ACIDENTES OFÍDICOSDr. Paulo Sérgio BernardeLaboratório de Herpetologia - Centro Multidisciplinar - Campus FlorestaUniversi...
ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS DO OFIDISMOAnualmente ocorre cerca de 20.000 acidentes ofídicos no Brasil, média estimada a parti...
veneno das serpentes ser a captura de suas presas, ele pode ser usado secundariamente como defesa,causando acidentes em se...
lateralmente na cabeça entre o olho e a narina, com função de orientação térmica (Melgarejo 2003).Este órgão sensorial ter...
Se a serpente apresentar a ponta da cauda com as escamas eriçadas e o formato das escamasdorsais parcialmente salientes, p...
Os viperídeos ainda apresentam escamas dorsais carenadas (parecendo "casca de arroz")(Figura 5) e a pupila do olho elíptic...
As cobras corais (Micrurus spp. e Leptomicrurus) (Figuras 7, 8), pertencentes a família doselapídeos, não apresentam a fos...
CONFUSÃO COM OS NOMES POPULARESPoucas vítimas levam até o hospital a serpente causadora do acidente, sendo que oreconhecim...
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ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO (Ribeiro & Jorge 1997; França & Málaque2003): proteolítica (atividade inflamatória aguda),...
As cascavéis são responsáveis por cerca de 7,7% dos acidentes ofídicos no Brasil (Araújo etal. 2003). Entre os grupos caus...
Insuficiência respiratória aguda em casos graves. Ocorre aumento do tempo de coagulaçãosanguínea. A vítima pode falecer po...
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ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO (Málaque & França 2003): proteolítica(atividade inflamatória aguda), hemorrágica, coagulan...
Figura 20: Coral-verdadeira (Micrurus lemniscatus). Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 21: Coral-verdadeira (Micrurus lemni...
Figura 22: Coral-verdadeira (Micrurus hemprichii). Foto por Paulo S. BernardeFigura 23: Coral-verdadeira (Micrurus surinam...
TRATAMENTO DAS VÍTIMASA soroterapia o mais rápido possível com o devido atendimento em um hospital é otratamento recomendá...
Tratamento com vítimas mordidas por colubrídeos (França & Puorto 2003): O tratamentodeve ser sintomático, pacientes que ev...
Não colocar as mãos dentro de buracos do solo ou de árvores.Olhar para o chão quando estar andando em trilhas.Procurar não...
de caso e comprovação experimental. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo36(1):77-81.BARRAVIERA, B. 1999....
CUPO, P. AZEVEDO-MARQUES, M. M.; MENEZES, J. B. & HERING, S. E. 1991. Reações dehipersensibilidade imediatas após uso intr...
KARDONG, K. V. 1982. The evolution of the venom apparatus in snakes from colubrids to viperids &elapids. Mem. Inst. Butant...
RIBEIRO, L. A. PUORTO, G. & JORGE, M. T. 1994. Acidentes por serpentes do gênero Philodryas:avaliação de 132 casos. Revist...
