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Teeteto e Apologia

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Texto de apoio para alunos de filosofia do ensi

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Teeteto e Apologia

  1. 1. FILOSOFIAO Teeteto e aApologiaJORGE NUNES BARBOSA
  2. 2. Prefácio
  3. 3. Este texto destina-se aos meus alunos de Filosofia. tras são localizadas nos mapas atuais, a partir das infor- mações contidas na “Wikipedia”. O mesmo aconteceFoi composto a partir de apontamentos meus, muitos com o valor do dinheiro da época que foi apurado a par-deles sem qualquer referência, por se destinarem mais tir da conversão das minas em dracmas.a apoiar as minhas leituras do que a serem alguma vezpublicados, e a partir das obras de Platão: O Teeteto e a A escrita deste texto, começada há já bastante tempo,Apologia, em língua francesa. No meu tempo de estu- foi interrompida e interrompe, agora, a escrita de umdante de Filosofia no Ensino Superior, as obras de Pla- outro texto sobre a Doutrina Social da Igreja (DSI). Natão não estavam acessíveis em língua portuguesa, pelo verdade, este último tem-se revelado mais complexo doque me habituei a lê-las em francês. Mais tarde, tendo que era minha intenção inicial: A DSI não se compade-completado a minha formação superior numa Universi- ce com uma escrita esquemática, como aquela que eudade francesa, adquiri o gosto por ler Platão e outros pensava fazer.autores clássicos em francês. Desta circunstância, resul- Tanto Platão como a DSI concordam num ponto em ter-ta uma leitura do Teeteto que não coincide inteiramen- mos de política: a justiça é o bem maior do Estado, ate com aquela que se encontra nos manuais portugue- justiça ou o bem comum. A liberdade individual deveses: assume-se que o tema do Teeteto é a ciência e não subordinar-se à justiça. Numa época, em que as conce-o conhecimento. No entanto, é mantida a terminologia, ções políticas, por fanatismo liberal, se aproximam peri-habitual nesses manuais, relativa à opinião e à opinião gosamente de conceções e sobretudo de práticas anar-verdadeira, por ser irrelevante outra qualquer, se o quistas, quer Platão, quer a DSI podem, a par das teori-tema considerado for o da Ciência. as de Rawls ou de Amartya Senn, ser refrescantes e pro-Os pormenores que se referem à vida de Sócrates são missoras. A justiça de que aqui se fala não é a justiçasobretudo influenciados pela História da Filosofia de dos tribunais, que essa tem sempre origem na injusti-Magalhães Vilhena. São acrescentados mapas, retira- ça, mas a justiça que, se existisse, dispensaria os tribu-dos do “google maps” para ilustrar a região geográfica nais.por onde Sócrates viajou. Algumas dessas localidades, Jorge Nunes Barbosa Julho, 2012como Mégara e Kifissia, conheci-as pessoalmente, ou- ii
  4. 4. C APÍTULO 1A Vida dePlatãoA poesia enfrentava um declínio evidenteem Atenas, mas a prosa estava em ascen-são. Lísias (que aparece em, pelo menos,dois diálogos de Platão) escrevia discur-sos de defesa em tribunal (parece que es-creveu mesmo um para Sócrates), e Isó-crates tinha fundado uma escola de retóri-ca.
  5. 5. Platão nasceu em Atenas no ano 428-427 a.C., no povo- ado de Collytos. Segundo Diógenes de Laércio, o seuVida Atribulada de Platão pai Aríston era descendente de uma família real, a famí- lia de Codros, o último rei de Atenas. A sua mãe, Pericti- one, irmã de Carmides e prima de Crítias, o tirano, des- cendia de Drópides, que Diógenes de Laércio dizia ser irmão de Sólon, um dos sete sábios da Grécia. A tradição mandava que a uma criança, como Platão,S UMÁRIO fosse atribuído o nome do seu avô. Portanto, Platão de-1. A Vida de Platão veria ter-se chamado Aristocles. Segundo Diógenes de Laércio, o nome de Platão foi-lhe dado pelo seu mestre2. Resumo da Filosofia de Platão de ginástica, em alusão à sua corpulência.3. O Teeteto A família de Platão possuía uma propriedade em Kifis-4. A Apologia de Sócrates sia, onde atualmente se situa uma estação terminal da li- nha 1 do metro de Atenas. Aí, deve ter aprendido a gos- tar da calma da vida rural, mas, muito provavelmente, deve ter passado a maior par- te da sua infância na cidade, para poder ter acesso à edu- cação própria da sua condi- ção social (o metro que liga o centro da cidade de Atenas a 4
  6. 6. Kifissia é muito recente...). O mais certo, tendo em con- lecida a constituição democrática em Atenas, Platão játa as suas origens de nobreza, é que tenha aprendido a não estava tão confiante numa carreira política. A con-honrar os deuses e a respeitar os rituais da religião, denação de Sócrates pelo regime democrático desilu-como era tradição em todas as famílias de bem. Mante- diu-o de forma irrecuperável e definitiva. Ele tinhará durante toda a sua vida este respeito pela religião e mantido a esperança de que a democracia haveria deimporá esse respeito nas suas Leis. Para além da ginás- melhorar a vida política; vendo que o mal parecia incu-tica e da música, que eram a base da educação atenien- rável, dedicou-se completamente a preparar, atravésse, também terá sido iniciado no desenho e na pintura. das suas obras, alterações políticas de fundo, onde osEm filosofia, a sua formação terá começado com as li- filósofos, preceptores e governantes da humanidade,ções de um discípulo de Heraclito, Crátilo, cujo nome haveriam de pôr fim à maldade que ele tanto repudia-foi dado, por Platão, a um dos seus diálogos. Eram-lhe va.reconhecidos talentos para a poesia. Foi testemunha Segundo consta, Platão estaria doente quando Sócratesdos sucessos de Eurípides e Ágaton, e ele próprio com- bebeu a cicuta, e, por isso, não pôde estar presente nospôs tragédias, poemas líricos e ditirambos. seus últimos momentos. Após a morte do mestre, reti-Com cerca de vinte anos de idade, Platão conheceu Só- rou-se para Mégara (atualmente um aglomerado agríco-crates. Diz-se que queimou as suas tragédias e que se la a 43Km de Atenas, atravessado pela auto-estrada Ate-dedicou completamente à filosofia. Sócrates tinha dedi-cado toda a sua vida a ensinar a virtude aos seus conci-dadãos: a reforma (a conversão à virtude) dos cidadãosera a condição necessária e indispensável para o bem-estar da cidade. Este será também o objetivo principalda vida de Platão que, tal como o seu primo Crítias e oseu tio Cármides, ambicionava dedicar-se a uma carrei-ra política; no entanto, os excessos dos Trinta (um go-verno oligárquico de Atenas composto por trinta magis-trados) acabaram por o horrorizar. Quando foi restabe- 5
  7. 7. nas-Corinto), para junto de Euclides e Terpsion, tal co Teodoro, que será um dos inter-como ele, discípulos de Sócrates. Mais tarde, teve de locutores do Teeteto. De Cirene,voltar a Atenas para cumprir serviço militar na cavala- passou para Itália, onde fez amiza-ria. Participou, segundo parece, nas campanhas de 395 de com os pitagóricos Filolau, Ar-e de 394 da guerra de Corinto. Na verdade, Platão nun- quitas e Timeu. Não é seguro queca se referiu aos seus serviços militares, mas sempre tenha sido com estes pitagóricospreconizou os exercícios militares para desenvolver o que Platão passou a acreditar navigor físico dos jovens. migração das almas; mas a eles deve seguramente a ideia de eterni-O desejo de instrução levou Platão a viajar. Cerca de dade da alma, que haveria de ser a390, dirigiu-se ao Egito, levando consigo um carrega- pedra angular da sua filosofia; essa ideia de imortalida-mento de azeite para pagar a viagem. Aí, tomou contac- de da alma forneceu a solução para o problema do co-to com artes e costumes com milhares de anos de tradi- nhecimento. Com esses pitagóricos, Platão aprofundoução. Há quem pense que foi graças ao espetáculo desta também os seus conhecimentos em aritmética, em as-civilização, fiel a antigas tradições, que Platão criou a tronomia e em música.ideia de que: os homens podem ser felizes, se respeitarem as for- mas imutáveis de vida, a música e a poesia não necessitam de novas cria- ções, e basta descobrir a melhor constituição e forçar os po- vos a aderir a ela para se viver numa cidade justa.Do Egito, partiu para Cirene (colónia grega na regiãoda Líbia atual), onde frequentou a escola do matemáti- Dirigiu-se, depois, para a Sicília e, em Siracusa, assistiu às farsas populares e comprou o livro de um autor de 6
