Prefácio	
  
	
  

Este	
  texto	
  destina-­‐se	
  aos	
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Foi	
   composto	
   a	
...
tem-­‐se	
  revelado	
  mais	
  complexo	
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  que	
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  intenção	
  inicial:	
  
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  Vida	
  de	
  Platão	
  
	
  

Platão	
   nasceu	
   em	
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   428-­‐427	
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Entretanto,	
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   morrido	
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vida.	
  Entretanto,	
  Dionísio	
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  Filosofia	
  de	
  Platão	
  

	
  
	
  
	
  
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   se	
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   seu	
   tempo,	
   mas	
   sobretudo	
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   doutrinas	
   de	
  
Sócrates,	
   de	
  ...
projetadas	
   dos	
   objetos,	
   que	
   desfilam	
   por	
   trás	
   deles	
   iluminados	
  
pela	
   luz	
   de	
  ...
primeira	
  definição:	
  “O	
  homem	
  corajoso,	
  diz	
  ele,	
  é	
  o	
  que	
  se	
  mantém	
  
firme	
   contra	
 ...
deuses	
  reservaram	
  para	
  si	
  mesmos.	
  Podem,	
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  verdade,	
  deixar	
  que	
  
alguns	
   homens	
   privil...
 
	
  
	
  
	
  

A Psicologia

A	
   psicologia	
   de	
   Platão	
   é	
   marcada	
   por	
   características	
  
profu...
detalhe	
  destas	
  descrições	
  varia,	
  no	
  entanto,	
  de	
  obra	
  para	
  obra.	
  
	
  

A Política
A	
   polí...
categoria	
   social	
   a	
   que	
   deve	
   pertencer.	
   Tal	
   como	
   os	
   homens,	
   as	
  
mulheres	
   tam...
compreender	
   o	
   valor	
   dessa	
   comunidade	
   e	
   submeter-­‐se	
   a	
   ela	
   em	
  
nome	
   do	
   bem	...
A	
   moral	
   de	
   Platão	
   tem	
   um	
   caráter,	
   ao	
   mesmo	
   tempo,	
   ascético	
   e	
  
intelectual.	...
 
	
  

A Estética
A	
   estética	
   de	
   Platão	
   depende	
   da	
   teoria	
   das	
   Ideias	
   e,	
   também,	
 ...
reais,	
   cuja	
   distância	
   à	
   verdade	
   é	
   de	
   dois	
   degraus.	
   Por	
   outras	
  
palavras,	
   qu...
ser	
   responsável	
   pelas	
   suas	
   imperfeições.	
   Os	
   deuses	
   formaram	
   o	
  
corpo	
   dos	
   seres,...
Formado	
   nos	
   raciocínios	
   matemáticos,	
   aplicou-­‐os	
   intrepidamente	
  
às	
   noções	
   morais,	
   ao	...
 

O	
  Teeteto	
  

Argumento
	
  
O	
  debate	
  que	
  é	
  travado	
  no	
  Teeteto	
  é	
  precedido	
  de	
  uma	
  ...
Ali	
   vem	
   ele,	
   com	
   aqueles	
   jovens	
   que	
   se	
   aproximam	
   de	
   nós.	
   Chama-­‐
se	
   Teete...
 
	
  
	
  
	
  
	
  
	
  
	
  
	
  
	
  

A Ciência é Sensação
	
  
A	
   primeira	
   definição,	
   sozinha,	
   ocupa	...
recíproca	
  que	
  se	
  formam	
  todos	
  os	
  seres	
  que	
  afirmamos	
  existirem;	
  
por	
  seu	
  turno,	
  a	
...
conceber	
   o	
   elemento	
   ativo	
   e	
   o	
   elemento	
   passivo	
   como	
   existindo	
  
separadamente,	
   p...
que	
  viu,	
  se	
  fechar	
  os	
  olhos,	
  lembra-­‐se	
  da	
  coisa,	
  mesmo	
  sem	
  a	
  ver.	
  
Ora,	
  dizer	...
seus	
  opositores	
  têm	
  uma	
  opinião	
  verdadeira,	
  ao	
  julgar	
  a	
  sua	
  falsa.	
  
A	
   doutrina	
   de...
qualidade,	
  que	
  se	
  move	
  entre	
  o	
  sujeito	
  e	
  o	
  objeto,	
  têm	
  de	
  mudar	
  de	
  
natureza	
  ...
impossível.	
   -­‐	
   Então,	
   tomamos	
   as	
   coisas	
   que	
   não	
   sabemos	
   por	
  