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  1. 1. ACIDENTES OFÍDICOSDr. Paulo Sérgio BernardeLaboratório de Herpetologia - Centro Multidisciplinar - Campus FlorestaUniversidade Federal do Acre – UFACSnakeBernarde@hotmail.com http://paulobernarde.sites.uol.com.brFones: 68 – 3322 – 5177 / 8406 – 1420UFAC2009
  2. 2. ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS DO OFIDISMOAnualmente ocorre cerca de 20.000 acidentes ofídicos no Brasil, média estimada a partir dedados de 1990 a 1995 (Bochner & Struchiner 2002; 2003; Araújo et al. 2003), apresentando umaletalidade de 0,4%. Desses, uma média de 2.680 (1991 – 1999) são registrados por ano naAmazônia (Araújo et al. 2003), com a maior letalidade (0,8%) entre as cinco regiões do país.Entretanto, esses dados epidemiológicos talvez não correspondam a realidade. Ver Bochner& Struchiner (2002) discussão sobre a eficiência e abrangência dos quatro sistemas nacionais deinformação sobre ofidismo: SINAN (Sistema de Informações de Agravos de Notificação),SINITOX (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas), SIH-SUS (Sistema deInformações Hospitalares do Sistema Único de Saúde) e SIM (Sistema de Informações sobreMortalidade) e também Fiszon & Bochner (2008) sobre subnotificações de casos no Rio de Janeiro.O número de óbitos diminuiu de cerca de 250 por ano no início da Década de 80 para cerca de 110atualmente (Cardoso & Wen 2003). Antes da produção e distribuição do soro anti-ofídico por VitalBrazil em 1901, era estimada uma letalidade de 25% entre as vítimas de acidentes ofídicos noEstado de São Paulo (Brazil 1901). Já em 1906 houve uma redução de 50% dos óbitos e 40 anosdepois a letalidade variava entre 2,6 a 4,6% (Barroso 1943/44; Wen 2003).A maioria destes acidentes ocorre com trabalhadores rurais do sexo masculino com idadeentre 15 a 49 anos e os membros inferiores são os mais atingidos (Bochner & Struchiner 2003). Asserpentes não apresentam interesse em picar uma pessoa e, quando fazem isso, é para sedefenderem. E no Brasil nenhuma espécie peçonhenta vem intencionalmente até uma pessoa parapicá-la, são as pessoas que não percebem a presença da cobra e se aproximam dela. Por isso, todaatenção é recomendada quando estamos nos habitats desses animais.SERPENTES PEÇONHENTASNo Brasil ocorrem 361 espécies de serpentes (SBH 2008), dessas 55 são peçonhentas. Otermo "peçonhento" se refere a um animal que apresenta veneno e algum tipo de mecanismo quepossibilita a inoculação em outro organismo. Muitas cobras são venenosas (ex. as espécies dafamília Colubridae), contudo, poucas são peçonhentas (famílias Elapidae e Viperidae). As serpentespeçonhentas apresentam glândulas de veneno desenvolvidas associadas a um aparelho inoculador(dentes), cuja função primária é a subjugação (matar) e digestão de suas presas (Kardong, 1982;Franco 2003; Melgarejo 2003). O veneno é uma mistura de várias toxinas, enzimas e peptídeos, osquais induzem atividades biológicas em suas vítimas (Santos 1994). Apesar da função primária do
  3. 3. veneno das serpentes ser a captura de suas presas, ele pode ser usado secundariamente como defesa,causando acidentes em seres humanos.São quatro grupos de serpentes que podem causar acidentes ofídicos no Brasil (Melgarejo2003): Grupo I (Gêneros Bothrops, Bothriopsis e Bothrocophias; conhecidas popularmente comojararacas, caissaca, urutú-cruzeiro, jararacussu); Grupo II (Gênero Crotalus; conhecidaspopularmente como cascavéis); Grupo III (Gênero Lachesis; conhecidas popularmente comosurucucu-bico-de-jaca); Grupo IV (Gêneros Micrurus e Leptomicrurus; conhecidas popularmentecomo corais-verdadeiras).ELAPIDAE (Melgarejo 2003): Os gêneros Micrurus e Leptomicrurus pertencem a FamíliaElapidae e apresentam dentição proteróglifa (dentes inoculadores relativamente pequenos e fixos,localizados anteriormente na maxila superior). São 27 espécies de corais-verdadeiras no Brasil(SBH 2008), 18 delas ocorrendo na Amazônia (Micrurus albicinctus, M. annelatus, M. averyi, M.filiformis, M. hemprichii, M. langsdorffi, M. lemniscatus, M. nattereri, M. pacaraimae, M.paraensis, M. psyches, M. putumayensis, M. remotus, M. spixii, , M. surinamensis, Leptomicruruscollaris, L. narduccii