  8. 8. farsas em prosa. Foi recebido na corte de Dionísio na que escreveu mesmo um para Sócrates), e Isócrates ti-qualidade de estrangeiro distinto (diríamos agora VIP) nha fundado uma escola de retórica. Dois discípulos de e conquistou para a filo- Sócrates, Ésquines e Antístenes, que tinham tomado a sofia o cunhado do tira- defesa do mestre, tinham uma escola e publicavam es- no. No entanto, não du- critos ao gosto do povo ateniense. Platão dedicou-se rou muito tempo a cor- também ao ensino; mas, em vez de o fazer através da dialidade de Dionísio conversa, como Sócrates, fundou uma escola à imagem que o despachou num das sociedades pitagóricas. Comprou um terreno próxi- barco com destino a mo do ginásio do bosque de Academos, e aí mandou Egina (uma ilha a cer- construir a sua escola. Daí, o nome de Academia, dado ca de 27 Km de Atenas, à escola de Platão. Os seus alunos formavam um grupocom a qual, na época, estava em conflito aberto), como de amigos, cujo presidente era escolhido pelos jovensescravo do Lacedemónio Pollis. Felizmente, um Cire- que, sem dúvida, pagariam uma espécie de cotização.neu, que reconheceu Platão, comprou a sua liberdade Não se sabe nada dos vinte anos da vida de Platão, quepelas vinte minas que ele tinha valido no mercado de decorreram entre o seu retorno a Atenas e a sua novaSiracusa (cerca de 128 dracmas - mal comparando, um deslocação à Sicília. Nem nas suas obras se encontraeuro equivale à conversão de 340,750 dracmas, nos qualquer alusão aos acontecimentos seus contemporâ-tempos atuais). Platão voltou, então, a Atenas, muito neos:provavelmente com cerca de quarenta anos. a reconstituição do império marítimo da Atenas,Nesse ano (388 a.C.), Eurípides já tinha morrido e nãotinha sucessor à sua altura, Aristófanes acabava de re- aos sucessos de Tebas com Epaminondas,presentar a sua última tragédia, e o teatro cómico esta-va em decadência. A poesia enfrentava um declínio evi- à decadência de Esparta.dente em Atenas, mas a prosa estava em ascensão. Lí- Entretanto, Dionísio, o antigo, tinha morrido em 368.sias (que aparece em, pelo menos, dois diálogos de Pla- O seu cunhado, Deão, esperava poder influenciar o pen-tão) escrevia discursos de defesa em tribunal (parece 7
  9. 9. samento de Dionísio, o jovem, sucessor de seu pai. So- ser o mestre de Dionísio, ficou retido em Siracusa du-nhava, ao que parece, transformar a tirania numa mo- rante todo o Inverno. Finalmente, na primavera do anonarquia constitucional, onde a lei e a liberdade pudes- de 365, Dionísio autorizou-o a partir, sob promessa desem conviver pacificamente. Por isso, pediu ajuda a Pla- voltar com Deão. Platão e Dionísio separaram-se, ape-tão. Platão ainda alimentava a ambição de desempe- sar de tudo, como amigos, graças sobretudo às diligên-nhar um papel político importante, pondo em prática o cias bem sucedidas de Platão junto de Arquitas de Ta-seu sistema. Deixou a direção da sua escola a Eudoxo, rento para que aceitasse fazer uma aliança com Dioní-reforçando, deste modo, a sua amizade com Arkitas, sio.matemático filósofo que governava Tarento. Quando De volta a Atenas, Platão encontrou Deão que levavachegou a Siracusa, no entanto, a situação já tinha muda- uma vida faustosa. Retomou o ensino. Entretanto, Dio-do. Foi muito bem recebido por Dionísio, mas muito nísio, aparentemente, tinha ganho o gosto pela filoso-mal pelos partidários da tirania. Por outro lado, tendo- fia. Tinha chamado à sua corte dois discípulos de Sócra-se apercebido de que o tio, Deão, o queria manter sob tes, Ésquino e Aristipo de Cirene, e manifestou o desejosua tutela, Dionísio expulsou-o de Siracusa. Enquanto de voltar a encontrar-se com Platão. Na Primavera deDeão foi viver para Atenas, Platão, sob o pretexto de 361, enviou um vaso de guerra ao Pireu. O seu coman- dante era portador de cartas de Árquitas de Tarento e de Dionísio, em que Árquitas lhe garantia a sua segu- rança pessoal, e Dionísio lhe relembrava o interesse no retorno de Deão no ano seguinte. Platão acreditou nes- tes pedidos e partiu para Siracusa com um seu sobri- nho, Speusipo. Novos contratempos o esperavam em Siracusa, na Sicília: não conseguiu convencer Dionísio a mudar de vida. Entretanto, Dionísio embargou os bens de Deão. Platão quis partir; o tirano reteve-o, e foi necessária a intervenção de Árquitas para que ele pu- 8
  10. 10. desse deixar Siracusa, na Primavera de 360. Encon-trou, depois, Deão na cidade de Olímpia.Sabe-se que, tendo sabido que Dionísio se tinha apro-priado da sua mulher e oferecido a outro, Deão mar-chou contra ele em 357 e apoderou-se de Siracusa. Aca-bou por ser assassinado quatro anos depois, em 353.Platão sobreviveu-lhe cinco anos.A academia de Platão sobreviveu até 529 da nossa era,ano em que o imperador Justiniano a mandou fechar. 9
  11. 11. C APÍTULO 2A Filosofia dePlatãoNinguém falou do bem e do belo com umentusiasmo tão comunicativo. A vida quevale a pena ser vivida, diz ele no Banque-te, é a do homem que se elevou do amorpelos corpos belos, ao amor pelas almasbelas, e deste, ao amor pelas belas ações,depois, ao amor pelas belas ciências, atéà beleza absoluta que atravessa os cora-ções com um arrebatamento inexprimí-vel.
  12. 12. Nas suas primeiras obras, isto é, nos diálogos chama- perto das fronteiras dados socráticos, Platão, fiel discípulo de Sócrates, dedi- Grécia com a Turquia e aca-se, tal como este, a definir as ideias morais. Procura Bulgária - antiga Trácia),saber o que é a coragem, a sabedoria, a amizade, a pie- travou conhecimento comdade, a virtude. Sócrates acreditava que basta conhecer Demócrito e com o ato-o bem para o praticar, e que, por conseguinte, a virtude mismo, uma das mais ge-é ciência e o vício é ignorância. Platão manter-se-á fiel, niais criações da filosofiadurante toda a sua vida, a esta doutrina. Tal como Só- grega antes de Platão.crates, honrará os deuses e defenderá que a virtude con- De qualquer modo, o sis-siste em se assemelhar a eles, tanto quanto o permita a tema de Platão é uma sín-fraqueza humana. Como Sócrates, acreditará que o tese de tudo o que se sa-bem é o fim supremo de toda a existência e que é no bia no seu tempo, mas so-bem que deve ser procurada a explicação do universo. bretudo das doutrinas deMas, por muito dócil que Platão tenha sido às lições de Sócrates, de Heraclito, deSócrates, a sua grande ambição de saber impediu que Parménides e dos Pitagóricos. A teoria platónica dasse limitasse ao ensino puramente moral do seu mestre. ideias é a base e a originalidade de todo o seu sistema.Antes de conhecer Sócrates, tinha recebido lições de Inicialmente, Platão tinha estudado a doutrina de Hera-Crátilo que o familiarizou com a doutrina de Heraclito. clito que se baseava no fluir universal das coisas. “TudoTambém estudou as teorias dos Eleatas (Parménides), flui, dizia Heraclito, nada permanece. O mesmo ho-de Anaxágoras e os escritos de Empédocles. Durante a mem não entra duas vezes no mesmo rio”. Desta ideia,sua viagem a Cirene, aperfeiçoou-se na geometria e, em Platão retira a consequência de que os seres, que se en-Itália, dedicou-se ao estudo da aritmética, da astrono- contram em perpétuo devir, dificilmente merecem omia, da música e da medicina dos pitagóricos. Tinha in- nome de seres, e sobre eles só podemos formar opini-tenção de visitar a Jónia e as cidades costeiras do mar ões confusas, incapazes de se justificar a si mesmas.Egeu, mas a guerra com a Pérsia demoveu-o dessa Não podem ser objeto de uma verdadeira ciência, poisideia. Em Abdera (localidade que se situa atualmente 11