outras	
   que	
   ta...
O Teeteto de Platão e a Apologia de Sócrates
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  1. 1. Prefácio     Este  texto  destina-­‐se  aos  meus  alunos  de  Filosofia.   Foi   composto   a   partir   de   apontamentos   meus,   muitos   deles   sem   qualquer   referência,   por   se   destinarem   mais   a   apoiar   as   minhas   leituras  do  que  a  serem  alguma  vez  publicados,  e  a  partir  das  obras   de   Platão:   O   Teeteto   e   a   Apologia,   em   língua   francesa.   No   meu   tempo   de   estudante   de   Filosofia   no   Ensino   Superior,   as   obras   de   Platão  não  estavam  acessíveis  em  língua  portuguesa,  pelo  que  me   habituei  a  lê-­‐las  em  francês.  Mais  tarde,  tendo  completado  a  minha   formação   superior   numa   Universidade   francesa,   adquiri   o   gosto   por   ler   Platão   e   outros   autores   clássicos   em   francês.   Desta   circunstância,   resulta   uma   leitura   do   Teeteto   que   não   coincide   inteiramente   com   aquela   que   se   encontra   nos   manuais   portugueses:  assume-­‐se  que  o  tema  do  Teeteto  é  a  ciência  e  não  o   conhecimento.   No   entanto,   é   mantida   a   terminologia,   habitual   nesses  manuais,  relativa  à  opinião  e  à  opinião  verdadeira,  por  ser   irrelevante  outra  qualquer,  se  o  tema  considerado  for  o  da  Ciência.   Os   pormenores   que   se   referem   à   vida   de   Sócrates   são   sobretudo   influenciados  pela  História  da  Filosofia  de  Magalhães  Vilhena.  São   acrescentados   mapas,   retirados   do   “google   maps”   para   ilustrar   a   região   geográfica   por   onde   Sócrates   viajou.   Algumas   dessas   localidades,   como   Mégara   e   Kifissia,   conheci-­‐as   pessoalmente,   outras  são  localizadas  nos  mapas  atuais,  a  partir  das  informações   contidas   na   “Wikipedia”.   O   mesmo   acontece   com   o   valor   do   dinheiro  da  época  que  foi  apurado  a  partir  da  conversão  das  minas   em  dracmas.   A   escrita   deste   texto,   começada   há   já   bastante   tempo,   foi   interrompida   e   interrompe,   agora,   a   escrita   de   um   outro   texto   sobre   a   Doutrina   Social   da   Igreja   (DSI).   Na   verdade,   este   último  
  2. 2. tem-­‐se  revelado  mais  complexo  do  que  era  minha  intenção  inicial:   A   DSI   não   se   compadece   com   uma   escrita   esquemática,   como   aquela  que  eu  pensava  fazer.   Tanto   Platão   como   a   DSI   concordam   num   ponto   em   termos   de   política:   a   justiça   é   o   bem   maior   do   Estado,   a   justiça   ou   o   bem   comum.  A  liberdade  individual  deve  subordinar-­‐se  à  justiça.  Numa   época,   em   que   as   conceções   políticas,   por   fanatismo   liberal,   se   aproximam   perigosamente   de   conceções   e   sobretudo   de   práticas   anarquistas,   quer   Platão,   quer   a   DSI   podem,   a   par   das   teorias   de   Rawls   ou   de   Amartya   Senn,   ser   refrescantes   e   promissoras.   A   justiça   de   que   aqui   se   fala   não   é   a   justiça   dos   tribunais,   que   essa   tem   sempre   origem   na   injustiça,   mas   a   justiça   que,   se   existisse,   dispensaria  os  tribunais.   Julho,  2012     Jorge  Nunes  Barbosa                                              
  3. 3. A  Vida  de  Platão     Platão   nasceu   em   Atenas   no   ano   428-­‐427   a.C.,   no   povoado   de   Collytos.   Segundo   Diógenes   de   Laércio,   o   seu   pai   Aríston   era   descendente  de  uma  família  real,  a  família  de  Codros,  o  último  rei   de   Atenas.   A   sua   mãe,   Perictione,   irmã   de   Carmides   e   prima   de   Crítias,   o   tirano,   descendia   de   Drópides,   que   Diógenes   de   Laércio   dizia  ser  irmão  de  Sólon,  um  dos  sete  sábios  da  Grécia.     A   tradição   mandava   que   a   uma   criança,   como   Platão,   fosse   atribuído   o   nome   do   seu   avô.   Portanto,   Platão   deveria   ter-­‐se   chamado   Aristocles.   Segundo   Diógenes   de   Laércio,   o   nome   de   Platão   foi-­‐lhe   dado   pelo   seu   mestre   de   ginástica,   em   alusão   à   sua   corpulência.     A   família   de   Platão   possuía   uma   propriedade   em   Kifissia,   onde   atualmente   se   situa   uma   estação   terminal   da   linha   1   do   metro   de   Atenas.   Aí,   deve   ter   aprendido   a   gostar   da   calma   da   vida   rural,   mas,   muito   provavelmente,   deve   ter   passado   a   maior   parte   da   sua   infância   na   cidade,   para   poder   ter   acesso   à   educação   própria   da   sua   condição   social   (o   metro  que  liga  o  centro  da   cidade  de  Atenas  a  Kifissia   é   muito   recente...).   O   mais   certo,   tendo   em   conta   as   suas   origens   de   nobreza,   é   que   tenha   aprendido   a   honrar   os   deuses   e   a   respeitar   os   rituais   da   religião,   como  era  tradição  em  todas  as  famílias  de  bem.  Manterá  durante  
  4. 4. toda   a   sua   vida   este   respeito   pela   religião   e   imporá   esse   respeito   nas   suas   Leis.   Para   além   da   ginástica   e   da   música,   que   eram   a   base   da  educação  ateniense,  também  terá  sido  iniciado  no  desenho  e  na   pintura.  Em  filosofia,  a  sua  formação  terá  começado  com  as  lições   de   um   discípulo   de   Heraclito,   Crátilo,   cujo   nome   foi   dado,   por   Platão,   a   um   dos   seus   diálogos.   Eram-­‐lhe   reconhecidos   talentos   para   a   poesia.   Foi   testemunha   dos   sucessos   de   Eurípides   e   Ágaton,   e  ele  próprio  compôs  tragédias,  poemas  líricos  e  ditirambos.   Com  cerca  de  vinte  anos  de  idade,  Platão  conheceu  Sócrates.  Diz-­‐se   que  queimou  as  suas  tragédias  e  que  se  dedicou  completamente  à   filosofia.   Sócrates   tinha   dedicado   toda   a   sua   vida   a   ensinar   a   virtude   aos   seus   concidadãos:   a   reforma   (a   conversão   à   virtude)   dos   cidadãos   era   a   condição   necessária   e   indispensável   para   o   bem-­‐estar   da   cidade.   Este   será   também   o   objetivo   principal   da   vida   de   Platão   que,   tal   como   o   seu   primo   Crítias   e   o   seu   tio   Cármides,   ambicionava   dedicar-­‐se   a   uma   carreira   política;   no   entanto,  os  excessos  dos  Trinta  (um  governo  oligárquico  de  Atenas   composto   por   trinta   magistrados)   acabaram   por   o   horrorizar.   Quando   foi   restabelecida   a   constituição   democrática   em   Atenas,   Platão   já   não   estava   tão   confiante   numa   carreira   política.   A   condenação   de   Sócrates   pelo   regime   democrático   desiludiu-­‐o   de   forma   irrecuperável   e   definitiva.   Ele   tinha   mantido   a   esperança   de   que  a  democracia  haveria  de  melhorar  a  vida  política;  vendo  que  o   mal   parecia   incurável,   dedicou-­‐se   completamente   a   preparar,   através   das   suas   obras,   alterações   políticas   de   fundo,   onde   os   filósofos,  preceptores  e  governantes  da  humanidade,  haveriam  de   pôr  fim  à  maldade  que  ele  tanto  repudiava.  
  5. 5. Segundo   consta,   Platão   estaria   doente   quando   Sócrates   bebeu   a   cicuta,   e,   por   isso,   não   pôde   estar   presente   nos   seus   últimos   momentos.   Após   a   morte   do   mestre,   retirou-­‐se   para   Mégara   (atualmente   um   aglomerado   agrícola   a   43Km   de   Atenas,   atravessado   pela   auto-­‐estrada   Atenas-­‐Corinto),   para   junto   de   Euclides   e   Terpsion,   tal   como   ele,   discípulos   de   Sócrates.   Mais   tarde,   teve   de   voltar   a   Atenas   para   cumprir   serviço   militar   na   cavalaria.  Participou,  segundo  parece,  nas  campanhas  de  395  e  de   394  da  guerra  de  Corinto.  Na  verdade,  Platão  nunca  se  referiu  aos   seus   serviços   militares,   mas   sempre   preconizou   os   exercícios   militares  para  desenvolver  o  vigor  físico  dos  jovens.   O  desejo  de  instrução  levou  Platão  a  viajar.  Cerca  de  390,  dirigiu-­‐se   ao   Egito,   levando   consigo   um   carregamento   de   azeite   para   pagar   a   viagem.   Aí,   tomou   contacto   com   artes   e   costumes   com   milhares   de   anos   de   tradição.   Há   quem   pense   que   foi   graças   ao   espetáculo   desta   civilização,   fiel   a   antigas   tradições,   que   Platão   criou   a   ideia   de  que:   •  os   homens   podem   ser   felizes,   se   respeitarem   as   formas   imutáveis  de  vida,     •  a  música  e  a  poesia  não  necessitam  de  novas  criações,  e     •  basta   descobrir   a   melhor   constituição   e   forçar   os   povos   a   aderir  a  ela  para  se  viver  numa  cidade  justa.  
  6. 6. Do   Egito,   partiu   para   Cirene   (colónia   grega   na   região   da   Líbia   atual),  onde  frequentou  a  escola  do   matemático   Teodoro,   que   será   um   dos   interlocutores   do   Teeteto.   De   Cirene,  passou  para  Itália,  onde  fez   amizade  com  os  pitagóricos  Filolau,   Arquitas  e  Timeu.  Não  é  seguro  que   tenha   sido   com   estes   pitagóricos   que   Platão   passou   a   acreditar   na   migração   das   almas;   mas   a   eles   deve   seguramente   a   ideia   de   eternidade  da  alma,  que  haveria  de   ser  a  pedra  angular  da  sua  filosofia;   essa   ideia   de   imortalidade   da   alma   forneceu   a   solução   para   o   problema   do   conhecimento.   Com   esses   pitagóricos,   Platão   aprofundou   também   os   seus   conhecimentos   em   aritmética,   em   astronomia  e  em  música.   Dirigiu-­‐se,   depois,   para   a   Sicília   e,   em   Siracusa,   assistiu   às   farsas   populares  e  comprou  o  livro  de  um  autor  de  farsas  em  prosa.  Foi   recebido   na   corte   de   Dionísio   na   qualidade   de   estrangeiro   distinto   (diríamos   agora   VIP)   e   conquistou   para   a   filosofia   o   cunhado   do   tirano.   No   entanto,   não   durou   muito   tempo   a   cordialidade   de   Dionísio   que   o   despachou   num   barco   com   destino   a   Egina   (uma   ilha  a  cerca  de  27  Km  de  Atenas,  com  a  qual,  na  época,  estava  em   conflito  aberto),  como  escravo  do  Lacedemónio  Pollis.  Felizmente,   um  Cireneu,  que  reconheceu  Platão,  comprou  a  sua  liberdade  pelas   vinte   minas   que   ele   tinha   valido   no   mercado   de   Siracusa   (cerca   de   128  dracmas  -­‐  mal  comparando,  um  euro  equivale  à  conversão  de   340,750   dracmas,   nos   tempos   atuais).   Platão   voltou,   então,   a   Atenas,  muito  provavelmente  com  cerca  de  quarenta  anos.    