e L. scutiventris) (Martins et al. 1995; Campbell & Lamar 2004).VIPERIDAE (Melgarejo 2003): Os gêneros Bothrops, Bothriopsis, Bothrocophias, Crotaluse Lachesis pertencem a Família Viperidae e apresentam dentição solenóglifa (dentes inoculadoreslocalizados anteriormente na maxila superior, que se projetam num ângulo de 90º no momento dobote). São 28 espécies de jararacas, surucucus e cascavéis no Brasil (SBH 2008), nove delasocorrendo na Amazônia (Bothriopsis bilineata, B. taeniata, Bothrocophias hyoprora, Bothropsatrox, B. brazili, B. marajoensis, B. mattogrossensis, Crotalus durissus e Lachesis muta) (Martinset al. 1995; Campbell & Lamar 2004; França et al. 2006).IDENTIFICAÇÃO DE SERPENTES PEÇONHENTASExiste uma confusão entre os leigos e nos livros no Brasil em relação ao reconhecimento dasserpentes peçonhentas, devido o fato das informações sobre a distinção destas das não peçonhentasterem sido baseadas na fauna de serpentes da Europa. A aplicação de certas regras como pupila doolho (vertical ou redonda), escamas dorsais (carenadas ou lisas), forma da cabeça (triangular ouarredondada) e tamanho da cauda (se afila bruscamente ou se é longa) não são aplicáveis aofiofauna brasileira devido a inúmeras exceções.Para o reconhecimento de serpentes peçonhentas, observa-se se a mesma apresenta a fossetaloreal (Figura 1), no caso dos viperídeos. A fosseta loreal é um pequeno orifício localizado
  4. 4. lateralmente na cabeça entre o olho e a narina, com função de orientação térmica (Melgarejo 2003).Este órgão sensorial termorreceptor, permite que os viperídeos localizem suas presas pela detecçãoda temperatura das mesmas.Bothrops atrox Crotalus durissusFigura 1: Localização da fosseta loreal. Fotos por Paulo S. BernardeSendo um viperídeo, se a serpente possuir um guizo ou chocalho na porção terminal dacauda, trata-se de uma cascavel (Crotalus durissus) (Figura 2).Figura 2: Cascavel (Crotalus durissus). Foto por Paulo S. Bernarde.
  5. 5. Se a serpente apresentar a ponta da cauda com as escamas eriçadas e o formato das escamasdorsais parcialmente salientes, parecendo a "casca de uma jaca", trata-se de uma surucucu-bico-de-jaca (Lachesis muta) (Figura 3).Figura 3: Surucucu-Bico-de-Jaca (Lachesis muta) Foto por Paulo S. Bernarde.Se a serpente apresentar a ponta da cauda normal, trata-se de uma espécie de jararaca(Bothrops spp., Bothriopsis spp. ou Bothrocophias sp.) (Figuras 4, 6, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15 e 16).Figura 4: Caissaca ou jararaca (Bothrops moojeni). Foto por Paulo S. Bernarde.
  6. 6. Os viperídeos ainda apresentam escamas dorsais carenadas (parecendo "casca de arroz")(Figura 5) e a pupila do olho elíptica ou vertical (Figura 6). Entretanto, espécies não peçonhentascomo a jibóia (Boa constrictor), salamanta (Epicrates cenchria) e a dormideira (Dipsas indica)apresentam a pupila do olho também vertical por serem de hábitos noturnos. Alguns colubrídeos (e.g., Helicops spp.) também apresentam escamas carenadas e não são peçonhentos.Figura 5: Escamas carenadas de Bothrops atrox. Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 6: Pupila do olho elíptica ou vertical de Bothriopsis bilineata. Notar também afosseta loreal. Foto por Paulo S. Bernarde.
  7. 7. As cobras corais (Micrurus spp. e Leptomicrurus) (Figuras 7, 8), pertencentes a família doselapídeos, não apresentam a fosseta loreal, a pupila do olho é redonda e as escamas dorsais são lisas(não carenadas) (Figura 7). Quando uma serpente apresentar o padrão de colorido tipo "coralino"(Figura 8), com anéis pretos, amarelos (ou brancos) e vermelhos, a mesma deve ser tratada comouma possível coral-verdadeira. Algumas corais amazônicas não apresentam anéis coloridos(vermelho, laranja ou amarelo) pelo corpo (e. g., M. albicinctus).Figura 7: Coral-verdadeira (Micrurus hemprichii). Note a cabeça arredondada, pupilado olho redonda e as escamas lisas. Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 8: Padrão coralino de Micrurus spixii. Foto por Paulo S. Bernarde.