  13. 13. não não há ciência do que está em perpétua mudança; são (à sua frente) as sombras projetadas dos objetos,só há ciência do que é fixo e imutável. Todavia, quando que desfilam por trás deles iluminados pela luz de umaobservamos atentamente esses seres em mutação per- fogueira. Os objetos que passam por trás dos prisionei-manente, damo-nos conta de que reproduzem, dentro ros são os objetos do mundo inteligível (as Ideias), ada mesma espécie, características constantes. Estas ca- luz que os ilumina é a ideia de Bem, origem de toda aracterísticas transmitem-se de indivíduo para indiví- ciência e de toda a existência. Reconhece-se aqui a dou-duo, de geração para geração. São, portanto, cópias de trina de Parménides (escola Eleata), para quem o mun-modelos universais, imutáveis, eternos a que Platão dá do não passa de aparência, e para quem a única realida-o nome de Formas ou de Ideias. Na nossa linguagem de é a Unidade. Mas enquanto, para Parménides, o Sercorrente, entendemos por ideia uma modificação, um uno e imutável é uma abstração, para Platão, é o Serato do espírito. Na linguagem de Platão, a Ideia expri- por excelência, fonte de onde brota toda a vida.me, não o ato do espírito que conhece, mas o próprio A Ideia do Bem, diz Platão, está no limite do mundo in-objeto que é conhecido. Assim, a Ideia de homem é a teligível: é a última e a que ocupa o lugar mais alto; ad-forma ideal de homem, que todos os homens reprodu- mite, em todo o caso, que existe uma hierarquia de Idei-zem com maior ou menor perfeição. Esta forma é pura- as. No livro X da República, parece aceitar que todos osmente inteligível, isto é, não se apreende pelos senti- objetos da natureza e as criações do homem, como umdos, mas nem por isso deixa de ser viva. É mesmo o úni- banco ou uma mesa, retiram a sua existência de umaco ser verdadeiramente vivo, pois as suas cópias, estan- Ideia e que as Ideias são em número indeterminado.do sempre em mudança, são mortais. A Ideia de ho- Mas, habitualmente, só fala das Ideias do Belo, do Jus-mem é aquilo que realmente existe, que é eterno e imu- to e do Bem.tável e, por isso, é aquilo que pode ser conhecido e serobjeto da ciência. A teoria das Ideias está estreitamente associada à dou- trina da reminiscência e da imortalidade da alma. APlatão ilustrou a sua teoria das Ideias na célebre alego- nossa alma, que existiu antes de nós e passará para ou-ria da caverna, onde os homens são comparados a prisi- tros corpos depois de nós, já conheceu essas Ideias,oneiros acorrentados que não podem virar a cabeça mais ou menos vagamente, num outro mundo. O mitopara trás e que só vêem na parede do fundo da sua pri- 12
  14. 14. do Fedro mostra-nos a alma a subir as escadas para o então deve ser a ciência de todos os bens e de todos oscéu, atrás do cortejo dos deuses, para ir contemplar as males; nesse caso, essa definição aplicar-se-ia à virtudeIdeias do outro lado da abóbada celeste. Ela traz de lá em geral e não especificamente à coragem. A partir da-uma lembrança obscura que a filosofia se esforça por qui os três interlocutores separam-se sem alcançarem aesclarecer. Este esforço de esclarecimento implica um definição procurada. Mas dá para perceber o processotreino inicial destinado a despertar a reflexão. que, de uma proposição, passa a outra mais compreen- siva, até que se chegue à ideia geral que compreenderáAs ciências que se caracterizam pelo raciocínio puro, a todos os casos e distinguir-se-á das ideias vizinhas. Pla-aritmética, a geometria, a astronomia, são as mais indi- tão aplica este método socrático ao domínio das Ideias,cadas para nos familiarizar com o mundo do inteligível. para as alcançar a elas, subindo das Ideias inferioresA dialética surge então como o método mais eficaz. Pla- até à Ideia do Bem. Temos de começar por uma hipóte-tão parte da dialética socrática, espécie de conversa, se a respeito do objeto estudado. Essa hipótese é verifi-através da qual se busca a definição de uma virtude. As- cada pelas conclusões a que conduz. Se as conclusõessim, no diálogo Laques, os três interlocutores, Laques, forem insustentáveis, a hipótese é rejeitada. Uma outraNicias e Sócrates procuram definir coragem. Laques hipótese toma o seu lugar, sujeitando-se ao mesmo pro-propõe uma primeira definição: “O homem corajoso, cedimento, até que se encontre uma que resista ao exa-diz ele, é o que se mantém firme contra o inimigo”. Só- me da sua sustentabilidade. Cada hipótese é um degraucrates considera esta definição muito pobre, pois a cora- que nos conduz à Ideia. Quando tivermos examinadogem pode ser aplicada em muitas outras circunstânci- deste modo todos os objetos de conhecimento, alcança-as. Laques propõe, então, uma nova definição: “A cora- remos todos os princípios (arkai) incontestáveis, nãogem é uma espécie de firmeza”. Mas se essa firmeza se somente em si mesmos, mas também na sua mútua de-basear na loucura e na ignorância, responde Sócrates, pendência e na relação que têm com o princípio superi-não poderá corresponder à coragem. Por seu turno, Ni- or e absoluto que é a Ideia de Bem. O diálogo Parméni-cias diz que a coragem é a ciência que nos permite dis- des fornece-nos um exemplo deste procedimento. Estetinguir aquele que devemos temer daquele de quem procedimento exige uma inteligência superior e um tra-não precisamos de ter medo. A esta definição, Sócrates balho incansável, de que só o filósofo é capaz.apresenta outra objeção. Se a coragem é uma ciência, 13
  15. 15. Mas a dialética não é suficiente para compreendermos modificando-as um pouco, fizeram delas dogmas religi-todas as coisas. Há segredos impenetráveis para a ra- osos.zão, cuja posse os deuses reservaram para si mesmos.Podem, é verdade, deixar que alguns homens privilegia-dos tenham uma visão desses segredos, sem lhes dar oprivilégio de os alcançar plenamente. Os deuses permi-tem, por exemplo, que os adivinhos conheçam, emboraimperfeitamente, o futuro e que os artistas tenham ins-pirações; é o caso de Sócrates, a quem os deuses favore-ceram, com informações privilegiadas. Assim, talvez severifiquem, nos poetas e nas crenças populares, traçosde uma revelação divina, que lançariam alguma luz so-bre as nossas origens e o nosso destino após a morte.Os Egípcios acreditavam que os homens são julgadospelos seus atos após a morte, e os Pitagóricos acredita-vam que a alma passa do corpo de um animal para o deum outro. Platão não desprezou a recolha destas cren-ças, mas recusou-se a dá-las como certas. Para ele, sãoesperanças ou sonhos que ele expõe em mitos de umapoesia sublime. A sua imaginação transmite-lhes umbrilho mágico e sugere pormenores tão precisos, que sediria que Platão assistiu aos mistérios do Além. Encon-trou nesse Além limbos, um purgatório e um infernoeterno reservado à almas incorrigíveis. Estas visões ex-traordinárias impressionaram de tal modo os espíritosdo seu tempo e dos tempos seguintes que os cristãos, 14
  16. 16. o instinto e o desejo que atraem os homens para ob- jetos sensíveis e para desejos grosseiros.A Psicologia O ponto mais fraco desta conceção é a reduzida valori- zação da vontade livre. Platão defende, tal como Sócra- tes, que o conhecimento do bem implica a adesão da vontade, o que dificilmente se compagina com a experi- ência. Platão tentou estabelecer os princípios que re- gem a sobrevivência da alma através de demonstrações dialéticas, e expôs no Górgias, na República e no Fé- don as migrações e as purificações a que alma é subme- tida, antes de voltar à terra e entrar num novo corpo. OA psicologia de Platão é marcada por características detalhe destas descrições varia, no entanto, de obraprofundamente espiritualistas. A alma é eterna. Antes para obra.de se unir ao corpo, contemplou as Ideias e, graças à re-miniscência, pode reconhecê-las depois de ter incarna-do num corpo. Devido à coabitação com a matéria, aalma perde a sua pureza e adquire três componentes di-ferentes: uma componente superior, ou a razão, faculdade contemplativa, destinada a governar e manter a har- monia entre ela e as duas componentes inferiores, a coragem, faculdade nobre e generosa que inclui ao mesmo tempo desejos elevados da nossa natureza e a vontade, 15