  7. 7.   Nesse   ano   (388   a.C.),   Eurípides   já   tinha   morrido   e   não   tinha   sucessor   à   sua   altura,   Aristófanes   acabava   de   representar   a   sua   última  tragédia,  e  o  teatro  cómico  estava  em  decadência.  A  poesia   enfrentava  um  declínio  evidente  em  Atenas,  mas  a  prosa  estava  em   ascensão.   Lísias   (que   aparece   em,   pelo   menos,   dois   diálogos   de   Platão)   escrevia   discursos   de   defesa   em   tribunal   (parece   que   escreveu  mesmo  um  para  Sócrates),  e  Isócrates  tinha  fundado  uma   escola   de   retórica.   Dois   discípulos   de   Sócrates,   Ésquines   e   Antístenes,   que   tinham   tomado   a   defesa   do   mestre,   tinham   uma   escola   e   publicavam   escritos   ao   gosto   do   povo   ateniense.   Platão   dedicou-­‐se   também   ao   ensino;   mas,   em   vez   de   o   fazer   através   da   conversa,   como   Sócrates,   fundou   uma   escola   à   imagem   das   sociedades   pitagóricas.   Comprou   um   terreno   próximo   do   ginásio   do  bosque  de  Academos,  e  aí  mandou  construir  a  sua  escola.  Daí,  o   nome   de   Academia,   dado   à   escola   de   Platão.   Os   seus   alunos   formavam   um   grupo   de   amigos,   cujo   presidente   era   escolhido   pelos  jovens  que,  sem  dúvida,  pagariam  uma  espécie  de  cotização.     Não  se  sabe  nada  dos  vinte  anos  da  vida  de  Platão,  que  decorreram   entre  o  seu  retorno  a  Atenas  e  a  sua  nova  deslocação  à  Sicília.  Nem   nas   suas   obras   se   encontra   qualquer   alusão   aos   acontecimentos   seus  contemporâneos:     • a  reconstituição  do  império  marítimo  da  Atenas,     • aos  sucessos  de  Tebas  com  Epaminondas,    
  8. 8. • à  decadência  de  Esparta.     Entretanto,   Dionísio,   o   antigo,   tinha   morrido   em   368.   O   seu   cunhado,   Deão,   esperava   poder   influenciar   o   pensamento   de   Dionísio,   o   jovem,   sucessor   de   seu   pai.   Sonhava,   ao   que   parece,   transformar  a  tirania  numa  monarquia  constitucional,  onde  a  lei  e   a   liberdade   pudessem   conviver   pacificamente.   Por   isso,   pediu   ajuda  a  Platão.  Platão  ainda  alimentava  a  ambição  de  desempenhar   um   papel   político   importante,   pondo   em   prática   o   seu   sistema.   Deixou  a  direção  da  sua  escola  a  Eudoxo,  reforçando,  deste  modo,   a   sua   amizade   com   Arkitas,   matemático   filósofo   que   governava   Tarento.   Quando   chegou   a   Siracusa,   no   entanto,   a   situação   já   tinha   mudado.   Foi   muito   bem   recebido   por   Dionísio,   mas   muito   mal   pelos   partidários   da   tirania.   Por   outro   lado,   tendo-­‐se   apercebido   de   que   o   tio,   Deão,   o   queria   manter   sob   sua   tutela,   Dionísio   expulsou-­‐o   de   Siracusa.   Enquanto   Deão   foi   viver   para   Atenas,   Platão,  sob  o  pretexto  de  ser  o  mestre  de  Dionísio,  ficou  retido  em   Siracusa  durante  todo  o  Inverno.  Finalmente,  na  primavera  do  ano   de  365,  Dionísio  autorizou-­‐o  a  partir,  sob  promessa  de  voltar  com   Deão.   Platão   e   Dionísio   separaram-­‐se,   apesar   de   tudo,   como   amigos,   graças   sobretudo   às   diligências   bem   sucedidas   de   Platão   junto  de  Arquitas  de  Tarento  para  que  aceitasse  fazer  uma  aliança   com  Dionísio.     De   volta   a   Atenas,   Platão   encontrou   Deão   que   levava   uma   vida   faustosa.   Retomou   o   ensino.   Entretanto,   Dionísio,   aparentemente,   tinha  ganho  o  gosto  pela  filosofia.  Tinha  chamado  à  sua  corte  dois   discípulos  de  Sócrates,  Ésquino  e  Aristipo  de  Cirene,  e  manifestou   o   desejo   de   voltar   a   encontrar-­‐se   com   Platão.     Na   Primavera   de   361,   enviou   um   vaso   de   guerra   ao   Pireu.   O   seu   comandante   era   portador   de   cartas   de   Árquitas   de   Tarento   e   de   Dionísio,   em   que   Árquitas   lhe   garantia   a   sua   segurança   pessoal,   e   Dionísio   lhe   relembrava  o  interesse  no  retorno  de  Deão  no  ano  seguinte.  Platão   acreditou   nestes   pedidos   e   partiu   para   Siracusa   com   um   seu   sobrinho,   Speusipo.   Novos   contratempos   o   esperavam   em   Siracusa,  na  Sicília:  não  conseguiu  convencer  Dionísio  a  mudar  de  
  9. 9. vida.  Entretanto,  Dionísio  embargou  os  bens  de  Deão.  Platão  quis   partir;  o  tirano  reteve-­‐o,  e  foi  necessária  a  intervenção  de  Árquitas   para   que   ele   pudesse   deixar   Siracusa,   na   Primavera   de   360.   Encontrou,  depois,  Deão  na  cidade  de  Olímpia.   Sabe-­‐se   que,   tendo   sabido   que   Dionísio   se   tinha   apropriado   da   sua   mulher   e   oferecido   a   outro,   Deão   marchou   contra   ele   em   357   e   apoderou-­‐se  de  Siracusa.  Acabou  por  ser  assassinado  quatro  anos   depois,  em  353.  Platão  sobreviveu-­‐lhe  cinco  anos.   A  academia  de  Platão  sobreviveu  até  529  da  nossa  era,  ano  em  que   o  imperador  Justiniano  a  mandou  fechar.                                                              
  10. 10.       A  Filosofia  de  Platão         Nas  suas  primeiras  obras,  isto  é,  nos  diálogos  chamados  socráticos,   Platão,   fiel   discípulo   de   Sócrates,   dedica-­‐se,   tal   como   este,   a   definir   as  ideias  morais.  Procura  saber  o  que  é  a  coragem,  a  sabedoria,  a   amizade,   a   piedade,   a   virtude.   Sócrates   acreditava   que   basta   conhecer  o  bem  para  o  praticar,  e  que,  por  conseguinte,  a  virtude  é   ciência   e   o   vício   é   ignorância.   Platão   manter-­‐se-­‐á   fiel,   durante   toda   a   sua   vida,   a   esta   doutrina.   Tal   como   Sócrates,   honrará   os   deuses   e   defenderá   que   a   virtude   consiste   em   se   assemelhar   a   eles,   tanto   quanto   o   permita   a   fraqueza   humana.   Como   Sócrates,   acreditará   que   o   bem   é   o   fim   supremo   de   toda   a   existência   e   que   é   no   bem   que  deve  ser  procurada  a  explicação  do  universo.   Mas,  por  muito  dócil  que  Platão  tenha  sido  às  lições  de  Sócrates,  a   sua   grande   ambição   de   saber   impediu   que   se   limitasse   ao   ensino   puramente  moral  do  seu  mestre.  Antes  de  conhecer  Sócrates,  tinha   recebido   lições   de   Crátilo   que   o   familiarizou   com   a   doutrina   de   Heraclito.   Também   estudou   as   teorias   dos   Eleatas   (Parménides),   de  Anaxágoras  e  os  escritos  de  Empédocles.  Durante  a  sua  viagem   a   Cirene,   aperfeiçoou-­‐se   na   geometria   e,   em   Itália,   dedicou-­‐se   ao   estudo  da  aritmética,  da  astronomia,  da  música  e  da  medicina  dos   pitagóricos.  Tinha  intenção  de  visitar  a  Jónia  e  as  cidades  costeiras   do   mar   Egeu,   mas   a   guerra   com   a   Pérsia   demoveu-­‐o   dessa   ideia.   Em   Abdera   (localidade   que   se   situa   atualmente   perto   das   fronteiras   da   Grécia   com   a   Turquia   e   a   Bulgária   -­‐   antiga   Trácia),   travou  conhecimento  com  Demócrito  e  com  o  atomismo,  uma  das   mais  geniais  criações  da  filosofia  grega  antes  de  Platão.     De   qualquer   modo,   o   sistema   de   Platão   é   uma   síntese   de   tudo   o  
  11. 11. que   se   sabia   no   seu   tempo,   mas   sobretudo   das   doutrinas   de   Sócrates,   de   Heraclito,   de   Parménides   e   dos   Pitagóricos.   A   teoria   platónica   das   ideias   é   a   base   e   a   originalidade   de   todo   o   seu   sistema.     Inicialmente,  Platão  tinha  estudado  a  doutrina  de  Heraclito  que  se   baseava   no   fluir   universal   das   coisas.   “Tudo   flui,   dizia   Heraclito,   nada   permanece.   O   mesmo   homem   não   entra   duas   vezes   no   mesmo   rio”.   Desta   ideia,   Platão   retira   a   consequência   de   que   os   seres,   que   se   encontram   em   perpétuo   devir,   dificilmente   merecem   o   nome   de   seres,   e   sobre   eles   só   podemos   formar   opiniões   confusas,   incapazes   de   se   justificar   a   si   mesmas.   Não   podem   ser   objeto  de  uma  verdadeira  ciência,  pois  não  não  há  ciência  do  que   está  em  perpétua  mudança;  só  há  ciência  do  que  é  fixo  e  imutável.   Todavia,   quando   observamos   atentamente   esses   seres   em   mutação   permanente,   damo-­‐nos   conta   de   que   reproduzem,   dentro   da   mesma   espécie,   características   constantes.   Estas   características   transmitem-­‐se   de   indivíduo   para   indivíduo,   de   geração   para   geração.   São,   portanto,   cópias   de   modelos   universais,   imutáveis,   eternos  a  que  Platão  dá  o  nome  de  Formas  ou  de  Ideias.  Na  nossa   linguagem   corrente,   entendemos   por   ideia   uma   modificação,   um   ato   do   espírito.   Na   linguagem   de   Platão,   a   Ideia   exprime,   não   o   ato   do   espírito   que   conhece,   mas   o   próprio   objeto   que   é   conhecido.   Assim,  a  Ideia  de  homem  é  a  forma  ideal  de  homem,  que  todos  os   homens  reproduzem  com  maior  ou  menor  perfeição.  Esta  forma  é   puramente  inteligível,  isto  é,  não  se  apreende  pelos  sentidos,  mas   nem   por   isso   deixa   de   ser   viva.   É   mesmo   o   único   ser   verdadeiramente   vivo,   pois   as   suas   cópias,   estando   sempre   em   mudança,   são   mortais.   A   Ideia   de   homem   é   aquilo   que   realmente   existe,   que   é   eterno   e   imutável   e,   por   isso,   é   aquilo   que   pode   ser   conhecido  e  ser  objeto  da  ciência.   Platão   ilustrou   a   sua   teoria   das   Ideias   na   célebre   alegoria   da   caverna,   onde   os   homens   são   comparados   a   prisioneiros   acorrentados   que   não   podem   virar   a   cabeça   para   trás   e   que   só   vêem  na  parede  do  fundo  da  sua  prisão  (à  sua  frente)  as  sombras  