  8. 8. CONFUSÃO COM OS NOMES POPULARESPoucas vítimas levam até o hospital a serpente causadora do acidente, sendo que oreconhecimento do gênero causador se faz pelo diagnóstico clínico (observação dos sintomas) namaioria das vezes. Nota-se aqui o perigo de confusão com os nomes populares e a associação destescom os nomes científicos.Uma mesma espécie pode ter mais de um nome popular (ex. Bothrops atrox e B. moojenipodem ser chamadas de jararaquinha-do-rabo-branco, jararaca e jararacão de acordo com o tamanhodo espécime). Outro exemplo é B. atrox que em várias regiões da Amazônia é conhecida comojararaca, mas no Estado do Acre recebe o nome de surucucu, e o nome surucucu é usado emalgumas regiões para designar a Lachesis muta. No Amazonas B. atrox é conhecida também comocombóia.A serpente Bothriopsis bilineata é conhecida como bico-de-papagaio e papagaia,dependendo da região e, esses mesmos nomes populares são usados também para designar umaespécie não-peçonhenta (Corallus caninus), que também apresenta coloração verde e o hábitoarborícola. No Estado do Acre não ocorre a cascavel (Crotalus durissus), entretanto, eventualmentea surucucu-bico-de-jaca (Lachesis muta) é chamada de cascavel por populações da floresta(ribeirinhos e seringueiros).CARACTERÍSTICAS DOS ACIDENTESGRUPO I (ACIDENTE BOTRÓPICO):São acidentes ofídicos causados por serpentes pertencentes aos gêneros Bothrops,Bothriopsis e Bothrocophias. São conhecidas popularmente como jararaca (Bothrops jararaca, B.atrox, B. moojeni), caiçaca (B. moojeni), jararacuçu (B. jararacussu), cotiara (B. cotiara), jararaca-pintada (B. neuwiedi), urutú-cruzeiro (B. alternatus), jararaca-bicuda (Bothrocophias hyoprora),bico-de-papagaio ou papagaia (Bothriopsis bilineata) etc. Os juvenis de algumas espécies (ex. B.atrox, B. jararaca e B. moojeni) apresentam a porção final da cauda clara e desprovida de escamas erecebem o nome de jararaquinha-do-rabo-branco.Espécies do gênero Bothrops (23 espécies) são encontradas por todo país (Melgarejo 2003),enquanto que Bothrocophias (1 espécie) apenas na Amazônia e Bothriopsis (2 espécies) naAmazônia e na Mata Atlântica até o Estado do Rio de Janeiro. São responsáveis por cerca de 90,5%
  9. 9. dos acidentes ofídicos (Ribeiro & Jorge 1997; Araújo et al. 2003; França & Málaque 2003). Aletalidade do acidente botrópico é de 0,3% (Araújo et al. 2003). A maior espécie é a jararacuçu (B.jararacussu) da Mata Atlântica e Floresta Estacional do Sul e Sudeste, podendo atingir 1,8 m decomprimento e seus dentes inoculadores com até 2,5cm de comprimento, pode numa extração deveneno ser obtido 1.670mg (6,7ml) de veneno liofilizado (Melgarejo 2003).Figura 9: Surucucu ou jararaca (Bothrops atrox). Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 10: Juvenil de Surucucu ou jararaca (Bothrops atrox). Foto por Paulo S.Bernarde.
  10. 10. Figura 11: Surucucu ou jararaca (Bothrops atrox). Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 12: Juvenil de Surucucu ou jararaca (Bothrops atrox). Foto por Paulo S.Bernarde.
  11. 11. Figura 13: Jararaca (Bothrops brazili). Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 14: Juvenil de Jararaca-pintada (Bothrops mattogrossensis). Foto por Paulo S.Bernarde.
  12. 12. Figura 15: Jararaca-verde, Bico-de-papagaio ou Papagaia (Bothriopsis bilineata). Fotopor Paulo S. Bernarde.Figura 16: Jararaca-verde, Bico-de-papagaio ou Papagaia (Bothriopsis bilineata). Fotopor Paulo S. Bernarde.
