Epiméleia heautoû: 
A ÉTICA DO CUIDADO DE SI 
Profº Arlindo Picoli 
Campus Itapina 
ALGUMAS REFLEXÕES INSPIRADAS EM MICHEL FOUCAULT
A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA-I 
A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou. 
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou A vinda tem a regressão errada. Já não sei de onde vim nem onde estou. De o não saber, minha alma está parada. 
Se ao menos atingir neste lugar Um alto monte, de onde possa enfim O que esqueci, olhando-o, relembrar, 
Na ausência, ao menos, saberei de mim, E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar Em mim um pouco de quando era assim. 
Fernando Pessoa
epiméleia heautoû: 
‘cuidado de si mesmo’ 
SUJEITO E VERDADE 
gnôthi seautón: 
‘conhece-te a ti mesmo’
Os três preceitos 
•medèn ágan, (nada em demasia), 
•engýe (cauções) 
•gnôthi seautón (conhece-te a ti mesmo)
Características do ‘cuidado de si’ 
•atitude 
•atenção interior 
•ação transformadora.
Filosofia e Espiritualidade 
•A filosofia é uma determinada maneira de pensar, “uma forma de pensamento que se interroga sobre o que permite ao sujeito ter acesso à verdade, forma de pensamento que tenta determinar as condições e os limites do acesso do sujeito à verdade” (FOUCAULT, 2004, p. 19). 
•A espiritualidade, por sua vez, não está preocupada com o conhecimento, mas com uma série de práticas e experiências as quais constituem o sujeito, isto é, que fazem o sujeito ser.
Momento Cartesiano 
Somente o conhecimento proporciona o acesso à verdade, sem a necessidade de uma transformação do sujeito.
“ A idade moderna das relações entre sujeito e verdade começa no dia em que postulamos que o sujeito, tal como ele é, é capaz de verdade, mas que a verdade, tal como ela é, não é capaz de salvar o sujeito” 
(FOUCAULT, 2004, p. 24).
O Alcibíades 
Características do ´cuidado de si’: 
•condição para governar os outros. 
•compensar a insuficiência na educação, pedagógica e erótica. 
•a idade correta 
•a ignorância
O que é o ‘si mesmo’? 
•O Médico 
•O Economista 
•Os amantes 
•O mestre da epiméleia heuatoû.
O que é o ‘eu’ com o qual é preciso ocupar-se? 
A alma.
Sócrates: 
Diferente do professor, ele não cuida de ensinar aptidões e capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio. 
(FOUCAULT, 2004, p. 73).
Referências ao conheça a si mesmo no Alcibíades: 
•Prudência 
•Quem é o si mesmo 
•O ‘cuidado de si’ é o ‘conhecimento de si mesmo’.
Considerações Finais 
•O sujeito se produz num determinado momento histórico de duas formas bem distintas: como conservação ou transformação das maneiras de existir.
“Eu devo” 
•Na medida em que aceita o que é dito sobre e para ele, sofre um ‘assujeitamento’, muitas vezes capaz de tornar sua própria vontade equivalente ao discurso externo.
Emancipação 
•Quando faz uma experiência de si mesmo, possibilita uma emancipação dos mecanismos de dominação expressos como verdade.
Singularidade 
•Ao contrário da sujeição, o conceito de subjetividade abre a possibilidade de existências singulares ao ocupar-se consigo mesmo.
Transformação 
•Na dimensão da subjetividade, não se trata apenas de conhecer-se, mas de desencadear todo um processo de mudança, capaz de criar um sentido e um significado auto-referente para si mesmo.
Ainda que dissermos que as pessoas são as mesmas desde que nascem até morrerem, na verdade uma nova criança renasce em nós a cada momento (néos aeì gignómenos). 
O Banquete 207d-e
A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA-I 
A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou. 
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou A vinda tem a regressão errada. Já não sei de onde vim nem onde estou. De o não saber, minha alma está parada. 
Se ao menos atingir neste lugar Um alto monte, de onde possa enfim O que esqueci, olhando-o, relembrar, 
Na ausência, ao menos, saberei de mim, E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar Em mim um pouco de quando era assim. 
Fernando Pessoa
REFERÊNCIAS 
FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes. 2004. 
PLATÃO. Fedro, Cartas e O primeiro Alcibíades. [Tradução Carlos Alberto 
Nunes] Belém: EDUFPA, 2007.