  12. 12. projetadas   dos   objetos,   que   desfilam   por   trás   deles   iluminados   pela   luz   de   uma   fogueira.   Os   objetos   que   passam   por   trás   dos   prisioneiros   são   os   objetos   do   mundo   inteligível   (as   Ideias),   a   luz   que  os  ilumina  é  a  ideia  de  Bem,  origem  de  toda  a  ciência  e  de  toda   a  existência.  Reconhece-­‐se  aqui  a  doutrina  de  Parménides  (escola   Eleata),  para  quem  o  mundo  não  passa  de  aparência,  e  para  quem   a  única  realidade  é  a  Unidade.  Mas  enquanto,  para  Parménides,  o   Ser   uno   e   imutável   é   uma   abstração,   para   Platão,   é   o   Ser   por   excelência,  fonte  de  onde  brota  toda  a  vida.   A   Ideia   do   Bem,   diz   Platão,   está   no   limite   do   mundo   inteligível:   é   a   última  e  a  que  ocupa  o  lugar  mais  alto;  admite,  em  todo  o  caso,  que   existe   uma   hierarquia   de   Ideias.   No   livro   X   da   República,   parece   aceitar  que  todos  os  objetos  da  natureza  e  as  criações  do  homem,   como   um   banco   ou   uma   mesa,   retiram   a   sua   existência   de   uma   Ideia   e   que   as   Ideias   são   em   número   indeterminado.   Mas,   habitualmente,  só  fala  das  Ideias  do  Belo,  do  Justo  e  do  Bem.     A   teoria   das   Ideias   está   estreitamente   associada   à   doutrina   da   reminiscência  e  da  imortalidade  da  alma.  A  nossa  alma,  que  existiu   antes   de   nós   e   passará   para   outros   corpos   depois   de   nós,   já   conheceu   essas   Ideias,   mais   ou   menos   vagamente,   num   outro   mundo.  O  mito  do  Fedro  mostra-­‐nos  a  alma  a  subir  as  escadas  para   o  céu,  atrás  do  cortejo  dos  deuses,  para  ir  contemplar  as  Ideias  do   outro   lado   da   abóbada   celeste.   Ela   traz   de   lá   uma   lembrança   obscura   que   a   filosofia   se   esforça   por   esclarecer.   Este   esforço   de   esclarecimento   implica   um   treino   inicial   destinado   a   despertar   a   reflexão.     As  ciências  que  se  caracterizam  pelo  raciocínio  puro,  a  aritmética,   a   geometria,   a   astronomia,   são   as   mais   indicadas   para   nos   familiarizar   com   o   mundo   do   inteligível.     A   dialética   surge   então   como   o   método   mais   eficaz.   Platão   parte   da   dialética   socrática,   espécie  de  conversa,  através  da  qual  se  busca  a  definição  de  uma   virtude.   Assim,   no   diálogo   Laques,   os   três   interlocutores,   Laques,   Nicias   e   Sócrates   procuram   definir   coragem.   Laques   propõe   uma  
  13. 13. primeira  definição:  “O  homem  corajoso,  diz  ele,  é  o  que  se  mantém   firme   contra   o   inimigo”.   Sócrates   considera   esta   definição   muito   pobre,   pois   a   coragem   pode   ser   aplicada   em   muitas   outras   circunstâncias.   Laques   propõe,   então,   uma   nova   definição:   “A   coragem   é   uma   espécie   de   firmeza”.   Mas   se   essa   firmeza   se   basear   na   loucura   e   na   ignorância,   responde   Sócrates,   não   poderá   corresponder  à  coragem.  Por  seu  turno,  Nicias  diz  que  a  coragem  é   a   ciência   que   nos   permite   distinguir   aquele   que   devemos   temer   daquele   de   quem   não   precisamos   de   ter   medo.   A   esta   definição,   Sócrates   apresenta   outra   objeção.   Se   a   coragem   é   uma   ciência,   então   deve   ser   a   ciência   de   todos   os   bens   e   de   todos   os   males;   nesse   caso,   essa   definição   aplicar-­‐se-­‐ia   à   virtude   em   geral   e   não   especificamente   à   coragem.   A   partir   daqui   os   três   interlocutores   separam-­‐se   sem   alcançarem   a   definição   procurada.   Mas   dá   para   perceber   o   processo   que,   de   uma   proposição,   passa   a   outra   mais   compreensiva,   até   que   se   chegue   à   ideia   geral   que   compreenderá   todos   os   casos   e   distinguir-­‐se-­‐á   das   ideias   vizinhas.   Platão   aplica   este   método   socrático   ao   domínio   das   Ideias,   para   as   alcançar   a   elas,   subindo   das   Ideias   inferiores   até   à   Ideia   do   Bem.   Temos   de   começar   por   uma   hipótese   a   respeito   do   objeto   estudado.   Essa   hipótese   é   verificada   pelas   conclusões   a   que   conduz.   Se   as   conclusões  forem  insustentáveis,  a  hipótese  é  rejeitada.  Uma  outra   hipótese  toma  o  seu  lugar,  sujeitando-­‐se  ao  mesmo  procedimento,   até   que   se   encontre   uma   que   resista   ao   exame   da   sua   sustentabilidade.   Cada   hipótese   é   um   degrau   que   nos   conduz   à   Ideia.  Quando  tivermos  examinado  deste  modo  todos  os  objetos  de   conhecimento,   alcançaremos   todos   os   princípios   (arkai)   incontestáveis,   não   somente   em   si   mesmos,   mas   também   na   sua   mútua  dependência  e  na  relação  que  têm  com  o  princípio  superior   e  absoluto  que  é  a  Ideia  de  Bem.  O  diálogo  Parménides  fornece-­‐nos   um   exemplo   deste   procedimento.   Este   procedimento   exige   uma   inteligência  superior  e  um  trabalho  incansável,  de  que  só  o  filósofo   é  capaz.   Mas   a   dialética   não   é   suficiente   para   compreendermos   todas   as   coisas.   Há   segredos   impenetráveis   para   a   razão,   cuja   posse   os  
  14. 14. deuses  reservaram  para  si  mesmos.  Podem,  é  verdade,  deixar  que   alguns   homens   privilegiados   tenham   uma   visão   desses   segredos,   sem   lhes   dar   o   privilégio   de   os   alcançar   plenamente.   Os   deuses   permitem,   por   exemplo,   que   os   adivinhos   conheçam,   embora   imperfeitamente,  o  futuro  e  que  os  artistas  tenham  inspirações;  é  o   caso  de  Sócrates,  a  quem  os  deuses  favoreceram,  com  informações   privilegiadas.  Assim,  talvez  se  verifiquem,  nos  poetas  e  nas  crenças   populares,  traços  de  uma  revelação  divina,  que  lançariam  alguma   luz   sobre   as   nossas   origens   e   o   nosso   destino   após   a   morte.   Os   Egípcios  acreditavam  que  os  homens  são  julgados  pelos  seus  atos   após   a   morte,   e   os   Pitagóricos   acreditavam   que   a   alma   passa   do   corpo   de   um   animal   para   o   de   um   outro.   Platão   não   desprezou   a   recolha  destas  crenças,  mas  recusou-­‐se  a  dá-­‐las  como  certas.  Para   ele,   são   esperanças   ou   sonhos   que   ele   expõe   em   mitos   de   uma   poesia  sublime.  A  sua  imaginação  transmite-­‐lhes  um  brilho  mágico   e  sugere  pormenores  tão  precisos,  que  se  diria  que  Platão  assistiu   aos   mistérios   do   Além.   Encontrou   nesse   Além   limbos,   um   purgatório   e   um   inferno   eterno   reservado   à   almas   incorrigíveis.   Estas   visões   extraordinárias   impressionaram   de   tal   modo   os   espíritos   do   seu   tempo   e   dos   tempos   seguintes   que   os   cristãos,   modificando-­‐as  um  pouco,  fizeram  delas  dogmas  religiosos.                  
  15. 15.         A Psicologia A   psicologia   de   Platão   é   marcada   por   características   profundamente   espiritualistas.   A   alma   é   eterna.   Antes   de   se   unir   ao   corpo,   contemplou   as   Ideias   e,   graças   à   reminiscência,   pode   reconhecê-­‐las   depois   de   ter   incarnado   num   corpo.   Devido   à   coabitação  com  a  matéria,  a  alma  perde  a  sua  pureza  e  adquire  três   componentes  diferentes:     • uma   componente   superior,   ou   a   razão,   faculdade   contemplativa,   destinada   a   governar   e   manter   a   harmonia   entre  ela  e  as  duas  componentes  inferiores,       • a  coragem,  faculdade  nobre  e  generosa  que  inclui  ao  mesmo   tempo  desejos  elevados  da  nossa  natureza  e  a  vontade,       • o   instinto   e   o   desejo   que   atraem   os   homens   para   objetos   sensíveis  e  para  desejos  grosseiros.     O   ponto   mais   fraco   desta   conceção   é   a   reduzida   valorização   da   vontade   livre.   Platão   defende,   tal   como   Sócrates,   que   o   conhecimento   do   bem   implica   a   adesão   da   vontade,   o   que   dificilmente   se   compagina   com   a   experiência.   Platão   tentou   estabelecer   os   princípios   que   regem   a   sobrevivência   da   alma   através   de   demonstrações   dialéticas,   e   expôs   no   Górgias,   na   República  e  no  Fédon  as  migrações  e  as  purificações  a  que  alma  é   submetida,   antes   de   voltar   à   terra   e   entrar   num   novo   corpo.   O  