  13. 13. ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO (Ribeiro & Jorge 1997; França & Málaque2003): proteolítica (atividade inflamatória aguda), coagulante e hemorrágica.SINTOMAS DA VÍTIMA (Ribeiro & Jorge 1997; França & Málaque 2003): dor,sangramento no local da picada, edema (inchaço) no local da picada e pode evoluir por todomembro, hemorragias (gengivorragia, hematúria, sangramento em ferimentos recentes), equimose,abscesso, formação de bolhas e necrose. A hipotensão e o choque periférico são observados emacidentes graves e são devidos à liberação de mediadores vasoativos. Ocorre aumento do tempo decoagulação sanguínea. A vítima pode falecer devido insuficiência renal aguda. A vítima tambémpoderá ter infecção secundária por bactérias que são encontradas na flora bucal da serpente. Essessintomas podem variar e nem todos estarem presentes devido a particularidades da vítima,quantidade de veneno inoculada, espécie causadores, dentre outros fatores.Ver Nishioka & Silveira (1992a), Ribeiro & Jorge (1997) Barraviera & Pereira (1999) eFrança & Málaque (2003) sobre aspectos epidemiológicos, classificação e variação dos acidentes,Bucharetchi et al. (2001) sobre acidentes botrópicos em crianças, Ribeiro et al. (2008) sobrecomparação de acidentes botrópicos entre adultos não idosos e idosos, Ribeiro & Jorge (1990) sobreos aspectos clínicos de acidentes com Bothrops jararaca filhotes e adultas, Jorge & Ribeiro (1997a)sobre a dosagem de soro antibotrópico na reversão do envenenamento, Andrade et al. (1989) eAmaral et al. (1986) sobre insuficiência renal aguda, Brandão et al. (1993) o relato de um caso decriança vítima de B. moojeni com lesão ocular, Jorge et al. (1999) sobre fatores no prognóstico deamputação, Nishioka & Silveira (1992b), Jorge et al. (1994) e Jorge & Ribeiro (1997b) sobreinfecções por bactérias em acidentes botrópicos e Jorge et al. (1990) sobre flora bacteriana oral emB. jararaca.GRUPO II (ACIDENTE CROTÁLICO):São acidentes ofídicos causados por serpentes do gênero Crotalus, conhecidas popularmentepor cascavéis e também como boicininga e maracambóia. Ocorrem nos cerrados do Brasil central,as regiões áridas e semi-áridas do Nordeste, os campos e áreas abertas do Sul, Sudeste e Norte(Melgarejo 2003). Na Amazônia, a cascavel está presente nas manchas de campos e cerrado emVilhena (Rondônia), Humaitá (Amazonas), Ilha de Marajó , Santarém e Serra do Cachimbo (Pará),no Amapá e Roraima (Melgarejo 2003; França et al. 2006).
  14. 14. As cascavéis são responsáveis por cerca de 7,7% dos acidentes ofídicos no Brasil (Araújo etal. 2003). Entre os grupos causadores, é o gênero que apresenta maior letalidade com 1,8% (Araújoet al. 2003).São cinco subespécies registradas para o Brasil (Crotalus durissus cascavella, C. d.collilineatus, C. d. marajoenis, C. d. ruruima e C. d. terrificus) (Melgarejo 2003). Com aaproximação de uma pessoa, esta cobra geralmente toca o guizo ou chocalho, procurando anunciarsua presença. As populações de cascavéis de Roraima apresentam veneno e sintomatologiadiferente do apresentado aqui (ver Santos & Boechat 1995). Pode atingir até cerca de 1,6 m decomprimento (Melgarejo 2003).Figura 17: Cascavel (Crotalus durissus). Foto por Paulo S. Bernarde.ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO (Azevedo-Marques et al. 2003): neurotóxica,miotóxica e coagulante.SINTOMAS DA VÍTIMA (Azevedo-Marques et al. 2003): edema discreto ou ausente, dordiscreta ou ausente, parestesia, ptose palpebral, diplopia, visão turva, urina avermelhada ou marrom.