  17. 17. vel da cidade. Esta é constituída por três tipos de cida- dãos que correspondem às três componentes da alma:A Política os magistrados filósofos que representam a razão; os guerreiros que representam a coragem e que são encarregados de proteger o Estado dos inimigos ex- ternos e de fazer os cidadão obedecer às leis do Esta- do; finalmente, os trabalhadores, os artesãos e os co- merciantes que representam o instinto e o desejo. Para estes três tipos de cidadãos, a justiça consiste, talA política de Platão é modelada pela sua psicologia, como para os indivíduos, em cumprir a sua função espe-pois, no seu entender, os costumes do Estado são neces- cífica. Os magistrados governam, os guerreiros obede-sariamente modelados pelos dos indivíduos. A base fun- cem aos magistrados, e os outros obedecem aos dois;damental do Estado é a justiça: o Estado não pode exis- deste modo, reinará a harmonia, isto é, a justiça entretir sem justiça. Platão entende a justiça de uma forma as três categorias de cidadãos. A educação deve prepa-mais ampla do que aquela que é habitual para a maior rar os magistrados, os guerreiros e os auxiliares para oparte das pessoas. Para um grande número de pessoas, exercício das suas futuras funções, sendo também uma justiça consiste em dar a cada um o que é seu. Sócra- meio para determinar as características que definem,tes rejeita esta definição no primeiro livro da Repúbli- em cada um, a categoria social a que deve pertencer.ca. Para ele, ao nível individual, a justiça consiste em Tal como os homens, as mulheres também devem bene-que cada componente da alma cumpra a função que lhe ficiar dessa educação, uma vez que, segundo Platão,é própria: que o desejo se submeta à coragem e que a elas são tão aptas como os homens. Assim, as mulherescoragem se submeta à razão. O mesmo se passa ao ní- devem poder aceder aos mesmos cargos dos homens in- cluindo a função de guerreiro. Os magistrados devem 16
  18. 18. ser escolhidos de entre os mais dotados, que tenham O interesse pessoal seria suprimido através do estabele-evidenciado uma maior dedicação ao bem público. De- cimento da comunidade de bens, e o espírito de famíliavem ser formados na dialética, para que possam con- através da comunidade das mulheres e das crianças,templar as Ideias e governar o Estado de acordo com a que deveriam ser educadas pelo Estado. No entanto,Ideia de Bem. Importa esclarecer que estas três catego- esta comunidade de bens, de mulheres e de criançasrias, ou classes, não correspondem a castas ou a privilé- não deveria abranger todo o povo; só seria regra paragios transmitidos de geração em geração; pelo contrá- as duas ordens superiores, as únicas capazes de com-rio, as crianças são encaminhadas para uma ou para ou- preender o valor dessa comunidade e submeter-se a elatra categoria, de acordo com as aptidões que revelem em nome do bem público. Por outro lado, os casamen-possuir durante o processo de formação, e não de acor- tos não poderiam ser deixados ao critério dos jovens:do com os recursos ou estatuto social da sua família. sendo efémeros como a experiência dizia que eram, se- ria da competência dos magistrados regulá-los oficial ePor outro lado, o Estado deve ser de dimensão reduzi- solenemente.da. Na verdade, Platão considerava que o pior perigopara o Estado seria a sua divisão interna. Por isso, não Platão não tinha quaisquer dúvidas a respeito da difi-acredita na viabilidade da justiça em Estados de grande culdade em pôr em prática o seu sistema. Ele sabia quedimensão, do tipo do império Persa, como defendia Xe- a doutrina das Ideias, em que ele se baseava, era incom-nofonte. O seu modelo de Estado eram as cidades gre- preensível para a multidão e que, por conseguinte, agas. Um Estado pequeno não corre o risco de se dividir sua Constituição teria de ser imposta à maioria docom a mesma facilidade de um grande Estado, forma- povo, mesmo que fosse contra a sua vontade, e quedo por povos diferentes, e facilita também a supervisão essa imposição só seria eficiente se fosse conduzida pordos magistrados. Para evitar a divisão, o pior dos males um rei filósofo, e filósofo à maneira de Platão. Houvede que sofriam as cidades gregas, deveriam ser suprimi- um momento em que parece que ele acreditou encon-dos os inimigos mais temíveis da unidade: trar esse rei filósofo em Dionísio de Siracusa, o jovem, e no seu amigo Deão. O seu fracasso junto do primeiro, o interesse pessoal, e e o assassinato do segundo, depois de ter usurpado o o espírito de família. poder a Dionísio, retiraram-lhe todas as ilusões. Mas a 17
  19. 19. política tinha sido sempre uma das preocupações domi-nantes de Platão. Já velho, volta a pegar na pena pararedigir uma nova Constituição, que expôs em As Leis.Esta nova Constituição baseia-se nos mesmos princípi-os, mas é mais prática e abdica da comunidade dosbens, das mulheres e das crianças. 18
  20. 20. Para determinar qual destes três prazeres é superior, basta consultar aqueles que têm experiência deles. Ora,A Moral o artesão, que procura o lucro, não conhece os outros dois prazeres; o ambicioso, por seu turno, não conhece o prazer da ciência; só o filósofo tem a experiência dos três tipos de prazer e, por isso, é o único capaz de ter opinião fundamentada sobre todos. Nesta linha de pen- samento, aos seus olhos, o maior e o mais puro de to- dos os prazeres é o prazer de conhecer próprio do filóso- fo.A Moral Por outro lado, uma vez que ele considera que o corpoA moral de Platão tem um caráter, ao mesmo tempo, as- é um empecilho da alma, que é como um objeto decético e intelectual. Platão reconhece, tal como Sócra- chumbo que dificulta e impede mesmo que a alma voetes, que a felicidade é o fim natural da vida; mas, ao ní- para as regiões superiores da Ideia, é necessário mortifi-vel dos prazeres, de que depende a felicidade, há a mes- cá-lo e libertar a alma, tanto quanto possível, das neces-ma hierarquia que caracteriza as componentes da sidades grosseiras que têm origem no corpo. Assim, aalma. Cada componente da alma dá-nos um prazer es- virtude consiste na submissão dos desejos inferiores aopecífico: desejo de conhecer, ao gosto ou amor pela sabedoria (fi- losofia). Conhecendo o bem, o homem é naturalmente a razão, o prazer de conhecer; virtuoso, pois não é possível vê-lo sem o desejar; o vício a coragem, as satisfações da ambição; tem sempre origem na ignorância. Embora Platão redu- za a ignorância a um erro de cálculo, ou a um erro de o desejo, os prazeres grosseiros a que Platão cha- dialética, nem por isso deixa de a considerar suscetível mou o prazer do lucro. de ser punida. O mau, segundo ele, deveria submeter- se, a si mesmo, a expiar a sua ignorância. Em todo o 19
  21. 21. caso, se escapar neste mundo, não escapará no outro,pensava Platão. 20
  22. 22. rem proceder de outro modo, proibi-los-emos de traba- lhar na nossa cidade.” Em resultado destes princípios,A Estética Platão proíbe todos os tipos musicais que não respei- tem os estilos dório e frígio, os únicos que convêm à se- riedade dos guerreiros. Proíbe a tragédia, cuja tendên- cia para o queixume poderia amolecer o coração; proí- be a comédia humorística (a bobice) e até o riso, que condiz mal com a seriedade. Critica o próprio Homero, de quem ele tanto gosta, cujos poemas conhece de cor e que cita vezes sem conta, por não achar graça à descri-A estética de Platão depende da teoria das Ideias e, tam- ção que faz dos deuses como se fossem tão imoraisbém, da moral e da política, elas igualmente modeladas como os homens. Depois de o ter “coroado com flores”,pela doutrina das Ideias. Com efeito, as Ideias são imu- Platão acaba por condenar Homero ao silêncio na suatáveis e eternas. Uma vez que é nosso dever regularmo- República. Em todo o caso, os mais desprezíveis paranos por elas, as artes serão, tal como as Ideias, imutá- ele são os pintores e os escultores. Como as suas obrasveis e estabelecidas para sempre. Platão não prevê a ne- não passam de cópias incompletas dos objetos sensí-cessidade de qualquer tipo de inovação, nem na poesia, veis, e estes são cópias imperfeitas das Ideias, segundonem nas artes em geral. Uma vez alcançado o ideal, de- Platão, elas distanciam-se, em três degraus, da verda-veremos fixar-nos nele ou recopiá-lo permanentemen- de; esses artistas são, portanto, ignorantes, inferioreste. Por outro lado, a única função da arte é servir a mo- mesmo aos artesãos que fabricam os objetos reais, cujaral e a política. “Nós obrigaremos os poetas, diz Platão, distância à verdade é de dois degraus. Por outras pala-a só oferecer nos seus poemas modelos de bons costu- vras, quem pudesse ser Aquiles não quereria ser Home-mes, e, do mesmo modo, controlaremos os outros artis- ro: mais vale ser herói do que ser relator da heroicida-tas e impedi-los-emos de imitar o vício, a intemperan- de de quem quer que seja. Portanto, os poemas de Ho-ça, a baixeza, seja na pintura de seres vivos, seja em mero situam-se a um nível inferior ao da vida real dequalquer outro tipo de imagem, ou, se não consegui- Aquiles que eles relatam. É este o tipo de raciocínio, co- 21