  16. 16. detalhe  destas  descrições  varia,  no  entanto,  de  obra  para  obra.     A Política A   política   de   Platão   é   modelada   pela   sua   psicologia,   pois,   no   seu   entender,  os  costumes  do  Estado  são  necessariamente  modelados   pelos  dos  indivíduos.  A  base  fundamental  do  Estado  é  a  justiça:  o   Estado   não   pode   existir   sem   justiça.   Platão   entende   a   justiça   de   uma  forma  mais  ampla  do  que  aquela  que  é  habitual  para  a  maior   parte   das   pessoas.   Para   um   grande   número   de   pessoas,   a   justiça   consiste   em   dar   a   cada   um   o   que   é   seu.   Sócrates   rejeita   esta   definição   no   primeiro   livro   da   República.   Para   ele,   ao   nível   individual,   a   justiça   consiste   em   que   cada   componente   da   alma   cumpra   a   função   que   lhe   é   própria:   que   o   desejo   se   submeta   à   coragem  e  que  a  coragem  se  submeta  à  razão.  O  mesmo  se  passa   ao   nível   da   cidade.   Esta   é   constituída   por   três   tipos   de   cidadãos   que  correspondem  às  três  componentes  da  alma:     • os  magistrados  filósofos  que  representam  a  razão;     • os   guerreiros   que   representam   a   coragem   e   que   são   encarregados   de   proteger   o   Estado   dos   inimigos   externos   e   de  fazer  os  cidadão  obedecer  às  leis  do  Estado;     • finalmente,   os   trabalhadores,   os   artesãos   e   os   comerciantes   que  representam  o  instinto  e  o  desejo.     Para  estes  três  tipos  de  cidadãos,  a  justiça  consiste,  tal  como  para   os  indivíduos,  em  cumprir  a  sua  função  específica.  Os  magistrados   governam,   os   guerreiros   obedecem   aos   magistrados,   e   os   outros   obedecem   aos   dois;   deste   modo,   reinará   a   harmonia,   isto   é,   a   justiça   entre   as   três   categorias   de   cidadãos.   A   educação   deve   preparar   os   magistrados,   os   guerreiros   e   os   auxiliares   para   o   exercício   das   suas   futuras   funções,   sendo   também   um   meio   para   determinar   as   características   que   definem,   em   cada   um,   a  
  17. 17. categoria   social   a   que   deve   pertencer.   Tal   como   os   homens,   as   mulheres   também   devem   beneficiar   dessa   educação,   uma   vez   que,   segundo   Platão,   elas   são   tão   aptas   como   os   homens.   Assim,   as   mulheres   devem   poder   aceder   aos   mesmos   cargos   dos   homens   incluindo   a   função   de   guerreiro.   Os   magistrados   devem   ser   escolhidos  de  entre  os  mais  dotados,  que  tenham  evidenciado  uma   maior  dedicação  ao  bem  público.  Devem  ser  formados  na  dialética,   para   que   possam   contemplar   as   Ideias   e   governar   o   Estado   de   acordo   com   a   Ideia   de   Bem.   Importa   esclarecer   que   estas   três   categorias,  ou  classes,  não  correspondem  a  castas  ou  a  privilégios   transmitidos   de   geração   em   geração;   pelo   contrário,   as   crianças   são   encaminhadas   para   uma   ou   para   outra   categoria,   de   acordo   com   as   aptidões   que   revelem   possuir   durante   o   processo   de   formação,   e   não   de   acordo   com   os   recursos   ou   estatuto   social   da   sua  família.   Por   outro   lado,   o   Estado   deve   ser   de   dimensão   reduzida.   Na   verdade,  Platão  considerava  que  o  pior  perigo  para  o  Estado  seria   a   sua   divisão   interna.   Por   isso,   não   acredita   na   viabilidade   da   justiça  em  Estados  de  grande  dimensão,  do  tipo  do  império  Persa,   como  defendia  Xenofonte.  O  seu  modelo  de  Estado  eram  as  cidades   gregas.  Um  Estado  pequeno  não  corre  o  risco  de  se  dividir  com  a   mesma   facilidade   de   um   grande   Estado,   formado   por   povos   diferentes,   e   facilita   também   a   supervisão   dos   magistrados.   Para   evitar  a  divisão,  o  pior  dos  males  de  que  sofriam  as  cidades  gregas,   deveriam  ser  suprimidos  os  inimigos  mais  temíveis  da  unidade:     • o  interesse  pessoal,  e     • o  espírito  de  família.     O  interesse  pessoal  seria  suprimido  através  do  estabelecimento  da   comunidade   de   bens,   e   o   espírito   de   família   através   da   comunidade   das   mulheres   e   das   crianças,   que   deveriam   ser   educadas   pelo   Estado.   No   entanto,   esta   comunidade   de   bens,   de   mulheres   e   de   crianças   não   deveria   abranger   todo   o   povo;   só   seria   regra   para   as   duas   ordens   superiores,   as   únicas   capazes   de  
  18. 18. compreender   o   valor   dessa   comunidade   e   submeter-­‐se   a   ela   em   nome   do   bem   público.   Por   outro   lado,   os   casamentos   não   poderiam   ser   deixados   ao   critério   dos   jovens:   sendo   efémeros   como   a   experiência   dizia   que   eram,   seria   da   competência   dos   magistrados  regulá-­‐los  oficial  e  solenemente.     Platão   não   tinha   quaisquer   dúvidas   a   respeito   da   dificuldade   em   pôr  em  prática  o  seu  sistema.  Ele  sabia  que  a  doutrina  das  Ideias,   em  que  ele  se  baseava,  era  incompreensível  para  a  multidão  e  que,   por  conseguinte,  a  sua  Constituição  teria  de  ser  imposta  à  maioria   do   povo,   mesmo   que   fosse   contra   a   sua   vontade,   e   que   essa   imposição  só  seria  eficiente  se  fosse  conduzida  por  um  rei  filósofo,   e   filósofo   à   maneira   de   Platão.   Houve   um   momento   em   que   parece   que   ele   acreditou   encontrar   esse   rei   filósofo   em   Dionísio   de   Siracusa,   o   jovem,   e   no   seu   amigo   Deão.   O   seu   fracasso   junto   do   primeiro,   e   o   assassinato   do   segundo,   depois   de   ter   usurpado   o   poder   a   Dionísio,   retiraram-­‐lhe   todas   as   ilusões.   Mas   a   política   tinha  sido  sempre  uma  das  preocupações  dominantes  de  Platão.  Já   velho,   volta   a   pegar   na   pena   para   redigir   uma   nova   Constituição,   que   expôs   em   As   Leis.   Esta   nova   Constituição   baseia-­‐se   nos   mesmos   princípios,   mas   é   mais   prática   e   abdica   da   comunidade   dos  bens,  das  mulheres  e  das  crianças.             A Moral
  19. 19. A   moral   de   Platão   tem   um   caráter,   ao   mesmo   tempo,   ascético   e   intelectual.  Platão  reconhece,  tal  como  Sócrates,  que  a  felicidade  é   o  fim  natural  da  vida;  mas,  ao  nível  dos  prazeres,  de  que  depende  a   felicidade,   há   a   mesma   hierarquia   que   caracteriza   as   componentes   da  alma.  Cada  componente  da  alma  dá-­‐nos  um  prazer  específico:     • a  razão,  o  prazer  de  conhecer;     • a  coragem,  as  satisfações  da  ambição;     • o   desejo,   os   prazeres   grosseiros   a   que   Platão   chamou   o   prazer  do  lucro.     Para   determinar   qual   destes   três   prazeres   é   superior,   basta   consultar   aqueles   que   têm   experiência   deles.   Ora,   o   artesão,   que   procura  o  lucro,  não  conhece  os  outros  dois  prazeres;  o  ambicioso,   por   seu   turno,   não   conhece   o   prazer   da   ciência;   só   o   filósofo   tem   a   experiência  dos  três  tipos  de  prazer  e,  por  isso,  é  o  único  capaz  de   ter   opinião   fundamentada   sobre   todos.   Nesta   linha   de   pensamento,   aos   seus   olhos,   o   maior   e   o   mais   puro   de   todos   os   prazeres  é  o  prazer  de  conhecer  próprio  do  filósofo.     Por   outro   lado,   uma   vez   que   ele   considera   que   o   corpo   é   um   empecilho  da  alma,  que  é  como  um  objeto  de  chumbo  que  dificulta   e   impede   mesmo   que   a   alma   voe   para   as   regiões   superiores   da   Ideia,   é   necessário   mortificá-­‐lo   e   libertar   a   alma,   tanto   quanto   possível,   das   necessidades   grosseiras   que   têm   origem   no   corpo.   Assim,   a   virtude   consiste   na   submissão   dos   desejos   inferiores   ao   desejo   de   conhecer,   ao   gosto   ou   amor   pela   sabedoria   (filosofia).   Conhecendo  o  bem,  o  homem  é  naturalmente  virtuoso,  pois  não  é   possível   vê-­‐lo   sem   o   desejar;   o   vício   tem   sempre   origem   na   ignorância.   Embora   Platão   reduza   a   ignorância   a   um   erro   de   cálculo,   ou   a   um   erro   de   dialética,   nem   por   isso   deixa   de   a   considerar   suscetível   de   ser   punida.   O   mau,   segundo   ele,   deveria   submeter-­‐se,   a   si   mesmo,   a   expiar   a   sua   ignorância.   Em   todo   o   caso,   se   escapar   neste   mundo,   não   escapará   no   outro,   pensava   Platão.  
  20. 20.     A Estética A   estética   de   Platão   depende   da   teoria   das   Ideias   e,   também,   da   moral   e   da   política,   elas   igualmente   modeladas   pela   doutrina   das   Ideias.  Com  efeito,  as  Ideias  são  imutáveis  e  eternas.  Uma  vez  que  é   nosso   dever   regularmo-­‐nos   por   elas,   as   artes   serão,   tal   como   as   Ideias,  imutáveis  e  estabelecidas  para  sempre.  Platão  não  prevê  a   necessidade  de  qualquer  tipo  de  inovação,  nem  na  poesia,  nem  nas   artes   em   geral.   Uma   vez   alcançado   o   ideal,   deveremos   fixar-­‐nos   nele   ou   recopiá-­‐lo   permanentemente.   Por   outro   lado,   a   única   função   da   arte   é   servir   a   moral   e   a   política.   “Nós   obrigaremos   os   poetas,   diz   Platão,   a   só   oferecer   nos   seus   poemas   modelos   de   bons   costumes,   e,   do   mesmo   modo,   controlaremos   os   outros   artistas   e   impedi-­‐los-­‐emos  de  imitar  o  vício,  a  intemperança,  a  baixeza,  seja   na  pintura  de  seres  vivos,  seja  em  qualquer  outro  tipo  de  imagem,   ou,  se  não  conseguirem  proceder  de  outro  modo,  proibi-­‐los-­‐emos   de   trabalhar   na   nossa   cidade.”   Em   resultado   destes   princípios,   Platão   proíbe   todos   os   tipos   musicais   que   não   respeitem   os   estilos   dório   e   frígio,   os   únicos   que   convêm   à   seriedade   dos   guerreiros.   Proíbe   a   tragédia,   cuja   tendência   para   o   queixume   poderia   amolecer  o  coração;  proíbe  a  comédia  humorística  (a  bobice)  e  até   o  riso,  que  condiz  mal  com  a  seriedade.  Critica  o  próprio  Homero,   de   quem   ele   tanto   gosta,   cujos   poemas   conhece   de   cor   e   que   cita   vezes   sem   conta,   por   não   achar   graça   à   descrição   que   faz   dos   deuses  como  se  fossem  tão  imorais  como  os  homens.  Depois  de  o   ter   “coroado   com   flores”,   Platão   acaba   por   condenar   Homero   ao   silêncio   na   sua   República.   Em   todo   o   caso,   os   mais   desprezíveis   para   ele   são   os   pintores   e   os   escultores.   Como   as   suas   obras   não   passam   de   cópias   incompletas   dos   objetos   sensíveis,   e   estes   são   cópias   imperfeitas   das   Ideias,   segundo   Platão,   elas   distanciam-­‐se,   em   três   degraus,   da   verdade;   esses   artistas   são,   portanto,   ignorantes,  inferiores  mesmo  aos  artesãos  que  fabricam  os  objetos  