  15. 15. Insuficiência respiratória aguda em casos graves. Ocorre aumento do tempo de coagulaçãosanguínea. A vítima pode falecer por insuficiência renal aguda. Infecções secundárias por bactériassão pouco freqüentes, mas ver Nishioka et al. (2000).Ver Jorge & Ribeiro (1992), Silveira & Nishioka (1992a) e Barraviera (1999) sobre aspectosclínicos e epidemiológicos de acidentes crotálicos, Cupo et al. (1991) e Bucharetchi et al. (2002)sobre acidentes crotálicos em crianças, Amaral et al. (1991) sobre insuficiência respiratória eAmaral et al. (1986) sobre insuficiência renal aguda.Salienta-se aqui que as populações de cascavéis (Crotalus durissus ruruima) apresentamindivíduos com veneno de coloração branca (ação neurotóxica, miotóxica e coagulante) e outrosamarelo (ação proteolítica e hemorrágica) (Santos & Boechat 1995).GRUPO III (ACIDENTE LAQUÉTICO):São acidentes ofídicos causados pela surucucu-bico-de-jaca (Lachesis muta), tambémconhecida como surucucu-pico-de-jaca, surucutinga, surucucu e bico-de-jaca. Esta espécie ocorrena Amazônia e na Mata Atlântica, da Paraíba até o norte do Rio de Janeiro (Melgarejo 2003). É amaior espécie de cobra venenosa da América do Sul, podendo chegar a 3,5 metros de comprimento.Quando forma o bote, pode formar dois “S” com o corpo, podendo assim o bote atingir umadistância maior do que 50% do comprimento da serpente (Melgarejo 2003). Entretanto, aagressividade dessa serpente existe mais na imaginação e temor das pessoas do que nocomportamento do animal (Melgarejo 2003; Souza et al. 2007). Produz em uma extração umamédia de 200mg de veneno liofilizado (Melgarejo 2003).Esta espécie é responsável por cerca de 1,4% dos acidentes ofídicos (Araújo et al. 2003;Málaque & França 2003). Entretanto, esta porcentagem pode ser maior, pois na Amazônia muitoscasos não são notificados ou devidamente documentados. A letalidade registrada para o acidentelaquético é de 0,9% (Araújo et al. 2003; Málaque & França 2003), cerca de três vezes mais letal doque o botrópico e metade da letalidade do crotálico.
  16. 16. Figura 18: Surucucu-Bico-de-Jaca (Lachesis muta). Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 19: Surucucu-Bico-de-Jaca (Lachesis muta). Foto por Paulo S. Bernarde.
  17. 17. ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO (Málaque & França 2003): proteolítica(atividade inflamatória aguda), hemorrágica, coagulante e neurotóxica.SINTOMAS DA VÍTIMA (Málaque & França 2003): semelhante ao acidente causado porjararacas (Bothrops) com dor, edema e equimose (que pode progredir para todo membroacometido), formação de bolhas, gengivorragia e hematúria. Difere do acidente botrópico devido aoquadro neurotóxico: bradicardia, hipotensão arterial, sudorese, vômitos, náuseas, cólicasabdominais e distúrbios digestivos (diarréia). A vítima poderá falecer por insuficiência renal aguda.A diferenciação do envenenamento laquético do botrópico é relativamente mais difícil devido asemelhança entre os sintomas, caso a serpente causadora não tenha sido capturada e levada até ohospital. Entretanto, os sintomas relacionados com a ativação do sistema nervoso autônomoparassimpático (exclusivos do acidente laquético) seriam evidentes e precoces para diagnosticar erealizar o tratamento específico.Ver relatos de envenenamentos laquéticos em Silva-Haad (1980/81), Otero et al. (1993),Jorge et al. (1997), Hardy & Silva-Haad (1998) e Souza et al. (2007). Ver Bard et al. (1994) sobre aineficácia do soro antibotrópico na neutralização da atividade coagulante de Lachesis.GRUPO IV (ACIDENTE ELAPÍDICO):São acidentes ofídicos causados pelas corais-verdadeiras (Micrurus spp. e Leptomicrurusspp.), também chamadas de cobras-corais. As Leptomicrurus (3 espécies) ocorrem na Amazônia,enquanto Micrurus (24 espécies) ocorre em todo o Brasil (Melgarejo 2003). São responsáveis pormenos de 1% dos acidentes ofídicos.ATIVIDADE PRINCIPAL DO VENENO: neurotóxica (Jorge-da-Silva Jr. & Bucaretchi2003).SINTOMAS DA VÍTIMA: dor local, parestesia, ptose palpebral, diplopia, sialorréia(abundância de salivação), dificuldade de deglutição e mastigação, dispnéia (Jorge-da-Silva Jr. &Bucaretchi 2003). Casos graves podem evoluir para insuficiência respiratória.Ver mais sobre envenenamentos elapídicos em Nishioka et al. (1993) e Bucaretchi et al.(2006). Ver Vital Brazil & Vieira (1996) sobre o uso de neostigmine na reversão do envenenamentode Micrurus frontalis.