  23. 23. erente, que Platão utiliza para a sua conceção de estéti-ca. Levando este raciocínio ao limite, seria legítimo di-zer que um sapateiro que criticasse Fídias seria superi-or a este grande escultor, ou a Apeles, um dos mais im-portantes pintores da Grécia clássica.Esta conceção de estética mostra bem até onde o espíri-to de sistema, ou a busca de coerência a todo o custo,conduz um homem, como Platão, que foi, ele próprio,um dos maiores artistas da humanidade, pela belezados seus escritos. 22
  24. 24. substâncias (as duas originais e a terceira criada por Deus). Com o mundo nasceu também o tempo que é aA Física e o Demiurgo medida do movimento dos astros. Para povoar o mun- do, o Demiurgo criou, em primeiro lugar, os deuses (as- tros ou deuses mitológicos) e encarregou-os a eles de criar os animais, para não ser responsável pelas suas imperfeições. Os deuses formaram o corpo dos seres, tendo em vista o maior bem; aplicaram na formação desses corpos leis geométricas muito complexas. No corpo do homem colocaram também uma alma, que,No Timeu, Platão fornece a sua explicação do Universo tendo em conta a forma como conduza a sua vida, seem geral e do Homem em particular. Nessa obra con- bem, após a morte voltará para o astro de onde é origi-densou os conhecimentos da sua escola sobre a nature- nária, se mal, passará para outros corpos até que sejaza. purificada. Platão só se interessa pelo destino do ho- mem, e é por se interessar pelo homem que ele estudaSegundo ele, existe um Deus muito bom que criou o o Universo. Por conseguinte, a fisiologia e a higiene domundo à sua imagem. Não o criou do nada, como o homem são o principal objeto do Timeu: a estrutura doDeus dos judeus e dos cristãos, pois sempre coexisti- corpo, os órgãos, a origem das impressões sensíveis, asram ao seu lado duas substâncias (a alma incorpórea e causas das doenças do corpo e da alma, a geração, a me-indivisível e a outra material e divisível), a que a filoso- tempsicose. Platão tratou de todos estes assuntos, utili-fia grega chama O Uno ou O Mesmo, e O Outro. O De- zando os ensinamentos de Empédocles e do médico Alc-miurgo (o Deus) criou, em primeiro lugar o mundo sen- méon, acrescentando as descobertas realizadas na suasível. A partir da substância indivisível e da substância escola.divisível compôs, misturando-as, uma terceira substân-cia intermédia que inclui a natureza do Uno e a nature- Sendo o Timeu uma das últimas obras de Platão, acon-za do Outro: a alma do mundo é formada por estas três tece que nem sempre está de acordo com obras anterio- res. A diferença mais importante tem a ver com o facto 23
  25. 25. de o Deus do Timeu ser distinto do mundo das Ideiasque lhe servem de modelos para a formação do mundosensível. Na República, pelo contrário, é a Ideia deBem que é a fonte, não só de todo o conhecimento, mastambém de toda a existência. É a Ideia de Bem que cor-responde a Deus. Segundo Teofrasto, Platão tinha ten-dência para identificar a Ideia de Bem com o Deus su-premo; mas parece claro que Platão não levou ao limiteesta sua tendência, e o seu pensamento sobre Deus aca-ba por ser flutuante. 24
  26. 26. da nos dias de hoje exerce um poderoso fascínio sobre os seus leitores. Ninguém falou do bem e do belo comInfluência do Platonismo um entusiasmo tão comunicativo. A vida que vale a pena ser vivida, diz ele no Banquete, é a do homem que se elevou do amor aos corpos belos, ao amor às almas belas, e deste, ao amor às belas ações, e depois, ao amor das belas ciências, até à beleza absoluta que atra- vessa os corações com um arrebatamento inexprimível. Uma multidão de ideias platónicas exerce ainda uma influência muito considerável no mundo moderno. Pla-A teoria essencial em que se baseia toda a filosofia de tão é um autor espiritualista: concebeu a alma como oPlatão, a teoria das Ideias, foi rejeitada pelo seu discípu- essencial do homem. Segundo ele, o homem deve esfor-lo Aristóteles; o simples bom senso bastaria, aliás, para çar-se por devolver à sua alma o estado de pureza quea refutar. Discípulo dos Eleatas, para quem só o Uno ela perdeu ao unir-se com o corpo. É deste esforço queexistia, e dos Pitagóricos, que viam no número o princí- depende a sua vida futura. A vida deve, portanto, serpio das coisas, Platão concedeu uma existência real a uma preparação para a morte. A existência de uma Pro-conceitos abstratos que só existem no nosso espírito. vidência que governa o mundo, a necessidade de expia-Formado nos raciocínios matemáticos, aplicou-os intre- ção de toda a maldade cometida, a recompensa dospidamente às noções morais, ao Uno, ao Ser, ao Bem, à bons, a punição dos maus num outro mundo e muitasCausa. Acreditou estar a dar sentido à realidade através outras ideias foram incorporadas na filosofia cristã edos seus raciocínios, mas na verdade só dava sentido a continuam a comandar a nossa conduta. Por este moti-abstrações. Mas mesmo que as ideias não tenham uma vo, podemos dizer que nenhum outro filósofo marcouexistência independente, basta que estejam no nosso tão profundamente o pensamento dos antigos e o pen-espírito como um ideal, para que nos possamos orien- samento dos modernos.tar por elas. É por isso que Platão, separando-nos domundo sensível para nos elevar ao ideal inteligível, ain- 25
  27. 27. C APÍTULO 3O TeetetoÉ, pois, uma resposta tonta dizer que a ci-ência é uma opinião correta (ortodoxa)acompanhada de ciência, seja da ciênciada diferença, seja da ciência de qualqueroutra coisa.
  28. 28. transportado, doente e ferido, do campo de batalha de Corinto para Atenas. Que perda - exclama Terpsion - seArgumento este grande sábio e valente soldado vier a morrer! Ele justificou, diz Euclides, o augúrio de Sócrates, que lhe tinha predito um futuro glorioso. Com efeito, Sócrates, pouco antes de ter sido condenado, tinha conhecido Teeteto e tinha tido com ele uma conversa, onde a pre- coce inteligência do ainda jovem Teeteto o tinha surpre- endido. Será que podes, pergunta Terpsion, relatar-me essa conversa?. - Não, mas redigi um relato que Sócra-O debate que é travado no Teeteto é precedido de uma tes me fez dela. Só que, em vez de conservar a forma deespécie de prólogo. É uma conversa entre dois megaria- narrativa, construí um diálogo entre Sócrates e os seusnos (habitantes de Mégara), antigos discípulos de Só- dois interlocutores, Teodoro e Teeteto. Voltemos para casa que o meu escravo far-nos-á a leitura desse diálo- go. Sócrates abre a conversa. Diz-me Teodoro, tu que ensi- nas aqui geometria, se distinguiste, de entre os teus alu- nos atenienses, alguns jovens que prometam tornar-se homens de mérito. - Sim, Sócrates, um em particular. Ele é fisicamente parecido contigo e é maravilhosamen- te dotado de inteligência e de qualidades morais. Ali vem ele, com aqueles jovens que se aproximam de nós. Chama-se Teeteto. - Queres dizer-lhe que venha aqui? Chamado por Teodoro, Teeteto aproxima-se. - Uma vezcrates, Euclides e Terpsion. Euclides, tendo ido ao por- que aprendes as ciências na escola de Teodoro, diz-lheto de Mégara, encontrou lá Teeteto, que estava a ser Sócrates, poderias dizer-me em que consiste a ciência? 27
  29. 29. - A ciência é aquilo que Teodoro ensina, a geometria, a A partir daqui, entramos no tema central do Teeteto: oastronomia, a harmonia, o cálculo e as artes em geral. que é a ciência? Teeteto vai propor sucessivamente três- Desse modo, não estás a definir a ciência, mas os seus definições que serão examinadas e recusadas por Sócra-objetos. Se eu te perguntasse o que é o barro e tu me tes uma após outra:respondesses: há barro dos oleiros, o barro dos tijolos e 1. A ciência é a sensação;outros, eu não ficaria a saber nada sobre a natureza dobarro. O que era preciso que me dissesses é que o barro 2. A ciência é a opinião verdadeira;é um certo tipo de terra misturada com água. - Compre-endo, diz Teeteto: o que tu me perguntas, foi o que nós 3. A ciência é a opinião verdadeira, acompanhada defizemos há uns dias atrás, o jovem Sócrates e eu, a pro- razão.pósito das raízes. Sendo as raízes infinitas em número,tentámos juntá-las todas num termo único, e reconhe-cemos assim duas classes de números, a que chamá-mos comprimentos e raízes. - Perfeito, diz Sócrates. Eagora, uma vez que englobaste todas as raízes numa for-ma única, tenta fazer o mesmo com as numerosas for-mas de ciência. - Já tentei várias vezes, mas sem suces-so. No entanto, não consigo desinteressar-me da ques-tão. - É porque tens uma alma grande, Teeteto. Bom,não ouviste dizer que sou filho de uma parteira, e quetenho a arte de fazer dar à luz os espíritos, como a par-teira de fazer dar à luz as mulheres? Sei ainda discernirse o espírito de um jovem está a dar à luz uma quimera,ou um fruto real e verdadeiro. Confia, portanto, emmim e não te aflijas se, ao examinar aquilo que dizes, ojulgar como um fantasma sem realidade. 28