  21. 21. reais,   cuja   distância   à   verdade   é   de   dois   degraus.   Por   outras   palavras,   quem   pudesse   ser   Aquiles   não   quereria   ser   Homero:   mais   vale   ser   herói   do   que   ser   relator   da   heroicidade   de   quem   quer   que   seja.   Portanto,   os   poemas   de   Homero   situam-­‐se   a   um   nível  inferior  ao  da  vida  real  de  Aquiles  que  eles  relatam.  É  este  o   tipo   de   raciocínio,   coerente,   que   Platão   utiliza   para   a   sua   conceção   de  estética.  Levando  este  raciocínio  ao  limite,  seria  legítimo  dizer   que  um  sapateiro  que  criticasse  Fídias  seria  superior  a  este  grande   escultor,  ou  a  Apeles,  um  dos  mais  importantes  pintores  da  Grécia   clássica.     Esta   conceção   de   estética   mostra   bem   até   onde   o   espírito   de   sistema,   ou   a   busca   de   coerência   a   todo   o   custo,   conduz   um   homem,   como   Platão,   que   foi,   ele   próprio,   um   dos   maiores   artistas   da  humanidade,  pela  beleza  dos  seus  escritos.   A Física e o Demiurgo No  Timeu,  Platão  fornece  a  sua  explicação  do  Universo  em  geral  e   do   Homem   em   particular.   Nessa   obra   condensou   os   conhecimentos  da  sua  escola  sobre  a  natureza.   Segundo  ele,  existe  um  Deus  muito  bom  que  criou  o  mundo  à  sua   imagem.   Não   o   criou   do   nada,   como   o   Deus   dos   judeus   e   dos   cristãos,  pois  sempre  coexistiram  ao  seu  lado  duas  substâncias  (a   alma  incorpórea  e  indivisível  e  a  outra  material  e  divisível),  a  que  a   filosofia  grega  chama  O  Uno  ou  O  Mesmo,  e  O  Outro.    O  Demiurgo  (o   Deus)   criou,   em   primeiro   lugar   o   mundo   sensível.   A   partir   da   substância   indivisível   e   da   substância   divisível   compôs,   misturando-­‐as,   uma   terceira   substância   intermédia   que   inclui   a   natureza   do   Uno   e   a   natureza   do   Outro:   a   alma   do   mundo   é   formada  por  estas  três  substâncias  (as  duas  originais  e  a  terceira   criada  por  Deus).  Com  o  mundo  nasceu  também  o  tempo  que  é  a   medida   do   movimento   dos   astros.   Para   povoar   o   mundo,   o   Demiurgo   criou,   em   primeiro   lugar,   os   deuses   (astros   ou   deuses   mitológicos)   e   encarregou-­‐os   a   eles   de   criar   os   animais,   para   não  
  22. 22. ser   responsável   pelas   suas   imperfeições.   Os   deuses   formaram   o   corpo   dos   seres,   tendo   em   vista   o   maior   bem;   aplicaram   na   formação   desses   corpos   leis   geométricas   muito   complexas.   No   corpo   do   homem   colocaram   também   uma   alma,   que,   tendo   em   conta   a   forma   como   conduza   a   sua   vida,   se   bem,   após   a   morte   voltará   para   o   astro   de   onde   é   originária,   se   mal,   passará   para   outros   corpos   até   que   seja   purificada.   Platão   só   se   interessa   pelo   destino   do   homem,   e   é   por   se   interessar   pelo   homem   que   ele   estuda   o   Universo.   Por   conseguinte,   a   fisiologia   e   a   higiene   do   homem   são   o   principal   objeto   do   Timeu:   a   estrutura   do   corpo,   os   órgãos,  a  origem  das  impressões  sensíveis,  as  causas  das  doenças   do   corpo   e   da   alma,   a   geração,   a   metempsicose.   Platão   tratou   de   todos   estes   assuntos,   utilizando   os   ensinamentos   de   Empédocles   e   do   médico   Alcméon,   acrescentando   as   descobertas   realizadas   na   sua  escola.   Sendo  o  Timeu  uma  das  últimas  obras  de  Platão,  acontece  que  nem   sempre   está   de   acordo   com   obras   anteriores.   A   diferença   mais   importante  tem  a  ver  com  o  facto  de  o  Deus  do  Timeu  ser  distinto   do  mundo  das  Ideias  que  lhe  servem  de  modelos  para  a  formação   do  mundo  sensível.  Na  República,  pelo  contrário,  é  a  Ideia  de  Bem   que  é  a  fonte,  não  só  de  todo  o  conhecimento,  mas  também  de  toda   a   existência.   É   a   Ideia   de   Bem   que   corresponde   a   Deus.   Segundo   Teofrasto,   Platão   tinha   tendência   para   identificar   a   Ideia   de   Bem   com   o   Deus   supremo;   mas   parece   claro   que   Platão   não   levou   ao   limite   esta   sua   tendência,   e   o   seu   pensamento   sobre   Deus   acaba   por  ser  flutuante.   Influência do Platonismo A   teoria   essencial   em   que   se   baseia   toda   a   filosofia   de   Platão,   a   teoria   das   Ideias,   foi   rejeitada   pelo   seu   discípulo   Aristóteles;   o   simples   bom   senso   bastaria,   aliás,   para   a   refutar.   Discípulo   dos   Eleatas,  para  quem  só  o  Uno  existia,  e  dos  Pitagóricos,  que  viam  no   número   o   princípio   das   coisas,   Platão   concedeu   uma   existência   real   a   conceitos   abstratos   que   só   existem   no   nosso   espírito.  
  23. 23. Formado   nos   raciocínios   matemáticos,   aplicou-­‐os   intrepidamente   às   noções   morais,   ao   Uno,   ao   Ser,   ao   Bem,   à   Causa.   Acreditou   estar   a   dar   sentido   à   realidade   através   dos   seus   raciocínios,   mas   na   verdade   só   dava   sentido   a   abstrações.   Mas   mesmo   que   as   ideias   não   tenham   uma   existência   independente,   basta   que   estejam   no   nosso  espírito  como  um  ideal,  para  que  nos  possamos  orientar  por   elas.   É   por   isso   que   Platão,   separando-­‐nos   do   mundo   sensível   para   nos   elevar   ao   ideal   inteligível,   ainda   nos   dias   de   hoje   exerce   um   poderoso  fascínio  sobre  os  seus  leitores.  Ninguém  falou  do  bem  e   do   belo   com   um   entusiasmo   tão   comunicativo.   A   vida   que   vale   a   pena  ser  vivida,  diz  ele  no  Banquete,  é  a  do  homem  que  se  elevou   do  amor  aos  corpos  belos,  ao  amor  às  almas  belas,  e  deste,  ao  amor   às   belas   ações,   e   depois,   ao   amor   das   belas   ciências,   até   à   beleza   absoluta   que   atravessa   os   corações   com   um   arrebatamento   inexprimível.   Uma   multidão   de   ideias   platónicas   exerce   ainda   uma   influência   muito   considerável   no   mundo   moderno.   Platão   é   um   autor   espiritualista:   concebeu   a   alma   como   o   essencial   do   homem.   Segundo  ele,  o  homem  deve  esforçar-­‐se  por  devolver  à  sua  alma  o   estado  de  pureza  que  ela  perdeu  ao  unir-­‐se  com  o  corpo.  É  deste   esforço  que  depende  a  sua  vida  futura.  A  vida  deve,  portanto,  ser   uma   preparação   para   a   morte.   A   existência   de   uma   Providência   que   governa   o   mundo,   a   necessidade   de   expiação   de   toda   a   maldade   cometida,   a   recompensa   dos   bons,   a   punição   dos   maus   num   outro   mundo   e   muitas   outras   ideias   foram   incorporadas   na   filosofia  cristã  e  continuam  a  comandar  a  nossa  conduta.  Por  este   motivo,   podemos   dizer   que   nenhum   outro   filósofo   marcou   tão   profundamente   o   pensamento   dos   antigos   e   o   pensamento   dos   modernos.            
  24. 24.   O  Teeteto   Argumento   O  debate  que  é  travado  no  Teeteto  é  precedido  de  uma  espécie  de   prólogo.   É   uma   conversa   entre   dois   megarianos   (habitantes   de   Mégara),   antigos   discípulos   de   Sócrates,   Euclides   e   Terpsion.   Euclides,  tendo  ido  ao  porto  de  Mégara,  encontrou  lá  Teeteto,  que   estava  a  ser  transportado,  doente  e  ferido,  do  campo  de  batalha  de   Corinto   para   Atenas.   Que   perda   -­‐   exclama   Terpsion   -­‐   se   este   grande   sábio   e   valente   soldado   vier   a   morrer!   Ele   justificou,   diz   Euclides,   o   augúrio   de   Sócrates,   que   lhe   tinha   predito   um   futuro   glorioso.  Com  efeito,  Sócrates,  pouco  antes  de  ter  sido  condenado,   tinha  conhecido  Teeteto  e  tinha  tido  com  ele  uma  conversa,  onde  a   precoce   inteligência   do   ainda   jovem   Teeteto   o   tinha   surpreendido.   Será   que   podes,   pergunta   Terpsion,   relatar-­‐me   essa   conversa?.   -­‐   Não,  mas  redigi  um  relato  que  Sócrates  me  fez  dela.  Só  que,  em  vez   de   conservar   a   forma   de   narrativa,   construí   um   diálogo   entre   Sócrates   e   os   seus   dois   interlocutores,   Teodoro   e   Teeteto.   Voltemos   para   casa   que   o   meu   escravo   far-­‐nos-­‐á   a   leitura   desse   diálogo.   Sócrates   abre   a   conversa.   Diz-­‐me   Teodoro,   tu   que   ensinas   aqui   geometria,   se   distinguiste,   de   entre   os   teus   alunos   atenienses,   alguns   jovens   que   prometam   tornar-­‐se   homens   de   mérito.   -­‐   Sim,   Sócrates,  um  em  particular.  Ele  é  fisicamente  parecido  contigo  e  é   maravilhosamente  dotado  de  inteligência  e  de  qualidades  morais.  