  18. 18. Figura 20: Coral-verdadeira (Micrurus lemniscatus). Foto por Paulo S. Bernarde.Figura 21: Coral-verdadeira (Micrurus lemniscatus). Foto por Paulo S. Bernarde.
  19. 19. Figura 22: Coral-verdadeira (Micrurus hemprichii). Foto por Paulo S. BernardeFigura 23: Coral-verdadeira (Micrurus surinamensis). Foto por Paulo S. Bernarde
  20. 20. TRATAMENTO DAS VÍTIMASA soroterapia o mais rápido possível com o devido atendimento em um hospital é otratamento recomendável (Wen 2003), condutas paralelas também são necessárias para se evitarcomplicações, seqüelas e reações adversas (Ver Amaral et al. 1991; Cupo et al. 1991; Bucaretchi etal. 1994; Santos & Boechat 1995; Jorge & Ribeiro 1997; Barraviera & Peraçoli 1999; Jorge et al.1999; Amaral 2003; Santos-Soares et al. 2007). Para cada gênero de serpente, haverá um soroespecífico:Soro Antibotrópico: Gêneros Bothrops, Bothriopsis e Bothrocophias.Soro Anticrotálico: Gênero Crotalus.Soro Antilaquético: Gênero Lachesis.Soro antielapídico: Gêneros Micrurus e Leptomicrurus.Existe também o soro Antibotropicocrotalico para ser usado em regiões onde ocorremserpentes dos gêneros Bothrops e Crotalus em casos de dúvidas sobre o animal causador, assimcomo o antibotropicolaquetico para Bothrops e Lachesis.ACIDENTES COM COLUBRÍDEOSOs acidentes causados por serpentes da Família Colubridae geralmente são assintomáticos,contudo, em algumas regiões no Brasil eles representam cerca de 20 a 40% dos casos atendidos noshospitais (Silva & buononato 1984; Silveira & Nishioka 1992b; Albolea et al. 1999; Puorto &França 2003). Dentre os colubrídeos, algumas espécies, principalmente as opistóglifas, consegueminocular veneno em um ser humano e manifestar alguns sintomas na vítima (Martins 1916; Puorto& França 2003). Apesar de ser raro os acidentes graves (geralmente em crianças), a importânciadestes acidentes está no fato da semelhança destes com acidentes botrópicos (edema, alteração dotempo de coagulação sangüínea, hemorragia e equimose), o que pode resultar no uso indevido dasoroterapia. Dentre os colubrídeos, algumas espécies como as muçuranas (Boiruna maculata eClelia plumbea) (Pinto et al. 1991; Santos-Costa et al. 2000) e a cobra-verde (Philodryas olfersii),parelheira (P. patagoniensis) (Nickerson & Henderson 1976; Silva & Buononato 1984; Nishioka &Silveira 1994; Ribeiro et al. 1994; Araújo & Santos 1997) e Thamnodynastes (Diaz et al. 2004),podem causar acidentes quando manuseadas ou pisadas. Estas espécies, geralmente fogem aaproximação humana, mordendo apenas em último caso.