  30. 30. bios, à exceção de Parménides e da sua escola (Eleata). É a partir do movimento e da mistura (ou fusão) recí-A Ciência é a Sensação proca que se formam todos os seres que afirmamos existirem; por seu turno, a ausência de movimento (o repouso) destrói-os. Os seres não existem por si mes- mos: a cor não é algo que exista à parte de tudo o resto; com efeito, não é nem uma característica que se aplica ao objeto, nem o objeto ao qual essa característica é aplicada, mas um produto intermédio específico a cada coisa ou indivíduo; esse produto varia não só de indiví-A primeira definição, sozinha, ocupa mais tempo de duo para indivíduo, mas também no mesmo indivíduo,conversa do que as outras duas juntas. A razão é mais porque este está em permanente mudança.simples do que possa parecer: é que esta definição rela- Como é costume em Sócrates, ele não vai limitar-se aciona-se com doutrinas célebres que Sócrates expõe expor a teoria que critica; pelo contrário, aprofunda ecom todo o seu vigor antes de as refutar. A doutrina, se- completa essa mesma teoria, assumindo completamen-gundo a qual a ciência é sensação, é precisamente a teo- te a perspetiva do adversário. Sócrates empenha-se,ria de Protágoras, que diz que o homem é a medida de portanto, em demonstrar que só o movimento existe.todas as coisas, isto é, que se algo me aparece, ele é exa- Vejamos a sua explicação. Há dois tipos de movimento,tamente esse algo para mim, e se algo aparece a outro, sendo cada um em número infinito. Um deles consisteele é exatamente esse algo para o outro. Como aparecer numa força ativa, o outro é uma força passiva. Da suaé ser sentido por alguém, então a sensação é a ciência. união e fricção mútuas nascem proles em número infi-Em que é que se apoia esta teoria de Protágoras? Na nito, mas em pares gémeos que estão sempre unidos:doutrina de Heraclito de que tudo está em movimento, um é o objeto da sensação, e o outro a sensação. Tudode que nada é fixo, de que tudo flui. As bases desta teo- está em movimento; mas este movimento pode ser rápi-ria remontam a Homero e é seguida por todos os sá- do ou lento. Tudo o que é lento move-se no mesmo lu- gar ou em direção a objetos vizinhos, e é assim que esse 29
  31. 31. movimento é gerador da realidade. Quando os olhos e sões dos sentidos. Mantendo a sua postura de defenderalgum objeto, suscetível de ser visto, geram a brancura convictamente aquilo que quer criticar, Sócrates conti-e a sensação que lhe é específica por natureza, acontece nua, contestando inicialmente esses argumentos. Comque a visão que vem dos olhos e a brancura que vem do efeito, pode responder-se que a sensação, durante o so-objeto (que se concertaram para gerar a cor branca) se nho, existe tanto para aquele que sonha, quanto existemovem no espaço intermédio (e intermediário); deste a sensação para aquele que está acordado; que a sensa-modo, o olho preenche-se de visão e transforma-se, ção de Sócrates doente continua a ser tão verdadeiranão numa visão, mas em olho vidente (olho que vê). Do para ele quanto o é quando está de boa saúde. O únicomesmo modo, o objeto que concorreu com o olho para juiz da sensação é aquele que a experiencia. É por isso,a produção da cor, enche-se de brancura e transforma- precisamente, que a sensação é a ciência.se, não em brancura, mas em objeto branco, seja madei- Após um curto intervalo na exposição e defesa da dou-ra branca, ou pedra branca, por exemplo. O mesmo se trina da sensação, em que anuncia que vai examinarpassa com o frio e o quente e com outras qualidades. com cuidado o recém-nascido de Teeteto (a doutrinaNada é isto ou aquilo em si e por si: é a partir das suas da sensação), e em que Teodoro o exorta a dizer o queaproximações mútuas que todas as coisas nascem do realmente pensa dela, Sócrates desfere duas críticas ful-movimento sob formas de todo o género. É assim im- minantes a Protágoras: “Porque é que Protágoras consi-possível conceber o elemento ativo e o elemento passi- dera o homem a medida de todas as coisas, de preferên-vo como existindo separadamente, pois não existe ele- cia ao porco ou ao macaco, que são, eles também, seresmento ativo antes de se associar ao elemento passivo, com sensações? E se cada um é a medida da sua pró-nem elemento passivo antes de se unir ao elemento ati- pria sabedoria, em que é que Protágoras se pode consi-vo; por outro lado aquilo que, numa certa união, é agen- derar mais sábio do que os outros?” Incomodado porte, numa outra poderá ser paciente (passivo). Desta ver assim maltratado o seu amigo Protágoras, Teodoroconceção resulta que nada é em si e que devemos extin- pede que seja Teeteto a responder a Sócrates.guir a palavra ser. - Vejamos, Teeteto, diz Sócrates, não te surpreende ve-As objeções a este sistema usam, frequentemente, o ar- res-te igual em sabedoria a qualquer homem ou a qual-gumento dos sonhos, das doenças, da loucura e das ilu- 30
  32. 32. quer deus? - Sim, responde Teeteto. - Vejamos então a mos fazer com que pareçam bons àquele a quem elesque consequência nos conduz a tese de que a ciência é pareciam, e para quem eram, maus.a sensação. Sentir através da visão ou da audição é sa- O debate é, de novo, interrompido por um curto inter-ber. Ora, aquele que vê e que tomou conhecimento do valo. Receando que Protágoras o criticasse por só discu-que viu, se fechar os olhos, lembra-se da coisa, mesmo tir com gente nova, Sócrates pede que seja Teodoro asem a ver. Ora, dizer que não vê é dizer que não sabe, responder-lhe. Teodoro bem tenta, mas acaba por resi-pois ver é saber. Segue-se que, quando um homem ad- gnar. Sócrates continua: Protágoras diz que aquilo quequiriu o conhecimento de uma coisa de que ainda se parece a cada um existe realmente para aquele a quemlembra, mas não vê, não a sabe: consequência monstru- isso parece. Ora, é opinião generalizada de que, entreosa! os homens, há uns que são sábios e outros que são igno-Mas, se Protágoras estivesse presente para se defender, rantes, e sabes tu de experiência própria que não há opi-poderia alegar que, de facto, é possível que o mesmo ho- nião que não encontre quem a contradiga. Se Protágo-mem que sabe uma coisa, não a saiba. Supõe que al- ras acredita que o homem é a medida de todas as coi-guém te tapa com a mão um dos olhos e que te pergun- sas, mas que a multidão se recusa a acreditar nele, deta se vês a sua roupa com esse olho fechado; serás força- modo que o número daqueles que discordam supera odo a dizer que vês e que não vês ao mesmo tempo. E de- daqueles que concordam, então há razões para que opois, a memória que conservamos das coisas que senti- seu princípio seja mais falso do que verdadeiro. Reco-mos não é da mesma natureza da sensação que tínha- nhecendo que só podemos ter opiniões verdadeiras,mos e já não temos. Já não somos o mesmo homem, Protágoras reconhece que os seus opositores têm umaporque estamos sempre em mudança. Finalmente, Pro- opinião verdadeira, ao julgar a sua falsa.tágoras poderia sustentar que as sensações diferem, A doutrina de Protágoras encontra um bom ponto denão na sua qualidade de verdadeiras ou falsas, pois são apoio nas sensações do tipo das do quente e do frio, dotodas reais, mas na sua qualidade de melhores ou pio- doce e do amargo e de outras do mesmo género. Masres. Longe de não reconhecer nem sabedoria, nem sá- essa doutrina encontra dificuldades sérias quando sebio, ele diria, pelo contrário, que somos sábios, quan- refere à saúde, ao justo, à piedade, onde fica claro quedo, mudando a face (ou aspeto) dos objetos, consegui- 31