Epiméleia heautoû: A ética do cuidado de si

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    Epiméleia heautoû: AÉTICA DO CUIDADO DE SI Profº Arlindo Picoli Campus Itapina ALGUMAS REFLEXÕES INSPIRADAS EM MICHEL FOUCAULT
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    A CRIANÇA QUEFUI CHORA NA ESTRADA-I A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou. Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou A vinda tem a regressão errada. Já não sei de onde vim nem onde estou. De o não saber, minha alma está parada. Se ao menos atingir neste lugar Um alto monte, de onde possa enfim O que esqueci, olhando-o, relembrar, Na ausência, ao menos, saberei de mim, E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar Em mim um pouco de quando era assim. Fernando Pessoa
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    epiméleia heautoû: ‘cuidadode si mesmo’ SUJEITO E VERDADE gnôthi seautón: ‘conhece-te a ti mesmo’
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    Os três preceitos •medèn ágan, (nada em demasia), •engýe (cauções) •gnôthi seautón (conhece-te a ti mesmo)
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    Características do ‘cuidadode si’ •atitude •atenção interior •ação transformadora.
  • 6.
    Filosofia e Espiritualidade •A filosofia é uma determinada maneira de pensar, “uma forma de pensamento que se interroga sobre o que permite ao sujeito ter acesso à verdade, forma de pensamento que tenta determinar as condições e os limites do acesso do sujeito à verdade” (FOUCAULT, 2004, p. 19). •A espiritualidade, por sua vez, não está preocupada com o conhecimento, mas com uma série de práticas e experiências as quais constituem o sujeito, isto é, que fazem o sujeito ser.
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    Momento Cartesiano Somenteo conhecimento proporciona o acesso à verdade, sem a necessidade de uma transformação do sujeito.
  • 8.
    “ A idademoderna das relações entre sujeito e verdade começa no dia em que postulamos que o sujeito, tal como ele é, é capaz de verdade, mas que a verdade, tal como ela é, não é capaz de salvar o sujeito” (FOUCAULT, 2004, p. 24).
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    O Alcibíades Característicasdo ´cuidado de si’: •condição para governar os outros. •compensar a insuficiência na educação, pedagógica e erótica. •a idade correta •a ignorância
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    O que éo ‘si mesmo’? •O Médico •O Economista •Os amantes •O mestre da epiméleia heuatoû.
  • 11.
    O que éo ‘eu’ com o qual é preciso ocupar-se? A alma.
  • 12.
    Sócrates: Diferente doprofessor, ele não cuida de ensinar aptidões e capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio. (FOUCAULT, 2004, p. 73).
  • 13.
    Referências ao conheçaa si mesmo no Alcibíades: •Prudência •Quem é o si mesmo •O ‘cuidado de si’ é o ‘conhecimento de si mesmo’.
  • 14.
    Considerações Finais •Osujeito se produz num determinado momento histórico de duas formas bem distintas: como conservação ou transformação das maneiras de existir.
  • 15.
    “Eu devo” •Namedida em que aceita o que é dito sobre e para ele, sofre um ‘assujeitamento’, muitas vezes capaz de tornar sua própria vontade equivalente ao discurso externo.
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    Emancipação •Quando fazuma experiência de si mesmo, possibilita uma emancipação dos mecanismos de dominação expressos como verdade.
  • 17.
    Singularidade •Ao contrárioda sujeição, o conceito de subjetividade abre a possibilidade de existências singulares ao ocupar-se consigo mesmo.
  • 18.
    Transformação •Na dimensãoda subjetividade, não se trata apenas de conhecer-se, mas de desencadear todo um processo de mudança, capaz de criar um sentido e um significado auto-referente para si mesmo.
  • 19.
    Ainda que dissermosque as pessoas são as mesmas desde que nascem até morrerem, na verdade uma nova criança renasce em nós a cada momento (néos aeì gignómenos). O Banquete 207d-e
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    A CRIANÇA QUEFUI CHORA NA ESTRADA-I A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou. Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou A vinda tem a regressão errada. Já não sei de onde vim nem onde estou. De o não saber, minha alma está parada. Se ao menos atingir neste lugar Um alto monte, de onde possa enfim O que esqueci, olhando-o, relembrar, Na ausência, ao menos, saberei de mim, E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar Em mim um pouco de quando era assim. Fernando Pessoa
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    REFERÊNCIAS FOUCAULT, Michel.A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes. 2004. PLATÃO. Fedro, Cartas e O primeiro Alcibíades. [Tradução Carlos Alberto Nunes] Belém: EDUFPA, 2007.