  25. 25. Ali   vem   ele,   com   aqueles   jovens   que   se   aproximam   de   nós.   Chama-­‐ se   Teeteto.   -­‐   Queres   dizer-­‐lhe   que   venha   aqui?   Chamado   por   Teodoro,  Teeteto  aproxima-­‐se.  -­‐  Uma  vez  que  aprendes  as  ciências   na  escola  de  Teodoro,  diz-­‐lhe  Sócrates,  poderias  dizer-­‐me  em  que   consiste   a   ciência?   -­‐   A   ciência   é   aquilo   que   Teodoro   ensina,   a   geometria,   a   astronomia,   a   harmonia,   o   cálculo   e   as   artes   em   geral.     -­‐   Desse   modo,   não   estás   a   definir   a   ciência,   mas   os   seus   objetos.   Se   eu  te  perguntasse  o  que  é  o  barro  e  tu  me  respondesses:  há  barro   dos  oleiros,  o  barro  dos  tijolos  e  outros,  eu  não  ficaria  a  saber  nada   sobre   a   natureza   do   barro.   O   que   era   preciso   que   me   dissesses   é   que   o   barro   é   um   certo   tipo   de   terra   misturada   com   água.   -­‐   Compreendo,   diz   Teeteto:   o   que   tu   me   perguntas,   foi   o   que   nós   fizemos   há   uns   dias   atrás,   o   jovem   Sócrates   e   eu,   a   propósito   das   raízes.   Sendo   as   raízes   infinitas   em   número,   tentámos   juntá-­‐las   todas   num   termo   único,   e   reconhecemos   assim   duas   classes   de   números,   a   que   chamámos   comprimentos   e   raízes.   -­‐   Perfeito,   diz   Sócrates.   E   agora,   uma   vez   que   englobaste   todas   as   raízes   numa   forma   única,   tenta   fazer   o   mesmo   com   as   numerosas   formas   de   ciência.    -­‐  Já  tentei  várias  vezes,  mas  sem  sucesso.  No  entanto,  não   consigo   desinteressar-­‐me   da   questão.   -­‐   É   porque   tens   uma   alma   grande,   Teeteto.   Bom,   não   ouviste   dizer   que   sou   filho   de   uma   parteira,  e  que  tenho  a  arte  de  fazer  dar  à  luz  os  espíritos,  como  a   parteira   de   fazer   dar   à   luz   as   mulheres?   Sei   ainda   discernir   se   o   espírito   de   um   jovem   está   a   dar   à   luz   uma   quimera,   ou   um   fruto   real  e  verdadeiro.  Confia,  portanto,  em  mim  e  não  te  aflijas  se,  ao   examinar   aquilo   que   dizes,   o   julgar   como   um   fantasma   sem   realidade.   A   partir   daqui,   entramos   no   tema   central   do   Teeteto:   o   que   é   a   ciência?   Teeteto   vai   propor   sucessivamente   três   definições   que   serão  examinadas  e  recusadas  por  Sócrates  uma  após  outra:   • A  ciência  é  a  sensação;   • A  ciência  é  a  opinião  verdadeira;   A  ciência  é  a  opinião  verdadeira,  acompanhada  de  razão.  
  26. 26.                   A Ciência é Sensação   A   primeira   definição,   sozinha,   ocupa   mais   tempo   de   conversa   do   que   as   outras   duas   juntas.   A   razão   é   mais   simples   do   que   possa   parecer:  é  que  esta  definição  relaciona-­‐se  com  doutrinas  célebres   que   Sócrates   expõe   com   todo   o   seu   vigor   antes   de   as   refutar.   A   doutrina,   segundo   a   qual   a   ciência   é   sensação,   é   precisamente   a   teoria   de   Protágoras,   que   diz   que   o   homem   é   a   medida   de   todas   as   coisas,   isto   é,   que   se   algo   me   aparece,   ele   é   exatamente   esse   algo   para   mim,   e   se   algo   aparece   a   outro,   ele   é   exatamente   esse   algo   para   o   outro.   Como   aparecer   é   ser   sentido   por   alguém,   então   a   sensação  é  a  ciência.   Em  que  é  que  se  apoia  esta  teoria  de  Protágoras?  Na  doutrina  de   Heraclito  de  que  tudo  está  em  movimento,  de  que  nada  é  fixo,  de   que   tudo   flui.   As   bases   desta   teoria   remontam   a   Homero   e   é   seguida   por   todos   os   sábios,   à   exceção   de   Parménides   e   da   sua   escola   (Eleata).   É   a   partir   do   movimento   e   da   mistura   (ou   fusão)  
  27. 27. recíproca  que  se  formam  todos  os  seres  que  afirmamos  existirem;   por  seu  turno,  a  ausência  de  movimento  (o  repouso)  destrói-­‐os.  Os   seres   não   existem   por   si   mesmos:   a   cor   não   é   algo   que   exista   à   parte   de   tudo   o   resto;   com   efeito,   não   é   nem   uma   característica   que  se  aplica  ao  objeto,  nem  o  objeto  ao  qual  essa  característica  é   aplicada,   mas   um   produto   intermédio   específico   a   cada   coisa   ou   indivíduo;  esse  produto  varia  não  só  de  indivíduo  para  indivíduo,   mas   também   no   mesmo   indivíduo,   porque   este   está   em   permanente  mudança.   Como   é   costume   em   Sócrates,   ele   não   vai   limitar-­‐se   a   expor   a   teoria   que   critica;   pelo   contrário,   aprofunda   e   completa   essa   mesma   teoria,   assumindo   completamente   a   perspetiva   do   adversário.   Sócrates   empenha-­‐se,   portanto,   em   demonstrar   que   só   o   movimento   existe.   Vejamos   a   sua   explicação.   Há   dois   tipos   de   movimento,   sendo   cada   um   em   número   infinito.   Um   deles   consiste   numa   força   ativa,   o   outro   é   uma   força   passiva.   Da   sua   união   e   fricção   mútuas   nascem   proles   em   número   infinito,   mas   em   pares   gémeos  que  estão  sempre  unidos:  um  é  o  objeto  da  sensação,  e  o   outro  a  sensação.  Tudo  está  em  movimento;  mas  este  movimento   pode   ser   rápido   ou   lento.   Tudo   o   que   é   lento   move-­‐se   no   mesmo   lugar   ou   em   direção   a   objetos   vizinhos,   e   é   assim   que   esse   movimento   é   gerador   da   realidade.   Quando   os   olhos   e   algum   objeto,  suscetível  de  ser  visto,  geram  a  brancura  e  a  sensação  que   lhe   é   específica   por   natureza,   acontece   que   a   visão   que   vem   dos   olhos   e   a   brancura   que   vem   do   objeto   (que   se   concertaram   para   gerar   a   cor   branca)   se   movem   no   espaço   intermédio   (e   intermediário);   deste   modo,   o   olho   preenche-­‐se   de   visão   e   transforma-­‐se,  não  numa  visão,  mas  em  olho  vidente  (olho  que  vê).   Do   mesmo   modo,   o   objeto   que   concorreu   com   o   olho   para   a   produção   da   cor,   enche-­‐se   de   brancura   e   transforma-­‐se,   não   em   brancura,   mas   em   objeto   branco,   seja   madeira   branca,   ou   pedra   branca,   por   exemplo.   O   mesmo   se   passa   com   o   frio   e   o   quente   e   com   outras   qualidades.   Nada   é   isto   ou   aquilo   em   si   e   por   si:   é   a   partir  das  suas  aproximações  mútuas  que  todas  as  coisas  nascem   do   movimento   sob   formas   de   todo   o   género.   É   assim   impossível  
  28. 28. conceber   o   elemento   ativo   e   o   elemento   passivo   como   existindo   separadamente,   pois   não   existe   elemento   ativo   antes   de   se   associar   ao   elemento   passivo,   nem   elemento   passivo   antes   de   se   unir   ao   elemento   ativo;   por   outro   lado   aquilo   que,   numa   certa   união,   é   agente,   numa   outra   poderá   ser   paciente   (passivo).   Desta   conceção   resulta   que   nada   é   em   si   e   que   devemos   extinguir   a   palavra  ser.   As   objeções   a   este   sistema   usam,   frequentemente,   o   argumento   dos   sonhos,   das   doenças,   da   loucura   e   das   ilusões   dos   sentidos.   Mantendo   a   sua   postura   de   defender   convictamente   aquilo   que   quer   criticar,   Sócrates   continua,   contestando   inicialmente   esses   argumentos.   Com   efeito,   pode   responder-­‐se   que   a   sensação,   durante  o  sonho,  existe  tanto  para  aquele  que  sonha,  quanto  existe   a   sensação   para   aquele   que   está   acordado;   que   a   sensação   de   Sócrates  doente  continua  a  ser  tão  verdadeira  para  ele  quanto  o  é   quando   está   de   boa   saúde.   O   único   juiz   da   sensação   é   aquele   que   a   experiencia.  É  por  isso,  precisamente,  que  a  sensação  é  a  ciência.   Após   um   curto   intervalo   na   exposição   e   defesa   da   doutrina   da   sensação,   em   que   anuncia   que   vai   examinar   com   cuidado   o   recém-­‐ nascido  de  Teeteto  (a  doutrina  da  sensação),  e  em  que  Teodoro  o   exorta   a   dizer   o   que   realmente   pensa   dela,   Sócrates   desfere   duas   críticas   fulminantes   a   Protágoras:   “Porque   é   que   Protágoras   considera   o   homem   a   medida   de   todas   as   coisas,   de   preferência   ao   porco  ou  ao  macaco,  que  são,  eles  também,  seres  com  sensações?  E   se   cada   um   é   a   medida   da   sua   própria   sabedoria,   em   que   é   que   Protágoras   se   pode   considerar   mais   sábio   do   que   os   outros?”   Incomodado   por   ver   assim   maltratado   o   seu   amigo   Protágoras,   Teodoro  pede  que  seja  Teeteto  a  responder  a  Sócrates.   -­‐  Vejamos,  Teeteto,  diz  Sócrates,  não  te  surpreende  veres-­‐te  igual   em   sabedoria   a   qualquer   homem   ou   a   qualquer   deus?   -­‐   Sim,   responde  Teeteto.  -­‐  Vejamos  então  a  que  consequência  nos  conduz   a  tese  de  que  a  ciência  é  a  sensação.  Sentir  através  da  visão  ou  da   audição  é  saber.  Ora,  aquele  que  vê  e  que  tomou  conhecimento  do  