  33. 33. há homens que têm mais razão do que outros. Aqui, Só- rece ser ouvido a respeito do futuro das leis ou de qual-crates pára e faz a reflexão de que um argumento con- quer outro futuro.duz a outro e que o debate não tem fim. - Bom, diz Teo- Mas, também no que diz respeito às sensações imedia-doro, não temos tempo livre? Esta réplica de Teodoro tas do quente e do frio e de outras semelhantes, não po-serve de pretexto para uma digressão sobre a vida do demos garantir que sejam verdadeiras, baseando-nosfilósofo, que tem sempre tempo livre, ao contrário do na doutrina do movimento. Existem dois tipos de movi-orador ou do advogado que andam sempre atarefados. mento, um de translação e outro de alteração. ComoO filósofo, afastado dos negócios públicos, só está pre- tudo se move destas duas formas, a perceção e a quali-sente de corpo na cidade; a sua alma plana sobre o em- dade, que se move entre o sujeito e o objeto, têm de mu-pírico. Como Tales que caiu num poço enquanto obser- dar de natureza no momento exato da sensação e, porvava os astros, o filósofo ignora o que se passa debaixo isso, essa perceção e qualidade não podem sequer serdos seus pés e dá motivos para que os outros se riam nomeadas. Nenhuma coisa existe, mais do que já nãodele. Ele não se preocupa com o poder, com a riqueza existe: Nenhuma coisa deixa de ser “assim”, mais doou com a nobreza. Só se interessa pela virtude e dedi- que não é “assim”, pois ambas as expressões se referemca-se a assemelhar-se a Deus. Este retrato do filósofo, ao repouso. A sensação sempre em mudança não é, por-onde são agrupados alguns traços dispersos na Repúbli- tanto, a ciência, e a doutrina de Heraclito, pelo contrá-ca, é o contraponto da imagem que Cálicles traçou no rio, é a negação da ciência.Górgias do filósofo que perde tempo com discussões in-fantis e que, afastado da ágora (praça pública), se torna Teeteto gostaria também de ouvir discutir a doutrinaincapaz de se defender contra o primeiro patife que o dos adversários de Heraclito, que pretendem que tudoacuse. está em repouso. Mas Sócrates recusa-se a fazê-lo para não alongar o debate até ao infinito.Voltemos ao assunto. Vejamos o exemplo de um Esta-do que promulga as suas leis. Ele concebe-as tendo emvista a sua utilidade futura. Ora, a sensação não temnada a ver com o futuro, e só o homem competente me- 32
  34. 34. ra, também tem de haver uma opinião falsa. Como é que esta se forma? Parece impossível não se saber oA Ciência é a Opinião Verdadeira que se sabe e saber o que não se sabe. Quando fazemos um juízo falso, será que tomamos as coisas que sabe- mos por outras que também sabemos, ou desconhece- mos ambas? - É impossível. - Então, tomamos as coisas que não sabemos por outras que também não sabe- mos? - Também impossível. - Também não tomamos as coisas que sabemos por aquelas que não sabemos, nem aquelas que não sabemos por outras que sabe-Sócrates pergunta a Teeteto: dado que o que se sente mos? - Não. - Então, como explicar a origem da opiniãopor um dos sentidos, não pode ser sentido por outro, falsa? Consideremos o ser e o não ser no lugar do saberatravés de quê poderemos conceber uma ideia que diz e da ignorância. Aquele, que pensa o que não é, só poderespeito aos dois sentidos ao mesmo tempo, e a que ór- ter uma opinião falsa. Mas julgar o que não é, é não jul-gãos podemos atribuir a perceção do que é comum a to- gar nada. Fazer um juízo falso não é mais do que julgardas as coisas, como o ser e o não ser? - Só podemos, res- o que não é.ponde Teeteto, atribuí-la à alma. É através da alma que Não seria desprezível que confundíssemos no nossoapreendemos não somente o ser, mas também o seme- pensamento duas coisas igualmente reais, afirmandolhante e o diferente, o belo e o feio, e outras ideias do que uma é a outra? Mas quando o pensamento faz estamesmo género. A sensação não pode alcançar o ser, confusão, não seria necessário que represente os doisnem por conseguinte a ciência. Temos de a procurar na- objetos ao mesmo tempo, ou um dos dois? - Sim. - Ora,quilo, qualquer que seja o nome que lhe damos, a que sendo o juízo um discurso que a alma tem consigo mes-chamamos alma, quando ela própria, por si só, se dedi- ma, quando tomamos uma coisa por outra, dizemos aca ao estudo dos seres. A essa procura chama-se julgar nós próprios que uma é outra: será isso possível? Não,e é o juízo ou opinião verdadeira que constitui a ciên- pois é impossível que, ao pensarmos nos dois objetoscia. Seja. Diz Sócrates; mas se há uma opinião verdadei- ao mesmo tempo, julguemos que um é o outro e, se só 33
  35. 35. pensarmos num dos dois, nunca poderemos julgar que falsa. A opinião falsa só pode existir a respeito de coi-um é o outro (em que não estamos a pensar). Em todo sas que sabemos: quando ajustamos direta e exatamen-o caso, é indispensável que exista uma via, pela qual te a cada objeto as impressões e as marcas que lhe sãoseja possível tomar o que se sabe por aquilo que não se próprias, a nossa opinião é verdadeira; se as ajustar-sabe. Imaginemos na nossa alma um bloco de cera, mos obliquamente e erradamente, a nossa opinião seráonde se gravam as nossas sensações, e que aquilo que falsa.assim foi impresso será recordado e conhecido por nós, Neste ponto, apresenta-se uma objeção grave: se a opi-enquanto que o que se apagou ou não pôde ser gravado nião falsa não está nem nas sensações, nem nas suas re-será esquecido ou desconhecido. Ora, um homem não lações mútuas, nem nos pensamentos, mas no ajusta-pode ter uma opinião falsa, pensando que as coisas que mento da sensação ao pensamento, não deveríamosconhece são, ora aquelas que ele sabe, ora aquelas que confundir dois objetos conhecidos somente pelo pensa-ele não sabe? Após passar em revista todos os casos a mento. É, todavia, o que fazemos quando nos engana-que esta hipótese dá lugar, Sócrates retém três, em que mos nos números, por exemplo, quando acreditamosa confusão lhe parece possível: um, em que se confun- que 5+7=11 e não 12. Para explicar a possibilidade dede uma coisa que se sabe com uma outra que também erro neste caso, Sócrates compara o nosso espírito ase sabe e que se perceciona, outra, em que se confunde um pombal, onde vivem aves, umas em bando, outrasuma coisa que se sabe com uma outra que não se sabe e em famílias e outras solitárias, mas esvoaçando mistu-que se perceciona, e uma terceira, em que se confunde radas todas umas com as outras. Temos todas as aveso que se sabe e se perceciona com uma outra que se no nosso espírito, mas quando queremos agarrar uma,sabe e se perceciona igualmente. Por exemplo, diz Só- pode acontecer que agarremos uma outra que não que-crates, eu conheço-te, Teeteto, e conheço também Teo- ríamos, trocamos uma rola por um pombo, por exem-doro, e tenho no meu bloco de cera as impressões de plo; isto é uma opinião falsa. Mas refletindo melhor, Só-ambos. Vendo-vos, esforço-me por aplicar a marca pró- crates não fica nada satisfeito com esta explicação. É ab-pria de cada um de vós à visão que lhe é própria, e por surdo, diz ele, pretender que, tendo nós a ciência defazer entrar e ajustar esta visão à sua própria impres- um objeto, ignoremos esse objeto, não por ignorância,são. Mas posso trocar as coisas, e a minha opinião será mas devido à própria ciência, e que tomemos esse obje- 34
  36. 36. to por outro. - Talvez, diz Teeteto, tenhamos incluídoignorâncias nas ciências. - Mas, nesse caso, teríamosecolhido um caminho sem fim: essas ciências e essas ig-norâncias terão de ser objeto de novas ciências que se-ria necessário apanhar em novos pombais. Teeteto in-siste mesmo assim em definir a ciência como opiniãoverdadeira. Mas a experiência do dia a dia mostra que aopinião verdadeira pode ser encontrada nos juízes sema ciência. 35
