morre, após entregar-lhe o filho e pedir que fosse sepultada sob o coqueiro que o esposo amava. Nesse lugar nasce o Ceará, colonizado por Martin, que volta de Portugal, para onde levara o filho, mas onde não conseguira permanecer, como sugere o primeiro capítulo do livro.
  • 16.
    ENREDO  Iracema temum argumento histórico baseado na colonização do Ceará;  Por um lado, há, por parte do escritor, a montagem de um enredo que procura romantizar o processo de colonização do Brasil, escamoteando a violência e a dominação do colonizador sobre o índio por meio do romance entre os protagonistas;  Por outro lado, ele inaugura o mito heroico da pátria, de natureza indianista – uma mentirada gentil que traduz a vontade profunda dos brasileiros de perpetuar a convenção que dá a um país de mestiços o álibi duma raça heroica, e a uma nação de história curta, a profundidade do tempo lendário. (Antonio Candido, Formação da literatura brasileira)
  • 17.
    LINGUAGEM  Belas imagensvisuais, sonoridade, ritmo e cadência poética aliam-se ao levantamento de termos, costumes e rituais indígenas;  Caráter épico (narrativa em forma de poema que conta os feitos/façanhas de um herói de um povo; narrativa oral-escrita de caráter mítico-histórico);  Caráter idealizador dos elementos da “cor local” que aparecem por uma superposição de imagens e de comparações originais, adequadas à sugestão do nascimento de um novo mundo;  Desejo de criar uma nova língua.
  • 18.
    Personagens Principais: Iracema (“lábiosde mel”) = mito fundador da nacionalidade; cor local; traços psicológicos do romantismo europeu; virgem vestal; sentimento x oposições sociais Martin = (Martim Soares Moreno, personagem histórico e literário) = representa o colonizador europeu; amizade a Poti e amor à Iracema = conciliação entre o branco e o índio no processo de colonizador. Moacir (“nascido no sofrimento”) = representa o primeiro brasileiro. Personagens secundários: Poti (“Antônio Felipe Camarão”, personagem histórico e literário) = aliança entre pitiguaras e portugueses (amizade com Martim). Caubi (“senhor dos caminhos”) = irmão de Iracema Irapuã (“Mel redondo”) = chefe dos tabajaras, se opõe Martim, amor não correspondido ou proteger a tribo da invasão branca Baturité (“serra”) = avó de Poti, denomina Martim de Gavião Branco, profetiza destruição de seu povo pelos brancos.
  • 19.
    LINGUAGEM  Belas imagensvisuais, sonoridade, ritmo e cadência poética aliam-se ao levantamento de termos, costumes e rituais indígenas;  Caráter épico (narrativa em forma de poema que conta os feitos/façanhas de um herói de um povo; narrativa oral-escrita de caráter mítico-histórico);  Caráter idealizador dos elementos da “cor local” que aparecem por uma superposição de imagens e de comparações originais, adequadas à sugestão do nascimento de um novo mundo;  Desejo de criar uma nova língua.
  • 20.
    [...] Martim sorriu; equebrando um ramo do maracujá, a flor da lembrança, o entrelaçou na haste da seta, e partiu enfim seguido por Poti. Breve desapareceram os dois guerreiros entre as árvores. O calor do sol já tinha secado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio pela várzea, seguindo o rasto do esposo até o tabuleiro. As sombras doces vestiam os campos quando ela chegou à beira do lago. Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto. — Ele manda que Iracema ande para trás, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flor todo o tempo até morrer.
  • 21.
    Iracema, de JoséMaria de Medeiros, 1884. Óleo sobre tela, 167,5 cm x 250,2 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (RJ).
  • 22.
    Iracema, de AntônioParreiras, 1909. Óleo sobre tela, 61 cm x 92 cm. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), São Paulo (SP).
  • 23.
    Além, muito alémdaquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara, o pé grácil e nu, mal roçando alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto Iracema saiu do banho; o aljôfar d'água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela As vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru te palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá , as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.
  • 24.
    Rumor suspeito quebraa doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada, mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d'alma que da ferida. O sentimento que ele pos nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara. A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada. O guerreiro falou: - Quebras comigo a flecha da paz?
  • 25.
    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, Joséde. Iracema: lenda do Ceará. Manaus: Valer: 2010 (Projeto Leitura Para a Juventude). AMARAL, E.; ANTÔNIO, S.; PATROCÍNIO, M. F. Iracema. In: Português: redação, gramática, literatura e interpretação de texto. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 369-372. SETTE, Graça; TRAVALHA, Márcia; STARLING, Rozário. Iracema. In: Português: linguagens em conexão. São Paulo: Leya, 2013 (vol. 2), p. 61-63.