  21. 21. Tratamento com vítimas mordidas por colubrídeos (França & Puorto 2003): O tratamentodeve ser sintomático, pacientes que evoluírem para dor e edema intensos podem ser tratados comanalgésicos e/ou antiinflamatório não hormonal. Deve-se lavar o ferimento da mordida com água esabão, seguindo-se a utilização de anti-séptico. A profilaxia antitetânica também deve ser efetuada.PRIMEIROS SOCORROSManter a vítima calma.Evitar esforços físicos, como correr, por exemplo.Procurar um hospital o mais rápido possível, procurando tentar saber antes se o mesmopossui soros anti-ofídicos.Se possível, levar a serpente causadora do acidente pra facilitar o diagnóstico.Lavar o local da picada.Não fazer torniquete ou garrote no membro picado, pois poderá agravar o acidente,aumentando a concentração do veneno no local.Não fazer perfurações ou cortes no local da picada, porque pode aumentar a chance de haverhemorragia ou infecção por bactérias.Evitar curandeiros e benzedores, lembrando que o rápido atendimento em um hospital éfundamental para a reversão do envenenamento.Não ingerir bebidas alcoólicas.PREVENÇÃO DE ACIDENTESSempre que for andar nas florestas, andar calçado. Cerca de 80% das picadas acontecem dojoelho para o pé, sendo 50% na região do pé. O uso de botinas ou botas preveniria melhor do queum tênis.Evitar acúmulo de lenhas, entulhos e lixos próximos a moradias humanas.Usar luvas de couro ao remover lenhas.
  22. 22. Não colocar as mãos dentro de buracos do solo ou de árvores.Olhar para o chão quando estar andando em trilhas.Procurar não andar fora das trilhas.Ao atravessar troncos caídos, olhar sobre ou atrás dele.Evitar andar a noite, pois é o horário de maior atividade das serpentes venenosas.Ao sentar-se no chão, olhar primeiro em volta.Ao encontrar uma cobra, avise o resto da turma sobre onde ela se encontra e procuredesviar-se dela. Lembre-se de que ela está em seu habitat natural e é você quem é o invasor.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAMARAL, C. F. S. 2003. Cuidados intensivos nos acidentes por animais peçonhentos. Pp. 394-401 In:Animais peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. Cardoso et al. (Orgs.).Sarvier, São Paulo – SP.AMARAL, C. F. S.; MAGALHÃES, R. A. & REZENDE, N. A. 1991. Comprometimento respiratóriosecundário a acidente ofídico crotálico (Crotalus durissus). Revista do Instituto de Medicina Tropicalde São Paulo 33(4):251-255.AMARAL, C. F. S.; RESENDE, N. A.; SILVA, O. A.; RIBEIRO, M. M. F.; MAGALHÃES, R. A.;CARNEIRO, J. G. & CASTRO, J. R. S. 1986. Insuficiência renal aguda secundária a acidente botrópico ecrotálico. Análise de 63 casos. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo 28:220-227.ANDRADE, J. G.; PINTO, R. N. L.; ANDRADE, A. L. S.; MARTINELLI, C. M. T. & ZICKER, F. 1989.Estudo bacteriológico de abcessos causados por picadas de serpentes do gênero Bothrops. Revista doInstituto de Medicina Tropical de São Paulo 31:363-367.ARAÚJO, F. A. A.; SANTALÚCIA, M. & CABRAL, R. F. 2003. Epidemiologia dos acidentes por animaispeçonhentos.. Pp. 6-12 In: Animais peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dosacidentes. Cardoso et al. (Orgs.). Sarvier, São Paulo – SP.ARAÚJO, M. E. & SANTOS, A. C. M. C. A. 1997. Cases of human envenoming caused by Philodryasolfersii and Philodryas patagoniensis (Serpentes: Colubridae). Revista da Sociedade Brasileira deMedicina Tropical 30(6):517-519.AZEVEDO-MARQUES, M. M.; HERING, S. E. & CUPO, P. 2003. Acidente crotálico. Pp. 91-98 In:Animais peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. Cardoso et al. (Orgs.).Sarvier, São Paulo – SP.BARD, R.; LIMA, J. C. R.; SÁ-NETO, R. P.; OLIVEIRA, S. G. & SANTOS, M. C. 1994. Ineficácia doantiveneno botrópico na neutralização da atividade coagulante do veneno de Lachesis muta muta. Relato
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