  37. 37. ignorar os elementos separados e conhecê-los juntos? Se, pelo contrário, a sílaba é uma entidade única, semA Ciência é a Opinião Verdadeira partes, então é indivisível e, por conseguinte, não éAcompanhada de Razão mais conhecível do que os elementos. Por outro lado, a experiência prova que os elementos se prestam a um co- nhecimento mais claro do que as sílabas. Quando aprendemos a ler, o que fazemos é aprender a distin- guir os elementos; quando aprendemos música, come- çamos pelas notas; é que o elemento é mais conhecível do que o composto.Teeteto propõe, então, uma terceira definição, que ou- Mas voltemos à tua definição, e diz-me, Teeteto, o queviu ser dada por alguém: a ciência é a opinião verdadei- é que devemos entender por essa razão que acompanhara acompanhada de razão, isto é, de uma explicação a opinião verdadeira. Na minha opinião, creio que a po-analítica ou definição. As coisas que podemos sujeitar demos definir de três maneiras:ao crivo da razão são conhecíveis; aquelas, que não po-dem, são inconhecíveis. - O que eu ouvi dizer a alguém, a primeira é tornar o pensamento sensível à voz,replica Sócrates, foi que os elementos primeiros de que através dos nomes e dos verbos, como se penteásse-somos compostos são inconhecíveis e só podem ser no- mos o pensamento na fala, como se esta fosse ummeados (não analisados ou definidos), e que, pelo con- espelho ou uma superfície de água. Neste sentido, otrário, os objetos que são compostos por eles são conhe- juízo verdadeiro será sempre acompanhado de defi-cíveis, pois a combinação com que são formados é a es- nição, em todos aqueles que pensam corretamentesência da sua definição. Mas será possível que, haven- sobre algum objeto; nestas condições, o juízo verda-do elementos inconhecíveis, o composto formado por deiro nunca será encontrado sem a ciência.eles seja conhecível? Se, por exemplo, as letras não são a segunda consiste na enumeração das partes ou ele-conhecíveis, como podem sê-lo as sílabas? Se a sílaba mentos; mas podemos enumerar todas as partes deconsiste nos elementos combinados, como poderemos 36
  38. 38. um objeto, tendo delas só uma opinião verdadeira, mas não a ciência. a terceira consiste na definição através da diferença característica. Mas o conhecimento desta diferença característica é justamente o que faz da opinião uma opinião verdadeira; não precisamos portanto de acrescentar a razão à opinião verdadeira, pois ela já lá está.É, pois, uma resposta tonta dizer que a ciência é umaopinião correta (ortodoxa) acompanhada de ciência,seja da ciência da diferença, seja da ciência de qualqueroutra coisa.Assim, a ciência não é, nem a sensação, nem a opiniãoverdadeira, nem a opinião verdadeira acompanhada derazão. Mas mesmo não sendo o debate conclusivo, nomínimo ensinou Teeteto a não acreditar que sabe o quenão sabe.Sócrates marca, então, encontro para o dia seguintecom Teeteto e Teodoro, e deixa-os para ir responder àacusação de Meleto, pela qual haveria de ser condena-do à morte. 37
  39. 39. mento de que a sua doutrina abstrusa exigiria desenvol- vimentos que abafariam a questão central. Na verdade,Objeto e Composição do Teeteto a razão parece ser a de ter reservado uma obra comple- ta para discutir a doutrina eleata, O Sofista. No Teete- to, Platão limita-se aos sensualistas, cujas ideias, por se- rem mais acessíveis, eram, sem dúvida, as mais divulga- das. Já tinha, na primeira parte do Crátilo, exposto o sistema do movimento universal dos sensualistas, asso- ciando-o, para explicar a doutrina da linguagem, às cos- mogonias primitivas e aos poetas Homero e Hesíodo.O Teeteto tem por objeto a natureza da ciência. Platão Faz o mesmo no Teeteto, onde atribui a teoria do fluirjá tinha tratado desta questão no Ménon, onde defende universal a Homero. Expõe, depois, num tríptico magis-que aprender é lembrar-se, que a alma viu toda a verda- tral:de nas suas existências anteriores e que ela pode reen- a doutrina do homem medida de Protágorascontrar os seus conhecimentos esquecidos, desde quenão desista de os procurar. Apesar da dúvida que ele a doutrina de Heraclito, onde tem origem a de Protá-(no Ménon) confessa ter a respeito da verdade desta te- gorasoria, Platão reafirma-a peremtóriamente no Fédon e ba- a doutrina dos seguidores fanáticos de Heraclito,seia nela uma das suas provas da imortalidade da alma. que reduzem tudo ao movimento perpétuo, chegan-Mas era difícil fazê-la aceitar pelo público em geral e do mesmo a negar a possibilidade de ciência.até pelo público filosófico muito influenciado por ou-tras doutrinas, nomeadamente as de Protágoras, de He- A estes universais destruidores, Platão opõe o verdadei-raclito e de Parménides. Podemos pensar que ele acre- ro filósofo que, elevando-se acima do mundo das apa-ditou ser necessário combatê-las e limpar o terreno rências, se dedica a descobrir a essência das verdadei-para mais facilmente fazer vingar a sua teoria. É verda- ras realidades.de que Platão deixa Parménides de fora, com o funda- 38
  40. 40. Depois de ter refutado aqueles que reduzem a ciência à do à natureza da cera onde se gravam as nossas sensa-sensação, Platão ataca aqueles que vêem na ciência ções se encontra no tratado de Hipócrates sobre o Regi-uma opinião verdadeira e, como a opinião verdadeira me nas doenças agudas. Também se sabe que Platãosupõe que haja uma opinião falsa, é sobre a possibilida- foi iniciado em Itália nas doutrinas médicas dos pitagó-de de uma opinião falsa que ele conduz a sua pesquisa. ricos.Ele já tinha abordado este assunto no Eutidemo, onde Encontra-se também na terceira definição, que a ciên-Dionisiodoro pretende demonstrar que é impossível cia é a opinião verdadeira acompanhada da razão, ummentir e contradizer, ao que Sócrates responde: “Essa eco dos debates seus contemporâneos. Sócrates diz quetese, tenho-a ouvido da boca de muitas pessoas, e fico ouviu dizer que os elementos ou sílabas são inconhecí-sempre surpreendido com ela. Ela estava muito em veis, enquanto os compostos que são formados por elesvoga no tempo de Protágoras (...). Quanto a mim, acho- são conhecíveis. Baseando-nos no testemunho de Aris-a sempre surpreendente: parece-me que destrói as ou- tóteles, é muito provável que esta tese de que Sócratestras (doutrinas) e destrói-se a si mesma.” ouviu falar seja de Antístenes.No Teeteto, Sócrates tenta mostrar a possibilidade deerro, através de duas imagens: a do bloco de cera, onde as nossas sensações se im- primem, e, neste caso, o erro nasce do mau ajusta- mento da sensação com o pensamento; a do pombal, onde esvoaçam aves diversas que po- demos tomar umas pelas outras.Não é fácil determinar o que nestas duas imagens é ori-ginal de Platão. Aquilo que se sabe é que a imagem dobloco de cera também se encontra em Demócrito e quea explicação das diferentes qualidades da memória devi- 39
  41. 41. C APÍTULO 4A Apologiade SócratesQuais foram, então, as verdadeiras cau-sas da sua condenação? Sócrates, que jácontava com ela, responde a esta pergun-ta. Foram os ódios que atraiu, ao desmas-carar a ignorância de personagens impor-tantes na presença de gente jovem, que,ainda por cima, obtinha grande prazerem ver essas pessoas importantes sem sa-ber o que dizer.
  42. 42. Sócrates tinha setenta anos quando foi acusado por Me- leto, Anito e Lícon de não reconhecer os deuses do Esta-Enquadramento do, de introduzir novas divindades e de corromper a ju- ventude. A pena que lhe foi aplicada foi a pena de mor- te. O principal acusador, Meleto, era um mau poeta que, influenciado por Anitos, se encarregou de apresentar a queixa junto do arconte-rei. Anitos e Lícon subscreve-S UMÁRIO ram-na. Anitos, um rico curtidor de peles, que tinha1. Enquadramento sido estratega em 409 e que tinha combatido os Trinta (a tirania oligárquica), era um orador influente e um2. Primeira Parte dos líderes do partido popular. A acreditar em Xenofon-3. Segunda parte te (que escreveu a sua própria Apologia de Sócrates), ele estava zangado com Sócrates porque este tinha-o4. Terceira Parte criticado severamente por pretender formar o seu filho na profissão de curtidor. Mas tinha seguramente ou- tros motivos bem mais sérios, motivos de natureza polí- tica: Anitos deve ter-se sentido ferido com as críticas de Sócrates contra os líderes do partido democrático (ou popular). De Lícon, não se sabe grande coisa. Um poeta satírico reprova-lhe o facto de ser de origem es- trangeira e há quem faça alusão aos seus costumes efe- minados. Em todo o caso, parece ter sido uma persona- gem de pouca importância. Neste concerto de acusado- res, Meleto representava os poetas, Anitos os artesãos e os homens políticos, Lícon os oradores, todos tipos de 41

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