  29. 29. que  viu,  se  fechar  os  olhos,  lembra-­‐se  da  coisa,  mesmo  sem  a  ver.   Ora,  dizer  que  não  vê  é  dizer  que  não  sabe,  pois  ver  é  saber.  Segue-­‐ se   que,   quando   um   homem   adquiriu   o   conhecimento   de   uma   coisa   de   que   ainda   se   lembra,   mas   não   vê,   não   a   sabe:   consequência   monstruosa!   Mas,   se   Protágoras   estivesse   presente   para   se   defender,   poderia   alegar  que,  de  facto,  é  possível  que  o  mesmo  homem  que  sabe  uma   coisa,   não   a   saiba.   Supõe   que   alguém   te   tapa   com   a   mão   um   dos   olhos   e   que   te   pergunta   se   vês   a   sua   roupa   com   esse   olho   fechado;   serás   forçado   a   dizer   que   vês   e   que   não   vês   ao   mesmo   tempo.   E   depois,  a  memória  que  conservamos  das  coisas  que  sentimos  não  é   da   mesma   natureza   da   sensação   que   tínhamos   e   já   não   temos.   Já   não   somos   o   mesmo   homem,   porque   estamos   sempre   em   mudança.   Finalmente,   Protágoras   poderia   sustentar   que   as   sensações  diferem,  não  na  sua  qualidade  de  verdadeiras  ou  falsas,   pois  são  todas  reais,  mas  na  sua  qualidade  de  melhores  ou  piores.   Longe  de  não  reconhecer  nem  sabedoria,  nem  sábio,  ele  diria,  pelo   contrário,  que  somos  sábios,  quando,  mudando  a  face  (ou  aspeto)   dos   objetos,   conseguimos   fazer   com   que   pareçam   bons   àquele   a   quem  eles  pareciam,  e  para  quem  eram,  maus.   O   debate   é,   de   novo,   interrompido   por   um   curto   intervalo.   Receando   que   Protágoras   o   criticasse   por   só   discutir   com   gente   nova,   Sócrates   pede   que   seja   Teodoro   a   responder-­‐lhe.   Teodoro   bem  tenta,  mas  acaba  por  resignar.  Sócrates  continua:  Protágoras   diz  que  aquilo  que  parece  a  cada  um  existe  realmente  para  aquele   a   quem   isso   parece.   Ora,   é   opinião   generalizada   de   que,   entre   os   homens,   há   uns   que   são   sábios   e   outros   que   são   ignorantes,   e   sabes   tu   de   experiência   própria   que   não   há   opinião   que   não   encontre  quem  a  contradiga.  Se  Protágoras  acredita  que  o  homem   é   a   medida   de   todas   as   coisas,   mas   que   a   multidão   se   recusa   a   acreditar   nele,   de   modo   que   o   número   daqueles   que   discordam   supera   o   daqueles   que   concordam,   então   há   razões   para   que   o   seu   princípio  seja  mais  falso  do  que  verdadeiro.  Reconhecendo  que  só   podemos   ter   opiniões   verdadeiras,   Protágoras   reconhece   que   os  
  30. 30. seus  opositores  têm  uma  opinião  verdadeira,  ao  julgar  a  sua  falsa.   A   doutrina   de   Protágoras   encontra   um   bom   ponto   de   apoio   nas   sensações  do  tipo  das  do  quente  e  do  frio,  do  doce  e  do  amargo  e   de   outras   do   mesmo   género.   Mas   essa   doutrina   encontra   dificuldades   sérias   quando   se   refere   à   saúde,   ao   justo,   à   piedade,   onde  fica  claro  que  há  homens  que  têm  mais  razão  do  que  outros.   Aqui,  Sócrates  pára  e  faz  a  reflexão  de  que  um  argumento  conduz  a   outro  e  que  o  debate  não  tem  fim.  -­‐  Bom,  diz  Teodoro,  não  temos   tempo  livre?  Esta  réplica  de  Teodoro  serve  de  pretexto  para  uma   digressão   sobre   a   vida   do   filósofo,   que   tem   sempre   tempo   livre,   ao   contrário   do   orador   ou   do   advogado   que   andam   sempre   atarefados.   O   filósofo,   afastado   dos   negócios   públicos,   só   está   presente   de   corpo   na   cidade;   a   sua   alma   plana   sobre   o   empírico.   Como   Tales   que   caiu   num   poço   enquanto   observava   os   astros,   o   filósofo   ignora   o   que   se   passa   debaixo   dos   seus   pés   e   dá   motivos   para   que   os   outros   se   riam   dele.   Ele   não   se   preocupa   com   o   poder,   com   a   riqueza   ou   com   a   nobreza.   Só   se   interessa   pela   virtude   e   dedica-­‐se   a   assemelhar-­‐se   a   Deus.   Este   retrato   do   filósofo,   onde   são   agrupados   alguns   traços   dispersos   na   República,   é   o   contraponto  da  imagem  que  Cálicles  traçou  no  Górgias  do  filósofo   que  perde  tempo  com  discussões  infantis  e  que,  afastado  da  ágora   (praça   pública),   se   torna   incapaz   de   se   defender   contra   o   primeiro   patife  que  o  acuse.   Voltemos   ao   assunto.   Vejamos   o   exemplo   de   um   Estado   que   promulga   as   suas   leis.   Ele   concebe-­‐as   tendo   em   vista   a   sua   utilidade  futura.  Ora,  a  sensação  não  tem  nada  a  ver  com  o  futuro,   e  só  o  homem  competente  merece  ser  ouvido  a  respeito  do  futuro   das  leis  ou  de  qualquer  outro  futuro.   Mas,   também   no   que   diz   respeito   às   sensações   imediatas   do   quente   e   do   frio   e   de   outras   semelhantes,   não   podemos   garantir   que  sejam  verdadeiras,  baseando-­‐nos  na  doutrina  do  movimento.   Existem   dois   tipos   de   movimento,   um   de   translação   e   outro   de   alteração.  Como  tudo  se  move  destas  duas  formas,  a  perceção  e  a  
  31. 31. qualidade,  que  se  move  entre  o  sujeito  e  o  objeto,  têm  de  mudar  de   natureza   no   momento   exato   da   sensação   e,   por   isso,   essa   perceção   e   qualidade   não   podem   sequer   ser   nomeadas.   Nenhuma   coisa   existe,   mais   do   que   já   não   existe:   Nenhuma   coisa   deixa   de   ser   “assim”,   mais   do   que   não   é   “assim”,   pois   ambas   as   expressões   se   referem   ao   repouso.   A   sensação   sempre   em   mudança   não   é,   portanto,   a   ciência,   e   a   doutrina   de   Heraclito,   pelo   contrário,   é   a   negação  da  ciência.   Teeteto   gostaria   também   de   ouvir   discutir   a   doutrina   dos   adversários   de   Heraclito,   que   pretendem   que   tudo   está   em   repouso.   Mas   Sócrates   recusa-­‐se   a   fazê-­‐lo   para   não   alongar   o   debate  até  ao  infinito.   A Ciência é Opinião Verdadeira Sócrates  pergunta  a  Teeteto:  dado  que  o  que  se  sente  por  um  dos   sentidos,   não   pode   ser   sentido   por   outro,   através   de   quê   poderemos  conceber  uma  ideia  que  diz  respeito  aos  dois  sentidos   ao  mesmo  tempo,  e  a  que  órgãos  podemos  atribuir  a  perceção  do   que   é   comum   a   todas   as   coisas,   como   o   ser   e   o   não   ser?   -­‐   Só   podemos,   responde   Teeteto,   atribuí-­‐la   à   alma.   É   através   da   alma   que   apreendemos   não   somente   o   ser,   mas   também   o   semelhante   e   o   diferente,   o   belo   e   o   feio,   e   outras   ideias   do   mesmo   género.   A   sensação  não  pode  alcançar  o  ser,  nem  por  conseguinte  a  ciência.   Temos   de   a   procurar   naquilo,   qualquer   que   seja   o   nome   que   lhe   damos,   a   que   chamamos   alma,   quando   ela   própria,   por   si   só,   se   dedica   ao   estudo   dos   seres.   A   essa   procura   chama-­‐se   julgar   e   é   o   juízo   ou   opinião   verdadeira   que   constitui   a   ciência.   Seja.   Diz   Sócrates;  mas  se  há  uma  opinião  verdadeira,  também  tem  de  haver   uma   opinião   falsa.   Como   é   que   esta   se   forma?   Parece   impossível   não   se   saber   o   que   se   sabe   e   saber   o   que   não   se   sabe.   Quando   fazemos  um  juízo  falso,  será  que  tomamos  as  coisas  que  sabemos   por   outras   que   também   sabemos,   ou   desconhecemos   ambas?   -­‐   É  
  32. 32. impossível.   -­‐   Então,   tomamos   as   coisas   que   não   sabemos   por   outras   que   também   não   sabemos?   -­‐   Também   impossível.   -­‐   Também  não  tomamos  as  coisas  que  sabemos  por  aquelas  que  não   sabemos,  nem  aquelas  que  não  sabemos  por  outras  que  sabemos?   -­‐   Não.   -­‐   Então,   como   explicar   a   origem   da   opinião   falsa?   Consideremos  o  ser  e  o  não  ser  no  lugar  do  saber  e  da  ignorância.   Aquele,  que  pensa  o  que  não  é,  só  pode  ter  uma  opinião  falsa.  Mas   julgar   o   que   não   é,   é   não   julgar   nada.   Fazer   um   juízo   falso   não   é   mais  do  que  julgar  o  que  não  é.   Não   seria   desprezível   que   confundíssemos   no   nosso   pensamento   duas   coisas   igualmente   reais,   afirmando   que   uma   é   a   outra?   Mas   quando  o  pensamento  faz  esta  confusão,  não  seria  necessário  que   represente   os   dois   objetos   ao   mesmo   tempo,   ou   um   dos   dois?   -­‐   Sim.   -­‐   Ora,   sendo   o   juízo   um   discurso   que   a   alma   tem   consigo   mesma,   quando   tomamos   uma   coisa   por   outra,   dizemos   a   nós   próprios   que   uma   é   outra:   será   isso   possível?   Não,   pois   é   impossível  que,  ao  pensarmos  nos  dois  objetos  ao  mesmo  tempo,   julguemos   que   um   é   o   outro   e,   se   só   pensarmos   num   dos   dois,   nunca  poderemos  julgar  que  um  é  o  outro  (em  que  não  estamos  a   pensar).  Em  todo  o  caso,  é  indispensável  que  exista  uma  via,  pela   qual  seja  possível  tomar  o  que  se  sabe  por  aquilo  que  não  se  sabe.   Imaginemos   na   nossa   alma   um   bloco   de   cera,   onde   se   gravam   as   nossas   sensações,   e   que   aquilo   que   assim   foi   impresso   será   recordado  e  conhecido  por  nós,  enquanto  que  o  que  se  apagou  ou   não   pôde   ser   gravado   será   esquecido   ou   desconhecido.   Ora,   um   homem   não   pode   ter   uma   opinião   falsa,   pensando   que   as   coisas   que  conhece  são,  ora  aquelas  que  ele  sabe,  ora  aquelas  que  ele  não   sabe?  Após  passar  em  revista  todos  os  casos  a  que  esta  hipótese  dá   lugar,  Sócrates  retém  três,  em  que  a  confusão  lhe  parece  possível:   um,  em  que  se  confunde  uma  coisa  que  se  sabe  com  uma  outra  que   também   se   sabe   e   que   se   perceciona,   outra,   em   que   se   confunde   uma   coisa   que   se   sabe   com   uma   outra   que   não   se   sabe   e   que   se   perceciona,  e  uma  terceira,  em  que  se  confunde  o  que  se  sabe  e  se   perceciona  com  uma  outra  que  se  sabe  e  se  perceciona  igualmente.   Por   exemplo,   diz   Sócrates,   eu   conheço-­‐te,   Teeteto,   e   conheço  

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